August 26, 2020

“What would human life be without forests, those natural cities?” Thoreau

 


O cais das colunas e outras cenas

 



Hoje tive que ir a Lisboa a um médico e resolvi , já que lá ia, arejar um bocado. Eu e um amigo resolvemos jantar e fazer qualquer coisa. Combinámos encontrar na Praça do Comércio porque ele trabalha ali perto. Fui esperar no cais das colunas que é um dos meus sítios preferidos em Lisboa. É ali que simbolicamente Portugal se abriu ao mundo e uma centena de gerações partiu dali para se aventurar no desconhecido. O lugar está carregado de imaginação e história. Pois estava ali sentada a olhar o movimento do rio quando reparei que os pilares estavam cheios de inscrições, coisa que nunca tinha visto. Aproximei-me e vi claramente no pilar esquerdo o nome de Salazar no fim de um longo texto. Tirei esta fotografia ao pilar e depois fui ao outro e pareceu-me ver, no fim do texto, General... qualquer coisa.

Bem, cheguei agora a casa e vim à net investigar o mistério. Não é mistério nenhum, eu é que nunca tinha ouvido falar disto. Então, as colunas do Cais das Colunas que substituiu o Cais de Pedra, têm os nomes que lhe foram dados no Estado Novo, em 1939: Salazar e General Carmona. (Garcia Nunes in AML)

 

Segundo alguns autores as colunas podem ter inspiração maçónica e representar as colunas do Templo de Salomão, simbolizando o Ocidente e o Oriente, entre outros valores.


No pilar esquerdo, oriental, pode ler-se:

A SEGUNDA VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: CABO VERDE, MOÇAMBIQUE E ANGOLA. XVII DE JUNHO - XII DE SETEMBRO DE MCMXXXIX A VIAGEM DO CHEFE DO ESTADO ÀS TERRAS DO IMPÉRIO EM ÁFRICA ESTÁ NA MESMA DIRECTRIZ DAS NOSSAS PREOCUPAÇÕES E FINALIDADE, É MANIFESTAÇÃO DO MESMO ESPÍRITO QUE PÔS DE PÉ O ACTO COLONIAL SALAZAR  (Luís Filipe A. Pereira in AML)

 



No pilar direito (ocidental) lê-se: 

AQUI EMBARCOU O CHEFE DO ESTADO PARA A PRIMEIRA VIAGEM ÀS TERRAS ULTRAMARINAS DO IMPÉRIO: SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE E ANGOLA. XI DE JULHO - XXX DE AGOSTO DE MCMXXXVIII COM A CERTEZA DE QUE FALA PELA MINHA VOZ PORTUGAL INTEIRO, PROCLAMO A UNIDADE INDESTRUTÍVEL E ETERNA DE PORTUGAL. GENERAL CARMONA (Luís Filipe A. Pereira in AML)




Há quem defenda que as colunas deviam ser restauradas e levadas para um museu e em seu lugar pôr outras com versos da Mensagem, por exemplo.

Enfim, muito interessante. Aqui nesta imagem que fui tirar ao 2º site referenciado, vê-se a inauguração dos pilares com os ditos cujos citados:



Acto 2:

Depois fomos comer a um sítio giro e dar uma volta a fazer tempo porque à noite tínhamos bilhetes para ir a um espectáculo de árias de ópera nos jardins do museu das janelas verdes. Isso só não estragou um dia bem passado porque foi cómico. Nem vou contar em pormenor, mas foi caro, as cadeiras daquele plástico fininho  mal se equilibravam no chão (ao fim de meia-hora já não sabia como me sentar) que tinha uma inclinação ao contrário, o tenor cantava árias líricas apaixonadas como se estivesse a dar gritos de guerra ou de pânico por ter perdido o cacilheiro da tarde, abanou tanto e com tanta força a mezzo-soprano [belíssima voz a dela] (no intervalo de andar constantemente a atirar-se para cima das mulheres aos beijos) que a mulher deve estar cheia de nódoas negras nos braços e no fim todos bateram muitas palmas e gritaram bravos. Nós olhávamos um para o outro com vontade de rir e eu dava graças por estarmos de máscara para ninguém me ver rir. 
O pianista acompanhador, Francisco Sassetti, tocou maravilhosamente. 
A mezzo, uma mulher elegante, levava um vestido vermelho tão apertado que se viam todos os músculos da barriga a trabalhar. Era como estar a ver o mecanismo de um piano por dentro. Distraí-me a observar o mecanismo dos músculos da barriga dela a contrair e descontrair com o canto e desconcentrei-me. No fim o tenor cantou músicas de zarzuelas  populares muito bem e percebemos que a vocação dele é a de cantor romântico de charme popular. 


