O meu cartão de cidadão caducou em pleno estado de emergência e o dia que tinha agendado para ir tratar dele ficou sem efeito devido ao confinamento. Recebi uma SMS do Instituto dos Registos e Notariado a dizer, 'se não vai alterar dados e quer renovação imediata do CC, escreva xpto sim, se não quer escreva xpto não'. Escrevi, sim, claro. Recebi outra SMS a dizer que iam enviar um email com os dados de pagamento e assim que o recebessem enviavam uma carta com os códigos de levantamento do novo cartão. Depois só teria que agendar por telefone ou online a data de entrega - dia e hora. Agendei online em dois minutos. Assim foi e hoje, à hora marcada, estava à porta da Loja do Cidadão, chamaram o meu nome e em cinco minutos trouxe o novo cartão. Ainda foi muito mais barato do que costumava ser. É bom quando as coisas funcionam bem e nos poupam tempo e burocracias chatas.
July 27, 2020
Leituras pela manhã - A franqueza como uma virtude essencial
As the Ancient Greeks knew, frankness is an essential virtue
Hartmut Leppin
Em debates públicos, a palavra de um vendedor ambulante deve contar tanto quanto a de um aristocrata bem educado? A democracia clássica ateniense foi baseada nessa premissa. Todo o cidadão ateniense tinha o mesmo direito de falar sobre todos os assuntos discutidos na assembleia popular. Os gregos antigos chamavam-lhe parrhesía, uma palavra baseada nas raízes pas/pan (tudo/toda a gente) e résis (discurso/ palavra). Os defensores da democracia esperavam que a soma das contribuições de muitos indivíduos diferentes levasse à melhor decisão. Mas a história da parrhesía demonstra que essa ainda é uma questão em aberto: se a democracia se deve basear num direito atribuído a todos os cidadãos ou na virtude dos mais instruídos.
Apesar de terem diferentes visões sobre os méritos da democracia, Demóstenes e Platão compartilhavam a convicção de que não bastava alguém dizer algo e que a competência para falar de maneira significativa não devia ser baseada apenas na igualdade, mas estar relacionada com uma autoridade pessoal e intelectual . Com a emergência de grandes estados monárquicos no mundo mediterrâneo desde Alexandre, o Grande (336-323 AEC), as democracias perderam importância. Correspondentemente, a parrhesía transformou-se numa virtude de elite, especialmente de filósofos. É claro que falamos de homens (poucos escritores antigos consideravam as mulheres capazes de agir/falar com parrhesía) que possuíam tanto a capacidade intelectual quanto a autoridade pessoal para usar a parrhesía. Eles podiam fazer isso em público, mas o seu campo principal eram as relações pessoais. Desta maneira, a franqueza tornou-se uma virtude interpessoal.
Muitos aristocratas helenísticos e romanos esforçaram-se por cumprir os ideais filosóficos e o ideal da parrhesía. Permitia a exibição pública de pelo menos duas virtudes filosóficas importantes: coragem e autocontrole. Ao reconhecerem suas falhas, os criticados mostraram que não eram tiranos. Dessa forma, a franqueza também era útil para os repreendidos. Jogavam um jogo parrhesiástico.
Na helenística, os judeus definiram um recurso adicional de parrhesía: a confiança em Deus. O verdadeiro crente era capaz de agir com parrhesía diante de Deus e da humanidade. Os cristãos seguiram essa linha de pensamento. Os mártires serviram de exemplo desse conceito: pronunciaram publicamente as suas convicções sabendo que morreriam por eles. Tendo mostrado parrhesía na vida, compareciam diante de Deus e podiam falar com ele com parrhesía, a fim de salvar as almas de outros cristãos. Tanto da perspectiva judaica quanto da cristã, as mulheres podiam demonstrar essa confiança em Deus da mesma maneira que os homens - um importante afastamento do mundo clássico.
A história da franqueza, no sentido clássico, revela um dilema do papel do discurso público. A liberdade de expressão é um direito civil básico, mas ninguém pode ignorar a facilidade com que esse direito é mal utilizado. A falta de conhecimento e a falta de responsabilidade tornam a liberdade de expressão um direito arriscado. No entanto, mesmo que um falante possua essas qualidades, mesmo que ele ou ela seja ouvido, o jogo parrhesiástico pode começar de novo.
Hoje, uma garota que não sorri e até mostra sinais de evidente sofrimento tornou-se a nossa parrhesiastés mais popular. Greta Thunberg é a contadora da verdade que depende da autoridade do conhecimento científico para nos explicar como decidir sobre o nosso futuro. O poder desse papel na história, nas suas diferentes formas, é certamente uma das razões de seu impacto dramático. No seu papel, no entanto, ela também oferece uma oportunidade para aqueles que ela repreende de encenar a sua disposição de ouvir e aplaudir o rígido crítico, numa longa tradição. Mas este pode ser apenas o primeiro passo.
citação deste dia
Reading makes immigrants of us all. It takes us away from home, but more important, it finds homes for us everywhere. Jean Rhys
July 26, 2020
A persistência da natureza
John Wilkinson
Dali - A Rosa Meditativa
Equívocos e contradições de Fernanda Câncio
Em seguida fala de 'cultura de cancelamento' dando o exemplo da carta assinada pelos 153 intelectuais americanos que terá sido motivada, em sua opinião, pela polémica à volta dos tuítes de J.K. Rowling sobre a expressão, 'pessoas que menstruam' no âmbito de uma campanha de produtos higiénicos (tradicionalmente chamados femininos). Esse é o segundo equívoco de FC porque J.K. Rowling, ao falar acerca do assunto, está a dar voz às pessoas que critica e não a silenciá-las. Ora, a cultura de cancelamento é justamente o oposto: trata-se de silenciar pessoas não lhes dando voz, tirando-lhes a voz ou ignorando-as como se não existissem.
