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April 26, 2026

Porque é que a Alemanha só agora acordou para a questão da defesa



KATJA HOYER

West German Chancellor Konrad Adenauer visiting for the first time the newly established Bundeswehr, January 1956. Img: Bundesarchiv, Bild 146-1998-006-34 / Wolf, Helmut J. / CC-BY-SA 3.0


Aconteceu algo notável esta semana: a Alemanha lançou a sua primeira estratégia militar desde a Segunda Guerra Mundial. A Bundeswehr, como é conhecido o exército alemão do pós-guerra, definiu quem é o seu principal adversário (a Rússia) e o que precisa de fazer para lhe fazer frente (construir o maior exército convencional da Europa). Isto é tão novo e ambicioso que não será exagero chamar-lhe “histórico”.

Há que em diga que ambos os Estados alemães do pós-guerra tiveram, em tempos, exércitos consideráveis e conscrição durante a Guerra Fria, e que os actuais esforços de rearmamento são uma restauração desse estatuto e não algo novo, mas não concordo. O que estamos a ver agora é fundamentalmente diferente em três aspectos-chave:

A) Nenhuma das Alemanhas do pós-guerra teve de pensar estrategicamente.
B) Não se esperava que as suas forças fossem destacadas, de forma séria, para grandes missões de combate.
C) Tendo perdido duas guerras mundiais e permanecendo profundamente marcadas pelos crimes associados à segunda, nem a Alemanha de Leste nem a de Oeste desenvolveram um ethos militar que celebrasse o serviço militar como acontece noutros países, incluindo os EUA, o Reino Unido, a França e a Rússia. Por razões históricas compreensíveis, a cultura alemã do pós-guerra tem sido cautelosa em relação a tudo o que é militar e até à própria ideia de patriotismo.

O actual esforço nacional de rearmamento — que prevê a criação de uma grande força militar de 460 000 pessoas, incluindo 200 000 reservistas, tudo isto baseado na primeira estratégia pós-guerra alguma vez concebida em Berlim — é totalmente novo. 

Para ter sucesso, exigirá uma revisão e reforma cuidadosas das atitudes estabelecidas em relação à guerra, ao serviço militar e ao país. Vale a pena examinar como os alemães se rearmaram após a Segunda Guerra Mundial para compreender as raízes da Bundeswehr actual.

Quando a Alemanha nazi perdeu a guerra em maio de 1945, o seu exército, a Wehrmacht, rendeu-se incondicionalmente e foi dissolvido pelos Aliados pouco depois. Na verdade, a desmilitarização foi um dos poucos princípios sobre o futuro da Alemanha em que todos concordaram.

Colourised image of Wehrmacht soldiers surrending in Bohemia, 1945. Img: Johannes Dorn - Collection Peter, CC BY-SA 4.0.

Isto significa que, quando a Alemanha de Leste e a Alemanha de Oeste foram criadas em 1949, não tinham forças militares próprias. Ambas acolhiam tropas dos países que continuavam a ocupá-las. Provavelmente teria permanecido assim durante mais tempo não fosse o surgimento da Guerra Fria, que levou sobretudo os EUA a reconsiderar a situação. Washington precisava da Alemanha Ocidental para reforçar a linha da frente europeia contra o comunismo.

Já em 1951, a Alemanha Ocidental começou a criar unidades policiais paramilitares para ajudar a guardar a fronteira inter-alemã (a longa linha no meio do país; o Muro de Berlim só seria construído uma década depois). 

Planos vagos de rearmamento estavam em curso desde 1947/48, mas este desenvolvimento específico resultou de um novo sentido de urgência provocado pela Guerra da Coreia, que prendeu os EUA e os confrontou com a expansão comunista por meios militares. Precisavam dos alemães ocidentais para manter a linha na Europa.

Independentemente das necessidades práticas, é surpreendente, em retrospectiva, a forma como este processo decorreu. No outono de 1950, teve lugar uma reunião na Abadia de Himmerod, onde antigos oficiais da Wehrmacht, encarregados pelo chanceler Konrad Adenauer, delinearam opções para o rearmamento.

