Educação. Portugal, que futuro? A quem servem estes exames nacionais?
A mais cabal prova da incompetência científica e da ideologia oca a que o ensino em Portugal está votado é o mais recente Exame Nacional de Português. A questão axial não é, a meu ver, o cartoon do Grupo III, o qual já parecia, como exercício de preparação para este exame, num livro de apoio do Grupo Leya.
António Carlos Cortez
Basta fazer uma comparação simples entre os os atuais Exames Nacionais de Português e os exames, nesta disciplina, de acesso ao ensino Superior concebidos na década de 1990, quando deles constava o comentário crítico a um texto literário, obrigando a que os estudantes redigissem um breve ensaio, analisando aspetos estilísticos e ideológicos, simbólicos e estéticos do texto em apreço, para se concluir o óbvio: os melhores alunos a Português, ou a História, a Economia ou em Filosofia jamais conseguiriam responder com propriedade aos antigos exames de acesso à Universidade.
Para além de um comentário crítico, ou, noutros exames (estou a pensar no de 1997), do questionário exigente e competente que se colocava aos que faziam esta prova de ingresso, os exames de então tinham um Grupo II - e muitas vezes só mais esse grupo - dedicado à prática do resumo ou, em opção, à prática da síntese. O resumo e a síntese, de resto, são operações de contração de texto a partir de um texto não-literário e obrigavam, sobretudo, à compreensão do texto-fonte a dois níveis que hoje os estudantes não identificam: a separação do essencial em relação ao acessório e a obrigatoriedade de respeitar um nível de língua criterioso, sem jamais corromper o texto de que se partia.
Hoje, como se vê no Superior, o resumo e a síntese não são técnicas de estudo e de escrita que os alunos dominem. Em Exames de Português do início dos anos 2000, ainda exigentes, não havia quaisquer perguntas de escolha múltipla e deplorava-se simplesmente o chamado ‘teste americano’. Sucede que, gradualmente se foi impondo uma forma de transformar os Exames Nacionais e meros momentos de avaliação instrumental.
Os Exames são hoje o espelho da própria indigência de muitos que, nas escolas e já nas universidades, concebem a educação como obediência a formatos predeterminados, obediência a um esquematismo mascarado de rigor, mas que, valha a verdade, infantilizou todo o processo ensino-aprendizagem, decidindo-se acabar com exames em que saber ler e saber escrever é o essencial, posto que o que se pretende é que o aluno reconheça pistas, selecione respostas já pré-cozinhadas.
A mais cabal prova da incompetência científica e da ideologia oca a que o ensino em Portugal está votado é o mais recente Exame Nacional de Português. A questão axial não é, a meu ver, o cartoon do Grupo III, o qual já aparecia, como exercício de preparação para este exame, num livro de apoio do Grupo Leya. Não faz sentido argumentar-se que o exame falha por causa disso.
A questão é outra: quem concebeu este exame deveria saber que há inúmeros livros de preparação (é um negócio da China!) e, eventualmente, ao nível da leitura de imagem e mesmo de textos com questionários preparatórios, é necessários que não se repitam textos, questionários iguais, exercícios de gramática semelhantes. Este Exame merece a mais profunda rejeição por outros motivos bem mais graves.
Enuncio-os:
1.º No processo de certificação de funções primárias em que se transformou este Exame, a ideologia oca manifesta-se logo no instrumental cabeçalho: preenchimento com bolinhas e QR-Code para melhor trabalho da IA. O que está em processo não é a equidade e nem mesmo a preocupação pela imparcialidade dos examinandos (se assim fosse a equipa que fez os exames teria percebido a vantagem dos alunos que, eventualmente, tenham analisado o cartoon do Grupo III já presente no citado livro de preparação da Leya), mas sim a operacionalidade burocrática que, se já estava presente antes, daqui para a frente esmagará professores e estudantes e, no limite, irá dispensar professores do próprio ato de ensinar, conceber testes de avaliação, exames.
