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April 06, 2025

Filmes - Os Espíritos de Inisherin

 

Apanhei este filme na TV e estive a vê-lo ao pequeno-almoço. O filme é um olhar muito lúcido sobre a origem, tantas vezes absurda, dos conflitos e das guerras. Fez-me pensar imediatamente no caso dos EUA e do Canadá. 

O filme passa-se numa pequena ilha paradisíaca, imaginária, ao largo da Irlanda, com um pub, uma mercearia, um posto dos correios e pouco mais, onde moram umas poucas famílias. Ouvem-se ao longe os ruídos da guerra civil da Irlanda que os locais comentam como um absurdo. 

Na ilha vivem dois homens muito amigos, até que um dia, um deles, um músico de talento, resolve afastar-se do outro, cujo talento é ser uma boa pessoa para toda a gente, sem nenhuma razão especial, apenas por achar que é demasiado importante para desperdiçar a sua vida com essa amizade por alguém que entende ser menor. 

O outro fica confuso e de início não acredita que o seu grande amigo de sempre o rejeite assim sem mais, de maneira que insiste na amizade. Porém o outro, que agora o destrata com crueldade, está até disposto a ficar sem os dedos das mãos de que precisa para fazer o seu trabalho de músico para quebrar a ligação entre eles. 

As coisas vão piorando e o desprezado pensa que é por ser boa pessoa que o outro abusou dele e começa a ser, ele também, cruel. Começam a ter gestos de acerto de contas cada vez mais violentos, um para com o outro. O músico, sem querer, mata o animal preferido do desprezado, um burro miniatura que ele adorava. Como resposta este pega-lhe fogo à casa. Na última vez que falam, o músico quer que parem aquela rivalidade, pede desculpa pela morte do burro e diz que com o fogo que ele pegou à casa estão quites, mas o outro diz-lhe que agora já não há volta atrás, que há coisas que nunca mais se ultrapassam e que só a morte dele poderá acabar com aquilo. Já nem se lembra da tristeza pela morte do burro, só restou o ódio.

Várias vezes, durante o filme, se referem à guerra civil da Irlanda como absurda, sem reparar que estão a reproduzi-la. São os homens e não as mulheres quem inicia e alimenta comportamentos de conflito violento. O polícia da ilha é um homem violento que dá sovas de morte ao filho e abusa dele e o rapaz acaba por matar-se. O padre não ajuda ninguém, é agressivo e só fala do pecado. O filme é muito incómodo de ver. Parece um manual de, 'como estragar pessoas, incentivar ao ódio e começar guerras'.

Quando olhamos para os EUA de Trump-Musk, parece que resolveram levar o filme à realidade. Dois países amigos a viver numa parte do mundo quase paradisíaca, estão agora em conflito porque uma das partes resolveu que é demasiado importante para ter um amigo mais pequeno em importância e com isso destruiu uma relação de amizade pacífica e se calhar arranjou um inimigo para o futuro. Uma das frases que se diz relativamente as EUA não terem tido nunca guerras em casa -excepto as que eles mesmo fizeram aos nativos- é justamente o carácter pacífico e amistoso das duas nações que o rodeiam, o Canadá e o México.  

É claro que também se pode aplicar esta metáfora a muitas outras guerras e conflitos absurdos ao longo da história, que começaram apenas porque um homem, de repente, acha que ele e o seu país são demasiado importantes para estarem ao mesmo nível que outros homens de outros países mais pequenos ou menos ricos ou algo de género.


February 08, 2025

Filmes - A Complete Unknown

 


Muito bom. O filme é uma biografia musical de quando Zimmerman se tornou Bob Dylan - mas é muito mais que isso. O filme apanha os anos entre 1961 e 1965 na cultura americana. Bon Dylan vem lá do Minnesota para Nova Iorque para expandir-se musical e culturalmente. Vem da música folk mas já com um twist muito pessoal e é apanhado no movimento de Pete Seeger de querer que a música folk se expanda a nível nacional e influencie as mudanças políticas e sociais que desejam para os EUA. 

Apanha-se no filme uma NY efervescente de bares e casas onde as pessoas se reunem para ouvir blues, jazz, folk e, mais que ouvir música, para fazerem parte do movimento cultural eclético e rico que então enchia a cidade.

Bob Dylan rapidamente se torna uma espécie de messias no imaginário de todos os grupos culturais que querem mudanças. Todos vêem nele o motor das mudanças. Todos querem que ele encarne uma utopia qualquer. Acontece que ele não se deixa rotular e está, ele mesmo, em mudança, não só enquanto pessoa mas enquanto músico e em 1965, no famoso festival de Newport, aparece com uma banda a tocar guitarra eléctrica e desilude todos quanto tinham posto nele a esperança da mudança. Como diz um seu amigo no filme, 'a música não muda nada. Mataram o Kennedy e depois o Martin Luther King. Não mudamos nada'.

O filme apanha esses anos de grande caldeirada social e musical e o optimismo de esperança de uma sociedade nova que, como sabemos, nunca aconteceu e veio a desembocar nos movimentos inócuos dos hippies, que por sua vez desembocaram no nihilismo pragmático dos yuppies.

Muito bom. O actor que representa Pete Seeger tem um desempenho notável que dá o tom da atmosfera de esperança que então se vivia.


January 25, 2025

Filmes - O Brutalista

 


Ontem fui ver o filme. O filme não é fácil de ver e não é só por ter cerca de três horas e meia, mais um intervalo de quinze minutos. É sobretudo por ser um filme denso e muito complexo. Não é unidimensional, tem muitas camadas de realidade a desenvolverem-se simultaneamente. Não é fácil falar do filme dando conta desta complexidade que permite várias leituras inter-cruzadas. 

Podemos focar-nos no aspecto político; no aspecto filosófico; no aspecto da criação estética; no aspecto psicológico e até no aspecto escatológico da arte, pois a arte é uma linguagem e como qualquer linguagem, quer dizer qualquer coisa.

O filme tem um prólogo, um corpo -dividido em duas partes (com o intervalo a separá-las) que atentam em tempos e temas diferentes da vida de László Tóth, um arquitecto húngaro da escola Bauhaus e de estilo brutalista- e um epílogo que é simétrico, digamos assim, ao prólogo.

O filme não é sobre emigração, embora também aborde esse tema. László Tóth é separado da mulher no fim da Segunda Grande Guerra -ela estava no sector soviético- e vai para os EUA onde tem um familiar que já lá está há muitos anos, já americanizou o nome, converteu-se à religião cristã da mulher, uma americana. Acompanhamos as dificuldades dele enquanto imigrante judeu refugiado de guerra, com um nome e um nariz que não deixa dúvidas. É a primeira coisa que a mulher do primo lhe diz: para ir corrigir o nariz.

Ele acaba por ser contratado por um patrono americano, um industrial de nome Van Buren, muito rico e entusiasmado pela arquitectura, que o contrata para fazer um centro comunitário onde mora, numa pequena cidadezinha da Pensilvânia. Van Buren, cujo filho faz lembrar Trump em muitos sentidos, representa uma América hipócrita e superficial que se vê como superior e excepcional e com direito a tratar os subordinados e os que estão fora da graça, como inferiores. 

Isso é muito interessante, porque László Tóth foje da Raça Superior nazi para a terra da liberdade e do sonho capitalista e encontra lá a mesma mentalidade. Assim como a mulher dele e a sobrinha escapam aos soviéticos, que também se pensam superiores e excepcionais. Uma maneira de nos dizerem que a humanidade, com mais ou menos máscaras, é igual em todo o lado, assim que tem algum poder/riqueza.

Numa cena brutal do filme, Van Buren vai a Itália com László Tóth escolher uma pedra de mármore de Carrara para a capela do centro comunitário (que era para acolher todos mas cujo mayor da terra exige que tenha uma capela cristã) e depois de escolherem a pedra (as cenas filmadas na pedreira são das melhores do filme) os populares fazem uma festa e vemos Van Buen, observar a felicidade dos populares que não lhe ligam nenhuma. É nessa altura que ele faz um coisa brutal que muda a vida do arquitecto (que não vou dizer), para mostrar quem é que tem o verdadeiro controlo sobre a vida e a felicidade.

