(ainda não vi o filme, mas é interessante esta opinião porque foi exactamente o que pensei da abordagem dele à personagem de Jean Tatlock no filme, Oppenheimer, falseada e sexista)
(ainda não vi o filme, mas é interessante esta opinião porque foi exactamente o que pensei da abordagem dele à personagem de Jean Tatlock no filme, Oppenheimer, falseada e sexista)
Acordei cedo, liguei a TV e estava a passar o filme, Men de Alex Garland. Não conhecia o filme. Nenhuma mulher vê o filme, penso, sem se reconhecer, mesmo que em doses diferentes e é muito refrescante saber que há homens, como este realizador, que têm noção de como o comportamento de um grande número de homens é assustador para as raparigas e para as mulheres e transforma o mundo num lugar percebido e sendo, extremamente perigoso para elas.
O filme é sobre uma mulher que fica viúva e vai para o campo para descansar. No meio de uma paisagem idílica, começa a ser perseguida por homens que a certa altura aparecem todos com a mesma cara, indistinguíveis uns dos outros. Os homens são monstros que aparecem nus, cobertos de espinhos agressivos, sempre direccionados para o controlo e a violência sexual, incapazes de vê-la como uma pessoa e de respeitar a sua existência como indivíduo livre, com vontade própria. Ela, na sua imaginação, defende-se com facas.
A dado momento percebemos que as visões dela referem-se ao marido que morreu e que teria sido um tipo violento e controlador. Mas o filme universaliza o comportamento do marido, não como facto objectivo, quer dizer, não como se todos os homens fossem assim, mas como impressão subjectiva das mulheres, dado tantos e tantos e tantos homens serem assim com as raparigas e com as mulheres, sejam conhecidos ou estranhos na rua: perseguem, dizem coisas ordinárias que soam como planos de acção, encostam-se, esfregam-se, olham fixamente com olhares assustadores e lascivos, fazem gestos, importunam, são abusivos, controladores, invasivos e narcisistas violentos nas relações com mulheres.
No filme, o indivíduo que a persegue, a certa altura transforma-se num ser que dá à luz outro homem que por sua vez dá à luz outro e assim por diante e essa sucessão de partos é um modo de o filme nos mostrar que os homens educam-se uns aos outros para serem monstros para as mulheres, mas também que cada 'renascimento' onde esses homens narcísicos e abusivos juram que mudaram e já não vão ser como eram e agora é que vai ser diferente não passa de um parto contínuo de imposturas.
Vemos o homem que a persegue, depois de uma cena ameaçadora, dizer-lhe, transformado em adolescente, 'magoaste-me, vês o que me obrigas a fazer?' - uma frase típica dos abusadores. No fim do filme o marido aparece e senta-se ao lado dela e diz, 'só queria ser amado'. Portanto, para esses homens, as mulheres só existem em relação a si e não por si mesmas e o seu fim na vida é cumprir a exigência de amor/prazer dos homens.
Vê-se o filme e imediatamente vem à memória a sensação que tivemos e nunca mais nos abandonou completamente, ao entrar na adolescência, de o mundo, de repente, se ter tornado extremamente perigoso por causa dos homens: de como uma simples ida para a escola, uma ida à casa-de-banho na escola ou num restaurante, uma viagem em transportes públicos, uma espera numa fila, uma entrada numa loja, num elevador, são momentos sentidos como ameaçadores a precisar de estratégia prévia, seja de reconhecimento de pontos de fuga, seja de reconhecimento dos homens que ali parecem ser mais perigosos e como afastar-nos deles e não atrair atenção. É por isso que as raparigas não vão a casas-de-banho e outros sítios de vulnerabilidade, sozinhas. E é por isso que a ideia de ter homens a poder entrar e andar no meio das raparigas e das mulheres nas casa-de-banho, vestiários, etc., mesmo quando dizem sentir-se mulheres, é perigosa e assustadora. Muitos desses indivíduos são ameaçadores e todos os que não aceitam não como resposta são assustadores e perigosos.
