O fim da leitura? Uma sociedade pós-letrada em formaçãoO que acontece a uma cultura quando a leitura deixa de ser o seu quadro epistemológico privilegiado — quando a longa passagem da oralidade e do logocentrismo, através do grafocentrismo, dá lugar a uma condição pós-grafocêntrica, na qual a IA já não se limita a ler textos, mas participa na sua produção, transformação e circulação?
A questão aponta para algo mais consequente do que um simples declínio da leitura de livros. Poderá estar a assinalar um afastamento gradual da organização grafocêntrica do conhecimento — isto é, da valorização privilegiada da escrita, da inscrição e da textualidade — sem que haja, em contrapartida, um regresso à valorização logocêntrica da fala, da presença e da imediatez da palavra oral. A trajectória, portanto, não é simplesmente uma passagem do oral para o letrado e do letrado para o pós-letrado. O que poderá estar a emergir é uma configuração comunicativa na qual nem a escrita nem a fala ocupam um centro epistemológico incontestado.
O artigo de Rose Horowitch, «The End of Reading Is Here» («O fim da leitura chegou»), publicado na The Atlantic a 8 de Julho de 2026, confere a esta questão uma urgência particularmente actual. Horowitch argumenta que o declínio da leitura prolongada poderá assinalar o surgimento de uma sociedade pós-letrada, alargando a sua preocupação para além da diminuição da leitura de livros e abrangendo o enfraquecimento dos hábitos associados à leitura sustentada: a atenção, a concentração, o raciocínio sequencial e a disposição para permanecer tempo suficiente perante um texto para que a sua complexidade se torne evidente. A substituição dos livros pelos smartphones, pelos vídeos de curta duração e pelas redes sociais poderá, consequentemente, representar uma reconfiguração da relação entre os seres humanos e a linguagem escrita.
No entanto, o diagnóstico de Horowitch deixa em aberto uma questão mais profunda. Se a leitura está a perder a sua posição cultural privilegiada, estaremos a assistir à substituição da literacia por uma condição pós-letrada ou ao surgimento de uma nova interface na qual a literacia sobrevive a par de outros esquemas comunicativos?
A distinção é importante. A primeira formulação sugere uma sucessão: uma forma cultural substitui outra. A segunda aponta para uma transformação — ou, melhor ainda, para uma mudança de paradigma.
A inteligência artificial vem complicar ainda mais a questão. Estamos a entrar num ambiente em que as máquinas não só conseguem recuperar e reorganizar textos já existentes, como também resumir, interpretar, imitar e gerar linguagem numa escala que, pode defender-se, excede em muito a capacidade de qualquer indivíduo. O paradoxo é evidente: precisamente no momento em que a leitura humana sustentada parece estar a perder a sua centralidade cultural, a produção textual está a tornar-se virtualmente inesgotável.
Para além da narrativa da substituição
A história da comunicação é frequentemente apresentada como uma sequência de substituições: a cultura oral dá lugar à cultura letrada, a cultura letrada à cultura impressa e a cultura impressa à cultura digital ou pós-letrada. Uma narrativa teleológica deste género é sedutora porque transforma a história da tecnologia numa sequência aparentemente progressiva. No entanto, também nos leva a imaginar que cada novo meio suplanta aquele que o precedeu, sem considerar adequadamente o que se ganha, o que se perde e o que é reconfigurado nesse processo.
A ideia de McLuhan de que o meio participa na formação da percepção é aqui pertinente. No entanto, é pouco provável que a transformação actual possa ser compreendida como um simples fenómeno de substituição tecnológica. O que muda com o surgimento de um novo meio não é simplesmente qual dos meios sobrevive, mas a própria relação entre os diferentes registos comunicativos.
The Interface Between the Written and the Oral, de Jack Goody, oferece uma forma mais produtiva de pensar essa relação. A importância da escrita e da oralidade não reside simplesmente na oposição entre ambas, mas na sua interacção. A escrita não elimina a fala, tal como a literacia não elimina as práticas orais. As sociedades letradas continuam a ser profundamente orais; as tradições orais podem ser transpostas para a escrita; e os textos escritos podem regressar à performance.