Os edifícios brutalistas do filme, nomeadamente o tal centro comunitário com a capela, em vez de ser uma homenagem à mãe de Van Buren, como ele queria, é claramente um memorial às vítimas do holocausto e uma mostra ou vidência da natureza humana, brutal e dezumanizante. Edifícios enormes, esmagadores, sombrios e fechados, com apenas algumas frestas por onde entra a luz do humano. "Que melhor maneira de falar de um cubo senão construí-lo?", diz László Tóth no filme. Que melhor maneira de falar do humano com poder senão mostrá-lo na arquitectura. O brutalismo é um estilo paradoxal, pois é ao mesmo tempo minimalista e maximalista.

Enfim, acompanhamos o processo interior da construção da arte a partir da vivência interior e vissicitudes da vida do artista. 

O filme começa com o silêncio traumatizado da sobrinha e acaba com o silêncio do arquitecto, quando a obra já não é sua mas das pessoas que a julgam e a interpretam sem que ele tenha alguma coisa a dizer. Como estou aqui a fazer, quer dizer, a interpretar o filme, à margem dos seus criadores.

O filme tem outras leituras e tem imensos promenores significativos que provocam a reflexão.

Tudo é bom: os cenários, a fotografia, o enquadramento, a recriação desse tempo pós-guerra, a arquitetura, claro. Os actores conseguem fazer-nos entrar completamente na psicologia das personagens e acreditar na sua realidade.


January 04, 2025

Filmes - A substância

 


Este é um filme violento sobre a violência que os homens exercem sobre as mulheres -o corpo que têm de ter e a maneira como podem estar no mundo- como se o mundo e tudo o que nele vive existisse para satisfazer os seus desejos e a violência que as mulheres exercem sobre si mesmas para corresponderem a essas expectativas que inculcam nelas desde a nascença, até chegarem a um lugar de conforto consigo mesmas. 

Não é só o corpo que está sempre a ser julgado como se o valor da pessoa se reduzisse às particularidades do seu corpo físico, mas também o modo como se julga tudo o que fazem: se falam de mais, se falam de menos, se choram demais, se nunca choram, se riem demais, se nunca riem, se são ambiciosas, se não são ambiciosas, se podem ter certas profissões, se têm a voz alta, se têm a voz baixa, se têm muitas opiniões, se nunca têm opiniões, se são louras, se são morenas... tudo são insuficiências e defeitos a serem corrigidos pelos homens.

[Há tempos li uma entrevista com a Judit Polgár, a campeã de xadrez húngara. Ela dizia que quando começou a ganhar a campeões, aí pelos 10, 11 anos, preocupava-se muito em não ganhar de maneira que os opositores se sentissem humilhados por receio de não voltarem a convidá-la para os torneios - ela foi a 1ª xadrezista a competir em torneios abertos e alguns dos xadrezistas, homens, com quem jogou diziam-lhe para ir competir nos torneiros femininos (coisa que nunca fez) e que as mulheres não tinham estamina para serem campeãs de xadrez e outras coisas do género. Quer dizer, is para os jogos auto-consciente de ser uma rapariga e de isso ser uma grande desvantagem. Isto torna as suas vitórias muito mais valiosas e impressionantes porque sempre que um rapaz prodígio aparece, logo surgem grande campeões a treiná-lo e toda a gente à sua volta os apoia, mas se é uma rapariga tentam humilhá-la com atitudes e palavras violentas que fazem o seu caminho na insegurança das mulheres e na violência com elas depois se julgam a si mesmas]

Obviamente, o filme passa-se em Hollywood, um dos píncaros dessa violência. A maneira como a realizadora filma os produtores e outro pessoal do meio é a da perspectiva das mulheres e, como tal, eles aparecem como repugnantes (esta cena que se vê aqui do produtor do programa a engolir os camarões e cospe as cascas, o que muito simbolicamente é o que faz às mulheres é repugnante) e/ou canalhas. 

No filme a personagem principal, que é uma pessoa com valor mas que a certa altura se vê e sente como um monstro, divide-se em duas, fisicamente e emocionalmente. Essa parte de transformação e ruptura da carne, toda filmada numa casa-de-banho com um enorme espelho é horrível e fica-se com o estômago às voltas. A cena final do filme é brutal.

Vi uma entrevista com a realizadora e as duas actrizes que fazem a mesma personagem, dividida em duas, e a mais nova, uma mulher bonita, dizia que para fazer aquele papel tiveram que pôr-lhe próteses nas mamas e no rabo, para ficar igual àquelas pin-ups, que são o ideal de mulher perfeita na cabeça dos homens e que os produtores buscam quando as selecionam [como nazis, digo eu]. Quer dizer, uma mulher bastante bonita, mesmo assim, é considerada cheia de insuficiências, do ponto de vista dos homens.  

O filme é muito bom e fiquei fã da realizadora, que também escreve o argumento, mas achei-o muito difícil de ver. É um género de surrealismo de horror ou algo assim.


January 02, 2025

"Pensar é dizer não" (Alain)

 


Está a passar na TV um dos meus filmes preferidos de sempre, A Hidden Life. A simplicidade com que desvenda verdades profundas sobre a alma humana, as suas misérias e píncaros, com uma linguagem bela como um poema. Tudo no filme é belo, até o horrível, porque vemos nele a verdade. Está aqui tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos, sobre a natureza e a vida.


December 31, 2024

"Uma infinita tempestade de beleza"

 

Um século depois de William Blake ver o universo num grão de areia, John Muir, o escritor escocês-americano e ambientalista, fundador das reservas naturais americanas, escreve:

A paisagem do oceano, por mais sublime que seja na sua vasta extensão, parece muito menos bela para nós, animais de cascos secos, do que a da Terra, vista apenas em trechos comparativamente pequenos; mas quando contemplamos o globo inteiro como uma grande gota de orvalho, listrada e pontilhada de continentes e ilhas, voando pelo espaço com outras estrelas, todas cantando e brilhando juntas como uma só, o universo inteiro aparece como uma infinita tempestade de beleza.


O filme, 'Infinite Storm' é baseado num acontecimento real, visto pela lente deste pensamento de John Muir.



Em Outubro de 2010, Pam Bales, uma enfermeira, guia montanhista e membro da Equipa de Busca e Resgate de Pemigewasset Valley do Monte Washington foi fazer uma caminhada pela montanha. Uma necessidade e uma terapia.
Uma sensação de paz tomou conta de mim assim que as minhas botas pisaram na terra. Na base da Jewell Trail do Mt. Washington, o sol de Outubro parecia quente nos meus braços nus. Mas, tendo crescido a explorar as White Mountains de New Hampshire, eu sabia que as condições no alto não seriam nada parecidas com as do vale. Em preparação para uma subida no final da temporada do pico de 2.000 metros conhecido como “lar do pior clima do mundo, carreguei a minha mochila com camadas extras e um par de óculos de proteção para a neve. Saí nesse dia para treinar, com uma mochila pesada e, para aproveitar algumas horas na minha área favorita.
O Monte Washington, com o seu clima imprevisível, ceifou mais de 150 vidas nos últimos 150 anos, o que o torna uma das montanhas mais mortais do país. Sentia-me forte naquele dia, mas podia ver nuvens espessas encobrindo a metade superior do pico. A 5.000 pés de altitude, a cerca de 5 quilómetros, o vento começou a aumentar. Parei para vestir mais uma camada de roupa.
A neve soprava no meu rosto enquanto continuava a subir, mas conseguia seguir a trilha de olhos fechados. Acima da linha das árvores, as rajadas de vento eram violentas e a temperatura caía. Disse a mim mesma que se o tempo piorasse ainda mais, voltaria; retornar ao meu carro era mais importante do que chegar ao topo.
Por volta dos 1.500 pés cheguei ao cruzamento com a trilha Gulfside. Foi quando notei pegadas recentes na neve que me causaram arrepios na espinha. Estava claro que essas pegadas não tinham sido feitas por botas de caminhada resistentes, mas por ténis de rua. Com este clima? Sabia que alguém estava em apuros.Virei-me para seguir as pegadas. Alguns passos depois, vi-o - um homem caído no chão com as costas apoiadas em uma pedra. Uma camada de neve cobria as suas roupas. Gritei e ouvi apenas silêncio.
Agachada ao lado do homem, olhei para o seu corta-vento fino, t-shirt e calças encharcadas. Como é que alguém veio caminhar até aqui tão despreparado? Ele respirava, mas a sua pele parecia de porcelana e tinha uma expressão vazia. Isso era mau sinal.
O filme conta a história deste resgate e salvamento heróico de um rapaz novo, com vinte e tal anos, que foi para a montanha para se deixar morrer, por uma enfermeira e montanhista de cinquenta e tal anos com metade do tamanho dele, em condições de tempestade muito severa numa paisagem gelada e agreste.