Uma nota: a IA agudiza o processo de alienação cultural das gerações já educadas frente aos ecrãs, as quais, daqui a pouco tempo, num mercado de trabalho que paga mal, não poderão revoltar-se porque, sem linguagem e imaginário, sem nada terem lido e filhos da desmemória, não terão sequer chaves de leitura do real para questionarem o sentido da própria existência (e esta não é uma questão menor, bem pelo contrário - «Conhece-te a ti mesmo» era o eixo fundador da paideia, sentença inscrita em Delfos).
2.º Exame pejado de escolhas múltiplas (como já os de História o são e o de Filosofia), o estudante não tem de saber escrever. No Grupo III, o do famigerado cartoon, o limite de 350 palavras é um absurdo. Na faculdade, numa frequência em Direito, ou em Ciências Sociais, em Literatura, há limite de palavras? Não deveriam os estudantes portugueses sair do 12.º ano com hábitos de leitura do género ensaio, capazes, eles próprios, de escrever com proficiência e cultura letrada comentários críticos sobre um texto complexo?
3.º No questionário sobre um dos andamentos de O Sentimento dum Ocidental, de Cesário Verde, não faz sentido qualquer pergunta sobre os sentimentos do poeta. Cai-se de novo naquilo que Wimsatt e Beardsley, em 1946, condenavam em ‘The Intentional Fallacy’: a confusão entre o ‘eu’ textual e o autor empírico. Esta é uma lição que qualquer professor de Português - sobretudo os que fazem o Exame - jamais deveria esquecer. Igualmente quem concebeu este exame não terá lido H. R. Jauss e a sua ‘Estética da Recepção’, nem mesmo conhecerá R. Ingarden e o seu clássico A Obra de Arte Literária, segundo os quais a compreensão de qualquer texto literário exige a compreensão da ficcionalidade, atendendo ao horizonte de expectativas que a própria literariedade do texto põe em processo. Neste Exame, Cesário Verde serve apenas para meros exercícios de suposição afetiva, reduzindo a literatura a um objeto seco que se pensa poder ser estatisticamente avaliável.
4.º Ainda Cesário Verde: os critérios de correção falham em questões de interpretação literária. Os ‘querubins do lar’, por exemplo, no verso ‘os querubins do lar flutuam nas varandas’ não representam tipos sociais, como se diz nos critérios de correção. Os responsáveis por este exame não sabem que esta expressão remete para uma imagem idealizada e irónica do feminino, vivendo ela em regime doméstico, à luz do modelo burguês oitocentista do ‘anjo do lar’? Por outros lado, opondo esta imagem aos dentistas que discutem ‘num trem de praça’, não compreenderam que estes ‘querubins’ são os anjinhos que, ‘flutuando’ nas varandas de casas apalaçadas, ornamentavam as varandas de ferro forjado da Lisboa do tempo de Cesário?
5.º A imagem das varinas, no verso «vêm sacudindo as ancas opulentas» não tem nada que ver com qualquer sensualidade dessas mulheres do povo. É um erro monumental de análise e interpretação literárias! Opulentas, as varinas, porque gordas, fortes, representação das peixeiras que, nas ruas de Lisboa, à canastra, vendiam o peixe; imagem urbana que Cesário transfigura na impressionante e simbólica metáfora das mães/varinas que embalam «os filhos nas canastras», e não já o peixe, posto que nos mares da vida opressora da vida laboral do século XIX, sem direito algum, são os filhos dos pobres «que naufragam nas tormentas» do suposto progressismo. Não saberão os especialistas em fazer exames que a ideologia de Cesário parte do parnasianismo literário, não dispensando a crítica severa, achando o poeta assunto em «quadros revoltados»? Ignoram que Cesário, em carta, sobre este mesmo poema, revela a sua arte: «Há sobretudo uma causa com a qual eu simpatizo imenso: é o protesto franco e salutar em favor do povo». Sensualidade, as ancas das varinas? Oh, senhores!!
