por Simon Shuster in “The Atlantic Online”
Na tarde de quarta-feira, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky convidou-me para uma entrevista no seu gabinete em Kiev. Passou quase um ano desde a última vez que nos encontrámos naquela sala, decorada com os emblemas das unidades militares que combatem na guerra contra a Rússia. Nessa altura, em março de 2025, o Presidente ucraniano queria falar sobre a discussão que tivera com Donald Trump na Sala Oval, um ponto baixo na relação entre ambos.
Desta vez, Trump voltava a dominar-lhe o pensamento. Zelensky vê o Presidente norte-americano como o único capaz de forçar o Kremlin a ceder e a fazer concessões em nome da paz. E mostrou estar perfeitamente consciente do que poderia levar Trump a priorizar os interesses da Ucrânia nas negociações para pôr fim aos combates, após quatro anos de guerra.
Mais tarde, nesse dia, Zelensky iria reunir-se com a sua equipa de negociadores, que regressara recentemente de uma ronda de conversações com os russos, em Abu Dhabi. Está prevista outra ronda para a próxima semana, e o Presidente não quer perder esta oportunidade de alcançar um acordo, mas insiste que qualquer entendimento terá de ser aceitável para o povo ucraniano, cuja aprovação pretende alcançar num referendo já esta primavera.
Zelensky falou-me extensamente destes planos, das condições que terão de ser cumpridas antes de avançarem e do papel crucial que espera que Trump desempenhe. O que se segue são trechos da nossa conversa, que foram editados para maior clareza.
Obrigado, senhor Presidente, por disponibilizar tempo para esta conversa. Ultimamente têm saído inúmeras notícias sobre a Rússia que não são, de modo algum, favoráveis. A economia russa está sob pressão, além de terem sofrido imensas baixas. Como avalia hoje o equilíbrio de forças na guerra?
A Ucrânia não está a perder e penso que a Administração Trump já percebeu isso mesmo. De certa forma, pode tê-los surpreendido, porque a propaganda russa também os influencia. Recentemente, calculámos que um único quilómetro de território ucraniano ocupado lhes custa 170 baixas, mortos ou feridos com tal gravidade que não regressam ao combate. Temos todas as provas disso. Dizer que nos últimos seis meses estão a vencer em algum lugar? Não.
“Creio que não há vitória maior para Trump do que pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Esta é a maior guerra terrestre em décadas”
Como é que esta situação influencia o processo negocial?
A nossa tática é fazer com que os americanos não pensem que queremos continuar a guerra. Não basta dizer que não queremos continuar a combater. Foi por isso que começámos a apoiar as suas propostas, seja como for que as apresentem. Quando dizem: “Temos de nos reunir!”, respondemos: “Claro!” “Estão prontos para ficar onde se encontram agora?” “Estamos prontos.” “Estão preparados para fazer algumas cedências?” “Apenas se o outro lado também o fizer.” “Estão prontos para se reunirem com os russos nos EUA?” “Para nós é indiferente o lugar, desde que não seja em Moscovo.”
Após a última ronda de negociações, em Abu Dhabi, disse que a posição russa se suavizou em alguns aspetos. Por exemplo, começaram a discutir um encontro trilateral entre si, Donald Trump e Vladimir Putin. O que é que isso lhe indica? Qual é a tática russa aqui?
Na minha opinião, eles precisam de abandonar todo o nosso território. Isso não é possível hoje. Mas, se quisermos ter uma linha de contacto que não atravesse cidades ao meio, então alguém terá de recuar. Se disserem que retiram e nós também retirarmos, isso pode funcionar em zonas como a estepe. Mas em zonas onde existem cidades não faz sentido. Se sairmos, ficará uma zona morta. Por isso considero que essa ideia não faz sentido. Quanto às sugestões de uma “zona económica livre”, para nós significa simplesmente abandonar o nosso território. Não vejo justiça nisso. Não é correto.
Como interpreta os objetivos e interesses americanos neste processo de paz? O que é que os move?
Creio que não há vitória maior para Trump do que pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Esta é a maior guerra terrestre em décadas. Para o seu legado, isso seria o principal.
Os americanos disseram como reagiriam se a Rússia violasse um acordo de paz e voltasse a atacar a Ucrânia? Estariam, por exemplo, preparados para impor uma zona de exclusão aérea?
Iria haver uma reação: armas, sanções e uma resposta firme. A questão é que tipo de resposta. É necessário compreender isso claramente. O que significa, na prática, o apoio dos nossos parceiros? Até agora temos, digamos, sinais positivos, que precisam de se traduzir numa definição de ações concretas. Queremos saber exatamente qual será a reação no caso de nova agressão, como a de 2022. O que farão concretamente os nossos parceiros? Tudo isso tem de ficar escrito.
Em 2022 pediu aos EUA e à NATO que impusessem uma zona de exclusão aérea, para abater mísseis que sobrevoassem a Ucrânia sem entrarem no espaço aéreo ucraniano. Tem indicação de que os americanos estariam dispostos a fazê-lo?