Não estou aqui a concordar ou a discordar da opinião de J.K. Rowling, estou a fazer notar que criticar (entenda-se criticar como um processo analítico) e argumentar são modos de dar aos outros um estatuto de igualdade e por isso a crítica e a argumentação estão presentes em democracia e não em ditaduras.
Cultura de cancelamento era -e ainda é- o que se fazia aos negros e às mulheres e não só, que eram ostracizados e ignorados, quer dizer, nem sequer se lhes reconhecia voz. Como se faz em muitas culturas de modo generalizado.
Ora, J.K. Rowling dá voz aos seus opositores a partir do momento em que os reconhece como interlocutores, mesmo que seja para criticá-los. A reacção dos opositores que se sentiram atingidos não foi a de argumentar e criticar mas de chamar-lhe nomes e peticionar para que fosse ostracizada. Imediatamente apareceram pessoas a dizer que se recusavam a trabalhar com ela ou a participar na edição dos seus livros. Nem um argumento contra, apenas castigo.
Cá em Portugal também se escreveu uma carta aberta a pedir que calassem o André Ventura por ser fascista. Não me lembro de ver FC criticar essa carta como critica esta. Será porque está de acordo com o conteúdo da carta? Esse é o equívoco e a contradição: sermos a favor de cartas abertas que mandam calar alguém de que não gostamos e contra cartas abertas que pedem para que se possa falar do que não gostamos.
Como a FC muito bem sabe, hoje-em-dia o twitter tornou-se uma guilhotina e nos EUA, sobretudo, um professor universitário, um dirigente de uma empresa, um autor, etc, ser acusado de racismo ou homofobia ou machismo, sem um único argumento que seja, dá origem a despedimentos sem apelo nem agravo, porque, felizmente, os que não tinham voz, agora têm, mas, infelizmente, às vezes usam-na exactamente da mesma maneira que os antigos opressores usavam: mandam calar e castigar. Tem havido casos escandalosos. Não me parece que isso seja um benefício social, que melhore o racismo, a homofobia, a transfobia, o machismo ou outro 'ismo' qualquer.
Finalmente, FC admira-se que pessoas que são feministas possam assinar uma carta contra 'oprimidos', em seu entender. De facto, muita gente, e a FC é uma dessas pessoas, pelo que lemos nas suas crónicas de jornal, abstêm-se de criticar as mulheres, sendo mulheres, os gays, sendo gays, os negros, sendo negro, os políticos de esquerda, sendo de esquerda, os partidos de direita, sendo de direita, etc. Para essas pessoas, eu estar aqui a criticar a FC, uma feminista, é um erro. Como nunca devia ter criticado a Lurdes Rodrigues ou esta Ministra da Saúde ou outra qualquer mulher, porque na opinião dessas pessoas, se critico mulheres estou a dar armas ao inimigo, por assim dizer. Só que a mim parecem-me esses serem são maus princípios para se construir uma sociedade mais justa e igualitária e não critico ou elogio pessoas na base do sexo, cor, credo, orientação política, etc.
Liberdade de expressão e de crítica, que estão na base de uma cultura de 'não cancelamento' e não opressão, só se preservam e fortalecem se defendermos regimes políticos que as valorizem, desde logo dando voz às pessoas, dando instrumentos de controlo à oposição, valorizando vozes críticas, dando força à imprensa livre. Não me lembro de uma única vez, sequer, ter lido crónicas de FC a criticar governos que se destacaram na censura de opositores, na tentativa de controlo dos meios de comunicação social, nem sequer me lembro de ler críticas a indivíduos extremamente machistas da esquerda, ou mulheres ministras que usavam do cancelamento para calar tudo e todos. Dir-me-à que nas suas crónicas fala do que quer. Pois, é exactamente isso a liberdade expressão. Não estou de acordo com ela neste aspecto (embora concorde com muitas das suas crónicas) mas defendo o seu direito a falar do que quer, como quer.
No que me diz respeito sou a favor de argumentar e criticar e não de mandar calar. Já me tentaram calar muitas vezes à força, com bullying, com calúnias vergonhosas. Continuei a falar. Nunca na minha vida colaborei para que alguém deixasse de ter voz. De vez em quando tenho alunos muito racistas e machistas. Podia, pura e simplesmente, mandá-los calar e não lhes dar voz, como vejo outros fazerem. Não deixo que ofendam ninguém, mas não os mando calar. Argumento e obrigo-os a argumentar até que não tenham argumentos. E faço isto uma e outra vez com muita paciência e sem me irritar até que são os próprios a reconhecer que não têm razão. Alguns são teimosos e nunca dão o braço a torcer mesmo não tendo argumentos. Não fico a embirrar com eles por causa disso. São fruto de uma educação e sei muito bem não consigo chegar a todos e há quem não goste mim... A diferença entre mim e a FC é que, muito provavelmente, a FC entende que a mera opinião racista ou machista deles já é, por si, ofensiva para essas minorias, e que isso é razão suficiente para os mandar calar. Não é a minha maneira de pensar.
Lembro-me de um deputado do Parlamento Europeu, há pouco tempo, ter defendido no plenário que as mulheres deviam ganhar sempre menos que os homens pela razão de os homens, serem, obviamente, mais inteligentes que as mulheres. Houve logo petições para o destituir, como castigo de ser tão machista e de o PE não querer que se pense que ele é representativo da casa. A questão é que ele é mesmo representativo pois representa todos os que votaram nele. O que é preciso mudar é a mentalidade das pessoas que votam em homens como ele e não cancelá-lo.
Estou convicta que para se mudar as mentalidades de maneira sólida e não provisória, é preciso persistência e resistência, argumentos convincentes, firmeza e coerência, coragem. Acredito na educação como modo de melhorar as sociedades, mas não à força. Pela palavra. É preciso atitude filosófica de distanciamento e paciência para perceber que a sua luta de hoje vai ser aproveitada, não por si, mas pelos que vieram depois. E que até podem deitar tudo a perder.
