TPC: quando a escola entra pela casa adentro
Depois de um longo dia de aulas e de trabalho, em que pequenos e graúdos chegam exaustos a casa, expectantes pelo merecido descanso, o que dizer das mochilas que entram pela porta carregadas de TPC para o dia seguinte?
Como reagir quando, já cansados, com pouco tempo para preparar o jantar, realizar as tarefas pessoais, da casa e ainda gerir o tempo em família, nos deparamos com o desafio de convencer crianças e jovens igualmente fatigados a sentarem-se, uma vez mais, à secretária, a trabalhar e a puxar por uma cabeça que já não consegue dar mais? Por que temos de comprar essa guerra diariamente?
E quando os filhos não conseguem fazer os TPC autonomamente, que muitas vezes parecem impossíveis e intermináveis, e têm de ser os pais a inventar tempo, entre fazer o jantar, dar banhos e servir de “uber”, para dar aulas extra? Será que ambos não têm direito a ser donos das suas tardes e a aproveitarem-nas livremente? As muitas horas diárias de escola não são suficientes para cumprirem os objetivos? E as crianças que têm atividades a seguir à escola e que chegam já perto do jantar? (..)
Fala-se tanto de saúde mental e de bem-estar, da importância de valorizar e viver o tempo em família, do encontro, da brincadeira, e não nos apercebemos de que o peso da escola, pela mão dos TPC, boicota em grande parte a disponibilidade que podíamos ter para o que é realmente importante quando nos reunimos em casa ao final do dia.
Na infância, o tempo livre não é um prémio depois das obrigações, é um espaço aberto, sem regras, objetivos ou imposições, essencial para dar asas à imaginação e para elaborar as experiências vividas ao longo do dia. Porque é muitas vezes, nesse tempo aparentemente “improdutivo”, que as crianças organizam internamente aquilo que aprenderam e sentiram.
Da mesma forma que os pais não devem interferir no funcionamento da escola, a escola também não deveria poder ocupar o já limitadíssimo tempo de casa, de família, de encontro e de descanso.
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Filipa Chasqueira in https://sol.iol.pt/opiniao/
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1. Os pais sabem que os filhos são estudantes, não sabem? Estudante quer dizer, estudar;
2. Fala-se muito da importância das explicações nos dias de hoje e da diferença entre ricos e pobres poderem pagá-las. A Gulbenkian criou um serviço de explicações pós-aulas para ajudar alunos com dificuldades.
No meu tempo e até há uma quinzena de anos eram poucos os alunos com explicação e os que tinham dificuldades tinham aulas de apoio ao estudo na escola com bons resultados, porque havia professores suficientes para isso. Porque é que agora são necessárias explicações?
Porque o senhor PPC e seu amigo Crato acharam de valor mandar embora 30 mil professores (Crato dizia que as escolas e os professores tinham de fazer mais com menos) e os que vieram depois aprofundaram essa medida e agora não há professores; porque as turmas são muitos grandes; porque os alunos chegam à escola danificados cognitiva e motivacionalmente com o uso dos telemóveis; porque comportam-se mal nas aulas em vez de trabalhar e os pais não querem saber, ou pior, vão à escola desculpá-los e infernizar a vida aos professores, os professores têm excesso de trabalho e estão sempre exaustos.
Aqueles poucos alunos que nos chegam às mãos, digamos assim, bem preparados, com métodos e planos de estudo semanal e com pais que colaboram, nem precisam de explicações nem de guerras para fazer os trabalhos de casa.
Esta mãe diz que todos os dias "tem de comprar uma guerra para que o filho faça os TPCs." Agora imagine o que são as turmas com 30 miúdos iguais ao seu filho, com quem é preciso comprar guerras todos os dias para que tenham algum empenho, mesmo que mínimo na sala de aula, depois de ouvirem os pais dizer mal do estudo.
Não é possível que os alunos façam a maioria do trabalho nas aulas, nem a extensão dos programas permite que se gastem aulas e aulas a treinar exercícios. Se os pais querem que os alunos progridam e dominem os conteúdos e métodos necessários, têm que aceitar que eles têm de estudar fora das aulas.
Por exemplo, no que me diz respeito não envio TPCs para casa a não ser mandá-los pensar numa questão. Digo-lhe para investigarem ou discutirem com os pais. Porém, quando trabalho a Lógica Proposicional Clássica, envio montes de exercícios por email porque sei que, se eles não treinam os vários exercícios depois não sabem resolvê-los no teste. Já nem das regras se lembram.
Os pais põem os alunos em cursos de prosseguimento de estudos mas depois não valorizam o estudo. E quando são crianças ainda é mais importante o apoio dos pais no estudo.
3. Esta mãe diz o seguinte, nos apercebemos de que o peso da escola, pela mão dos TPC, boicota em grande parte a disponibilidade que podíamos ter para o que é realmente importante. Ou seja, o estudo não é importante e ela di-lo ao filho. Mas depois espera que ele seja um aluno aplicado.
E já agora, quando os pais chegam a casa aproveitam o tal tempo para interagir produtivamente com os filhos ou deixam-nos ir para o quarto com os telemóveis e PSPs. E nos fins-de-semana, é a mesma coisa?
Tenho alunos que na primeira aula de Filosofia no 10º ano me informam que a mãe ou o pai os avisaram que não vão gostar de Filosofia, que eles também não gostaram.
Este ano tenho um aluno chinês que veio da China e a propósito de um trabalho que fez disse-me que na China os alunos do secundário têm mais disciplinas e um horário mais carregado e que os professores lá não têm tanta paciência como cá para explicar tudo ao pormenor.
Os pais, em vez de se porem contra os professores que pensam no interesse dos alunos, deviam era exigir ao governos ter horários que lhes permita ter tempo para os filhos ou, melhor ainda, exigir que invista na escola pública: mais professores, mais funcionários, mais técnicos especializados. Como costuma dizer-se, não se fazem omeletas sem ovos.
4. Ao contrário do que diz esta mãe, os pais entram na escola e no trabalho dos alunos na escola todos os dias e o problema é que ela ainda não se deu conta disso.