A insustentável dureza da revisão do ECD
O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade e, desde logo, os docentes se mobilizarem.
Mário Nogueira
O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade e, desde logo, os docentes se mobilizarem.
Adiando o que é prioritário para valorizar a carreira e tornar atrativa a profissão docente, os ministérios da Educação e das Finanças vão arrastando o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD). Para tal contribuirá o facto de os governantes terem percebido que a concretização das suas intenções é mais difícil do que pensavam, mas, também, que a contestação dos professores sobe de tom. Num momento em que são vários e justos os motivos de contestação dos portugueses (pacote laboral, preço dos combustíveis e inflação em geral, insuficiente apoio às vítimas das tempestades ou apoio ao belicismo de gente perigosa), o Governo não quer abrir um novo foco de forte protesto. Como tal, este é o momento oportuno de lutar para travar o objetivo dos governantes e conseguir que, da revisão do ECD, resulte a indispensável e inadiável valorização da carreira e da profissão de professor(a) e educador(a).
Ao longo do processo tem havido quem branqueie o curso da revisão, considerando serem apenas alterações de semântica, pelo que corpo especial e carreira de regime especial são a mesma coisa, assim como concurso e procedimentos concursais, ou que o facto de a carreira docente ser de corpo especial não evitou a divisão em categorias.
Há que ser sério: o que afirmam ser igual é muito diferente e, quanto à divisão, não teve a ver com a natureza da carreira, mas com a organização, passando de unicategorial para pluricategorial, o que foi derrotado, com luta, pelos professores.
Há 18 anos, na sequência da Lei 12-A/2008, cerca de mil carreiras da Administração Pública (AP) foram extintas e automaticamente integradas na de regime geral, então criada. Já os corpos especiais (diplomatas, militares, segurança, docentes, investigadores, médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e bombeiros) seriam convertidos em carreiras de regime especial, através de processos de revisão que iriam estabelecer, para cada um, as normas de transição. Só enfermagem (2009) e técnicos de diagnóstico e terapêutica (2017) viram a carreira convertida, com consequências que têm justificado fortes lutas, devido, entre outros motivos, à avaliação pelo SIADAP e à perniciosidade da TRU.
Para o Governo chegou a vez dos docentes, daí, logo à cabeça, ter escrito que a carreira será de regime especial, grau de complexidade funcional 3 (que decorre do requisito habilitacional), e que o perfil do docente terá em conta o Referencial de Competências para a AP (ReCAP), publicado pela Portaria 214/2024/1, que serve para caraterizar os postos de trabalho dos mapas de pessoal, os procedimentos concursais, a formação e desenvolvimento profissional e a avaliação do desempenho.
Do já longo processo, mas ainda curta revisão, já se percebeu a intenção de: as vagas de quadro serem substituídas por postos de trabalho (obviamente, em “mapas de pessoal”), com exceção dos quadros de zona pedagógica que, tendo 17.000 docentes, seria impossível afetar cada um a uma “unidade orgânica”; as cinco modalidades do concurso serem substituídas por dois procedimentos concursais que, misturando-as, complicam o que existe; todos os docentes passarem a estar sob regime de contratação em funções públicas, uns a termo e outros por tempo indeterminado, extinguindo-se a natureza definitiva do vínculo; o absurdo período probatório a mudar de nome para período experimental com indução, que não é uma coisa nem outra; as habilitações profissionais e próprias a serem substituídas por formação científica e pedagógica e formação científica, possibilitando que docentes sem formação pedagógica possam lecionar onde hoje estão impedidos, como é o caso do 1.º ciclo. A “vinculação” passa a fazer-se por “recrutamento”, que é a conversão do contrato a termo em tempo indeterminado, mas ainda sem se compreender o mecanismo. Ademais, o ministério pretende eliminar direitos como os de negociação coletiva, participação ou reconhecimento de doenças provocadas ou agravadas pelo exercício da profissão.
Quanto à estrutura da carreira, salários e progressão (TRU?), avaliação do desempenho (SIADAP? e ReCAP!), horários de trabalho e reduções letivas, por exemplo, são aspetos empurrados para mais tarde.
O anunciado objetivo da revisão era valorizar uma profissão de que muitos saem, por aposentação ou abandono, e poucos escolhem, havendo mesmo 30% dos estudantes dos cursos a desistir deles. Contudo, se o processo não está a corresponder ao que seria espectável, afirmações do ministro em que lamenta ser o patrão que mais emprega, comparando a Educação a uma cadeia de supermercados, e que a despesa com docentes atinge os 2% do PIB, indiciam que o governante se queixa de haver professores a mais e despesa excessiva, o que contraria a necessidade e o objetivo inicialmente previsto.
Reduzir profissionais e despesa, afinal, parece ser o verdadeiro objetivo e, nesse sentido, foram tomadas ou preparam-se medidas: transferência de toda a administração educativa para institutos públicos, que são entidades de administração indireta do Estado (AGSE, I.P.; EduQa, I.P.; CCDR, I.P.); integração dos ex-delegados regionais da DGEstE nas CCDR, I.P.; fusão de ciclos; transferência de mais financiamento para fundos europeus; aprofundamento da municipalização; aprendizagens essenciais; entre outras.
O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade, a comunidade educativa e, desde logo, os docentes se mobilizarem, contestando as atuais políticas educativas e exigindo uma Educação pública de qualidade, para todos, inclusiva, devidamente financiada e valorizada em todos os domínios. Pondo isso em causa, o ministro impõe a reforma do Estado na Educação, reforma que visa desconstruir e não melhorar.