Fernanda Câncio
...
Há muito me confunde o tipo de raciocínio que combina uma defesa maximalista da liberdade de expressão com a aflição face às reações - também discursivas - de desagrado que certas expressões de liberdade ocasionam. E mais me confunde ainda que quem repita "palavras são só palavras, não são ações", se transtorne com tempestades tuiterianas (a última vez que vi, o Twitter é feito de palavras), protestos vocais ou mesmo apelos a boicote. Raios, isso não é tudo palavras? Tão palavras como dizer que uma mulher trans não é uma mulher, ou que só as mulheres menstruam, e que se menstrua é mulher - o que é afinal uma forma não particularmente subtil de boicotar vários grupos de pessoas, recusando-lhes o direito a definir a sua identidade e, decorrentemente, a, como a minha amiga, entrar numa casa de banho identificada com o género com que se identificam.
Assim, o que Rowling fez, do seu considerável lugar de poder, foi participar no "cancelamento" daqueles grupos de pessoas - grupos de pessoas historicamente perseguidas, anuladas, obliteradas, assassinadas. E o que esta carta faz, ao afirmar que há menos liberdade discursiva e de debate hoje, é fazer de conta que antes não havia grupos inteiros de pessoas "canceladas", sem direito a voz ou a sequer se autonomearem, e que esse cancelamento, derivado de estruturas relacionais de poder que se perpetuam, não continua a subsistir.
Que haja feministas a assinar uma carta na qual se certifica existir menor liberdade de debate porque os historicamente oprimidos e silenciados agora falam, se irritam e contra-atacam, disputando o poder, é mesmo muito deprimente.
Próximo ano lectivo - questões de segurança
As escolas devem ter turmas mais pequenas e mais profissionais, nomeadamente não docentes, defende o Sindicato de Todos os Professores, que vai iniciar uma campanha de sensibilização. “Os professores querem voltar, mas com turmas como até agora é impensável”, referiu o dirigente André Pestana.
1. As máscaras comunitárias, de tecido, são daquelas compradas no chinês sem nenhuma proteção eficaz ou são daquelas MO que se diz terem uma proteção de 99%? É que, se são das primeiras, é o mesmo que darem nada.
2. Três máscaras por período que podem lavar-se até 20 vezes. Calculo que ao fim de terem ido a lavar a 60º, 10 vezes, a protecção já não é de 99% , mas de 50% ou menos - isto para as tais máscaras especiais porque as outras devem ter uma eficácia de 10% e ao fim de 10 lavagens têm protecção zero, ou pior, absorvem tudo o que lá se deposita.
3. Três máscaras por período que podem lavar-se até 20 vezes. Vamos supor que são das tais especiais e que podem mesmo lavar-se 20 vezes sem perder todas as características de protecção. De cada vez que um professor tenha que ir de manhã e depois à tarde à escola (aulas de manhã, reunião à tarde, ou apoio ao estudo à tarde, por exemplo, o que acontece frequentemente à maioria dos professores), ao fim de um mês gastaram-se as lavagens todas das 3 máscaras.
4. Um professor que more em Alcobaça e esteja a dar aulas em Lisboa (para sermos simpáticos) fica na escola todo o dia, não vai almoçar a casa. Logo, não pode andar com a mesma máscara todo o dia. Ao fim de umas horas de estar fechado em salas em sem ar condicionado, cheias de alunos e a falar alto de modo a que os de trás o ouçam, tem a máscara toda encharcada.
5. As máscara laváveis obrigam a uma lavagem a 60º (mínimo) Portanto, todos os dias ou, até, duas vezes por dia, se terá que fazer um ciclo de lavagem a 60%, muitas vezes só com uma máscara lá dentro. Não sei o que sai mais caro...
6. Segundo indicações do SNS,
Os grupos de risco devem usar máscara?
Sim. Todas as pessoas incluídas nos grupos de risco para a COVID-19, são consideradas mais vulneráveis e devem usar máscara cirúrgica sempre que saiam de casa.
Segundo as recomendações da DGS:
Destacando que existem três tipos de máscaras – respiradores, máscaras cirúrgicas e não cirúrgicas/comunitárias -, a governante sublinhou que estas últimas são destinadas à população em geral, pelo que podem ser feitas com diferentes materiais, nomeadamente algodão ou têxtil. “Não se destinam em caso nenhum a ser utilizados por profissionais de saúde ou por pessoas doentes”, advertiu.
“a DGS recomendou a utilização de máscaras cirúrgicas a todos os profissionais de saúde, a pessoas com sintomas respiratórios e a pessoas que entrem em instituições de saúde”. Por outro lado, prosseguiu, a DGS “também recomendou a utilização de máscaras cirúrgicas a pessoas mais vulneráveis, nomeadamente a idosos com mais de 65 anos, com doenças crónicas e em estados de imunossupressão”.
Portanto, a todas as pessoas que caibam nesta categorização vão ser dadas máscaras comunitárias, como se não fizessem parte de grupos de risco? Ou o ME vai dizer, 'não quero saber, metam baixa que até é uma maneira de pouparmos dinheiro à vossa conta?'
7. Faço parte do grupo de risco por mais de uma razão: sou doente oncológica, a doença em questão é respiratória e sou imunodeprimida e não fui à escola dar aulas no 3º período - por sorte tinha só 10ºs anos e 12º com uma disciplina sem exame.
Falei com vários colegas que estiveram a trabalhar no 3º período, nestas condições de estarem todos separados e com horários desencontrados, dado só estarem na escola turmas do 11º e 12º anos e só nas disciplinas com exame que são poucas.
Disseram-me que mesmo assim, com poucos alunos, é difícil estar a falar com máscara e ser ouvido por todos e que rapidamente a máscara começa a ficar húmida com as salas quentes como são. As pessoas não têm ideia: eu saio sempre a suar das aulas, mesmo nos meses de Inverno.
