May 01, 2026

A russificação dos EUA



Hoje, G. Elliott Morris, do Strength in Numbers, assinalou que Trump atingiu um novo mínimo tanto no desempenho global do seu cargo como na forma como gere a economia, com -22,2 e -40,3, respetivamente. 

Esses números reflectem a percentagem de pessoas que aprovam a sua actuação numa determinada área menos as que a desaprovam. De facto, Morris observou que a taxa de aprovação de Trump na economia é tão baixa que “literalmente rebentou a escala deste gráfico no meu portal de dados”.

Na terça-feira, Morris explicou no Strength in Numbers que, embora os republicanos tenham argumentado recentemente que precisam apenas de mobilizar eleitores para vencer as eleições intercalares, a afluência às urnas não é o seu problema. O verdadeiro problema é que os eleitores não gostam do que Trump está a fazer.

Um símbolo evidente da presidência de Trump é a sua decisão unilateral de demolir a Ala Este da Casa Branca e substituí-la por um gigantesco salão de baile. Uma nova sondagem do Washington Post–ABC News–Ipsos, divulgada hoje, mostra que os americanos se opõem ao salão de baile por uma margem de cerca de dois para um. Cinquenta e seis por cento dos americanos opõem-se, enquanto apenas 28% o apoiam. Entre os que se opõem, 47% fazem-no de forma veemente.

Dan Diamond e Scott Clement, do Washington Post, assinalam que as pessoas também não gostam do arco triunfal proposto por Trump — 52% contra, face a 21% a favor — nem da ideia de colocar a assinatura de Trump no papel-moeda. Sessenta e oito por cento dos americanos opõem-se a esse plano, enquanto apenas 12% o apoiam. Até entre os republicanos há oposição, por 40% contra 28%.

E depois há a guerra de Trump contra o Irão. Uma sondagem recente da Reuters/Ipsos mostra que apenas 34% dos americanos aprovam os ataques ao Irão, enquanto 61% se opõem. 

Os preços da gasolina continuam a subir, com o petróleo Brent a ultrapassar hoje brevemente os 114 dólares por barril — o valor mais alto desde junho de 2022, pouco depois de a Rússia ter lançado o seu ataque à Ucrânia. O senador Angus King (I-ME) referiu hoje na CNN que estes preços mais elevados estão actualmente a custar aos consumidores americanos cerca de 700 milhões de dólares por dia.

No seu Substack de hoje, o economista Paul Krugman observou que o acrónimo “TACO” (“Trump Always Chickens Out”, ou seja, “Trump acobarda-se sempre”) foi substituído por “NACHO”: “Not A Chance Hormuz Opens” (“Não há hipótese de Ormuz reabrir”). Krugman explica que é improvável que o Irão reabra o Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo mundial antes de Israel e os EUA iniciarem ataques aéreos contra o Irão a 28 de fevereiro de 2026, até que “os danos económicos provocados pelo seu encerramento se tornem muito mais graves”.

Trump mantém um bloqueio norte-americano aos portos iranianos, e o Irão afirma que não reabrirá o estreito até que esse bloqueio ao transporte marítimo iraniano seja levantado. Krugman nota que o ego de Trump não lhe permitirá “encarar a realidade de que ele, mais ou menos sozinho, conduziu a América à maior derrota estratégica da sua história”.

Assim, ilude-se pensando que pode extrair concessões do Irão, embora não tenha sido claro quanto a quais seriam. Por seu lado, observa Krugman, as autoridades iranianas não têm incentivo para chegar a acordo, tanto porque a pressão sobre o petróleo prejudica os EUA e, portanto, Trump, como porque não têm razões para acreditar que Trump cumpriria qualquer acordo. Ele tem o hábito de quebrar acordos.

“A questão agora”, escreveu Krugman, é “quanta destruição terão de suportar o mundo e a América antes de Trump estar disposto a aceitar a realidade?”

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, testemunhou ontem perante a Comissão das Forças Armadas da Câmara dos Representantes e hoje perante a Comissão das Forças Armadas do Senado sobre o pedido de Trump de um orçamento de defesa de 1,5 triliões de dólares (medida americana) e sobre a guerra com o Irão. Foi a primeira vez que um membro da administração compareceu numa audição pública desde o início da guerra e os legisladores tinham muito a dizer. O senador Jack Reed, de Rhode Island, o democrata mais graduado na comissão, resumiu a situação:
“Há sessenta e um dias o Presidente Trump iniciou unilateralmente a guerra no Irão. Não tinha uma estratégia coerente. Recusou apresentar o caso ao povo americano ou consultar o Congresso. Não apresentou qualquer prova de uma ameaça imediata e ignorou os conselhos de especialistas militares e de inteligência que o alertaram para as consequências. Hoje, o nosso país encontra-se numa posição estratégica pior. O Estreito de Ormuz estava aberto. Agora está fechado. Treze militares perderam tragicamente a vida e mais de 400 ficaram feridos. Perdemos dezenas de aeronaves, sofremos danos significativos nas nossas bases na região e consumimos uma quantidade alarmante do nosso arsenal de mísseis. O moral e a prontidão das forças, especialmente entre unidades e navios sobrecarregados, como o porta-aviões USS Gerald R. Ford, foram afetados. Os preços da gasolina e dos fertilizantes dispararam em todo o mundo. As famílias americanas estão a suportar o custo de uma guerra com a qual nada queriam ter a ver e da qual nada ganharam.”
Amanhã assinalam-se 60 dias desde que Trump informou o Congresso de que tinha iniciado ações militares contra o Irão. Ao abrigo da Lei dos Poderes de Guerra de 1973, após 60 dias o presidente tem de pôr fim às hostilidades ou obter aprovação do Congresso. No seu testemunho de hoje, Hegseth tentou argumentar que o prazo de 60 dias é suspenso durante um cessar-fogo, apenas para o senador Tim Kaine (D-VA) assinalar que a lei não diz isso.

Ainda assim, hoje os republicanos no Senado bloquearam outra medida democrata — a sexta, apresentada pelo senador Adam Schiff (D-CA) — para obrigar Trump a pôr fim à guerra com o Irão. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson (R-LA), disse a jornalistas da NBC News que o Congresso não precisa de interferir nas ações de Trump no Irão porque os EUA não estão atualmente “em guerra”.

E depois há a corrupção. 

Na semana passada, surgiu a notícia de que uma start-up apoiada por Eric, filho do Presidente Trump, ganhou um contrato de 24 milhões de dólares do Pentágono. Hoje soube-se que a Força Aérea dos EUA concordou em comprar um número não divulgado de drones a uma empresa apoiada pelos filhos de Trump.