O memorando resultante propunha um exército de cerca de 500 000 homens — mais do que os planos actuais, apesar de uma população menor. Defendia também que a única forma de construir um novo exército alemão seria reabilitar o antigo, garantindo continuidade de pessoal e tradições. “As nações ocidentais”, exigiu o presidente da reunião, “devem tomar medidas públicas contra a ‘caracterização prejudicial’ dos antigos soldados alemães”.

Em janeiro de 1951, Dwight D. Eisenhower fez precisamente isso, afirmando que existia uma diferença real entre o soldado alemão e Hitler. Isto ajudou a criar o mito da “Wehrmacht limpa”, conceito que viria a ser contestado nos anos 1990 e 2000, quando uma famosa exposição da Wehrmacht, dividida em duas partes, a contestou ao centrar-se nos crimes cometidos pelas forças armadas regulares durante a guerra.

Nos anos 1950, esse mito abriu caminho ao rearmamento — mas com uma condição: a Alemanha não tomaria decisões estratégicas de forma autónoma. A integração europeia avançava e, em 1955, a Alemanha Ocidental aderiu à NATO. Isto aconteceu no início de Maio, ou seja, quase no mesmo dia, 10 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Ficou decidido: haveria uma nova força militar alemã — a Bundeswehr, fundada oficialmente a 12 de novembro de 1955. Mas isso viria a ser contido pelas decisões dos Aliados, sobretudo pelas dos EUA. Os planos de Adenauer para desenvolver armas nucleares para a Alemanha Ocidental foram também imediatamente abortados.

A Alemanha Oriental respondeu a este processo criando as suas próprias forças armadas, o Exército Popular Nacional, começando com unidades da polícia militar em 1952 e culminando na formação oficial do NVA a 18 de janeiro de 1956. Dez dias depois, aderiu à contraparte comunista da NATO, a Organização do Tratado de Varsóvia, frequentemente referida como o «Pacto de Varsóvia». Tanto a Bundeswehr como a NVA introduziram o serviço militar obrigatório para os homens e ambas receberam proporções comparativamente elevadas do PIB.

Em geral, os jovens (e, no caso da RDA, também as mulheres) que escolheram o serviço militar como carreira fizeram-no porque apreciavam a estabilidade e o espírito de camaradagem desse tipo de vida. Aqueles que foram obrigados a cumpri-lo durante algum tempo (especialmente no Leste, onde não havia alternativa civil ao serviço militar, ao contrário do que acontecia no Ocidente), muitas vezes ressentiam-se com a experiência. Mas ambos os grupos podiam contar com a possibilidade de evitar o combate activo.

Um exemplo que ilustra este ponto é a repressão da Primavera de Praga, um movimento de reforma na Checoslováquia sob a liderança do político eslovaco Alexander Dubček. Quando, na madrugada de 20 de Agosto de 1968, uma força de invasão de 500 000 soldados do Pacto de Varsóvia ameaçou esmagar qualquer resistência no país da Europa Oriental, as forças da NVA da RDA estavam entre as unidades de apoio. O líder da Alemanha Oriental, Walter Ulbricht, queria enviá-las em força para provar o valor do seu país aos soviéticos, mas mesmo eles foram cautelosos em não enviar soldados alemães para a Europa Oriental apenas uma geração após a Segunda Guerra Mundial. As tropas da NVA nunca chegaram a atravessar a fronteira para a Checoslováquia, embora estivessem a ajudar o comando soviético. Foi uma decisão tomada em Moscovo e não em Berlim, essa de não enviar tropas da NVA para combate aberto.

As implicações práticas e as relações eram diferentes, mas o princípio de seguir a grande estratégia definida pelos aliados era semelhante na Alemanha Ocidental. Após a reunificação, a Alemanha também não elaborou o seu próprio documento estratégico. 

Após a invasão russa em grande escala da Ucrânia, o então chanceler Olaf Scholz continuou a salientar que o seu país «não agiria sozinho» no que dizia respeito ao apoio à Ucrânia, mas aguardaria orientações dos EUA. Scholz também salientou que a Alemanha nunca seria uma «parte» nessa guerra.

