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March 04, 2025

Recordando Vladimir Jankélévitch




O combatente da Resistência como filósofo

Recordando Vladimir Jankélévitch

Por Robert Zaretsky


Passaram 40 anos desde a morte de um dos intelectuais mais importantes de França, cujo nome provavelmente nunca ouviu: Vladimir Jankélévitch. Tendo em conta os riscos profissionais que Jankélévitch enfrentou enquanto judeu francês e combatente da resistência durante a ocupação nazi de França, é um golpe de sorte estar a ouvir o seu nome agora. No entanto, Jankélévitch sobreviveu a esses anos negros para escrever sobre uma variedade estonteante de assuntos, desde a morte à música, num estilo deslumbrante - e, por vezes, confuso.

As suas reflexões éticas - talvez melhor caracterizadas pela sua insistência em que “a moralidade não está inscrita em tabelas nem prescrita em mandamentos” - são especialmente impressionantes, moldadas como foram pela experiência pessoal.
(...)
Partimos do princípio de que o valor da maioria das virtudes, como a tolerância e a temperança, a coragem e a compaixão, é intrínseco. E embora os filósofos morais, desde Aristóteles, tenham debatido os pontos mais delicados destas ideias, existe um consenso geral de que a bondade é boa, a justiça é justa e as virtudes são vitais. Como conclui Alasdair MacIntyre no seu livro apropriadamente intitulado After Virtue, “o exercício das virtudes é, em si mesmo, uma componente crucial da vida boa para o homem”.

No entanto, a fidelidade - o sinónimo de lealdade que os filósofos morais tendem a utilizar - é diferente da maioria das virtudes. Sem ela, a vontade de levar uma vida boa é uma vontade de não fazer nada, mas não tem o valor intrínseco das outras virtudes. Embora a compaixão - ou seja, a nossa abertura ao sofrimento dos outros - seja inerentemente boa, a bondade da lealdade depende da bondade do seu objeto. 

Como Jankélévitch observa, o seu valor de louvor depende da forma como respondemos à pergunta: “Fiel a quê?” Que tolice gabar-me da minha fidelidade a, digamos, uma marca de sumo de laranja. Para além do fabricante, ninguém me elogiaria por esse apego. Mas se eu insistir na minha fidelidade à justiça, em princípio, essa fidelidade mereceria um elogio universal.

Desenvolvendo esta distinção, Jankélévitch observa que “ninguém chama ao ressentimento uma virtude, embora seja uma espécie de fidelidade aos ódios e às raivas. Ter uma boa memória das afrontas sofridas é uma má fidelidade. Ninguém chama virtude à mesquinhez, embora também ela seja uma espécie de fidelidade às pequenas coisas”. Não menos nociva é a fidelidade a um indivíduo cujos caprichos podem ameaçar as outras virtudes às quais devemos permanecer fiéis. Isto explica, creio eu, a afirmação de Jankélévitch de que a fidelidade é a “virtude da mesmidade” - é uma garantia que persiste sem pausa no tempo e no espaço.

Jankélévitch defende que a verdadeira fidelidade - ou aquilo a que chama fidelidade desesperada - é essencial para a “luta desigual entre a maré irreversível do esquecimento que acaba por engolir todas as coisas e os protestos desesperados mas intermitentes da memória”.

Embora não tão eloquentes como os filósofos, sobretudo se forem franceses, os historiadores partilham esta fidelidade ao passado. A memória é tão frágil como o passado e não pode salvá-lo sozinha. Em vez disso, o trabalho paciente e meticuloso de documentação e verificação corrige o que pensamos recordar e adverte aqueles que ignoram ou desprezam o passado. 

De que outra forma podemos manter o que há de melhor em nós e precavermo-nos contra o que há de pior? É claro que, na era das plataformas sociais e da inteligência artificial, esta fidelidade ao passado raia o quixotesco. Mas será que nos podemos dar ao luxo de o abandonar?