E depois há a incompetência. 

Hoje, após uma paralisação de 76 dias, os republicanos na Câmara dos Representantes aprovaram finalmente uma medida do Senado para financiar o Departamento de Segurança Interna, enquanto retinham verbas do ICE e da Alfândega e Protecção de Fronteiras. O Senado aprovou o diploma por unanimidade a 27 de março, mas, como correspondia ao que os democratas pretendiam, o presidente da Câmara recusou levá-lo a votação até hoje.

Perante a crescente impopularidade de Trump, os republicanos estão a mudar não as suas políticas impopulares, mas as regras eleitorais, aparentemente na esperança de manipular o sistema para vencer eleições independentemente da sua impopularidade.

Ontem, com praticamente nenhuma participação pública, o Senado da Florida aprovou um mapa eleitoral manipulado (gerrymandering) concebido para dar mais quatro lugares no Congresso aos republicanos, apesar de, há mais de dez anos, os eleitores terem aprovado uma alteração constitucional que proíbe esse tipo de manipulação partidária.

Também ontem, a decisão do Supremo Tribunal no caso Louisiana v. Callais abriu caminho para que os republicanos nos Estados do sul redesenhem os seus mapas eleitorais, transferindo entre 10 e 15 lugares dos democratas para os republicanos. Na decisão, os seis juízes nomeados por presidentes republicanos declararam que os que alegam discriminação racial no desenho dos distritos têm de provar que os legisladores agiram intencionalmente com base na raça e não no partidarismo — algo que o tribunal declarou estar fora do alcance dos tribunais federais.

A decisão significa que os Estados podem agora redesenhar distritos para reduzir o poder eleitoral das minorias, um grupo demográfico que tende a votar nos democratas.

O governador republicano do Louisiana, Jeff Landry, declarou imediatamente o estado de emergência, suspendendo as eleições primárias no Estado para poder redesenhar os distritos e garantir mais um ou dois lugares republicanos. Mais de 100 mil boletins de voto por correspondência já tinham sido enviados — alguns já foram devolvidos — e a votação deveria começar dentro de dias.

Os democratas já interpuseram uma ação judicial contra a tentativa do governador de travar uma eleição já em curso e exigem que esta prossiga. A acção sublinha, entre outros pontos, que a Constituição atribui às legislaturas estaduais, e não ao governador, a responsabilidade de definir “os tempos, locais e modo de realização das eleições para senadores e representantes”.

Legisladores no Tennessee, Mississippi e Alabama também estão a considerar redesenhar distritos na sequência da decisão Callais.

Os democratas responderam ao enfraquecimento da Lei do Direito de Voto pelo Supremo Tribunal e às manipulações eleitorais dominadas pelos republicanos que certamente se seguirão. Estados dominados por democratas estão a considerar as suas próprias manipulações para contrabalançar os republicanos, bem como nova legislação para proteger os direitos de voto das minorias.
“A decisão de hoje por esta maioria ilegítima do Supremo Tribunal constitui um golpe contra a Lei do Direito de Voto e foi concebida para minar a capacidade das comunidades de cor em todo o país de elegerem o candidato da sua escolha”, disse aos jornalistas na quarta-feira Hakeem Jeffries (D-NY), líder da minoria na Câmara. “Mas não estamos aqui para recuar. Estamos aqui para reagir.”
Trump, entretanto, quer ainda mais. A sua conta nas redes sociais publicou hoje: 
“Quanto abuso pode o Senado Republicano suportar por parte dos lunáticos da esquerda radical, sob a forma de senadores democratas, antes de EXPLODIR (TERMINAR!) O FILIBUSTER e aprovar medidas a um ritmo recorde, incluindo a Lei Save America, que seria impensável sem o fim do filibuster?? Sem o filibuster, [p]oderíamos aprovar uma lei atrás de outra. Poderíamos aprovar leis e medidas que nunca sequer sonhámos aprovar. E sabem mais uma coisa? Não perderíamos durante 50 anos.”
As próximas eleições estão claramente no pensamento de Trump. Hoje, numa intervenção na NewsMax, disse: 
“É um problema eu não estar no boletim de voto. E tenho de convencer — toda a gente diz que se eu estivesse no boletim ganharíamos por uma vitória esmagadora. Tenho os melhores, alguns dos melhores números nas sondagens que alguma vez tive.”
por Heather Cox Richardson

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O que estará a China a pensar perante tanta incompetência estratégica política, diplomática e militar dos EUA, dentro e fora das suas fronteiras, levada a cabo por uma administração infiltrada ao mais alto nível por criminosos do mais baixo nível? Esperança de que pode expandir-se sem oposição credível e eficaz?

April 30, 2026

Kaja Kallas tem a cabeça arrumada

 

Não sei como é que este homem aguenta a pressão

 

E como consegue navegar no meio da esquizofrenia de tantos líderes medrosos.


É difícil mantermo-nos a par da esquizofrenia da alta política mundial

 

E não falo apenas do mafioso putin-lover da Casa Branca. Também os europeus, dia sim, dia não mudam a trajectória da sua política. Primeiro choram com medo de fazer um exército europeu não vá Trump zangar-se com eles - parecem Trump a lidar com Putin. Depois exigem que a Ucrânia se deixe aniquilar pelos russos: ora não podem atacar as fontes do petróleo, ora têm que arranjar as tubagens que a Rússia destrói co mísseis para continuarem a vender petróleo a inimigos, ora pedem para a Ucrânia render-se e dar territórios a Putin, ora pedem que a Ucrânia pague aos russos!!! Que líderes cobardes e mendazes! Assim não vamos lá.