Alguns disseram-me que a maneira de trabalhar melhor é levar máscara e viseira. Estar perto do quadro e ter a primeira linha de mesas a dois metros de distância. Enquanto se está ali perto do quadro ou da secretária (longe dos alunos) tirar a máscara e deixar só a viseira para se poder ser percebido por todos. Sempre que se aproxima das mesas dos alunos pôr a máscara e deixar a viseira. Ter um desinfetante para as mãos e usá-lo muitas vezes durante a aula. Um problema é quando os alunos têm que ir ao quadro, ou apresentar trabalhos e ficam ali perto dos professores, escrevem com as nossas canetas de quadro, usam o computador para projectar imagens nas apresentações, põem cadernos e outros objectos na nossa secretária, espirram, engasgam-se, tossem a falar do nervoso... Se os quadros são de giz, espirrar e tossir é quase obrigatório... Depois os próprios alunos quando intervêm, se estão nas últimas mesas não se ouvem cá à frente, de modo que têm que tirar a máscara.
E isto eram alunos mais velhos e não do básico. As coisas dentro de uma sala de aula são muito complicadas. Não são nada do que as pessoas imaginam que é estarem todos sossegadinhos enquanto um professor fala.
8. Se as turmas não podem ser diminuídas em número de alunos de modo que cada aluno fique sozinho numa mesa, não vamos poder aproximarmos-nos dos alunos como fazemos frequentemente quando fazem trabalhou ou exercícios, por exemplo, em que vamos de mesa em mesa e paramos e estamos ali em cima dos alunos, pois dois por mesa numa sala pequena, fazem com que se tenha dificuldade até em passar por entre as mesas de tal maneira está tudo apertado- eu ando, muitas vezes, com um banco atrás e sento-me do outro lado da mesa deles e vejo o que estão a escrever, explico o que está bem e o que não está bem e porquê, espero que corrijam, volto a ler, eles aproveitam para tirar dúvidas, etc. Fico ali sentada com eles uns 5 minutos a falarmos uns em cima dos outros, até ver que estão orientados e depois passo a outra mesa.
Se estiver um aluno por mesa, podemos aproximar da mesa pelo lado mais distante do aluno, mas estando dois a dois, não há lado mais distante dos alunos e todo o trabalho que se faz individualmente deixa de poder fazer-se.
Sei que há escolas que fizeram todas as turmas com um máximo de 20 alunos para caberem um por mesa nas salas, o que quer dizer que tiveram autorização para isso. Espero que as outras também tenham.
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As salas de aula são espaços dinâmicos com muitas crianças ou adolescentes activos. No 1º ciclo e até ao 6º ano, então, calculo que as salas sejam difíceis de gerir porque os miúdos essa idade têm muita energia para gastar e não param quietos. E mesmo nos anos a seguir, até ao final do 10º ano, são muito irrequietos. Não se imagine que as salas de aula são uma missa onde os fiéis se mantêm em silêncio e imóveis a ouvir o padre cura. Nos intervalos, à hora de entrada e de saída, uma escola parece mais uma praia da Caparica em pleno Verão.
As pessoas que fazem estas normas para as escolas são pessoas habituadas a trabalhar em salas de edifícios com todas as condições, ou até palácios com pouca gente, adultos, devidamente distanciados, com ar condicionado, etc. e não têm noção do que é o trabalho numa escola, porque lá andaram como alunos e a visão que construíram é a da sua experiência subjectiva de miúdos. A maioria dos adultos que conheço tem má impressão da escola e dão como exemplo 1 professor que não gostaram ou que era antipático e 1 outro que não sabia muito do que ensinava. Ficaram cristalizados nessa subjectividade.
Ainda esta semana ouvi o secretário de Estado dizer que muitos professores encaram a avaliação como punição para os alunos e deu como exemplo um professor que disse, 'se não se portam bem faço-vos um teste surpresa'. Fiquei chocada. Nunca nestes 33 ou 34 anos de trabalho ouvi um único colega dizer que ia castigar os alunos com avaliações ou falar das avaliações como um castigo. O que muitos ainda defendem é que, sem avaliações para pressioná-los a maioria dos alunos nunca estudaria, o que não estou de acordo mas, usar a avaliação como punição foi coisa que nunca presenciei nestes anos todos nem nunca nenhum aluno se me queixou de tal coisa. Por conseguinte, os adultos, mesmo os que têm responsabilidades políticas na governação têm uma ideia errada, preconceituosa e imaginária da escola e do nosso trabalho enquanto professores, a partir de experiências subjectivas negativas que tiveram e fazem normas baseadas nessas cristalizações.
Enfim, estas foram as dúvidas que, assim de imediato, me surgiram ao ler esta notícia.
Como diz André Pestana do S.T.O.P., nós professores, queremos voltar a dar aulas, na escola, não em casa. Este final de ano lectivo foi uma remediação, uma experiência que não foi mais negativa porque durou dois meses e não um ano lectivo inteiro. No entanto, precisamos de saber, ao voltar à escola, que as condições são de segurança e de risco mínimo (sabendo que risco, há sempre algum) e não de falta de segurança e risco máximo.
July 25, 2020
Um filme sobre... luz
Uma pintora no início de carreira, filha de pais artistas, desassossegada e à procura de inspiração que lhe abra um caminho, a viver em NY num espaço exíguo (um apartamento Mondrian, como ela diz) no meio de uma família agitada, vai para o Norte da Noruega, para uma ilha, trabalhar como assistente de um artista que tem uma obra para acabar - um celeiro que quer pintar todo em tons de amarelo, por dentro e por fora.
A rapariga traduz tudo o que vê em paletas de cor, figuras e texturas de pinturas conhecidas. É assim que vê uma mulher que trabalha no supermercado lá do sítio e se sente inspirada para pintá-la - lembra-lhe os anjos renascentistas.