August 25, 2020

Pôr coisas em perspectiva

 


Só para que fique claro. A situação dos professores que têm doenças que os põem em grupos de risco, com deficiência atestada, como é o meu caso, é a seguinte: estamos diante do edifício do local de trabalho numa cadeira de rodas e todas as entradas têm uma escadaria. E quando perguntamos como vamos entrar, aparece o responsável e diz: se não têm condições de entrar, quer dizer, se as vossas perninhas não andam e não podem subir as escadas, vão para casa de baixa (com cortes no salário) porque gastarmos dinheiro a construir rampas, nem pensar. 

Isto chama-se descriminação, não tem outro nome.


Quando as pessoas argumentam sem honestidade intelectual e/ou com desinformação

 




Parece-me evidente que existe inépcia comunicacional de ministério da Educação e DGS, incapazes de tranquilizar a comunidade escolar e explicar categoricamente o que justifica que as orientações para as escolas sejam mais flexíveis do que noutros sectores. Mas isso, por si só, não significa que as orientações sejam desadequadas. Pelo contrário, tanto quanto se sabe, as orientações da DGS estão ajustadas às evidências disponíveis e alinhadas com as medidas adoptadas em vários países europeus. E essa mensagem, tão essencial para um regresso às aulas sereno, não está a passar.

Há três aspectos que me parecem determinantes para o enquadramento destas orientações sanitárias, que merecem maior destaque na apresentação do plano de reabertura das escolas.

Primeiro, as orientações da DGS estão alinhadas com as evidências empíricas. Os estudos já realizados mostram que as crianças estão menos sujeitas a contágio ou a complicações de saúde causadas pela Covid-19 – e, também, que até aos 10 ou 12 anos aparentam ser muito pouco transmissoras. Sendo certo que há estudos que apontam para que, a partir dessa idade, o potencial de transmissão aumente para próximo do de um adulto, a obrigatoriedade de uso de máscara a partir do 2.º ciclo limitará fortemente os riscos. Pode soar a pouco, mas nas escolas e em muitas áreas de actividade já se verificou que o uso de máscara (acompanhado de medidas de higienização) é uma via eficaz para prevenir contágios.
Segundo, as reaberturas até ao momento (entre Abril e Junho) sugerem que as escolas são espaços com segurança acima da média – isto é, espaços muito frequentados que não aparecem associados a focos de contágio. A reabertura das escolas, em Portugal (secundário) e em muitos outros países europeus (no básico), não gerou um descontrolo da pandemia. Isto é também válido para o pré-escolar, onde o distanciamento social é uma impossibilidade prática. Mais: não há, no mundo inteiro, registo de professores infectados pelos seus alunos, mostrando que a protecção dos docentes é naturalmente tida em conta. Sabendo-se que as reaberturas aconteceram em grande escala e em diversos contextos e países, estes são dados relevantes, significativos e encorajadores.

Terceiro, as orientações da DGS em Portugal são muito similares às de vários países europeus para as suas reaberturas escolares, sendo transversal a menor exigência no distanciamento social. Como desenvolvi neste ensaio acerca da preparação do próximo ano lectivo em vários países, a redução do distanciamento social será o elemento-chave da reabertura das escolas por toda a Europa. E é muito fácil encontrar paralelos com as opções portuguesas. Por exemplo, em França, a distância entre alunos será de 1 metro e, quando não possível, o uso de máscara será obrigatório. Noutro exemplo, na Bélgica, os alunos com menos de 12 anos terão prioridade absoluta no ensino presencial, que deverão frequentar diariamente mesmo nos piores cenários pandémicos.

Alexandre Homem de Cristo

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"Primeiro, as orientações da DGS estão alinhadas com as evidências empíricas. Os estudos já realizados mostram que as crianças estão menos sujeitas a contágio ou a complicações de saúde causadas pela Covid-19 – e, também, que até aos 10 ou 12 anos aparentam ser muito pouco transmissoras."

Isto é falso. Na verdade não sabemos, em grande parte porque as crianças e os adolescentes ficaram fechados em casa com os pais e ainda não regressaram às escolas de modo que não tiveram oportunidade de apanhar ou transmitir o vírus. Recentemente vários estudos mostraram que o vírus nas crianças aparece mais concentrado e resistente, o que pode significar implicações na transmissão. Mas, volto a dizer, ninguém sabe ao certo porque ainda não houve condições para se saber, de modo que dizer que os estudos mostram que as crianças não são são transmissoras é falso, seja por falta de informação ou desonestidade.