Soluções

 





Instituto Planeta Vida

Polónia usa “muros de comida” para combater desperdício e para alimentar quem precisa.
Em várias cidades da Polónia, geladeiras comunitárias instaladas em paredes de becos viraram símbolo de solidariedade. Conhecidas como “muros de comida”, funcionam 24 horas por dia e estão abertas a qualquer pessoa.
Cafés, padarias e mercados abastecem diariamente as geladeiras com refeições frescas, frutas, pão e leite. Na maioria dos casos, são alimentos de qualidade que sobrariam no fim do dia e acabariam no lixo.
A regra é direta: se precisar, pegue. Se puder dar, contribua. Não há cadastro, fila ou perguntas. Nas portas, mensagens como “Sirva-se” e “Você não está sozinho” reforçam a ideia de apoio mútuo.
O modelo nasceu para reduzir o desperdício de alimentos e, ao mesmo tempo, garantir que pessoas em situação de vulnerabilidade tenham acesso a comida digna. Voluntários fazem a limpeza e verificam a validade dos produtos, mas a gestão é coletiva e baseada na confiança.
Para os poloneses, os “muros de comida” não são vistos como caridade. O conceito que sustenta a iniciativa é o de humanidade compartilhada: quem tem a mais deixa, quem precisa tira, sem burocracia e sem estigma.
Por: Joel CapembeL @bombas.nabanda

Mahler e um jantar ucraniano

 


Fui ouvir a 5ª de Mahler. É uma sinfonia que não faz sentido como um todo. A primeira parte faz sentido sozinha, quer dizer os dois primeiros movimentos tempestuosos e caóticos da oração fúnebre. Fazem-me lembrar Béla Bartók. A segunda parte não faz sentido nenhum. Tanto tem drama e trompas ruidosas e violência como de repente estamos a ouvir uma valsinha. Parece uma mante de retalhos sem nexo. Depois vem o famoso Adagietto, aquela coisa wagneriana, lenta, como se o tempo tivesse parado, pungente e arrebatadora com píncaros poéticos de cordas e harpa que comove até às lágrimas, sobretudo se é tocada com extrema sensibilidade (o que foi). Como é que se sai daquele lugar etéreo para outra coisa qualquer? O que pode vir a seguir àquilo? Mas Mahler sai dali para o último movimento. Nesta sinfonia gosto da primeira parte e gosto do Adagietto, mas na minha cabeça são coisas separadas. 

Enfim, a seguir fomos jantar a um restaurante ucraniano ali perto, muito simpático.






Dividimos umas entradas. Gostámos especialmente de umas panquecas de batata com molho de cogumelos, ervas e natas frescas. Estava óptima. Depois comi o famoso supremo de frango à Kyiv. 


Houve quem preferisse a Frigideira Lviv



No fim dividimos este bolo chamado Spartak pelos quatro. 


Foi bom. Pessoas simpáticas e atenciosas. Comida boa.

Depois à volta apanhei um acidente na ponte com três carros enfaixados uns nos outros e cheguei tardíssimo.


April 29, 2026

A merdificação da tecnologia a merdificar as nossas vidas



Ultimamente passo a vida a desactivar funcionalidades no telemóvel. As últimas foram as notificações de bancos. De há um par de semanas a esta parte, de cada vez que pegava no telemóvel havia mensagens financeiras no ecrã bloqueado: pagaste x à companhia do gás; foi depositado x na tua conta, etc. E o Instagram também lá deixa mensagens sobre alguém ter publicado qualquer coisa. Passo o tempo a 'desnotificar'. Que chatice! Agora, se entro no Google Chrome, imediatamente bloqueia-me o ecrã com um pedido de só o usar a ele e declarar universalmente que é o meu browser preferido; em vários sites da Meta, tenho que declarar que quero ver anúncios para poder aceder ao site. Que merdice!
Pois um canadiano escreveu um livro sobre a merdificação da tecnologia que merdifica as nossas vidas fazendo monopólios e cartéis sob o olhar (merdoso) dos políticos, demasiado medrosos para os regular.


Screen and Shout

Gadgets and Gizmos

The origins of our digital nightmare


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Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It
by Cory Doctorow



Needy Media: How Tech Gets Personal
by Stephen Monteiro


Pouco tempo depois de receber o meu novo portátil de trabalho, fiquei extremamente frustrado com o Microsoft OneDrive, que insistia em que eu guardasse tudo na cloud. Parecia impossível guardar qualquer documento no disco rígido. Após algumas horas a procurar soluções, desinstalei o OneDrive, algo contra o qual muitos comentadores na internet alertavam veementemente. Senti que tinha de fazer alguma coisa, e isso até resolveu parcialmente o problema: agora consigo guardar e abrir ficheiros no meu computador (embora ainda tenha de passar por quatro janelas inúteis para o fazer). No entanto, sem o software de armazenamento, as coisas estão muito, muito instáveis. O Microsoft Word bloqueia constantemente e, quando reinicia, abre uma série de documentos aleatórios. Claro que não é só a Microsoft. Sempre que abro um PDF, a Adobe diz-me que parece ser um documento longo e pergunta se quero que a sua IA o resuma por mim. Como alguém que ganha a vida a ler e a escrever, não consigo imaginar uma pergunta mais insultuosa para o meu computador me fazer.

Felizmente, surgiu uma nova expressão para resumir a forma como a nossa tecnologia já não funciona tão bem como antigamente, uma expressão que entrou no léxico a uma velocidade impressionante: “enshittification” (merdificação). Cunhado pelo romancista, blogger e activista dos direitos digitais canadiano-britânico Cory Doctorow, o termo capta na perfeição grande parte do nosso atual inferno digital: nada é tão bom como antes e tudo, até ao limite, é despejado diretamente nos centros de dados. Em Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It, Doctorow mostra como a nossa tecnologia se degradou tão rapidamente e apresenta algumas possíveis estratégias de mitigação.

Parte do apelo — e da graça — deste livro está na ousadia escatológica do título. Tendo cunhado uma expressão que define o espírito do tempo, Doctorow sabe combinar humor grosseiro com uma clareza surpreendente ao descrever o fenómeno de tudo se tornar mais “merdoso”, incluindo as suas causas e consequências. 

Usa a palavra centenas de vezes, bem como cria, com evidente prazer, várias derivações: merdificar e o seu oposto, desmerdificar; merdificatório e desmerdificatório; a merdina; a Grande Merdice; e (a minha favorita absoluta) o Merdoceno: a era geológica em que vivemos actualmente. Doctorow também sabe construir frases que prendem o leitor: “Quando uma empresa pode ‘merdificar’ os seus produtos, enfrentará a tentação permanente de o fazer.”

Por baixo da diversão do título — também presente na capa, que mostra um enorme emoji de cocó com “&$!#%” a tapar-lhe a suposta boca —, Doctorow fala muito a sério. Logo no primeiro parágrafo da introdução, não poupa palavras: “Não és só tu.” E continua: “A internet está a piorar, rapidamente. Os serviços de que dependemos, que antes adorávamos? Estão todos a transformar-se em montes de lixo, ao mesmo tempo. Pior ainda, o digital está a fundir-se com o físico, o que significa que as mesmas forças que estão a arruinar as nossas plataformas estão também a arruinar as nossas casas e os nossos carros, os locais onde trabalhamos e fazemos compras. O mundo é cada vez mais composto por computadores nos quais colocamos os nossos corpos, e computadores que colocamos dentro dos nossos corpos. E esses computadores são péssimos.”

