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December 29, 2025

Filmes - Uma mão-cheia de deduções e intuiçõs correctas e até proféticas

 

O filme olha a guerra no Iraque e Afeganistão de 3 pontos de vista: o político, representado por este senador, o académico, representado num diálogo ente um professor e um estudante que recusa o 'sistema' e o das tropas, os tipos que estão no terreno a arriscar a vida pelas estratégias e interesses dos dois primeiros. A jornalista representa o ponto de vista interrogativo e crítico face ao poder. O filme não resulta porque lhe falta o fio que embrulha, digamos assim, os três pontos de vista numa única narrativa, mas a mim isso parece-me muito interessante, quer dizer, deixar em aberto e em confronto pontos de vista que não são coerentes. Também porque as personagens (tirando os soldados) não têm evolução ou acção durante o filme. Estão a discutir ideias. Zero química entre Meryl Streep e tom Cruise que faz muito bem o papel do político com excesso de auto-confiança e manha. Porém, em cada uma das partes do filme, que se vão sobrepondo, há uma mão-cheia de afirmações, deduções e intenções certeiras sobre o mundo em que vivemos, o seu sistema e as consequências que daí advém. Nesta cena, o discurso do senador sobre as consequências de sair do Afeganistão é profético.

«É um filme que diz que não importa o que pensas ou sentes se não fizeres nada a respeito, se não te levantares e arriscares tudo.»

December 27, 2025

Filmes - 'Taking sides'



Fui dar com este filme de 2001 acerca do inquérito dos americanos na Comissão de desnazificação sobre a cooperação de Furtwängler com as cúpulas nazis. 
A dasnazificação era dirigida a civis com poder e influência sobre quem caia a suspeita de terem colaborado com o regime. Enquanto não havia decisão da Comissão (podia durar uns anos) não podiam retomar o trabalho e, mesmo depois, os que eram considerados culpados, mesmo de serem só simpatizantes eram cancelados durante uns anos até poderem retomar os cargos - Heidegger tentou suicidar-se após a condenação da Comissão que o impediu de dar aulas em qualquer universidade durante anos. 

O filme acompanha o inquérito da desnazificação de Furtwängler, desde a inquirição de testemunhas aos interrogatórios do próprio maestro. 

A questão de  Furtwängler é uma polémica sem conclusão. Os seus detractores mostram os concertos dele para as elites nazis (adoravam-no), invocam o facto de ele ter sido nomeado conselheiro de Goebbels para a cultura e a sua proximidade com Göring. Os seus defensores invocam a sua genialidade na música - ele é considerado por muitos especialistas o melhor condutor de sempre -, os judeus que ajudou a fugir, a sua própria defesa, isto é, ter escolhido ficar no país e tentar ter uma influencia positiva, humanizar as pessoas pela música. O filme explora a polémica.



No filme, o inquiridor a quem incumbem a tarefa de mostrar a cumplicidade de Furtwängler com os nazis é um major que na vida civil era um investigador de seguros. Tem dois ajudantes: um deles um judeu alemão que fugiu da Alemanha para os EUA nos anos 30 mas que perdeu os pais e a outra uma alemã, filha de um dos conspiradores executado por ter tentado matar Hitler. Ambos tomam o partido de Furtwängler. São alemães, são amantes de música, admiradores do seu génio e percebem a dificuldade da vida na Alemanha naquele tempo.

Harvey Keitel constrói um inquiridor que vê o mundo a preto e branco e está habituado a todo o género de esquemas de criminosos para escapar à justiça e beneficiar das transgressões. Vê a música como um divertimento e não percebe a relação telúrica dos alemães com a música. Para ele, Furtwängler quis ter um pé nos dois mundos. Não queria os nazis mas queria muito a glória. Não se convence com as tentativas de Furtwängler de lhe explicar que a posição da arte numa ditadura é muito difícil e é como andar na corda bamba e que numa ditadura não é imoral querer ficar e tentar mudar alguma coisa por dentro.

Furtwängler é interpretado por Stellan Skarsgård que o constrói magistralmente. Conseguimos ver na sua cara o dilema, a humilhação, a complexidade das emoções, a dignidade com que aguenta o pragmatismo in-complexado do americano que chega e julga a partir de um ponto de vista exterior de quem nunca teve de navegar numa sociedade totalitária na mão de mafiosos.

Furtwängler não era só admirado na Alemanha, mas em todo o lado. Neste pequeno excerto de entrevista, Yehudi Menuhin, um judeu americano que passou grande parte da sua vida na GB, um violinista virtuoso, fala sobre Furtwängler, sobre a dificuldade da arte se posicionar face à política e sobre a facilidade com que um grupo de criminosos pode subir ao poder e recriar uma sociedade totalitária em outro país qualquer - estava a adivinhar os nossos dias.



 Pus-me a estabelecer um paralelo entre o caso de Furtwängler na Alemanha nazi e o caso de artistas russos nesta Rússia imperialista totalitária, governada por criminosos mafiosos. Digamos que a guerra acaba agora. Como julgaríamos um maestro, bailarino, etc., que fosse nomeado conselheiro de Putin para a cultura e fizesse espectáculos para Putin e a sua quadrilha de malfeitores? Diríamos que por ter ajudado ucranianos a fugir isso desculpa a sua posição? Que o seu génio está para além da política?

Tenho a certeza que se tivesse visto o filme antes da guerra da Rússia teria achado o inquiridor americano um bocado bruto e insensível às complexidades da vida mas agora... é uma questão difícil.

Uma coisa que gosto no filme é não tomar parte, nem a favor nem contra Furtwängler. Mostra os dois lados e deixa-nos a pensar. Porém, a última cena do filme é uma filmagem real da época, que mostra o final da Nona de Beethoven perante uma plateia de altos oficiais nazis. No fim, o oficial que está à frente, ao centro, levanta-se e vai apertar a mão a Furtwängler, que se inclina e lhe aperta a mão. E o realizador põe a câmara a fazer um zoom às suas mãos e vemo-lo, depois de apertar a mão ao nazi, a passar o lenço que tinha na outra mão para essa e limpar a mão - conclusão: quando te dás muito com nazis tens de passar o tempo a limpar as mãos...

Bruckner: Symphony No.7 "Adagio", orquestra de Berlim, conduzida por Furtwängler - a peça que os nazis escolheram passar na rádio após saber-se do suicídio de Hitler.