Segundo, as reaberturas até ao momento (entre Abril e Junho) sugerem que as escolas são espaços com segurança acima da média – isto é, espaços muito frequentados que não aparecem associados a focos de contágio. A reabertura das escolas, em Portugal (secundário) e em muitos outros países europeus (no básico), não gerou um descontrolo da pandemia. Isto é também válido para o pré-escolar, onde o distanciamento social é uma impossibilidade prática. Mais: não há, no mundo inteiro, registo de professores infectados pelos seus alunos, mostrando que a protecção dos docentes é naturalmente tida em conta. Sabendo-se que as reaberturas aconteceram em grande escala e em diversos contextos e países, estes são dados relevantes, significativos e encorajadores.

Outra desonestidade. A reabertura das escolas deu-se com os alunos do 11º e 12º ano, em poucas disciplinas, de modo que estavam nas escolas, uma percentagem ínfima da população escolar e seguiram-se, de facto, as orientações da OMS. Mesmo assim houve casos de covid. A reabertura das escolas no norte da Alemanha durou uma semana, após o que tiveram que fechar. Na Califórnia, escolas abriram recentemente e voltaram a fechar por casos de covid e sabemos que há casos onde os directores fazem pressão para não se reportarem os casos. 

As escolas ainda não abriram em grande escala, isto é falso: ainda estamos nas férias de Verão na maioria dos países do Norte e só agora algumas começam a abrir, de modo que não temos maneira de saber o que se vai passar na abertura das escolas. Aliás, as universidades, que não são frequentadas por crianças e adolescentes, não vão vão ter ensino presencial ou vão tê-lo misto, na maioria dos países, o que é significativo. 

Dizer que não há um único registo de professores infectados é outra desinformação: não sabemos e não podemos argumentar com a ignorância. Eu não sei se há casos, logo eles não existem? Não foram feitos testes para se saber se os casos de covid-19 que surgiram com aquelas percentagens mínimas de pessoas nas escolas, foram transmitidos dentro das escolas, de modo que ninguém sabe. Portanto, mais uma vez o senhor é desonesto.

Finalmente dizer que as orientações são idênticas às de outros países que sabemos que também têm desinvestido na educação e não estão para gastar dinheiro com a segurança das pessoas as escolas, parece-me o cúmulo da falta de seriedade com que encaram a segurança das pessoas. É como dizer, 'sim, não há condições mas os outros países também não as têm, logo estamos bem'.


Por exemplo, se formos ler informação de especialistas encontramos o seguinte:

To prevent a second COVID-19 wave, relaxation of physical distancing, including reopening of schools, in the UK must be accompanied by large-scale, population-wide testing of symptomatic individuals and effective tracing of their contacts, followed by isolation of diagnosed individuals. (the lancet.com)

O que dizem os especialistas é, 'para prevenir uma segunda vaga de Covid-19, o relaxamento das regras de distanciamento físico, incluindo a abertura de escolas, no RU, deve ser acompanhado por testes alargados à população sintomática e seus contactos, etc.' Ou seja, a diferença é que aqui ninguém é desonesto e assumem que a abertura das escolas vai ser feita no relaxamento das regras de segurança quanto ao distanciamento e avisam o que é preciso fazer para remediar. 

Relaxar as regras de segurança é o que vão fazer em quase todos os países, mas argumentar que isso é bom ou normal como faz este indivíduo é desonestidade intelectual. 

A questão é: estamos no meio de uma pandemia e os jornalistas, em vez de escreverem no sentido de defenderem a segurança da comunidade escolar, escrevem a defender que se abram as escolas como se não estivéssemos no meio de uma pandemia com o argumento do pensamento mágico de que tudo vai correr pelo melhor. E porquê: porque os governos vêm fazendo uma operação de 'defund' da educação pública há quase duas décadas e querem continuar nessa política. E os jornalistas têm sido, e são, coniventes, o que é triste.

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Uma associação médica norte-americana elaborou um ranking de atividades e do seu grau de risco para a covid-19. (Quais as atividades de maior risco para contágio?classificando-as de 1 a 10, sendo 1 das de menor risco e 10 as de maior risco. Embora ponha as aulas no nível 5/6 em termos de risco, no fim, conclui desta maneira: Como já tinha antes explicado Ryan Malosh, investigador da Universidade de Michigan., em termos gerais, "as atividades de maior risco são aquelas que são feitas dentro de casa, com pouca ventilação, e em espaços fechados com muitas pessoas durante longos períodos de tempo". As atividades de menor risco são ao ar livre, com amplo espaço para a distância social, poucas pessoas fora do seu agregado familiar e por períodos de tempo mais curtos".

