April 13, 2026

Como uma farmacêutica aldraba para lucrar biliões à custa dos doentes com cancro



Merck transformou medicamento contra o cancro num êxito de vendas, mas é tão caro que poucos o podem pagar

EXPRESSO

Uma investigação do Consórcio International de Jornalistas de investigação (ICIJ), Cancer Calculus, mostra como a gigante farmacêutica Merck construiu uma fortaleza de patentes, negociou em segredo e fez uma acção de lobbying implacável para defender o Keytruda, o pilar das suas receitas
05:00


Sydney P. Freedberg (ICIJ) e Brenda Medina (ICIJ)
RESUMO
Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) revela como a farmacêutica Merck utilizou...Ler mais


Poucos dias antes do Natal de 2025, os líderes de nove empresas farmacêuticas juntavam-se na Sala Roosevelt da Casa Branca, onde já esteve pendurado o Prémio Nobel da Paz de 1906 atribuído a Teddy Roosevelt. Os fotógrafos acorreram para tirar fotografias enquanto os executivos — três mulheres e seis homens — estavam de pé, desconfortáveis, a bater com os pés e a tamborilar com os dedos à espera do Presidente Donald Trump. Os chefes das farmacêuticas tinham todos fechado acordos para baixar drasticamente os preços de alguns dos seus medicamentos mais emblemáticos.


Passaram quase 15 minutos até Trump entrar na sala, seguido pelo Secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., e por vários altos funcionários. O Presidente olhou de relance para os executivos.


“Uau, que grupo de pessoas”, disse Trump. “Ganham muito dinheiro.”


No conjunto, a remuneração anual destes executivos ultrapassava os 100 milhões de dólares. Mas apenas um deles — o advogado de empresas com óculos e barbicha — estava ao leme de um colosso farmacêutico de 57 mil milhões de euros com um medicamento salva-vidas que era incomportável para boa parte do mundo: Robert M. Davis, presidente executivo e presidente do conselho de administração da Merck & Co., fabricante do êxito de vendas anti-cancro pembrolizumab. Marca comercial: Keytruda.


Trump prometeu que os preços dos medicamentos iriam cair “a toda a velocidade” graças aos novos acordos. Antes do final da cerimónia, cada executivo aproximou-se do púlpito para dizer algumas palavras. Quando chegou a vez de Davis, este declarou apoio “a 100%” às acções do Presidente.


“Reflicto sobre o vosso objectivo de garantir acessibilidade económica e acesso aos americanos, mas igualmente de fazer subir os preços fora dos EUA”, disse Davis.


Davis prometeu que a Merck baixaria os preços de um medicamento para a diabetes e de um comprimido cardiovascular, mas não disse nada sobre cortar o custo do Keytruda, que representou 28 mil milhões de euros em vendas em 2025 e quase metade das receitas da Merck. Na verdade, a gigante farmacêutica sediada em Nova Jérsia iria tornar a vida ainda mais difícil a muitos doentes oncológicos em todo o mundo.


Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) revela como uma das maiores farmacêuticas do mundo recorreu a uma série de tácticas tanto para inflacionar o volume de prescrições como para manter o preço alto, através de lobbying e procurando atrasar a chegada de versões mais baratas do medicamento a centenas de milhares de doentes oncológicos nos próximos anos. Tudo isto se desenrola enquanto governos de todo o mundo gastam montantes crescentes em Keytruda, com preços elevados a apertar os orçamentos públicos, mesmo em países ricos. Os preços de tabela vão de cerca de 70 mil euros por ano na Alemanha e 180 mil euros nos EUA, 81 mil no Líbano e cerca de 113 mil na Colômbia, 57 mil na África do Sul e 100 mil na Croácia.


O cancro é uma ameaça crescente para a saúde pública, responsável por quase 1 em cada 6 mortes em todo o mundo. As projecções mostram que as taxas de cancro estão a aumentar sobretudo em países de rendimentos mais baixos, onde o Keytruda continua, em larga medida, incomportável. Prevê-se que o número de mortes dispare 75%, atingindo 18,6 milhões em 2050, com algumas terapêuticas novas a custarem já mais de um milhão de dólares por doente.

DESIGUALDADE NO ACESSO AO TRATAMENTO

Viver com — ou para além de — um diagnóstico de cancro acarreta custos profundos: físicos, emocionais e financeiros. Há doentes tão desesperados por Keytruda que recorrem ao mercado negro para conseguir o medicamento mais barato, sem saberem se é mesmo o medicamento ou uma falsificação. Outros doentes que procuram Keytruda enfrentam obstáculos burocráticos angustiantes e acabam a processar os respectivos governos para conseguir aceder ao medicamento; nem todos sobrevivem o tempo suficiente para conhecer a decisão dos tribunais.

As reportagens dos parceiros do ICIJ em seis continentes traçam um retrato de profunda e perigosa desigualdade.

Na Índia, as famílias que procuram Keytruda dependem de uma rede de protecção esfarrapada: cobertura de seguro deficiente, programa de assistência a doentes da Merck e dinheiro do próprio bolso. No Brasil, o sétimo país mais populoso do mundo, a maioria dos doentes oncológicos não tem dinheiro para o Keytruda e milhares recorrem aos tribunais para o conseguir. Na África do Sul, onde a esmagadora maioria dos cidadãos não tem meios para aceder a cuidados de saúde privados e o rendimento mensal típico de um agregado familiar é inferior a 435 euros, uma única dose de Keytruda custa cerca de 10 vezes esse valor: 4266 euros.

No Reino Unido, a investigação mostra que o Keytruda encabeça a lista de medicamentos pelos quais o subfinanciado Serviço Nacional de Saúde (NHS) paga em excesso. Para alguns doentes com cancro do pulmão, o NHS tem estado a pagar pelo Keytruda cinco vezes mais do que devia, segundo dados de custo-eficácia da Universidade de York partilhados com o Bureau of Investigative Journalism, parceiro do ICIJ no Reino Unido. E na Guatemala, um médico que lida com acesso limitado teve de escolher dois entre os seus muitos doentes para receberem o medicamento. “O que me resta fazer? Brincar aos deuses?”, disse Julio Ramirez, responsável pela unidade de oncologia do hospital público regional de Quetzaltenango, segunda maior cidade da Guatemala. “O primeiro doente que chega, é a esse que vou dar o tratamento, porque é tudo o que posso fazer.”

Cancer Calculus, uma investigação de um ano do ICIJ e de 48 parceiros de media em 37 países, baseia-se em centenas de entrevistas a oncologistas, doentes oncológicos e suas famílias, especialistas em patentes, reguladores, conhecedores da indústria farmacêutica e outros, bem como em dados exclusivos sobre preços e análises de patentes, e em milhares de páginas de apresentações de empresas, documentos de conselhos de patentes, processos judiciais e registos empresariais e regulatórios. Os parceiros do ICIJ desenterraram também registos de saúde pública, actas de reuniões, dados sobre preços e comparticipações, entre outros documentos, através de pelo menos 1020 pedidos de acesso a documentos administrativos em 28 países.

TÁTICAS AGRESSIVAS

A investigação explora a forma como a Merck — conhecida como MSD fora dos EUA e do Canadá — recorreu a táticas agressivas, mas legais, para aumentar as suas receitas com o Keytruda e fazer dele um dos medicamentos mais vendidos de sempre — à custa de alguns doentes.

Entre as conclusões do projecto, destacamos:
A Merck e outras entidades farmacêuticas e médicas exploraram o sistema de patentes para construir uma fortaleza em torno do Keytruda, com pelo menos 1212 pedidos de patente em 53 países, regiões e territórios. Este fluxo de patentes secundárias poderá ajudar a Merck a sufocar a concorrência e a manter preços elevados — e milhares de milhões de euros em receitas — durante 14 anos depois de as suas patentes originais expirarem em 2028.
A Merck tem promovido uma dosagem de Keytruda mais elevada do que o necessário, dizem alguns investigadores oncológicos de referência. E essa dosagem poderá custar ao mundo cerca de 54,35 mil milhões de euros só em doentes com cancro do pulmão até 2040, segundo investigadores da Organização Mundial da Saúde.
A gigante farmacêutica aproveitou-se de atalhos regulatórios da indústria, ajudou a orquestrar uma onerosa campanha de lobbying global e operou com uma enorme falta de transparência nos preços. Distribuiu, nos EUA, dezenas de milhões de euros em honorários de consultoria, despesas de viagem e outros pagamentos relacionados com o Keytruda a médicos e profissionais de saúde.

Todas estas estratégias geram receitas para a Merck, com cerca de 60% das vendas de Keytruda a serem feitas nos EUA.

Uma análise do ICIJ mostra que a Merck gerou cerca de 142 mil milhões de euros em vendas de Keytruda desde 2014, chegando a mais de 3 milhões de pessoas. A empresa canalizou perto de 65 mil milhões de euros em dividendos para os acionistas e 37 mil milhões em recompras de ações próprias ao mesmo tempo que reduziu os impostos pagos nos EUA contabilizando lucros em jurisdições com tributação mais baixa. No relatório anual de 2025, a Merck declarou ter pago cerca de 1,4 mil milhões de euros em impostos sobre o rendimento nos EUA, contra 3,9 mil milhões noutros países, incluindo 1,83 mil milhões na Suíça.

Davis recusou comentar, mas a vice-presidente sénior da Merck, Johanna Herrmann, defendeu as práticas de fixação de preços da empresa, afirmando que o preço do Keytruda “reflecte o seu valor para os doentes e para os sistemas de saúde”.

“Temos um longo historial de fixação responsável dos preços dos nossos medicamentos, de modo a reflectirem o seu valor para os doentes, pagadores e sociedade”, escreveu numa carta dirigida ao ICIJ.

Herrmann reconheceu, numa carta separada, que a Merck enfrenta “pressões políticas e empresariais crescentes” quanto ao acesso e aos preços nos mercados emergentes. Mas disse que a empresa está a trabalhar para garantir que os cuidados de saúde sejam “acessíveis, eficientes, equitativos e sustentáveis à escala global”.

Na nossa investigação, concluímos que a conduta da Merck era típica da indústria farmacêutica — e que a empresa não constituía um caso isolado em termos das suas práticas comerciais globais. Mas o crescimento extraordinário e o interesse em torno do Keytruda poderão estar a empurrar ainda mais os limites do que é aceitável pelos padrões da indústria.

Peter Maybarduk, director do grupo de acesso a medicamentos da Public Citizen, uma organização de defesa dos consumidores sem fins lucrativos sediada em Washington, disse que a indústria farmacêutica criou um sistema de regras globais para proteger os fabricantes de medicamentos e garantir que os governos ricos os defendem. “Há toda uma arquitectura por detrás do Keytruda e de cada medicamento patenteado, em que o Governo dos EUA e a Europa dão a cara pela indústria e pelas suas regras”, afirmou.

Esse sistema é marcado por grandes interrogações sobre como as práticas da Merck e das outras grandes farmacêuticas afectam o futuro do nosso bem-estar colectivo. A forma como tudo isto se desenrola é, muitas vezes, a história de colocar os lucros à frente dos doentes. Para os que têm e para os que não têm em todo o mundo, pode também ser a história de quem vive e quem morre.

PRINCÍPIOS MILAGROSOS

Rob Davis, 59 anos, cresceu em Franklin, no Indiana, uma terra agrícola a cerca de 30 quilómetros a sul de Indianápolis, à sombra da Eli Lilly, uma das maiores farmacêuticas do mundo. Trabalharia na Lilly durante 14 anos enquanto fazia os seus cursos de gestão e direito.


Quando o seu pai, Morris, auditor, lutava contra o cancro, Davis foi a uma entrevista de emprego com o então presidente executivo da Merck, Ken Frazier. No final da reunião, Frazier dirigiu Davis para uma imagem junto à porta. Queria mostrar-lhe um diapositivo de PowerPoint colado na parede, contou Davis numa entrevista em 2024 na faculdade de direito da Universidade Northwestern. Mostrava diferentes tipos de tumores e as respectivas respostas ao Keytruda. “É por isto que tens de vir para a Merck”, disse-lhe Frazier. “Porque vamos fazer uma diferença real.”


Davis entrou na Merck como director financeiro na Primavera de 2014, alguns meses antes de o seu pai morrer de cancro do pulmão aos 82 anos. “Pergunto-me o que teria acontecido se aquele medicamento estivesse disponível há 10 anos, quando o meu pai estava a travar a sua batalha”, disse na entrevista.

Enquanto Davis se instalava no novo cargo, a Merck preparava-se para lançar o Keytruda para tratar o melanoma, a forma mais mortífera de cancro de pele. Preço de tabela previsto nos EUA: cerca de 11 000 euros por mês, ou 130 000 euros por ano.