À medida que vamos acompanhando esta história de fortaleza de espírito humano, determinação, compaixão e resiliência, o realizador vai-nos mostrando a beleza dos picos eternos da montanha, a beleza da tempestade e das paisagens de infinitos mantos brancos de neve e a beleza do espírito e esforço humanos na conquista das adversidades.

No filme, uma semana depois de ela o ter resgatado e salvo eles têm um encontro emocional. Ele conta-lhe porque queria suicidar-se e ela conta-lhe que perdeu as duas filhas pequenas numa fuga de gás e houve uma altura que também queria morrer. O filme acaba com ela a dizer-lhe, "mesmo no meio do maior sofrimento, da maior tempestade, o Universo é uma infinita tempestade de beleza."

Na realidade eles nunca se encontraram e ela nunca soube o nome dele. Passado pouco tempo do acontecimento ele enviou uma carta, assinada John, o nome que ela lhe deu na montanha quando ele era incapaz de falar, com um donativo à Equipa de Busca e Resgate de Pemigewasset Valley. Nela explicava o sucedido, contava a proeza heróica dela e agradecia-lhe ter-lhe dado de volta a vida e a esperança.
Em algum momento de nossas vidas, cada um de nós já se viu caminhando com uma sensação de desamparo ao longo de uma montanha agreste, no meio de uma tempestade pessoal. Sozinhos, desprovidos de uma sensação de calor e segurança emocionais e sufocados pela escuridão das nossas emoções, alguns procuram aquele lugar fora da trilha como uma maneira de se libertarem. Tragicamente, alguns conseguem-no; outros conseguem salvar-se sozinhos e outros, como John, são resgatados por pessoas como Pam Bales.
O filme é meditativo, real e belo. Não foi um grande sucesso de bilheteira. Os críticos consideraram que lhe faltava a conclusão de tudo ter acabado bem e viverem felizes. 

December 21, 2024

O Aprendiz

 


Este filme é sobre, The Making of Donald Trump e Trump fez-se por intermédio de Roy Cohn, um advogado gay, desonesto e criminoso de Nova Iorque que se relacionava com todos que eram alguém (tinha sido o braço direito de McCarthy) que se apaixonou por Trump quando ele era novo e ingénuo e lhe ensinou todos os truques do ofício (desde mentiras a subornos e chantagens), apresentou-o a magnatas e políticos e lançou-o no mundo dos ricos e da riqueza. Trump, um homem absolutamente sem escrúpulos como o seu mentor, aprende rapidamente a lição e dá um pontapé em Roy quando já não precisa dele para a sua carreira de aldrabão profissional - até o pai ele tenta aldrabar quando o vê com um princípio de demência- e quando a sua doença (SIDA) o identifica como gay, uma imagem a que Trump não queria estar associado.
Quando Roy está a morrer telefona-lhe a queixar-se da sua vida e a dizer-lhe que sente falta dele porque ele foi a única pessoa que alguma vez se interessou verdadeiramente por si e o amou - não porque goste dele, repare-se. Ele vê as pessoas todas como instrumentais. A maneira como ele vê e trata as mulheres é míope e degradante, muito de acordo com as religiões extremistas.
Portanto, este filme é sobre esses anos de aprendizagem com Roy acerca de como ser um vencedor, a única coisa que lhes interessa. Como ele diz no fim do filme, tem três princípios de vida para ser um vencedor: 1º- atacar, atacar, atacar: o mundo é um caos e se te apontam um faca respondes com uma bazuca; 2º - não há verdade, a verdade é o que cada um diz que é; 3º- por mais lixado que estejas, nunca admires a derrota, clamas sempre vitória.
Estes três princípios, diz ele, só funcionam para quem nasce com um instinto assassino. Quando pensamos nisto, estes princípios são comuns a todos os grandes narcisistas e criminosos e vemo-los em Putin, por exemplo e em outros do mesmo género e daí que se entendam bem uns com outros.
O filme explora as fraquezas do sistema político americano e como este tipo de pessoas navega bem nele. O realizador, Ali Abbasi, um iraniano dinamarquês e o argumentista fazem o filme baseados nos documentos legais e testemunhos que existem acerca dos eventos qee são abordados. 


December 09, 2024

Está a começar 'Intriga Internacional' na TV

 


Com o Cary Grant, um indivíduo que desde muito novo tinha um instinto apurado acerca de como vestir um fato e chamar a atenção - e que mesmo quando não é para ter piada, tem.



August 20, 2024

Filmes - Aquilo que constitui a nossa força é também o que faz nossa fraqueza

 

Ontem apanhei este filme na TV, The Pledge, que em português traduzem por, 'A Promessa'. Não conhecia. O filme é sobre um polícia que no dia da sua reforma promete a uma mãe encontrar o assassino da sua filha de 7 anos. A partir daí e com algumas pistas que a miúda deixou num desenho, vai viver para a zona onde pensa que estará o assassino, faz amizade com uma mulher que tem uma filha de 7 anos, acabam a viver juntos e ele, a certa altura, resolve usar a miúda como isco para apanhar o assassino. 

O filme é muito bom e só tem bons actores. Jack Nicholson é o polícia reformado. À primeira vista o filme é um policial de suspense, mas na verdade o filme é sobre o próprio polícia. Desde o início que vemos perfeitamente que ele é um bom polícia, um indivíduo que leva o seu trabalho muito a sério. Aquele tipo de pessoa que não larga um caso e persiste até encontrar o criminoso. É muito respeitado pelos seus pares. Porém, esse seu foco, que é a sua força, ao evoluir para uma obsessão que toma conta de toda a sua realidade, torna-se a sua fraqueza. É exactamente o que acontece no filme. Aquilo que era a sua maior virtude e força, levada até ao exagero, tornou-se a sua perdição. 

Nós próprios, ficamos presos ao ecrã com o mesmo tipo de foco que ele vive interiormente, a seguir a sua argúcia na caçada ao assassino -Jack Nicholson é muito bom a mostrar-nos como vive focado nesse fim, desde o início do filme- até que a certa altura percebemos que há algo errado no modo como ele vive a sua caçada e como submete todas as sua relações a meios de atingir aquele fim. 

O que constituía a sua grandeza é também o que constitui a sua pequenez. Fez-me lembrar Platão, quando diz que as virtudes, quando não são temperadas pela razão tornam-se meros simulacros e são comandadas pelo descomedimento. A virtude é apenas uma moeda de troca por outros prazeres, neste caso a obsessão que o domina e comanda.


August 07, 2024

Este calor, que torpor...

 


Não aguento este calor - que nem sequer é muito. A praia, nadar e o sol deixam-me numa moleza tão grande que se me interrompem este torpor fico embirrenta como as crianças. Trouxe 4 livros para ler mas ainda não li nada porque assim que pego num começo logo a fechar os olhos. 

Ontem à noite consegui ver um filme que tinha aqui para ver há tempos, Black Narcissus. Mesmerizante. Passado na Índia, este filme inglês é baseado no romance de 1939 de Rumer Godden e estreou em 1947, um par de meses antes da independência. 

O filme é estranho. Tem um ambiente gótico, carregado de tensão sexual e drama psicológico de suspense. Passa-se tanta coisa neste filme que uma pessoa fica agarrada ao ecrã.

A cinematografia do filme ajuda muito ao ambiente do filme, onde tudo são extremos e contradições. O filme gira em torno das crescentes tensões dentro de um pequeno convento de irmãs anglicanas, (ex-casa de mulheres de prazer), que tentam estabelecer uma escola e um hospital num remoto e antigo palácio de um Raja indiano no topo de uma montanha, na borda de um despenhadeiro sobre um vale fértil nos Himalaias - como se vê nesta imagem de uma cena icónica do filme.

Inacreditavelmente, apesar de se passar nos Himalaias e ser completamente convincente nesse aspecto, foi filmado quase inteiramente nos estúdios Pinewood, em Inglaterra, com apenas um dia de filmagens exteriores, captadas nos jardins subtropicais de Horsham, West Sussex. Como li algures, "uma maravilha do engenho cinematográfico". O cinema britânico no seu melhor porque a visão dos picos dos Himalaias e o constante vento a soprar, fora e dentro do convento constroem uma atmosfera ambivalente entre o etéreo espiritual e o agreste material. 