O cenário do filme são aquelas paisagens enormes, cheias de força e, ao mesmo tempo, silêncio, dos sítios muito a Norte, onde não mora quase ninguém. Uma simplicidade e um despojamento inspiradores, contrastante com as emoções humanas.
Tem cenas belíssimas. Quando a rapariga do supermercado entra dentro da caravana onde ela dorme e pinta nas horas vagas e se despe. O corpo dela extravasa aquele espaço exíguo e um bocado caótico, é radiante e real e parece, só por si mesmo, uma pintura. Há uma frase no filme em que ela diz que quando olhamos para a natureza percebemos que não lhe acrescentamos nada. Só temos que estar aí. Outra cena belíssima é quando o celeiro fica acabado e tiram os plásticos e ela está dentro do celeiro e parece estar-se num dia de sol quente e radioso no sul da Europa e não naquela paisagem sempre parda, por causa da reflexão da luz que entra pelos interstícios da madeira e se projecta nos tons amarelos.
Um filme sobre encontrar sentido, encontrar um olhar próprio, ver as pessoas na sua naturalidade, ultrapassar o desassossego da dispersão, da confusão, sobre encontrar paz. Um filme sobre a luz que irradia das coisas e das pessoas.
Um daqueles filmes que, tal como uma pintura ou uma poesia, pode ver-se muitas vezes sem nos cansarmos.
(o trailer não mostra nada do filme)
25 de Julho - dia do aniversário de Dom Afonso Henriques, dia da batalha de Ourique e dia de São Tiago 'matamouros'
Segundo a tradição, São Tiago veio evangelizar a Península Ibérica. Tendo fracassado, voltou a Jerusalém, onde foi martirizado. Diz a tradição que foi por isso que os seus restos mortais foram transportados para a Galiza e sepultados em Compostela, onde permanecem na Catedral de Santiago de Compostela, atraindo peregrinos de todo o mundo para fazer o famoso Caminho de São Tiago. Segundo um relato da ordem do mito, também, São Tiago teve uma intervenção fundamental na Reconquista da Península Ibérica, tendo sido declarado protector dos seus reinos: é a história de Santiago Matamoros.
Um dos episódios da mitologia de Santiago Matamoros ocorreu em 1139 na batalha de Ourique, que até aos dias de hoje ninguém sabe ao certo onde foi: Vila de Ourique no Baixo Alentejo? Campo de Ourique em Campolide, Lisboa? Vila Chã de Ourique, no Cartaxo? Chão de Ourique, em Penela, Coimbra? Campo de Ourique, no concelho de Leiria? Enfim, nessa data em que Dom Afonso Henriques derrotou os exércitos mouros, em muito maior núermo, comandados por Ali Ibn Yusuf, diz a tradição que a vitória terá tido a intervenção divina de Cristo que apareceu ao futuro rei, justamente no dia da festa litúrgica de Santiago Matamouros.
*O calendário litúrgico da Igreja Católica no dia 25 de julho celebra a festa São Tiago Maior, o apóstolo, filho de Zebedeu e irmão de São João, o evangelista. Foi um dos discípulos mais próximos de Jesus Cristo É o único apóstolo cujo martírio foi relatado na Bíblia, na qual é narrado que o rei Herodes Agripa I (10 AEC - 44 DEC) “mandou matar à espada Tiago, irmão de João”.
A devoção a Santiago entende-se no contexto da invasão muçulmana da Península - "Na batalha de Clavijo, em 834, o rei Ramiro I, de Aragão, no momento mais difícil do combate, viu-se ajudado por um desconhecido ginete montado num cavalo branco que dava espadagadas na mourama. Sentiu que tinha a seu lado o Apóstolo, desde então transformado em Santiago Matamouros, aparição fundamental na vitória contra o emir Abderraban II."
A devoção a Santiago Matamouros pode ler-se aqui, muito bem contada e ilustrada.
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Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
D’além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno.
(...)
"Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
(...)
"Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos imigos, gritando o céu tocavam,
Dizendo em alta voz: — "Real, real,
Por Afonso alto Rei de Portugal."
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O acontecimento foi cantado por Luís de Camões nos Lusíadas (1572):
Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
D’além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno.
"Em nenhuma outra cousa confiado,
Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo batizado,
Que para um só cem Mouros haveria.
Senão no sumo Deus, que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo batizado,
Que para um só cem Mouros haveria.
(...)
"Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos exprimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
(...)
"A matutina luz serena e fria,
As estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando quem lhe aparecia,
Na Fé todo inflamado assim gritava:
— "Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
E não a mim, que creio o que podeis!"
As estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando quem lhe aparecia,
Na Fé todo inflamado assim gritava:
— "Aos infiéis, Senhor, aos infiéis,
E não a mim, que creio o que podeis!"
"Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos imigos, gritando o céu tocavam,
Dizendo em alta voz: — "Real, real,
Por Afonso alto Rei de Portugal."
A batalha de Ourique está representada nos azulejos, Dom Afonso Henriques na Batalha de Ourique (1933) de Jorge Colaço.
Melhor que ser político só mesmo ser amigalhaço de político
Costa Silva não tem dúvidas, no entanto, de que um dos problemas de Portugal é ter “muitos eus” e “poucos nós” e que isso é uma dificuldade na altura de fazer reformas.
Isto, dito por uma pessoa que não tem problemas em assumir sozinho substituir-se a 10 milhões de cidadãos com um governo gigantesco eleito, com uma administração pública cheia de especialistas e por aí fora... eu, eu, eu...