Quando surgiu, revolucionou o tratamento do cancro. Pertencendo a uma classe de imunoterapias chamada inibidores de pontos de controlo imunitário, o Keytruda deslocou o foco do ataque directo aos tumores para a capacitação do sistema imunitário para os combater. Aprovado nos EUA para tratar 19 tipos de tumores — incluindo da pele, pulmão, mama e cólon —, tornou-se uma tábua de salvação para milhões, transformando formas anteriormente terminais de cancro avançado em doenças controláveis e aumentando as taxas de sobrevivência de outros doentes com cancros de difícil tratamento — por vezes durante meses, por vezes durante anos.

“Todos estes anos depois, não deixei de cá vir agradecer pela minha vida, por estar viva”, disse Carolina García Corsini a uma jornalista do ICIJ num santuário católico em Madrid. Antiga jornalista e mãe de três filhos da capital espanhola, García tinha 37 anos e estava grávida de quatro meses quando lhe foi diagnosticado um melanoma metastizado, em Fevereiro de 2011. Os tumores tinham-se espalhado para a mama esquerda. Depois de garantir um lugar disputado no primeiro ensaio clínico do Keytruda, começou a deslocar-se a Paris de poucas em poucas semanas para receber tratamento. Catorze anos depois e em remissão, disse: “Estou convencida de que é um milagre.”

A Merck ocupa hoje o 65.º lugar da Fortune 500, e o negócio do Keytruda gera receitas superiores às da McDonald's ou de toda a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL).

Hoje, como presidente executivo e presidente do conselho de administração da Merck e líder do poderoso lobby sectorial PhRMA, Davis promove pilares-chave da agenda da indústria: que a protecção das patentes e os preços elevados ajudam as farmacêuticas a recuperar os milhares de milhões gastos no desenvolvimento de novos medicamentos e a fazê-los chegar aos doentes em segurança e em larga escala. O processo demora normalmente uma década ou mais, e uma patente nos EUA — que dura, em geral, 20 anos a contar da data do pedido — permite às empresas usufruir de uma posição dominante no mercado, cobrar preços mais elevados, recuperar custos de investigação e desenvolvimento e gerar lucros para financiar investigação futura. De 2011 a 2023, disse Davis em depoimento ao Congresso em 2024, a Merck investiu 40 mil milhões de euros na investigação, desenvolvimento e fabrico do Keytruda. Citou mais de 2200 ensaios clínicos — realizados pela Merck e por outros investigadores — para estudar o Keytruda, e a empresa tenciona investir mais 16 mil milhões de euros em estudos clínicos do Keytruda já entrada a década de 2030.

Mas uma nova análise da Public Eye, organização sem fins lucrativos sediada na Suíça que defende a responsabilização das empresas, estima os custos de I&D do Keytruda em 1,65 mil milhões de euros — 1% das receitas globais do medicamento desde o lançamento em 2014. Somando o custo dos ensaios clínicos falhados, a estimativa de I&D sobe para 4,2 mil milhões de euros, ou 3% das receitas. Patrick Durisch, especialista em farmacêuticas da Public Eye, disse que baseou os seus números numa análise dos ensaios clínicos do Keytruda e dos seus custos médios, que constituem a maior fatia das despesas de I&D.

Os números de Davis são “absolutamente inverificáveis”, disse Durisch ao ICIJ. “A Merck pode atirar com qualquer número que lhe apeteça — o mais alto possível para justificar o preço exorbitante.”

“A parcela de custos de I&D em relação ao preço de um frasco é muito reduzida e há muito que foi recuperada”, acrescentou. “O preço é, por isso, excessivamente alto, não para cobrir custos de I&D ou cobrir riscos, mas para obter lucros máximos.”

Nathan Cherny, oncologista e director da unidade de dor oncológica e medicina paliativa do Centro Médico Shaare Zedek, em Israel, disse que uma “tempestade perfeita” levou ao elevado custo do Keytruda. Começou em 2003, quando o Congresso dos EUA aprovou uma cláusula de “não interferência” como parte da lei do Medicare, exigindo que o Governo aceitasse os preços de tabela dos fabricantes para novos medicamentos sem qualquer negociação de preços. Apesar de a cláusula impedir o Governo federal de negociar preços, os seus apoiantes apresentaram-na como um reforço — e não como uma suspensão — das forças de mercado, transferindo o poder negocial para os planos privados em vez do Estado.

“Foi uma suspensão das forças de mercado”, disse Cherny ao ICIJ. E o seu impacto sentiu-se em todo o mundo.

UM “FAROESTE” DO DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS

A campanha de promoção do Keytruda estava no seu segundo ano quando um acontecimento extraordinário deu origem a uma bonança em termos de relações públicas: em 2015, os médicos de Jimmy Carter usaram com êxito o Keytruda para tratar o cancro de pele letal do antigo Presidente dos EUA, que se tinha espalhado para o fígado e para o cérebro quando ele tinha 91 anos. Os doentes passaram a clamar pelo “medicamento do Presidente”. E Carter viveu até aos 100 anos.

Para o plano de negócios do Keytruda, a Merck baseou-se em estratégias saídas directamente do manual da indústria farmacêutica, que se enraizaram nos Estados Unidos e se espalharam internacionalmente: usou investigação financiada pelos contribuintes, estratégias de preços confidenciais e atalhos regulatórios, que permitiram à Merck entrar mais cedo no mercado e vender o Keytruda a preços altos — antes mesmo de existirem provas clínicas completas. O ICIJ verificou que o Keytruda recebeu, nos EUA, pelo menos 33 aprovações expeditas — mais do que qualquer outro medicamento — ao abrigo de programas regulatórios especiais concebidos para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos para doenças graves ou potencialmente fatais. Mas essas aprovações enfrentam controvérsia devido à precocidade com que os medicamentos chegam ao mercado, aos seus custos elevados e, por vezes, à fragilidade das provas clínicas. A Merck, por exemplo, retirou dois tratamentos com Keytruda que tinham obtido aprovação acelerada da Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, por não terem produzido benefícios suficientes.

A nossa investigação mostra também como a Merck tirou partido da designação de medicamento órfão, uma categoria que oferece incentivos às empresas para desenvolverem medicamentos para doenças raras. A Merck obteve nove designações de órfão distintas para um único medicamento: o Keytruda.

Outra prática da Merck que se está a expandir globalmente: financiar grupos de doentes que defendem cobertura por seguros, fazem lobbying junto de governos e apoiam aprovações regulatórias mais rápidas, ao mesmo tempo que injectam dinheiro em pagamentos a médicos e outros profissionais de saúde. Só nos EUA, os registos mostram que a Merck gastou perto de 48 milhões de euros em honorários relacionados com o Keytruda pagos a profissionais de saúde entre 2018 e 2024, com cinco médicos a receberem mais de 920 mil euros cada.

A Merck afirmou que este tipo de pagamentos ajuda a informar a comunidade de saúde sobre o Keytruda, o que, por sua vez, melhora os cuidados aos doentes.

Mas um estudo norte-americano realizado para o National Bureau of Economic Research concluiu que a prescrição de medicamentos oncológicos administrados por médicos, como o Keytruda, aumentou 4% nos 12 meses seguintes a um profissional de saúde ter recebido fundos de uma farmacêutica. Esses pagamentos — que cobrem refeições, viagens, investigação, consultoria e honorários por palestras — levaram a um maior gasto dos médicos em medicamentos oncológicos, mas sem qualquer melhoria na sobrevivência dos doentes.

Os pagamentos a grupos de doentes não foram menos significativos. Nos EUA, a Merck pagou dezenas de milhões de euros a grupos de defesa dos doentes. Na Austrália, a Australian Broadcasting Corporation, parceira do ICIJ, descobriu financiamentos em mais de 100 casos em que a filial australiana da Merck pagou a grupos de doentes um total de 1,4 milhões de euros entre 2014 e 2024. Na Bélgica, o jornal De Tijd descobriu que uma dúzia de grupos de doentes e organizações de cuidados de saúde que receberam cerca de 1,7 milhões de euros da filial belga da Merck entre 2022 e 2024 também fizeram lobbying por posições alinhadas com as da empresa.

A Merck defendeu tais práticas, afirmando ao ICIJ que qualquer colaboração ou financiamento envolvendo organizações de doentes é inteiramente independente das avaliações de tecnologias de saúde e não pode ser interpretado como um incentivo à prescrição.

Em 2021, cientistas seniores da FDA manifestavam preocupação com o crescimento explosivo da imunoterapia, dominada pelo Keytruda. Richard Pazdur, então responsável pela unidade da FDA dedicada a melhorar o desenvolvimento de medicamentos oncológicos, e Julia A. Beaver, então chefe de oncologia da FDA, escreveram no New England Journal of Medicine, em Dezembro de 2021, que o crescimento desenfreado e rápido dos inibidores de pontos de controlo tinha conduzido a um “Faroeste” do desenvolvimento de medicamentos, com uma debandada de patrocinadores comerciais, ensaios clínicos e planos de desenvolvimento redundantes.

A imunoterapia, embora oferecendo resultados que mudam vidas — e por vezes milagrosos — para um pequeno número de doentes oncológicos, não conseguiu ajudar muitos outros, e alguns queixaram-se de que os médicos minimizavam os riscos.

Pauline Cameron, hoje com 76 anos, contou à Australian Broadcasting Corporation que a oncologista do marido vendeu o Keytruda como um milagre para o seu melanoma metastizado. Veterano da Guerra do Vietname natural de Adelaide, Paul Cameron, então com 76 anos, aceitou tomar Keytruda em 2022 depois de a sua oncologista, Rachel Roberts-Thomson, lhe ter dito que tinha cerca de nove meses de vida. Segundo Pauline, Roberts-Thomson disse que os efeitos secundários eram mínimos e que a quimioterapia era muito pior. O que Roberts-Thomson não revelou, segundo Pauline: a oncologista integrava conselhos consultivos de pelo menos seis empresas farmacêuticas, incluindo a Merck.

Roberts-Thomson não respondeu a vários pedidos de comentário do ICIJ e da Australian Broadcasting Corporation.

Poucos dias após a primeira infusão de Keytruda, Paul sentiu-se fraco. As pálpebras descaíram e não conseguia manter a cabeça erguida. Morreu de uma síndrome de sobreposição induzida pelo Keytruda, um efeito secundário raro de origem imunitária.

“Para o Paul, o Keytruda foi como pôr um comboio numa linha sem travões”, disse Pauline. Disse que gostaria que a Merck investisse mais em compreender por que razão o medicamento pode causar danos tão catastróficos tão depressa.

Herrmann, vice-presidente da Merck, não respondeu a perguntas específicas sobre Paul Cameron, mas rejeitou veementemente qualquer afirmação de que a empresa tinha ficado aquém dos elevados padrões de transparência e integridade. “Nada é mais importante para a Merck do que a saúde dos doentes que usam os nossos medicamentos”, disse.

As vendas do Keytruda dispararam globalmente. De 2020 a 2024, segundo dados de vendas exclusivos partilhados com o ICIJ pelo IQVIA Institute for Human Data Science, registou-se um aumento de 232% em França, para 2,6 mil milhões de euros; 265% no Brasil para 693,4 milhões de euros; 491% no México para 126,32 milhões de euros; e 584% na Turquia para perto de 92 milhões de euros.

Wolf-Dieter Ludwig, oncologista que presidiu durante 18 anos à comissão de medicamentos da Associação Médica Alemã, citou o Keytruda como exemplo de onde está a ser gasto demasiado dinheiro no sistema de saúde. O medicamento fez uma diferença significativa em alguns tipos de cancro, disse aos parceiros do ICIJ na Paper Trail Media, mas raramente conduz à cura e o preço elevado não se justifica. As farmacêuticas usam frequentemente a expressão “game changer”, disse Ludwig, mas trata-se, acima de tudo, de bom marketing.

PREÇOS EXTREMOS, SEGREDO EXTREMO

O rápido crescimento das receitas do Keytruda deveu-se mais ao número crescente de doentes tratados e de prescrições do que a um aumento de preços, segundo uma análise realizada para o ICIJ. A despesa farmacêutica, alimentada por medicamentos como o Keytruda, atingiu máximos históricos na década de 2020. A Merck diz que fixa preços diferentes para os seus produtos consoante os mercados — e por vezes dentro do mesmo mercado — para garantir que chegam ao maior número possível de doentes.

Mas, à medida que a crise global em torno do disparar dos preços dos medicamentos se intensificava, Davis manifestou preocupação com as dificuldades financeiras dos doentes oncológicos. Desde que o Keytruda chegou ao mercado em 2014, o ICIJ encontrou 632 casos em que doentes de 51 países recorreram ao GoFundMe e a outros sites de financiamento colectivo para angariar dinheiro para tratamentos com Keytruda.