December 16, 2025

ARCTIC - Estive quase para não ver este filme

 



Todos os sites e descrições faziam referência ao típico filme do macho sobrevivente, o que não me interessava, mas tinha visto imagens bonitas e fui ver o trailer. Paisagens de neve e gelo num silêncio Rothko. A isso não resisto. Seja como for, o filme não é nada sobre sobrevivência - embora seja. Não vi nenhum macho man. Vi humanidade. No meu entender o filme é sobre a relação do ser humano com a Natureza e com a sua própria humanidade.

Estamos sós no silêncio da vida e face à morte e embora conheçamos a Natureza e tenhamos muitos instrumentos de controlo, estamos sempre a um passo dela nos esmagar. A Natureza, sobretudo nestas paisagens tão extremas é tão esmagadora que não admira que os povos primeiros emprestassem espírito sobrenatural ao seu poder.

O filme é sobre um homem que se despenha no Ártico, no meio de um infinito de gelo e neve ventosos. Vemos que é alguém habituado àquela paisagem porque não se atrapalha. Faz um perímetro à volta da avioneta, escava um SOS gigante no gelo, faz um buraco e pesca peixes que guarda num outro buraco de gelo. Dentro do avião constrói um refúgio onde dorme e faz a comida - tem um pequeno fogão a gás e utensílios apropriados. Tem um geringonço que emite um sinal de rádio, de maneira que ao fim de 15 minutos de filme, que correspondem a vários dias naquela situação, aparece um helicóptero a responder ao seu pedido de socorro. Parece que o filme vai acabar ali, só que o helicóptero despenha-se. 

O piloto morre mas sobrevive a ajudante, que é uma nativa e quase não fala inglês. Está em muito mau estado físico com ferimentos graves e vai alternando entre períodos conscientes e inconscientes. O homem vai cuidando dela mas rapidamente percebe que o estado dela não permite esperar ali pela próxima ajuda e resolve levá-la até à povoação ou assentamento mais próximo. Ele tem um mapa da região e vemos que sabe para onde vai e como lá chegar. Nem com os ursos brancos se atrapalha.

Só que, transportar a mulher naquele estado, de maneira a que sobreviva naquela paisagem tão hostil e sem a maioria dos instrumentos que tem de deixar na avioneta por causa do peso, é um desafio permanente onde constantemente dá um passo à frente e dois atrás.

Sempre que a mulher acorda, ele diz-lhe, 'não te preocupes, não estás sozinha'. Em suma, depois de muita luta contra a Natureza, já completamente exausto e sem os geringonços que lhe permitiriam sobreviver, há uma altura em que ele percebe que se a deixar -ela está cada vez pior- sobrevive e que se não a deixar, morre, a não ser que tenha a grande sorte de aparecer um socorro.

Na cena seguinte vemo-los os dois em grande plano, de mão dada e um helicóptero a pousar atrás deles. Não sabemos há quanto tempo estão ali e se ainda estão os dois vivos ou apenas um ou nenhum, mas isso não interessa. Percebemos que ele fez a escolha moral de ser fiel à sua humanidade e não abandonar a mulher.

O que é a vida de um ser humano se é construída sobre o abandono dos outros nas alturas que mais precisam? É uma vida de abandono de si mesmo enquanto humano.

O filme é muito meditativo (a música sublinha-o), não só porque a imensidão e o poder da Natureza lembram quão frágil somos mas também pela força da vontade humana, autónoma e livre, mesmo diante de obstáculos intransponíveis. 

Todo o filme evoca aquela frase de Kant, 
"Duas coisas me enchem o espírito com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim."

November 28, 2025

«Repentance»

 

Repentance (de 1984, lançado em 1987), dirigido por Tengiz Abuladze, é um filme soviético.

A história surreal começa com a morte e enterro de um ditador totalitário tirânico. No entanto, o seu corpo recusa-se a permanecer enterrado, ressurgindo uma e outra vez, continuamente, forçando a sua comunidade a enfrentar os horrores do seu regime — são os crimes do totalitarismo de Estaline que não podem simplesmente ser escondidos ou esquecidos.

Putin quer a obliteração dos seus crimes hediondos na Ucrânia -a tortura, os safaris humanos, os roubos de crianças aos pais para vendê-los na internet, o bombardeamento de civis, de maternidades, etc-  mas os crimes e os horrores dos tiranos não podem ser enterrados nem esquecidos. Têm de ser expurgados, pagos em consciências arrependidas, exorcizados.



November 04, 2025

Filmes - Chronic

 




Apanhei agora este filme na TV. Um filme introspectivo e brutal, sobre a vida depois da sentença de morte que são certas doenças.
O filme é sobre um enfermeiro particular de cuidados paliativos. Durante o tempo em que cuida desse doente, passa todo o tempo com ele, vive em casa dele quando piora ou quando está sozinho, como a última doente de quem trata, que tem um cancro mestastizado por todo o lado e de quem a família se afasta.
Ele é muito profissional, cuidadoso e empenhado no trabalho. Depois vamos vendo que ele funciona como uma esponja que absorve o sofrimento mental dos doentes que são postos de frente para o abismo da morte e estão a lidar com a transformação da vida em uma preparação para a morte e com o sofrimento físico da doença. Por vezes também absorve a angústia das famílias que não sabem lidar com as doenças e que usam os doentes, inconscientemente, para se validarem a si mesmas. 
As famílias nem sempre percebem que ele não está ali ao serviço delas mas dos doentes. O seu objectivo é aliviar-lhes o sofrimento físico e mental, torná-los confortáveis e possibilitar-lhes um fim de vida digno e não vazio. Ele é verdadeiramente estóico, alinha-se emocionalmente com os doentes e acompanha-os ao mesmo tempo que supervisiona a sua experiência de doentes.
Vemo-lo a lavar e vestir, uma última vez, uma doente que morreu, a tratar de um arquitecto que teve um AVC e está acamado sem quase conseguir mexer-se, etc. Ele nunca mente aos doentes ou sequer disfarça a realidade.
Durante algum tempo acompanhamo-lo sem o perceber bem. Vemo-lo a ir ao ginásio ou a outros sítios. O realizador filma-o como se ele fosse uma pessoa qualquer nas rotinas da vida. Sempre calmo e circunspecto. Depois, ao poucos e à medida que ele vai morar para perto da filha -que está a estudar medicina- e da ex-mulher, vamos percebendo a sua motivação. 
Ele teve um filho que morreu com um cancro aos 16 anos. Já quase no fim do filme percebemos que ele terá ajudado o filho a morrer, quando a doença provocava tanto sofrimento que o filho já só chorava de dores. A filha sabe disso, desse sacrifício supremo dele. A única vez que o vemos emocionalmente afectado é quando fala desse filho com a filha. A sua vida profissional é o pagamento dessa dívida que ele sente que tem.
A última doente terminal de quem cuida é a que tem o cancro. Há uma cena em que ele está com ela no consultório e a médica oncologista lhe diz que o cancro se espalhou por vários orgãos e pelos ossos. A brutalidade daquela conversa, no entanto, dita e ouvida num tom profissional e contido, é ele quem a absorve. Absorve o choque emocional da doente e da médica, que tem de dar aquelas notícias e é ele quem dá coragem à mulher para ligar à filha e dizer que está tudo bem, pela mera presença calma e verdadeira.
Enfim, esta doente pede-lhe para ajudá-la a morrer, o que ele inicialmente se nega, mas depois pensa no sofrimento do filho e acaba por aceder.
O último doente dele é um rapaz de 16 anos com paralisia cerebral que vive numa cadeira de rodas. Ele é contratado para tomar conta dele durante uma semana enquanto a cuidadora dele está fora da cidade. É mais do que consegue suportar, porque o reverso deste cuidado extraordinário que ele presta aos outros é o seu vazio interior.
A última cena do filme é ele a fazer jogging. A câmara filma-o de frente a correr por um passeio até que ele, sem pausas e depois de olhar para a esquerda, atravessa a rua e é atropelado.
Até nisso ele é um cuidador: sendo enfermeiro sabe muito bem como acabar com a vida e tem todos os meios ao seu dispor, mas não quer deixar esse sofrimento à filha.
Fiquei com um outro respeito pela dedicação dos enfermeiros de cuidados paliativos.

