De 1999 para cá o que mudou?
Público
Recorde-se que os portugueses governaram Ormuz entre 1515 e 1622.
Esta representação dos portugueses em Ormuz, datada de cerca de 1540, mostra-os a comer na água devido ao calor.
A inscrição diz: «Os portugueses de Ormuz que comem na água porque a terra está muito quente»- Fúria Aristocrática
Estou a ler As Lendas da Índia de Gaspar Correia. A nossa História está cheia de homens e mulheres extraordinários, acontecimentos e episódios extraordinários. Porém, conhece-se melhor a História inglesa, americana e francesa do que a nossa própria.
Toda a gente sabe quem são os fundadores dos EUA, todos conhecem o nome de generais, de homens e mulheres notáveis americanos, todos conhecem alguns chefes das primeiras nações, o nome de heróis, conhecem episódios da luta contra os ingleses, da luta dos negros pelos direitos civis, episódios dessa luta e personagens notáveis. Todos conhecem reis e personagens da História inglesa e francesa. Batalhas famosas, episódios menores das grandes guerras, etc. Conhecemos isso tudo porque eles fazem filmes sobre tudo.
No entanto, da nossa História que está cheia de factos, episódios e personagens notáveis, desde a sua fundação, quase nada se sabe ao nível do grande público. Sempre fomos um povo em diáspora e temos muitas pequenas histórias da História de toda essa gente. Não se fala de nada nem de ninguém e a disciplina de História na escola está a desaparecer em nome de uma suposta identidade universal, de cariz comunista (não há heróis, somos todos iguais, ninguém é melhor que outro) e falso a qualquer um que saiba olhar para além do fervor religioso à ideologia, que dificulta o nosso sentimento de pertença e a afirmação dos nossos valores.
Que na batalha de Diu vencemos uma coligação de sultões indianos, otomanos e egípcios, tendo nós 18 navios e eles mais de 100 (Fernão de Magalhães ia num dos navios). Que Afonso de Albuquerque conquistou Ormuz e o seu estreito, tendo 500 homens contra 20.000. Que durante as invasões napoleónicas fomos até Madrid e ficámos com o governo da cidade e o deixámos porque preferimos ir derrotar Napoleão.
Temos histórias de reis, rainhas e gente do povo absolutamente extraordinários e pouco se conhece. Não conhecemos a História distante nem a próxima. Da guerra colonial não se fala, apesar de tantos e tantos estarem vivos e terem histórias para contar - as boas e as más. Da ditadura também não se pode falar que a esquerda não deixa. Como no tempo da ditadura houve o exagero de glorificar conquistas, a seguir a esquerda pôs um rótulo de fascista em toda a nossa História e mandou escondê-la e depreciá-la publicamente como se tudo o que fizemos tivesse sido maligno e envergonhável - entretanto mandou glorificar a História dos fascismos comunistas. Ainda hoje fizeram a figura ridícula de não ir ouvir o Vice-Presidente ucraniano por lealdade a Putin.
Acho triste.
Um povo que não conhece a sua História, não a lembra e não se reconhece nela, não mantém o fio da memória que lhe confere pertença e identidade. Desonrar a História, desonra-nos. É como desonrar a nossa família porque não gostamos desta pessoa ou porque temos ressentimento, real ou imaginário de outra.
(A frase que atribuem (talvez falsamente) a Sócrates, não sou grego nem ateniense, sou um cidadão do mundo, não significa literalmente, não ter mãe, nem pai, nem país, nem cultura, nem identidade e sermos todos iguais. Significa que a um nível fundamental somos todos humanos)
Ultimately, history punishes those who stand aside. In many respects, the wars of the 20th century were the result of the indifference of those in power in the 19th century.
— Volodymyr Zelenskyy / Володимир Зеленський (@ZelenskyyUa) January 25, 2026
Russia’s war against Ukraine and its other wars – against Moldova, Chechnya, and Georgia – are the… pic.twitter.com/10RvL9PKAv
«Habitantes de Saint-Pierre-et-Miquelon: de acordo com as ordens do general de Gaulle, vim para permitir que participem livremente e em ordem no plebiscito que há tanto tempo reclamam. Terão de escolher entre a causa da França livre e a colaboração com as potências que enfraquecem, humilham e martirizam a nossa pátria. Não tenho dúvidas de que o mais antigo dos nossos territórios ultramarinos, aliando-se à Grã-Bretanha, aos Estados Unidos, ao Canadá e aos outros Aliados, manifestará em massa a sua fidelidade às tradições de honra e liberdade que sempre foram o orgulho da França. Viva a França! Vivam os Aliados!»
"As Forças Francesas Livres mostraram que mantiveram o domínio dessa arte militar que grande parte do mundo pensava ter sido enterrada pelas divisões Panzer alemãs. A expedição foi organizada em sigilo absoluto, reunindo recursos provenientes de múltiplas origens. O almirante Muselier e o seu estado-maior dirigiram-se à zona a partir de Inglaterra a bordo de uma corveta de 1100 toneladas; enfrentou o que os seus companheiros de viagem descreveram como «a pior tempestade» que o Atlântico Norte conheceu este ano.»