“Temos de concentrar esforços na redução dos custos suportados pelo doente do próprio bolso”, disse o presidente executivo da Merck a investidores numa conferência sobre saúde em 2021. “É esse o ponto central.”

A investigação do ICIJ descobriu que os preços de tabela da Merck, ou seja, os preços iniciais sem desconto, variam enormemente entre países, indo de cerca de 782€ por um único frasco de 100 mg na Indonésia até 5 533,80€ pelo mesmo frasco nos EUA.

As disparidades extremas decorrem de descontos e abatimentos secretos aplicados aos preços de tabela em diferentes países, bem como das diferentes formas como os sistemas de saúde decidem os custos dos medicamentos. Não há tecto de preços para a maior parte dos medicamentos sujeitos a receita médica nos EUA, onde os fabricantes fixam os preços largamente por conta própria. Em muitos outros países, os governos negoceiam com as farmacêuticas para fixar um preço.

Uma característica comum dos sistemas de fixação de preços de medicamentos em todo o mundo: prosperam em segredo. Pelo menos meia dúzia de autoridades em todo o mundo recusou divulgar ao ICIJ pormenores sobre a despesa pública com Keytruda ou sobre o número de doentes a receber o medicamento. Invocaram um conjunto de explicações — por exemplo, que elas próprias ou a Merck tinham considerado a informação um “segredo comercial”.

Apesar do sigilo extremo, o ICIJ obteve e comparou os preços de tabela do Keytruda e os preços máximos de venda em 31 países. Encontrou grandes diferenças em termos de acessibilidade, com o Keytruda comparativamente menos acessível nos países mais pobres. Na África do Sul, o preço de tabela do Keytruda (excluindo impostos e taxas) é de cerca de 3500 euros por uma dose de 200 mg — um terço do preço de tabela nos EUA. Ainda assim, é muito menos acessível na África do Sul, onde uma pessoa que ganhe o rendimento mediano nem sequer consegue comprar uma dose por ano, ao passo que, nos EUA, um doente com o rendimento mediano consegue pagar menos de cinco doses.

Ao mesmo tempo, segundo a análise do ICIJ, os americanos com rendimento mediano podem pagar menos Keytruda do que quem ganha o rendimento mediano em alguns países europeus ricos, como a França e a Bélgica. Em países mais pobres da Europa de Leste, como a Bulgária e a Hungria, o Keytruda tende a ser menos acessível do que na Europa Ocidental mais próspera. E no México e em vários outros países da América Latina, os preços de tabela tendem a ser mais elevados — quando ajustados aos níveis económicos — do que em países mais ricos.

Na Guatemala, Alberto Xum pensou, como muitos doentes oncológicos da América Latina, que teria de prescindir totalmente do tratamento. Um ano de frascos de Keytruda custa 165.000 euros ou mais no país centro-americano, e Xum, um artesão de 65 anos sem seguro, vende recordações em couro numa região onde o rendimento mensal médio dos agregados familiares ronda os 640 euros. Diagnosticado com cancro do rim metastizado em 2022, Xum disse ao seu oncologista, Julio Ramirez, que estava pronto a desistir do tratamento. “Disse ao médico que não podia pagar”, contou. “Estava a pôr a minha vida nas mãos de Deus.”

Para sorte de Xum, porém, Ramirez estava prestes a receber autorização do ministério da saúde para um dos primeiros tratamentos com Keytruda no seu hospital. Xum foi o escolhido. De três em três semanas, durante os dois anos seguintes, Xum apanhou um autocarro durante 2 horas e meia desde a sua aldeia rural, Samayac, até ao hospital público de Quetzaltenango para receber a infusão de 10.000 euros, paga pelo Estado. “Por vezes pergunto: quem sou eu para merecer tanta sorte?”, disse Xum ao ICIJ. Os seus tumores tinham diminuído, mas não estava em remissão.

Um novo estudo apoia as conclusões do ICIJ. Seis meses de tratamento com Keytruda para cancro da cabeça e do pescoço custam quase 80 vezes o rendimento mensal médio na Índia e 43 vezes o rendimento médio no Paquistão. O custo continua catastroficamente elevado também nos países ricos: cerca de seis vezes o rendimento mensal médio nos EUA e nove vezes o rendimento médio no Reino Unido. Em suma, seis meses de Keytruda variam entre 7061,92 euros no Bangladesh e 35.193,68 euros na Austrália, concluíram os investigadores: as imunoterapias modernas continuam economicamente inacessíveis na maior parte dos contextos.

O ICIJ apurou que os custos de tratamento com Keytruda para os doentes são particularmente caóticos nos EUA. Dados compilados pela Serif Health, empresa de São Francisco que analisa informação sobre comparticipações no sector da saúde, mostram que os custos para doentes e seguradoras variam dramaticamente. Pelos EUA fora, os custos estimados vão de entre 5400 euros e 40.300 euros por um tratamento típico de Keytruda de 200 mg.

Para Barbara Thornton, auxiliar de cuidados domiciliários de 64 anos de Cincinnati, no Ohio, que recentemente venceu um cancro do pâncreas, os tratamentos com Keytruda no centro de ambulatório de um hospital próximo custavam bem acima do preço de tabela. Cada tratamento vinha acompanhado de uma factura de cerca de 40.000 euros. Uma combinação do seguro do marido, da assistência financeira do hospital e do Medicaid cobriu a maior parte da sua quota-parte. “Tive sorte. Tinha seguro”, disse Thornton. “Não vivemos à grande — passe a expressão.”

O Health Care Cost Institute, grupo sem fins lucrativos que analisa pedidos de comparticipação em seguros patrocinados por entidades empregadoras nos EUA, reviu para o ICIJ dados sobre custos do Keytruda entre 2018 e 2022. Em 2022, esses planos de seguro pagaram 3,49 mil milhões de euros pela cobertura do Keytruda para apenas 30.997 doentes - ou cerca de 112.600 euros por doente. O custo podia quase duplicar quando o medicamento era administrado em ambulatório hospitalar em vez de num consultório médico.

Num comunicado, a porta-voz da Merck, Julie Cunningham, atribuiu os preços elevados nos EUA aos gestores de benefícios de farmácia e às seguradoras de saúde, intermediários que extraem descontos e taxas. Herrmann disse que 59% dos doentes norte-americanos com seguro privado não pagaram nada do próprio bolso por Keytruda e que a Merck disponibilizou 1,6 mil milhões de euros em medicamentos gratuitos nos EUA em 2024.

Para Nasır Nesanır, presidente do ramo de saúde pública da Associação Médica Turca, estas disparidades enquadram-se em questões mais amplas. “Deve a inovação médica ser encarada como um ganho comum da humanidade?”, perguntou Nesanır em entrevista à parceira do ICIJ DW Türkçe. “Ou deve continuar a ser um activo comercial sob protecção de patente que aprofunda a desigualdade global?”

"COMO É DEVASTADOR PARA ELES”

Em Bombaim, a cidade mais rica da Índia, onde mais de metade da população vive em bairros de lata ou em pobreza extrema, 101 doentes e respectivos familiares esperam no corredor à porta da clínica de oncologia do Hospital Nair pelas suas consultas com Amol Akhade, oncologista de renome. Vê a Índia a tornar-se a “capital mundial do cancro” devido à enorme subida do número de casos. E há ainda este desafio: um mês de Keytruda pode equivaler a mais de 12 meses de salário no país.

Akhade aponta para o corredor de ambulatório apinhado. “Na multidão de 100 doentes que vê lá fora, perto de 70 doentes com tumores sólidos poderiam ter beneficiado significativamente do Keytruda. No entanto, neste momento, nem sequer somos capazes de discutir esta opção de tratamento com eles, porque é simplesmente inviável.”

“São trabalhadores diários que vivem ao dia”, disse Akhade ao ICIJ. “Estão preocupados é em saber de onde virá a próxima refeição.” O Governo indiano fornece quimioterapia gratuita a estes doentes. Outros recebem ajuda dos programas de assistência da Merck. Na Índia, o programa chama-se Kiran, nome derivado do sânscrito que significa “raio de luz”, e que permite aos doentes comprar cinco frascos e receber 12 gratuitamente.

Um dos principais oncologistas do Tata Memorial Hospital concorda. “É de partir o coração e desanimador para nós”, disse Kumar Prabhash ao ICIJ. “E agora pensemos do ponto de vista do doente o quão devastador é para eles.”

Prabhash e colegas em Bombaim e Deli estão a trabalhar em formas custo-eficazes de alargar o acesso. Embora a Merck recomende 200 mg de Keytruda de três em três semanas, médicos em hospitais indianos estão a testar imunoterapias em dose baixa. Noutros estudos, doentes receberam dosagens ajustadas ao peso — 2 mg por quilograma de três em três semanas, ou 1 mg por quilo de seis em seis semanas. Hospitais em Singapura, Malásia e Taiwan chegaram a uma conclusão semelhante, e vários países — incluindo os Países Baixos, o Canadá e Israel — começaram a passar para a dosagem ajustada ao peso.

As poupanças podem ser enormes. Daniel Goldstein, oncologista de origem britânica que exerce em Israel, descobriu em 2017 que a dose fixa de Keytruda custa ao sistema de saúde dos EUA 760 milhões de euros adicionais por ano. Investigadores da Organização Mundial da Saúde estimaram que o mundo poderia poupar 4,6 mil milhões de euros ao longo de 15 anos se os doentes com cancro do pulmão recebessem Keytruda com base no peso, em vez de doses fixas.

A Merck disse basear as suas fórmulas de dosagem nas provas clínicas detalhadas na informação de prescrição aprovada pela FDA. Mas Bishal Gyawali, oncologista e investigador de políticas do medicamento no Canadá, disse aos parceiros do ICIJ no Toronto Star que a Merck provavelmente dá a mesma dose a toda a gente por uma razão: dinheiro. “Podem vender mais do medicamento e vão ganhar mais dinheiro. Não há razão científica, médica ou biológica para o fazer. É puramente motivado comercialmente.”

“UMA POTENCIAL MINA”

Esperando proteger a sua galinha dos ovos de ouro, a Merck manteve-se concentrada na principal forma que conhecia de manter os preços altos: o sistema global de patentes. As patentes principais do Keytruda iriam expirar em 2028, e os investidores preocupavam-se com a forma como a Merck iria gerar receitas depois de o Keytruda perder o seu monopólio. Essa perda de exclusividade abriria as comportas a rivais com preços muito mais baixos — um precipício de patente (patent cliff) de 32 mil milhões de euros.

Para que tal não acontecesse, a Merck mobilizou o seu exército de advogados. Tahir Amin, fundador da Initiative for Medicines, Access and Knowledge (I-MAK), chamou à estratégia da Merck um esquema de abuso de patentes em várias frentes para prolongar o seu monopólio. A Merck diz que a I-MAK propaga o mito de que as farmacêuticas manipulam o sistema de patentes ao apresentar múltiplas patentes sobrepostas para atrasar indevidamente a entrada de medicamentos genéricos ou biossimilares.

Quando o ICIJ mapeou o panorama de patentes do Keytruda, encontrou 1212 pedidos de patente relacionados com o medicamento, em 53 países, regiões e territórios — incluindo 194 nos EUA, 123 no Japão, 87 na Austrália, 80 na China e 74 tanto na Coreia do Sul como no Canadá. O ICIJ encontrou 211 patentes concedidas que ajudam a proteger o domínio do Keytruda pelo menos até 2042 — 14 anos depois de as patentes originais expirarem. Identificou ainda pelo menos outras 337 patentes pendentes. 84% de todos estes pedidos foram apresentados depois da aprovação do Keytruda em 2014.

“Cada pedido de patente é uma potencial mina” que pode criar um desafio jurídico dispendioso e demorado para os concorrentes mais baratos, disse Amin ao ICIJ. “O objectivo é bombardear o concorrente em tapete com tantas patentes quantas possível.”

Mas a Merck diz que as suas patentes posteriores a 2014 são genuinamente novas descobertas. “Continuamos a avaliar o Keytruda na esperança de alargar a sua utilização a outras formas de cancro”, disse Herrmann. “Isto inclui inovações em torno da formulação, dosagem e novas utilizações, incluindo combinações com outros agentes.”

A correria da Merck para fortificar o seu domínio inclui apresentar pedidos de patente com pequenas alterações às quantidades de dosagem e aos calendários de administração, bem como pedidos para combinações do Keytruda com outro medicamento. O ICIJ identificou 29 pedidos apresentados conjuntamente pela Merck e pela japonesa Eisai relativos à terapêutica de combinação do Keytruda com o medicamento oncológico Lenvima.