De maneira que é refrescante ver um realizador perceber como tantos homens transformam o mundo num lugar perigoso e ameaçador para as raparigas e para as mulheres e como tentam anular e calar as mulheres e reduzi-las a objectos de controlo e prazer. Não deve ter sido fácil, sobretudo no que respeita ao juízo dos outros homens sobre si.
Agora que temos na Europa uma quantidade imensa de imigrantes homens que trazem consigo a violência e a degradação sistémica das raparigas e das mulheres, damo-nos conta de como a educação importa porque, apesar de tudo, vê-se a diferença que fez mais de meio século de educação para os direitos universais humanos -que incluíram as mulheres- dos europeus e a educação para o controlo dos machos da religião que esses imigrantes trazem consigo.
Apesar de serem de países que também assinaram a Carta dos Direitos Humanos, nunca usaram a educação para promover os diretos humanos e continuaram a educar tendo como guia a religião e códigos culturais locais que perpetuam o controlo e a degradação das mulheres pelos machos.
Não significa que nas sociedades ocidentais não haja violência dos homens contra as mulheres -este filme mostra-o-, mas é uma violência individual e não estatal. É condenada e combatida pelo Estado e não induzida pelo próprio Estado. Não é incorporada na educação pública como um bem. E, na realidade, embora com avanços e atrasos, teve efeitos positivos na diminuição do sexismo, na melhoria da vida das mulheres enquanto seres autónomos e livres e no comportamento e mentalidade dos homens.
As mulheres têm acesso a uma vida de liberdade e de oportunidades aqui na Europa e nos países para onde exportou estes valores que em muitas sociedades do mundo nem sonham e são mortas por tentarem lutar por eles.
Enquanto nas sociedades de valores ocidentais se considera que os direitos humanos universais estão acima das questões culturais, as sociedades de valores locais, a maioria teocráticas, consideram que os valores culturais sobrepõem-se aos valores universais. Daí a sua intolerância e recusa de integração em sociedades que respeitam valores universais.
Qual o significado desta diferença? Enquanto nós consideramos que as mulheres devem ser tratadas com o respeito universal que se deve a TODOS os seres humanos, as sociedades que defendem o relativismo cultural absoluto (paradoxo), consideram que as mulheres devem ser tratadas de acordo com a sua cultura e não podem ter acesso a direitos universais.
Portanto, se és mulher os teus direitos variam consoante a cultura: se nasceste aqui, assume-se que tens direito aos mesmos direitos universais que os homens, mas se nasceste no Irão ou em outro país islamita, assume-se que não estás protegida pelos direitos humanos universais porque na tua cultura não se respeitam as mulheres.
E se nós, mulheres e homens desta sociedade que te respeita, dizemos que as sociedades governadas por uma religião misógina (não o são todas?) não te respeita, somos acusados de islamófobos ou de complexo de superioridade europeia em nome de um culto ao relativismo cultural intocável dos valores locais, mesmo quando violam grosseiramente os valores universais.
Já se és homem, em todo o mundo tens direito a ser protegido pelos Direitos Universais.
Esteve a dar este filme na TV. O filme é 1998, altura em que o presidente da Rússia ainda era Boris Iéltsin. O filme é de uma realidade profética até ao mais pequeno pormenor.
Depois de os americanos da CIA raptarem um Sheik, os islamitas radicais palestinianos (e não só) desencadeiam atentados terroristas contra dezenas de civis.
A hipocrisia e a mentira dos palestinos a construirem células na América para atentados terroristas, a fazerem-se de vítimas sempre com uns cartuchos de dinamite para fazer explodir quarteirões ou cinemas cheios de civis. O ódio aos americanos e o total desprezo pela vida humana, sobretudo pelas mulheres, está tudo no filme com realidade certeira.
Li que Christopher Nolan está a rodar um filme sobre a Odisseia e resolvi reler o livro. Li a Odisseia quando era adolescente numa versão resumida para adolescentes de uma coleção de clássicos para a juventude que a minha mãe comprava para nós.
