This Is the Door: The Body, Pain, and Faith, de Darcey Steinke. HarperOne, 2026.
Há um verso de Heinrich Heine que me irritou quando o li pela primeira vez e que continua a irritar-me quando o releio:
“A dor psíquica é mais facilmente suportada do que a dor física; e se tivesse de escolher entre uma má consciência e um dente estragado, escolheria a primeira” — o que, se eu não soubesse melhor, faz Heine soar como se nunca tivesse sido verdadeiramente atingido por dor psíquica.
A dor psíquica, a verdadeira, causa dor física: o peso na cabeça, a tensão no peito, o nó nos intestinos, o aperto na garganta e todas aquelas nódoas negras de embater em objetos porque a depressão distorce a visão. Além disso, existe ópio e extracção para esse dente estragado; ainda não encontrei ópio nem método de extração para a alma doente.
Winston Smith, de George Orwell, porém, concorda com Heine:
Da dor só se pode desejar uma coisa: que pare. Nada no mundo é tão mau como a dor física. Diante da dor não há heróis.
Mas Karl Marx, numa carta de 1881, inverte a preferência de Heine:
O único antídoto para o sofrimento mental é a dor física.
Ter de escolher hipoteticamente entre tortura mental e tortura física é mais ou menos como ter de escolher hipoteticamente entre morrer afogado ou morrer queimado.
Próxima pergunta. Qualquer que seja a preferência, a evolução por selecção natural darwiniana fez um trabalho terrivelmente atroz ao fabricar-nos. As nossas costas partidas, os joelhos arruinados, os tornozelos frágeis e dentes inclusos são uma refutação estrondosa da ideia de que fomos criados com ternura à imagem de Deus — a menos que se esteja disposto a aceitar um deus com costas partidas, joelhos arruinados, tornozelos frágeis e dentes inclusos.
No seu belo novo livro This Is the Door: The Body, Pain, and Faith, a romancista e memorialista Darcey Steinke, autora do clássico Suicide Blonde (1992), escreve:
Sou uma criatura improvisada, montada à pressa, que transporta comigo, como todos nós, todas as criaturas que alguma vez fui.
Ela tem razão: que destroços somos, por dentro e por fora. Que falhas físicas — para não falar do nosso equipamento psico-emocional defeituoso. Steinke afirma que a própria dor é uma espécie de falha, embora definitivamente não uma falha dos nossos nociceptores, essas diligentes terminações nervosas responsáveis por enviar as picadas e ferroadas diretamente para o cérebro. Não: os nociceptores são bem-sucedidos para além de qualquer medida.
Embora Steinke tenha sido fustigada por enxaquecas fluorescentes, cólicas menstruais lancinantes, a dor sufocante de um desgosto amoroso e a angústia enevoada da melancolia, foi a dor nas costas que parou o relógio:
A dor põe-nos de joelhos fisicamente, mas também espiritualmente. Muitas vezes perguntei-me se ajoelhar num sentido religioso não será uma pantomima da forma como a dor pode obrigar um corpo a descer até à terra.
Steinke dedicou o livro ao seu cirurgião de coluna. As suas descrições poderosas da própria dor nas costas e das dores variadas de outras pessoas fazem lembrar as palavras de Rei Lear a Cordélia:
Estou preso
A uma roda de fogo, onde as minhas próprias lágrimas
Escaldam como chumbo derretido.
Edgar, ao ver Gloucester cego no mesmo acto, diz para si:
O pior ainda não chegou
Enquanto pudermos dizer: ‘Este é o pior.
Por outras palavras, sofrer é melhor do que estar morto. Se assim o dizem.
(...)
“A dor”, escreve ela, “é o combustível da oração”, e continua:
O sofrimento, seja qual for a sua causa, separa-nos do mundo que conhecíamos e empurra-nos para um limbo entre o que foi e o que poderá ser. A oração e a meditação são tentativas de abrir um buraco dentro desse abismo, de criar um espaço dentro da claustrofobia do sofrimento, de cortar o corte.Não se trata de um limbo qualquer, mas — escreve mais tarde — de um “limbo teológico”. O sofrimento coloca-nos no ponto intermédio entre crença e heresia.
(...)
Steinke divide o livro em dez capítulos luminosos: Coluna, Joelhos, Coração, Cérebro, Pele, Seio, Desgosto Amoroso, Sofrimento, Alma, Cura.