Esta entrevista é um desfiar de slogans e conversa de café, mais frases repetidas milhares de vezes pelos políticos, como num exercício de retórica eleitoralista, mas má:
Precisamos de uma visão estratégica, senão estamos sempre a reagir e é muito fácil sermos dirigidos pelos acontecimentos em vez de os dirigirmos. Há sempre aquele pensamento do filósofo Séneca: quando o navio não sabe o seu destino, todos os ventos podem ser favoráveis ou desfavoráveis.Mas esse é um dos grandes problemas das nossas democracias, que não estão preparadas para desenvolver projetos a longo prazo: são baseadas nos ciclos eleitorais, têm de responder aos eleitorados, têm de se confrontar com os problemas quotidianos, têm a pressão imensa da galáxia dos meios de comunicação social, que faz bem o escrutínio. Temo que haja sempre uma reatividade ao presente e nunca um olhar para o futuro.
Na opinião deste sujeito, um dos problemas da democracia é terem de prestar contas e resolver os problemas das pessoas. Isso para mim são virtudes da democracia, não problemas.
Proponho que, quando há vários organismos envolvidos, haja um interlocutor único do Estado com as empresas. Uma espécie de loja do cidadão para as empresas. Se vamos ter os fundos e vamos manter este registo, uma administração pública que não responde na hora e está viciada em dar pareceres muito reativos e defensivos... É preciso mudar o paradigma em que nos movemos. Isso é decisivo para aplicar pelo menos alguns passos do plano.Pois, venha daí um super-ministro com controlo total para as decisões não serem partilhadas e ser tudo, eu, eu, eu e como a administração pública não responde na hora, tira-se-lhe o tapete. Se calhar não responde na hora porque os gabinetes estão cheios de filhos do pai e da mãe mais pagamentos de votos em forma humana a substituir os funcionários de carreira que lá estavam.
Trabalhei muito de perto com o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, e não há dúvida que tem uma visão importante para o futuro. Há muitos outros que podia citar, mas numa equipa é sempre como numa equipa de futebol: há os que defendem, os que atacam, os que visualizam o jogo, os que marcam golos...Mais conversa de café com bola à mistura.A única coisa que digo é que estou genuinamente preocupado. Olho para a economia portuguesa e é uma devastação impressionante, mas também uma grande capacidade de respostaMais conversa de café...Não sou favorável a despejar dinheiro em cima dos problemas, mas temos certas empresas que são absolutamente estratégicas para o futuro, como a Efacec.De repente a Efacec é o alfa e o omega do país...Sim, é importante termos uma empresa como a TAP. Mas o paradigma vai ter de mudar muito.
Uma das coisas que me preocupa é que a UE prepara-se para proibir voos até 600 quilómetros e já se discute até 1000 quilómetros. Por isso defendo a alta velocidade entre Lisboa e Porto.Mais conversa de café, aqui para defender o TGV.Sim. O país pertence a todos, o PSD é um grande partido da democracia portuguesa... Todos têm de se envolver no projeto, discutir, pôr as suas ideias... Não me compete, mas acho que estes planos só funcionam se houver uma grande convergência nacional. O papel dos partidos é absolutamente indispensável. Amanhã os ciclos políticos alteram-se e uma das coisas muito graves é que de cada vez que há uma alteração do ciclo político recomeça-se quase do zero.Deixa-me rir... isto dito por um fulano que se gaba de sozinho ter feiro 'o' plano estratégico do país e depois de feito é que foi ter umas conversas com uns ministros para não parecer mal.
Com questões como os incentivos às empresas, há margem para os partidos à esquerda também entrarem nessa convergência?Isso é sempre a dificuldade da política... O que me foi pedido foi o que vamos fazer no day after, não como o vamos fazer. Essa parte compete ao Governo e aos partidos.Portanto ele tem um plano desligado da realidade do país, nem quer saber disso para nada... meu deus...Se daqui a dez anos pudermos dizer que construímos a rede ferroviária, ligá-la a Espanha e à Europa, apostámos nos nossos portos e digitalizámo-los, apostámos na requalificação das pessoas, fizemos a transição digital pelo menos na administração pública, continuámos a investir na ciência e tecnologia e ainda fizemos a reconversão industrial, penso que aí poderemos dizer que fizemos alguma coisa. Se daqui a dez anos continuarmos a discutir para onde vai o país, aí a nossa história é trágica e irresolúvel.Repete os lugares comuns que outros já repetiram um milhão de vezes... Pergunta: este sujeito recebeu dinheiro por fazer este 'plano'? Se sim, quanto? Gostava de saber.Chegou a reunir com Mário Centeno?
Estava previsto, mas infelizmente saiu do Governo. Mas tive já muitas interações com o novo ministro das Finanças.Já teve interacções como o novo ministro? Interacções? Que quer isto dizer? Foram jogar ténis?Guardo conversas extraordinárias, umas muito boas, outras menos boas. O que vos posso dizer é que vivemos num país que é pequeno mas muito complicado. Somos um país de muitos eus e pouco nós. E temos eus muito insuflados, sabe? Se as pessoas fossem mais modestas, humildes e colaborativas, podíamos mudar completamente a nossa história. Somos excecionais na anormalidade e medíocres na normalidade. Quando a crise passar, cada um vai ficar nas suas torres de marfim e vai-se dialogar pouco. Assim não vamos a lado nenhum.Este excerto até assusta. Um sujeito, porque fez dinheiro a gerir empresa de petróleo, acha que está, sozinho, capacitado para resolver os problemas do país, mas diz que os outros é que são pouco humildes e insuflados e não colaboram...? Isto é uma conversa da treta com frases sem significado nenhum como dizer que Somos excecionais na anormalidade e medíocres na normalidade. Que parvoíce de frase inconsequente...Há dois tipos de pessoas no nosso país: as que estão apaixonadas pelo nosso país, que não desistem, e depois as que estão extremamente amargas.Mais conversa de treta... se calhar as amargas são o povo todo que come com as vossas políticas financeiras e económicas desastrosas, cujos lucros encaixam e os custos endossam ao povo.Onde fica o PM nessa escala?
... é o nosso referencial.
'O nosso...?' Ainda agora começou a falar publicamente e já fala por todos nós?