September 17, 2025

Cenas memoráveis de filmes memoráveis

 

"People who dream when they sleep at night know of a special kind of happiness which the world of the day holds not, a placid ecstasy, and ease of heart, that are like honey on the tongue. They also know that the real glory of dreams lies in their atmosphere of unlimited freedom." - Karen Blixen, Out of Africa

A atmosfera deste filme é de liberdade ilimitada. Vê-se na luz e vastidão das planícies e vales do Quénia, na música de John Barry, nos horizontes abertos, na vida selvagem dos animais e nas personagens de Blixen e Finch Hatton, duas pessoas livres, mas decentes, que se encontram e se reconhecem como iguais e movem-se como leões na imensidão das paisagens.
O filme passa-se na época colonialista e, se bem que o tema esteja presente, não é o foco do filme. O foco do filme é a liberdade, o amor- amor humano e amor à terra, à paisagem, à imensidão, à liberdade de se enraizar e identificar com lugares longe de casa- e a perda. A perda das pessoas, dos lugares, da vida, interrompida abruptamente. A Karen Blixen aconteceram-lhe coisas horríveis durante a vida. O pai enforcou-se quando tinha dez anos; contraiu sífilis através do marido que tinha imensas amantes, ficando incapaz de ter filhos; perdeu o amor da sua vida — Denys Finch Hatton — num acidente de avião, tinha ele apenas 44 anos; a sua fazenda em África — uma plantação de café — faliu, forçando-a a voltar para casa, na Dinamarca, falida, sozinha. Nunca mais regressou ao lugar onde foi feliz. E, no entanto, que vida...

I am for all time and eternity bound to Denys, to love the ground he walks upon, to be happy beyond words when he is here, and to suffer worse than death many times when he leaves. - Karen Blixen, Out of Africa

 

July 29, 2025

The Avenging Angel



"O Anjo Vingador" é um filme feito para televisão, meio político, meio Western, sobre um crime e uma conspiração entre os líderes da comunidade Mormon. Os Anjos Vingadores (uma milícia, os Danites, como se chamavam) foram um grupo de pistoleiros ao serviço da Igreja, que cometeu uma série de assassinatos, mas que servia, sobretudo, para defender os líderes da Igreja, na época dos pioneiros. 

O filme é a adaptação de um livro de Gary Stewart e passa-se no tempo de Brigham Young, o líder carismático que sucedeu ao próprio Joseph Smith (que passou quase toda a vida a fugir da polícia, acusado de muitos crimes) e que caiu em desgraça entre os líderes americanos de então, sobretudo devido à questão da poligamia - teve 56 mulheres. 

O mais interessante no filme é o retrato da comunidade mórmon nesse tempo, que apesar de não ser um relato histórico, tem muito de verdade e apanha muito bem o clima e a mentalidade daquela gente naquela época.

Charlton Heston faz um retrato impecável do lado carismático de Brigham Young e dá-lhe uma dignidade que ele não tinha. .James Coburn representa o mórmon que recrutava e geria os Anjos Vingadores e Tom Berenger é o anjo vingador escolhido para apanhar o assassino e que, à medida que desmascara uma conspiração se vai apercebendo que aquela Igreja é mais um culto envolvido em mentiras e esquemas do que uma religião.

April 06, 2025

Filmes - Os Espíritos de Inisherin

 

Apanhei este filme na TV e estive a vê-lo ao pequeno-almoço. O filme é um olhar muito lúcido sobre a origem, tantas vezes absurda, dos conflitos e das guerras. Fez-me pensar imediatamente no caso dos EUA e do Canadá. 

O filme passa-se numa pequena ilha paradisíaca, imaginária, ao largo da Irlanda, com um pub, uma mercearia, um posto dos correios e pouco mais, onde moram umas poucas famílias. Ouvem-se ao longe os ruídos da guerra civil da Irlanda que os locais comentam como um absurdo. 

Na ilha vivem dois homens muito amigos, até que um dia, um deles, um músico de talento, resolve afastar-se do outro, cujo talento é ser uma boa pessoa para toda a gente, sem nenhuma razão especial, apenas por achar que é demasiado importante para desperdiçar a sua vida com essa amizade por alguém que entende ser menor. 

O outro fica confuso e de início não acredita que o seu grande amigo de sempre o rejeite assim sem mais, de maneira que insiste na amizade. Porém o outro, que agora o destrata com crueldade, está até disposto a ficar sem os dedos das mãos de que precisa para fazer o seu trabalho de músico para quebrar a ligação entre eles. 

As coisas vão piorando e o desprezado pensa que é por ser boa pessoa que o outro abusou dele e começa a ser, ele também, cruel. Começam a ter gestos de acerto de contas cada vez mais violentos, um para com o outro. O músico, sem querer, mata o animal preferido do desprezado, um burro miniatura que ele adorava. Como resposta este pega-lhe fogo à casa. Na última vez que falam, o músico quer que parem aquela rivalidade, pede desculpa pela morte do burro e diz que com o fogo que ele pegou à casa estão quites, mas o outro diz-lhe que agora já não há volta atrás, que há coisas que nunca mais se ultrapassam e que só a morte dele poderá acabar com aquilo. Já nem se lembra da tristeza pela morte do burro, só restou o ódio.

