Este texto é interessante mas enferma dos mesmos erros que outros antes dele cometeram, que é atribuir ao capitalismo moderno a ganância humana e depois usar o colonialismo, a supremacia branca e a escravatura modernas como provas. Só que não são provas porque sempre houve ganância, sempre houve colonialismo e escravatura e a supremacia nem sempre foi branca.
As civilizações antigas capturavam países inteiros e colonizavam-nos e os testemunhos civilizacionais que ainda existem mostram a dimensão da grandiosidade da sua ganância. Os impérios antigos fizeram-nos, os romanos fizeram-nos, os otomanos (que não eram brancos) fizeram-no e os islamitas ainda o fazem, ainda continuam a colonizar e a chamar os seus povos para o domínio da colonização. No entanto, não são capitalistas.
Antes da escravatura moderna, já havia comércio de escravos no Índico. Os islamitas do Império Otomano mercadejavam escravos, os homens eram castrados e usados em haréns ou em trabalhos forçados, as mulheres como escravas sexuais. O mercado de escravas sexuais brancas (amplamente descrito por vários autores da época e ilustrado por pintores orientalistas) era um dos maiores negócios, tendo por base a supremacia islamita - esse continua.
Portanto, o que diferencia a ganância dos tempos modernos foi o nascimento da ciência moderna vir trazer eficiência a esse fenómeno e organizá-lo de um modo extraordinário, por um lado, pois nunca o ser humano viveu com tanto conforto e esperança de vida, mas catastrófico para a saúde do mundo e para o equilíbrio das sociedades.
Não se pode ver só o lado negativo do capitalismo pois é o seu lado positivo que o mantém inalterável. As sociedades socialistas são sociedades de miséria e autoritarismo.
Portanto, não se deve distorcer e esconder o que pertence à natureza humana, em todas as épocas e civilizações, por questões ideológicas. Isso não vai ajudar a resolver os problemas.
A doença da nossa civilização tem um nome: Windigo
A sabedoria indígena oferece um diagnóstico para o que aflige o nosso mundo — e compreendê-lo é o primeiro passo para a cura.
As pessoas atribuem isto a más políticas, políticos corruptos ou à ganância individual. Mas e se o problema for mais profundo — enraizado não em decisões particulares, mas na própria essência da nossa civilização?
Num capítulo do meu novo livro Ecocivilization, exploro esta questão através de um poderoso mito indígena: o Windigo.
Windigo (também conhecido como Wetiko) é o nome dado pelos Ojibwe a um monstro canibal movido por uma fome insaciável. Quanto mais consome, mais voraz se torna. Nunca pode ser saciado, porque o seu apetite não se orienta para o sustento, mas para o próprio devorar em si mesmo.
Para os Ojibwe, os invasores europeus que chegaram às suas terras pareciam animados por uma força desse tipo. Confrontados com conquistadores que matavam, escravizavam e traíam em busca de ouro, reconheceram uma espécie de desarranjo espiritual, uma fome que transformava tudo o que encontrava em objecto de exploração.
O monstro Windigo
O monstro é o sistema
Esta metáfora oferece um diagnóstico assustadoramente preciso do sistema dominante que veio a engolir o mundo. No seu cerne está um modo de ver que objectifica tanto os humanos como os não humanos. As florestas tornam-se reservas de madeira. Os animais tornam-se gado. Os oceanos tornam-se pescarias. As pessoas tornam-se factores de produção ou recursos humanos.
Quando o mundo vivo é reduzido a um stock de activos exploráveis, os limites morais dissolvem-se.
Considere a lógica estrutural da nossa economia. Uma empresa que priorize o bem-estar dos seus trabalhadores em detrimento dos lucros trimestrais verá a sua competitividade diminuir e acabará por ser eliminada por rivais que não o fazem. Um investidor que escolha a preservação ecológica em vez do lucro máximo ficará para trás face a outro que não o faça. Um líder político que proponha limites reais ao crescimento será ultrapassado em financiamento e derrotado por interesses que lucram com o status quo.
Os indivíduos mudam; o comportamento persiste. Este é o sinal distintivo de uma patologia sistémica — não agentes desviantes, mas uma estrutura que produz os mesmos resultados destrutivos independentemente de quem ocupa os seus papéis.
É a isto que chamo Windigo Inc.: a institucionalização da fome insaciável como princípio organizador da nossa civilização. Não é uma conspiração. Não exige vilões (embora os produza). É um sistema auto-reforçador que recompensa a extracção e penaliza a contenção, que transforma tudo o que é vivo — florestas, aquíferos, relações humanas, a própria Terra — em recursos a consumir na busca de um crescimento sem fim.