Em última análise, o passado precisa de nós tanto quanto nós precisamos do passado. Tão valioso e, no entanto, tão vulnerável, o passado, conclui Jankélévitch, “precisa da nossa compaixão e gratidão, pois não pode defender-se por si próprio”. 

Se permitirmos que outros rejeitem ou reescrevam o passado - o passado como ele realmente foi e deve permanecer - traímos necessariamente o futuro. Jankélévitch compreendia que essa consciência é exaustiva, mas também sabia que era essencial.


February 03, 2025

Uma família inglesa

 


Mas não é a do Júlio Dinis. 

É a ementa semanal da família inglesa, Leigh: Robert Leigh, a sua mulher e quatro filhos. Oxfordshire em 1912. De, How the labourer lives : a study of the rural labour problem.

Chá, pão com manteiga, batatas, umas ervas e um bocadinho de toucinho. Ao Domingo, carne. Os homens tinham direito a comer um bocadinho mais que o resto da família.

Hoje-em-dia chamaríamos a esta dieta, 'passar fome'. A ciência, a tecnologia e a medicina trouxeram-nos uma qualidade de vida generalizada, impensável há um par de séculos e incomparável em toda a história humana. Evidentemente, como tudo o que tem sucesso entre os humanos, esses instrumentos também nos trouxeram os excessos. Onde dantes só havia um Luís XIV ou um Bonaparte a estragar a vida dos outros todos em cada século, agora há milhares deles ao mesmo tempo.



de, Diet History

February 02, 2025

Argos



Argos, o fiel cão de Odisseu, continua a ser um dos símbolos de lealdade mais emblemáticos da literatura antiga.

A sua história é contada na Odisseia de Homero, um poema épico do século VIII a.C. que narra a longa e perigosa viagem de Odisseu (Ulisses em latim) ao tentar regressar a casa após a Guerra de Troia. Após 20 anos de ausência, repletos de batalhas, naufrágios e constantes ameaças de morte, Odisseu regressa finalmente a Ítaca, a sua terra natal, mas disfarçado. Ninguém o reconhece, nem mesmo a sua família ou amigos mais próximos. Mas há uma alma que o reconheça.

Argos, o seu velho cão, abandonado e enfraquecido, deitado num monte de terra, vê-o de longe. As suas orelhas levantam-se, a sua cauda abana suavemente. Apesar de estar demasiado fraco para se levantar, encontra forças para reconhecer o único por quem esperou todos aqueles anos.

Esta cena curta, mas poderosa, aparece no Canto 17 da Odisseia e tem permanecido como um dos momentos mais comoventes de toda a literatura. Argos, esquecido por todos, mas ainda agarrado à esperança, vê finalmente o seu mestre uma vez mais. E com esse pequeno e tranquilo momento de alegria, deixa a vida, morrendo em paz.

É um testemunho do amor eterno dos cães: eles nunca esquecem, nunca deixam de ter esperança e nunca deixam de amar. A lealdade de Argos é intemporal, recordando-nos que, mesmo nas histórias mais antigas, a ligação entre humanos e cães já parecia sagrada. Para qualquer pessoa que já tenha amado um cão, esta cena toca profundamente o coração. Não se trata de grandeza ou heroísmo, mas sim do poder silencioso da devoção. 

via Art

fotografia de Engie ena Alvarez


February 01, 2025

Quando a idade é só um número II

 


A Abadia de Beaulieu, em Hampshire, com 800 anos de idade, foi fundada pelo Rei João no século XIII.

A abadia tornou-se uma das casas cistercienses mais ricas de Inglaterra, mas conheceu a sua morte durante a Dissolução dos Mosteiros pelo rei Henrique VIII em 1538. O edifício permanece.