Várias vezes, durante o filme, se referem à guerra civil da Irlanda como absurda, sem reparar que estão a reproduzi-la. São os homens e não as mulheres quem inicia e alimenta comportamentos de conflito violento. O polícia da ilha é um homem violento que dá sovas de morte ao filho e abusa dele e o rapaz acaba por matar-se. O padre não ajuda ninguém, é agressivo e só fala do pecado. O filme é muito incómodo de ver. Parece um manual de, 'como estragar pessoas, incentivar ao ódio e começar guerras'.

Quando olhamos para os EUA de Trump-Musk, parece que resolveram levar o filme à realidade. Dois países amigos a viver numa parte do mundo quase paradisíaca, estão agora em conflito porque uma das partes resolveu que é demasiado importante para ter um amigo mais pequeno em importância e com isso destruiu uma relação de amizade pacífica e se calhar arranjou um inimigo para o futuro. Uma das frases que se diz relativamente as EUA não terem tido nunca guerras em casa -excepto as que eles mesmo fizeram aos nativos- é justamente o carácter pacífico e amistoso das duas nações que o rodeiam, o Canadá e o México.  

É claro que também se pode aplicar esta metáfora a muitas outras guerras e conflitos absurdos ao longo da história, que começaram apenas porque um homem, de repente, acha que ele e o seu país são demasiado importantes para estarem ao mesmo nível que outros homens de outros países mais pequenos ou menos ricos ou algo de género.


February 08, 2025

Filmes - A Complete Unknown

 


Muito bom. O filme é uma biografia musical de quando Zimmerman se tornou Bob Dylan - mas é muito mais que isso. O filme apanha os anos entre 1961 e 1965 na cultura americana. Bon Dylan vem lá do Minnesota para Nova Iorque para expandir-se musical e culturalmente. Vem da música folk mas já com um twist muito pessoal e é apanhado no movimento de Pete Seeger de querer que a música folk se expanda a nível nacional e influencie as mudanças políticas e sociais que desejam para os EUA. 

Apanha-se no filme uma NY efervescente de bares e casas onde as pessoas se reunem para ouvir blues, jazz, folk e, mais que ouvir música, para fazerem parte do movimento cultural eclético e rico que então enchia a cidade.

Bob Dylan rapidamente se torna uma espécie de messias no imaginário de todos os grupos culturais que querem mudanças. Todos vêem nele o motor das mudanças. Todos querem que ele encarne uma utopia qualquer. Acontece que ele não se deixa rotular e está, ele mesmo, em mudança, não só enquanto pessoa mas enquanto músico e em 1965, no famoso festival de Newport, aparece com uma banda a tocar guitarra eléctrica e desilude todos quanto tinham posto nele a esperança da mudança. Como diz um seu amigo no filme, 'a música não muda nada. Mataram o Kennedy e depois o Martin Luther King. Não mudamos nada'.

O filme apanha esses anos de grande caldeirada social e musical e o optimismo de esperança de uma sociedade nova que, como sabemos, nunca aconteceu e veio a desembocar nos movimentos inócuos dos hippies, que por sua vez desembocaram no nihilismo pragmático dos yuppies.

Muito bom. O actor que representa Pete Seeger tem um desempenho notável que dá o tom da atmosfera de esperança que então se vivia.


January 25, 2025

Filmes - O Brutalista

 


Ontem fui ver o filme. O filme não é fácil de ver e não é só por ter cerca de três horas e meia, mais um intervalo de quinze minutos. É sobretudo por ser um filme denso e muito complexo. Não é unidimensional, tem muitas camadas de realidade a desenvolverem-se simultaneamente. Não é fácil falar do filme dando conta desta complexidade que permite várias leituras inter-cruzadas. 

Podemos focar-nos no aspecto político; no aspecto filosófico; no aspecto da criação estética; no aspecto psicológico e até no aspecto escatológico da arte, pois a arte é uma linguagem e como qualquer linguagem, quer dizer qualquer coisa.

O filme tem um prólogo, um corpo -dividido em duas partes (com o intervalo a separá-las) que atentam em tempos e temas diferentes da vida de László Tóth, um arquitecto húngaro da escola Bauhaus e de estilo brutalista- e um epílogo que é simétrico, digamos assim, ao prólogo.

O filme não é sobre emigração, embora também aborde esse tema. László Tóth é separado da mulher no fim da Segunda Grande Guerra -ela estava no sector soviético- e vai para os EUA onde tem um familiar que já lá está há muitos anos, já americanizou o nome, converteu-se à religião cristã da mulher, uma americana. Acompanhamos as dificuldades dele enquanto imigrante judeu refugiado de guerra, com um nome e um nariz que não deixa dúvidas. É a primeira coisa que a mulher do primo lhe diz: para ir corrigir o nariz.

Ele acaba por ser contratado por um patrono americano, um industrial de nome Van Buren, muito rico e entusiasmado pela arquitectura, que o contrata para fazer um centro comunitário onde mora, numa pequena cidadezinha da Pensilvânia. Van Buren, cujo filho faz lembrar Trump em muitos sentidos, representa uma América hipócrita e superficial que se vê como superior e excepcional e com direito a tratar os subordinados e os que estão fora da graça, como inferiores. 

Isso é muito interessante, porque László Tóth foje da Raça Superior nazi para a terra da liberdade e do sonho capitalista e encontra lá a mesma mentalidade. Assim como a mulher dele e a sobrinha escapam aos soviéticos, que também se pensam superiores e excepcionais. Uma maneira de nos dizerem que a humanidade, com mais ou menos máscaras, é igual em todo o lado, assim que tem algum poder/riqueza.

Numa cena brutal do filme, Van Buren vai a Itália com László Tóth escolher uma pedra de mármore de Carrara para a capela do centro comunitário (que era para acolher todos mas cujo mayor da terra exige que tenha uma capela cristã) e depois de escolherem a pedra (as cenas filmadas na pedreira são das melhores do filme) os populares fazem uma festa e vemos Van Buen, observar a felicidade dos populares que não lhe ligam nenhuma. É nessa altura que ele faz um coisa brutal que muda a vida do arquitecto (que não vou dizer), para mostrar quem é que tem o verdadeiro controlo sobre a vida e a felicidade.

