Nenhuma nação na Terra conseguiria sobreviver cinco minutos se todos se lembrassem da verdade exacta de como foi fundada. Todas as fronteiras que existem foram desenhadas com sangue e cada cidade foi erguida sobre uma vala comum; se os seres humanos não acordassem em esquecer o que os seus avós fizeram uns aos outros, começariam todas as manhãs com uma luta de facas na rua com o seu vizinho.
Na sua célebre conferência de 1882 na Sorbonne, intitulada "O que é uma nação?"
(Qu'est-ce qu'une nation?), Ernest Renan expressou a ideia de que a unidade nacional é quase sempre alcançada através de violência brutal como massacres ou a fusão forçada de diferentes povos no passado.
O que é uma nação (pdf)
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Para que os cidadãos do presente consigam viver em paz e partilhar uma identidade comum ("um plebiscito diário"), precisam de retirar da memória de trabalho as atrocidades que os seus antepassados cometeram uns contra os outros. Não esquecê-la, mas arquivá-la na memória de longo prazo. Está lá, na memória colectiva como um marcador do que não se pode fazer, mas não é usada como uma ferramenta diária da destruição do presente e, por conseguinte, do futuro. Se a memória dessas divisões antigas permanece activa todos os dias, a coesão social colapsa.
Por esta razão, todos aqueles que se dedicam a pôr cidadãos uns contra os outros com base nos agravos do passado e estão presos nesses discursos de vítimas e carrascos, de oprimidos e opressores, de povos puros e impuros e se dedicam a medir quem gerou mais sangue, são os grandes motores da destruição da coesão social. São os que abrem caminho para novos derramamentos de sangue e a perpetuação do ciclo de violência.
Num certo sentido, uma nação é como uma pessoa no que respeita à sua identidade ser construída pela memória. Tal como uma pessoa, tem de viver com o pior e o melhor que fez e com os agravos que sofreu, sem que nenhum destes factores seja como uma pedra tumular inamovível. Se só se lembra do pior que fez está paralisada na culpa sem capacidade de se redimir e evoluir e se só se lembra do melhor que fez, está iludida na arrogância de poder. Se apenas se lembra dos agravos que sofreu, como se fosse pura e nenhuma fronteira sua tivesse sido construída no sangue, está perdida na ilusão da sua pureza e no rancor auto-corrosivo e na vitimização.