March 12, 2026

Tendências na educação

 

Aqui há uns anos o ex-ministro -na altura SE- João Costa mandou que se sistematizasse a ajuda aos alunos com problemas de vária ordem, como dislexias, autismo e outras. Essa ajuda já havia mas dependia dos esforços do DT em evidenciar o problema e encaminhá-lo para alguém competente. As novas medidas de ex-ministro sistematizaram essa ajuda. Há agora documentos que o Conselho de Turma preenche para anulos que precisem de medidas, que são depois encaminhados para uma equipa da escola que aloca os recursos (que não existem) para apoiar esses alunos. No papel parece tudo bem, na realidade, nem por isso.

No afã de dizerem que todos estão incluídos, não estando, os tais documentos são cada vez mais pormenorizados ao ponto de cobrirem, não apenas os alunos que têm problemas de aprendizagem (sendo a mais comum a dislexia) como todo e qualquer problema, tendo os tais documentos mais de 300 questões para cobrir toda a sorte de problemas, os que existem e os que não existem. Um aluno faltista e agressivo com toda a gente tem agora direito a medidas especiais  - chamadas «medidas universais» para se distinguirem das medidas específicas para problemas como autismo, cegueira, etc. (para estas, dado que não há recursos especializados nas escolas, o que continua a valer são os esforços do DT em encaminhar o aluno para alguém competente)

Ora, em que consistem essas medidas universais? Ter testes adaptados, mais fáceis, poder ter mais tempo para realizar trabalhos, ter ajuda para fazê-los etc. Evidentemente que estas medidas não têm nenhuma relação com a agressividade ou com o facto de um aluno ter andado desde o 5º ano até ao 9º sem estudar e a faltar às aulas. Porém, dado que não aprende, tem direito às medidas universais.

Então, para responder à questão do título do post, quais são as novas tendências da educação? Os pais irem à escola pedir ao DT para o seu filhos ter 'medidas universais' a matemática, por exemplo. A intenção é, obviamente, terem testes mais fáceis ou nem terem testes e passarem sem saber nada. 

Que tem isto que ver com inclusão, melhorar a educação, formar alunos mais capazes, com pensamento crítico e outras arengadas que esse senhor atirava para o ar para parecer que estava a fazer algo de mérito? Pois, nada.

Já tinha lido há tempos que esta situação se passava nas universidades americanas. Os alunos pedirem condições especiais alegando ter um problema qualquer para poderem ter facilidades especiais nos exames ou até terem direito a não fazer exames e passar de ano.

Calculo que o ex-ministro em questão tenha ido copiar estas ideias às universidades dos coitadinhos da esquerda americana, mas com elas importou também as fraudes que por lá grassam nas universidades e que por aqui começam a fazer o seu caminho nas escolas.

No futuro, que já é presente, os médicos que nos atenderem, os engenheiros que constroem os nosso edifícios, os informáticos que codificam a IA que organiza as nossas vidas, os políticos que decidem das nossas vidas, etc. serão, muitos, senão a maioria deles, «os licenciados das medidas universais.»


March 11, 2026

Que atrasado mental...

 

O Jared não faz parte de nenhuma instituição, não foi eleito nem nomeado, mas foi ele quem decidiu atacar um país estrangeiro? Um governo de atrasados mentais...


Trump levanta as sanções à Rússia porque está-se nas tintas para os EUA



Ele está ali para fazer negócios para a sua família. De outra maneira, como explicar que levante sanções à Rússia, sabendo que a Rússia está a ajudar os iranianos a matar americanos?

Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський

A Europa, os Estados Unidos e todo o mundo civilizado impuseram sanções à Rússia pela sua agressão. Na minha opinião, se essas sanções forem levantadas, isso significa que estamos a reconhecer a legitimidade dessa agressão – ou seja, um ou outro Estado está a perdoar a Rússia por esse crime. É claro que, como presidente de um país que é vítima nesta guerra e como alguém que compreende fundamentalmente que a agressão não pode ficar impune, considero isso absolutamente injusto. 

De uma conferência de imprensa antes da reunião com a presidente do Bundestag alemão, Julia Klöckner (2/3)

Estar quase sempre do lado errado da História



Hen Mazzig

Espanha em 1492: expulsou, matou ou converteu à força todos os judeus.