Os edifícios brutalistas do filme, nomeadamente o tal centro comunitário com a capela, em vez de ser uma homenagem à mãe de Van Buren, como ele queria, é claramente um memorial às vítimas do holocausto e uma mostra ou vidência da natureza humana, brutal e dezumanizante. Edifícios enormes, esmagadores, sombrios e fechados, com apenas algumas frestas por onde entra a luz do humano. "Que melhor maneira de falar de um cubo senão construí-lo?", diz László Tóth no filme. Que melhor maneira de falar do humano com poder senão mostrá-lo na arquitectura. O brutalismo é um estilo paradoxal, pois é ao mesmo tempo minimalista e maximalista.

Enfim, acompanhamos o processo interior da construção da arte a partir da vivência interior e vissicitudes da vida do artista. 

O filme começa com o silêncio traumatizado da sobrinha e acaba com o silêncio do arquitecto, quando a obra já não é sua mas das pessoas que a julgam e a interpretam sem que ele tenha alguma coisa a dizer. Como estou aqui a fazer, quer dizer, a interpretar o filme, à margem dos seus criadores.

O filme tem outras leituras e tem imensos promenores significativos que provocam a reflexão.

Tudo é bom: os cenários, a fotografia, o enquadramento, a recriação desse tempo pós-guerra, a arquitetura, claro. Os actores conseguem fazer-nos entrar completamente na psicologia das personagens e acreditar na sua realidade.


January 04, 2025

Filmes - A substância

 


Este é um filme violento sobre a violência que os homens exercem sobre as mulheres -o corpo que têm de ter e a maneira como podem estar no mundo- como se o mundo e tudo o que nele vive existisse para satisfazer os seus desejos e a violência que as mulheres exercem sobre si mesmas para corresponderem a essas expectativas que inculcam nelas desde a nascença, até chegarem a um lugar de conforto consigo mesmas. 

Não é só o corpo que está sempre a ser julgado como se o valor da pessoa se reduzisse às particularidades do seu corpo físico, mas também o modo como se julga tudo o que fazem: se falam de mais, se falam de menos, se choram demais, se nunca choram, se riem demais, se nunca riem, se são ambiciosas, se não são ambiciosas, se podem ter certas profissões, se têm a voz alta, se têm a voz baixa, se têm muitas opiniões, se nunca têm opiniões, se são louras, se são morenas... tudo são insuficiências e defeitos a serem corrigidos pelos homens.

[Há tempos li uma entrevista com a Judit Polgár, a campeã de xadrez húngara. Ela dizia que quando começou a ganhar a campeões, aí pelos 10, 11 anos, preocupava-se muito em não ganhar de maneira que os opositores se sentissem humilhados por receio de não voltarem a convidá-la para os torneios - ela foi a 1ª xadrezista a competir em torneios abertos e alguns dos xadrezistas, homens, com quem jogou diziam-lhe para ir competir nos torneiros femininos (coisa que nunca fez) e que as mulheres não tinham estamina para serem campeãs de xadrez e outras coisas do género. Quer dizer, is para os jogos auto-consciente de ser uma rapariga e de isso ser uma grande desvantagem. Isto torna as suas vitórias muito mais valiosas e impressionantes porque sempre que um rapaz prodígio aparece, logo surgem grande campeões a treiná-lo e toda a gente à sua volta os apoia, mas se é uma rapariga tentam humilhá-la com atitudes e palavras violentas que fazem o seu caminho na insegurança das mulheres e na violência com elas depois se julgam a si mesmas]

Obviamente, o filme passa-se em Hollywood, um dos píncaros dessa violência. A maneira como a realizadora filma os produtores e outro pessoal do meio é a da perspectiva das mulheres e, como tal, eles aparecem como repugnantes (esta cena que se vê aqui do produtor do programa a engolir os camarões e cospe as cascas, o que muito simbolicamente é o que faz às mulheres é repugnante) e/ou canalhas. 

No filme a personagem principal, que é uma pessoa com valor mas que a certa altura se vê e sente como um monstro, divide-se em duas, fisicamente e emocionalmente. Essa parte de transformação e ruptura da carne, toda filmada numa casa-de-banho com um enorme espelho é horrível e fica-se com o estômago às voltas. A cena final do filme é brutal.

Vi uma entrevista com a realizadora e as duas actrizes que fazem a mesma personagem, dividida em duas, e a mais nova, uma mulher bonita, dizia que para fazer aquele papel tiveram que pôr-lhe próteses nas mamas e no rabo, para ficar igual àquelas pin-ups, que são o ideal de mulher perfeita na cabeça dos homens e que os produtores buscam quando as selecionam [como nazis, digo eu]. Quer dizer, uma mulher bastante bonita, mesmo assim, é considerada cheia de insuficiências, do ponto de vista dos homens.  

O filme é muito bom e fiquei fã da realizadora, que também escreve o argumento, mas achei-o muito difícil de ver. É um género de surrealismo de horror ou algo assim.


January 02, 2025

"Pensar é dizer não" (Alain)

 


Está a passar na TV um dos meus filmes preferidos de sempre, A Hidden Life. A simplicidade com que desvenda verdades profundas sobre a alma humana, as suas misérias e píncaros, com uma linguagem bela como um poema. Tudo no filme é belo, até o horrível, porque vemos nele a verdade. Está aqui tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos, sobre a natureza e a vida.


December 31, 2024

"Uma infinita tempestade de beleza"

 

Um século depois de William Blake ver o universo num grão de areia, John Muir, o escritor escocês-americano e ambientalista, fundador das reservas naturais americanas, escreve:

A paisagem do oceano, por mais sublime que seja na sua vasta extensão, parece muito menos bela para nós, animais de cascos secos, do que a da Terra, vista apenas em trechos comparativamente pequenos; mas quando contemplamos o globo inteiro como uma grande gota de orvalho, listrada e pontilhada de continentes e ilhas, voando pelo espaço com outras estrelas, todas cantando e brilhando juntas como uma só, o universo inteiro aparece como uma infinita tempestade de beleza.


O filme, 'Infinite Storm' é baseado num acontecimento real, visto pela lente deste pensamento de John Muir.