A Merck engendrou outra estratégia comum: o “salto de produto” (product hop), que consiste em apresentar novas patentes para uma versão semelhante e mais recente do mesmo medicamento, reiniciando o relógio das patentes. A Merck espera passar até 40% dos seus clientes para uma injecção de Keytruda administrada por via subcutânea, em vez de uma infusão intravenosa, antes que os rivais mais baratos consigam afirmar-se.

E a Merck adoptou uma nova táctica de preços na América Latina em 2024, quando uma empresa argentina tentou abalar o mercado com uma versão local e mais barata do Keytruda chamada PembroX. A Merck não tinha qualquer patente em vigor na Argentina. O PembroX entrou à venda em Janeiro de 2025; no dia anterior ao lançamento, a Merck baixou subitamente o preço do Keytruda em 50%, ficando apenas marginalmente acima do preço da concorrência, disse Gustavo Pelizzari, presidente executivo da farmacêutica rival Elea, aos parceiros argentinos do ICIJ.

“Estou convencido de que estão a vender muito mais barato na Argentina do que nos Estados Unidos”, disse Pelizzari. “A Merck devia ser obrigada a vender ao preço argentino. É por isso que não tornam os preços públicos.”

EXPLOSÕES DE PREÇOS

Davis sofreu uma onda de ódio online depois de ter expressado condolências por Brian Thompson, presidente executivo da UnitedHealthcare, baleado mortalmente à porta de um hotel de Midtown Manhattan em Dezembro de 2024. A morte ao início da manhã desencadeou uma celebração generalizada por parte de doentes de todo o mundo que tinham visto pedidos de comparticipação recusados pelos seus seguros.

Davis lidava com pressões adicionais: embora o termo da patente do Keytruda ainda estivesse a quatro anos de distância, os investidores já se preparavam para o impacto. Com o novo Presidente dos EUA a apregoar nos comícios de campanha preços mais baixos para os medicamentos, o que significaria isso para a Merck e o Keytruda?

“Há, portanto, muitas preocupações em torno do Keytruda”, disse Tim Anderson, então analista de acções do Bank of America, durante uma conferência telefónica de resultados em Abril de 2025. A Merck estava confiante, respondeu Davis: “Temos mais de 20 novos produtos que vemos a chegar nos próximos anos, quase todos com potencial de êxito de vendas.”

A Merck pagou 15 milhões de euros à PhRMA em 2024 para fazer lobbying em seu nome, e Davis, seguindo as pisadas do seu antecessor, foi eleito presidente da associação sectorial em Fevereiro. A PhRMA pediu explicitamente aos funcionários norte-americanos que visassem a política de medicamentos europeia e tomassem medidas contra países que tentam controlar os preços. Entre as nações apontadas: Austrália, Canadá, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Suíça e Reino Unido.

Numa conferência em Paris, em Fevereiro, o vice-primeiro-ministro e ministro da Saúde da Bélgica, Frank Vandenbroucke, detalhou o “aperto” (squeeze) para fazer subir os preços. “A administração Trump está preparada para usar a coerção comercial para forçar os governos europeus a alterar as suas práticas de fixação de preços.” Citou a alegação de Trump, em Janeiro, de que tinha pressionado o Presidente Emmanuel Macron a aumentar os preços dos medicamentos franceses, ameaçando aplicar tarifas de 100% ao champanhe.

Após meses de pressão da Casa Branca, Davis juntou-se a executivos de 15 empresas farmacêuticas para subscrever acordos com Trump no sentido de vender medicamentos a preços mais baixos nos EUA. Nem a administração Trump nem os fabricantes quiseram divulgar pormenores dos acordos. A Merck não quis dizer se Trump abriu uma excepção para o Keytruda, mas investigadores de políticas de saúde e fontes governamentais disseram não ser claro que o preço do Keytruda venha a baixar nos EUA tão cedo. Os preços poderão, no entanto, subir noutros lados — como já subiram no Reino Unido ou como poderão subir na Alemanha, onde uma fonte da indústria antevê “explosões de preços”. E, disse Peter Maybarduk, “nos países pobres, tudo o que os planos de Trump podem alcançar é mais sofrimento e morte”.

PROMESSAS E PRESCRIÇÕES

Em Fevereiro, Trump aproveitou o seu discurso sobre o Estado da União para fazer um discurso de incentivo sobre o abrandamento da economia norte-americana. “O nosso país está outra vez a ganhar. Na verdade, estamos a ganhar tanto que nem sabemos bem o que fazer com isso.”

“Pus os medicamentos sujeitos a receita médica a passar do preço mais alto do mundo inteiro para o mais baixo”, disse Trump. “O resultado são diferenças de preço de 300, 400, 500, 600% e mais” — alegações para as quais a administração não forneceu quaisquer provas.

Não houve qualquer menção ao Keytruda. Trump dedicou apenas cinco minutos das 1 hora e 47 minutos — o discurso sobre o Estado da União mais longo da história — a falar de custos com saúde. Celebrou a equipa masculina norte-americana de hóquei no gelo durante mais um minuto.

A quase 5000 quilómetros de distância, na Guatemala, o contraste com as grandes promessas de Trump em matéria de cuidados de saúde acessíveis sentia-se a um mundo de distância. Ao nascer do sol numa fria sexta-feira de Fevereiro, Julio Ramirez, o oncologista que tratou Alberto Xum, atravessou a pequena sala de espera da unidade de oncologia do seu hospital público, a caminho do gabinete onde vê cerca de 40 doentes por semana.

Ramirez mostrou a um jornalista do ICIJ listas manuscritas de medicamentos de que precisa para os seus doentes. Sabia que era pouco provável que conseguisse obtê-los todos por causa das restrições orçamentais. “Olhe, eu não me estou a queixar. Tenho a oportunidade de dar [Keytruda] pelo menos a dois ou três doentes aqui no hospital” — uma melhoria face ao que conseguia oferecer anteriormente.

“O meu sonho seria poder dar a todos os meus doentes as receitas de que precisam, sem ter de jogar ao "lá em cima do piano" para decidir quem fica e quem não fica”, disse.

Era hora de o médico começar a ver os doentes do dia. Um homem baixo, de meia-idade, com máscara facial e gorro de esqui, avançou silenciosamente em direcção ao gabinete, agarrado aos seus mais recentes resultados de exames. Ramirez apertou-lhe a mão e, depois, deitou mãos àquilo que podia — e ao que não podia — fazer por ele.

Contribuiram para esta investigação: Echo Hui (Australian Broadcasting Corporation); Andrés Bermúdez Liévano, Iván Ruiz (CLIP); Hala Nasreddine (DARAJ); Lars Bové (De Tijd); Zsuzsanna Wirth, Zita Szopko (direkt36); Pelin Ünker (DW Türkçe); Sergio Silva Numa (El Espectador); Carlos Carabaña, Daniele Grasso (El País); Gaby de Groot, Thieu Vaessen (Het Financieele Dagblad); Mariel Fitz Patrick (Infobae); Shauna Bowers (Irish Times); Jiyoon Kim (KCIJ-Newstapa); Kristof Clerix (Knack); Gloria Riva e Leo Sisti (L'Espresso); Francisca Skoknic (LaBot); Hugo Alconada Mon (La Nación); Natasha Cambronero (La Nación); Anne-Sophie Leurquin (Le Soir); Yiswaree Palansamy (Malaysiakini); Jacob Borg (Malta Times); Dejan Milovac (MANS); Maria Christoph, Sophia Stahl (Paper Trail Media); Jody García (Plaza Pública); Guilherme Waltenberg (Poder360); Stefan Melichar (profil); Despina Papageorgiou (Reporters United); Violeta Santiago (Quinto Elemento Lab); Fabiola Torres (Salud con Lupa); Fiona Walker, Andjela Milivojevic (The Bureau of Investigative Journalism); Nayonika Bose, Anonna Dutt, Kaunain Sheriff (The Indian Express); Amy Dempsey, Jesse McLean, Megan Ogilvie (Toronto Star); Jacob Borg (Times of Malta); Dirk Waterval, Martijn Roessingh (Trouw); Austin Fast (USA Today); Kirsi Karppinen, Minna Knus-Galan (Yle); Denise Ajiri, Agustin Armendariz, Jelena Cosic, Isabella Cota, Jesús Escudero, Miguel Fiandor Gutiérrez, Karrie Kehoe, Micah Reddy, Delphine Reuter, Joanna Robin, David Rowell, Richard H.P. Sia, Dean Starkman, Fergus Shiel, Annys Shin, Angie Wu (ICIJ).

Tratar a ruptura social como 'diversidade cultural'



Olhar para os outros países europeus que estão cheios de problemas de crime (sobretudo violações e crimes de faca) e de ruptura social a ameaçar a estabilidade social e política e chamar-lhe 'diversidade cultural' e afirmar que a entrada de 1,2 milhões de imigrantes, sendo 19% islamitas (ou mais, pois talvez os outros 14% vindos de Inglaterra também o sejam) vai promover a coesão social, apesar de constatar que a imigração não resolve o problema do envelhecimento da população, ou é cegueira ou desonestidade. 
Vou mais pela desonestidade, pois o artigo afirma que cabe a todos integrar seja como for estes imigrantes quando ela sabe que apenas uma parte da população vai sofrer com esta imigração em massa e não são os que vivem na bolha - ela fala especificamente nos professores terem que fazer esse trabalho. Neste país os responsáveis, sendo incompetentes para resolver os problemas, põem para cima das escolas e dos professores a solução de todos os problemas sociais - e têm sempre um rebanho a segui-los.
Quem, em particular, vai sofrer com esta imigração desenfreada em massa (a quem chama 'inédita'), são as raparigas e mulheres que serão as sacrificadas, como vemos que aconteceu imediatamente em todos os países com imigração massiva de islamitas. TODOS. 
São centenas de milhar de raparigas violadas nesses países e um nível de assédio diário e constante que impede que possam ter o direito de andar nas ruas do seu país em liberdade, pois é dada preferência aos direitos desses imigrantes islamitas. 
Já aqui em Portugal o número de violações subiu drasticamente. Portanto, a esquerda acha aceitável sacrificar raparigas e mulheres no altar da sua ideologia de integração de pessoas não-integráveis. Talvez por isso, nas definições das prioridades de crime a resolver não se achou de valor incluir os crimes sexuais, apesar de haver 11 violações por semana - sabendo nós que neste crime, a maioria dos casos nunca é denunciada.


O desafio da integração

Cristina Casalinho

(...) entre 2001 e 2021, a população estrangeira a viver em Portugal passou de 2,2% para 5,2% (informação dos Censos). Recorrendo aos registos na Segurança Social, de acordo com o Boletim Económico de março de 2026 do Banco de Portugal, no final de 2025, o número de estrangeiros em Portugal atingiu 1,13 milhões, que compara com 152 mil em 2010. Desde 2018, estima-se entrada total de 1,2 milhões, tendo-se registado o pico em 2024. Este movimento constitui o maior influxo de população desde 1974-1975.
(...)
A maioria dos trabalhadores estrangeiros registados na Segurança Social como empregados por conta de outrem tem proveniência do Brasil (38%), sul da Ásia (19%), PALOP (14%), e Europa, incluindo Reino Unido (14%)

Muito embora os fluxos migratórios não permitam resolver estruturalmente o envelhecimento populacional, mitigam tensões existentes no mercado de trabalho, evitando estrangulamentos em setores onde se deteta falta de mão-de-obra — seja na construção, agricultura ou turismo —, e contribuindo decisivamente para o crescimento económico.

Pela rapidez e magnitude do acréscimo de população estrangeira, tornando a sociedade portuguesa mais heterogénea, designadamente devido à percentagem significativa de não-falantes de português, impõe-se um esforço importante no sentido de assegurar condições de equidade e integração, através de acesso à educação, trabalho condigno, saúde, habitação, ou seja, à defesa de direitos, liberdades e garantias.

Com a nova diversidade da população, Portugal aproxima-se da realidade vivida na maioria dos países europeus, quebrando a tradicional homogeneidade cultural. 

Neste esforço coletivo de integração de um número inédito de migrantes, para o qual, pela sua vastidão, todos somos convocados, a sociedade civil tem um papel fulcral a desempenhar na busca de soluções práticas eficazes e facilitação do acesso a serviços. Nos acessos a disponibilizar, importa priorizar: educação, em particular o ensino do português para estrangeiros; justiça, designadamente o conhecimento do quadro legal relativo ao mercado de trabalho e acesso a bens públicos; ou habitação, materializada no acesso a alojamento digno.
(...)
Esta é uma prova exigente, mas plenamente superável, com benefícios claros para a coesão e o futuro coletivo.