Dei por mim a concordar com cada frase. Isto é, claro, parte do poder da palavra “merdificação”: todos reconhecemos a sua verdade.

Nas quatro secções seguintes — “A História Natural”, “A Patologia”, “A Epidemiologia” e “A Cura” —, Doctorow explica de forma inteligente como chegámos aqui. Em termos simples, este “colapso súbito das plataformas que está a acontecer à nossa volta” surgiu porque as grandes empresas tecnológicas procuram apenas maximizar os lucros e satisfazer os acionistas. Têm-nos algemados como clientes; mantêm as empresas presas aos seus sistemas; e intimidaram qualquer poder regulador governamental. 

Para quem duvide, Doctorow apresenta provas. Ele descreve como Facebook, Amazon, Apple e Twitter conseguiram atrair utilizadores e anunciantes com produtos revolucionários que, no início, funcionavam; mas, assim que todos ficámos dependentes, começaram a tornar-se cada vez piores. “Todas as nossas empresas tecnológicas estão a tornar-se terríveis”, escreve ele, “ao mesmo tempo, e não estão a morrer. Continuamos presos nas suas carcaças em decomposição, incapazes de escapar.”

O principal motor da merdificação é um capitalismo fora de controlo. Através de monopólios, de uma regulação perigosamente fraca e da falta de interoperabilidade, os gigantes empresariais podem basicamente fazer o que lhes apetece. 

Doctorow deixa claro quão grave é o panorama actual, em vários sectores: “Hoje, há cinco grandes editoras, quatro grandes estúdios, três grandes editoras discográficas, duas empresas que dominam as aplicações e uma única empresa que domina os ebooks e os audiolivros.” 

Como ele observa, “Cem empresas são uma multidão, uma turba. Cinco empresas são um cartel.” Sem supervisão, os Googles deste mundo podem sabotar os resultados de pesquisa para mostrar mais anúncios e aumentar os lucros. Esta é uma parte importante da enshittification: é feita deliberadamente. “Assim que o medo da concorrência foi eliminado”, escreve ele, “tornar a Pesquisa Google pior foi um pequeno preço a pagar por acções em alta e recompras massivas.”

Talvez a parte mais assustadora do alerta de Doctorow seja que já não se aplica apenas a sites e plataformas de redes sociais. Devido ao baixo custo dos microchips, praticamente todos os produtos imagináveis estão agora vulneráveis. 

Um exemplo revelador é a varinha sous vide da Anova Culinary, que, durante quase dez anos, vinha acompanhada de uma aplicação gratuita que permitia controlar o aparelho de cozinha. Em agosto de 2024, o CEO da empresa, Stephen Svajian, anunciou que os novos utilizadores teriam de pagar uma subscrição mensal de 2 dólares pela aplicação. Svajian apercebeu-se, escreve Doctorow, “de que os dados que recolhia dos seus clientes não valiam o suficiente para cobrir os custos de os espiar.” O mesmo acontece com muitos outros aparelhos domésticos aparentemente inofensivos. Até os nossos veículos nos estão a vigiar: “O teu carro é uma plataforma de vigilância sobre rodas que recolhe tanta informação sobre ti que os próprios fabricantes alertam que qualquer pessoa que obtenha acesso ao teu carro poderia, de facto, matar-te.”

O inventário que Doctorow faz de todos os truques, lacunas e desvios que empresas grandes e pequenas utilizam para maximizar lucros é devastador. Ele explica como recorrem às leis de direitos de autor para impedir qualquer pessoa de mexer nos seus produtos, sobretudo nas aplicações. 

Uma app “é um site envolto em propriedade intelectual suficiente para tornar crime instalar um bloqueador de anúncios ou qualquer outra modificação que faça o produto funcionar melhor para o utilizador, em detrimento dos accionistas da empresa.” Ao trazer outros exemplos, Doctorow mostra que a tecnologia é apenas uma parte influente de um quadro muito mais vasto. “Praticamente todos os sectores são assim”, diz-nos, “dos transportes rodoviários aos supermercados, dos hotéis à indústria aeroespacial. Quando aviões da Boeing começam a cair do céu, é esta força que está em ação: concentração, captura regulatória, enshittification.”

Com provas contundentes, Doctorow desmonta a forma como os nossos senhores tecnológicos nos abandonaram. Em Needy Media: How Tech Gets Personal, o professor de estudos da comunicação Stephen Monteiro segue uma abordagem ligeiramente diferente, escrevendo uma genealogia detalhada de como os nossos dispositivos mais pequenos se tornaram no que são hoje. 

Ao contrário do livro de Doctorow, que é um manual de economia disfarçado, Needy Media é tão académico quanto parece. Monteiro propõe-se argumentar que as “relações que existem entre os utilizadores e os seus dispositivos inteligentes portáteis têm tanto a ver com o valor afectivo das trocas multissensoriais, rudimentares, que ocorrem entre utilizador e dispositivo, como com as interacções com outras pessoas e sistemas, normalmente realizadas através de mensagens, chamadas, publicações nas redes sociais, scrolling e ações semelhantes.” Por outras palavras, os nossos gadgets inteligentes não são apenas objetos inanimados, mas mecanismos quase sencientes que capturam a nossa atenção.

Monteiro explora esta ideia através de várias histórias, algumas fascinantes, outras um pouco arrastadas. Apresenta as implicações da moda de montar o próprio computador nos anos 70, dos animais virtuais Tamagotchi no final dos anos 90, e dos leitores de MP3 personalizados com “skins”. Recupera estes precursores do nosso mundo digital actual para revelar o papel da interface com o utilizador, convidando os leitores a ver o rato, em particular, como um “artefacto cultural de significado ideológico”. 

Ao tornar visíveis as nossas interacções físicas com estes objetos, mostra que os nossos laços com eles são simultaneamente “íntimos e cúmplices”. Não só “tocamos, esfregamos e acariciamos os seus ecrãs de vidro para fazer e criar coisas”, como também os inclinamos e ajustamos as suas lentes para que nos observem, permitindo transmissões em direto, fotografias e o seu desbloqueio (além de ajudarmos a treinar os seus sistemas de reconhecimento facial). E não é tudo: “Fazemos-lhes perguntas ou pedidos através dos seus assistentes virtuais activados por voz. E quando emitem um sinal sonoro, vibram ou se iluminam, pegamos neles instintivamente e aproximamo-los de nós.”

Ao longo do livro, Monteiro recorda-nos a presença quase inquietante destes objetos no nosso quotidiano. “Os smartphones, smartwatches e semelhantes acompanham-nos praticamente para todo o lado há apenas vinte anos”, escreve, “e, no entanto, tornou-se difícil imaginar como era a vida antes.”