Ao longo deles desfila uma procissão de artistas, escritores, músicos e visionários cujas vidas foram violadas pelo sofrimento: Frida Kahlo, Franz Kafka, Bernadette Soubirous, Friedrich Nietzsche, Alice James, Fanny Burney, Simone Weil, Audre Lorde, Carolee Schneemann e Kurt Cobain, entre muitos académicos e investigadores que tentam compreender porque sofremos e o que isso poderá significar.
O pai de Steinke era pastor luterano, e o pensamento teológico que ela absorveu na infância tornou-se “parte da forma como tentei compreender a dor”. Existe uma antiga e fecunda ligação entre religião e sofrimento — no tempo de John Donne, este tipo de depressão era chamado “melancolia religiosa” — embora um dos argumentos a favor da religião seja precisamente ajudar os aflitos a sofrer menos.
“Embora não considere a minha dor sagrada”, escreve Steinke, “a imobilidade que ela provoca pode sê-lo. A dor fez-me perceber que eu era menos uma criatura com uma identidade interior estável do que um ecossistema penetrável.”
Ela chama à dor “uma força malévola” — a dor como iniquidade, um flagelo vindo diretamente da boca do inferno.
(...)
Steinke cita Martin Buber:
“O que esperamos quando estamos em desespero? Certamente uma presença através da qual nos seja dito que, apesar de tudo, há sentido.”
(...)
Steinke confessa que a sua dor “é também uma espécie de paixão” — uma Paixão no sentido espiritual e sacrificial — “que pode ser um pouco acalmada pelas memórias de felicidade”. Com isso quer dizer que essas memórias recordam que o seu corpo “tem muitas capacidades”.
(...)
No drama heroico
The Indian Emperour, John Dryden escreveu:
Pois toda a felicidade que a humanidade pode alcançar
não está no prazer, mas no descanso da dor.As exigências inflexíveis da existência recusam o pedido do hedonista: nenhum de nós pode confiar no prazer, ou pelo menos na sua duração. Evitar a dor é o máximo a que podemos aspirar.
A nossa dor tem tal variedade cromática que inventámos sinónimos igualmente coloridos, todos cantando o mesmo estado e o desejo de o inverter: angústia, agonia, dor, aflição, miséria, sofrimento, tormento, tortura, espasmo.
Quando a mãe de Steinke morre de um coração rebelde, de artérias coronárias bloqueadas por cálcio, ela percebe que
a palavra dor parece inadequada para descrever as sensações do corpo quando passa da vida para o nada.
Como chamamos ao início da aniquilação?
Steinke faz uma distinção perspicaz antes de um diagnóstico igualmente perspicaz:
O sofrimento é complexo: mais amplo do que a dor e a doença, é uma premonição da desordem última da pessoa; é a frustração da realização do próprio ser; é uma experiência de alienação, impotência e desesperança; é uma ameaça à posição social; é a perda de um eu anterior e de um modo de vida anterior; é a incerteza quanto ao centro e à esperança da vida; é o ponto de encontro onde a finitude e o infinito se cruzam.
E quanto à doença, uma categoria suficientemente ampla para abarcar inúmeros sofrimentos?
A doença agarra as pessoas pela alma tanto quanto pelo corpo e perturba ambas.
Com perturba, Steinke quer dizer vira do avesso, desarticula.
Algumas das partes mais comoventes e memoráveis do livro são as dedicadas à morte do pai por cancro e à morte da mãe por doença cardíaca. Uma década antes de morrer, a mãe precisou de uma mastectomia devido a cancro da mama, e aqui Steinke mostra-se no seu melhor, com grande ternura:
Sofri cólicas menstruais, a dor de um aborto, dores de parto, afrontamentos, a ansiedade e o esgotamento do assédio sexual, mas a dor somática feminina que mais me afetou não foi a minha, mas a da minha mãe. Não uma dor no meu corpo, mas no corpo que fez o meu.
O espirituoso britânico do século XIX Sydney Smith observou que “não adianta pregar a ninguém, a menos que por acaso o apanhem doente”, mas o pai de Steinke, pastor, foi um caso inverso: a sua fé escapou juntamente com a sua saúde, e ele parece ter aceite isso.
Com o corpo devastado, no deserto da angústia,
as nossas ideias espirituais são abaladas, possivelmente até obliteradas.
No seu espantoso poema “Child Harold”, escrito no asilo de High Beech em 1841, John Clare refere-se a
A pálida morte, o grande médicoque “cura toda a dor” — porque, para os aflitos sem consolo nas garras de uma doença terminal, só um médico serve. Não é preciso ser um génio louco para perceber isso.