Esses princípios fundadores do rearmamento alemão após a Segunda Guerra Mundial estão agora a mudar:

A) Ao desenvolver a sua própria estratégia militar abrangente, a Alemanha está a começar a pensar estrategicamente - pela primeira vez desde 1945.

B) O ministro da Defesa, Boris Pistorius, afirmou que quer que a Alemanha seja «kriegstüchtig» ou «pronta para a guerra», esperando claramente que os soldados estejam prontos para serem destacados.

C) Existem tentativas em pequena escala para valorizar mais o serviço militar, por exemplo, com o primeiro Dia dos Veteranos da Alemanha, celebrado no ano passado.

Esta é uma mudança enorme por inúmeras razões e terá de ser cuidadosamente ponderada e gerida. O lançamento da nova estratégia militar deveria, sem dúvida, ser uma notícia muito mais importante do que é, tendo em conta as vastas transformações culturais, políticas, económicas e sociais que terão de a sustentar.

Não há uma forma fácil de resolver este dilema. A Alemanha terá de encontrar um equilíbrio muito delicado ao tentar conciliar a necessidade de força militar com uma relutância profundamente enraizada em permitir que o militarismo volte a ganhar força.

August 26, 2025

Compreender a Rússia - a questão da paz, da racionalidade e do emotivismo



Os corpos de dois empresários do Azerbaijão mortos pelo FSB russo em Yekaterinburg tinham os órgãos genitais cortados. Este é um sinal demonstrativo de violência muito típico da Rússia. 
Em Abril, a Rússia enviou o corpo da jornalista ucraniana Viktoriia Roshchyna para a Ucrânia - com os olhos arrancados. Os políticos ocidentais ingénuos que perguntam, «por que os russos fariam isso?» não entendem nada sobre a Rússia. 
Para a Rússia, esse sinal visível de tortura é uma parte essencial da pressão que exercem sobre o adversário. Eles querem que o adversário saiba exatamente que tipo de terror eles usam. Aqui está uma citação do livro The Gate of Europe, de Sergio Plokhii:
«Os servos czaristas queriam que os seus súbditos percebessem que não estavam a brincar. Em janeiro de 1660, os comandantes militares de Moscovo enviaram uma mensagem a Khmelnytsky. Um jovem hetman recebeu o cadáver de Daniel Vygovsky, irmão do antigo hetman e de Yuri Khmelnitsky, que caiu nas mãos dos moscovitas. Danylo foi torturado até à morte. O que o hetman viu no caixão fê-lo chorar. «Todo o seu corpo estava dilacerado por chicotadas, os olhos arrancados, as orelhas viradas do avesso com uma broca e inundadas com prata derretida», relatou um diplomata polaco que estava presente naquele momento. «Os seus dedos foram cortados. As pernas foram cortadas ao longo das veias. Em suma, foi uma selvageria sem precedentes.»
Sergej Sumlenny, LL.M - cientista político alemão, especialista em segurança e fundador do Centro Europeu de Iniciativas de Resiliência.

Este tipo de brutalidade é comum a todas as organizações e Estados terroristas. Veja-se os Talibãs, o Hamas, o Estado Islâmico Iraniano e outros do género. Os nazis. Usam a extrema violência e terror como forma de pressão. Usam-na, arbitrariamente, tanto contra os inimigos exteriores como contra o próprio povo para criar um profundo medo e assim retirar agência e submeter a vontade. 

Uma vez que se compreenda o funcionamento destes grupos e Estados, não é difícil perceber a 'lógica' das suas jogadas e até prevê-las, até certo ponto, porque jogam sempre da mesma maneira.

Aqui no Ocidente há dificuldade em perceber este modo de operar porque temos décadas de educação para a argumentação e diálogo, para a racionalidade e os direitos humanos. Mas este povos e grupos vivem num registo pré-2ª Grande Guerra. 

Costumávamos ter as Nações Unidas como um fórum de racionalidade comum. A racionalidade é o que temos de comum, a cultura é emocional e distingue-nos constantemente, não sendo, por isso, um bom instrumento, para a convivência universal. Hoje-em-dia a racionalidade está sob ataque mas é a racionalidade que sustenta os direitos humanos, a igualdade de direitos das mulheres, dos gays, das minorias, etc. 