Dado que o convento está num palácio que antes se dedicava ao prazer, está cheio de murais eróticos a evocar o Kama-Sutra e algum mobiliário estofado a brocado de seda azul e ouro. As salas azuladas e decoradas deste modo fazem um contraste gritante com a rigidez das freiras nos seus hábitos brancos, frios, que tapam todo o corpo, exceptuando a cara. Todo o ambiente sensual do convento e o isolamento nos píncaros de montanhas ventosas perto do céu atinge e perturba as freiras. 

Os hábitos das freiras são perturbados de várias formas: o Sr. Dean (David Farrar), um inglês branco que vive entre os indianos e serve de guia às freiras, perturba as mulheres com a sua masculinidade. Aparece sempre com uns calções demasiado curtos e uma camisa muitas vezes demasiado aberta. Um cínico inveterado, é o vértice de um triângulo amoroso reprimido com a Irmã Clodagh, a madre-superiora do convento (Deborah Kerr) e a Irmã Ruth (Kathleen Byron). 

O filme lida com as motivações das freiras (ficamos a saber que estas duas mulheres entraram para a ordem depois de desilusões amorosas e para tentarem superá-las); com a vida monástica como uma fuga do mundo (difícil é ser santo imerso no mundo); com o contraste entre as duas civilizações: a fria e racional britânica, reprimida e a quente e terrestre indiana, desinibida; com os estereótipos culturais (o modo paternalista-racista como falam dos indianos e o modo de desprezo com que os indianos falam dos hábitos dos ingleses) mas, acima de tudo, lida com fantasmas interiores (as cortinas constantemente a esvoaçar ao vento simbolizam-nos), com desejos sexuais tornados deletérios pelo celibato forçado, sublimados numa vida de zelo, puritanismo e vaidade - a vaidade de se considerar mais perto dos céus que os outros que vivem no mundo.

Como se a realidade pudesse ser enformada -deformada- num ideal inventado. Poder, pode, mas dá sempre mau resultado.

O nome do filme vem do perfume do Rajá indiano que aparece no convento, carregado de sedas e pedras preciosas (a vaidade de Narcisus) e pede para que o ensinem nos conhecimentos ocidentais. As freiras falam do seu perfume carnal como próprio dos indianos, apesar de nos ser dito que foi comprado no depósito do exército inglês. Também este general Rajá tem um papel no filme, mas o filme é tão complexo e passa-se tanta coisa no filme que estaria o dia todo a escrever sobre todos os seus pormenores significantes.

Por exemplo, quando o Rajá pede para ser ensinado a madre-superiora diz-lhe que a ordem não ensina homens, só crianças e mulheres mas que não se ofenda porque não lidam com nenhum homem e o Rajá diz, com surpresa. "mas Jesus, que adoram, é um homem". O filme tem muitos diálogos muito bons. 

Kathleen Byron no papel de Irmã Ruth

As interpretações, sobretudo destas três personagens, Sr. Dean, Irmã Clodagh, a madre-superiora e a Irmã Ruth, são mesmo, mesmo boas. A Irmã Ruth, que tem ciúmes da Irmã Clodagh e exterioriza a sua frustração sexual (a outra interioriza), no fim do filme assume o seu desejo e sai da ordem. A maneira como aparece caracterizada e como actua -o olhar e a energia sexual e violenta que emana dela- é terrível, como nos filmes de horror, que no entanto, nos mesmerizam.

Muito bom, o filme. Apesar de ter quase um século, a sua beleza ainda cativa. Tem cenas datadas, claro, mas não sobressaem. Merece ser visto uma outra vez.

O filme está todo no YouTube mas se não têm um ecrã muito bom é uma pena vê-lo por aqui porque a fotografia, a subtileza das cores e dos cenários são das melhores características do filme.




Young Prince: Do you like it, Sister Ruth? It's called Black Narcissus. Comes from the Army-Navy Stores in London.
Sister Ruth: Black Narcissus. I don't like scent at all.
Young Prince: Oh, Sister, don't you think it's rather common to smell of ourselves?


July 11, 2024

Filmes - The Beast (ou o que é ser-se humano)

 

O título do filme não tem nada que ver com o trailer do filme que o faz parecer ser um filme de horror. Não é. A não ser que o horror sejamos nós, humanos.

Quem não viu o filme e não quer saber nada sobre ele não leia isto.

O fime é baseado numa novela de Henry James, The Beast in the Jungle - que agora fiquei com curiosidade em ler. The Beast in the Jungle é sobre um homem que está sempre cheio de medo de tudo. Bertrand Bonello, o realizador, agarra nessa novela a expande-a. Portanto, o filme é sobre o medo. É ele a Besta que impede os humanos de arriscarem o amor, de arriscarem emoções fortes e verdadeiras e de serem autênticos.

O filme segue um homem e uma mulher em três tempos diferentes que se vão entrecruzando e que de início não se percebe bem o que ali se passa, mas no fim tudo faz sentido. 

No 1º tempo, quando se conhecem, estão em 1904 e aí é ela, uma pianista, casada, quem tem medo de arriscar o amor e até de o falar.

No 2º tempo estão em 2014, ele é um incel que odeia as mulheres porque tem medo da sua rejeição e não é capaz de arriscar o amor. 

No 3º tempo, estão em 2044, numa época em que a IA faz os trabalhos humanos e os humanos, para escaparem a uma vida de um trabalho monótono de máquinas não-inteligentes, têm de sujeitar-se a um procedimento invasivo em que uma máquina lhes limpa o ADN, quer dizer, limpa todos os traumas e medos, pois considera-se que uma pessoa que ainda tem traumas, medos, ansiedades e emoções fortes, não é de confiança.

Naturalmente, ao ficarem sem a capacidade do medo e da ansiedade, também ficam sem a capacidade do amor e dos grandes sentimentos criadores. A vida nesse tempo é vivida em cidades frias, cinzentas e de silêncio. 

Portanto, os três tempos do filme representam os humanos de todos os tempos e em todos eles os humanos  deixam de viver a vida por medo, deslaçam-se dos outros seres humanos por medo de tudo o que pode correr mal e vivem vidas solitárias no coração. Em todos os tempos tentam substituir as relações humanas, demasiado stressantes, por bonecos, simulacros de humanos, como simulacros de companhia. No 1º tempo vemos bonecas a fazer companhia a humanos, no 2º tempo as bonecas são já inteligentes (e podíamos acrescentar, algoritmos de encontros online onde se pode ser um simulacro de um boneco ideal sem medo a relacionar-se com outros simulacros inverdadeiros) e no 3º tempo, as bonecas já são andróides de companhia. Porém, o fim é o mesmo: proporcionar um simulacro de contacto humano, sem complicações, anseios e medos.

No fim, os próprios humanos se tornam, eles mesmo, bonecos de expressão universalmente agradável, mas morta de sentimentos verdadeiros.

O que acontece ao par que o filme segue em cada tempo, não digo porque o filme vale a pena ver, mesmo que no início não se perceba bem o que ali se passa. Tem pormenores que enriquecem este enfoque sobre a Besta que mata os humanos, muito bons. Tem uma estética muito etérea e intemporal, em parte porque os dois actores são muito bons a recriar essa universalidade humana.


May 18, 2024

Um filme português sobre as mulheres imigrantes de origem africana em Portugal

 


Chama-se, Manga d'Terra e é sobre uma cabo-verdiana que vem para Portugal para tentar melhorar a vida dos filhos que tem no seu país de origem. Vai parar à Reboleira, onde o filme foi filmado e entre a vida diária de assédio sexual, presença constante da polícia, etc., descobre uma comunidade de mulheres de origem africana, muito fortes.
Estive a ouvir uma entrevista, na RTP África, como o realizador, Basil da Cunha e Eliana Rosa, a atriz principal e cantora. Interessante. A música do filme, cantada por Eliana Rosa, que foi aplaudida em Locarno, no festival de cinema, pode ouvir-se aqui:



April 28, 2024

Para quem viu o Dune e tem curiosidade no guarda-roupa

 

Agora fui dar com este vídeo e vi nesta rapariga a cobertura particular de cabeça da roupa formal das Reverendas Madres das Bene Gesserit do Dune, se bem que nelas a cor seja mais sóbria. Será que a criadora do guarda-roupa, Jacqueline West, se inspirou nestes costumes do Brunei? Já li que parte das roupas delas são inspiradas nas freiras católicas e nos quadros religiosos com as santas de vestes longas e cabeças cobertas. Jacqueline West estudou numa escola católica e a impressão dos trajes das religiosas ficou com ela e dado que as Bene Gesserit são uma irmandade de cariz religioso... o guarda-roupa do filme é espectacular. A cena em que Fedy-Rautha Harkonnen luta com os três adversários no dia do aniversário fez-me lembrar O Sétimo Selo de Ingmar Bergman, quando a morte aparece com a gadanha. A cabeça daqueles guardas de Fedy-Rautha Harkonnen são uma gadanha de morte no fundo branco lustroso da cena. Essas figuras sinistras e meio vampirescas são assustadoras.