Embora muito diferentes no tom e no público-alvo, estes livros formam um excelente par, como ilustram as suas capas: o emoji de cocó irreverente de Enshittification e o emoji a soprar um beijo de Needy Media, a romper um papel de parede azul. Em conjunto, explicam como desenvolvemos relações tão afectivas com os nossos dispositivos, apesar da forma como os seus fabricantes se aproveitam de nós.

Doctorow, pelo menos, faz mais do que nos alarmar. Apresenta aquilo que considera ser a solução para o nosso dilema de enshittification. Afinal, se é verdade que o Enshittoceno é a era não só das “plataformas abusivas desmesuradas” mas também do seu colapso, então poderá haver cura. 

Desenshittificar implicaria uma regulação mais forte, leis de direito à reparação, sindicalização, entre outras medidas. Perante a ganância e má conduta capitalista evidentes, ele mantém-se esperançoso. “Podemos construir um sistema nervoso digital melhor, resistente à enshittification”, afirma, “um sistema capaz de coordenar os movimentos de massas de que precisamos para combater o fascismo, pôr fim a genocídios e salvar o nosso planeta e a nossa espécie.” 

Espero que tenha razão, embora tenha dúvidas. Para mim, o problema parece muito maior do que a necessidade de controlar estas empresas. O simples facto de estas entidades existirem já é parte do problema e, enquanto existirem, a riqueza e o poder continuarão a concentrar-se no topo. Para já, vou mudar para o LibreOffice, abandonar o Twitter e o Instagram e continuar a inspirar-me na máxima ludita de que a tecnologia deve trabalhar para nós, e não para os nossos patrões.

Aaron Kreuter in https://reviewcanada.ca/magazine/

April 28, 2026

Este miúdo vem ou vai para a escola

 

Está com a mochila da escola. Há professores que têm de lidar com a sua convicção de que pode fazer tudo o que deseja. Com ele e com os pais dele, porque de algum lado lhe vem esta convicção de poder e impunidade. E porque é que nenhum adulto o agarra, nomeadamente o segurança da loja? Porque sabe que se o agarrar os papás põem-lhe um processo em cima de maus-tratos a crianças e fazem-lhe a vida num inferno. 

Dos professores e da escola, tudo se espera hoje-em-dia: que ensinem os currículos, que auto-regulem crianças e adolescentes com zero auto-regulação e máxima auto-indulgência, que detectem e saibam lidar com crianças e adolescentes ansiosos, depressivos, autistas, hiperactivos, disléxicos e outras deficiências e/ou incapacidades (há pais que nos pedem se podemos levar os filhos aos médicos - não têm paciência) que lidem com os mal educados, os delinquentes, os misóginos agressivos, os viciados em redes sociais e em pornografia; que saibam elaborar planos de assistência para cada um e todos esses alunos, que os eduquem para saberem cuidar da sua saúde, da economia, para serem empreendedores, para saberem lutar contra a violência social, para saberem identificar os seus talentos, para serem competentes a alcançar os seus objectivos, etc. Espera-se que o professor trabalhe 50 horas por semana, que não tenha noites nem fins-de-semana e que dedique todo o seu tempo livre, não à sua família e interesses próprios mas a responder a emails e a fazer planos para alunos.

Não admira que os professores estejam am burnout e que ninguém queira ser professor. Nenhuma outra profissão trabalha tantas horas de borla sem nenhum reconhecimento. E no fim o senhor da tutela fica muito surpreendido por os professores serem competentes. É que ele pensa que os bons resultados são consequência do pensamento mágico e não de horas de trabalho decentes, de estabilidade no trabalho para poder haver dedicação, de salários condignos, de condições de trabalho e de apoio ao trabalho de lidar com a indisciplina de alunos e pais.

Este fim-de-semana, num almoço com um grupo de pessoas, uma professora que lá estava disse-me que na sua escola, que é na zona da Grande Lisboa, o director não permitia que se usasse linguagem negativa nas aulas e chamava os professores para 'ralhar' sempre que havia queixas. E o que é linguagem negativa? É, por exemplo, o professor dizer, 'não percebeste a ideia', em vez de dizer, 'exprimi-me mal, caso contrário tinhas percebido a ideia'; ou dizer a palavra 'não'. São as novas pedagogias imbecilizantes.

O bom comportamento não é uma técnica que se ensine. É um ensinamento através de consequências, que são o que ensina a responsabilidade ligada à liberdade.


Os inimigos dos nossos amigos são nossos inimigos também

 

Netanyahu faz negócio com terroristas contra outros terroristas

 

É igual a Trump que faz negócios com Putin contra os terroristas do Irão.

Assim que chegam aos cargos começam logo a tratar da vidinha

 

Deve ser por isto que o Presidente da AR diz que os políticos em Portugal são umas vítimas e que não deviam ser escrutinados.




Socas: de prescrição em prescrição até à impunidade total

 

Socas, Vara e satélites.


Crimes de corrupção caem na ‘Operação Marquês’: Caso Vale do Lobo prescreve esta semana.
Sócrates e Armando Vara ficam livres da corrupção passiva em junho. Juiz do processo mais pequeno vai para o CSM. 
-Correio da Manhã

 

De onde vem esta conversa de Merz?

 

Está a ser pressionado pelos Schröders lá da terra  que querem muito ser amigos de Putin e do seu petróleo barato? Estão com medo da Ucrânia ser um país grande e empreendedor e concorrente? Então agora Merz põe-se do lado de Trump e já pensa que é desejável salvar Putin e a Rússia imperialista para que possa ir atrás de outros países? Se a Alemanha for atacada os aliados sugerem-lhe que faça um referendo para dar territórios ao atacante - dado que o atacante não consegue tomá-los? Desde quando a entrada na UE tem como ponto prévio a oferta de território a atacantes inimigos? Quando pensamos que demos passos para a frente, vêm os líderes europeus e dão passos atrás. Se tivessem apoiado a Ucrânia desde o início já esta guerra tinha acabado há muito.


O legado do senhor Costa


Uma auditoria surpresa da Comissão Europeia aos aeroportos de Lisboa e do Porto, em dezembro de 2025, revela "graves deficiências" na realização dos controlos nas fronteiras. A CNN Portugal teve acesso a um documento onde a Comissão Europeia considera que o que foi detectado tem e pode vir a ter um impacto negativo noutros Estados-Membros e representar um risco de segurança para o espaço Schengen.
Por isso mesmo, adverte que o país deve tomar medidas corretivas no mais curto prazo possível, dando prioridade aos seguintes pontos: qualidade dos controlos fronteiriços, capacidade de detetar fraudes documentais, formação em matéria de controlo fronteiriço e afetação de recursos humanos.