October 10, 2024

Para quem gosta de recuar às origens - uma conversa interessante com William Dalrymple

 


Acerca de como a Índia moldou o Ocidente. Dalrymple, como é sabido, é um historiador e conhecedor de arte, interessado na história e na arte da Índia, do Paquistão, do Afeganistão, do Médio Oriente, do hinduísmo, do budismo, dos jainistas e do cristianismo oriental primitivo. Escreveu, entre muitos outros livros, três sobre o império Mongol. Um narrador nato, aqui em conversa com Ash Sarkar, jornalista, activista libertária, editora e professora. Fascinante.


September 23, 2024

Programas interessantes

 


Está a dar na RTP África um episódio do programa de Paula Moura Pinheiro, Visita Guiada, sobre os retornados das ex-colónias, com Dulce Cardoso, que conta a sua história de retornada e Margarida Calafate Ribeiro, uma investigadora da Universidade Coimbra que vai comentando a história dos retornados do pós-25 de Abril. Muito interessante, porque há muito poucos testemunhos da história do pós-25 de Abril a partir de relatos de experiências pessoais. Há a história oficial, muito marcada ideologicamente, mas falta a história privada, a das vidas privadas, a das que passaram pelos acontecimentos e têm uma perspectiva de uma riqueza diferente, cheia de pormenores.

Muito interesante. Pode ver-se neste link - visita-guiada


September 21, 2024

As mulheres de Braga (e mais tarde todas as outras do país)

 


(foi aqui que nasceram as portuguesas de mau feitio e bigode que lutavam ao lado dos homens contra os espanhóis, sendo a Brites a mais famosa)

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[72] He then crossed the river Durius, carrying war far and wide and taking hostages from those who surrendered, until he came to the river Lethe, being the first of the Romans to think of crossing that stream. Passing over this he advanced to another river called the Nimis, where he attacked the Bracari because they had plundered his provision train. They were a very warlike people, the women bearing arms with the men, who fought never turning, never showing their backs, or uttering a cry. Of the women who were captured some killed themselves, others slew their children with their own hands, considering death preferable to captivity."

Appian's History of Rome: The Spanish Wars - Horace White ed. New York: The MacMillan Company. 1899. pp. §§71–75

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[72] Atravessou então o rio Durius, levando a guerra por toda a parte e tomando reféns dos que se rendiam, até chegar ao rio Lethe, sendo o primeiro dos romanos a pensar em atravessar esse curso de água. Passando-o, avançou para outro rio chamado Nimis, onde atacou os Brácaros [povo da região de Braga] por terem saqueado o seu comboio de provisões. Era um povo muito guerreiro, com as mulheres a pegarem em armas com os homens, que lutavam sem nunca se virarem, sem mostrarem as costas ou darem um grito. Das mulheres que foram capturadas, algumas mataram-se, outras mataram os filhos com as suas próprias mãos, considerando a morte preferível ao cativeiro.”

Appiano de Alexandria, 95–195 àcerca da invasão de Sextus Junius Brutus 137AC

September 08, 2024

Amsterdão 1931

 


Filme colorido com recurso à IA. O que se vê são pessoas bem vestidas e com bom aspecto, mesmo os miúdos de rua e empregados de lojas. Bons dentes. Em menos de uma década estava tudo em ruínas e a maioria destas pessoas feitas em cinzas num país tornado estranho. É isto que fazem os homens com o culto da guerra: mandam os outros morrer, destroem-lhes o corpo, a vida e tudo o que tinham e depois vão descansados para as suas vidas beber whisky ou vodka e esquecer o assunto.


August 02, 2024

Em época: salmonetes

 


“Não há nada”, dizeis, ”mais belo do que uma surmullet [mullo] moribunda. Na própria luta pelo fôlego de vida, primeiro um vermelho e depois um tom pálido o impregna e as suas escamas mudam de tonalidade. E entre a vida e a morte há uma gradação de cor em tons subtis.... Vejam como o vermelho se inflama, mais brilhante do que qualquer vermelhão! Vejam as veias que pulsam ao longo dos seus lados! Olhai! Dir-se-ia que o seu ventre é sangue! Que azul brilhante resplandecia mesmo debaixo da sua fronte! Agora está a esticar-se, a empalidecer e a assentar numa tonalidade uniforme”.