Isso ainda não ficou definido. Já levantámos a questão e vamos continuar a fazê-lo, porque entretanto houve diferentes propostas. Por exemplo, a “coligação dos dispostos” poderia ter aviões posicionados na fronteira da Ucrânia prontos para abater alvos aéreos.
Manifestou preocupação com o facto de as conversações entre os EUA e a Rússia terem abordado questões relativas ao território soberano da Ucrânia. O que quis dizer exatamente?
Sabemos que os americanos estão a desenvolver relações bilaterais com os russos. Compreendemos o sinal que deram: “Vamos começar por acabar com a guerra.” Apoiamos essa posição. É justo, mas, na nossa perspetiva, não podem desenvolver projetos entre os dois países durante esta guerra. Temos informação de que estão a discutir documentos bilaterais entre si. Já disse que esses documentos não devem incluir questões relacionadas com a Ucrânia. Nem estou a falar de questões económicas. Por exemplo, os russos fizeram um apelo aos americanos relativamente a determinados territórios ocupados. Se estão a construir relações sobre o nosso território, temos o direito de saber.
Tem informação de que tais projetos estão a ser discutidos no contexto das conversações entre os EUA e a Rússia?
Não. Sei que a parte russa levantou essas questões. Acredito que estão a levantar questões mais perigosas do que as que mencionei. Refiro-me ao plano económico. Imaginemos, por exemplo, que a Rússia pretende o reconhecimento americano de algum território sob o seu controlo. Não estou a dizer que os americanos o fariam. Estou apenas a dizer que os russos o querem e pressionam nesse sentido. Sou contra isso. É perigoso. E, na minha opinião, seria perigoso também para o Presidente Trump dentro do seu próprio país.
Como assim?
Os Estados Unidos são uma grande democracia. Poderiam ser provocados a reconhecer este ou aquele território, o que é simplesmente impossível. Se um grande país reconhecer território temporariamente ocupado, então muitos outros territórios poderão ser alvo de tentativas de conquista pela força.
Pediu a Putin que se reunisse consigo para decidir as partes mais sensíveis do plano de paz. Como imagina essa reunião? O que é que lhe quer dizer, olhando-o nos olhos?
Não se trata de querer olhá-lo nos olhos. Não me interessam sentimentos. Temos questões relacionadas com o território ucraniano que ninguém consegue resolver. As políticas de diferentes nações permitiram que Putin opinasse sobre este tema, ocupando terras e justificando as suas ações. Neste momento há apenas uma força — a Ucrânia — que combate fisicamente contra ele. A minha conversa com ele só pode centrar-se no fim da guerra. Tem de ser uma conversa absolutamente aberta, na medida do possível. Trata-se simplesmente de falar sobre como acabar com a guerra de forma que não recomece.
Imagino que seria difícil conter as emoções durante essa reunião.
Por que razão deveria ser emocional ou não emocional? O que muda isso? O nosso objetivo é acabar com a guerra. Ele pode ter outro objetivo. Não sabemos. Durante a guerra, nunca nos reunimos. Todos tentaram fazer algo e ainda assim a guerra continua. Por isso parece-me lógico que haja uma reunião de líderes que possam discutir as questões mais difíceis. Com quem mais poderia falar sobre o território?
Acredita que Putin estaria disposto a reunir-se e a assinar um acordo que incluísse, por exemplo, garantias de segurança para a Ucrânia?
Não creio que nenhum dos lados tenha um desejo real de se encontrar. Somos inimigos. Honestamente, ninguém expressou uma vontade clara de o fazer, mas existe disponibilidade. É a decisão certa, reunirmo-nos e tentar acabar com a guerra. Os americanos perguntaram-nos o que pensamos sobre essa reunião e respondemos-lhes que estamos de acordo. Estamos prontos para nos reunirmos em qualquer formato, exceto em Moscovo ou na Bielorrússia.
“Não creio que nenhum dos lados tenha um desejo real de se encontrar. Somos inimigos. Honestamente, ninguém expressou uma vontade clara de o fazer, mas existe disponibilidade”
Alguns aspetos do plano de paz de 20 pontos exigiriam um referendo. O povo ucraniano terá de aprovar qualquer parte do plano relacionada com território?
Não é bem assim. De modo geral, qualquer acordo para terminar uma guerra deve ser assinado pelos Presidentes e depois ratificado pelos Parlamentos ou através de referendo. Não acredito que consigamos implementar um plano excelente para nós e mau para os russos. Como já disse honestamente, mesmo que haja um plano para manter a linha da frente onde está, ainda assim considero melhor realizar um referendo. Não é apenas melhor para nós. O nosso povo passou por esta guerra e ganhou o direito de votar sim ou não. É uma questão de justiça. Um referendo teria grande força na garantia da segurança da Ucrânia, porque estou certo de que o mundo o reconhecerá, se for realizado corretamente.
Quanto tempo pensa que será necessário para isso acontecer?
