Estava em Lisboa porque este ano lectivo tem sido um inferno em termos de doenças e a minha vida agora é uma anedota de hospitais, médicos, exames, tratamentos e o diabo a nove. Tudo o que temia quando era mais nova, em termos de doenças, aconteceu. Enfim, tínhamos bilhetes para a Gulbenkian, hoje à noite, e fomos comer qualquer coisa, bem cedo, pelas 18.30h, antes de ir para lá. Comi um risoto de marisco porque é mole. Tenho um dente que vai ser morto amanhã e apesar de estar fortemente medicada para as dores, elas estão sempre lá. Passada uma meia-hora de comer, a dez minutos de entrar na sala de espectáculos comecei a sentir um calor insuportável, com a boca e a língua a inchar de uma maneira que em 3 minutos deixei de conseguir falar, imensa dificuldade em respirar. Percebi logo que só podia ser do marisco. Os seguranças e o polícia da Gulbenkian fizeram-me perguntas sobre os sintomas -alguns eram visíveis- e doenças e começaram a ligar insistentemente para as ambulâncias a explicar o que se passava e a dar informações sobre a minha pessoa - a minha irmã mais nova a seguir a mim, calha-lhe sempre estes massacres à conta da minha pessoa, coitada. Uma dívida impagável que tenho com ela.
Enfim, por muita sorte, apareceu uma ambulância em 5 minutos e já preparada para lidar com um choque anafiláctico grave - isto disseram-me depois: grau 3 com angioedema (já significa risco de vida) e taquicardia, portanto, a caminho do grau 4, que é o último.
É uma sensação horrível, horrível. Não conseguir respirar, não conseguir falar, a língua, os lábios e tudo tão inchado que se perde o controlo da voz, da fala, da respiração. Horrível. Enfim, dentro do azar tive sorte porque a ambulância vinha com uma médica e duas enfermeiras, uma deles estagiária. Ainda estive uns 15 ou 20 minutos dentro da ambulância à porta do auditório da Gulbenkian enquanto me tratavam e estabilizavam. Espetaram-me duas injecções de adrenalina, porque a primeira só não chegou enquanto monitorizavam uma série de coisas e falavam com uma médica do hospital. Depois levaram-se para o Santa Maria.
(ia estragando o concerto a toda a gente se isto me tivesse dado 15 minutos mais tarde, já dentro da sala).
Que dizer do Santa Maria? Fui muito bem tratada por toda a gente, desde as pessoas da ambulância aos enfermeiros que me trataram na sala de reanimação (preparada para nos ressuscitarem, penso), aos técnicos que me vieram fazer exames e ao internista que me atendeu. Tirando uma vez que fui ao SNS com o meu filho, tinha ele 11, nunca tinha entrado num hospital público. Deixem-me dizer isto claramente: NÃO PAGAM O SUFICIENTE ÀQUELAS PESSOAS.
Sou doente de muitos hospitais privados, dado o carácter de urgência das minha doenças graves principais. Nunca vi um hospital com as condições degradas que vi ali na urgência do Santa Maria. Se eu explicasse a casa-de-banho onde era para ir depois de me enfiarem uns litros de soro, vomitavam. Aquilo não é uma casa-de-banho própria de sítio algum, quanto mais de um hospital. Devem apanhar-se ali 500 doenças.
Depois, são meia dúzia de pessoas que andam a correr de um lado para o outro a apagar fogos. À saída é que percebi como aquilo é um labirinto de corredores. Quilómetros de corredores cheios de macas com doentes.
Quando uma pessoa pensa que um médico anda a estudar, desde que sai da escola, 10, 12 ou mais anos para se especializar, sempre a investir dinheiro, para depois trabalhar naquelas condições a ganhar 1700 euros.... Os enfermeiros muito menos que isso e os técnicos nem falar.
Quem é que pode admirar-se de se irem embora do SNS ou de fazerem cirurgias ao Sábado para ganhar mais?
Volto a dizer: NÃO PAGAM O SUFICIENTE ÀQUELAS PESSOAS.
Enfim, estou de volta a casa, cheia de adrenalina e a pensar que hoje foi a última vez na minha vida que comi marisco. Nem umas ameijoas à Bulhão Pato poderei comer? A minha médica imuno-alergologista é que me vai dizer tudo, depois de amanhã.