Quando Descartes disse, "o bom senso [o nome que dava à razão] é a coisa mais bem distribuída do mundo", instaurou o início de uma época em que se buscava um chão comum nessa racionalidade que partilhamos universalmente. Sem ela não teríamos os mesmos direitos - como aliás ainda não têm as sociedades que não se orientam pela racionalidade mas pela religião ou pela ideologia.

Na segunda metade do século XX culparam erradamente a racionalidade e a ciência das atrocidades da Segunda Guerra Mundial e instauraram o reino do emotivismo. 

Guterres é um grande defensor do emotivismo, de dar primazia ao que se sente e à conta disso transformou a ONU numa organização de validação de emotivismos. Usa sempre termos catastróficos para exacerbar emoções. Ora, o emotivismo é subjectivo, pessoal e culturalmente e não proporciona um chão comum de entendimento. Relativiza todos os assuntos e remete-os para tradições e emoções superficiais de que se usam estes grupos para ganhar poder. 

Não por acaso, desafiando a mais básica racionalidade, nos dias que correm aceita-se que um homem seja uma mulher porque sente que o é e o que cada um sente os outros têm de aceitar como verdade porque os sentimentos são reais - confunde-se a realidade emocional, que é transitória e subjectiva, com a verdade ontológica e epistemológica. 

Tendo assinado a Carta dos Direitos Humanos, todos estes estes povos brutais, naquele fórum, punham de lado as suas emoções e tradições e regulavam-se em termos globais, por relações baseadas na racionalidade comum. Isso acabou com o domínio do emotivismo e daí os direitos das mulheres estarem em queda, as religiões e ideologias estarem em ascensão e a racionalidade estar cada vez mais arredada das conversas de paz e entendimento entre os povos.

Deixo aqui duas sugestões, uma sendo um livro sobre o tema da paz e outra um programa sobre a compreensão dos povos brutais, neste caso, a Rússia.

O livro é este. É um livrinho pequeno com pouco mais de 100 páginas, de António Marques (que foi meu professor na FSCH), numa coleção sobre os valores coordenada pelo André Campos (prof. da FSCH, que foi meu aluno na escola) que reconstrói a história da racionalidade da ideia de paz desde a origem nos séculos XVI-XVII, com Grotius, até Kant, com a sua ideia de paz perpétua que levou ao nascimento da ideia das Nações Unidas. Lê-se muito bem e esclarece, por contraste, o que se passa nesta nossa época perigosa de emotivismo exacerbado.



O site do YouTube, da autoria de Sergej Sumlenny, onde explica como compreender a Rússia, é este:

May 21, 2024

Uma recomendação de leitura a todos os que protestam nas universidades (e não só)

 

A recomendação é de Martha C. Nussbaum, uma professora de Filosofia na Universidade de Chicago, uma das mais importantes pensadoras actuais sobre ética, direito e política.

Era Uma Vez Um País: Uma Vida Palestiniana, de Sari Nusseibeh, é o livro que Martha Nussbaum aconselha para dar subtileza e complexidade à busca da paz por parte dos estudantes.

Nusseibeh, antigo reitor da Universidade Al-Quds, em Jerusalém Oriental (ainda lá ensina filosofia), há muito que prossegue uma busca de cooperação, de compreensão mútua e de paz baseada em princípios filosóficos e éticos, com uma integridade sem paralelo, mesmo quando ambos os lados da barricada o ameaçaram, e continua a ser um exemplo de esperança fundamentada.




June 05, 2023

Uma espécie de paz

 

Duas mulheres num jardim", Eric Ravilious, aguarela, 1933



March 08, 2023

Estamos numa luta por uma Pax Europa

 

June 16, 2022

Um momento de paz

 


(menos os ursos sff)


May 26, 2022

Um momento de paz

 


Mirko - @JacksonjokerArt. -  The creek, a new painting I just wrapped up.