Público

April 12, 2026

Too early ? 😎

 

Querem aumentar o preço dos medicamentos e então vêm com estas conversas de merda




Não há farmacêuticos, não querem gastar dinheiro em medicamentos (da mesma maneira que não o querem gastar em médicos ou em enfermeiros) e a única solução que têm para os problemas é pôr algumas pessoas a pagar os medicamentos a preços dos EUA onde é preciso uma pessoa hipotecar a casa para pagar qualquer doença. Meter ordem nas obscenidade de preços das farmacêuticas? Em todo este artigo não há uma palavra contra o lobbie obsceno das farmacêuticas e até o defendem dizendo que a inovação tem de pagar-se muito cara.  Os políticos -e não só em Portugal- são incompetentes e cobardes e acima de tudo estão é preocupados com a sua vidinha.


Comparticipação dos medicamentos deve ser “de acordo com as necessidades de cada um”

Público

Profissionais têm a “percepção de que estão a aumentar” os casos de utentes que não conseguem comprar todos os medicamentos, alerta bastonário dos Farmacêuticos em entrevista ao PÚBLICO.“Precisamos que direcção executiva do SNS seja um maestro agregador”

É preciso equilíbrio “para garantir a sustentabilidade do sistema e, ao mesmo tempo, o acesso aos medicamentos”, diz o bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, que se mostra preocupado com o número de pessoas que não consegue comprar todos os medicamentos prescritos. “Ouço frequentemente farmacêuticos comunitários dizerem que a parte mais difícil do seu exercício profissional é quando têm doentes que precisam dos medicamentos e não têm dinheiro para os comprar”, diz Hélder Mota Filipe, em entrevista ao PÚBLICO. “Isto não deveria ser necessário para nenhum doente e deve preocupar-nos imenso”, alerta, defendendo que o regime de comparticipação dos medicamentos deveria ser ajustado à capacidade financeira do utente.​

Estamos numa espécie de pausa, mas com o conflito do Médio Oriente Portugal pode enfrentar rupturas no abastecimento?
Até ao momento não há esse risco. Houve uma lição que foi aprendida com a pandemia e que fez com que hoje os stocks de matérias-primas na Europa sejam superiores. Se a guerra não se prolongar por muito tempo, penso que não teremos problemas de abastecimento. Outra coisa é o preço a que as matérias-primas chegam, todo o impacto que o aumento do preço da energia pode ter. Isso depende de quanto tempo durar este conflito.

O presidente da Apifarma disse que o preço dos medicamentos terá de aumentar. Fez-se um comparativo da Europa com os preços nos Estados Unidos. Temos de rever os preços?
Acho que é muito cedo para pensarmos no que deve ser feito, porque, mais uma vez, depende muito de como vai evoluir a instabilidade global. Nunca foi correcto comparar os preços dos Estados Unidos com os preços da Europa, têm um sistema de saúde muito diferente do europeu. De qualquer forma, acho que temos de nos preparar para pagar mais pelos medicamentos, pela inovação que está a entrar e a fazer diferença na vida de muitos doentes. 

A inovação vai continuar a entrar a uma velocidade maior do que até aqui e os sistemas têm de se preparar, se querem continuar a dar acesso às melhores terapêuticas, para pagar mais.

Como é que isto se coaduna com a redução de gastos prevista no Orçamento do Estado?
Assumir, à partida, que vamos ter cortes nos medicamentos de 200 milhões parece-me um bocadinho irresponsável. Temos de assumir que ou continuamos a tratar os doentes com o estado da arte — e inclui muitas vezes a incorporação de novos medicamentos que são caros — ou temos de assumir que, se vamos gastar menos, provavelmente não vamos dar o mesmo nível de acesso à inovação que temos dado. Com o crescimento que temos visto, não podemos assumir que vamos gastar menos nos próximos anos em medicamentos. O que devemos garantir é que temos no terreno todos os mecanismos para gastar o mínimo possível, dando acesso à inovação.

Que mecanismos são esses?
Temos de garantir que há capacidade de rever o valor dos medicamentos em cada momento, de renegociar esse valor de acordo com os dados que temos. O Governo tem de apostar nas condições para criarmos essa capacidade. O Infarmed não tem os recursos humanos nem materiais implementados para poder, de forma sistemática, fazer isto. Os hospitais também não têm essas condições. Um estudo da Associação Portuguesa dos Administradores Hospitalares diz que apenas 23% das instituições hospitalares monitorizam de forma sistemática os resultados sobre a eficácia e a segurança dos medicamentos.

E mais uso de genéricos e biossimilares...

Esse é o outro aspecto. Temos de garantir que pagamos o valor correcto relativamente ao resultado do uso destes novos medicamentos e, ao mesmo tempo, usar ao máximo o efeito dos genéricos e dos biossimilares. O que se liberta daí contribuirá também para continuar a pagar a inovação.

Temos dos preços mais baratos da Europa, mas nós também temos uma capacidade de pagar das mais baixas da Europa

A Equalmed fez um estudo, há um ano, que comparou os 15 genéricos mais vendidos em Portugal com os países de referência e, em grande parte, eram mais baratos em Portugal. Por outro lado, continuamos a ter doentes que não conseguem comprar tudo.

Temos dos preços mais baratos da Europa, mas nós também temos uma capacidade de pagar das mais baixas da Europa. Não podemos exigir ter preços ao nível de países que têm um PIB muito superior ao nosso. Por outro lado, vivemos num contexto internacional e se os preços dos medicamentos forem muito baixos, a indústria deixa de ter condições para os manter no mercado. Temos de ter aqui um equilíbrio para garantir o acesso ao menor preço possível. Isso faz com que tenha de haver mecanismos — e já foi aplicado duas vezes nos últimos anos — de rever medicamentos com o preço muito baixo e aumentá-lo. Há este equilíbrio que deve ser feito de forma fina para garantir a sustentabilidade do sistema e ao mesmo tempo o acesso aos medicamentos.

Outro aspecto tem a ver com a capacidade de pagar das pessoas. Ouço frequentemente farmacêuticos comunitários dizerem que a parte mais difícil do seu exercício profissional é quando têm doentes que precisam dos medicamentos e não têm dinheiro para os comprar. E o papel do farmacêutico é tentar, dentro da capacidade que o doente tem, arranjar algum racional terapêutico e ajudá-lo a escolher os medicamentos que são mais necessários. Isto não deveria ser necessário para nenhum doente e deve preocupar-nos imenso.

Deve haver uma forma diferente de comparticipação?
Devemos deixar a filosofia de comparticipar medicamentos cegamente e passar à filosofia de comparticipar de acordo com as necessidades de cada um. O Estado comparticipa aquele preço independentemente da condição. O complemento solidário para idosos é para pessoas que têm muita dificuldade em sobreviver, digamos assim, mas temos uma faixa cada vez maior de classe média-baixa que tem dificuldade em cumprir com todas as despesas mensais e também em ter disponibilidade financeira para fazer o esforço, que hoje está a ser exigido, para comparticipar o preço do medicamento.

Como pode ser este modelo de comparticipação?
Tem de ser com base na capacidade de pagar de cada um e isto tem de ser visto... Tem de ser muito mais uma componente até da Segurança Social que deve encaixar na garantia do acesso aos cuidados de saúde e, nomeadamente, aos cuidados farmacêuticos. É importante que não ignoremos que esta situação está a acontecer. E basta, se o Governo quiser, falar com os farmacêuticos comunitários que todos têm casos destes e a percepção de que estão a aumentar. Temos, de uma forma serena mas urgente, de olhar para esta situação.

Temos tido cada vez mais relatos de hospitais com dificuldade em garantir o stock para o seu funcionamento adequado

Várias associações estão a relatar problemas em levantar nas farmácias hospitalares medicamentos para um tempo razoável.
Há duas situações. Uma é a falta de medicamentos em alguns hospitais. E é importante também não ignorar este aspecto. Temos tido cada vez mais relatos de hospitais com dificuldade em garantir o stock para o seu funcionamento adequado.

É uma questão de ausência de produto no mercado, de gestão, de financiamento?
Há de tudo. Mas as falhas de medicamento no mercado acontecem frequentemente e as farmácias hospitalares estão habituadas a gerir estes aspectos através de stocks com outros hospitais. Estão a usar este mecanismo cada vez mais, porque não têm capacidade de comprar os medicamentos.

Porque há indicações para que haja um corte com a despesa dos medicamentos?
Não parece que seja isso. Parece mesmo que é algum mal funcionamento e provavelmente limitações financeiras. Aquilo que é relatado é a falta de medicamentos por atrasos nos concursos para compras ou falta de cabimento orçamental. Isto nunca devia acontecer ou [a acontecer] ser excepção, mas estávamos habituados a que acontecesse no fim do ano. Nós estamos em Abril. Acho que os políticos devem assumir as situações e não tentar criar cenários alternativos para parecer que a situação é outra. Tenho esse relato de colegas e de outros profissionais de saúde que é viverem no dia-a-dia estas limitações e depois ouvirem os responsáveis políticos negarem as situações.

Tem-se agravado?
Pelo que tem chegado à Ordem, dá a sensação de que se tem agravado. E só isto é suficiente para que nós tenhamos de alertar. Não faz sentido obrigar os doentes a voltarem duas e três vezes ao hospital porque não há stock para garantir a terapêutica de acordo com a lei. Depois, há um outro problema, que tem a ver com dispensa de medicamentos hospitalares em proximidade.

Que impacto podem ter interrupções no tratamento?
Depende do tratamento e da doença. O que é importante garantir é que ninguém interrompe a terapêutica se tiver de ser continuada. É desumano pedir a um profissional que tenha de fazer este papel de ajudar a gerir o acesso limitado à medicação. Apesar de tudo com o menor impacto possível, mas que é sempre grande.

Isto depois impacta nos anos de vida saudável a partir dos 65 anos, que em Portugal estão aquém dos de outros países.
Exactamente. A maioria dos doentes que têm esta dificuldade são pessoas idosas e isto depois liga com os números vergonhosos que temos nas estatísticas para a qualidade de vida e para a carga de doença a partir dos 65 anos. Ficamos sempre pessimamente.

Saiu agora o Eurostat, se nos compararmos com os países do Sul da Europa, cerca de 45% — é homogéneo em praticamente todos — da população considera que tem saúde boa ou muito boa e em Portugal são só 19%. Isto deve preocupar-nos imenso. Liga-se com o que dizia de garantir o acesso a medicamentos a esta população, nomeadamente através de outros mecanismos de comparticipação que permitam que os doentes não deixem de ser tratados por dificuldade económica. O medicamento só é útil se for usado e da forma adequada.

É importante que não se deixe fugir estes especialistas para o privado, para o estrangeiro e que o SNS comece finalmente a resolver este problema de escassez crónica de farmacêuticos

Há cerca de ano e meio faltavam cerca de 500 farmacêuticos no SNS. E agora?
A realidade está em mudança com a residência. Nós precisamos de farmacêuticos em áreas que hoje são exigidas pela legislação europeia: dispositivos médicos, terapias avançadas, custo e efectividade, decisões terapêuticas, alternativas terapêuticas, a reconciliação terapêutica. Não temos farmacêuticos para isso. Com a carreira e a residência farmacêutica, temos, além dos 1000 colegas, um pouco mais de 500 que estão em formação da especialidade (contanto com a residência em análises clínicas e genética humana). Neste momento estamos a verificar o que se vê, por exemplo, no internato médico de muitas especialidades que são os serviços a não conseguirem prescindir dos residentes.

Quando é que os primeiros residentes terminam a formação?
Temos cerca de 100 que estão no último ano da residência. O que é urgente para que tudo corra bem? Que se comecem a identificar as necessidades nas diferentes ULS e que se abram vagas com tempo. É importante que não se deixe fugir estes especialistas para o privado, para o estrangeiro e que o SNS comece finalmente a resolver este problema de escassez crónica de farmacêuticos que levam a disfunções no funcionamento do hospital.

Isso leva a escusas de responsabilidade.
Continuamos a ter escusas activas, temos 141 em 25 ULS. Não têm vindo a aumentar. Acho que a entrada de residentes ajudou, mas muitas destas escusas são por falta de condições para preparação de citotóxicos para a hospitalização, de funcionamento de falta de especialistas. Nenhuma destas escusas leva a que os profissionais não façam a sua tarefa. É uma forma que têm de alertar para as condições em que estão a trabalhar e isto tem de ser resolvido.

Uma crítica que faço a este Governo é o de negar as evidências. Quando o problema existe, é preciso assumir e dizer como se vai resolver e não continuar a arranjar argumentos para parecer que é uma percepção. Esta atitude que tem havido de desvalorizar ofende os profissionais.


April 11, 2026

Tenho saudades de quando havia muitas bandas boas a fazer boa música

 

E o saxofone aqui tão sexy. E repare-se na letra. E tenho saudades destas bandas que ao vivo soavam como nos discos.