Esta ideia sugere que a história dos meios de comunicação é mais bem compreendida não como uma sucessão de substituições, mas como uma acumulação de interfaces. Cada nova configuração comunicativa entra num mundo já habitado, altera as condições em que as formas anteriores funcionam e é, ela própria, moldada por aquilo que aparentemente vem substituir. A passagem da oralidade à literacia não é, portanto, uma passagem de um sistema cultural fechado para outro. O que emerge é uma ecologia comunicativa mais complexa, na qual a fala, a escrita, a imagem, a performance, a imprensa, as redes e a linguagem gerada por máquinas formam uma configuração cada vez mais intrincada.
A transição envolve, ainda assim, tensões reais. Uma forma útil de as abordar é através daquilo a que poderíamos chamar os «ganhos e perdas» da transformação dos meios de comunicação: aquilo que uma nova forma comunicativa torna possível e aquilo que torna menos central. Esta distinção, porém, é mais bem entendida como uma heurística do que como um balanço contabilístico. Aquilo que parece perdido pode mais tarde regressar sob uma forma alterada; aquilo que surge como um ganho pode criar dependências anteriormente insuspeitadas.
A história da comunicação pode, por conseguinte, ser entendida menos como uma sucessão linear do que como uma ecologia complexa e em constante evolução.
As reflexões de Ilya Prigogine sobre os sistemas auto-organizados são sugestivas a este respeito. As novas formas de comunicação não se limitam a substituir as anteriores; entram em configurações já existentes, geram novas interacções, criam instabilidades e dão origem a formas emergentes cujas propriedades não podem ser plenamente previstas de antemão.
A oralidade e o problema da presença
Numa cultura oral, o conhecimento está, em larga medida, incorporado nas pessoas e concretiza-se através da performance. O contador de histórias não se limita a reproduzir um texto imutável. Cada narração responde a um público, a uma ocasião, a um lugar, a uma memória e a uma circunstância social particular. O significado reside não apenas nas palavras, mas também na voz, no gesto, no ritmo, na entoação e na participação.
A grande força da oralidade é, portanto, a presença. A sua vulnerabilidade reside no facto de as próprias condições que tornam a comunicação oral dinâmica também a tornarem dependente da memória e da repetição. Aquilo que é transmitido pode sobreviver durante gerações, mas também pode ser alterado no próprio processo de transmissão. A variação constitui simultaneamente uma ameaça à preservação exacta e uma condição de sobrevivência cultural.
Desta perspectiva, a oralidade parece, portanto, ganhar em presença à custa da permanência. Mas até esta formulação é provisória. As tradições orais podem ser extraordinariamente duradouras; a sua permanência assume simplesmente uma forma diferente: não a permanência da inscrição, mas a persistência da memória colectiva e da performance repetida.
A escrita altera esta relação entre a linguagem e o tempo. Um enunciado desaparece quando o falante deixa de falar. Uma inscrição pode sobreviver ao seu autor por décadas, séculos ou até milénios.
A escrita exterioriza a memória e transforma a linguagem em algo a que se pode regressar independentemente do momento em que foi produzido. Isto torna possíveis formas de actividade intelectual difíceis de sustentar apenas através da fala. Um texto escrito pode ser comparado com outro texto, classificado, anotado, citado, contestado, traduzido e relido. A escrita faz mais do que preservar a linguagem. Confere à linguagem um novo tipo de distância em relação a si própria. O leitor pode parar, voltar atrás, reconsiderar e comparar. A escrita torna, assim, possível uma forma distinta de atenção prolongada e recursiva.No entanto, mais uma vez, a interface complica esta dicotomia. A escrita pode preservar uma tradição oral. Um texto escrito pode ser representado. Um romance pode transformar-se em teatro. Um arquivo pode converter-se em história oral. A escrita e a oralidade permanecem em diálogo.
A escrita e os seus descontentamentos
Num ensaio anterior, «Writing and Its Discontents» («A escrita e os seus descontentamentos»), abordei a escrita não como um recipiente transparente de um pensamento já concluído, mas como uma prática intrinsecamente instável e sujeita a contestação. A escrita procura preservar o significado, mas o próprio acto de preservação retira o texto do controlo absoluto do seu autor. Uma vez escrito, o texto entra em contextos que o autor não pode antecipar. Adquire leitores que o autor não pode conhecer e significados que não pode determinar inteiramente.
A escrita contém, portanto, o seu próprio descontentamento. O autor escreve numa tentativa de estabilizar o significado; o texto, uma vez lançado no mundo, fica disponível para ser reinterpretado. O leitor não é simplesmente um receptor do significado do autor, mas um participante na sua interpretação e reformulação. A leitura pode, ela própria, tornar-se uma forma de reescrita.