Mais conversa de café, para não dizer que é uma conversa podre e que cheira mal, já defendida pelo Pedro Passos Coelho, pelo Vitor Gaspar e pelo Costascenteno. O grande plano dele, no fim, vai dar ao esmo que os outros: austeridade para o povo.
Acredita que é possível sair desta fase sem austeridade?
A palavra austeridade está um bocado inquinada no debate político em Portugal. Se for no sentido de termos contas públicas absolutamente controladas, eficiência nos gastos, redução de gorduras e más aplicações de dinheiros públicos, sermos absolutamente inflexíveis no seu controlo... se isso é austeridade, é necessária austeridade.
"Já teremos percebido realmente que o que nos salvou no turismo não foi o preço nem os aeroportos, mas um território ainda minimamente preservado?"
Daniel Deusdado
... quando aterramos no Plano de António Costa e Silva, apresentado esta semana, percebe-se como este futuro não assenta numa base mais realista do Portugal que permanece desconhecido, pouco formado e sem ferramentas básicas para ir mais longe.
Um pequeno exemplo do Plano Costa e Silva: vamos finalmente usar a limpeza dos matos para alimentar a produção de energia por biomassa, diz-se no documento. Bom, ótimo. Há 20 anos que existe essa ideia. Mas recorde-se que as centrais de biomassa se tornaram num embuste gigantesco de uso de subsídios baseados em "energia verde" que, na verdade, passaram a aumentar o problema da floresta. Ou seja, a destinar madeira (dos incêndios, por exemplo, e não o mato) para os fornos de produção elétrica.
Qualquer pessoa que conheça a floresta sabe que é pouco rentável andar a limpar mato para o vender, porque a mão-de-obra é cara e o mato gera um enorme volume (e não peso) que torna o transporte dispendioso. Resultado: incentivar centrais de biomassa de árvores estimula mais incêndios criminosos.
Outra questão difícil deste novo plano: alta velocidade. Estive em Sevilha em 1992 aquando da chegada dos primeiros comboios de Alta Velocidade entre Madrid e a capital da Andaluzia. Portugal perdeu absurdamente 30 anos face a Espanha e 50 face a França. Acrescento que nos últimos 20 anos escrevi sempre a favor de ligações ferroviárias rápidas entre Lisboa-Porto ou, idealmente, entre Braga-Faro e sobretudo numa bitola europeia onde pudessem existir comboios de mercadorias. Mas neste momento, olhando para a crise do TGV em França, pergunto: que comboio queremos para essas linhas de bitola europeia? Não pode ser nada de parecido. Há inúmeras tecnologias a surgir. Ainda fará sentido quando estiver concluído, em 2030?
Anedoticamente, ainda não conseguimos ter uma rede fiável, de voz e de dados, no comboio Alfa entre as duas maiores cidades.
Um caso pior: novo aeroporto de Lisboa. A ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, disse algo que deve ter deixado o Governo de cabelos em pé: o aeroporto de Beja pode ser ligado a Lisboa por ferroviária rápida e assim evitar a construção do Montijo. Sensato.
Ora, como pode alguém do Governo ter dito algo tão desalinhado da versão oficial? Bom, na verdade, Ana Abrunhosa conhece bem o país e o custo do dinheiro. Foi presidente da Comissão de Coordenação da Região Centro, teve a responsabilidade do controlo de fundos comunitários aplicados em muitas indústrias essenciais para o país, e ainda teve de gerir algumas das ações dos pós-incêndios de Pedrogão/Castanheira de Pêra e do pinhal de Leiria (15 de Outubro de 2017). Só uma pessoa que percebe os dilemas do mundo real pode ter esta visão. Mas alguém quererá saber do que ela disse?
Anedoticamente, ainda não conseguimos ter uma rede fiável, de voz e de dados, no comboio Alfa entre as duas maiores cidades.
Um caso pior: novo aeroporto de Lisboa. A ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, disse algo que deve ter deixado o Governo de cabelos em pé: o aeroporto de Beja pode ser ligado a Lisboa por ferroviária rápida e assim evitar a construção do Montijo. Sensato.
Ora, como pode alguém do Governo ter dito algo tão desalinhado da versão oficial? Bom, na verdade, Ana Abrunhosa conhece bem o país e o custo do dinheiro. Foi presidente da Comissão de Coordenação da Região Centro, teve a responsabilidade do controlo de fundos comunitários aplicados em muitas indústrias essenciais para o país, e ainda teve de gerir algumas das ações dos pós-incêndios de Pedrogão/Castanheira de Pêra e do pinhal de Leiria (15 de Outubro de 2017). Só uma pessoa que percebe os dilemas do mundo real pode ter esta visão. Mas alguém quererá saber do que ela disse?
(...)
A apresentação da "Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030" aconteceu no mesmo dia que o primeiro-ministro conseguiu um resultado muito bom na cimeira de Bruxelas. Mas isto tem de ser apenas o princípio de uma visão. A tecnologia de "gastar o dinheiro comunitário" é a mesma de há 30 anos e só a super-elite dos fundos tem razões para celebrar. Para assim não ser, "Portugal 2030" tem de incluir gente de mais gerações, vozes das empresas do Norte e Centro que suportam as exportações portuguesas, mas também gente da filosofia ou da sociologia, por exemplo. Os engenheiros e economistas não podem ficar, de novo, sozinhos a desenhar o futuro.