Depois, comprei-o quando acabei o curso numa altura em que andava muito interessada em ler gregos e medievais. Essa edição era uma tradução inglesa e nessa altura ainda tinha dificuldade com poesia em inglês e ia lendo pedaços. Entretanto, há uns anos saiu esta edição da Quetzal e comprei-a mas ainda não tinha lido, só folheado.
Há uns meses comprei outra edição da obra numa tradução inglesa de uma mulher (esta aqui ao lado) porque li um artigo a dizer que era a primeira tradução da Odisseia feita por uma mulher e que a perspectiva era algo diferente das dos homens. Fiquei com curiosidade.
Então, ontem comecei a ler a tradução portuguesa, depois de ler sobre umas polémicas com a abordagem de Nolen.
Estou a ler o livro como quem lê um romance, isto é, não páro para ir ler as notas (a não ser que alguma passagem me desperte curiosidade ou dúvida), dado que já conheço as histórias e as personagens principais - não todas, pois são muitas, mas não preciso de saber o nome de todos.
O que estou a fazer é a comparar com a versão inglesa de Emily Wilson, nas passagens que me parecem ter um olhar masculino na tradução. Não há grandes diferenças -até agora- mas há nuances.
Estou a ler um canto por dia. São mais ou menos 15 páginas. Sendo que são 24 cantos, no fim de Junho está lido. Por acaso lembrei-me que podia ler esta obra e gravar no YouTube como fiz com o Guerra e Paz. Essa obra levou-me pelo menos 9 meses a ler e gravar as leituras. Esta levaria um mês. Podia fazer isso nas férias. Quinze páginas lêem-se num instante. Se tiver disposição logo faço. Para quem nunca leu e não lhe apetece ler, mas gostava de conhecer e gosta que lhe leiam. Veremos.
Tenho pena de saber quase nada de grego antigo. O suficiente para perceber umas citações de filosofia que aparecem nos livros, mas não para ler um livro, nem de longe nem de perto. Se tivesse menos vinte anos ia aprender grego antigo porque uma obra desta deve perder muito na tradução, por muito boa que seja. Dantes era mais difícil aceder ao conhecimento. Conciliar um trabalho desgastante física e intelectualmente, mais a vida particular com filhos e o estudo, sobretudo em outra cidade. Pelo menos para as mulheres. Hoje-em-dia os miúdos queixam-se de muitas dificuldades, o que é verdade, mas têm enormes facilidades no acesso à informação que nós não tínhamos.
Em primeiro lugar faltam partes do livro importantes para perceber como Heathcliff se transforma naquele ser imensamente cruel, nomeadamente a maldade do irmão de Cathy. Aliás, a própria crueldade de Heathcliff só aparece no filme, na relação com Isabella, a irmã de Linton. Por causa disto ele nunca aparece como perigoso, repleta de rancor e ódio, mas no livro, desde que regressa, sentimos o seu perigo o tempo todo.
O filme olha a guerra no Iraque e Afeganistão de 3 pontos de vista: o político, representado por este senador, o académico, representado num diálogo ente um professor e um estudante que recusa o 'sistema' e o das tropas, os tipos que estão no terreno a arriscar a vida pelas estratégias e interesses dos dois primeiros. A jornalista representa o ponto de vista interrogativo e crítico face ao poder. O filme não resulta porque lhe falta o fio que embrulha, digamos assim, os três pontos de vista numa única narrativa, mas a mim isso parece-me muito interessante, quer dizer, deixar em aberto e em confronto pontos de vista que não são coerentes. Também porque as personagens (tirando os soldados) não têm evolução ou acção durante o filme. Estão a discutir ideias. Zero química entre Meryl Streep e tom Cruise que faz muito bem o papel do político com excesso de auto-confiança e manha. Porém, em cada uma das partes do filme, que se vão sobrepondo, há uma mão-cheia de afirmações, deduções e intenções certeiras sobre o mundo em que vivemos, o seu sistema e as consequências que daí advém. Nesta cena, o discurso do senador sobre as consequências de sair do Afeganistão é profético.