Portanto, as actividades de maior risco são as que são feitas dentro de casa, com pouca ventilação, espaços fechados com muitas pessoas por longos períodos de tempo - ora, esta é a descrição das salas de aula: espaços fechados com pouca ventilação onde estão concentradas muitas pessoas durante longos períodos de tempo sem distanciamento físico - salas com 40 metros quadrados onde estão 30 alunos uma manhã e/ou uma tarde inteira com professores, todos em cima uns dos outros a respirar o mesmo ar mal ou nada ventilado.

Eu sou a favor de se abrir as escolas e quero ir trabalhar, não quero ficar em casa e só não vou se a minha médica pneumo-oncologista me disser que o risco é demasiado grande ou se as condições na escola forem demasiado perigosas porque não sou louca e não quero adoecer ou morrer em 4 dias para provar o meu ponto de vista de que as escolas não têm segurança. Quer dizer, estou há meses em casa, a sair pouquíssimo, com cuidado para não apanhar este vírus e não vou agora para a escola como um forcado para a cara do toiro. Isto com que lidamos é uma pandemia, um problema sanitário, não é uma corrida de touros a ver quem é mais louco de se pôr em frente da besta sem protecção.

Eu sou a favor de se abrirem as escolas, mas não sou a favor de se abrirem as escolas como se não houvesse pandemia e as regras de segurança fossem as de tempos normais, que é isso que este jornalista e todos os outros defendem. Ainda não vi um único jornalista, para não falar em políticos que defenda a abertura das escolas em segurança. Aliás, a redução de alunos por turma, que é a principal medida para se poder fazer um distanciamento físico, foi chumbada na AR.


A sede de poder dos governantes aliada à falta de consciência abrem crateras nas sociedades

 


Há um movimento em Inglaterra chamado, 'Defund BBC', que clama pelo fim do pagamento de taxas para manter a estação como serviço público. Dizem que não faz sentido suportar uma cadeia de TV contra aa vontade e que só deve pagar quem quer, falam em liberdade, etc. Na realidade, a campanha tem por detrás organizadores do movimento de Brexit e queixam-se que a estação está tomada pela esquerda e não é independente.

A BBC é a estação pública nacional mais antiga do mundo e muito respeitada, mas Cameron, um político ganancioso de poder e sem grande cabeça que queria marcar pontos para o partido, desencadeou um movimento que abriu uma cratera entre os ingleses que não pára de alastrar. Agora ninguém a sabe fechar. No dia em que não houver serviço público de TV as pessoas ficam como nos EUA, reduzidas a canais que são meros instrumentos de desinformação de propaganda política partidária. 

Muitos defensores do 'defund BBC' usam o hino de Elgar, Land of Hope and Glory, [que uma grande quantidade de ingleses quer passar a usar em vez do God Save The Queen] como símbolo dos seus sentimentos patrióticos, que acusam a BBC de trair.

Era bom que aqui no país se pusesse os olhos neste exemplo, sinal inequívoco de retrocesso democrático e social que parece alastrar-se sem que aqueles que estão em lugares de poder o percebam e lhe ponham travão, travando as suas ambições desmesuradas de poder.

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“The BBC is for the few and I’m not included.”

Another added: “The BBC has become an organisation run by a minority who hold in absolute contempt the majority who are forced by law to fund it.”

The BBC argues it continues to provide politically neutral and un-bias coverage.

Shortly after the 2019 General Election Lord Hall, the BBC’s Director General, defended the corporation in an article for the Daily Telegraph.





Land of hope and glory, mother of the free
How shall we extol thee, who are born of thee?
Wider still and wider shall thy bounds be set
God, who made thee mighty, make thee mightier yet
God, who made thee mighty, make thee mightier yet

Palavras inconsequentes



"São movidos pela qualidade da educação" mas quando a redução de alunos por turma foi à AR chumbaram. É isso. Falam muito em querer fazer mas fica tudo nos discursos.

E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!

Totally missing de point

 


Em primeiro lugar, frase (que é muito mais que um tom desagradável) é dita pelo primeiro-ministro, em público, e em funções; em segundo lugar, que o primeiro-ministro sinta à vontade a falar desse modo em frente de jornalistas mostra o tipo de relação que tem com eles, como aliás, o artigo deste indivíduo a desvalorizar tudo como sem importância, mostra à saciedade.

Também podíamos dizer que um dos problemas de muitos jornalistas é não verem nunca nada de essencial em coisa alguma. Nada, nadinha...

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A verdade é que ficamos presos a uma discussão sem sentido feita a propósito de um tom desagradável usado por António Costa, a propósito de uma polémica que estava a causar mossa na imagem da ministra da Solidariedade, em particular, e na imagem do Governo, de uma forma geral. Gastamos sempre menos tempo a discutir o essencial que a discutir o acessório.