Espanha durante o Holocausto: aliou-se aos nazis.

Espanha após o ataque mais mortal contra judeus desde o Holocausto: acusa Israel de genocídio.

Espanha no ano passado: recusou conceder asilo a palestinianos que fugiam de Gaza.

Espanha após reconhecer um Estado palestino: recusou-se a transferir a sua embaixada de Israel para os territórios palestinos porque os seus diplomatas não queriam abrir mão do «padrão de vida e segurança» que desfrutavam em Israel.

Espanha no verão passado: chamou a polícia para expulsar 50 adolescentes judeus franceses de um voo da Vueling após ouvir uma palavra em hebraico.

Espanha hoje: retirou oficialmente o seu embaixador de Israel, mas manteve a sua embaixada em Teerão.

É assim que se parece estar do lado errado da história. 🤦‍♂️

Coisas óbvias



O que é que um homem biológico faz num vestiário feminino? Mesmo que seja alguém que acredita mesmo que é uma mulher, só o facto de saber que a sua presença nos espaços femininos deixa as mulheres extremamente desconfortáveis e ansiosas, devia ser suficiente para levá-lo a recuar no seu desejo de entrar nesses espaços. Devia dar prioridade à segurança das raparigas e mulheres. Só um homem muito auto-centrado ou narcisista impõem os seus desejos à frente dos interesses e segurança de todas as raparigas e mulheres. E se esse homem biológico está disposto a pôr as raparigas e mulheres em perigo (pois mesmo que ele não tenha intenção de fazer mal, sabe que muitos têm essa intenção e aproveitam-se da normalização de homens biológicos nos espaços femininos - para a qual está a contribuir) para satisfazer os seus desejos pessoais, devemos ser extremamente cautelosos e pensar sobre o que mais ele estaria disposto a fazer.
- after @KatKanada_TM

 

Bom senso

 

Inglaterra: todos os dias é isto

 

Mas Starmer está a querer aprovar uma lei que proíbe criticar o islão. Desde quando numa democracia há religiões, instituições, partidos, pessoas, etc., acima de crítica, de sátira, de desconforto?  Starmer é um tolo da esquerda neo-racista e neo-colonialista. E está à frente da Inglaterra.


#transfascismo

 

Um trans homem biológico aconselha os outros trans a entrar à força na casa-de-banho das mulheres, com armas e ameaça-as de morte. 


Isto não podia ser inventado

 

Isto não podia ser inventado

 

O lugar da Justiça e da sua operacionalização no chão comum das sociedades


Isto vem a propósito do Parlamento inglês ter um projecto-lei à aprovação segundo o qual será possível o juiz decidir sozinho que as pessoas acusadas não terão direito a um julgamento com um júri - chamam-lhe justiça sumária. Uma, cada vez mais rara, ocasião, em que um Parlamento discute o impacto da legislação nos princípios fundadores da sociedade em vez de ficar aprisionado em acusações mútuas. Um discurso notável.


Viver entre dois olhares e ser cego ao seu



Esta reflexão de Du Bois é interessante, mas o que ele diz dos afro-americanos viverem entre dois olhares aplica-se a todas as mulheres do mundo e não apenas por causa do olhar dos homens brancos, mas por causa do olhar de todos os homens, incluido os afro-americanos - ou indivíduos não brancos de outras sociedades. Aliás, a crítica que Macamo faz à intervenção dos EUA no Irão e à cumplicidade dos portugueses com essa posição, não leva em conta, precisamente, a escravatura das mulheres na sociedade iraniana, os pedidos insistentes em todos os canais abertos ao mundo de ajuda internacional para se libertarem da escravatura atroz dos islamitas, seus algozes. A condição "dolorosa" de que fala Du Bois é experimentada por muitos outros grupos e desde logo as mulheres, mas não só (os que têm deficiências, os obrsos, os que têm certas doenças, etc.), pois todos os que são vítimas de preconceito as sentem e não apenas os afro-americanos, de maneira que esta insistência na excepção da dor dos afro-americanos parece-me encaixar-se num processo de vitimização que, quanto a mim, não ajuda à solução de problemas, antes a perpétuá-los.