6.º Ignorando a intentio operis, a intentio lectoris e a intentio auctoris, este Exame falha também ao nível da interpretação do texto de Cesário por via de um erro de superstição literária - as superstições literárias que Carlos Buosoño invetivou na década de 1950 -, posto que os especialistas peçam ao estudante o que nem eles próprios conseguem ler corretamente: Cesário (o eu textual figurado no poema, entenda-se) não está - como dizem os critérios - ‘a sentir’, o que temos é uma representação, uma encenação ficcional que põe no palco da página as tensões e contradições de um tempo social em que ‘a capital que esfria’, Lisboa, é o espaço simbólico do inferno, e o poema, no fundo, uma viagem - a catabase - a esse inferno onde ‘o populacho’ se diverte na lama. Ignorar o todo do poema faz com que se perguntem coisas absurdas.
7.º O grupo de gramática é outra pérola de amestramento dos estudantes. Não há ali qualquer exigência analítica, seja ao nível da frase, seja ao nível da morfologia. Há apenas um mecanicismo facilitista, uma forma engenhosa de dar aos alunos, por inflação das cotações, a positiva que lhes garanta que fazem esta disciplina. Os piores alunos são favorecidos. Os mais competentes, esses, podem até ser prejudicados. É injusto. É antipedagógico e fere a verdade desta disciplina.
Posto isto, o que fazer? É esfarrapada a desculpa da APP (Associação de Professores de Português), uma vez que a elaboração de um exame deveria não repetir perguntas já existentes em manuais de apoio. O trabalho didático e os critérios de avaliação deveriam resultar de um trabalho independente e não, como é mais que provável, de um trabalho feito à pressa, comprometendo a credibilidade da prova e a sua desejada cientificidade e rigor.
No limite direi o que já tantos, antes de mim, disseram e o que, de há 15, 20 anos a esta parte, por vezes isoladamente, venho dizendo: os Exames Nacionais, como tantas outras coisas na educação em Portugal, são uma mentira total: se um médico tem de saber sintomas, narrativas médicas, o historial de um paciente; se um jornalista tem de distinguir facto de opinião, por que razão, de há muitos anos para cá, estes exames são um convite permanente à preguiça, à ignorância? Se na política é necessário reconhecer ambiguidades, efeitos retóricos da linguagem; se no direito se pede a atenção ao pormenor dos processos, que argumento racional pode defender semelhante conceção instrumental, oca, errada e facilitista deste tipo de exame?
Cito Carlos Ceia: «Se estes exames são ‘de acesso»’ ao Ensino Superior, então que se diga com honestidade: o papel que prometem não corresponde ao que esse ensino exige. Portugal poderia mesmo dispensar toneladas de papel e de processos digitais equivalente, porque o essencial não muda: continua a avaliar-se pouco do que interessa». E o que interessa? Saber ler, saber escrever crítica e argumentadamente. Este Exame decapita - estes exames nas mais diversas disciplinas, mas sobremaneira na de Português! - alunos e professores. Estes são transformados em formadores acéfalos, aqueles em amestradas criaturas que, nem mesmo sabendo pegar numa caneta, com este tipo de Exame lá irão pagar as altas propinas para que a Universidade possa pagar os baixos salários…
Quando um país se diverte na lama da mediocridade, quando na própria formação de professores se pede que o futuro professor de Português tem de recorrer às ‘novas estratégias’ que o digital possibilita, morre o pensamento, assassina-se o saber redigir e Cesário Verde volta a ter razão: «o populacho diverte-se na lama», mas agora à crua luz de um aparelho educativo digital que, a breve trecho, repito, não precisará dos professores para nada. E disto também urge falar.
Estes exames com QR-Code são o prenúncio da escola-empresa. Mate-se o professor culto, os exames que exigem escrita e leitura a sério e teremos uma carneirada feliz, porque acrítica.