- CNN Portugal 

Somos uma porta giratória de criminosos. É o legado do senhor Costa que este governo não sabe corrigir. Como também só querem poupar dinheiro destroem os serviços públicos e a segurança do país. A esquerda só põe impedimentos às soluções.

April 27, 2026

Chernobyl - "Because they put you in charge"

 

Ontem estive a ver o últimos episódio desta série, Chernobyl, para recordar o que foi dito no julgamento dos responsáveis sobre o desastre. Já não me lembrava desta conversa entre Boris Shcherbina, o vice-primeiro-ministro e burocrata soviético de alto nível, rigoroso executor das políticas do partido, encarregado de gerir o desastre de 1986 e Valery Legasov, cientista vice-diretor do Instituto Kurchatov, a quem chamam para investigar o desastre do ponto de vista científico e perceber exactamente o que se passou.

Esta cena passa-se num intervalo do julgamento. Ambos estes homens estão perto de morrer em consequência de terem andado na Central Nuclear, logo após o desastre, um a investigar e evitar novas explosões nucleares, o outro a gerir todas as acções. Valery estás prestes a dizer no julgamento que apesar do chefe da Central ser de uma incompetência grosseira (mais um promovido por ser amigo de alguém do partido) e apesar das suas acções terem posto a Central numa situação de ser impossível evitar o desastre, o que fez explodir o núcleo foram os materiais usados em vários dispositivos da Central não serem adequados para reactores nucleares e terem sido escolhidos pelo Estado para poupar dinheiro e que as autoridades sabiam muito bem o perigo e mentiram.

Nesta conversa, Shcherbina diz a Valery que acreditou na autoridade soviética quando lhe disseram para ir gerir o desastre que não era muito grave, porque o tinham escolhido a ele. Quer dizer, ele pensou que se fosse grave não o tinham escolhido a ele, ou seja, pensou que valorizavam a sua pessoa. Penso que é a frase mais significativa de toda a série porque resume a Rússia desde que Lenine entrou naquele país: zero respeito pela vida humana. Todos são sacrificáveis para os canibais se manterem no poder.

Considere-se como estaria o mundo se a Rússia já tivesse perdido a guerra com a Ucrânia há um par de anos. O Irão estaria sem suporte (e vice-versa), Trump não teria hostilizado os aliados para fazer parcerias com a Rússia.

April 26, 2026

Tristes aniversários: o desastre de Chernobyl faz hoje 40 anos

 

Mais triste ainda: mísseis russos de origem iraniana voam regularmente sobre Chernobyl e um deles já lá caiu no ano passado.

Não vai ser fácil recrutar militares na Europa em grandes números

 

E não é só na Alemanha. Inquéritos em vários países europeus mostraram que os jovens não só não estão interessados em defender a pátria, como a própria noção de pátria está muito esboroada. Num dos inquéritos que vi um alemão dizia que mais depressa aceitava viver sob o domínio russo em paz do que ter de ir para a guerra sob domínio do seu próprio país.

Tirando Portugal que escapou aos horrores da Segunda Grande Guerra, os outros países construíram-se sob a ideia de uma sociedade em paz e pacífica para com os outros. A UE também se construiu com essa ideia 

Esqueceram todos que vivermos em paz não depende só de nós mas daqueles que nos rodeiam quererem deixar-nos em paz - sendo a invasão da Ucrânia pela Rússia o exemplo mais perfeito dessa falha de ponderação.

Da mesma maneira que a direita extrema causou prejuízo aos povos da Europa com as suas ideias de fascismo e guerra total, a  ascensão de governos desta nova esquerda extremista com as suas ideias de reduzir toda a história europeia ao mal radical, teve como efeito grandes massas de população desprezarem os valores europeus e não terem interesse em defendê-los.

Ao fascismo e extremismo da direita responderam com o da esquerda. Ao ponto de glorificarem Putin e toda a sua agressão e violência - Varoufakis sendo o paradigma desta nova esquerda extremista e defensora de fascismos.


Porque é que a Alemanha só agora acordou para a questão da defesa



KATJA HOYER

West German Chancellor Konrad Adenauer visiting for the first time the newly established Bundeswehr, January 1956. Img: Bundesarchiv, Bild 146-1998-006-34 / Wolf, Helmut J. / CC-BY-SA 3.0


Aconteceu algo notável esta semana: a Alemanha lançou a sua primeira estratégia militar desde a Segunda Guerra Mundial. A Bundeswehr, como é conhecido o exército alemão do pós-guerra, definiu quem é o seu principal adversário (a Rússia) e o que precisa de fazer para lhe fazer frente (construir o maior exército convencional da Europa). Isto é tão novo e ambicioso que não será exagero chamar-lhe “histórico”.

Há que em diga que ambos os Estados alemães do pós-guerra tiveram, em tempos, exércitos consideráveis e conscrição durante a Guerra Fria, e que os actuais esforços de rearmamento são uma restauração desse estatuto e não algo novo, mas não concordo. O que estamos a ver agora é fundamentalmente diferente em três aspectos-chave:

A) Nenhuma das Alemanhas do pós-guerra teve de pensar estrategicamente.
B) Não se esperava que as suas forças fossem destacadas, de forma séria, para grandes missões de combate.
C) Tendo perdido duas guerras mundiais e permanecendo profundamente marcadas pelos crimes associados à segunda, nem a Alemanha de Leste nem a de Oeste desenvolveram um ethos militar que celebrasse o serviço militar como acontece noutros países, incluindo os EUA, o Reino Unido, a França e a Rússia. Por razões históricas compreensíveis, a cultura alemã do pós-guerra tem sido cautelosa em relação a tudo o que é militar e até à própria ideia de patriotismo.

O actual esforço nacional de rearmamento — que prevê a criação de uma grande força militar de 460 000 pessoas, incluindo 200 000 reservistas, tudo isto baseado na primeira estratégia pós-guerra alguma vez concebida em Berlim — é totalmente novo. 

Para ter sucesso, exigirá uma revisão e reforma cuidadosas das atitudes estabelecidas em relação à guerra, ao serviço militar e ao país. Vale a pena examinar como os alemães se rearmaram após a Segunda Guerra Mundial para compreender as raízes da Bundeswehr actual.

Quando a Alemanha nazi perdeu a guerra em maio de 1945, o seu exército, a Wehrmacht, rendeu-se incondicionalmente e foi dissolvido pelos Aliados pouco depois. Na verdade, a desmilitarização foi um dos poucos princípios sobre o futuro da Alemanha em que todos concordaram.