Séneca, Questões Naturais (III.18.1,4)


Mosaico romano de um salmonete (século I d.C.), atualmente no Museu Histórico Estatal de Moscovo 

um salmonete verdadeiro



Segundo Plínio, o Velho, que viveu em meados do século I d.C., um dos peixes mais consumidos pelos antigos romanos era o salmonete. Como ele próprio assinala, o peixe tem uma “barba dupla” (mullus barbatus) e não é adequado para a reprodução, sendo os melhores exemplares encontrados em águas abertas.
Os romanos distinguiram outro tipo de salmonete - mullus surmuletus - que era maior. Como espécie de peixe, têm diferentes cores de escamas e encontram-se no Mediterrâneo, no Mar do Norte e no Atlântico. De acordo com os antigos, o nome do peixe - Mullus - teria vindo dos sapatos usados pelos patrícios romanos, que se distinguiam por uma forte cor vermelha (mulli), que também marca o peixe.

O preço do salmonete no tempo de Calígula era astronómico. Asinius Celer, o cônsul terá pago oito mil sestércios por um. Para efeitos de comparação, o édito de Diocleciano de 301 d.C. fixou o preço máximo de 1 sextarius (cerca de meio litro) de vinho maduro de boa qualidade em 24 denários, ou 96 sestércios. Suetónio relata que Tibério tencionava regular o preço do salmonete, pois houve uma transação de 30.000 sestércios por 3 exemplares deste peixe. Suetónio conta também uma história interessante da ilha de Capri, onde o imperador se hospedou:

Poucos dias depois de ter chegado a Capri e de se encontrar sozinho, um pescador apareceu inesperadamente e ofereceu-lhe um enorme salmonete; alarmado com o facto de o homem ter subido até ele pela parte de trás da ilha, através de rochas ásperas e sem caminho, mandou esfregar a cara do pobre coitado com o peixe. E porque, no meio da tortura, o homem agradeceu às estrelas por não ter dado ao imperador um enorme caranguejo que tinha apanhado, Tibério mandou rasgar-lhe também a cara com o caranguejo. Castigou com a morte um soldado da guarda pretoriana por ter roubado um pavão das suas reservas. Quando a liteira em que viajava foi impedida de avançar por silvas, mandou estender no chão o centurião da primeira coorte, que ia à frente para abrir caminho, e açoitá-lo até à morte

- Suetónio, Tibério, 60

Como se vê, o salmonete era sobretudo um luxo extravagante em todo o tipo de festas.

É claro que o peixe também era apreciado pelo seu sabor, como refere Galeno. Dizia-se que o sabor do peixe se assemelhava ao da ostra. De acordo com Plínio, algumas pessoas viram o peixe tomar cores diferentes antes de morrer; finalmente, a escama vermelha torna-se branca. Segundo consta, o famoso mestre culinário romano Apicius tinha uma excelente receita de molho para o salmonete - o famoso garum


penelope.uchicago.edu

July 16, 2024

A que propósito o termo 'Descobrimentos' se tornou um palavrão?

 


Raquel Machaqueiro é uma antropóloga que dá aulas numa universidade americana mas quer mudar o ensino da História em Portugal - todo o gato pingado diz coisas e quer mudar o ensino em Portugal.

Este artigo é muito grande e não me refiro a tudo o que diz. Só a alguns trechos que me chamaram a atenção.


“A escravização de pessoas financiou toda a empresa dos Descobrimentos”

Em resposta à questão da reparação aos colonizados, Raquel Machaqueiro lembra que o fim da escravatura levou países a endividarem-se para compensarem os donos de escravos pela perda dos lucros.

Raquel Machaqueiro é doutorada em Antropologia pela George Washington University, nos Estados Unidos, onde lecciona as disciplinas de Desenvolvimento Internacional e Direitos Humanos e Ética.