«É um filme que diz que não importa o que pensas ou sentes se não fizeres nada a respeito, se não te levantares e arriscares tudo.»
"Duas coisas me enchem o espírito com uma admiração e respeito sempre novos e crescentes: o céu estrelado acima de mim e a lei moral dentro de mim."
Repentance (de 1984, lançado em 1987), dirigido por Tengiz Abuladze, é um filme soviético.
A história surreal começa com a morte e enterro de um ditador totalitário tirânico. No entanto, o seu corpo recusa-se a permanecer enterrado, ressurgindo uma e outra vez, continuamente, forçando a sua comunidade a enfrentar os horrores do seu regime — são os crimes do totalitarismo de Estaline que não podem simplesmente ser escondidos ou esquecidos.
Putin quer a obliteração dos seus crimes hediondos na Ucrânia -a tortura, os safaris humanos, os roubos de crianças aos pais para vendê-los na internet, o bombardeamento de civis, de maternidades, etc- mas os crimes e os horrores dos tiranos não podem ser enterrados nem esquecidos. Têm de ser expurgados, pagos em consciências arrependidas, exorcizados.
"People who dream when they sleep at night know of a special kind of happiness which the world of the day holds not, a placid ecstasy, and ease of heart, that are like honey on the tongue. They also know that the real glory of dreams lies in their atmosphere of unlimited freedom." - Karen Blixen, Out of Africa
A atmosfera deste filme é de liberdade ilimitada. Vê-se na luz e vastidão das planícies e vales do Quénia, na música de John Barry, nos horizontes abertos, na vida selvagem dos animais e nas personagens de Blixen e Finch Hatton, duas pessoas livres, mas decentes, que se encontram e se reconhecem como iguais e movem-se como leões na imensidão das paisagens.
O filme passa-se na época colonialista e, se bem que o tema esteja presente, não é o foco do filme. O foco do filme é a liberdade, o amor- amor humano e amor à terra, à paisagem, à imensidão, à liberdade de se enraizar e identificar com lugares longe de casa- e a perda. A perda das pessoas, dos lugares, da vida, interrompida abruptamente. A Karen Blixen aconteceram-lhe coisas horríveis durante a vida. O pai enforcou-se quando tinha dez anos; contraiu sífilis através do marido que tinha imensas amantes, ficando incapaz de ter filhos; perdeu o amor da sua vida — Denys Finch Hatton — num acidente de avião, tinha ele apenas 44 anos; a sua fazenda em África — uma plantação de café — faliu, forçando-a a voltar para casa, na Dinamarca, falida, sozinha. Nunca mais regressou ao lugar onde foi feliz. E, no entanto, que vida...
I am for all time and eternity bound to Denys, to love the ground he walks upon, to be happy beyond words when he is here, and to suffer worse than death many times when he leaves. - Karen Blixen, Out of Africa
Apanhei este filme na TV e estive a vê-lo ao pequeno-almoço. O filme é um olhar muito lúcido sobre a origem, tantas vezes absurda, dos conflitos e das guerras. Fez-me pensar imediatamente no caso dos EUA e do Canadá.
O filme passa-se numa pequena ilha paradisíaca, imaginária, ao largo da Irlanda, com um pub, uma mercearia, um posto dos correios e pouco mais, onde moram umas poucas famílias. Ouvem-se ao longe os ruídos da guerra civil da Irlanda que os locais comentam como um absurdo.
Na ilha vivem dois homens muito amigos, até que um dia, um deles, um músico de talento, resolve afastar-se do outro, cujo talento é ser uma boa pessoa para toda a gente, sem nenhuma razão especial, apenas por achar que é demasiado importante para desperdiçar a sua vida com essa amizade por alguém que entende ser menor.
O outro fica confuso e de início não acredita que o seu grande amigo de sempre o rejeite assim sem mais, de maneira que insiste na amizade. Porém o outro, que agora o destrata com crueldade, está até disposto a ficar sem os dedos das mãos de que precisa para fazer o seu trabalho de músico para quebrar a ligação entre eles.