Colourised image of Wehrmacht soldiers surrending in Bohemia, 1945. Img: Johannes Dorn - Collection Peter, CC BY-SA 4.0.

Isto significa que, quando a Alemanha de Leste e a Alemanha de Oeste foram criadas em 1949, não tinham forças militares próprias. Ambas acolhiam tropas dos países que continuavam a ocupá-las. Provavelmente teria permanecido assim durante mais tempo não fosse o surgimento da Guerra Fria, que levou sobretudo os EUA a reconsiderar a situação. Washington precisava da Alemanha Ocidental para reforçar a linha da frente europeia contra o comunismo.

Já em 1951, a Alemanha Ocidental começou a criar unidades policiais paramilitares para ajudar a guardar a fronteira inter-alemã (a longa linha no meio do país; o Muro de Berlim só seria construído uma década depois). 

Planos vagos de rearmamento estavam em curso desde 1947/48, mas este desenvolvimento específico resultou de um novo sentido de urgência provocado pela Guerra da Coreia, que prendeu os EUA e os confrontou com a expansão comunista por meios militares. Precisavam dos alemães ocidentais para manter a linha na Europa.

Independentemente das necessidades práticas, é surpreendente, em retrospectiva, a forma como este processo decorreu. No outono de 1950, teve lugar uma reunião na Abadia de Himmerod, onde antigos oficiais da Wehrmacht, encarregados pelo chanceler Konrad Adenauer, delinearam opções para o rearmamento.

O memorando resultante propunha um exército de cerca de 500 000 homens — mais do que os planos actuais, apesar de uma população menor. Defendia também que a única forma de construir um novo exército alemão seria reabilitar o antigo, garantindo continuidade de pessoal e tradições. “As nações ocidentais”, exigiu o presidente da reunião, “devem tomar medidas públicas contra a ‘caracterização prejudicial’ dos antigos soldados alemães”.

Em janeiro de 1951, Dwight D. Eisenhower fez precisamente isso, afirmando que existia uma diferença real entre o soldado alemão e Hitler. Isto ajudou a criar o mito da “Wehrmacht limpa”, conceito que viria a ser contestado nos anos 1990 e 2000, quando uma famosa exposição da Wehrmacht, dividida em duas partes, a contestou ao centrar-se nos crimes cometidos pelas forças armadas regulares durante a guerra.

Nos anos 1950, esse mito abriu caminho ao rearmamento — mas com uma condição: a Alemanha não tomaria decisões estratégicas de forma autónoma. A integração europeia avançava e, em 1955, a Alemanha Ocidental aderiu à NATO. Isto aconteceu no início de Maio, ou seja, quase no mesmo dia, 10 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ficou decidido: haveria uma nova força militar alemã — a Bundeswehr, fundada oficialmente a 12 de novembro de 1955. Mas isso viria a ser contido pelas decisões dos Aliados, sobretudo pelas dos EUA. Os planos de Adenauer para desenvolver armas nucleares para a Alemanha Ocidental foram também imediatamente abortados.

A Alemanha Oriental respondeu a este processo criando as suas próprias forças armadas, o Exército Popular Nacional, começando com unidades da polícia militar em 1952 e culminando na formação oficial do NVA a 18 de janeiro de 1956. Dez dias depois, aderiu à contraparte comunista da NATO, a Organização do Tratado de Varsóvia, frequentemente referida como o «Pacto de Varsóvia». Tanto a Bundeswehr como a NVA introduziram o serviço militar obrigatório para os homens e ambas receberam proporções comparativamente elevadas do PIB.

Em geral, os jovens (e, no caso da RDA, também as mulheres) que escolheram o serviço militar como carreira fizeram-no porque apreciavam a estabilidade e o espírito de camaradagem desse tipo de vida. Aqueles que foram obrigados a cumpri-lo durante algum tempo (especialmente no Leste, onde não havia alternativa civil ao serviço militar, ao contrário do que acontecia no Ocidente), muitas vezes ressentiam-se com a experiência. Mas ambos os grupos podiam contar com a possibilidade de evitar o combate activo.

Um exemplo que ilustra este ponto é a repressão da Primavera de Praga, um movimento de reforma na Checoslováquia sob a liderança do político eslovaco Alexander Dubček. Quando, na madrugada de 20 de Agosto de 1968, uma força de invasão de 500 000 soldados do Pacto de Varsóvia ameaçou esmagar qualquer resistência no país da Europa Oriental, as forças da NVA da RDA estavam entre as unidades de apoio. O líder da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht, queria enviá-las em força para provar o valor do seu país aos soviéticos, mas mesmo eles foram cautelosos em não enviar soldados alemães para a Europa Oriental apenas uma geração após a Segunda Guerra Mundial. As tropas da NVA nunca chegaram a atravessar a fronteira para a Checoslováquia, embora estivessem a ajudar o comando soviético. Foi uma decisão tomada em Moscovo e não em Berlim, essa de não enviar tropas da NVA para combate aberto.

As implicações práticas e as relações eram diferentes, mas o princípio de seguir a grande estratégia definida pelos aliados era semelhante na Alemanha Ocidental. Após a reunificação, a Alemanha também não elaborou o seu próprio documento estratégico. 

Após a invasão russa em grande escala da Ucrânia, o então chanceler Olaf Scholz continuou a salientar que o seu país «não agiria sozinho» no que dizia respeito ao apoio à Ucrânia, mas aguardaria orientações dos EUA. Scholz também salientou que a Alemanha nunca seria uma «parte» nessa guerra.

Esses princípios fundadores do rearmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial estão agora a mudar:

A) Ao desenvolver a sua própria estratégia militar abrangente, a Alemanha está a começar a pensar estrategicamente - pela primeira vez desde 1945.

B) O ministro da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que quer que a Alemanha seja «kriegstüchtig» ou «pronta para a guerra», esperando claramente que os soldados estejam prontos para serem destacados.

C) Existem tentativas em pequena escala para valorizar mais o serviço militar, por exemplo, com o primeiro Dia dos Veteranos da Alemanha, celebrado no ano passado.

Esta é uma mudança enorme por inúmeras razões e terá de ser cuidadosamente ponderada e gerida. O lançamento da nova estratégia militar deveria, sem dúvida, ser uma notícia muito mais importante do que é, tendo em conta as vastas transformações culturais, políticas, económicas e sociais que terão de a sustentar.

Não há uma forma fácil de resolver este dilema. A Alemanha terá de encontrar um equilíbrio muito delicado ao tentar conciliar a necessidade de força militar com uma relutância profundamente enraizada em permitir que o militarismo volte a ganhar força.