April 26, 2024

DUNE - o filme e a música

 

Quarta-feira ao fim do dia fui a Lisboa ver o Dune Part Two, no último dia em que esteve em cena, ao fim de mais de mês e meio. Já o tinha visto no portátil, mas não é a mesma coisa que ver num ecrã grande, porque o filme é épico e tem cenas imponentes no deserto e cenas de batalhas de grande escopo que só se aproveitam devidamente num ecrã grande. Também, e muito importante, é preciso ouvir a música extraordinária do Hans Zimmer sair de speakers potentes. Metade do impacto do filme vem da música dele.

Vi uma gravação dele a revelar como tinha chegado àquela música, onde foi buscar inspiração e como encontrou artistas extraordinários, desde cantores (como a Loire Cotler que canta neste primeiro vídeo) até músicos que modificam ou inventam instrumentos e sons a partir de restos de metais.

O filme é muito bom. Se o primeiro Dune introduzia as personagens e o contexto palaciano da obra, este segundo explode em cenas de acção com grande cenários no deserto e grande dramatismo, embora sempre com o fio condutor humano a guiar toda a acção.

Grandes actores. Javier Bardem faz o melhor papel que lhe vi até hoje, ao interpretar o Fremen, mentor de Paul Artreides, mas também o fanático religioso à procura do Messias. Um carisma que sai do ecrã e enche a sala. Mas também todos os outros. A actriz que representa a Zendaya é completamente credível e intensa no papel. O Josh Brolin, a Rebeca Ferguson e todos os outros. 

Temas musicais diferentes do filme:

 O poder do deserto - aqui Hans Zimmer a tocar o tema principal do filme com os colaboradores. A voz quase selvagem de Loire Cotler 


A música das cenas românticas entre Chani e Paul Artreides - uma música lânguida e sensual


As máquinas gigantescas que sugam a especiaria e que têm um beat primitivo


O tema que corresponde ao mau presságio de um futuro sombrio ligado à ascensão do poder de Paul Atreides como Messias. Dune é um livro que adverte contra o perigo de controlo cultural que um messias representa, com os seus fanáticos religiosos.



March 19, 2024

American Fiction - uma sátira que acerta em cheio

 

Uma aluna universitária critica o professor de Literatura por escrever no quadro um título de um clássico com a palavra nigger. Diz que se sente incomodada com a ofensa. O professor, que é negro, explica à aluna, que é branca, que não é possível estudar a Literatura Clássica do Sul americano sem dar com palavras, frases e expressões ofensivas mas que devem ser tomadas no contexto em que foram escritas. Ela não aceita a explicação. O professor diz-lhe, "se eu as aguento, com certeza também as podes aguentar". Ela pergunta porquê 😁 É assim que começa o filme.

O professor, a quem todos chamam Monk (porque o seu primeiro nome é Thelonious, mas também porque evoca a sua misantropia), é logo chamado à direcção onde lhe explicam que já há várias queixas de alunos que se sentem ofendidos com ele e mandam-no tirar uma licença para refrescar as ideias. 

Ele é um escritor respeitado mas pouco popular porque não escreve livros 'negros' que são os livros que as editoras querem, porque vendem: ambientes violentos de afro-americanos que falam em vernáculo e passam a vida a entrar e a sair da prisão. Monk irrita-se porque nas livrarias os livros dele aparecem sempre na secção dos livros afro-americanos e ele, que nem acredita na raça, escreve obras universais e não étnicas.

Também se irrita por as editoras terem essa expectativa esteoretipada do que deve ser um livro de um escritor negro, porque praticam, sem sequer perceberem, um racismo igual ao racismo de não os publicarem por serem negros, que é o de julgarem que um indivíduo, se nasceu com pele escura, é unidimensional e vive exclusivamente por, e para, essa questão.

Vai a Boston visitar a família. A mãe está com os primeiros sintomas de Alzheimer a progredir muito rapidamente, a irmã, que vive com ela e é médica, morre passados uns dias de ele lá chegar e o outro irmão, que também é médico, está com problemas porque a mulher apanhou-o na cama com um homem, expulsou-o de casa, ficou com os filhos e com mais de metade dos doentes -também é médica- sendo que vivem numa pequena cidade. 

Monk resolve escrever um livro, exageradamente estúpido e mau, de acordo com o gosto idiota e estereotipado das editoras. Escreve-o mesmo ridículo para ser uma espécie de bofetada satírica nas editoras. Ninguém percebe a ironia e o livro é logo um sucesso - quanto pior ele fala e mais estúpido é o seu comportamento, mais sucesso tem 😁 

Escreve o livro sob pseudónimo e nunca aparece em pessoa nas entrevistas. Inventa que fugiu da cadeia e é perseguido: as editoras e o público adoram. 😁

Porém, as coisas complicam-se comicamente quando ele faz parte de um júri literário sério e os outros membros brancos querem dar o prémio àquele livro estúpido que escreveu sob pseudónimo. Ele começa a tenta livrar-se do livro -aquilo era para ser um gozo- mas já não consegue porque está no top das vendas. 😁

Entretanto acompanhamos o drama da sua família, uma família normal com os problemas e as complexidades normais das famílias que nada têm que ver com a raça mas com o ser-se humano.

Muito bom o filme. Uma sátira ao absurdo a que se chegou na sociedade, em termos de comportamentos e linguagem que em vez de acabar com as desigualdades de direitos, substitui-as por outras desigualdades de direitos e preconceitos.

March 12, 2024

Filmes - acerca da consciência

 

Ontem estive a analisar com uma turma a questão da ação humana. O que tem a acção humana que a diferencia de acções de outros animais ou de pessoas incapacitadas, mentalmente, por exemplo. Uma das dimensões da acção humana é a consciência - mas o que é isso da consciência? 
Quando falamos em acções do ponto de vista ético, faz muita diferença o sentido em que se fala de consciência. 

A consciência na acção moral diz-se em dois sentidos: um é o sentido de se saber se a acção está de acordo ou nega as leis e costumes bem como as consequências da quebra desse dever: é um sentido normativo, formal; outro sentido muito diferente é um sentido que corresponde a uma repulsa interna por fazer certas acções (mesmo que não neguem leis ou que se tenha a certeza de não se ser apanhado) e uma obrigação interna de fazer outras (mesmo que neguem leis ou se tenha a certeza de ser apanhado - Navalny, por exemplo). Chamo a este segundo sentido interno, um pouco estético. Há um sentimento tão grande e profundo de transgressão da ordem humana em certas acções que a ideia de as fazer causa repulsa, náusea. 

Não me refiro a empatia, um conceito que está na moda mas que a mim me parece superficial - emoções à flor da pele - se não são acompanhadas de consciência, são voláteis e inconsequentes. Tanta gente empática que se emociona com o sofrimento de gatinhos mas que não hesita em actos de grande maldade e crueldade contra pessoas...

Este filme é brutal. Mostra um mundo com empatia e capacidade emocional mas sem consciência, a não ser naquele sentido normativo, formal. E o resultado é brutal. 

É um filme inglês sobre o mundo nazi ou sobre o que foi o nazismo ou o que o mundo nazi fez às pessoas: deu-lhes permissão de verem a vida como um jogo de ganhar e perder e de o jogarem com as características mais cruéis da pior versão de si mesmas. Ditadores depravados e brutais têm esse efeito de incentivar o povo a fazer vir ao de cima a sua pior versão possível: Hitler, mas também Putin, como Mao, Estaline e outros do género. 

É um filme diferente do que costumam ser os filmes sobre o nazismo que, geralmente, tentam mostrar o horror pela imagem brutal de pessoas perseguidas, emaciadas pela fome, torturadas, etc. Mas este filme não tem uma única imagem de judeus, embora se passe em Auschwitz. O horror do filme está na falta de horror que é a falta de consciência e a brutalidade anti-semita dos campos, que não se vê, nunca, mas é o pano de fundo do filme: ouve-se o tempo todo.