As coisas vão piorando e o desprezado pensa que é por ser boa pessoa que o outro abusou dele e começa a ser, ele também, cruel. Começam a ter gestos de acerto de contas cada vez mais violentos, um para com o outro. O músico, sem querer, mata o animal preferido do desprezado, um burro miniatura que ele adorava. Como resposta este pega-lhe fogo à casa. Na última vez que falam, o músico quer que parem aquela rivalidade, pede desculpa pela morte do burro e diz que com o fogo que ele pegou à casa estão quites, mas o outro diz-lhe que agora já não há volta atrás, que há coisas que nunca mais se ultrapassam e que só a morte dele poderá acabar com aquilo. Já nem se lembra da tristeza pela morte do burro, só restou o ódio.
Várias vezes, durante o filme, se referem à guerra civil da Irlanda como absurda, sem reparar que estão a reproduzi-la. São os homens e não as mulheres quem inicia e alimenta comportamentos de conflito violento. O polícia da ilha é um homem violento que dá sovas de morte ao filho e abusa dele e o rapaz acaba por matar-se. O padre não ajuda ninguém, é agressivo e só fala do pecado. O filme é muito incómodo de ver. Parece um manual de, 'como estragar pessoas, incentivar ao ódio e começar guerras'.
Quando olhamos para os EUA de Trump-Musk, parece que resolveram levar o filme à realidade. Dois países amigos a viver numa parte do mundo quase paradisíaca, estão agora em conflito porque uma das partes resolveu que é demasiado importante para ter um amigo mais pequeno em importância e com isso destruiu uma relação de amizade pacífica e se calhar arranjou um inimigo para o futuro. Uma das frases que se diz relativamente as EUA não terem tido nunca guerras em casa -excepto as que eles mesmo fizeram aos nativos- é justamente o carácter pacífico e amistoso das duas nações que o rodeiam, o Canadá e o México.
É claro que também se pode aplicar esta metáfora a muitas outras guerras e conflitos absurdos ao longo da história, que começaram apenas porque um homem, de repente, acha que ele e o seu país são demasiado importantes para estarem ao mesmo nível que outros homens de outros países mais pequenos ou menos ricos ou algo de género.
Muito bom. O filme é uma biografia musical de quando Zimmerman se tornou Bob Dylan - mas é muito mais que isso. O filme apanha os anos entre 1961 e 1965 na cultura americana. Bon Dylan vem lá do Minnesota para Nova Iorque para expandir-se musical e culturalmente. Vem da música folk mas já com um twist muito pessoal e é apanhado no movimento de Pete Seeger de querer que a música folk se expanda a nível nacional e influencie as mudanças políticas e sociais que desejam para os EUA.
Apanha-se no filme uma NY efervescente de bares e casas onde as pessoas se reunem para ouvir blues, jazz, folk e, mais que ouvir música, para fazerem parte do movimento cultural eclético e rico que então enchia a cidade.
Bob Dylan rapidamente se torna uma espécie de messias no imaginário de todos os grupos culturais que querem mudanças. Todos vêem nele o motor das mudanças. Todos querem que ele encarne uma utopia qualquer. Acontece que ele não se deixa rotular e está, ele mesmo, em mudança, não só enquanto pessoa mas enquanto músico e em 1965, no famoso festival de Newport, aparece com uma banda a tocar guitarra eléctrica e desilude todos quanto tinham posto nele a esperança da mudança. Como diz um seu amigo no filme, 'a música não muda nada. Mataram o Kennedy e depois o Martin Luther King. Não mudamos nada'.
O filme apanha esses anos de grande caldeirada social e musical e o optimismo de esperança de uma sociedade nova que, como sabemos, nunca aconteceu e veio a desembocar nos movimentos inócuos dos hippies, que por sua vez desembocaram no nihilismo pragmático dos yuppies.