O mundo parece preferir-nos em sofrimento. Steinke cita um aforismo de Franz Kafka:
Na luta entre ti e o mundo, aposta no mundo.O injustamente esquecido poeta britânico do século XIX e místico católico Francis Thompson tem esta estrofe final sombria e certeira no seu poema musical
Daisy:
Nada começa e nada termina
que não seja pago com um gemido;
pois nascemos na dor de outros
e perecemos na nossa.
Boa sorte a contradizer isso.
Hannah Arendt, com a sua habitual lucidez implacável, escreve em
The Human Condition (1958) — livro que surpreende que Steinke não cite — o seguinte:
“A condição humana é tal que a dor e o esforço não são apenas sintomas que podem ser removidos sem alterar a própria vida; são antes os modos pelos quais a própria vida, juntamente com a necessidade a que está ligada, se faz sentir. Para os mortais, a ‘vida fácil dos deuses’ seria uma vida sem vida.”
Ao que apetece responder: fale por si, senhora Arendt.
Percebe-se o que Arendt está a fazer aqui — exatamente o que pensadores e sofredores têm feito desde que Sólon afirmou, por volta de 440 a.C., “Não consideres nenhum homem feliz antes de morrer”: tentar atribuir sentido ao sofrimento inevitável que precede a morte inevitável.
Porque, se se encontrar sentido no sofrimento, pode encontrar-se sentido na própria vida.
A contribuição do cristianismo para esta ideia — o sofrimento gera redenção — é também a principal razão pela qual é a marca mais bem-sucedida da história. Toda a gente sofre e anseia por libertação.
Vale a pena citar Steinke longamente aqui:
Caminho numa corda bamba entre revoltar-me contra a minha dor e tentar procurar quaisquer restos de significado que possam ter ficado nos seus destroços […]
A dor, como uma versão extrema da vida secular moderna, obriga-me a existir sem fundamento nem certeza.
A dor educa?
A dor é sempre uma experiência física de negação?
O que podemos aprender com a ferida, com a depuração, com a quietude, com a descriação que a dor intensa traz?
A dor aniquila-me mas também, de algum modo, recria-me? […]
A dor do meu nascimento trouxe-me à vida. Agora a dor transforma-me novamente, mudando os meus valores, a minha empatia, a minha ideia do mundo à minha volta, até a profundidade e intensidade da minha capacidade de amar.
O lema dos culturistas —
No Pain, No Gain — refere-se à dor física quase extáctica de rasgar fibras musculares com pesos, para que o tecido se repare com maior volume.
Steinke abraça a versão psicoemocional dessa ideia — uma versão que é tão frequentemente falsa quanto duvidosamente verdadeira.
Nas páginas finais, ela legitima o cliché de que o sofrimento favorece a arte. Mas até William Blake, que conhecia bem os dentes da melancolia — no seu estúdio tinha uma gravura de
Melencolia I (1514), de Albrecht Dürer — sabia melhor:
Às vezes tento tornar-me miserável para trabalhar mais, mas descubro que é uma experiência tola.
Uma das pessoas entrevistadas por Steinke, uma enfermeira digna com um joelho devastado, está suficientemente cansada e amarga para dizer com toda a clareza:
“Da minha perspetiva, não há absolutamente nada a aprender com a dor.”
Steinke perde o equilíbrio aqui:
As pessoas não são destruídas pelo sofrimento, mas pelo sofrimento desprovido de sentido. O sentido é maior do que um diagnóstico ou uma cura.(...)
É profundamente humano desejar que o nosso sofrimento esteja grávido de significado, que indique um sentido para além das aparentes estrangulações e devastações inúteis.
Quando Emily Dickinson escreve:
Depois de uma grande dor, surge um sentimento formalquer dizer que a dor intensa nos transforma em algo quase mecânico; esvazia-nos por dentro, transforma-nos num autómato que pisca os olhos. Não há nada a aprender, nada a ganhar com esse tipo de tormento.
Deixo-vos com as sábias estrofes finais de
90 North, um dos poemas insuperáveis de Randall Jarrell, cujos dois últimos versos caem como o golpe de um martelo:
Aqui, no verdadeiro polo da minha existência,
onde tudo o que fiz é sem sentido,
onde vivo ou morro apenas por acaso —
onde, vivendo ou morrendo, continuo sozinho;
aqui, onde o Norte, a noite, o icebergue da morte
me expulsam da escuridão ignorante,
vejo finalmente que todo o conhecimento
que arranquei da escuridão — que a escuridão me lançou —
é tão inútil como a ignorância: nada vem do nada,
a escuridão vem da escuridão. A dor vem da escuridão
e nós chamamos-lhe sabedoria. É dor.
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