No início do século XX, o sociólogo afro-americano W.E.B. Du Bois formulou um dos conceitos mais elegantes da teoria social moderna. No seu livro The Souls of Black Folk, Du Bois falou da “dupla consciência” para descrever a experiência de quem vive permanentemente entre duas formas de ver o mundo. O negro americano, dizia ele, aprende a olhar para si próprio simultaneamente com os seus próprios olhos e com os olhos da sociedade que o julga e o mede. Vive dividido entre duas perspectivas que nem sempre coincidem. A sua vida torna-se, por assim dizer, um exercício permanente de visão estereoscópica.

Du Bois descrevia uma condição dolorosa, mas também extraordinariamente fértil. Quem vive entre dois olhares aprende a reconhecer incoerências que outros não vêem. Aprende a desconfiar de certezas demasiado confortáveis. Aprende, sobretudo, que os princípios universais proclamados pelas sociedades dominantes nem sempre são aplicados com a mesma generosidade a todos.    - Elísio Macamo in publico.pt

 

🎯 Acerca das artes, ditas, elitistas



Concordo com este artigo. Vivemos um tempo em que as pessoas já só ouvem a música que o Spotify deixa e a música encolheu-se para 'caber' no formato do Spotify. As pessoas que conheço que gostam de música clássica começaram a ouvi-la desde miúdos, em casa. Certos filmes e até na publicidade, tornam extremamente populares, peças de música clássica e/ou ópera, o que mostra que existe, como sempre existiu, a sensibilidade a outros estilos de música para além do que passa nos canais digitais.
A falta de procura pela música clássica e pela ópera deve-se ao abandono dessas artes pelos canais audiovisuais. Quando era miúda e os canais de rádio e TV não eram de uma mediocridade intolerável, as artes, agora consideradas eruditas, eram comuns na TV: o teatro, os concertos, a ópera, o ballet. Desde miúdos, mesmo que em casa não houvesse o hábito de ir a esses espectáculos, havia a construção de uma sensibilidade estética pela familiaridade com essas artes. Em minha casa ouvia-se música clássica mas não ópera. A primeira vez que vi uma ópera devia ter uns 5 ou 6 anos e foi na TV. A RTP passou uma Traviata. Causou-me um grande impacto e lembro-se de estar a vê-la e a fazer perguntas à minha mãe. Aprecio muito o Coliseu dos Recreios por levar à cena esses espectáculos a preços acessíveis à grande maioria das pessoas e, desse modo, torná-los familiares e populares. 
Porém, o caso de salas como o Coliseu dos Recreios ( veja-se como o nome indica o seu fito de popularidade) são ilhas no meio dos oceanos de mediocridade que parecem ser agora o ideal das sociedades. Timothée Chalamet, um actor novo mas já com reputação, encarna perfeitamente este novo desiderato de mediocridade cultural.


A ópera transcende o tempo, Timothée Chalamet reflete um equívoco da sociedade

Timothée Chalamet considera que a ópera necessita de cuidados intensivos, refletindo a ideia que a música erudita ocidental é aborrecida e complexa. Não será isto resultado de falta de familiaridade?
Gustavo Silva

(Estudante de Ciências Musicais na NOVA FCSH. Aprendiz de piano, flauta transversal e direção de orquestra. Fã de música, arte e filosofia.)

O projeto Opera Europa comprovou que, em 2022, a indústria operática europeia contou com 200 mil profissionais, 20 mil performances e 13 milhões de espectadores. Além disso, a resposta forte nas redes sociais (à cabeça Metropolitan Opera) mostra a imprecisão do comentário. De qualquer forma, a música erudita ocidental é, por vezes, associada à elite e a um público restrito, importando questionar porque é que a ideia de que é aborrecida está intrínseca na sociedade – será que alguma vez ouviram sinfonias de Mahler ou Bruckner?

Antes de mais, mesmo tendo em conta os elevados custos financeiros de produção e consequentemente de assistência, considero que as barreiras à denominada alta cultura são maioritariamente sociais e simbólicas (na esteira de Bourdieu). Tal como N. Heinlich afirma, as barreiras derivam principalmente de falta de familiaridade. Aliás, as plataformas de streaming permitem-nos assistir onde e quando quisermos - curiosamente, a juntar a isto, a Ópera de Seattle aproveitou esta polémica para promover um desconto de 14% nos seus espetáculos.