Em Outubro de 2010, Pam Bales, uma enfermeira, guia montanhista e membro da Equipa de Busca e Resgate de Pemigewasset Valley do Monte Washington foi fazer uma caminhada pela montanha. Uma necessidade e uma terapia.
Uma sensação de paz tomou conta de mim assim que as minhas botas pisaram na terra. Na base da Jewell Trail do Mt. Washington, o sol de Outubro parecia quente nos meus braços nus. Mas, tendo crescido a explorar as White Mountains de New Hampshire, eu sabia que as condições no alto não seriam nada parecidas com as do vale. Em preparação para uma subida no final da temporada do pico de 2.000 metros conhecido como “lar do pior clima do mundo, carreguei a minha mochila com camadas extras e um par de óculos de proteção para a neve. Saí nesse dia para treinar, com uma mochila pesada e, para aproveitar algumas horas na minha área favorita.
O Monte Washington, com o seu clima imprevisível, ceifou mais de 150 vidas nos últimos 150 anos, o que o torna uma das montanhas mais mortais do país. Sentia-me forte naquele dia, mas podia ver nuvens espessas encobrindo a metade superior do pico. A 5.000 pés de altitude, a cerca de 5 quilómetros, o vento começou a aumentar. Parei para vestir mais uma camada de roupa.
A neve soprava no meu rosto enquanto continuava a subir, mas conseguia seguir a trilha de olhos fechados. Acima da linha das árvores, as rajadas de vento eram violentas e a temperatura caía. Disse a mim mesma que se o tempo piorasse ainda mais, voltaria; retornar ao meu carro era mais importante do que chegar ao topo.
Por volta dos 1.500 pés cheguei ao cruzamento com a trilha Gulfside. Foi quando notei pegadas recentes na neve que me causaram arrepios na espinha. Estava claro que essas pegadas não tinham sido feitas por botas de caminhada resistentes, mas por ténis de rua. Com este clima? Sabia que alguém estava em apuros.Virei-me para seguir as pegadas. Alguns passos depois, vi-o - um homem caído no chão com as costas apoiadas em uma pedra. Uma camada de neve cobria as suas roupas. Gritei e ouvi apenas silêncio.
Agachada ao lado do homem, olhei para o seu corta-vento fino, t-shirt e calças encharcadas. Como é que alguém veio caminhar até aqui tão despreparado? Ele respirava, mas a sua pele parecia de porcelana e tinha uma expressão vazia. Isso era mau sinal.
O filme conta a história deste resgate e salvamento heróico de um rapaz novo, com vinte e tal anos, que foi para a montanha para se deixar morrer, por uma enfermeira e montanhista de cinquenta e tal anos com metade do tamanho dele, em condições de tempestade muito severa numa paisagem gelada e agreste.

À medida que vamos acompanhando esta história de fortaleza de espírito humano, determinação, compaixão e resiliência, o realizador vai-nos mostrando a beleza dos picos eternos da montanha, a beleza da tempestade e das paisagens de infinitos mantos brancos de neve e a beleza do espírito e esforço humanos na conquista das adversidades.

No filme, uma semana depois de ela o ter resgatado e salvo eles têm um encontro emocional. Ele conta-lhe porque queria suicidar-se e ela conta-lhe que perdeu as duas filhas pequenas numa fuga de gás e houve uma altura que também queria morrer. O filme acaba com ela a dizer-lhe, "mesmo no meio do maior sofrimento, da maior tempestade, o Universo é uma infinita tempestade de beleza."

Na realidade eles nunca se encontraram e ela nunca soube o nome dele. Passado pouco tempo do acontecimento ele enviou uma carta, assinada John, o nome que ela lhe deu na montanha quando ele era incapaz de falar, com um donativo à Equipa de Busca e Resgate de Pemigewasset Valley. Nela explicava o sucedido, contava a proeza heróica dela e agradecia-lhe ter-lhe dado de volta a vida e a esperança.
Em algum momento de nossas vidas, cada um de nós já se viu caminhando com uma sensação de desamparo ao longo de uma montanha agreste, no meio de uma tempestade pessoal. Sozinhos, desprovidos de uma sensação de calor e segurança emocionais e sufocados pela escuridão das nossas emoções, alguns procuram aquele lugar fora da trilha como uma maneira de se libertarem. Tragicamente, alguns conseguem-no; outros conseguem salvar-se sozinhos e outros, como John, são resgatados por pessoas como Pam Bales.
O filme é meditativo, real e belo. Não foi um grande sucesso de bilheteira. Os críticos consideraram que lhe faltava a conclusão de tudo ter acabado bem e viverem felizes. 

December 21, 2024

O Aprendiz

 


Este filme é sobre, The Making of Donald Trump e Trump fez-se por intermédio de Roy Cohn, um advogado gay, desonesto e criminoso de Nova Iorque que se relacionava com todos que eram alguém (tinha sido o braço direito de McCarthy) que se apaixonou por Trump quando ele era novo e ingénuo e lhe ensinou todos os truques do ofício (desde mentiras a subornos e chantagens), apresentou-o a magnatas e políticos e lançou-o no mundo dos ricos e da riqueza. Trump, um homem absolutamente sem escrúpulos como o seu mentor, aprende rapidamente a lição e dá um pontapé em Roy quando já não precisa dele para a sua carreira de aldrabão profissional - até o pai ele tenta aldrabar quando o vê com um princípio de demência- e quando a sua doença (SIDA) o identifica como gay, uma imagem a que Trump não queria estar associado.
Quando Roy está a morrer telefona-lhe a queixar-se da sua vida e a dizer-lhe que sente falta dele porque ele foi a única pessoa que alguma vez se interessou verdadeiramente por si e o amou - não porque goste dele, repare-se. Ele vê as pessoas todas como instrumentais. A maneira como ele vê e trata as mulheres é míope e degradante, muito de acordo com as religiões extremistas.
Portanto, este filme é sobre esses anos de aprendizagem com Roy acerca de como ser um vencedor, a única coisa que lhes interessa. Como ele diz no fim do filme, tem três princípios de vida para ser um vencedor: 1º- atacar, atacar, atacar: o mundo é um caos e se te apontam um faca respondes com uma bazuca; 2º - não há verdade, a verdade é o que cada um diz que é; 3º- por mais lixado que estejas, nunca admires a derrota, clamas sempre vitória.
Estes três princípios, diz ele, só funcionam para quem nasce com um instinto assassino. Quando pensamos nisto, estes princípios são comuns a todos os grandes narcisistas e criminosos e vemo-los em Putin, por exemplo e em outros do mesmo género e daí que se entendam bem uns com outros.
O filme explora as fraquezas do sistema político americano e como este tipo de pessoas navega bem nele. O realizador, Ali Abbasi, um iraniano dinamarquês e o argumentista fazem o filme baseados nos documentos legais e testemunhos que existem acerca dos eventos qee são abordados. 


December 09, 2024

Está a começar 'Intriga Internacional' na TV

 


Com o Cary Grant, um indivíduo que desde muito novo tinha um instinto apurado acerca de como vestir um fato e chamar a atenção - e que mesmo quando não é para ter piada, tem.