Paulo Baldaia



E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!


August 24, 2020

Blending into the night

 




Hiroshi Sugimoto 
Ionian Sea IV, Santa Cesarea (Night), 1990
gelatin silver print
42.5 x 54.3 cm
Private collection

Nature

 




Beba poesia sem moderação II

 


I will go into the woods 

Barefoot and bered

To speak with my brethren

And walk among the wolfes

To remember my feral nature

Cure myself of human instinct 

I'll sharpen my fangs

Tear away my shame

And relish in my rage

At the forgotten beast

I now reclaim


Devin Burger 


Beba poesia sem moderação

 



The human instinct

I watch enthusiastically -pigeons fly,
It gives me hope under the blue sky,
Courage that we acquire seeing them,
Vigor that we have up brim overwhelm

We have learnt flying, seeing them; birds
We have learnt swimming, seeing them; fishes
How one can forget the divine guidance?
This is truth my brethren and not a parlance,

Aftab Alam

by Mary Midgley



 

“. . . Neither ecological nor social engineering will lead us to a conflict-free, simple path . . . Utilitarians and others who simply advise us to be happy are unhelpful, because we almost always have to make a choice either between different kinds of happiness--different things to be happy _about_--or between these and other things we want, which nothing to do with happiness.

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"(..), any explanation [of human behavior] that invoked culture, however vague, abstract, far-fetched, infertile and implausible, tended to be readily accepted, while any explanation in terms of innate tendencies, however careful, rigorous, well-documented, limited and specific tended to be ignored.

In animal psychology, however, the opposite situation reigned. Here, what was taboo was the range of concepts that describes the conscious, cognitive side of experience.

The preferred, safe kind of explanation here derived from ideas of innate programming and mechanical conditioning. If anything cognitive was mentioned, standards of rigour at once soared into a stratosphere where few arguments could hope to follow."

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My present purpose, however, is the distinct and supplementary one of asking how this unique thing, rationality, is possible in being that is not just a disembodied intellect, but also and among other things some kind of animal, how it fits into such a life. (...)

But the chief difficulty about accepting continuity between man and other species, or between the human intellect and the rest of man, now comes not from traditional religion, but from those who do amputate the soul. It stems from the deep reverence people now feel for human success, and particularly for success in science.

by Mary Midgley

Volodymyr Tsisaryk - um escultor ucraniano que descobri há pouco tempo

 


Tem peças de grande profundidade, como esta. São quase todas de inspiração clássica, grega. Perguntei há bocado o nome da peça ao autor (descobri as esculturas no FB e fui à procura da página dele) e ele respondeu que se chama Sylph. Ora, Sylph é o nome que Paracelso deu a um dos quatro elementos gregos, o que representa o ar. Daí a figura ser alada. Sylph é de todos o mais forte, segundo a mitologia de Paracelso, que é diferente da filosofia dos elementos gregos. O rosto que se adivinha por detrás das asas é sério e penetrante como o olhar ferrado nas próprias asas. Ele vê com o espírito aéreo ou através dele e não com os olhos terrenos como nós.


Volodymyr Tsisaryk


Outra peça linda onde se vê a inspiração grega. Cheia de um movimento estilizado. Muito elegante, como os vasos gregos. Apesar das figuras terem pernas fortes o movimento torna-as leves. Quase parece que dançam.

marathoners by volodymyr tsisaryk

E esta é filosófica. Um pensador no acto de pensar:


Duas séries

 


Estas férias vi duas séries. A primeira foi o Game of Thrones. Vi as temporadas todas. A ideia da série é muito boa e está bem desenvolvida até à penúltima temporada. A última é uma salganhada que faz lembrar novelas baratas onde no fim, para causar surpresa, descaracterizam os personagens principais e põem-nos a agir de modo completamente incoerente com toda a linha que vinha sendo desdobrada desde o início. O fim ficou em aberto, não sei se para fazer render mais o peixe.

Confirma-se que é uma série machista (tirando as princesas e rainhas e gente da nobreza só uma ou duas mulheres não são servas domésticas ou prostitutas) e homofóbica. 

Vale a pena ver porque a produção da série é fantástica. As cenas de batalha, os cenários das várias casas nobres e os dragões, sobretudo as cenas em que entram dragões, enchem as medidas. Uma das melhores característica da série são os personagens: muito bem construídos, têm vida própria, são complexos e evoluem ao longo da série. Os actores também são muito bons. Alguns excepcionais.