No século XXI, marcado pela comercialização da música, peças que não foram pensadas para consumo rápido tendem a ter mais dificuldade em afirmar-se. Como estas práticas artísticas podem ser extremamente longas, o ouvinte habituado a músicas de cinco minutos dificilmente lhes dedicará atenção prolongada (só como fundo sonoro). Além disso, em oposição a outras artes, acredita-se que, para assistir ópera, são necessários conhecimentos teóricos (língua diferente; música virtuosa e enredos longos). Não obstante, isto é um preconceito cultural herdado: a música é ouvida e sentida. O capital cultural pode aprimorar a experiência, mas não é pré-requisito.

publico(excerto)

Leituras pela manhãzinha - "A dor fez-me perceber que eu era menos uma criatura com uma identidade interior estável do que um ecossistema penetrável.”

 


This Is the Door: The Body, Pain, and Faith, de Darcey Steinke. HarperOne, 2026.

Há um verso de Heinrich Heine que me irritou quando o li pela primeira vez e que continua a irritar-me quando o releio:

“A dor psíquica é mais facilmente suportada do que a dor física; e se tivesse de escolher entre uma má consciência e um dente estragado, escolheria a primeira” — o que, se eu não soubesse melhor, faz Heine soar como se nunca tivesse sido verdadeiramente atingido por dor psíquica. 

A dor psíquica, a verdadeira, causa dor física: o peso na cabeça, a tensão no peito, o nó nos intestinos, o aperto na garganta e todas aquelas nódoas negras de embater em objetos porque a depressão distorce a visão. Além disso, existe ópio e extracção para esse dente estragado; ainda não encontrei ópio nem método de extração para a alma doente.

Winston Smith, de George Orwell, porém, concorda com Heine:
Da dor só se pode desejar uma coisa: que pare. Nada no mundo é tão mau como a dor física. Diante da dor não há heróis.

Mas Karl Marx, numa carta de 1881, inverte a preferência de Heine:
O único antídoto para o sofrimento mental é a dor física.

Ter de escolher hipoteticamente entre tortura mental e tortura física é mais ou menos como ter de escolher hipoteticamente entre morrer afogado ou morrer queimado. 

Próxima pergunta. Qualquer que seja a preferência, a evolução por selecção natural darwiniana fez um trabalho terrivelmente atroz ao fabricar-nos. As nossas costas partidas, os joelhos arruinados, os tornozelos frágeis e dentes inclusos são uma refutação estrondosa da ideia de que fomos criados com ternura à imagem de Deus — a menos que se esteja disposto a aceitar um deus com costas partidas, joelhos arruinados, tornozelos frágeis e dentes inclusos.

No seu belo novo livro This Is the Door: The Body, Pain, and Faith, a romancista e memorialista Darcey Steinke, autora do clássico Suicide Blonde (1992), escreve:
Sou uma criatura improvisada, montada à pressa, que transporta comigo, como todos nós, todas as criaturas que alguma vez fui.

Ela tem razão: que destroços somos, por dentro e por fora. Que falhas físicas — para não falar do nosso equipamento psico-emocional defeituoso. Steinke afirma que a própria dor é uma espécie de falha, embora definitivamente não uma falha dos nossos nociceptores, essas diligentes terminações nervosas responsáveis por enviar as picadas e ferroadas diretamente para o cérebro. Não: os nociceptores são bem-sucedidos para além de qualquer medida.

Embora Steinke tenha sido fustigada por enxaquecas fluorescentes, cólicas menstruais lancinantes, a dor sufocante de um desgosto amoroso e a angústia enevoada da melancolia, foi a dor nas costas que parou o relógio:

A dor põe-nos de joelhos fisicamente, mas também espiritualmente. Muitas vezes perguntei-me se ajoelhar num sentido religioso não será uma pantomima da forma como a dor pode obrigar um corpo a descer até à terra.

Steinke dedicou o livro ao seu cirurgião de coluna. As suas descrições poderosas da própria dor nas costas e das dores variadas de outras pessoas fazem lembrar as palavras de Rei Lear a Cordélia:

Estou preso
A uma roda de fogo, onde as minhas próprias lágrimas
Escaldam como chumbo derretido.


Edgar, ao ver Gloucester cego no mesmo acto, diz para si:

O pior ainda não chegou
Enquanto pudermos dizer: ‘Este é o pior.