August 20, 2024

Filmes - Aquilo que constitui a nossa força é também o que faz nossa fraqueza

 

Ontem apanhei este filme na TV, The Pledge, que em português traduzem por, 'A Promessa'. Não conhecia. O filme é sobre um polícia que no dia da sua reforma promete a uma mãe encontrar o assassino da sua filha de 7 anos. A partir daí e com algumas pistas que a miúda deixou num desenho, vai viver para a zona onde pensa que estará o assassino, faz amizade com uma mulher que tem uma filha de 7 anos, acabam a viver juntos e ele, a certa altura, resolve usar a miúda como isco para apanhar o assassino. 

O filme é muito bom e só tem bons actores. Jack Nicholson é o polícia reformado. À primeira vista o filme é um policial de suspense, mas na verdade o filme é sobre o próprio polícia. Desde o início que vemos perfeitamente que ele é um bom polícia, um indivíduo que leva o seu trabalho muito a sério. Aquele tipo de pessoa que não larga um caso e persiste até encontrar o criminoso. É muito respeitado pelos seus pares. Porém, esse seu foco, que é a sua força, ao evoluir para uma obsessão que toma conta de toda a sua realidade, torna-se a sua fraqueza. É exactamente o que acontece no filme. Aquilo que era a sua maior virtude e força, levada até ao exagero, tornou-se a sua perdição. 

Nós próprios, ficamos presos ao ecrã com o mesmo tipo de foco que ele vive interiormente, a seguir a sua argúcia na caçada ao assassino -Jack Nicholson é muito bom a mostrar-nos como vive focado nesse fim, desde o início do filme- até que a certa altura percebemos que há algo errado no modo como ele vive a sua caçada e como submete todas as sua relações a meios de atingir aquele fim. 

O que constituía a sua grandeza é também o que constitui a sua pequenez. Fez-me lembrar Platão, quando diz que as virtudes, quando não são temperadas pela razão tornam-se meros simulacros e são comandadas pelo descomedimento. A virtude é apenas uma moeda de troca por outros prazeres, neste caso a obsessão que o domina e comanda.


August 07, 2024

Este calor, que torpor...

 


Não aguento este calor - que nem sequer é muito. A praia, nadar e o sol deixam-me numa moleza tão grande que se me interrompem este torpor fico embirrenta como as crianças. Trouxe 4 livros para ler mas ainda não li nada porque assim que pego num começo logo a fechar os olhos. 

Ontem à noite consegui ver um filme que tinha aqui para ver há tempos, Black Narcissus. Mesmerizante. Passado na Índia, este filme inglês é baseado no romance de 1939 de Rumer Godden e estreou em 1947, um par de meses antes da independência. 

O filme é estranho. Tem um ambiente gótico, carregado de tensão sexual e drama psicológico de suspense. Passa-se tanta coisa neste filme que uma pessoa fica agarrada ao ecrã.

A cinematografia do filme ajuda muito ao ambiente do filme, onde tudo são extremos e contradições. O filme gira em torno das crescentes tensões dentro de um pequeno convento de irmãs anglicanas, (ex-casa de mulheres de prazer), que tentam estabelecer uma escola e um hospital num remoto e antigo palácio de um Raja indiano no topo de uma montanha, na borda de um despenhadeiro sobre um vale fértil nos Himalaias - como se vê nesta imagem de uma cena icónica do filme.

Inacreditavelmente, apesar de se passar nos Himalaias e ser completamente convincente nesse aspecto, foi filmado quase inteiramente nos estúdios Pinewood, em Inglaterra, com apenas um dia de filmagens exteriores, captadas nos jardins subtropicais de Horsham, West Sussex. Como li algures, "uma maravilha do engenho cinematográfico". O cinema britânico no seu melhor porque a visão dos picos dos Himalaias e o constante vento a soprar, fora e dentro do convento constroem uma atmosfera ambivalente entre o etéreo espiritual e o agreste material. 

Dado que o convento está num palácio que antes se dedicava ao prazer, está cheio de murais eróticos a evocar o Kama-Sutra e algum mobiliário estofado a brocado de seda azul e ouro. As salas azuladas e decoradas deste modo fazem um contraste gritante com a rigidez das freiras nos seus hábitos brancos, frios, que tapam todo o corpo, exceptuando a cara. Todo o ambiente sensual do convento e o isolamento nos píncaros de montanhas ventosas perto do céu atinge e perturba as freiras. 

Os hábitos das freiras são perturbados de várias formas: o Sr. Dean (David Farrar), um inglês branco que vive entre os indianos e serve de guia às freiras, perturba as mulheres com a sua masculinidade. Aparece sempre com uns calções demasiado curtos e uma camisa muitas vezes demasiado aberta. Um cínico inveterado, é o vértice de um triângulo amoroso reprimido com a Irmã Clodagh, a madre-superiora do convento (Deborah Kerr) e a Irmã Ruth (Kathleen Byron). 

O filme lida com as motivações das freiras (ficamos a saber que estas duas mulheres entraram para a ordem depois de desilusões amorosas e para tentarem superá-las); com a vida monástica como uma fuga do mundo (difícil é ser santo imerso no mundo); com o contraste entre as duas civilizações: a fria e racional britânica, reprimida e a quente e terrestre indiana, desinibida; com os estereótipos culturais (o modo paternalista-racista como falam dos indianos e o modo de desprezo com que os indianos falam dos hábitos dos ingleses) mas, acima de tudo, lida com fantasmas interiores (as cortinas constantemente a esvoaçar ao vento simbolizam-nos), com desejos sexuais tornados deletérios pelo celibato forçado, sublimados numa vida de zelo, puritanismo e vaidade - a vaidade de se considerar mais perto dos céus que os outros que vivem no mundo.

Como se a realidade pudesse ser enformada -deformada- num ideal inventado. Poder, pode, mas dá sempre mau resultado.

O nome do filme vem do perfume do Rajá indiano que aparece no convento, carregado de sedas e pedras preciosas (a vaidade de Narcisus) e pede para que o ensinem nos conhecimentos ocidentais. As freiras falam do seu perfume carnal como próprio dos indianos, apesar de nos ser dito que foi comprado no depósito do exército inglês. Também este general Rajá tem um papel no filme, mas o filme é tão complexo e passa-se tanta coisa no filme que estaria o dia todo a escrever sobre todos os seus pormenores significantes.