Vi uma segunda série, uma mini-série de seis episódios, de 2012, chamada, White Heat. É passada em Londres. Um grupo de jovens universitários de várias etnias e condições sociais aluga quartos na casa de um deles, nos anos 60 e a série acompanha-os e à vida deles em períodos escolhidos de cada década. Vamos evoluindo da era dos hippies para a da Thatcher até 2012. A série aborda os temas culturais, sociais e políticos desses 40 anos através da vida e do relacionamento deles uns com os outros, que é complicado. Tem bons actores, vários muito conhecidos, como a Claire Foy, por exemplo. É interessante.


A produção e a cinematografia desta série, GOT, são espectaculares.



Este é um excerto da série White Heat.


E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!

200 anos de Regime Constitucional - A revolução liberal do Porto e o fim do absolutismo

 



Tal como então, o país está mergulhado numa profunda crise, económica e social e vive debaixo de uma tutela.


Há precisamente 200 anos, o Porto era protagonista de um evento determinante, que marcou a história da cidade e do País. A Revolução Liberal de 1820

Foi com a proclamação "PORTUENSES! Levar a redenção aos cativos lisbonenses!" a ecoar pela Invicta Cidade, no dia 24 de agosto de 1820, que teve início a Revolução Liberal, um movimento que teve repercussões imprescindíveis na história de Portugal, impulsionando a criação de um regime constitucional.

Tal movimento, que permitiu o retorno da corte portuguesa e do rei D. João VI que se encontrava no Brasil devido à Guerra Peninsular, colocou um ponto final à era da monarquia absolutista em Portugal, desbravando assim caminho para a primeira Constituição, que viria a ser instaurada em 1822.

Considerado, na época, "um horrendo crime de rebelião" pelo Palácio do Governo de Lisboa, a Revolução Liberal do Porto acabou, mais tarde, por ser abraçada pela capital.

Foi o início da "difícil, lenta e tormentosa fundação do Portugal moderno", recordou o presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, num artigo de opinião assinado na edição de sábado do Diário de Notícias, lembrando que o país atravessava um momento muito delicado: "Estava mergulhado numa profunda crise política, económica e social, e vivia debaixo de uma dupla tutela", constituindo-se por um lado um protetorado dos ingleses, e por outro uma colónia do Brasil.

Volvidos duzentos anos, o Porto revolucionário e reivindicativo continua a estar presente na marca identitária das gentes da cidade, irradiando esse contraste e mantendo o espírito liberal que traça a diferença.

A Rússia é agora uma adhocracia

 


At the time of writing, Alexei Navalny is still fighting for his life, after apparently being poisoned as he left Tomsk. For many, this must have been a “Kremlin hit,” but the uncomfortable truth is that under Vladimir Putin, political murder is no longer a monopoly of the state.


This is one of the lethal side-effects of “adhocracy.” Putin’s system is a substantially de-institutionalised one, in which the president’s favor is the main asset everyone wants to earn, and formal roles and responsibilities matter less than how one can be of use today. The boss largely doesn’t micromanage, but rather sets broad objectives and hints at what kinds of things he would like to see.This generates flexibility and initiative, but at the cost of duplication and control. Ambitious and cynical figures work to what they believe Putin wants, or else find ways to justify their own interests as being in line with those of the state.

In Navalny’s case, there is no lack of potential enemies. Someone he was investigating for one of his forensically presented and devastating video exposes of official corruption, who assumed that the Kremlin would ultimately forgive direct action? A political figure who feared Navalny’s electoral tactics or who assumed that the Kremlin would like to see him taken out of the equation? One of the big beasts of the system, who doesn’t have to care too much what a frankly diminished president thinks, or who believes he can count on the boss’s indulgence?

So far, at least, we don’t know, although in the modern age almost everything comes out eventually. However, it does point to one of the dangerous and alarming aspects of the Putin system, especially as the president himself seems less willing or able to play the role of the Great Decider and rein in his more murderous adhocrats.

A state that kills is a terrible thing, but its red lines can generally be observed and it can ultimately be held to account.

But a state that permits a whole range of actors and interests to kill with impunity is an even more uncomfortable thing, as the red lines may be invisible, intersecting and mobile, and the challenge of accountability is even greater.

O decréscimo de credibilidade do Ocidente está a insuflar a ousadia de Putin

 



German hospital: Clinical findings point to Navalny's poisoning

Tests on the Russian opposition politician show evidence of poisoning but his life not in danger, Berlin hospital says.






They said at the moment the specific substance is not yet known.