Por outras palavras, sofrer é melhor do que estar morto. Se assim o dizem.
(...)
“A dor”, escreve ela, “é o combustível da oração”, e continua:
O sofrimento, seja qual for a sua causa, separa-nos do mundo que conhecíamos e empurra-nos para um limbo entre o que foi e o que poderá ser. A oração e a meditação são tentativas de abrir um buraco dentro desse abismo, de criar um espaço dentro da claustrofobia do sofrimento, de cortar o corte.

Não se trata de um limbo qualquer, mas — escreve mais tarde — de um “limbo teológico”. O sofrimento coloca-nos no ponto intermédio entre crença e heresia.
(...)
Steinke divide o livro em dez capítulos luminosos: Coluna, Joelhos, Coração, Cérebro, Pele, Seio, Desgosto Amoroso, Sofrimento, Alma, Cura.

Ao longo deles desfila uma procissão de artistas, escritores, músicos e visionários cujas vidas foram violadas pelo sofrimento: Frida Kahlo, Franz Kafka, Bernadette Soubirous, Friedrich Nietzsche, Alice James, Fanny Burney, Simone Weil, Audre Lorde, Carolee Schneemann e Kurt Cobain, entre muitos académicos e investigadores que tentam compreender porque sofremos e o que isso poderá significar.

O pai de Steinke era pastor luterano, e o pensamento teológico que ela absorveu na infância tornou-se “parte da forma como tentei compreender a dor”. Existe uma antiga e fecunda ligação entre religião e sofrimento — no tempo de John Donne, este tipo de depressão era chamado “melancolia religiosa” — embora um dos argumentos a favor da religião seja precisamente ajudar os aflitos a sofrer menos.

“Embora não considere a minha dor sagrada”, escreve Steinke, “a imobilidade que ela provoca pode sê-lo. A dor fez-me perceber que eu era menos uma criatura com uma identidade interior estável do que um ecossistema penetrável.”

Ela chama à dor “uma força malévola” — a dor como iniquidade, um flagelo vindo diretamente da boca do inferno.
(...)

Steinke cita Martin Buber:

“O que esperamos quando estamos em desespero? Certamente uma presença através da qual nos seja dito que, apesar de tudo, há sentido.”
(...)
Steinke confessa que a sua dor “é também uma espécie de paixão” — uma Paixão no sentido espiritual e sacrificial — “que pode ser um pouco acalmada pelas memórias de felicidade”. Com isso quer dizer que essas memórias recordam que o seu corpo “tem muitas capacidades”.
(...)
No drama heroico The Indian Emperour, John Dryden escreveu:

Pois toda a felicidade que a humanidade pode alcançar
não está no prazer, mas no descanso da dor.


As exigências inflexíveis da existência recusam o pedido do hedonista: nenhum de nós pode confiar no prazer, ou pelo menos na sua duração. Evitar a dor é o máximo a que podemos aspirar.

A nossa dor tem tal variedade cromática que inventámos sinónimos igualmente coloridos, todos cantando o mesmo estado e o desejo de o inverter: angústia, agonia, dor, aflição, miséria, sofrimento, tormento, tortura, espasmo.

Quando a mãe de Steinke morre de um coração rebelde, de artérias coronárias bloqueadas por cálcio, ela percebe que a palavra dor parece inadequada para descrever as sensações do corpo quando passa da vida para o nada.

Como chamamos ao início da aniquilação?

Steinke faz uma distinção perspicaz antes de um diagnóstico igualmente perspicaz:
O sofrimento é complexo: mais amplo do que a dor e a doença, é uma premonição da desordem última da pessoa; é a frustração da realização do próprio ser; é uma experiência de alienação, impotência e desesperança; é uma ameaça à posição social; é a perda de um eu anterior e de um modo de vida anterior; é a incerteza quanto ao centro e à esperança da vida; é o ponto de encontro onde a finitude e o infinito se cruzam.
E quanto à doença, uma categoria suficientemente ampla para abarcar inúmeros sofrimentos?
A doença agarra as pessoas pela alma tanto quanto pelo corpo e perturba ambas.
Com perturba, Steinke quer dizer vira do avesso, desarticula.