O surgimento do Windigo
Esta mentalidade não surgiu do nada. O meu capítulo traça uma história mais longa de como as sociedades hierárquicas, a propriedade privada, o império e a extração militarizada formaram progressivamente uma “bomba de riqueza” com cinco mil anos, canalizando excedentes de muitos para poucos.
Praticamente todos os Estados antigos, primeiros impérios e ordens aristocráticas organizaram a sociedade em torno deste padrão.
Mas o capitalismo moderno introduziu algo de distintivo e ainda mais perigoso. Imprimiu nesta longa história de dominação uma visão do mundo que tratava a natureza como uma máquina, o conhecimento como poder e a acumulação ilimitada como um imperativo civilizacional.
Foi esta a visão mecanicista que se formou na Europa da primeira modernidade e que serve de paradigma ontológico do mundo moderno. Não é coincidência que tenha sido neste tempo e lugar que surgiram a sociedade por acções de responsabilidade limitada, a supremacia branca e o colonialismo: um projecto que tratava continentes inteiros e povos como matéria-prima.
Windigo como colonialismo
Seguiu-se a Revolução Industrial, que tornou o poder extractivo escalável; e, mais recentemente, o neoliberalismo elevou estas tendências a uma ideologia dominante, insistindo que a competição desenfreada não é apenas eficiente, mas moralmente correta.
O capitalismo, neste sentido, não é apenas um sistema económico. É a manifestação económica da mentalidade Windigo. Tal como um processo maligno dentro de um organismo vivo, tem de continuar a expandir-se ou colapsa. Não consegue reconhecer o suficiente. Cada ganho torna-se uma plataforma para mais ganhos. Cada eficiência torna-se um ponto de partida para mais extração. Cada fronteira, seja uma floresta tropical, uma instituição pública ou até o sistema nervoso humano, torna-se uma nova zona de apropriação e monetização.
Uma malignidade silenciosa que se alimenta de si própria
O que torna este sistema tão difícil de enfrentar é que grande parte da sua violência está oculta. Em épocas anteriores, a dominação era muitas vezes directa e visível. Hoje, é frequentemente estrutural, incorporada na arquitectura normalizada da vida quotidiana. O smartphone no seu bolso transporta em si o sofrimento de crianças mineiras e de trabalhadores fabris exaustos em continentes distantes. Os paraísos fiscais dos ultra-ricos drenam silenciosamente riqueza pública de escolas, hospitais e infraestruturas essenciais. A apropriação de terras desloca comunidades tradicionais enquanto empreendimentos de luxo florescem no seu lugar. A própria democracia é capturada por redes de poder concentrado que operam por detrás da linguagem tranquilizadora da governação e da reforma.
Windigo hoje
É por isso que o diagnóstico importa. Se identificarmos mal a crise, continuaremos a tratar os sintomas enquanto a patologia subjacente se espalha. O diagnóstico Windigo revela que a ameaça que enfrentamos não é apenas ecológica ou política. É civilizacional. Está enraizada num sistema cuja lógica mais profunda é converter o mundo vivo em combustível para a sua própria expansão sem fim.
É aqui que o diagnóstico Windigo se torna desconfortável tanto para progressistas como para conservadores: não é, sobretudo, uma história sobre pessoas más. Muitos dos executivos que aceleram a extracção são inteligentes, frequentemente compassivos na sua vida pessoal, e acreditam genuinamente que estão a criar valor. Muitos dos políticos que permitem a destruição ecológica consideram-se patriotas. O sistema não requer más intenções. Seleciona sistematicamente comportamentos que o reproduzem e elimina aqueles que o ameaçam.
Dar nome à doença é o começo.
Dar-lhe nome não é um acto de desespero, mas o início da honestidade. E a honestidade é o terreno a partir do qual a transformação se torna possível. Se a crise é sistémica, então a resposta também terá de ser sistémica.
Uma vez nomeada a Windigo Inc., podemos começar a colocar as perguntas que mais importam:
Como seria uma economia estruturada em torno da suficiência em vez do crescimento infinito?
Que instituições poderiam canalizar a engenhosidade humana para o florescimento em vez da extracção?
Que valores — vindos da sabedoria indígena, de tradições contemplativas, das ciências da complexidade e da ecologia — poderiam substituir a fome insaciável do Windigo por um princípio animador diferente?
Essa é a viagem mais ampla de Ecocivilization: compreender a patologia que herdámos e iluminar as possibilidades afirmadoras da vida que ainda podem permitir-nos orientar para um futuro diferente.