Muito bom. O actor que representa Pete Seeger tem um desempenho notável que dá o tom da atmosfera de esperança que então se vivia.
Ontem fui ver o filme. O filme não é fácil de ver e não é só por ter cerca de três horas e meia, mais um intervalo de quinze minutos. É sobretudo por ser um filme denso e muito complexo. Não é unidimensional, tem muitas camadas de realidade a desenvolverem-se simultaneamente. Não é fácil falar do filme dando conta desta complexidade que permite várias leituras inter-cruzadas.
Podemos focar-nos no aspecto político; no aspecto filosófico; no aspecto da criação estética; no aspecto psicológico e até no aspecto escatológico da arte, pois a arte é uma linguagem e como qualquer linguagem, quer dizer qualquer coisa.
O filme tem um prólogo, um corpo -dividido em duas partes (com o intervalo a separá-las) que atentam em tempos e temas diferentes da vida de László Tóth, um arquitecto húngaro da escola Bauhaus e de estilo brutalista- e um epílogo que é simétrico, digamos assim, ao prólogo.
O filme não é sobre emigração, embora também aborde esse tema. László Tóth é separado da mulher no fim da Segunda Grande Guerra -ela estava no sector soviético- e vai para os EUA onde tem um familiar que já lá está há muitos anos, já americanizou o nome, converteu-se à religião cristã da mulher, uma americana. Acompanhamos as dificuldades dele enquanto imigrante judeu refugiado de guerra, com um nome e um nariz que não deixa dúvidas. É a primeira coisa que a mulher do primo lhe diz: para ir corrigir o nariz.
Ele acaba por ser contratado por um patrono americano, um industrial de nome Van Buren, muito rico e entusiasmado pela arquitectura, que o contrata para fazer um centro comunitário onde mora, numa pequena cidadezinha da Pensilvânia. Van Buren, cujo filho faz lembrar Trump em muitos sentidos, representa uma América hipócrita e superficial que se vê como superior e excepcional e com direito a tratar os subordinados e os que estão fora da graça, como inferiores.
Isso é muito interessante, porque László Tóth foje da Raça Superior nazi para a terra da liberdade e do sonho capitalista e encontra lá a mesma mentalidade. Assim como a mulher dele e a sobrinha escapam aos soviéticos, que também se pensam superiores e excepcionais. Uma maneira de nos dizerem que a humanidade, com mais ou menos máscaras, é igual em todo o lado, assim que tem algum poder/riqueza.
Numa cena brutal do filme, Van Buren vai a Itália com László Tóth escolher uma pedra de mármore de Carrara para a capela do centro comunitário (que era para acolher todos mas cujo mayor da terra exige que tenha uma capela cristã) e depois de escolherem a pedra (as cenas filmadas na pedreira são das melhores do filme) os populares fazem uma festa e vemos Van Buen, observar a felicidade dos populares que não lhe ligam nenhuma. É nessa altura que ele faz um coisa brutal que muda a vida do arquitecto (que não vou dizer), para mostrar quem é que tem o verdadeiro controlo sobre a vida e a felicidade.
Os edifícios brutalistas do filme, nomeadamente o tal centro comunitário com a capela, em vez de ser uma homenagem à mãe de Van Buren, como ele queria, é claramente um memorial às vítimas do holocausto e uma mostra ou vidência da natureza humana, brutal e dezumanizante. Edifícios enormes, esmagadores, sombrios e fechados, com apenas algumas frestas por onde entra a luz do humano. "Que melhor maneira de falar de um cubo senão construí-lo?", diz László Tóth no filme. Que melhor maneira de falar do humano com poder senão mostrá-lo na arquitectura. O brutalismo é um estilo paradoxal, pois é ao mesmo tempo minimalista e maximalista.
Enfim, acompanhamos o processo interior da construção da arte a partir da vivência interior e vissicitudes da vida do artista.
O filme começa com o silêncio traumatizado da sobrinha e acaba com o silêncio do arquitecto, quando a obra já não é sua mas das pessoas que a julgam e a interpretam sem que ele tenha alguma coisa a dizer. Como estou aqui a fazer, quer dizer, a interpretar o filme, à margem dos seus criadores.