The hospital said "the patient is in an intensive car unit and is still in an induced coma. His health is serious but there is currently no acute danger to his life".
...
German Chancellor Angela Merkel's spokesman Steffen Seibert earlier on Monday told reporters: "The suspicion is ... that somebody poisoned Mr Navalny - that somebody seriously poisoned Mr Navalny - which, unfortunately, there are some examples of in recent Russian history, so the world takes this suspicion very seriously."

He also said Berlin police and federal agents were posted at the hospital.

"It was obvious that after his arrival, protective precautions had to be taken," he said.


E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!


Toma lá 100 pregos e vai construir uma ponte, dizem-nos. Estas coisas desanimam logo

 


E porque é que desanimam? Porque revelam desconhecimento da situação (o que os faz tomarem decisões erradas) e expectativas irrealistas, da ordem do pensamento mágico. 

Das Orientações do ME para as escolas, destaco apenas três:



"Professores devem atender às necessidades de cada aluno" - um professor normal tem 5 a 7 turmas, o que soma de cerca de 150 o 210 alunos, mas mesmo que tenha, por exemplo, 4 turmas estamos a falar de cerca de 120 alunos. Como é possível, durante uma aula de 90 minutos conhecermos as necessidades de cada aluno? Mesmo que não avançássemos no programa e estivéssemos toda a aula a tentar perceber as necessidades de cada um, não tínhamos mais que 3 minutos com cada aluno. Mesmo que consigamos perceber, com testes de diagnóstico, as necessidades de cada um, não é possível, no espaço de duas aulas por semana, às vezes só uma, atender às necessidades de cada um, porque as necessidades dos alunos não são como as dos doentes: a pessoa tem uma doença, o médico diagnostica, passa um medicamento, ou faz um tratamento e fica curada. 

O ensino é mais como as sessões de psicanálise: levam muito tempo a processar e resolver porque é necessário reconstruir recursos básicos que estão enterrados debaixo de outros que os remediaram mal, é necessário que o aluno colabore na rectificação dos seus problemas e isso obriga a que os reconheça. Tudo isto requer investimento e tempo.

Por exemplo (um exemplo banal), o aluno não sabe estudar,  não tem métodos de estudo, não tem autonomia, nunca fez um plano de trabalho, muito menos de estudo; nunca leu um livro em toda a vida, excepto os que teve que ler na aula, não sabe exprimir-se, nem por escrito, nem oralmente, faltam-lhe os conceitos/vocabulário (porque não lê) logo, não compreende as ideias mais básicas; não tem auto-disciplina; não tem critérios de rigor e é auto-indulgente; não sabe responder a uma questão que não seja de reprodução directa; não sabe fazer uma pesquisa, nem na mediateca nem na internet; desiste ao primeiro obstáculo porque lhe faltam os recursos mentais e psicológicos ; não sabe organizar duas ou três ideias numa resposta coerente; tem falhas básicas na construção de juízos lógicos; não tem uma atitude de aprendizagem; está habituado a trabalhar transcrevendo ou copiando. Isto é o banal, no 10º ano. 

Como é que é possível alguém esperar que o professor possa corrigir todas estas necessidades/problemas, muitas delas a depender da própria atitude dos pais relativamente à educação dos filhos também se modificar, em 3 minutos uma ou duas vezes por semana, que é o que temos dado que as turmas estão a 28 ou 30 alunos. 3 minutos! 

Como é que podemos ter respeito por pessoas que nos dizem, 'toma lá 100 pregos e vai construir uma ponte'?

Em turmas de 28 ou 30 alunos, só ao fim de dois ou três meses é que sabemos os nomes deles todos e as caras, tendo 6 ou 7 turmas ou mesmo 5 ou 4; e, mesmo assim, é porque temos todos estratégias para eles não perceberem que não sabemos os nomes e as caras deles. E isto é em tempos normais e não de pandemia...

Quando as turmas têm 16, 18 alunos, por exemplo, nós conhecemos os alunos muito mais rapidamente. 
Há menos dispersão dentro da sala, geralmente é um grupo mais coeso, os alunos têm mais facilidade, menos acanhamento em participar sem serem chamados o que ajuda muito a perceber a situação de aprendizagem em que estão. Fazemos muitas paragens, porque há tempo, discutimos os assuntos, corrige-se e reforma-se o discurso oral no próprio momento, fazemos trabalhos que são acompanhados e corrigidos ali mesmo, porque há tempo para ir a 8 mesas numa aula. Enfim, é um mundo de possibilidades que com turmas de 30 alunos e horários de 7 turmas ou mesmo 6 ou 5 tornam impossível e só um cego ou alguém que esteja completamente a zero do que é ensinar crianças e adolescentes é que não percebe isto.