O filme passa-se durante a Segunda Guerra Mundial, na casa do comandante de Auschwitz, Rudolf Höss, que está separada do campo de Auschwitz, por um muro alto. Outros oficiais das SS moram ali atrás do muro, como eles. Höss vive ali com a mulher, Hedwig e os 5 filhos. A casa deles tem um jardim enorme, meio idílico, todo florido, com caramanchões, uma piscina. Hedwig organiza festas para as famílias dos oficiais no jardim da residência. Ela é a perfeita esposa alemã-nazi e floresce nesse papel. Adora a sua vida. Vemo-la juntar-se com as mulheres dos outros oficiais nos dias em que chegam comboios com judeus e os guardas dos campos vão lá levar os pertences mais caros que roubaram aos judeus: um casaco de vison, combinações de seda, jóias, etc. Ela fica sempre com o melhor, por ser a mulher do comandante. Ela é de uma brutalidade gelada. Tem uma empregada doméstica polaca, não judia. Um dia a empregada engana-se e ela diz-lhe, 'Vê lá o que fazes, sabes que posso pedir ao meu marido e ele transforma-te em cinza".

Quase todas as cenas do filme são filmadas como um palco de teatro em que o fundo é o muro que separa a casa do campo de extermínio. Então, por exemplo, estamos a vê-los numa festa no jardim e o fundo é o muro e, por detrás, a torre do campo, com guardas com metralhadoras, as chaminés com colunas grossas de fumo dos judeus a serem incinerados, a par com os sons que são constantes: gritos de guardas, tiros de pistola e de espingarda, crianças a chorar, pessoas aos gritos. Há uma cena em que ela leva o filho bebé para cheirar as dálias acabadas de florir no jardim (o adubo das flores do jardim são as cinzas e pedaços mortos dos judeus) e vemos as colunas de fumo a erguerem-se no céu atrás do muro e sabemos que o cheiro das pessoas queimadas deve ser insuportável, mas aquilo não a perturba. Ela é feliz ali...

Ela vive ali como num paraíso. Quando o marido é nomeado inspector-chefe dos campos e tem de mudar-se, ela diz que não vai com ele, porque tem ali a vida de sonho que sempre quis: tem tudo o que possa desejar, vem-lhe tudo ter à porta, todas a tratam com deferência, é admirada por todos, os filhos estão felizes, etc. Os filhos não estão felizes. Um deles, que brinca muito sozinho no quarto, no 1º andar, de vez em quando vai à janela porque o barulho é insuportável e olha para o campo com um ar muito perturbado.

Entretanto, o marido só pensa em tornar o campo mais eficiente. Reune-se com engenheiros para pensarem como arrefecer uns fornos enquanto outros trabalham para poderem queimar judeus 24 horas por dia. Nos dias em que chegam comboios, liga aos outros para eles irem lá escolher quem querem. Quando é nomeado inspector, vai à conferência de Wannsee e depois vai a uma festa. Em vez de divertir-se passa o tempo a pensar se seria fácil ou difícil gasear todos os presentes dada a altura do tecto do salão de baile.

A mãe dela vai lá passar uma semana com eles. Admira o jardim dela e a piscina. Pergunta-lhe se os judeus estão do lado de lá do muro e interroga-se se a ex-patroa dela, uma judia, estará lá a trabalhar. A mulher não faz idea do que lá se passa. Na primeira noite, não consegue dormir com o barulho dos tiros, da gritaria e vemo-la ir à janela e ficar perturbadíssima. No dia seguinte a família descobre que ela foi-se embora a meio da noite sem dizer nada a ninguém e percebemos que ela percebeu a extensão do horror que ali se passa e 'viu' a filha na sua realidade: uma pessoa brutal, sem consciência. E fugiu dali.

A atriz que representa Hedwig, a mulher de Höss, é a Sandra Hüller, uma alemã, que é uma excelente atriz (é a actriz de Anatomia de Uma Queda). Também o que representa Höss é alemão. Mas o papel dela é mais difícil e o filme centra-se nela. Tem de ser muito difícil representar um papel destes, sendo alemã... e o que mostra é uma consciência muito apurada e desenvolvida do que foram todas as transgressões humanas dessa época em que a maioria dos alemães eram nazis e conviviam muito bem com o nazismo. 

Isso é o que vemos no filme: uma sociedade, que esta família representa, brutal e depravada que se sente feliz e à vontade com a escravidão e a subjugação e exterminação dos outros seres humanos. Estão todos muito bem na vida e o que fazem está de acordo com as novas normas e leis.

Podíamos transferir esta ausência de consciência das transgressões humanas para o tempo da escravatura nos EUA em que as famílias almoçavam e faziam festas de estrondo enquanto no quintal se amarravam negros aos postes para os chicotear, ou matar e se separavam famílias, se violavam as raparigas e as mulheres, etc. Ou para o que se passa com os russos que vão para a Ucrânia matar, torturar civis e têm conversas ao telefone com as famílias a gabar-se do que fizeram; ou o que fizeram os do Hamas no dia 7 de Outubro. 

Todos estes casos são casos de sociedades onde os líderes são pessoas brutais, sem consciência dos limites da acção humana e que incentivam o povo, com o seu exemplo de ausência de consciência, a serem a pior versão possível de si mesmos. Trump também faz isso de incentivar os outros a serem a pior versão de si mesmos, embora não seja do calibre de Putin e muito menos de Hitler, que está noutra categoria a parte de todos.

Educar a consciência, mais do educar a empatia, é o que me parece verdadeiramente importante para a acção ética e moral.


March 06, 2024

Por falar em filmes: Das Lehrerzimmer (A Sala de Professores)




Vi este este filme, alemão, que em português se chama, A Sala de Professores. O filme passa-se numa escola normal alemã, à volta de uma professora de Matemática e da sua turma de 7º ano. Acontece que há um roubo e desconfiam de um aluno que se vem a saber que não é culpado. Depois descobre-se a pessoa culpada mas essa descoberta gera uma crise grande, na turma, entre os alunos, entre a turma e a professora -que também é DT-, entre os alunos e a direcção da escola, entre os pais e a professora e entre os pais e a direcção da escola. 

E o filme é sobre a fragilidade do equilíbrio de uma turma, a dificuldade de manter os alunos nas condições óptimas de se poder criar situações de aprendizagem e não perder de vista o que importa, em termos pedagógicos, nos momentos de crise. É um trabalho muito complexo porque os alunos estão numa fase difícil da vida, uma fase de crises constantes, próprias do desenvolvimento da adolescência - psicológico, fisiológico e cognitivo.

A professora, e os professores em geral são vistos, na sua relação com as turmas, como maestros diante das suas orquestras: têm de criar uma visão de conjunto em que todos possam participar e contribuir sem que as suas vozes individuais se percam no conjuntos, tal como acontece numa orquestra em que cada instrumento tem voz própria mas tem que trabalhar para a harmonia do conjunto - uma turma não é uma explicação individual para cada um dos 20 e tal alunos (o tamanho daquela turma), mas também não pode ser uma sopa em que todos se perdem e perdem a voz. 

No filme, os pais não colaboram com os professores e muitas vezes não trabalham para ajudar os filhos - o que também é verdade. Não vou contar o filme porque ele está em cartaz. É um filme muito bom e que sai fora dos clichês do que costumam ser os filmes passados em escolas.

Coisas em que fui reparando no filme: os alunos no 7º ano sabem quem foi Tales de Mileto e a sua importância na Matemática a propósito de aprenderem os Teoremas de Mileto (também cá isso era do currículo, não sei se ainda é); os alunos aprendem e sabem usar um computador para fazer uma apresentação oral, mas as aulas são com cadernos e livros de papel; os testes são manuscritos; a professora aproveita a matéria para pôr problemas aos alunos e incentivá-los a encontrar respostas por si (acho que isso é universal); manda trabalhos para casa; as aulas são participadas e discutidas, embora sejam sempre os mesmos a intervir - isso é universal. O que me passou pela cabeça foi: ninguém ali defende a infantilização e o atraso de aprendizagem dos alunos para poupar dinheiro em professores.

Enfim, penso que vale muito a pena ver o filme, não só para professores, mas especialmente para professores. Aquela professora fez-me lembrar uma série de colegas, na maneira como encaram a educação, como não comprometem o carácter pedagógico e a exigência das aulas para agradar a ministros idiotas e sem deixar de dar primazia à relação com os alunos. 

Ainda esta semana estava à conversa com duas colegas que são mais ou menos da minha idade. Estávamos a concordar em que basta um encarregado de educação mal-formado ou ignorante mas pensando que sabe mais que os professores, para estragar a relação de um professor com uma turma. Os pais nem percebem o estrago geral que fazem. Isso é uma das vertentes do filme, mas que não vou contar.

