Dois mitos interligados, sendo o segundo uma consequência do primeiro.
Mito nº 1 - Cada criança/adolescente aprende à sua maneira e o professor tem de ensinar de maneira diferenciada de acordo com as diferenças de cada um.
Mito nº 2 - O professor tem de fazer o currículo ir ao encontro do aluno.
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Mito nº 1
As pessoas não aprendem, cada um à sua maneira. Somos seres biológicos com as mesmas estruturas cerebrais (cortex visual, pré-frontal, somatossensorial, etc.) que funcionam mais ou menos da mesma maneira, com os mesmos padrões e que progridem mais ou menos do mesmo modo.
O que torna a aprendizagem diferente é a experiência de vida e o lugar em que cada um está no desenvolvimento. Há crianças e adolescentes mais maduros e desenvolvidos e outros mais lentos. Por exemplo, a criança na 3ª classe já está plenamente no estádio das operações concretas ou está a entrar nele? Aos 14 anos já consegue mover-se com alguma facilidade no pensamento abstracto?
Da minha experiência, é comum alunos entrarem no 10º ano muito novos, com 14 anos, ainda sem essa capacidade de entreterem hipóteses abstractas na sua mente, enquanto outros na mesma turma, já plenamente nos 15 anos a caminho dos 16, já o fazem com muito à-vontade (penso que só em casos excepcionais de crianças muito precoces se deve deixar entrar alunos muito cedo para a 1ª classe). Depois, acontece os alunos não terem tido professor e estarem atrasados nos conhecimentos (hoje-em-dia são raros os que não passaram por isso) ou terem entrado na turma a meio do ano ou os pais marcarem férias para a semana dos exames e os filhos faltarem (sim, acontece com alguma frequência).
Portanto, os alunos têm duas ou três maneiras de aprender: uns são mais extrovertidos e precisam de mais interacção, outros mais introvertidos e precisam de mais tempo de processamento interno, uns (poucos) são mais analíticos, outros (a maioria) são mais descritivos e precisam de muitas aplicações práticas, uns são mais metódicos, outros são desorganizados.
Agora, todos aprendem melhor se houver silêncio e concentração na sala de aula, se o professor explica exemplificando e aplicando, se o professor enraizar as aprendizagens numa contextualização, com exemplos e aplicações práticas, se os conteúdos vão sendo regurgitados e introduzidos nos novos temas, etc.
A narrativa dos pseudo-pedagogos e dos governos de que cada aluno é totalmente diferente e aprende de modo totalmente diferente e que os professores dentro da sala de aula devem ensinar cada aluno de maneira diferente, embora todos ao mesmo tempo, não só é falsa como absurda, da ordem do pensamento mágico.
Imagine-se um professor a ensinar uma turma ao mesmo tempo que não ensina a turma mas cada aluno individualmente; ao mesmo tempo ser muito concreto e muito abstracto; ao mesmo tempo ser interactivo e pouco interactivo; ao mesmo tempo ser sintético e analítico. Um professor ensinar uma turma de 30 alunos ao mesmo tempo mas não ensinar uma turma de 30 alunos ao mesmo tempo e em vez disso ensinar 30 alunos individualmente, como um explicador; um professor que prepara 30 planos de aula diferentes para cada aula, um para cada aluno.
Os (i)responsáveis dizem cada barbaridade...
O que fazem os professores é ir ajustando o ensino de maneira a homogeneizar mais ou menos a turma, tendo o cuidado de ter alimento preparado para os que estão muito avançados, para que não atrofiem as suas potencialidades. Quanto aos que estão muito atrasados, se for uma questão de desenvolvimento cognitivo, psicossocial, a única coisa a fazer é ir insistindo até que dêem o salto, mas se for o caso de terem grandes falhas nos conhecimentos por falta de professor ou por nunca terem estudado (as situações cada vez mais vulgares), não é possível o professor colmatar isso na aula. Não é possível o professor no 10º ano parar as aulas para explicar a esses alunos o que é a regra de três simples ou ensiná-los a escrever. Para isso tem de haver uma margem de professores que tenha horas no seu horário, para dar explicações a esses alunos, individualmente ou em pequenos grupos idênticos. No passado havia sempre professores efectivos nas escolas que tinham horários com algumas horas dedicadas a esse trabalho. Agora não há professores para as aulas com as turmas, quanto mais para dar apoios/explicações.
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Mito nº 2 - O professor tem de fazer o currículo ir ao encontro do aluno.
O professor tem de trabalhar o programa e o programa tem conteúdos e objectivos. Se o professor vai ao encontro dos alunos, em vez dos alunos mais fracos evoluírem e atingirem o nível de metas do programa, o que acontece é a adulteração do currículo, a inflação das notas que deixam de corresponder à apropriação dos conteúdos e técnicas do currículo (é um problema em todo o mundo ocidental já objecto de muitos estudos) e até, eventualmente, a descida de nível dos outros alunos da turma.
As pessoas que dizem estas barbaridades não sabem o lugar em que os alunos estão e o que implica 'ir ao encontro dos alunos'.
Portanto, o que deve acontecer, mais uma vez, é investir na carreira dos professores, para que haja professores com horas disponíveis para dar apoios/explicações, aos alunos que estão muito atrasados.
Tudo o que é bom e de qualidade custa dinheiro. Se querem um orçamento de pobrezinhos para a educação e se querem professores precários e tarefeiros para poupar dinheiro, depois o que têm é uma educação pobrezinha de pobrezinhos.