É aqui que a intertextualidade se torna crucial. Nenhum texto existe isoladamente, porque nenhum acto de escrita ou de leitura parte de um espaço linguístico vazio. Cada texto entra num campo constituído por textos anteriores, línguas, convenções, memórias, pressupostos e interpretações. Ler nunca é, consequentemente, simplesmente recuperar um significado depositado pelo autor. É um encontro entre textos, contextos e leitores.
O circuito não é, portanto, simplesmente escrita → leitura, mas escrita → leitura → interpretação → reescrita. A reescrita não implica necessariamente a produção de outro texto escrito convencional. Pode assumir a forma de citação, comentário, tradução, adaptação, apropriação ou reinterpretação. O texto escrito sobrevive, assim, não por permanecer fixo, mas por entrar sucessivamente em novos contextos, nos quais pode ser contestado e rearticulado. A cultura escrita não é, consequentemente, apenas uma cultura de preservação, mas também uma cultura de acumulação, contestação e rearticulação.
Isto torna-se particularmente importante quando nos voltamos para o ambiente digital contemporâneo. Os meios digitais não vieram simplesmente substituir a escrita; multiplicaram as suas formas e aceleraram a sua circulação. O texto existe agora lado a lado com a imagem, o som, o vídeo, a hiperligação, a interface e a geração algorítmica. O leitor pode tornar-se comentador, distribuidor, remixer ou escritor quase instantaneamente. O ambiente digital comprime e reconfigura o circuito textual, ao mesmo tempo que os sistemas algorítmicos participam directamente na produção, transformação e circulação do texto.
O aparente recuo da leitura pode, portanto, coincidir com uma proliferação extraordinária da textualidade. O que está a mudar não é necessariamente o desaparecimento do texto, mas o lugar que este ocupa na ordem comunicativa. A literacia pode estar a perder a sua posição cultural privilegiada sem, por isso, se tornar obsoleta.
Pós-literacia não é pós-textualidade
A sociedade pós-letrada não é uma sociedade sem escrita. Pelo contrário, poderá ser uma sociedade com escrita em excesso. A pós-literacia não corresponde ao desaparecimento da escrita, mas à descentralização da literacia no meio de uma proliferação extraordinária da textualidade.
Mensagens, legendas, comentários, artigos, transcrições, legendas de vídeo, publicações, críticas, resumos e textos gerados por máquinas circulam agora a uma velocidade e numa quantidade inimagináveis no contexto da tradicional economia da imprensa. A inteligência artificial acelera esta proliferação ao tornar a produção de linguagem cada vez mais barata e imediata.
A escassez já não diz respeito ao texto; aplica-se cada vez mais à atenção. Esta mudança transforma a economia cultural da leitura. Quando os textos eram relativamente escassos e difíceis de reproduzir, o principal problema do leitor era frequentemente o acesso. No ambiente digital, a abundância desloca o problema do acesso para a capacidade de discernimento: o que merece a nossa atenção, o que pode ser delegado ou ignorado e como distinguimos uma interpretação fiável de uma afirmação produzida algoritmicamente. O que merece ser lido? O que pode ser ignorado ou resumido? Em que interpretação devemos confiar? Que recomendações reflectem o nosso próprio juízo e quais foram produzidas algoritmicamente?
A literacia passa, portanto, a ser mais do que a capacidade de ler e escrever. Envolve cada vez mais a capacidade de seleccionar, avaliar, interpretar e navegar num campo avassalador de informação textual e multimodal. A condição pós-letrada parece menos o desaparecimento da literacia do que a sua transformação: a escrita prolifera ao mesmo tempo que a leitura se torna mais selectiva, mediada e contestada.
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A leitura e o problema da fricção intelectual
É por isso que a preocupação com a pós-literacia não deve ser reduzida à ideia de que as pessoas estão a ler menos livros. A questão mais consequente poderá ser a transformação do estatuto da atenção sustentada — e, com ela, das formas de memória, interpretação e agência intelectual que essa atenção torna possíveis.
A leitura profunda exige que o leitor permaneça perante a dificuldade, a ambiguidade, a sequência e a resolução adiada. Exige uma disponibilidade não apenas para extrair informação de um texto, mas para nele permanecer tempo suficiente para que os significados se desenvolvam, entrem em conflito e, talvez, permaneçam sem resolução.