Uma das colegas contava que há uns anos teve uma turma no 7º ano com um par de gémeos e, num trabalho que mandou fazer, eles copiaram e ela disse-lhes que percebia que eles tinham copiado e pediu para eles reconhecerem. Não só não reconheceram como a mãe, em vez de educar os filhos, foi à escola chamar nomes à professora e dizer que ela não tinha provas e que era uma péssima professora, etc. É claro que os alunos têm sempre, dentro da turma, colegas cuja lealdade é para com eles, por muito que gostem do professor. O que é normal, mas divide a turma e estraga o ambiente, sendo que o professor vê mas não não pode fazer nada porque não vai pôr os alunos uns contra os outros, evidentemente. Resultado: o ambiente de confiança e bom espírito necessários a que as aulas decorram bem que a professora tinha com a turma modificou-se e nunca mais foi o mesmo. Ela levou os alunos até ao 12º ano, como acontece muito com professores que têm disciplinas em que podem fazer isso. Cria-se uma relação afectiva entre a turma e o professor porque são muitos anos e a pessoa acompanha o crescimento e as crises dos miúdos.

Um dos gémeos, no 10º ano, veio pedir desculpa e confessar que o tal trabalho tinha sido todo copiado e que tinha até tido a mão da mãe... Isto é cada vez mais comum: um EE ignorante mas arrogante ou desonesto, estragar uma turma inteira com as suas intrigas e estupidez, sem sequer perceber o que está a fazer. A nós o que nos custa é o prejuízo que isso causa à turma em geral.

Outra colega, que lecciona Biologia e Geologia, dizia que começou este ano com uma turma do 7º ano, mas que já não vai poder acompanhá-los até ao 12º ano porque se reforma antes disso, de maneira que, por um lado está contente porque quer sair disto em que transformaram a profissão, mas por outro, sente muita pena de largar os miúdos a meio do percurso. 

Muitos colegas fazem lembrar a professora de matemática do filme - todos os ignorantes que por aí falam mal dos professores, a começar pelo ministro e seus capangas, gente sem tino, e a acabar na nossa pseudo-elite de pedagogos da moda, são uns ignorantes que não percebem nada do que se passa dentro de uma sala de aula, da relação entre os alunos e professores, de como tudo é um equilíbrio necessário mas difícil de manter, que se desfaz facilmente com o maior prejuízo para os miúdos. 


February 01, 2024

Filmes - Anatomia de uma queda

 


O título do filme tem um sentido duplo. Por um lado trata-se de saber o que se passou para que um homem, que vive com a sua mulher e filho, isolados numa montanha dos Alpes na fronteira entre a França e a Alemanha, tenha morrido de uma queda de uma janela do segundo andar da casa mas, por outro, trata-se de dissecar a queda da relação conjugal deles.

Após a descoberta do corpo, pelo filho, é aberto um inquérito e a mulher é suspeita porque a queda dele é suspeita e ela era a única pessoa em casa. No decorrer do inquérito a sua vida conjugal é totalmente exposta.

A certa altura damos por nós menos interessados em saber se a morte dele foi acidente, suicídio ou homicídio e mais interessados na complexidade da relação entre eles.

Ninguém sabe o que se passa dentro de uma relação conjugal, mas as relações decaem, mesmo as melhores, por um acumular de falta de comunicação, falta de respeito e consideração e muito ressentimento engolido. Falta de comunicação. O filme faz mais perguntas que dá respostas.

O casal conheceu-se em Londres -ele é francês, ela alemã- quando ela estava na faculdade e ele escrevia e era aí professor. Tiveram uma ligação imediata e tinham uma relação de grande cumplicidade e intimidade intelectual e emocional, para além de física. Tiveram um filho. Um dia o filho é atropelado à porta da escola e fica cego e o pai culpa-se, porque devia ter ido buscá-lo e não foi. 

O filho ser cego é uma metáfora, penso, da situação de ninguém saber o que se passa dentro de um casamento, mesmo que viva na mesma casa e partilhe a vida dessas pessoas.

A partir dessa altura a relação deles começa a decadência. A mulher ressente-se da culpa obsessiva dele porque pensa que isso marca negativamente o filho - como se fosse menos pessoa por ter ficado cego; ele isola-se na culpa e isola-a, afasta-a; resolve ficar a trabalhar o mínimo de horas como professor e deixar de escrever para se dedicar inteiramente ao filho; o dinheiro deles vai-se nos tratamentos do filho; ela, que também é lésbica, gere o caos em que se tornou o casamento com um affair com uma rapariga; como quer ser honesta, conta ao marido e diz-lhe que foi só uma coisa sexual; claro que ele sabe que isso de ser só sexual não existe e leva a traição muito a mal - fica muito ressentido; ele propõe irem viver na sua casa de infância, nos Alpes franceses, para poupar dinheiro e porque quer o afastamento dela de tentações; ela aceita; dado que ele desistiu de escrever para se dedicar ao filho, ela pede para usar uma ideia dele num livro; o livro tem um enorme sucesso e ela torna-se uma escritora de grande sucesso; ele ressente-se com isso; ela não é uma mulher de se acomodar às inseguranças do marido, não pede desculpa de ser quem é.

Enfim, como se inquina uma relação de amor (eles ainda sentem amor um pelo outro) com muita areia que se deixa entrar na engrenagem e nunca se limpa. Eles são ambos íntimos mas, ao mesmo tempo, estranhos. Estão sempre desconfortáveis na sua comunicação, dado que ele não fala o alemão e ela fala pouco o francês. Encontram-se em inglês, Isso dá-nos a impressão da infinita distância que há entre as pessoas, mesmo duas pessoas que estão numa relação íntima de amor e de como tem que estar sempre a traduzir-se para o outro.

As cenas no tribunal reforçam essa ideia de que o que se sabe de fora, no que respeita a um casamento, mesmo quando toda a vida é exposta, é uma pequena fresta da realidade que não diz nada de verdade das pessoas e das situações. Como tirar uma frase de um livro que não se leu e pensar que se percebeu a verdade da obra a partir daquela pequena fatia.

A interpretação dela é excelente. Muito contida, sem emocionalismos, com uma grande ansiedade que vai crescendo mas sem nunca descair para uma simplificação do que era complexo. Mantém a lealdade ao marido e tenta preservar a sua memória para o filho. O filho é um rapaz memorável e de uma grande inteligência: sendo cego, vê muito mais do que parece. Muito bom no filme, capaz de uma grande tensão emocional e de passar do registo de criança assustada pela morte do pai a pré-adulto a decidir a sua posição (curiosidade: o actor é filho de uma portuguesa emigrada de Famalicão). O marido nunca se vê, a não ser numa cena em retrospectiva em que assistimos a uma discussão entre eles que acaba em grande violência verbal (como acontece entre casais que acumulam tensões sem as resolver) e não só. Belíssimos diálogos. Um filme que nos deixa a pensar.

O filme é muito grande com duas horas e meia, mas essa demora parece necessária para entrarmos gradualmente em todos os interstícios psicológicos da relação deles.

Não vou contar o que se passa e a conclusão a que chegam, mas posso dizer que o filme não é uma americanada e isso, só por si, já diz muito.


January 10, 2024

There are not nice people

 


Este filme -Saltburn, que se refere ao nome de uma propriedade- pode-se classificar como comédia negra ou gótica ou burlesca ou sátira... não sei bem, mas é sobre não haver pessoas boazinhas. É verdade que há, nos extremos, alguns que são miseravelmente maus e que há alguns outros extraordinariamente motivados pelas coisas certas, digamos assim, mas no meio desses há uma miríade de gente que, em diversos graus, não são pessoas boazinhas. Todos são capazes de actos de crueldade, de hipocrisia, de cobardia, de maldade, etc.

Este filme é sobre um jovem rapaz e aquilo de que é capaz para ter o que quer, mas ao mesmo tempo nenhuma das suas 'vítimas' é propriamente uma vítima porque, lá está: There are not nice people - esta foi uma frase que ouvi a realizadora dizer a propósito do filme.

O filme está carregado de simbolismos e cheio de pormenores significantes que a música acompanha de modo admirável - é incómoda nas cenas incómodas (que são muitas), gloriosa para sublinhar o desadequado, religiosa nas cenas mais eróticas... 