May 22, 2022

Fazer uma paz à custa do oprimido é agraciar o opressor

 


May 14, 2022

Um momento de paz



Portara, the main entrance of the temple of Apollon, 530 BC. Naxos island, Cyclades, Greece.
http://ancient-origins.net


March 02, 2022

February 12, 2022

Um convite à guerra?

 


Enquanto as partes falam e mantêm uma rotina de normalidade há esperança mas quando uma das partes abandona o campo, abandona também o entendimento e isso só pode ser interpretado como uma desistência. Das duas uma: ou os EUA têm a certeza que a invasão russa vai acontecer mesmo e agora e, nesse caso, percebe-se a retirada ou, não têm essa certeza e are calling the Bluff, o que é muito perigoso porque Putin não é o tipo de pessoa que aceite perder face. Se retiram o seu pessoal da embaixada, outros países farão o mesmo e isso é um sinal claro de abandono do campo ao inimigo. 

Biden anda a dizer, falando pelos alemães, que não vai haver Nord Stream 2, como consequência punitiva para a Rússia mas Putin já fez um acordo económico com a China, para vender gás e petróleo, no valor de 117.5 biliões. Anunciou-o na abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno. Os caminhos da paz estão a fechar-se rapidamente e até a imprensa parece estar já preparada para a cobertura da guerra.


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Washington tinha já ordenado às famílias do pessoal da embaixada dos EUA em Kiev que saíssem do país e aconselhado funcionários não essenciais a fazer o mesmo.

Responsáveis norte-americanos, que pediram o anonimato, indicaram à AP que o Departamento de Estado planeia anunciar, ao início do dia (hora local), que todo o pessoal dos Estados Unidos da embaixada de Kiev será obrigado a abandonar o país por considerar “uma invasão russa iminente”.

September 10, 2020

August 30, 2020

Sobre a importância do Belo na paz e na preservação do ambiente

 



Há muitos anos, o zoólogo americano Gaylord Simpson rebateu aqueles que questionavam a realidade de um mundo exterior dizendo que o macaco que não reconhecia a representação correta do ramo para o qual pretendia pular não era um de nossos ancestrais. Hubert Markl observou acertadamente que aquele que não deseja perceber a realidade já falhou em fazê-lo. A qualificação da declaração um tanto provocativa de Beuys 'tudo é arte e todos são artistas' pode ser vista neste contexto. 

No prefácio do livro de Walter Schurin,  Pintura Austríaca após 1945, Hbert Ehalt escreveu: "Antigamente eram as aptidões artesanais que eram aprendidas e praticadas com muita perseverança; agora, há um fluxo constante de novas ideias e discursos sobre o que constitui a obra de arte. Desta maneira, as artes cada vez mais se separam das tradições e de critérios sólidos consensuais; tornaram-se mais intimamente ligadas ao contexto e ao tempo. Pode-se perguntar se, quando a ideia dessas obras relacionadas ao contexto estiver fora de moda, só restará um depósito de materiais e uma história intelectual de discursos.

Talvez haja mais qualquer coisa por detrás deste desenvolvimento. Apesar de em todas as épocas ter havido fraudes [na arte] que encontram um mercado, hoje em dia não é preciso grande esforço, basta ser um bocadinho esperto e desavergonhado. Pergunto-me se as mudanças no ambiente visual em que tanta gente cresce não desempenham um papel no gosto contemporâneo.

Poucas crianças hoje em dia passaram pela experiência de ver a maravilha de como as lagartas se transformam em borboletas, como as larvas da libelinha saem da água e sobem pelos juncos e como a libélula adulta emerge de suas costas. Raramente podem deitar-se de costas num campo de flores perfumado num dia ensolarado de início de Verão, quando os malmequeres e a sálvia estão em flor, para sonhar com as andorinhas que descrevem arcos no alto céu azul, ver os escaravelhos rastejar pelas arestas das folhas da erva, o enxame de insetos na extensão branca das flores e os zangões e outras abelhas na busca ansiosa do mel.

Não é possível que as pessoas que cresceram nos ambientes industriais artificiais das metrópoles modernas, que muitos considerariam feios, tenham sido alterados em resultado desses ambientes? E, sendo assim, isso não poderia, em parte, explicar a moda de montagens de objectos e materiais ignóbeis? Como consequência deste desenvolvimento o sentimento pelo belo da natureza diminui e é acompanhado por uma quebra de valores que ameaça a nossa relação com a natureza e, por arrasto, a preservação da comunidade de vida fundamental para a nossa sobrevivência.