When I was young, it seemed that life was so wonderful
A miracle, oh, it was beautiful, magical
And all the birds in the trees, well they'd be singing so happily
Oh, joyfully, oh, playfully watching me

But then they sent me away to teach me how to be sensible
Logical, oh, responsible, practical
And then they showed me a world where I could be so dependable
Oh, clinical, oh, intellectual, cynical

There are times when all the world's asleep
The questions run too deep
For such a simple man
Won't you please, please tell me what we've learned?
I know it sounds absurd
Please tell me who I am

I said, now, watch what you say, they'll be calling you a radical
A liberal, oh, fanatical, criminal
Oh, won't you sign up your name? We'd like to feel you're acceptable
Respectable, oh, presentable, a vegetable
Oh, take, take, take it, yeah

But at night, when all the world's asleep
The questions run so deep
For such a simple man
Won't you please (oh, won't you tell me)
Please tell me what we've learned? (Can you hear me?)
I know it sounds absurd (oh, won't you tell me)
Please tell me who I am
Who I am, who I am, who I am

Ooh
Hey

'Cause I was feeling so logical
Yeah
D-D-D-D-D-D-D-Digital
Yeah, one, two, three, five
Oh, oh, oh, oh, yeah

Ooh, it's getting unbelievable
Yeah
Getting, getting, yeah, yeah
Uh, uh, uh, uh

Como reestruturei o meu cérebro para me tornar fluente em matemática

 


Como reestruturei o meu cérebro para me tornar fluente em matemática


Desculpem, reformadores da educação, mas continuamos a precisar de memorização e repetição.

Por Barbara Oakley

Eu era uma miúda rebelde que cresceu no lado literário da vida, tratando a matemática e as ciências como se fossem pústulas da peste. Por isso, é um pouco estranho como acabei por chegar onde estou agora — alguém que lida diariamente com integrais triplas, transformadas de Fourier e aquela jóia da coroa da matemática, a equação de Euler. É difícil acreditar que passei de uma fóbica da matemática praticamente desde o nascimento a uma professora de engenharia.

Um dia, um dos meus alunos perguntou-me como é que eu tinha conseguido — como é que tinha mudado o meu cérebro. Apetecia-me responder: «Caramba — com muita dificuldade!» Afinal, tinha-me falhado nas disciplinas de matemática e ciências durante toda a minha passagem pela escola. Na verdade, só comecei a estudar matemática de recuperação depois de deixar o Exército, aos 26 anos. Se houvesse um exemplo clássico do potencial da plasticidade neural em adultos, eu seria a prova viva disso.

Aprender matemática e depois ciências na idade adulta abriu-me as portas para o mundo da engenharia. Mas estas mudanças no meu cérebro, conquistadas com esforço na idade adulta, também me deram uma perspectiva privilegiada sobre a neuroplasticidade que está na base da aprendizagem adulta. Felizmente, a minha formação de doutoramento em engenharia de sistemas — que une o panorama geral das diferentes disciplinas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Matemática) — e, posteriormente, a minha investigação e escrita centradas na forma como os seres humanos pensam, ajudaram-me a compreender os recentes avanços na neurociência e na psicologia cognitiva relacionados com a aprendizagem.

Nos anos que se seguiram ao meu doutoramento, milhares de alunos passaram pelas minhas salas de aula — alunos que foram educados no ensino básico e secundário a acreditar que compreender a matemática através da discussão activa é a chave da aprendizagem. Se conseguires explicar aos outros o que aprendeste, talvez desenhando-lhes um esquema, pensa-se, então deves compreendê-lo.

O Japão passou a ser visto como um exemplo muito admirado e imitado desses métodos de ensino activos e «centrados na compreensão». Mas o que muitas vezes falta na discussão é o resto da história: o Japão é também o berço do método Kumon de ensino de matemática, que enfatiza a memorização, a repetição e a aprendizagem mecânica, a par do desenvolvimento do domínio da matéria por parte da criança. 

Este intenso programa pós-escolar, e outros semelhantes, é adoptado por milhões de pais no Japão e em todo o mundo que complementam a educação participativa dos seus filhos com muita prática, repetição e, sim, aprendizagem mecânica inteligentemente concebida, para lhes permitir adquirir uma fluência conquistada com esforço na matéria.

Os professores podem, inadvertidamente, preparar os seus alunos para o fracasso, à medida que estes se deixam levar por falsas ilusões de competência.

Nos Estados Unidos, a ênfase na compreensão parece, por vezes, ter substituído — em vez de complementar — métodos de ensino mais antigos que os cientistas nos dizem — e sempre nos disseram — que funcionam em sintonia com o processo natural do cérebro para aprender disciplinas complexas como a matemática e as ciências.

A mais recente onda de reformas educativas na matemática envolve o Common Core — uma tentativa de estabelecer padrões sólidos e uniformes em todos os EUA, embora os críticos estejam a argumentar que os padrões ficam aquém quando comparados com países de alto desempenho. Pelo menos superficialmente, os padrões parecem apresentar uma perspectiva sensata. Propõem que, em matemática, os alunos adquiram igual facilidade na compreensão conceptual, nas competências processuais e na fluência, bem como na aplicação.

O problema, claro, está nos pormenores da implementação. No atual panorama educativo, a memorização e a repetição nas disciplinas STEM (ao contrário do que acontece no estudo das línguas ou da música) são frequentemente vistas como algo degradante e uma perda de tempo, tanto para os alunos como para os professores. 

Há muito que se ensina a muitos professores que a compreensão conceptual nas disciplinas STEM se sobrepõe a tudo o resto. E, de facto, é mais fácil para os professores induzir os alunos a discutir um tema matemático (o que, se feito correctamente, pode contribuir muito para promover a compreensão) do que para esse professor corrigir tediosamente os trabalhos de casa de matemática. 

O que tudo isto significa é que, apesar de se supor que as competências processuais e a fluência, juntamente com a aplicação, devam receber igual ênfase que a compreensão conceptual, muitas vezes isso não acontece. Transmitir uma compreensão conceptual reina suprema — especialmente durante o precioso tempo de aula.

O problema de nos concentrarmos incessantemente na compreensão é que os alunos de matemática e ciências conseguem, muitas vezes, apreender os fundamentos de uma ideia importante, mas essa compreensão pode desaparecer rapidamente sem uma consolidação através da prática e da repetição. 

Pior ainda, os alunos acreditam frequentemente que compreendem algo quando, na verdade, não compreendem. Ao defenderem a importância da compreensão, os professores podem, inadvertidamente, preparar os seus alunos para o fracasso, uma vez que esses alunos se deixam levar por uma falsa sensação de competência. 

Como um aluno (reprovado) de engenharia me disse recentemente: «Não consigo perceber como é que me saí tão mal. Eu tinha percebido quando o senhor ensinou na aula.» O meu aluno pode ter pensado que tinha percebido naquele momento, e talvez tenha percebido, mas nunca praticou a utilização do conceito para o interiorizar verdadeiramente. Não tinha desenvolvido qualquer tipo de fluência processual nem capacidade para aplicar o que pensava ter percebido.

Existe uma ligação interessante entre aprender matemática e ciências e aprender um desporto. Quando aprendes a dar uma tacada com um taco de golfe, aperfeiçoas essa tacada através de muitas repetições ao longo de vários anos. O teu corpo sabe o que fazer a partir de um único pensamento — um bloco de memória — em vez de ter de recordar todos os passos complexos envolvidos em bater numa bola.

Da mesma forma, assim que compreendes por que fazes algo em matemática e ciências, não precisas de continuar a explicar o «como» a ti mesmo cada vez que o fazes. Não é necessário andar com 25 bolinhas no bolso e dispor 5 filas de 5 bolinhas repetidamente para perceberes que 5 x 5 = 25. A certa altura, simplesmente sabes isso de cor. Memorizas a ideia de que basta somar os expoentes — aqueles pequenos números sobrescritos — ao multiplicar números que têm a mesma base (10⁴ x 10⁵ = 10⁹). Se usares muito esse procedimento, resolvendo muitos tipos diferentes de problemas, vais perceber que compreendes muito bem tanto o porquê como o como por trás do procedimento. A maior compreensão resulta do facto de a tua mente ter construído os padrões de significado. Focar-se continuamente na compreensão em si, na verdade, atrapalha.

Aprendi estas coisas sobre matemática e o processo de aprendizagem não nas salas de aula do ensino básico e secundário, mas ao longo da minha vida, enquanto uma criança que cresceu a ler Madeleine L’Engle e Dostoiévski, que mais tarde estudou línguas num dos principais institutos de línguas do mundo e, posteriormente, deu uma reviravolta radical para me tornar professora de engenharia.

Como uma jovem com um desejo de aprender línguas e sem dinheiro nem competências dignas de nota, não tinha meios para ir para a faculdade (os empréstimos para estudos superiores ainda não existiam na altura). Por isso, passei directamente do ensino secundário para o Exército. Adorava aprender novas línguas no ensino secundário, e o Exército parecia ser um lugar onde as pessoas podiam realmente ser pagas para estudar línguas, mesmo enquanto frequentavam o conceituado Instituto de Línguas da Defesa — um lugar que tinha transformado a aprendizagem de línguas numa ciência. 
(...)
Comecei a perceber que, embora fosse bom saber outra língua, era também uma competência com oportunidades e potencial limitados. (...) Não pude deixar de pensar nos engenheiros formados em West Point com quem tinha trabalhado no Exército. A sua abordagem à resolução de problemas, baseada na matemática e na ciência, era claramente útil para o mundo real — muito mais útil do que as minhas desventuras juvenis com a matemática alguma vez me tinham permitido imaginar.

Assim, aos 26 anos, quando estava a deixar o Exército e à procura de novas oportunidades, ocorreu-me: se realmente queria experimentar algo novo, por que não dedicar-me a algo que pudesse abrir-me um mundo inteiro de novas perspectivas? Algo como a engenharia? Isso significava que teria de tentar aprender outra linguagem muito diferente — a linguagem do cálculo.
(...)
Com a minha fraca compreensão até da matemática mais simples, os meus esforços de reciclagem profissional após o Exército começaram com aulas de recuperação de álgebra e trigonometria sem créditos. Isto estava muito abaixo do nível básico de matemática para a maioria dos estudantes universitários. Tentar reprogramar o meu cérebro às vezes parecia uma ideia ridícula — especialmente quando olhava para os rostos jovens e frescos dos meus colegas mais novos e percebia que muitos deles já tinham desistido das suas difíceis aulas de matemática e ciências — e lá estava eu a dirigir-me directamente para elas. Mas, no meu caso, com base na minha experiência de me tornar fluente em russo já adulta, suspeitava — ou talvez apenas esperasse — que pudesse haver aspectos da aprendizagem de línguas que eu pudesse aplicar à aprendizagem de matemática e ciências.

O que eu fiz ao aprender russo foi dar ênfase não apenas à compreensão da língua, mas à fluência. A fluência em algo tão abrangente como uma língua requer um tipo de familiaridade que só se consegue desenvolver através de uma interacção repetida e variada com os seus elementos. 

Enquanto os meus colegas de turma muitas vezes se contentavam em concentrar-se simplesmente em compreender o russo que ouviam ou liam, eu, pelo contrário, tentei adquirir uma fluência interiorizada e profundamente enraizada nas palavras e na estrutura da língua. Não me contentava apenas em saber que понимать significava «compreender». Praticava com o verbo — testando-o exaustivamente, conjugando-o repetidamente em todos os tempos verbais, passando depois a utilizá-lo em frases e, finalmente, compreendendo não só quando usar essa forma do verbo, mas também quando não a usar. 

Praticava recordar todos estes aspectos e variações rapidamente. Afinal, através da prática, é possível compreender e traduzir dezenas — ou mesmo milhares — de palavras noutro idioma. Mas se não se for fluente, quando alguém nos atira um monte de palavras rapidamente, como acontece na conversação normal (que soa sempre terrivelmente rápida quando se está a aprender uma nova língua), não fazemos ideia do que estão realmente a dizer, mesmo que, tecnicamente, compreendamos todas as palavras e a estrutura. E certamente não consegues falar com rapidez suficiente para que os falantes nativos achem agradável ouvir-te.

Esta abordagem — que se centrava na fluência em vez da simples compreensão — colocou-me no topo da turma. E, embora na altura não me tivesse apercebido, esta forma de aprender línguas proporcionou-me uma compreensão intuitiva de um princípio fundamental da aprendizagem e do desenvolvimento da especialização: a fragmentação.

O chunking foi originalmente concebido no trabalho pioneiro de Herbert Simon na sua análise do xadrez — os chunks eram vistos como as correspondências neurais variáveis de diferentes padrões de xadrez. Gradualmente, os neurocientistas perceberam que especialistas como os grandes mestres de xadrez são especialistas porque armazenaram milhares de chunks de conhecimento sobre a sua área de especialização na sua memória de longo prazo. Os mestres de xadrez, por exemplo, conseguem recordar dezenas de milhares de padrões de xadrez diferentes. 