O filme tem outras leituras e tem imensos promenores significativos que provocam a reflexão.
Tudo é bom: os cenários, a fotografia, o enquadramento, a recriação desse tempo pós-guerra, a arquitetura, claro. Os actores conseguem fazer-nos entrar completamente na psicologia das personagens e acreditar na sua realidade.
Este é um filme violento sobre a violência que os homens exercem sobre as mulheres -o corpo que têm de ter e a maneira como podem estar no mundo- como se o mundo e tudo o que nele vive existisse para satisfazer os seus desejos e a violência que as mulheres exercem sobre si mesmas para corresponderem a essas expectativas que inculcam nelas desde a nascença, até chegarem a um lugar de conforto consigo mesmas.
Não é só o corpo que está sempre a ser julgado como se o valor da pessoa se reduzisse às particularidades do seu corpo físico, mas também o modo como se julga tudo o que fazem: se falam de mais, se falam de menos, se choram demais, se nunca choram, se riem demais, se nunca riem, se são ambiciosas, se não são ambiciosas, se podem ter certas profissões, se têm a voz alta, se têm a voz baixa, se têm muitas opiniões, se nunca têm opiniões, se são louras, se são morenas... tudo são insuficiências e defeitos a serem corrigidos pelos homens.
[Há tempos li uma entrevista com a Judit Polgár, a campeã de xadrez húngara. Ela dizia que quando começou a ganhar a campeões, aí pelos 10, 11 anos, preocupava-se muito em não ganhar de maneira que os opositores se sentissem humilhados por receio de não voltarem a convidá-la para os torneios - ela foi a 1ª xadrezista a competir em torneios abertos e alguns dos xadrezistas, homens, com quem jogou diziam-lhe para ir competir nos torneiros femininos (coisa que nunca fez) e que as mulheres não tinham estamina para serem campeãs de xadrez e outras coisas do género. Quer dizer, is para os jogos auto-consciente de ser uma rapariga e de isso ser uma grande desvantagem. Isto torna as suas vitórias muito mais valiosas e impressionantes porque sempre que um rapaz prodígio aparece, logo surgem grande campeões a treiná-lo e toda a gente à sua volta os apoia, mas se é uma rapariga tentam humilhá-la com atitudes e palavras violentas que fazem o seu caminho na insegurança das mulheres e na violência com elas depois se julgam a si mesmas]
Obviamente, o filme passa-se em Hollywood, um dos píncaros dessa violência. A maneira como a realizadora filma os produtores e outro pessoal do meio é a da perspectiva das mulheres e, como tal, eles aparecem como repugnantes (esta cena que se vê aqui do produtor do programa a engolir os camarões e cospe as cascas, o que muito simbolicamente é o que faz às mulheres é repugnante) e/ou canalhas.
No filme a personagem principal, que é uma pessoa com valor mas que a certa altura se vê e sente como um monstro, divide-se em duas, fisicamente e emocionalmente. Essa parte de transformação e ruptura da carne, toda filmada numa casa-de-banho com um enorme espelho é horrível e fica-se com o estômago às voltas. A cena final do filme é brutal.
Vi uma entrevista com a realizadora e as duas actrizes que fazem a mesma personagem, dividida em duas, e a mais nova, uma mulher bonita, dizia que para fazer aquele papel tiveram que pôr-lhe próteses nas mamas e no rabo, para ficar igual àquelas pin-ups, que são o ideal de mulher perfeita na cabeça dos homens e que os produtores buscam quando as selecionam [como nazis, digo eu]. Quer dizer, uma mulher bastante bonita, mesmo assim, é considerada cheia de insuficiências, do ponto de vista dos homens.
O filme é muito bom e fiquei fã da realizadora, que também escreve o argumento, mas achei-o muito difícil de ver. É um género de surrealismo de horror ou algo assim.
