A curiosidade é importante? Uau! Se não o dissesse nunca nos passaria pela cabeça... Obrigada por esse 'conselho' aos professores sobre a importância da curiosidade.
Deixem-me contar uma pequena história elucidativa. Aqui há uns anos, fui DT de uma turma do 10º ano. Ao fim de duas semanas já nós, professores, tínhamos percebido que a turma era boa, tinha potencial, tinha três ou quatro alunos muito bons e poucos alunos fracos - também três ou quatro. Para melhorar a situação, os pais iam todos às reuniões, eram pessoas interessadas e a grande maioria era colaborante.
A meio de Novembro entrou um rapaz novo para a turma, transferido de outra turma da mesma área. Estava a trabalhar a Filosofia de uma maneira completamente diferente: estava a seguir o manual. Expliquei-lhe o que estávamos a fazer, dei-lhe os testes de diagnóstico de atitudes e comportamentos importantes para o sucesso nas disciplinas, metodologia, etc. Inclui a EE dele no grupo dos pais da turma e enviei-lhe as informações todas. Na reunião de pais do segundo período, a que já veio, já no fim da reunião, tomou a palavra para fazer uma cena, porque o filho tinha tido má nota no 1º período: que ele não sabia estudar, que eu não enviava apontamentos aos alunos por email, nem PPs, etc. Disse à senhora que tirava duas semanas logo no início do ano para ensinar aos alunos como estudar, como fazer um plano de estudo para todas as disciplinas, etc. Chamou-me mentirosa, disse que o filho não tinha nada disso. Com uma enorme paciência de santo (hoje-em-dia temos de nos mentalizar para aturar estes pais - obrigada, Lurdes Rodrigues) disse à senhora que ele entrou tarde na turma mas ainda a tempo de fazer um trabalho sobre estas metodologias -mais não disse porque não falo de alunos em particular em frente dos pais todos. Diz ela, 'não é isso o que o .... diz', ao que lhe respondi, 'isso, é um assunto que terá de esclarecer com ele e tirar daí ilações'. Isto tudo com muita calma por fora mas por dentro, não digo o que estava a pensar...
Em suma, no fim da reunião, há sempre EE que ficam para fazer perguntas sobre os seus educandos em particular. Vi que ela e o marido estavam à espera para falar comigo. Então que queria ela? Começou por pedir desculpa (insultou-me em público mas pede desculpa em privado...), disse que não queria ofender-me, que não foi por mal (então, foi por bem?) mas que ela e o marido estavam preocupados porque o filho não estudava nada de nada (Ah!!) e não sabiam o que fazer porque ele não ligava nenhuma ao que eles diziam.
Perguntei-lhe qual a disciplina que ele gosta? Nenhuma. Quais os interesses dele fora da escola? Nenhum, não se interessa por nada. Só joga no computador e na playstation. Então e quando é que ele começou a desinteressar-se e a deixar de ser curioso? Não sei, foi a resposta, nunca repararam - acham que os filhos são um software que corre sozinho. Mas o que é que os senhores faziam com ele quando ele era criança, quando queria saber e fazia perguntas? Jogos em família, levavam-no a algum sítio, liam-lhe histórias? Não. Nunca. Nem se lembravam de ele fazer perguntas e, como ele sempre teve boas notas na escola deixaram-no sempre à solta, entregue a si mesmo.
É claro que isto não é verdade porque os miúdos todos, quando entram ali nos três anos desatam a querer saber tudo sobre tudo e antes disso são curiosos com as mãos, mas se os pais guilhotinam essa curiosidade porque não têm paciência para dar seguimento à curiosidade e irrequietude dos filhos, eles refugiam-se nos telemóveis, nos jogos, na TV. Não sei, porque não tenho experiência de trabalhar com crianças, até que ponto os professores do 1º ciclo conseguem contrariar os maus hábitos que os miúdos trazem de casa já nessa idade: passividade, necessidade de imagens digitais, desinteresse pelo mundo natural e social extra-ecrã, desmotivação, incapacidade de ultrapassar frustrações, chantagem emocional, resistência ao esforço individual, etc.
Resultado. A EE perguntou-me o que é que eu podia fazer para o filho se interessar por estudar e mostrar interesse fosse pelo que fosse. Disse-lhes que ia tentar algumas estratégias e que, dado ele estar numa turma boa, talvez isso ajudasse mas que não faço milagres.
Isto hoje em-dia é muito comum. Os pais põem telemóveis nas mãos dos filhos para não terem que se chatear e depois, quando eles chegam ao 10º ano vêm perguntar-nos, depois de nos chamarem nomes por causa das notas deles (durante o básico qualquer um tira boas notas porque é proibido exigir resultados aos alunos), se podemos activar a curiosidade e interesse que eles mesmo embotaram nos seus filhos.
A curiosidade não é uma técnica que se ensine, como ensinar a resolver equações. É uma capacidade como a linguagem e desenvolve-se da mesma maneira: imitando os adultos que nos rodeiam. Há uma janela de intervalo para a desenvolver, tal como acontece com a linguagem, após a qual, o mais que se consegue são rudimentos e, com muita dificuldade.
O desenvolvimento da curiosidade começa desde o nascimento e é em casa que primeiro se desenvolve, respondendo positivamente ao interesse que os miúdos naturalmente têm pelo mundo. Planear iniciativas de desenvolvimento de interesses. Se os filhos vêem os pais agarrados ao telemóvel e à TV é o que passam a valorizar. A escola primária vem a seguir e paralelamente ao trabalho dos pais: reforça-a, desenvolve-a e ramifica-a para outras áreas - estão a perceber a importância dos professores que primeiro lidam com as crianças terem condições para trabalhar com os alunos? É ali que se faz a sementeira.
Portanto, senhor Norton, escusa de vir ensinar o Padre Nosso ao vigário e vá antes pregar para outras paróquias: a dos pais e a dos decisores políticos, sendo que uns descuram o interesse natural da criança pelo mundo e outros descuram as condições de trabalho dos professores do 1º ciclo.
Ensinemos a curiosidade
Pedro Norton
E a boa notícia é esta: a curiosidade não é um dom. Por mais extraordinários que pareçam ser (e foram) Plínio ou Diderot, o vírus da curiosidade não lhes foi inculcado à nascença. Não sei se o esforço foi deliberado ou se lhes bastou, como tantas vezes basta, sentir a alegria contagiosa da curiosidade de um pai, de um professor ou de um avô. Mas sei – até porque sei o muito que devo ao meu próprio pai – que a curiosidade de que fizeram prova terá sido fruto de um paciente ensinamento. Que é, aliás, o mais gratificante e o mais valioso de todos os ensinamentos. Precisamente porque abre caminho a todos os demais ensinamentos.
6. Numa altura em que a escola parece por vezes perdida num labirinto burocrático e processual, numa altura em que, malgrado os esforços bem-intencionados de muitos, parece bloqueada por forças contraditórias que se anulam e ameaçam fazer perder o sentido último do seu propósito, talvez não seja má ideia regressar a esta ideia simples: ensinemos a curiosidade.