O ambiente mediático contemporâneo, pelo contrário, incentiva frequentemente uma disposição epistemológica diferente: Diz-me o que significa. Resume. Dá-me a resposta. Torna-o mais curto.
Não há nada de intrinsecamente errado nestas práticas. A concisão, a acessibilidade, a possibilidade de pesquisa e a síntese rápida podem ampliar, em vez de diminuir, as possibilidades intelectuais. A dificuldade começa quando a conveniência deixa de ser apenas uma característica útil de um meio e passa a constituir um princípio epistemológico — quando a distinção entre saber o que um texto diz e compreender como o seu significado é produzido começa a desaparecer.
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Quando podem ser produzidas simultaneamente múltiplas interpretações, a distinção entre informação e compreensão torna-se mais difícil, mas também mais consequente. O desafio não consiste, portanto, em recuperar alguma forma de conhecimento supostamente incontaminada. Consiste em desenvolver a capacidade crítica de nos movermos entre diferentes formas de mediação sem confundirmos acessibilidade com certeza.
Rumo a uma interface pós-letrada
A inteligência artificial intensifica esta ambiguidade. Não ameaça simplesmente a leitura; desestabiliza as relações herdadas entre escrita, leitura, interpretação, memória e mediação. Pode resumir um livro e desencorajar a sua leitura — ou proporcionar um ponto de entrada que torne o livro novamente acessível. Pode gerar prosa e incentivar a passividade — ou tornar-se um interlocutor através do qual um escritor descobre como rever, questionar e repensar o que escreveu. Pode achatar a complexidade, mas também pode tornar a complexidade acessível a leitores que, de outro modo, poderiam ficar dela excluídos.
As consequências, portanto, não podem ser determinadas pela tecnologia por si só. Dependerão da forma como as capacidades tecnológicas forem incorporadas nas práticas culturais, nas instituições educativas e nos hábitos de atenção. A mesma ferramenta pode diminuir a agência intelectual num contexto e ampliá-la noutro. O que importa não é simplesmente aquilo que a IA consegue fazer, mas aquilo que os seres humanos aprendem a esperar dela — e aquilo que deixam de fazer por si próprios quando essas expectativas se tornam habituais.
Isto conduz-nos de novo a Goody. O futuro dificilmente será puramente oral, puramente letrado ou simplesmente pós-letrado. É mais provável que seja uma interface: uma configuração dinâmica e instável na qual a fala, a escrita, a imagem, a performance, a imprensa, o arquivo, a rede, o algoritmo e a linguagem gerada por máquinas coexistem, se sobrepõem e se modificam continuamente.
O resultado poderá não ser nem o triunfo nem o desaparecimento da literacia, mas o surgimento de uma ecologia comunicativa cujas propriedades ainda não somos capazes de especificar plenamente.
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A questão pós-letrada não é, portanto, simplesmente: O que irá substituir a leitura? É antes:
Que nova configuração da leitura, da escrita, da fala, da visão, da memória e da interpretação mediada por máquinas está a surgir?Ainda não sabemos. Mas essa incerteza não constitui uma fragilidade do argumento; é intrínseca à própria transição. Os novos meios raramente produzem o futuro sob a forma que inicialmente se imaginou para eles. Entram em culturas já existentes, confrontam-se com práticas herdadas, adquirem utilizações imprevistas, criam novas dependências, reactivam capacidades mais antigas sob formas alteradas e geram consequências que ultrapassam as suas intenções originais.
O futuro da leitura poderá, portanto, não ser uma escolha entre a sobrevivência e o desaparecimento. Poderá ser uma transformação na interface — um espaço em que o oral, o escrito, o visual, o digital e o computacional se encontram cada vez mais, se confrontam, se complementam e se recriam mutuamente.
Talvez, então, a sociedade pós-letrada não seja a sociedade depois da literacia. Seja a sociedade na qual a literacia já não está sozinha.
E esta poderá ser a transformação mais consequente: não o desaparecimento da leitura ou da escrita, mas o surgimento de um mundo comunicativo no qual nenhum meio pode reivindicar um monopólio incontestado sobre a forma como a cultura recorda, interpreta e produz conhecimento.A questão não é saber qual será o meio que prevalecerá, mas que tipo de cultura emerge quando as fronteiras entre os meios se tornam cada vez mais permeáveis — e quando a atenção, o juízo e a agência humanas têm de navegar numa ecologia em que o significado já não é produzido, preservado ou interpretado através de um único modo de comunicação.
Dr. Faridul Alam