«O que fará, nesse caso?», perguntou-me ele. «Os navios aliados», respondi, «pararão na fronteira das águas territoriais francesas e o almirante americano irá almoçar na casa de Muselier, que certamente ficará encantado. — Mas e se o cruzador ultrapassar a fronteira? — Os nossos homens farão as advertências habituais. — E se ele ignorar? — Seria uma grande tragédia, pois, nesse caso, os nossos teriam de disparar. O Sr. Eden levantou os braços para o céu. «Compreendo as suas preocupações», concluí sorrindo, «mas tenho confiança nas democracias.»
«Não há poder no mundo que possa expulsar os meus homens e a mim destas ilhas enquanto estivermos vivos. Pela honra, resistirei a qualquer força naval, independentemente do seu poder. Se, por uma circunstância incrível, tal tentativa fosse feita, então não haveria mais democracia na Terra, e não restaria outra solução para os democratas senão morrer. O nosso sangue mancharia a história, a democracia seria o nosso sudário e o nosso túmulo.»As três lições da doutrina Muselier
Enheduanna, uma poetisa e sacerdotisa mesopotâmica pouco conhecida foi a primeira autora nomeada, em toda a história registada.
Os escritos de Enheduanna gravados numa tabuinha de argila, em escrita cuneiforme. (Crédito: The Yale Babylonian Collection/ Photo by Klaus Wagensonner)O seu nome, em sumério, significa «Ornamento do Céu» e, como alta sacerdotisa da divindade lunar Nanna-Suen, ela compôs 42 hinos para o templo e três poemas independentes que, tal como a Epopeia de Gilgamesh (que não é atribuída a um autor específico), os estudiosos consideram uma parte importante do legado literário da Mesopotâmia.
Em conjunto com o seu estatuto de figura religiosa e sacerdotisa, Enheduanna exercia poder político como filha de Sargão, o Grande — uma figura creditada por alguns historiadores como o fundador do primeiro império do mundo.
Ela desempenhou um papel essencial ao ajudar a unir a região norte da Mesopotâmia, Akkad, onde Sargão ascendeu ao poder, antes de conquistar as cidades-estado sumérias no sul. Fê-lo, ajudando a fundir as crenças e rituais associados à deusa suméria Inanna com os da deusa acádia Ishtar e enfatizando essas ligações nos seus hinos e poemas literários e religiosos, criando assim um sistema comum de crenças em todo o império.
Cada um dos hinos que Enheduanna escreveu para 42 templos na metade sul da Mesopotâmia destacava o carácter único da deusa padroeira para os fiéis dessas cidades; os hinos foram copiados por escribas nos templos durante centenas de anos após a sua morte.
Em, Exaltação de Inanna, ela descreve o processo criativo:
O papel das mulheres na restauração da independência em 1640
Rodrigo Tavares
Expresso
Dei por mim ontem a ler sobre as “Daughters of Liberty” [Filhas da Liberdade]. Apesar de terem contribuído diretamente para a base económica e simbólica da independência americana, raramente aparecem nos livros escolares ou na narrativa oficial da fundação dos EUA. No Brasil, Bárbara Heliodora e Hipólita Jacinta lideraram círculos intelectuais e de resistência durante a Inconfidência Mineira (1789), mas a memória nacional da luta contra os portugueses ficou centrada em Tiradentes.
Também em Portugal a guerra da restauração é masculina. O 1.º de dezembro de 1640 assinala o dia em que um grupo de nobres — os célebres Quarenta Conjurados — organizou em Lisboa o golpe que pôs fim a sessenta anos de domínio espanhol (1580–1640) e restaurou a coroa portuguesa com D. João IV da Casa de Bragança. A cena é bem conhecida: às 09h da manhã fidalgos armados invadem o Paço da Ribeira e assassinam Miguel de Vasconcelos, secretário de Estado e símbolo da dominação castelhana. Os 40 nobres portugueses são todos homens. A lista está disponível aqui.
Mas parte desta história foi encabeçada por mulheres. Entre Lisboa, Évora e Vila Viçosa, damas da corte, esposas de fidalgos e viúvas influentes desempenharam papéis decisivos na preparação da conspiração. Criaram uma rede de informação que escapava à vigilância castelhana, precisamente porque ninguém suspeitava que aquelas figuras femininas pudessem ser protagonistas políticos.
O exemplo mais célebre é o de D. Luísa de Gusmão. Casada com D. João, 8.º duque de Bragança, a sua influência foi decisiva na Restauração. Enquanto o país fervilhava com revoltas contra a castelhanização e o aumento dos tributos — como o Motim das Maçarocas (1628) ou a Revolta do Manuelinho (1637) — D. João mostrava-se relutante em aderir às conspirações. Os nobres ofereciam-lhe o trono, mas ele hesitou durante anos, entregue a uma vida pacata em Vila Viçosa, dedicado sobretudo à música, a sua grande paixão. Perante a indecisão, os conspiradores chegaram a ameaçar proclamá-lo rei mesmo sem o seu consentimento. Foi apenas graças a um novo contexto geopolítico europeu e à firme influência da sua esposa que o futuro D. João IV — que viria a ser celebrado na historiografia portuguesa como o herói da Restauração — abandonou o imobilismo e aceitou assumir a coroa.