“Acordem”

 


A UE enfrenta ‘momento único’ para crescer em respeito - Macron em Atenas, numa conversa pública com o primeiro-ministro grego

A UE prepara um “manual” de defesa depois de “nada ter sido feito” durante uma década…

Os líderes dos 27 Estados-membros da União Europeia decidiram na sexta-feira exigir a criação de um “manual” de defesa na cimeira do Conselho Europeu realizada em Nicósia, perante dúvidas quanto ao compromisso dos EUA com a aliança militar da NATO.

As preocupações com as críticas do Presidente Donald Trump à NATO por não apoiar a guerra com o Irão, bem como as suas ameaças no início deste ano de tomar a Gronelândia à aliada Dinamarca, aumentaram a urgência de definir as disposições de assistência mútua da UE.

O Presidente do Chipre, Nikos Christodoulides, afirmou que os líderes da UE concordaram, na cimeira em Nicósia, que era altura de desenvolver o pacto previsto no Artigo 42.º, n.º 7 do tratado fundamental do bloco.

O Artigo 42.º, n.º 7 do Tratado da União Europeia estabelece que “se um Estado-membro for vítima de agressão armada no seu território, os outros Estados-membros têm para com ele uma obrigação de ajuda e assistência por todos os meios ao seu alcance”.

Ao contrário do Artigo 5.º da NATO — considerado a pedra angular da segurança europeia — a cláusula de assistência mútua da UE não é apoiada por planos operacionais detalhados nem por estruturas militares.

O Artigo 42.º, n.º 7 foi activado apenas uma vez, pela França, após ataques islamistas terem morto 130 pessoas em Paris, em 2015. Outros Estados-membros da UE contribuíram então para missões militares internacionais, permitindo à França reposicionar tropas no seu território.

Embora o Serviço Europeu para a Ação Externa tenha publicado, em 2022, um documento de “lições aprendidas” com o objectivo de reforçar e formalizar a infraestrutura de defesa mútua da UE, fontes do governo cipriota lamentaram que “nada tenha sido feito” na década desde a única ativação da cláusula.

Macron: “Acordem”…

Com os líderes dos EUA, da Rússia e da China todos “contra” a Europa, o continente enfrenta um “momento único” em que precisa de “ganhar confiança” para ser respeitado, afirmou Macron perante uma audiência em Atenas, numa discussão sobre a Europa ao lado do primeiro-ministro grego, Kyriakos Mitsotakis.

“Não devemos subestimar que este é um momento único em que um presidente dos EUA, um presidente russo e um presidente chinês estão claramente contra os europeus. Este é o momento certo para nós. Acordem”, disse Macron.

Mitsotakis: “Precisamos de assumir mais responsabilidade na defesa”

Numa discussão abrangente, ambos os líderes sublinharam a necessidade de a União Europeia desenvolver a sua capacidade estratégica para garantir a prosperidade e segurança do bloco de 27 países.

Reconhecendo preocupações quanto à capacidade da UE de reagir a “placas geotectónicas em mudança”, Mitsotakis afirmou que a União deve reforçar a sua economia estratégica, destacando o acordo de defesa entre Grécia e França.

“Precisamos de assumir mais responsabilidade na defesa, aumentando o investimento e fazendo-o à escala”, afirmou.

Mitsotakis reiterou a posição de longa data de Atenas sobre a necessidade de activar de forma mais eficaz o Artigo 42.º, n.º 7 do Tratado da União Europeia.

Acrescentou que a UE deve levar mais a sério a cláusula de assistência mútua, tal como a Grécia fez ao apoiar recentemente o Chipre após este ter sido alvo de ataques com mísseis durante o conflito no Médio Oriente.

O apoio ao Chipre por vários países europeus, incluindo a Grécia, “marcou a primeira prova tangível de que a Europa pode defender os seus Estados-membros mesmo sem o envolvimento directo de terceiros”.

O apoio da Grécia ao Chipre foi “uma declaração política de que não dependemos apenas da NATO”, afirmou.

Perante aplausos, o presidente francês declarou que a ajuda da França pode ser tida como garantida caso a Grécia enfrente uma ameaça revisionista por parte da Turquia:

“Estaremos aqui. A aliança franco-grega — é isto”, concluiu.

South East Med Energy & Defense

'Os Jogos da Fome' tornados reais

 

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) acaba de adjudicar à Palantir um contrato de 300 milhões de dólares, sem concurso público, para consolidar os dados agrícolas americanos numa única plataforma. 

O acordo, baseado numa iniciativa denominada «Um Agricultor, Um Ficheiro», proporcionará à Palentir um perfil digital unificado de todos os agricultores do país, das suas terras, dos seus subsídios e das suas cadeias de abastecimento, tudo isto através da mesma plataforma Foundry que já sustenta as deportações do ICE e a identificação de alvos militares.

Desde que Trump assumiu o cargo, os contratos federais da Palantir «quase-duplicaram», abrangendo a Defesa, a Segurança Interna, o ICE, o Tesouro, a Justiça, o HHS e, agora, o USDA.   

O USDA é apenas a mais recente porta a abrir-se, e esta conduz diretamente ao abastecimento alimentar.   

A empresa por trás de tudo isto foi co-fundada por Peter Thiel, o bilionário assustador, um homem cujo biógrafo descreveu as suas ideias políticas como essencialmente um anseio por um ditador, que lançou a Palantir com «capital inicial da CIA», financiou a candidatura de JD Vance ao Senado com 15 milhões de dólares e escreveu uma vez que a democracia está em declínio desde que o sufrágio feminino tornou a «democracia capitalista» um oxímoro.   

A gerir as operações do dia-a-dia está o CEO Alex Karp, que afirmou aos investidores que a empresa existe para «assustar os inimigos e, ocasionalmente, matá-los», advertiu o público de que «algumas pessoas vão ter a cabeça decepada» e fantasiou com a ideia de aspergir analistas de Wall Street com urina misturada com fentanil.

Ex-funcionários condenaram publicamente a sua retórica cada vez mais violenta, e um manifesto que a empresa publicou recentemente online foi descrito por todo o espectro político como caricaturalmente fascista. 
 
Portanto, quando a administração Trump atribui a esta empresa em particular um contrato sem concurso público relativo à infraestrutura agrícola americana, isso não é um pormenor.

Colocar a arquitetura de vigilância do Estado de segurança americano a cargo do abastecimento alimentar, sem qualquer concurso público e com um debate público mínimo, deveria preocupar muito mais pessoas do que preocupa actualmente!  

earthchangesandcomingpoleshift (Threads)