Algumas das partes mais comoventes e memoráveis do livro são as dedicadas à morte do pai por cancro e à morte da mãe por doença cardíaca. Uma década antes de morrer, a mãe precisou de uma mastectomia devido a cancro da mama, e aqui Steinke mostra-se no seu melhor, com grande ternura:
Sofri cólicas menstruais, a dor de um aborto, dores de parto, afrontamentos, a ansiedade e o esgotamento do assédio sexual, mas a dor somática feminina que mais me afetou não foi a minha, mas a da minha mãe. Não uma dor no meu corpo, mas no corpo que fez o meu.
O espirituoso britânico do século XIX Sydney Smith observou que “não adianta pregar a ninguém, a menos que por acaso o apanhem doente”, mas o pai de Steinke, pastor, foi um caso inverso: a sua fé escapou juntamente com a sua saúde, e ele parece ter aceite isso.

Com o corpo devastado, no deserto da angústia, as nossas ideias espirituais são abaladas, possivelmente até obliteradas.

No seu espantoso poema “Child Harold”, escrito no asilo de High Beech em 1841, John Clare refere-se a

A pálida morte, o grande médico

que “cura toda a dor” — porque, para os aflitos sem consolo nas garras de uma doença terminal, só um médico serve. Não é preciso ser um génio louco para perceber isso.

O mundo parece preferir-nos em sofrimento. Steinke cita um aforismo de Franz Kafka:

Na luta entre ti e o mundo, aposta no mundo.

O injustamente esquecido poeta britânico do século XIX e místico católico Francis Thompson tem esta estrofe final sombria e certeira no seu poema musical Daisy:
Nada começa e nada termina
que não seja pago com um gemido;
pois nascemos na dor de outros
e perecemos na nossa.
Boa sorte a contradizer isso.

Hannah Arendt, com a sua habitual lucidez implacável, escreve em The Human Condition (1958) — livro que surpreende que Steinke não cite — o seguinte:
“A condição humana é tal que a dor e o esforço não são apenas sintomas que podem ser removidos sem alterar a própria vida; são antes os modos pelos quais a própria vida, juntamente com a necessidade a que está ligada, se faz sentir. Para os mortais, a ‘vida fácil dos deuses’ seria uma vida sem vida.”
Ao que apetece responder: fale por si, senhora Arendt.

Percebe-se o que Arendt está a fazer aqui — exatamente o que pensadores e sofredores têm feito desde que Sólon afirmou, por volta de 440 a.C., “Não consideres nenhum homem feliz antes de morrer”: tentar atribuir sentido ao sofrimento inevitável que precede a morte inevitável. 

Porque, se se encontrar sentido no sofrimento, pode encontrar-se sentido na própria vida.

A contribuição do cristianismo para esta ideia — o sofrimento gera redenção — é também a principal razão pela qual é a marca mais bem-sucedida da história. Toda a gente sofre e anseia por libertação. 

Vale a pena citar Steinke longamente aqui:
Caminho numa corda bamba entre revoltar-me contra a minha dor e tentar procurar quaisquer restos de significado que possam ter ficado nos seus destroços […]
A dor, como uma versão extrema da vida secular moderna, obriga-me a existir sem fundamento nem certeza.
A dor educa?
A dor é sempre uma experiência física de negação?
O que podemos aprender com a ferida, com a depuração, com a quietude, com a descriação que a dor intensa traz?
A dor aniquila-me mas também, de algum modo, recria-me? […]
A dor do meu nascimento trouxe-me à vida. Agora a dor transforma-me novamente, mudando os meus valores, a minha empatia, a minha ideia do mundo à minha volta, até a profundidade e intensidade da minha capacidade de amar.
O lema dos culturistas — No Pain, No Gain — refere-se à dor física quase extáctica de rasgar fibras musculares com pesos, para que o tecido se repare com maior volume.

Steinke abraça a versão psicoemocional dessa ideia — uma versão que é tão frequentemente falsa quanto duvidosamente verdadeira.

Nas páginas finais, ela legitima o cliché de que o sofrimento favorece a arte. Mas até William Blake, que conhecia bem os dentes da melancolia — no seu estúdio tinha uma gravura de Melencolia I (1514), de Albrecht Dürer — sabia melhor:
Às vezes tento tornar-me miserável para trabalhar mais, mas descubro que é uma experiência tola.
Uma das pessoas entrevistadas por Steinke, uma enfermeira digna com um joelho devastado, está suficientemente cansada e amarga para dizer com toda a clareza:

“Da minha perspetiva, não há absolutamente nada a aprender com a dor.”