Em 2012, uma tese de doutoramento defendida por Monique M. Vallance na Universidade da California em Santa Barbara (“D. Luisa de Gusmão: Gender and Power in Seventeenth Century Portugal”), analisou o comportamento da futura rainha portuguesa à luz dos comportamentos de género da época e concluiu que ela manipulava os homens à sua volta ao exagerar o estereótipo feminino, levando-os a acreditar que agia de acordo com o que se esperava dela enquanto rainha regente e mãe. Em vez disso, utilizou essa imagem como disfarce para alcançar a sua própria agenda.
Também Maria Luísa Gama, da Universidade de Évora, em “As Rainhas da Restauração: a Construção do Poder Feminino no Portugal Brigantino (1640-1683)” reforçou que D. Luísa foi uma presença assídua no órgão político mais importante do Reino, onde acompanhava o Rei e o príncipe herdeiro: o Conselho de Estado. Não era uma prática comum na altura. Ainda que a influência exercida por D. Luísa de Gusmão não seja celebrada nos discursos do 1º de dezembro, podemos encontrar referências pontuais à sua contribuição em publicações de Veríssimo Serrão, Mafalda Soares da Cunha, Frei Cláudio da Conceição e de D. Luís de Menezes, Conde da Ericeira. Coube à duquesa de Bragança a firmeza necessária para vencer a relutância do marido e levá-lo a assumir o trono, aceitando o destino que a conspiração lhe traçava.
Mais esquecido ainda é o papel desempenhado por outras mulheres na Restauração da independência. Isabel Pereira de Ouguela, que combateu os castelhanos nas trincheiras, aparece apenas numa publicação de 1644 (“Relaçam da famosa resistencia, e sinalada vitoria, que os Portugueses alcançarão dos Castelhanos em Ouguela, este Anno de 1644 a 9 de Abril governando esta Praça o Capitão Pascoal da Costa”). O papel das fiandeiras do Porto no Motim das Maçarocas de 1628 tem igualmente merecido pouca atenção. Revoltadas, as mulheres portuenses chegaram a apedrejar o representante do rei espanhol.
Eu não sou historiador, mas a invisibilização das mulheres na Restauração de 1640 não parece ser uma simples omissão da nossa memória histórica. É, antes, parte de um padrão universal de silenciamento feminino, que atravessa séculos e geografias e que importa corrigir com justiça. Um desses nomes a resgatar é o de Isabel Madeira. Em 1546, no segundo cerco de Diu, na Índia, organizou um grupo de combatentes portuguesas, com Catarina Lopes, Isabel Fernandes, Isabel Dias e Garcia Rodrigues, que lutou na linha da frente contra as forças do sultanato do Guzerate. O seu feito sobrevive apenas em crónicas, cartas e tratados do século XVI e numa revista publicada em 1842.
O cerco é recordado como um marco épico do império ultramarino, mas a narrativa histórica prefere destacar o papel de D. João de Mascarenhas, capitão da fortaleza.
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O lobo gigante está extinto há mais de 10.000 anos. Estes dois lobos foram trazidos de volta da extinção usando edições genéticas derivadas de um genoma completo do lobo gigante, meticulosamente reconstruído pela Colossal a partir de DNA antigo encontrado em fósseis que datam de 11.500 e 72.000 anos.
Sandália de couro feminina decorada com uma topázio, encontrada num poço no forte romano de Saalburg, na Alemanha. 100-150 d.C., atualmente exposta no Museu de Saalburg.
Acerca de como a Índia moldou o Ocidente. Dalrymple, como é sabido, é um historiador e conhecedor de arte, interessado na história e na arte da Índia, do Paquistão, do Afeganistão, do Médio Oriente, do hinduísmo, do budismo, dos jainistas e do cristianismo oriental primitivo. Escreveu, entre muitos outros livros, três sobre o império Mongol. Um narrador nato, aqui em conversa com Ash Sarkar, jornalista, activista libertária, editora e professora. Fascinante.
Está a dar na RTP África um episódio do programa de Paula Moura Pinheiro, Visita Guiada, sobre os retornados das ex-colónias, com Dulce Cardoso, que conta a sua história de retornada e Margarida Calafate Ribeiro, uma investigadora da Universidade Coimbra que vai comentando a história dos retornados do pós-25 de Abril. Muito interessante, porque há muito poucos testemunhos da história do pós-25 de Abril a partir de relatos de experiências pessoais. Há a história oficial, muito marcada ideologicamente, mas falta a história privada, a das vidas privadas, a das que passaram pelos acontecimentos e têm uma perspectiva de uma riqueza diferente, cheia de pormenores.
Muito interesante. Pode ver-se neste link - visita-guiada