O novo funcionamento dos partidos políticos
RIO ENVIA E-MAIL A JUSTIFICAR QUINZENAIS
Assinalando o fim da sessão legislativa, o líder do PSD enviou um e-mail aos seus deputados a defender a justeza do fim dos debates quinzenais e a elogiar a unidade da bancada. “Poderíamos descansar à sombra do politicamente correto, mas essa nunca foi a minha postura na política.” (Expresso)
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Em apenas quatro linhas ficámos a saber tudo sobre o novo modo de funcionamento dos partidos políticos: o chefe decide sozinho, ou com alguns amigos, gente do dinheiro e das finanças, por exemplo e depois manda um recadinho aos deputados a instruir como devem votar - se o caso for muito polémico, junta duas linhas a dizer, usando o plural majestático, pese embora a decisão tenha sido unilateral, que ele é que sabe e que assim é melhor, porque não querem ser politicamente correctos. Faz lembrar aquele senhor que vem à TV explicar ao povo 'coisas' do coronavirus e que diz, 'vou explicar mas vocês não devem perceber porque é complicado, mas confiem em mim que eu percebo tudo'.
July 24, 2020
Picture this
Este miúdo que nem chega com os pés aos pedais, a tocar desta maneira, fez-me lembrar umas palavras de Mary Midgley
"(..), any explanation [of human behavior] that invoked culture, however vague, abstract, far-fetched, infertile and implausible, tended to be readily accepted, while any explanation in terms of innate tendencies, however careful, rigorous, well-documented, limited and specific tended to be ignored.
In animal psychology, however, the opposite situation reigned. Here, what was taboo was the range of concepts that describes the conscious, cognitive side of experience.
The preferred, safe kind of explanation here derived from ideas of innate programming and mechanical conditioning. If anything cognitive was mentioned, standards of rigour at once soared into a stratosphere where few arguments could hope to follow."
O PS a putinizar-se
É claro que a ideia não é da fulana. O PS está a ficar muito perigoso para a democracia, não só pelas tendência de autoritarismo e controlo total como por ser uma porta escancarada para que os descontentes se voltem para o Chega.
E o que fazem os partidos da oposição? Continuam a acarneirar-se?
Governo quer ver a sociedade civil representada na Ordem dos Médicos e desafia parlamento
Marta Temido sugere que seja alterado o estatuto da Ordem dos Médicos.
O governo desafia o parlamento a avançar com alterações ao estatuto da Ordem dos Médicos. A sugestão foi feita pela ministra da Saúde, esta quarta-feira no Parlamento. Marta Temido quer garantir uma melhor supervisão e pede que elementos da sociedade civil possam estar representados na Ordem dos Médicos.
Governo quer ver a sociedade civil representada na Ordem dos Médicos e desafia parlamento
Marta Temido sugere que seja alterado o estatuto da Ordem dos Médicos.
Varoufakis - acerca do acordo europeu de fundos coronavirus
First, the recovery fund is a distraction from the elephant in the room: massive austerity. According to the International Monetary Fund, the eurozone’s total 2020 income will fall by 10%, causing an average budget deficit of more than 11%, with weaker countries such as Italy and Greece facing a much larger drop.
That would not be catastrophic per se, if it were not for the determination of Berlin and other governments to push member states to balance their books by 2021 (as witnessed by the 11 June Eurogroup communique). Even if the nascent recovery brings down, for example, Italy’s budget deficit to, say, 9%, to balance its books Rome must impose a cruel level of austerity equal to a new 9% of GDP in cuts and taxes. Similarly with Greece. Given that even Germany will have to practise austerity to balance its budget, the whole continent will be treated to an intensification of the doom loop between austerity and recession.
Second, the recovery fund is (macroeconomically) puny. For it to defend the union, it should pack a fiscal boost comparable in magnitude to the austerity tsunami down the line. It does not. Take Italy and Greece again, countries that must face down immense austerity. How much of this shock can the recovery fund monies help absorb? Not a lot, is the answer.
To arrive at a precise answer, we must first ignore the new loans on offer from the recovery fund (since new debt has never helped the insolvent) and concentrate exclusively on net grants. Italy has been allocated around €80bn and Greece €23bn. However, every member state must take on part of the new €750bn EU debt. Italy, for example, is liable for just under 13% of this debt while poorer Greece is liable for 1.4%. Once we subtract these new debts, Italy’s and Greece’s net grants come to just over €30bn and €12bn respectively – or 0.6% and 2% of GDP on an annual basis between 2021 and 2023. Compared to the prospect of austerity equivalent to 9% of GDP, which will be required to balance their budgets, these are puny sums.
Third, the political conditions under which the funds will flow are a Eurosceptic’s dream. When a recession hits the UK, the government’s budget deficit rises automatically as benefits flow disproportionately towards the most affected regions. The beauty of such a proper fiscal union is that no politician can decide which region gets which transfer. Imagine the sheer awfulness if parliament had to debate how much would be transferred to Cumbria, to Norfolk or to north Wales from Surrey, Sussex and west London. Britain would be wrecked by divisions that make Brexit look like an amicable affair. And yet this divisiveness has been baked into the EU recovery fund, complete with country allocations drawn up even before we know the effects of the recession on each region. It is almost as if the whole thing were designed by a cunning Eurosceptic.
As if that were not enough, our great and good leaders also decided that each national government will have the right to freeze payments, for up to three months, to any other government while it scrutinises how the money is to be spent. Endless recriminations are guaranteed, as the Dutch lambast the Italian government’s pension payments and Rome returns the favour with reports on the Netherlands’ famous tax loopholes. Imagine the mood in the room when such a challenge is made to, say, Spain, by a prime minister whose government the EU bribed, in the form of Thatcher-like rebates, to get the recovery fund across the line.
Optimists claim that, despite the clumsiness of the redistribution mechanism and its macroeconomic insignificance, the new common debt is creating facts on the ground; that it constitutes a decisive first step towards a proper federation. This is the familiar argument that Europe is moving in the right direction glacially until, when we least expect it, it leaps. Juxtaposed against this happy narrative is my hunch that we are moving in the opposite direction, toward disintegration.
Whether I am wrong (as I hope I am) or not will hinge on whether, by next year, a majority of Europeans feel that the recovery fund helped them recover. If they do, maybe the EU’s common debt can prove itself a harbinger of shared prosperity. For my part, however hard I try, I cannot see how this might be possible.
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