Não vou falar aqui de investimento na educação, em tornar a carreira de professor atractiva, na falta de técnicos especializados, no número de alunos por turma, etc. Vou falar apenas na parte da integração de alunos estrangeiros que são, no meu ponto de vista, uma parte importante para a elevação do nível dos resultados e fundamental para o futuro do país.
É preciso investir fortemente nos professores de Português Língua Não Materna (PLNM). Estes são professores que leccionam português a alunos estrangeiros nos vários níveis de proficiência em que se encontram quando entram nas escolas. Há pouquíssimo professores, não chegam para todos e, ainda por cima, estas turmas têm que ser muito reduzidas, pois misturam alunos de vários níveis, desde o que não fala uma palavra de português e vem de um país com uma língua de uma raíz não latina (o arábico, o mandarim, o hindu) ao que já cá está há dois ou três anos e já domina bem os fundamentos da língua mas precisa de desenvolver o vocabulário, a complexidade frásica, verbal, etc. Se não aprendem a língua não há integração e se não há professores para a ensinar não é possível que aprendam a língua, além do 'olá', 'bom dia' e pouco mais porque muitos destes alunos vivem fechados nas suas comunidades culturais por ordem dos pais. É necessário tirá-los dessas redomas.
É preciso haver um currículo diferenciado para estes alunos. Em vez de inscreverem-se em todas as disciplinas e estarem nas aulas sem perceber um boi (alunos nestas idades dependem muito do professor), inscreverem-se apenas a 3 disciplinas, vamos supor, a inglês, a educação física e a outra disciplina, mais prática do que teórica, mais para socializar e enturmarem-se e depois, terem todos os dias aulas de PLNM. Portanto, um curso intensivo de português e mais umas poucas disciplinas para começarem a sua integração. No ano seguinte já estariam em condições de poder matricular-se a todas as disciplinas e embora continuassem a ter PLNM em vez da disciplina de português da turma, já não teriam necessidade de tantas horas por semana.
Alunos que só falam a língua da sua família (mais alguma coisa de inglês), apesar de estarem cá, não vivem no nosso país, vivem no país e na cultura da sua língua materna (e em sites da internet) e serão sempre outsiders.
Aqui há um par de anos propus à direcção da escola este plano de estudos para um aluno que caiu em Portugal de pára-quedas no início do ano, só falando a sua língua. Autorizaram-me mas quando o propus ao pai, ele não o quis, disse-me que o filho era inteligente. Embora lhe explicasse que isto não tem que ver com inteligência e que o ano iria ser uma enorme frustração para o filho com uma sensação de alienação devido às dificuldades de não perceber o que se passa à volta dele, ele não o quis. Uma pena e um desperdício de capacidades.
Os pais não têm noção do que é a educação escolar e pensam que a aprendizagem é assim algo mágico e que mesmo estando completamente impreparado para aprender, aprende-se na mesma. É assim como alguém chegar à aula de escultura de mármore e não ter cinzéis, martelos, limas, etc. e o professor dizer que precisa de ter os instrumentos adequados que permitem fazer o trabalho e que seria melhor que ele dedicasse um ano a arranjar esses materiais e a aprender a usá-los e os pais responderem, 'não é preciso, o meu filho é inteligente e desenrasca-se já'.