Steinke perde o equilíbrio aqui:

As pessoas não são destruídas pelo sofrimento, mas pelo sofrimento desprovido de sentido. O sentido é maior do que um diagnóstico ou uma cura.
(...)
É profundamente humano desejar que o nosso sofrimento esteja grávido de significado, que indique um sentido para além das aparentes estrangulações e devastações inúteis.

Quando Emily Dickinson escreve:

Depois de uma grande dor, surge um sentimento formal

quer dizer que a dor intensa nos transforma em algo quase mecânico; esvazia-nos por dentro, transforma-nos num autómato que pisca os olhos. Não há nada a aprender, nada a ganhar com esse tipo de tormento.

Deixo-vos com as sábias estrofes finais de 90 North, um dos poemas insuperáveis de Randall Jarrell, cujos dois últimos versos caem como o golpe de um martelo:
Aqui, no verdadeiro polo da minha existência,
onde tudo o que fiz é sem sentido,
onde vivo ou morro apenas por acaso —
onde, vivendo ou morrendo, continuo sozinho;
aqui, onde o Norte, a noite, o icebergue da morte
me expulsam da escuridão ignorante,
vejo finalmente que todo o conhecimento
que arranquei da escuridão — que a escuridão me lançou —
é tão inútil como a ignorância: nada vem do nada,
a escuridão vem da escuridão. A dor vem da escuridão
e nós chamamos-lhe sabedoria. É dor.
https://thebaffler.com/latest/the-darkness-from-the-darkness-giraldi

March 10, 2026

A Ucrânia está muito à frente nas arte militares

 

💥 🪖 🇺🇦

 

Os húngaros admitem que roubaram dinheiro que não é seu

 

UE, o que vão fazer?

Nem com os presente de Trump a Rússia é capaz

 

A ideia de que Putin era um tipo competente foi largamente exagerada. Na verdade era -e é- um ex-KGB perito em recrutar, chantagem e subornar, mas governar e liderar exércitos exigem outro tipo de competências que ele não tem.


"Aid to Ukraine must not be interrupted"

 

Este argumento tem mérito mas também tem muitas falhas

 

Este indivíduo argumenta que a polarização da sociedade se deve à falta de recursos culturais para lidar com as diferenças. Recursos culturais, diz, são a solidariedade e a unidade que têm de ser orgânicos sob pena de a sociedade se tornar disfuncional e de surgir alguém que os impõe à força. Sem um chão comum deixamos de saber absorver as diferenças entre nós. Em sua opinião, a esquerda apoderou-se de todas as instituições sócio-culturais elitistas e tenta impor-se com autoritarismo social e a direita reagiu com autoritarismo político. Uma nova cultura, diz, tem emergido nestes últimos 40 anos, subjacente a estas visões cosmológicas opostas e essa cultura é o nihilismo e no coração do niilismo está a aniquilação.


Este argumento tem mérito mas tem falhas que o invalidam. 

Estou de acordo que sem uma partilha comum de valores, não é possível as pessoas navegarem nas sociedades sem chocar com as diferenças entre si e estou de acordo em dizer que temos as sociedades ocidentais (ele fala dos EUA) a defender cosmologias opostas. Também estou de acordo com a sua afirmação de que a esquerda tenta impor com autoritarismo sociocultural o seu sistema ideológico e a direita está a reagir com autoritarismo politico. Porém, dizer que a causa deste estado de coisas é o nihilismo não me parece sustentável.

Em primeiro lugar, o nihilismo nem é novo nem recente e estas forças cosmológicas de que fala não são nada nihilistas, pelo contrário. Caracterizam-se ambas pela afirmação de valores, só que em oposição feroz e intransigente uma com a outra. 

Portanto, estará ele a falar de uma terceira força que reage a estas duas...?

Em segundo lugar o que vemos nas sociedades é que, quando reconhecem uma ameaça superior comum a ambas as cosmologias, minimizam completamente as diferenças e unem-se em propósitos comuns. Vemos isso na Ucrânia, nos países bálticos, no Canadá e na UE, todos países sob ataque, uns directamente e com bombas, outros indirectamente com agentes de instabilidade de fito destruidor da coesão social. 