Está a passar na TV um dos meus filmes preferidos de sempre, A Hidden Life. A simplicidade com que desvenda verdades profundas sobre a alma humana, as suas misérias e píncaros, com uma linguagem bela como um poema. Tudo no filme é belo, até o horrível, porque vemos nele a verdade. Está aqui tudo o que precisamos saber sobre nós mesmos, sobre a natureza e a vida.
Um século depois de William Blake ver o universo num grão de areia, John Muir, o escritor escocês-americano e ambientalista, fundador das reservas naturais americanas, escreve:
A paisagem do oceano, por mais sublime que seja na sua vasta extensão, parece muito menos bela para nós, animais de cascos secos, do que a da Terra, vista apenas em trechos comparativamente pequenos; mas quando contemplamos o globo inteiro como uma grande gota de orvalho, listrada e pontilhada de continentes e ilhas, voando pelo espaço com outras estrelas, todas cantando e brilhando juntas como uma só, o universo inteiro aparece como uma infinita tempestade de beleza.
O filme conta a história deste resgate e salvamento heróico de um rapaz novo, com vinte e tal anos, que foi para a montanha para se deixar morrer, por uma enfermeira e montanhista de cinquenta e tal anos com metade do tamanho dele, em condições de tempestade muito severa numa paisagem gelada e agreste.Uma sensação de paz tomou conta de mim assim que as minhas botas pisaram na terra. Na base da Jewell Trail do Mt. Washington, o sol de Outubro parecia quente nos meus braços nus. Mas, tendo crescido a explorar as White Mountains de New Hampshire, eu sabia que as condições no alto não seriam nada parecidas com as do vale. Em preparação para uma subida no final da temporada do pico de 2.000 metros conhecido como “lar do pior clima do mundo, carreguei a minha mochila com camadas extras e um par de óculos de proteção para a neve. Saí nesse dia para treinar, com uma mochila pesada e, para aproveitar algumas horas na minha área favorita.O Monte Washington, com o seu clima imprevisível, ceifou mais de 150 vidas nos últimos 150 anos, o que o torna uma das montanhas mais mortais do país. Sentia-me forte naquele dia, mas podia ver nuvens espessas encobrindo a metade superior do pico. A 5.000 pés de altitude, a cerca de 5 quilómetros, o vento começou a aumentar. Parei para vestir mais uma camada de roupa.A neve soprava no meu rosto enquanto continuava a subir, mas conseguia seguir a trilha de olhos fechados. Acima da linha das árvores, as rajadas de vento eram violentas e a temperatura caía. Disse a mim mesma que se o tempo piorasse ainda mais, voltaria; retornar ao meu carro era mais importante do que chegar ao topo.Por volta dos 1.500 pés cheguei ao cruzamento com a trilha Gulfside. Foi quando notei pegadas recentes na neve que me causaram arrepios na espinha. Estava claro que essas pegadas não tinham sido feitas por botas de caminhada resistentes, mas por ténis de rua. Com este clima? Sabia que alguém estava em apuros.Virei-me para seguir as pegadas. Alguns passos depois, vi-o - um homem caído no chão com as costas apoiadas em uma pedra. Uma camada de neve cobria as suas roupas. Gritei e ouvi apenas silêncio.
Agachada ao lado do homem, olhei para o seu corta-vento fino, t-shirt e calças encharcadas. Como é que alguém veio caminhar até aqui tão despreparado? Ele respirava, mas a sua pele parecia de porcelana e tinha uma expressão vazia. Isso era mau sinal.
Em algum momento de nossas vidas, cada um de nós já se viu caminhando com uma sensação de desamparo ao longo de uma montanha agreste, no meio de uma tempestade pessoal. Sozinhos, desprovidos de uma sensação de calor e segurança emocionais e sufocados pela escuridão das nossas emoções, alguns procuram aquele lugar fora da trilha como uma maneira de se libertarem. Tragicamente, alguns conseguem-no; outros conseguem salvar-se sozinhos e outros, como John, são resgatados por pessoas como Pam Bales.