Seja qual for a disciplina, os especialistas podem evocar à consciência uma ou várias dessas sub-rotinas neurais bem interligadas e fragmentadas para analisar e reagir a uma nova situação de aprendizagem. Este nível de compreensão verdadeira, e a capacidade de usar essa compreensão em novas situações, só advém do tipo de rigor e familiaridade que a repetição, a memorização e a prática podem fomentar.

Como demonstraram estudos realizados com mestres de xadrez, médicos de urgências e pilotos de caça, em momentos de stress extremo, a análise consciente de uma situação é substituída por um processamento rápido e subconsciente, à medida que estes especialistas recorrem rapidamente ao seu repertório profundamente enraizado de sub-rotinas neurais — os «chunks». 

A certa altura, «compreender» conscientemente porque fazemos o que fazemos apenas nos atrasa e interrompe o fluxo, resultando em decisões piores. Quando senti intuitivamente que poderia haver uma ligação entre aprender uma nova língua e aprender matemática, estava certo. Dia após dia, a prática sustentada do russo activou e interligou os meus circuitos neurais, e comecei gradualmente a entrelaçar fragmentos de conhecimento eslavo que conseguia evocar na memória de trabalho com facilidade. Ao intercalar a minha aprendizagem — por outras palavras, praticando de forma a saber não só quando usar aquela palavra, mas também quando não a usar, ou usar uma variante diferente dela —, estava, na verdade, a utilizar as mesmas abordagens que os profissionais especializados usam para aprender matemática e ciências.

Ao aprender matemática e engenharia já na idade adulta, comecei por utilizar a mesma estratégia que tinha usado para aprender línguas. Olhava para uma equação — para dar um exemplo muito simples, a segunda lei de Newton: f = ma. Pratiquei sentir o que cada uma das letras significava: f, de força, era um empurrão; m, de massa, era uma espécie de resistência pesada ao meu empurrão; e a era a sensação estimulante da aceleração. 

Memorizei a equação para poder levá-la comigo na minha cabeça e brincar com ela. Se m e a fossem números grandes, o que isso fazia com f quando eu a inseria na equação? Se f fosse grande e a fosse pequena, o que isso fazia com m? Como as unidades se combinavam em cada lado? Brincar com a equação era como conjugar um verbo. Eu estava a começar a intuir que os contornos esparsos da equação eram como um poema metafórico, com todo o tipo de belas representações simbólicas incorporadas nela. Embora não o tivesse colocado dessa forma na altura, a verdade é que, para aprender bem matemática e ciências, tive de construir lentamente, dia após dia, sub-rotinas neurais «fragmentadas» sólidas — como a que envolvia a equação simples f = ma — que pudesse facilmente evocar da memória de longo prazo, tal como tinha feito com o russo.

Repetidamente, professores de matemática e ciências têm-me dito que a construção de blocos de conhecimento bem consolidados, através da prática e da repetição, foi absolutamente essencial para o seu sucesso. A compreensão não gera fluência; pelo contrário, é a fluência que gera compreensão. Na verdade, acredito que a verdadeira compreensão de um assunto complexo só advém da fluência.

Por outras palavras, no ensino das ciências e da matemática em particular, é fácil cair em métodos de ensino que enfatizam a compreensão e que evitam a repetição e a prática, por vezes dolorosas, que estão na base da fluência. Aprendi russo não apenas por compreendê-lo — afinal, a compreensão é superficial e pode facilmente desaparecer. (O que significava aquela palavra понимать?) Aprendi russo ao adquirir fluência através da prática, da repetição e da aprendizagem mecânica — mas uma aprendizagem mecânica que enfatizava a capacidade de pensar de forma flexível e rápida. Aprendi matemática e ciências aplicando precisamente essas mesmas ideias. A língua, a matemática e as ciências, tal como quase todas as áreas de especialização humana, recorrem ao mesmo reservatório de mecanismos cerebrais.

À medida que me aventurava numa nova vida, tornando-me engenheiro elétrico e, mais tarde, professor de engenharia, deixei a língua russa para trás. Mas 25 anos depois a minha família e eu decidimos fazer a viagem de comboio pela Rota Transiberiana, atravessando a Rússia. Embora estivesse entusiasmado por fazer a viagem com que há tanto tempo sonhava, também estava preocupado. Mal tinha proferido uma palavra em russo durante todo aquele tempo. E se tivesse esquecido tudo? O que é que aqueles anos a ganhar fluência me tinham realmente trazido?

Efectivamente, quando entrámos no comboio, falava russo como uma criança de 2 anos. Eu procurava as palavras, as minhas declinações e conjugações estavam todas erradas e o meu sotaque, antes quase perfeito, soava horrível. Mas a base estava lá e, dia após dia, o meu russo melhorou. E mesmo com o meu russo rudimentar, conseguia lidar com as necessidades do dia-a-dia da nossa viagem. Em breve, os guias turísticos começaram a vir ter comigo para me pedir ajuda a traduzir para os outros passageiros. Quando finalmente chegámos a Moscovo, apanhámos um táxi. Descobri rapidamente que o motorista estava decidido a enganar-nos — dirigindo-se directamente na direcção errada e prendendo-nos num engarrafamento, onde esperava que nós, estrangeiros ignorantes, aceitássemos passivamente uma hora extra desnecessária no taxímetro. De repente, palavras em russo que eu não falava há décadas saíram da minha boca. Eu nem sequer sabia conscientemente que conhecia essas palavras.

No fundo, quando era preciso, a fluência estava lá — e rapidamente nos tirou do apuro (e nos colocou noutro táxi). A fluência permite que a compreensão se torne parte integrante, surgindo quando necessário.

Ao olhar hoje para a escassez de licenciados em ciências e matemática neste país, e para a nossa tendência atual na forma como ensinamos as pessoas a aprender, e ao refletir sobre o meu próprio percurso, sabendo o que sei agora sobre o cérebro, ocorre-me que podemos fazer melhor. 

Como pais e professores, podemos usar métodos simples e acessíveis para aprofundar a compreensão e torná-la útil e flexível. Podemos encorajar os outros e a nós próprios a experimentar novas disciplinas que pensávamos serem demasiado difíceis — matemática, dança, física, línguas, química, música — abrindo novos mundos para nós próprios e para os outros.

Como descobri, ter uma fluência básica e profundamente enraizada em matemática e ciências — e não apenas uma «compreensão» — é fundamental. Abre portas para muitos dos empregos mais intrigantes da vida. Olhando para trás, percebo que não precisava de seguir cegamente as minhas inclinações e paixões iniciais. A parte de mim que adorava literatura e línguas era também a mesma parte que, no fim de contas, se apaixonou pela matemática e pelas ciências — e transformou e enriqueceu a minha vida.


Educação - O sucesso da Estónia



Estou de acordo com a maioria do que a ministra da educação da Estónia diz, mas não com tudo. Nomeadamente a questão das redes sociais. Ela compara o tempo em que era miúda na URSS e tentava ultrapassar as proibições do regime, só que estas duas realidades não são comparáveis, porque a URSS censurava tudo o que vinha do Ocidente, era uma censura política, o que é diferente de censurar aplicações que causam vício, perda de memória, problemas de saúde, o atrofio do pensamento numa altura em que está em formação. é o mesmo que dizer que não se deve proibir o álcool, a cocaína, o tabaco, o vício da pronografia, etc., às crianças por causa da liberdade. E fala em culpa, quando isto não tem que ver com culpa.
Ela diz que tem que tirar-se os políticos da sala de aula, mas passa o tempo a dizer que impuseram uma política de todos ensinarem com IA... mais à frente diz que a formação inicial, para o desenvolvimento cognitivo e crítico profundos tem que fazer-se com caneta e papel...  muita contradição.

Receita para sucesso da Estónia: jardins-de-infância até aos sete anos e “políticos longe da sala de aula”

Kristina Kallas é a ministra da Educação de um país que se tem destacado pelos resultados que os seus alunos conseguem nas avaliações internacionais. A nova aposta é levar a IA às escolas secundárias.



Kristina Kallas, ministra da Educação na Estónia esteve esta semana em Portugal 
Rui Gaudêncio

Kristina Kallas é a ministra da Educação de um país que se tem destacado pelos resultados que os seus alunos conseguem nas avaliações internacionais. A nova aposta é levar a IA às escolas secundárias.

Se tivesse de escolher a peça mais importante na construção do sucesso escolar escolheria o jardim-de-infância. Mas nunca há só um factor. Há o contexto histórico do país. Há a forma como um professor é visto. A ministra da Educação da Estónia diz que tudo começa a correr mal quando os políticos se intrometem demasiado no trabalho dos professores.

Nos últimos anos, a Estónia chegou ao topo do PISA, o grande estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico que compara as competências dos alunos de 15 anos. A Matemática e a Ciências é o país da Europa com melhores resultados (e um dos melhores do mundo, competindo com Singapura, Japão ou Coreia do Sul, por exemplo).

É também pioneiro, desde há muito, no processo de digitalização das escolas, que começou ainda nos anos de 1990. E está a lançar uma estratégia nacional para a Inteligência Artificial (IA) no ensino secundário. Todos os professores, em todas as escolas, receberam formação nos últimos meses. Kristina Kallas esteve em Portugal esta semana, para participar no Oeiras Education Forum. Afirma que o poder disruptivo da IA é enorme e que, se nada for feito, a próxima geração terá "menos conhecimentos, menos capacidade de memória, menos capacidade de raciocínio, menos capacidade de avaliação crítica".

A Estónia é um país muito pequeno, com 1,3 milhões de habitantes. É esse o segredo do vosso sucesso?
Se olharmos para a Estónia apenas em termos de factos objectivos, todos nos dizem que este país não poderia ter um sistema educativo de primeira classe a nível mundial, porque é demasiado pequeno, o que significa que provavelmente não tem muito dinheiro.

Para além do mais, tem uma língua estranhíssima, que mais ninguém fala, à excepção de um milhão de pessoas — porque nem sequer os 1,3 milhões de habitantes da Estónia falam todos esta língua [há uma comunidade russa importante]. Se olharmos para Singapura, que tem [mais de] 5 milhões de habitantes, o seu sistema educativo é em inglês, o que significa que podem contratar professores talentosos de todo o mundo.

E, no entanto, estamos lá. Penso que há algo muito importante (e cabe aos portugueses decidirem se isso é relevante ou não para eles) que é a mentalidade em relação à educação. Na Estónia as pessoas sabem que a educação é um trabalho árduo, é suposto ser difícil, é suposto haver um currículo muito exigente. Professores, alunos, pais, todos estão preparados para o facto de requerer esforço.

Na sua apresentação [no Oeiras Education Forum, na quarta-feira] disse que no final do século XIX eram uma das regiões mais letradas da Europa, 95% da população sabia ler. Em Portugal nos anos de 1920 tínhamos 60% de analfabetos. Isto faz toda a diferença, não?
Faz diferença. E faz diferença o facto de ter sido através da educação que a Estónia nasceu como nação. O sistema educativo da Estónia já existia antes da criação do Estado estónio. A educação está no centro da nossa identidade nacional. Penso que se trata de um elemento histórico único. Em segundo lugar, temos a herança da ocupação soviética. A União Soviética era um lugar horrível, mas as mulheres podiam trabalhar porque havia uma instituição onde as crianças ficavam durante o dia. Após a independência da Estónia [em 1991], herdámos um sistema de cuidados infantis e construímos [por cima disso] uma instituição educativa para crianças desde a mais tenra idade. A partir de um ano e meio de idade as crianças frequentam o pré-escolar. Oito horas por dia, cinco dias por semana.

Oito horas por dia?
Sim. Hoje, pais e mães deixam os filhos no jardim-de-infância e vão trabalhar. Depois do trabalho, vão buscá-los. Os jardins-de-infância têm professores licenciados e têm currículos definidos que não se centram na aprendizagem académica, mas nas competências socioemocionais, nas competências de auto-regulação. E isso é essencial para dar oportunidades iguais de aprendizagem a todas as crianças.

Porque as crianças vêm de meios socioeconómicos e culturais muito diferentes, têm posições de partida muito diferentes. Os jardins-de-infância são os locais onde nos certificamos de que todas as crianças têm o mesmo, onde nivelamos as crianças. Não em termos de [aprendizagens de] Matemática e Leitura, mas de auto-regulação.

A criança consegue compreender as instruções que o adulto está a dar? A criança consegue concentrar-se durante pelo menos 20 minutos? Consegue ter uma conversa com um adulto? Perguntar, responder? Brincar em grupo? Se sim, significa que as competências socioemocionais estão presentes. E também as competências físicas, motoras, o desenho, o recorte, a colagem, a compreensão das cores, todo este tipo de coisas que são essenciais, são as bases para a aprendizagem académica.