Isto não quer dizer que a arte deva representar apenas o que é belo. Goia, ao representar as atrocidades da guerra, segura um espelho diante de nós que acorda o horror. Os artistas experimentam e provocam. No entanto, o valor pedagógico e pacifista do Belo não deve, como resultado, desaparecer no esquecimento.

Somos uma espécie tremendamente bem sucedida que num século apenas, progrediu da era mecânica para a electrónica e fez as primeiras viagens no espaço. Hoje, com mais de seis mil milhões de pessoas, povoamos os últimos lugares inabitados da Terra; com as nossas técnicas actuais entrámos no processo de destruir o ambiente que é a base da nossa existência.

Temos de adotar um ethos de sobrevivência que leve em conta, não apenas o nosso futuro, mas o dos nossos netos. A necessidade de desenvolver esse ethos de sobrevivência -calcular as consequências, para as futuras gerações, das nossas acções presentes- é-nos óbvia a um nível racional mas a implementação prática deste conhecimento é emperrada pela tendência fatal de competição no aqui e agora.

Aqueles que não experienciaram a natureza em toda a sua beleza e, por isso, não desenvolveram em si sentimentos de respeito por ela, serão os mais tentados a seguir os seus interesses egoístas e de vistas-curtas, sob o principio de depois de nós o dilúvio sem consideração pela natureza ou pelos nosso netos. 

Irenäus Eibl-Eibesfeldt


August 13, 2020

Eu a fugir das cavalas e elas sempre atrás de mim

 


Isto foi hoje que a água estava tão límpida que se viam muito bem os peixes... e eles a nós. Pus-me a fugir dum pequeno cardume de cavalas porque li no jornal que há por aqui tubarões que gostam de cavalas e elas sempre a nadar atrás de mim. Saí da água com a boca roxa e os dedos engelhados, mas satisfeita. Hoje até consegui dar umas braçadas de mariposa.

A caminho de casa comprei o Público e estou aqui a ler enquanto como uns cubos de melancia. Fui dar com duas notícias da realidade:

 A 1ª é para quem ainda tem dúvidas acerca de como as coisas se passam neste mundo já sem democracias a operar a não ser virtualmente.


A 2ª é para que se veja o estado a que chegou o ensino. Quando estes são os objectivos do ensino da nossa Língua: no 6º ano (alunos com 11 ou 12 anos) os alunos devem aprender a escrever textos com parágrafos... e devem intervir em blogs e fóruns. Desde quando aprender a escrever textos com parágrafos não se faz no 2º ano com 7 anos e só se faz cinco anos depois...? E intervir em blogs? Como é que me posso admirar dos alunos me chegarem ao 10º ano sem saber ler e escrever se a ambição assumida é esta?



Tratam os alunos como atrasados mentais... eles comportam-se como tais...


Finalmente, assegura-se que no ano que vem os exames têm outra vez a mão milagrosa do IAVÉ Maria cheia de Graça.


Não tenho esperança nenhuma no futuro do ensino quando o presente é a renovação da mediocridade aceite por todos e anunciada como progresso nos jornais.

Bem, estamos de férias e não estou para me chatear. Vou tomar banho e fazer o almoço, que estou cheia de fome. Voltei à minha rotina de 10 mil passos diários e ando a estudar a Fenomenologia de Hegel ao mesmo ritmo da natação na praia que são 30 braçadas, pausa, 30 braçadas... aqui são 30 minutos, pausa, 30 minutos...

A estudar Hegel com motivação e empenho descobri que o problema de ter levado muito tempo a perceber Hegel devia-se menos à minha burrice e inexperiência filosófica e mais à falta de jeito dos outros em explicá-lo. É que descobri por aí na net pessoas que o explicam muito bem. What a difference a good teacher does.

Temos aqui família e amigos perto mas ninguém fez o teste do Covid de modo que estamos em férias versão tranquilidade conventual.