O filme lembra-me, em parte, o Ripley de Patricia Highsmith; o Brideshead Revisited; o Gatsby, o Brutti, sporchi e cattivi... porém, não é nenhum deles. É muito mais mordaz e cru. Como se diz no filme, Oliver, a personagem principal, é uma traça sombria atraída pela luz das borboletas ao ponto de comê-las para ser 'elas'. 'Elas' nunca percebem a sua realidade sombria porque estão demasiado entretidas a serem borboletas caprichosas e algo cruéis, embora não o percebam.


January 01, 2024

Filmes - Stalker

 


Stalker é um filme de Tarkovsky, um realizador russo considerado um dos maiores realizadores de sempre. Foi o último filme que fez na URSS. Apesar de começar a sua carreira na era de Nikita Khrushchev, uma era de abertura ao Ocidente na literatura e arte, começou a ter sérios problemas com as autoridades na época de Brezhnev e saiu da URSS, vindo a fazer os seus dois últimos filmes no exílio. Só fez sete filmes. Depois, fez alguns documentários e outros trabalhos pequenos. Dele só tinha visto, Ivan's Childhood (1962) e Andrei Rublev (1966). Hoje de manhã estive a ver este filme, de longe o meu preferido agora. Este filme é para ver mais que uma vez porque é tão rico em imagem, diálogo e significado que à primeira vez não se consegue (ou eu não consigo) processar todos os pormenores. 

Tarkovsky morreu relativamente novo -54 anos- de cancro no pulmão. Igual morte prematura de cancro no pulmão tiveram outras pessoas que entraram no filme, como actores ou como equipa e pensa-se hoje que foi devido às filmagens serem quase todas numa antiga fábrica/estação hidroeléctrica desactivada, perto de uma fábrica de químicos que fazia descargas poluentes, tóxicas e cancerígenas para o ar e para o rio que ali passava, a que estiveram expostos meses a fio, sem nenhuma proteção. Parte do filme é algo premonitório, pois refere um colapso do 4º bunker da fábrica numa paisagem a lembrar Chernobyl, muitos anos antes do desastre do 4º tanque de Chernobyl.

Enfim, Stalker é um filme metafísico, mas também poético, embora possa ser lido como político, um manifesto anti-comunista, por exemplo. Isso tem piada porque a própria ideia do filme tem que ver com leituras da realidade subjectivas, de maneira que a interpretação do filme é uma meta-leitura de uma leitura da existência humana e da sua busca por sentido e pelo maravilhoso.

O nome do filme, Stalker, portanto, não se refere aqui ao sentido actual deste termo, que é o de alguém perseguir implacavelmente outra pessoa e trespassar agressivamente a sua privacidade. Stalker aqui é entendido no sentido anterior do termo, que no livro que serviu de base ao argumento significa indivíduos que caçam artefactos estrangeiros e vendem ilegalmente, mas que aqui no filme deriva dos guias de caça, pessoas que orientam os caçadores na pista da presa: sabem seguir o seu trilho e aproximar-se devagar, paciente e silenciosamente. Portanto, Stalker, neste filme, é entendido como o guia numa perseguição, numa busca, neste caso uma busca pelo sentido da existência e o desejo de transcendência, de uma vida, de outro modo, cinzenta. 

O filme dura quase três horas e é lento, com grandes planos e até pausas em que o realizador nos deixa  a contemplar uma cena belíssima e de silêncio só interrompido por uma chuva no interior de um edifício, para nos dar tempo de meditação sobre o acabado de dizer pelas personagens.

O filme é quase todo com 3 pessoas: o Stalker, o Professor (um físico) e o Escritor - nunca sabemos o nome deles, são arquétipos. Passa-se num país indeterminado da actualidade -industrializado e materialista, ambientalmente degradado. Este materialismo não será meramente soviético mas percebe-se que é uma referência à anti-religiosidade e anti-espiritualidade próprias dos regimes comunistas e os termos de 'Zona', 'moedor de carne' e outros usados são tirados do Gulag.

No filme o Stalker é uma indivíduo que leva pessoas à Zona, às escondidas, porque é ilegal e está guardada pela tropa, um sítio considerado misterioso e que tem a fama de dar a cada um aquilo que mais quer e procura. No filme nunca nos é dito ao certo o que é a Zona embora sejam mencionadas três razões para o aparecimento da Zona: foi deixada por extraterrestres, foi criada pela queda de um meteorito ou foi causada por uma avaria no quarto bunker.

(vou fazer um almoço - já venho escrever o resto)

O princípio do filme diz-nos logo muito sobre o filme. Enquanto espera pelo Stalker, o escritor diz a uma mulher que o mundo se tornou aborrecido e cinzento. Já não há o maravilhoso, o sobrenatural, o divino. Já não há poesia. Não há mistério, o triângulo das Bermudas não existe. Só existe o triângulo A,B,C com os seus ângulos matemáticos. Tudo é medido e pesado. A realidade limitou-se e limitou-os ao concreto material imediato. Quando chega o Professor e lhe pergunta sobre o que escreve, ele diz que escreve sobre os leitores porque não há mais nada para escrever e que quer ir à Zona porque perdeu a inspiração e espera ter lá uma experiência refundadora da criatividade. O professor há-de confessar que o que mais quer é ganhar o prémio Nobel e que espera ganhá-lo com o que encontrar na Zona. Vai para lá com uma mochila cheia de instrumentos de medir e pesar que não larga de maneira nenhuma. Leva a sua prisão consigo.

Stalker diz-lhes, no início da viagem, que têm de fazer tudo o que mandar, que o caminho até à entrada do campo onde se situa a Zona é perigoso, que vão ser perseguidos por guardas (os guardas não se atrevem a passar a fronteira para esse campo), que mesmo lá dentro o caminho não é directo, que tem armadilhas e que é difícil chegar à Zona - que é uma sala dentro de um edifício abandonado no meio do campo.

Todo o filme até eles passarem a fronteira do recinto é em tons de sépia e o ambiente é industrial decadente e abandonado: linhas de caminho de ferro abandonadas, carris, ferros, poças de líquidos, edifícios ruídos, cimento, correntes, etc. Assim que passam a fronteira do recinto, abre-se um plano de um campo verdejante com um rio ao fundo. Assim que chegam lá o Stalker deita-se no chão a cheirar e sentir a terra e as ervas, com um sentimento de reverência espiritual e religiosa. É o que busca: restaurar a fé no mundo levando até à Zona pessoas com coragem e desejo de mudar o mundo, de voltar a colori-lo. Ele nunca entrou na Zona propriamente dita. O último Stalker que lá entrou suicidou-se. Os Stalkers, fica-me a saber, têm filhos que nascem deformados - ele tem uma filha paralítica.

Enfim, depois de muitos perigos chegam à entrada da Zona mas nenhum deles entra, cada um com a sua razão e voltam para trás para a realidade sépia indiferenciada, embora voltem diferentes.

Perto do fim do filme o Stalker está desesperado porque os outros dois não entraram na Zona e não vão restaurar a fé e a poesia do mundo, sem reparar que a sua mulher abandonou tudo (percebemos desde o início) por amor e uma fé inabalável nele: ele -ou o amor a ele- é a Zona dela.

A última cena é com a sua filha a ler um poema, a deitar a cabeça na mesa e com o olhar fazer andar os três copos que lá estavam. À medida que os copos se mexem, ouvimos um comboio a aproximar-se e tudo na mesa começa a tremer, o que achei genial, pois é-nos dito quase no início do filme que "as crianças nascem suaves e flexíveis e crescem a tornar-se adultos fortes, mas duros e inflexíveis". Ao ver esta cena dela pôr os copos a mexer percebemos que as crianças, como a filha dele, têm a Zona dentro de si e para elas tudo é possível e maravilhoso, de maneira que não precisam de longas caminhadas como os adultos que já estão longe desse início, para procurar o maravilhoso, mas à medida que ouvimos o comboio e vemos tudo a tremer e os copos a mexer, somos levados a interpretar a telequinesia da criança como uma ilusão, cuja razão material é a vibração provocada pelo comboio e com isso o realizador obriga-nos a olharmo-nos como adultos que perderam a fé e já não ultrapassam a fronteira do material causal. É como se nos dissesse: e agora? Foi a criança que fez mexer os copos ou foi o comboio? Como interpretam a cena? Já pensaram se estão duros e inflexíveis, presos à realidade material, mensurável e quantificável como se ela abarcasse todas as possibilidades?

O filme tem muito que ver e perceber porque todos os pormenores têm significado - e são quase três horas. Este é um realizador que não deixa nada ao acaso. Visualmente o filme é muito poético e filosófico.