Por exemplo, quando o Rajá pede para ser ensinado a madre-superiora diz-lhe que a ordem não ensina homens, só crianças e mulheres mas que não se ofenda porque não lidam com nenhum homem e o Rajá diz, com surpresa. "mas Jesus, que adoram, é um homem". O filme tem muitos diálogos muito bons. 

Kathleen Byron no papel de Irmã Ruth

As interpretações, sobretudo destas três personagens, Sr. Dean, Irmã Clodagh, a madre-superiora e a Irmã Ruth, são mesmo, mesmo boas. A Irmã Ruth, que tem ciúmes da Irmã Clodagh e exterioriza a sua frustração sexual (a outra interioriza), no fim do filme assume o seu desejo e sai da ordem. A maneira como aparece caracterizada e como actua -o olhar e a energia sexual e violenta que emana dela- é terrível, como nos filmes de horror, que no entanto, nos mesmerizam.

Muito bom, o filme. Apesar de ter quase um século, a sua beleza ainda cativa. Tem cenas datadas, claro, mas não sobressaem. Merece ser visto uma outra vez.

O filme está todo no YouTube mas se não têm um ecrã muito bom é uma pena vê-lo por aqui porque a fotografia, a subtileza das cores e dos cenários são das melhores características do filme.




Young Prince: Do you like it, Sister Ruth? It's called Black Narcissus. Comes from the Army-Navy Stores in London.
Sister Ruth: Black Narcissus. I don't like scent at all.
Young Prince: Oh, Sister, don't you think it's rather common to smell of ourselves?


July 11, 2024

Filmes - The Beast (ou o que é ser-se humano)

 

O título do filme não tem nada que ver com o trailer do filme que o faz parecer ser um filme de horror. Não é. A não ser que o horror sejamos nós, humanos.

Quem não viu o filme e não quer saber nada sobre ele não leia isto.

O fime é baseado numa novela de Henry James, The Beast in the Jungle - que agora fiquei com curiosidade em ler. The Beast in the Jungle é sobre um homem que está sempre cheio de medo de tudo. Bertrand Bonello, o realizador, agarra nessa novela a expande-a. Portanto, o filme é sobre o medo. É ele a Besta que impede os humanos de arriscarem o amor, de arriscarem emoções fortes e verdadeiras e de serem autênticos.

O filme segue um homem e uma mulher em três tempos diferentes que se vão entrecruzando e que de início não se percebe bem o que ali se passa, mas no fim tudo faz sentido. 

No 1º tempo, quando se conhecem, estão em 1904 e aí é ela, uma pianista, casada, quem tem medo de arriscar o amor e até de o falar.

No 2º tempo estão em 2014, ele é um incel que odeia as mulheres porque tem medo da sua rejeição e não é capaz de arriscar o amor. 

No 3º tempo, estão em 2044, numa época em que a IA faz os trabalhos humanos e os humanos, para escaparem a uma vida de um trabalho monótono de máquinas não-inteligentes, têm de sujeitar-se a um procedimento invasivo em que uma máquina lhes limpa o ADN, quer dizer, limpa todos os traumas e medos, pois considera-se que uma pessoa que ainda tem traumas, medos, ansiedades e emoções fortes, não é de confiança.

Naturalmente, ao ficarem sem a capacidade do medo e da ansiedade, também ficam sem a capacidade do amor e dos grandes sentimentos criadores. A vida nesse tempo é vivida em cidades frias, cinzentas e de silêncio. 

Portanto, os três tempos do filme representam os humanos de todos os tempos e em todos eles os humanos  deixam de viver a vida por medo, deslaçam-se dos outros seres humanos por medo de tudo o que pode correr mal e vivem vidas solitárias no coração. Em todos os tempos tentam substituir as relações humanas, demasiado stressantes, por bonecos, simulacros de humanos, como simulacros de companhia. No 1º tempo vemos bonecas a fazer companhia a humanos, no 2º tempo as bonecas são já inteligentes (e podíamos acrescentar, algoritmos de encontros online onde se pode ser um simulacro de um boneco ideal sem medo a relacionar-se com outros simulacros inverdadeiros) e no 3º tempo, as bonecas já são andróides de companhia. Porém, o fim é o mesmo: proporcionar um simulacro de contacto humano, sem complicações, anseios e medos.

No fim, os próprios humanos se tornam, eles mesmo, bonecos de expressão universalmente agradável, mas morta de sentimentos verdadeiros.

O que acontece ao par que o filme segue em cada tempo, não digo porque o filme vale a pena ver, mesmo que no início não se perceba bem o que ali se passa. Tem pormenores que enriquecem este enfoque sobre a Besta que mata os humanos, muito bons. Tem uma estética muito etérea e intemporal, em parte porque os dois actores são muito bons a recriar essa universalidade humana.


May 18, 2024

Um filme português sobre as mulheres imigrantes de origem africana em Portugal

 


Chama-se, Manga d'Terra e é sobre uma cabo-verdiana que vem para Portugal para tentar melhorar a vida dos filhos que tem no seu país de origem. Vai parar à Reboleira, onde o filme foi filmado e entre a vida diária de assédio sexual, presença constante da polícia, etc., descobre uma comunidade de mulheres de origem africana, muito fortes.
Estive a ouvir uma entrevista, na RTP África, como o realizador, Basil da Cunha e Eliana Rosa, a atriz principal e cantora. Interessante. A música do filme, cantada por Eliana Rosa, que foi aplaudida em Locarno, no festival de cinema, pode ouvir-se aqui:



April 28, 2024

Para quem viu o Dune e tem curiosidade no guarda-roupa

 

Agora fui dar com este vídeo e vi nesta rapariga a cobertura particular de cabeça da roupa formal das Reverendas Madres das Bene Gesserit do Dune, se bem que nelas a cor seja mais sóbria. Será que a criadora do guarda-roupa, Jacqueline West, se inspirou nestes costumes do Brunei? Já li que parte das roupas delas são inspiradas nas freiras católicas e nos quadros religiosos com as santas de vestes longas e cabeças cobertas. Jacqueline West estudou numa escola católica e a impressão dos trajes das religiosas ficou com ela e dado que as Bene Gesserit são uma irmandade de cariz religioso... o guarda-roupa do filme é espectacular. A cena em que Fedy-Rautha Harkonnen luta com os três adversários no dia do aniversário fez-me lembrar O Sétimo Selo de Ingmar Bergman, quando a morte aparece com a gadanha. A cabeça daqueles guardas de Fedy-Rautha Harkonnen são uma gadanha de morte no fundo branco lustroso da cena. Essas figuras sinistras e meio vampirescas são assustadoras.