Aqui a seguir lemos que deve dar-se constante feedback aos alunos. Completamente de acordo. A questão é: para dar feedback constante é preciso avaliar constantemente, o que não é possível, dadas as condições acima descritas. Nem que trabalhássemos 24 horas por dia conseguíamos estar constantemente a construir avaliações para corrigir e dar feedback a 150 alunos ou 200 a não ser que se faça tudo à balda. Hoje em dia há escolas que vão ao ponto psicótico de obrigarem os professores a introduzir em plataformas todas as avaliações que fizerem a todos os alunos, ponto por ponto e com justificação de todos os pontos e os professores, muitos com 200 alunos, não fazem mais nada senão essas porcarias de loucos! 



Finalmente leio que, mesmo com a presença dos alunos, deve privilegiar-se trabalho com plataformas digitais com vista a uma progressiva autonomia dos alunos. A autonomia não tem que ver com plataformas digitais. Um aluno pode ser muito expedito a usar o zoom e a responder a questionários online e não ter nenhuma autonomia de trabalho. A autonomia de trabalho não deriva do uso de plataformas digitais. Aliás, usar as plataformas digitais é uma coisa que eles aprendem num ápice; ser autónomo requer uma aprendizagem continuada e sustentada no tempo. 

Estas instruções do género, 'toma lá 100 pregos e vai construir uma ponte', desmoralizam. 


E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!


SSDC

 



E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!


"Os gajos cobardes não quiseram ir trabalhar"

 

Isto a mim é o que mais me assusta: é saber que a acção do governo está construída em cima de um grande desprezo pelas pessoas, desprezo pela lei e incapacidade de assumir responsabilidades. Se há grupos profissionais que correram risco de saúde no trabalho, durante esta pandemia, muitas vezes em condições deploráveis foram os médicos, os enfermeiros e os trabalhadores dos supermercados. 

Outros, como os professores ou algumas pessoas do governo, trabalharam muito para além dos seus deveres, embora os professores com custos monetários que os do governo não conhecem, mas uns e outros não correram riscos de saúde como os outros grupos que estavam, e estão, na linha da frente. 

Mas o primeiro-ministro não quer saber de nada. Aquele célebre princípio do PS já mudou um bocadinho e agora lê-se: aos amigos tudo, aos inimigos nada, aos outros aplique-se a lei e, se a lei não nos favorece, mude-se a lei.

E trata as pessoas, publicamente, por, 'os gajos'. Que diabo... tira completamente a dignidade e o respeito próprios do seu cargo de chefe de um orgão de soberania. A fulanização das relações institucionais degrada-as. Quando ouço o primeiro-ministro falar assim, fico a pensar: é assim que falam de nós todos nas reuniões de concelho de ministros, ou entre eles: falam como naquela reunião de ministros do Bolsanaro onde era tudo, 'os gajos', 'as putas' e por ía fora? Será que quando falam dos professores, sendo nós uma maioria de mulheres, dizem, 'essas gajas' ou pior...?

O primeiro-ministro está cansado e com excesso de trabalho? Não é o único. Muitos outros trabalhadores também estão (entre eles os médicos) e com a diferença que não têm, nem os seus meios, nem o seu poder de tirar obstáculos do caminho de modo que tudo lhes é mais difícil. E depois, uma das razões pelas quais está com excesso de trabalho tem que ver com o ter preferido ter uma governo de subservientes e amigos a ter um governo de pessoas competentes e isso o obrigar a ter que andar sempre a tapar a incompetência dos outros. Ter escolhido assim é um sinal da sua própria inadequação para o cargo, porque um estadista rodeia-se de pessoas competentes e não tem medo que a competência alheia lhe faça sombra.

Isto é o que vai passar-se com os professores quando começarem a chegar denuncias da total falta de segurança no trabalho: alunos a 10cm uns dos outros dentro das salas apinhadas, fechados toda a manhã ou toda a tarde na mesma sala, todos a respirar o mesmo ar, a tossir e a espirrar, com umas máscaras do chinês cheias de germes, sem gel nas salas de aula para desinfectar as mãos, sem funcionários para desinfectar os espaços, meia dúzia de casas de banho para 1500 alunos, os professores a mesma coisa, etc. Rapidamente vamos ser 'gajas cobardes'.

O primeiro-ministro finge desconhecer que, para paralelamente aos deveres profissionais, também existem os direitos e que estes incluem certas condições de trabalho. 

Quando o primeiro-ministro vem à televisão dizer que agradece e louva o trabalho dos médicos, dos enfermeiros e de todos que estão na linha da frente, é tudo mentira para as câmaras da TV...?

Não ponho aqui o vídeo porque acho-o ordinário.  


E já agora, senhor ME: mande pagar o que me devem, sff!