Depende da vontade política dos russos. Se estiverem realmente prontos para acabar com a guerra e se as condições hoje inaceitáveis para a Ucrânia forem alteradas por um compromisso razoável, podemos pensar nos próximos passos. Pode levar vários meses, porque se não estiverem prontos não faz sentido falar disso.
Nos Estados Unidos levantou-se também a questão das eleições na Ucrânia. Quando poderiam ocorrer?
Os EUA levantaram essa questão e os russos também. Já disse que ninguém está agarrado ao poder. Estou pronto para eleições, mas para isso precisamos de segurança. Garantias de segurança e cessar-fogo são condições necessárias. Nada tem a ver com datas. Poderíamos tê-las realizado há muito. Às vezes, quando ouvimos essas propostas, tenho a impressão de que é como se perguntassem: “O que mais podemos oferecer aos ucranianos para ver se recusam?” Não temos medo de nada. Eleições? Estamos prontos. Referendo? Estamos prontos. Deixemos o povo decidir.
Pelo encadeamento de condições que descreve como necessárias para avançar com as negociações, não parece que tenha grande pressa.
Não é verdade. Temos pressa de acabar com a guerra. Estamos a sofrer perdas. Principalmente perdas humanas: soldados, civis. Precisamos de estar o mais próximo possível dos parceiros que podem parar Putin, e nesta altura parece que apenas Trump é capaz de o fazer. Outros que também poderiam fazê-lo não parecem estar a agir. E os que tentam são incapazes ou não são levados a sério pelos russos. Por isso decidiram que esta seria a forma mais fácil e rápida de se livrarem de mim. Penso que a ideia de eleições durante a guerra foi, acima de tudo, uma posição russa. Mais tarde, o lado americano retomou-a. Não é segredo. Não culpo os americanos, mas evocaram o exemplo de Abraham Lincoln, que realizou eleições durante a guerra civil. Disseram: “Demonstre que está pronto.” E eu respondi: “Estou pronto.”
“Não queremos que os americanos abandonem estas negociações. Não entendo porque não veriam o valor disto para si próprios. Estamos a apoiar as tentativas de paz”
Sente que os próximos meses são a janela de oportunidade para acabar com a guerra, enquanto Trump está realmente empenhado?
Creio que sim. É a minha opinião pessoal. Sei que os americanos às vezes se ofendem quando a expresso, mas é claro para mim que os russos podem usar este tempo para acabar com a guerra enquanto o Presidente Trump está realmente interessado nisso e é importante e valioso para ele. Pode soar demasiado mercantil para alguns, mas sejamos honestos: o cenário mais vantajoso para Trump seria fazê-lo antes das eleições intercalares. Seria uma vitória política para ele. Sim, ele quer que haja menos mortes, mas falemos a sério. Para ele é apenas uma vitória, uma vitória política.
Se chegar o momento de realizar um referendo para aprovar um plano de paz, qual seria a sua mensagem para o povo? Como é que os convenceria a ir votar?
Depende do que estiver em causa. Se forem propostas sem concessões, sem conclusões justas ou inviáveis, não direi às pessoas para votarem sim. Não desejo realizar um referendo sobre propostas que não funcionem. Não é razoável e defendo isso junto de todos os negociadores.
E se o referendo e as eleições fossem realizados em simultâneo?
Pode acontecer. Não tenho problemas com isso. O mais importante é que funcione e que as pessoas participem. Não devemos submeter um mau acordo a referendo. Considero isso visceralmente injusto. Lembre-se de que há pessoas sem luz, sem nada. Algumas provavelmente estariam dispostas a aceitar quaisquer condições, mas não podemos aceitar as condições que a Rússia propõe, porque amanhã poderiam iniciar outra guerra.
E se Trump disser que está farto das negociações e decidir mudar o foco para a política interna?
Isso seria mau. Não queremos que os americanos abandonem estas negociações. Não entendo porque não veriam o valor disto para si próprios. Estamos a apoiar as tentativas de paz. Sim, o Presidente americano pode mudar o foco. E, se isso travar o processo, será mais difícil avançar.
E, nesse caso, tudo seria decidido no campo de batalha?
Não necessariamente. Continuariam a existir algum tipo de negociações noutro formato. Elas já começaram. O problema é que ainda não vi verdadeira vontade russa de terminar a guerra. Sim, agora mostram mais abertura por causa de Trump, mas, se ele se afastar, essa abertura desaparece. Como é que isso vai afetar as suas ações? Não vai. Se não quiserem acabar com a guerra, não interessa o que possamos dizer. Farão tudo para a prolongar. É por isso que, independentemente de os EUA ajudarem ou não nas negociações, o resultado seria o mesmo: os russos encontrarão maneiras de não acabar com a guerra. É mais fácil terminá-la com os americanos, porque podem pressionar os russos. Penso que, neste momento, Donald Trump é a única pessoa capaz de o fazer.
Tradução Joana Henriques - Expresso
Artigo originalmente publicado a 13 de fevereiro, após a segunda ronda de conversações de paz mediadas pelos EUA, em Abu Dhabi