Portanto, não é que falte um chão comum, a questão é as sociedades serem constituídas por pessoas cujas lealdades são extra-sociedade. São lealdade a modelos ideológicos ou políticos totalitários, seja o islamismo, o comunismo, o cristianismo evangélico, o anti-semitismo, a ideologia trans, etc. Todas as forças ideológicas totalitárias (sejam religiosas ou laicas) são, por definição intolerantes, autoritárias, abusivas e destrutivas. Sempre foi assim. E o pior é que os seus membros usam-se de estarem cobertos por essas ideologias totalitárias que têm discursos de virtude, para cometerem os piores abusos, crimes e crueldades, sempre convencidos (os mais ingénuos) de que estão a fazer o serviço do bem.

Enquanto o cristianismo católico foi totalitário, foi intolerante e destrutivo. Isso durou até até há pouco tempo. Hoje-em-dia já só é intolerante e destrutivo em relação às mulheres. Foi o que lhe restou do império.

Vemos que o comunismo, em todos os países que se implantou foi totalitário, intolerante, abusivo e destrutivo, não admitindo nenhuma 'cosmologia' diferente. 

O cristianismo evangélico que se impôs dos EUA é totalitário, abusivo e destrutivo. Muitos dos seus membros de elite estão nos ficheiros de Epstein, estão acusados de pedofilia, de violência. No entanto, a sua linguagem é a da pureza e de refundição dos valores. 

Os islamitas são iguais mas piores porque defendem abertamente os piores crimes como virtudes da sua ideologia a serem defendidas pelas armas.

A ideologia trans, levada a cabo por homens biológicos misóginos e machistas empedernidos, tem imposto a perda de direitos às raparigas, às mulheres, aos homossexuais e às lésbicas, com crimes de violação e abusos sexual, sempre em nome da [pseudo] virtude da inclusão.

Nenhum destes grupos é nihilista. A esquerda em geral impõe aos outros, com neocolonialismo e neorracismo as suas bandeiras, fundadas, em grande parte na ignorância dos factos e na ausência de um pensamento crítico e consistente. Exibem uma vaidade que raia o ridículo quando afirmam que estão a defender os valores universais. Fazem-no aliando-se aos ditadores mais brutais e facínoras - mas não vêem nisso nenhuma contradição. Exemplos? 

Guterres, que tem sustentado activamente os regimes e pessoas que mais destroem e espezinham os direitos das mulheres escreveu um artigo no Público no Dia da Mulher a falar na importância dos direitos das mulheres sempre invocando valores que, na prática, tem ajudado a destruir. Uma arrogância oca.

Outro exemplo? João Costa, o ex-ministro da educação, construiu uma política educativa toda baseada no pressuposto de que os alunos pobres são burrrinhos e que devemos ter pena deles e passá-los a todos e privilegiar os afecto com eles - porque não se espera nada deles...? A vaidade deste paternalismo neocolonialista e neorracista... Os alunos de meios pouco favorecidos não são coitadinhos, têm é grandes desvantagens económicas que se reflectem nas possibilidades de aprendizagem mas, por isso mesmo, por virem de meios desfavorecidos, precisam de sair das escolas mais bem armados do que os outros, porque não vão ter cunhas nem facilidades. Só que isso custa dinheiro e dá muito trabalho e é melhor políticas de tratar todos como coitadinhos.

A direita, estando fora das instituições de elite, reage assaltando o poder político e impondo a sua ideologia e os seus valores que são a pureza e a ordem inicial - que estão longe de cumprir.

Em suma, o que me parece estar a acontecer é o emergir de extremismos que eu relaciono com a decadência da educação da História e das Humanidades que favoreciam uma visão global, não acantonada; a substituição do conhecimento pela opinião e por declarações de expressão de emoções subjectivas; a decadência das autoridades epistémicas, o que leva à ignorância dos factos e à transferência das crenças para influenciadores externos, sem escrúpulos; a corrupção dos mecanismos e das instituições de vigilância democrática e, acima de tudo, a ausência de uma educação do pensamento crítico que implica: estar informado, ter acesso aos factos, ter conhecimentos sólidos e fundamentados sobre os assuntos e pensar - saber considerar os problemas, saber caracterizá-los, saber construir linhas de inferência de regressão fundamental e tirar depois as consequências. Ter referências credíveis segundo sistemas racionais, universais e não emocionais e irracionais.