Por causa do trabalho que é feito com a primeira infância, os alunos têm um desempenho muito melhor quando chegam aos 15 anos e têm de fazer os testes PISA da OCDE.

Mas na Estónia, quando saem do jardim-de-infância com sete anos [em Portugal o pré-escolar vai dos três até aos cinco anos e a idade de entrada normal no 1.º ano é seis anos], a maior parte das crianças já sabe ler, não é verdade?
Não. Podem saber ler, mas não é isso que se espera. Espera-se que conheçam o alfabeto. Devem conhecer os sons e ser capazes de dizer os sons. De dizer isto é um "S", e um "T"... de ler duas letras juntas, "VA", etc... Devem conhecer os números.

Quando chegam à escola, no 1.º ano, a aprendizagem da leitura é muito rápida. Após os primeiros dois meses, basicamente já todos têm de ler. É como um acelerador. E a razão para isso é que o jardim-de-infância os preparou para a aprendizagem. Quando o meu primeiro filho foi para a escola, aprendeu a ler no primeiro mês. No segundo mês a professora deu um livro e disse que ele o tinha de ler em casa. E eu pensei: "Meu Deus, isto é muito rápido." Mas foi o que ele fez. Quer dizer, tive de me sentar um pouco com ele e forçar. Mas leu.

Se tivesse de escolher um único factor para que os alunos da Estónia se saiam tão bem quando comparados com os de outros países, o pré-escolar seria o principal?
Não acho que seja só uma coisa. Já falámos da [nossa] história da educação. E há muitos outros aspectos, como a autonomia das escolas. Mas se quiserem que escolha um, escolho o jardim-de-infância. Por causa do trabalho que é feito com a primeira infância, os alunos têm um desempenho muito melhor quando chegam aos 15 anos e têm de fazer os testes PISA da OCDE.

Em todo o mundo os alunos fazem esses testes aos 15 anos. Em alguns países as crianças já andam na escola há 10 anos, porque entraram aos cinco anos de idade no 1.º ano; noutros há nove, porque entraram aos seis; e no caso da Estónia, levam apenas oito anos de escola e estão a ter os melhores resultados. Portanto, não se trata de quão cedo se começa a aprendizagem académica, mas sim de como se está preparado para isso.

Costumo fazer esta brincadeira: sabem quais são os elementos que testam se a criança está pronta para ir para a escola? Nalguns países dizem que é quando sabem quanto é cinco mais cinco. E eu digo: "Estão preparados para a escola se conseguem explicar que horas são, se conhecem o relógio, em que estação do ano estão, como se vestir e como ir de casa para a escola e voltar sozinho." Na Estónia as crianças vão à escola sozinhas, não se espera que sejam os pais a conduzi-las.

Mas não quando têm um ano e meio, presumo.
Oh, não. Temos dois currículos separados no jardim-de-infância, um que vai do ano e meio aos quatro, e depois dos cinco aos sete anos. Estou a falar dos mais velhos. E se a criança é capaz de fazer tudo isso, significa que é capaz de aprender, porque há auto-regulação, há autoconsciência.

Há também uma grande diferença na forma como as escolas são geridas quando se compara Portugal e a Estónia. Na Estónia, as escolas podem contratar professores directamente. Podem despedir os professores se não estiverem satisfeitos com eles. Em Portugal, o sistema é centralizado. Qual é a importância de as escolas escolherem os seus próprios professores?
Bem, como ministra da Estónia digo: é importante que os directores das escolas tenham o direito de tomar decisões. Mas outros sistemas que são muito centralizados, como Singapura, funcionam muito bem. Acredito firmemente que o que importa é a autonomia que o professor tem na sala de aula para tomar decisões sobre a disciplina, as questões didácticas, as abordagens metodológicas. E até que ponto os professores da escola trabalham em equipa e existe um ambiente de trabalho colegial. Estas coisas são, por vezes, mais importantes do que o salário ou [o sistema de] contratação.

Muitos professores dizem que é impossível ter verdadeira autonomia quando os alunos têm tantos exames nacionais e tanta matéria que precisa ser ensinada...
Autonomia não significa que não se tenha de ensinar o que está no currículo. É sobre como se conduz o processo de aprendizagem, a forma como ensina, que ferramentas se utilizam. Esta liberdade é essencial, incluindo a forma como se disciplinam os miúdos. Não estou a falar de castigos corporais, mas se estamos a ensinar alguma coisa e precisamos de uma grande concentração na sala de aula e há dois miúdos que, naquele momento, por qualquer razão, estão a perturbar a aula, é preciso pedir a essas duas crianças que saiam, mandá-las para a biblioteca da escola, pedir ao bibliotecário da escola que trabalhe com elas, para que nos possamos concentrar no resto da turma e, mais tarde temos de trabalhar com essas duas crianças separadamente. Em muitos países os professores não estão autorizados a fazer isso. Na Estónia, têm total autonomia.

O ministério não tem de regulamentar nada relativamente às práticas de ensino e de aprendizagem. Os professores aprendem pedagogia, psicologia do desenvolvimento, psicologia cognitiva, didáctica... e depois pomo-los numa sala de aula e prescrevemos-lhes rigorosamente o que podem fazer e o que não podem fazer? Não faz sentido.

A Estónia também costuma ser apontada como um país onde há menos desigualdade de desempenhos escolares relacionadas com o contexto socioeconómico das crianças.
Infelizmente, estão a aumentar. Antigamente, éramos um país onde não havia segregação residencial, ricos e os pobres viviam no mesmo bairro. E como os alunos frequentam as escolas da sua zona [de residência] não havia diferenças. Mas nos últimos anos temos vindo a ver uma segregação residencial cada vez maior. Uma coisa que estamos a tentar combater é que as escolas possam ter o direito de seleccionar crianças. Todas as crianças têm de ter acesso aos melhores professores e à mesma aprendizagem.

Estão a lançar um programa chamado AI Leap, para colocar a Inteligência Artificial (IA) ao serviço das escolas. Sei que está no início ainda. Mas o que está a mudar?
Bem, penso que a IA é um enorme factor de perturbação na educação. E é um risco para a educação. E se continuarmos a fazer o mesmo que temos vindo a fazer há 200 anos, o risco é que a nossa próxima geração seja cognitivamente mais desqualificada. Terão menos conhecimentos, menos capacidade de memória, menos capacidade de raciocínio, menos capacidade de avaliação crítica, porque estarão a deixar que a IA o faça por eles. É um enorme risco para a educação.

Na Estónia não queremos que a próxima geração tenha menos capacidades cognitivas. Queremos que tenham mais capacidades cognitivas, que sejam pensadores muito mais capazes. Porque a tecnologia obriga-nos a ser pensadores muito mais profundos, muito mais sistemáticos, capazes de analisar a informação muito rapidamente, de dar sentido à informação, de ligar as coisas, de pensar isto está certo, isto não está certo, isto é um facto, isto não é um facto. Caso contrário, a tecnologia assume o controlo.

Esta é a base fundamental da nossa abordagem à IA na escola. Ainda não sabemos exactamente qual é a melhor forma de utilizar a IA. Mas assinámos um acordo de cooperação com a OpenAI sobre o ChatGPT. Desenvolvemos com os nossos cientistas uma versão educativa específica do ChatGPT para as escolas da Estónia. Trata-se de uma plataforma de aprendizagem específica, parece um ChatGPT normal, mas é pensada para contexto educativo, e formámos os professores. Fomos a todas escolas secundárias (156) e todos os professores dessas escolas, 5000, receberam formação desde Agosto. Demos-lhes as licenças, têm estado a usar, a experimentar... Afirmam que os ajuda muito a poupar tempo na preparação das aulas e eu acredito nisso.

E os alunos?
Os alunos estão a receber formação desde Fevereiro. E os professores integrarão esta IA passo a passo no processo de aprendizagem, não importa se ensinam desporto, música, matemática, estónio ou inglês... Em todas as disciplinas, temos de mudar a forma como ensinamos.

O papel dos políticos é financiar o sistema educativo, garantir o currículo e assegurar que esse currículo seja posto em prática, com exames, inspecções, o que for. Não é interferir no trabalho dos professores ou prescrever os métodos, as abordagens, porque nós não fazemos ideia de quem são as crianças na sala de aula.

Acredita que os alunos utilizarão este ChatGPT e não os outros?

Não se trata do que os alunos utilizam ou não utilizam, trata-se da forma como os professores integram este ChatGPT nas tarefas. Temos de confiar que os professores sabem o que estão a fazer. Não estamos a dizer-lhes como usar, quando usar, quando não usar. Damos-lhes formação, damos-lhes formação ética e muitas outras competências, damos-lhes a ferramenta e eles tomarão decisões sobre o processo de aprendizagem.

Mas diz-se que devemos reduzir o uso de ecrãs e as escolas vão passar a usar mais ecrãs?
As crianças precisam de menos tempo de ecrã depois da escola porque, caso contrário, não dormem o suficiente, não praticam desporto o suficiente. Não se trata das quatro ou cinco horas por dia que passam na escola. Trata-se do resto das 12 horas em que não estão na escola.

Mas, uma vez mais, o professor é o responsável pela aprendizagem das crianças, certo? Ele concebe o processo de aprendizagem, sabe como é que as crianças estão a aprender quando o dispositivo está à sua frente e como é que as crianças estão a aprender quando há papel e caneta e como é que estão a aprender quando há trabalho de equipa, porque estes processos de aprendizagem são diferentes. Os professores sabem disso. Sabem que se quisermos realmente desenvolver a memória profunda, usamos papel e caneta. A aprendizagem profunda inicial da memorização não acontece no ecrã. Os professores sabem-no porque lhes damos formação neste domínio.

Na Suécia a discussão actual é que precisam de voltar ao papel e à canetaporque as escolas utilizaram demasiado materiais digitais e não resultou.
Não tenho a certeza de que seja culpa dos ecrãs. Acabei de ler um relatório da OCDE sobre a Suécia e um dos aspectos apontados é o problema da indisciplina e das distracções que ocorrem durante as aulas. Nalguns casos pode ser por causa da tecnologia, ou porque se exagera no uso da tecnologia, mas no essencial a culpa não é dos ecrãs.

Cresci numa União Soviética em que tudo era proibido. Sabem o que é que eu fazia aos 15 anos? Passava o tempo a pensar: como é que posso enganar o sistema e fazer as coisas que não são permitidas?

Um segundo aspecto é que colocar uma criança em frente ao ecrã não é ensinar. E a OCDE disse claramente que, no caso da Suécia, os professores precisam de receber mais formação.

Uma terceira coisa, e não estou a falar da Suécia neste momento, mas em muitos casos, o que começa a correr mal na educação é quando os políticos começam a dizer aos professores como devem ensinar. É nessa altura que as coisas começam a correr mal. Por isso, se os políticos começarem a dizer aos professores, usem ecrãs, aqui está o vosso ecrã, são obrigados a usá-lo, é aí que as coisas começam a correr mal.

É preciso manter os políticos longe da sala de aula. O papel dos políticos é financiar o sistema educativo, garantir o currículo e assegurar que esse currículo seja posto em prática.

Com exames?
Com exames, inspecções, o que for. Não é interferir no trabalho dos professores ou prescrever os métodos, as abordagens, porque nós não fazemos ideia de quem são as crianças na sala de aula.

Uma última pergunta. O Parlamento Europeu tem vindo a apelar aos Estados-membros para que proíbam as redes sociais aos menores de 16 anos. E vários [incluindo Portugal] vão fazê-lo. A Estónia já disse que não o fará. Porquê?
Porque acho que os miúdos não são culpados. Estamos a castigar as crianças por algo que nós, adultos, fazemos. Devemos começar a regular as grandes corporações e a sua responsabilidade no que diz respeito aos conteúdos que disponibilizam, aos vícios que promovem através dos algoritmos. Se o Parlamento Europeu entrar em guerra contra estas grandes empresas, estarei na linha da frente. Temos de ser muito severos e trabalhar em conjunto, em vez de punir as crianças, porque as redes sociais, sim, têm impactos negativos, mas há tantas coisas que ligam as crianças através das redes sociais.

A experiência australiana traz-nos sinais de alerta. Apesar da proibição, 70% das crianças ainda estão no Facebook, no TikTok e em todo o lado. Começaram a utilizar formas alternativas. Sabe: cresci numa União Soviética em que tudo era proibido. Sabe o que é que eu fazia aos 15 anos? Passava o tempo a pensar: "Como é que posso enganar o sistema e fazer as coisas que não são permitidas?" Com a proibição das redes sociais às crianças, é com essa mentalidade que vão crescer, como enganar o sistema.