Por que faz uma apreciação negativa dos manuais escolares em Portugal?
Nos manuais escolares, as pessoas escravizadas aparecem sempre como uma massa anónima. Não há histórias individuais, não há nomes, não sabemos nada do que estas pessoas faziam antes de serem capturadas ou das experiências delas durante o processo, tanto de captura, de encarceramento nos barracões, nas costas africanas, até serem embarcadas. Pouco sabemos do que se passava na viagem e não sabemos absolutamente nada sobre como reconstruíram depois as suas vidas no chamado "novo mundo". Há essa objectificação. Mas, se procurarmos melhor, temos histórias de pessoas escravizadas.


Vejamos: os 'descobridores', os que iam nos barcos, os marinheiros e outros que iam à pendura, também aparecem sempre como uma massa anónima. No entanto, eram pessoas individuais e tiveram motivações diferentes e vidas diferentes. Sabemos muito pouco do que foram as suas vidas nos novos mundos. Não é por isso que estão objectificados. A História de todas essas pessoas anónimas -de um lado e de outro- não se faz nas escolas básicas e secundárias: fazem-nas os investigadores nas universidades e os escritores que divulgam as personagens e acontecimentos paralelos da História.

Os manuais de História foram revistos, seguindo orientações do Ministério da Educação. Alguma coisa foi melhorada?
Neste momento, existe o pressuposto de que os alunos percebam que a escravatura foi uma coisa muito má e que foi operada pelos portugueses. No entanto, um problema persiste — é o facto de a grande história ser a dos Descobrimentos. Isto é logo problemático porque é uma visão nossa. Para nós, são descobertas. Para as pessoas que lá viviam, não há nenhuma descoberta. As pessoas já lá viviam. O próprio vocabulário dos Descobrimentos é problemático em si.

Para as pessoas que lá viviam, não há nenhuma descoberta? Isso é que há! 
Este assunto do termo 'Descobrimentos' é um não-assunto. Ao contrário do que é costume dizer-se, a Descoberta foi mútua. Antes dos navegadores portugueses se atirarem para os mares em busca de territórios e utopias, o mundo estava desligado, digamos assim. Não sabíamos se havia outros continentes, nem esses continentes sabiam de nós, a não ser algumas pessoas isoladas que tinham viajado e que contavam histórias extraordinárias que se contavam como quem conta fábulas. Mas havia desconfiança, misturada com esperança, é certo, de que talvez houvesse mais terras, mas não se sabia. Não sabíamos nós e não sabiam os que viviam nessas terras. 
De maneira que sim, nós descobrimo-los a eles e eles descobriram-nos a nós. E o mundo em geral, começou a descobrir-se uns aos outros. 
Infelizmente para muitos dos povos a que chegámos, como tínhamos tecnologia de guerra mais avançada que eles, dominámo-los, mas podia ter sido ao contrário. Podíamos ter sido dizimados por esses povos. Não dominámos todos os povos: por exemplo, o Japão e a China que tinham outro desenvolvimento militar não foram dominados.
O título do artigo dá a entender que os Descobrimentos foram um empreendimento com o intuito de ganhar dinheiro com a escravatura, mas isso não é verdade. A escravatura foi um negócio de oportunidade, pois a certa altura, o negócio mostrou dar muito lucro e organizaram-se para o explorar. 
Porém, não foi esse o motivo das viagens de navegação: foi a expansão de território, a procura de riqueza, a aventura, a procura de uma vida melhor, a curiosidade, a religião, a profissão de marinheiro. Porque é que, ainda nos dias de hoje, os portugueses se vão embora daqui?
A escravatura é uma coisa má? Pois claro que é. Devia ser ensinado na escola que fomos um povo esclavagista? Sim, devia, mas não como uma narrativa de anulamento do empreendimento das navegações que foi uma coisa extraordinária. Nós "abrimos mundos ao mundo" e trouxemos a globalização, para o melhor e para o pior.

Isso acontece com a conivência do próprio poder local africano?
Para conseguir capturar pessoas, os europeus fomentaram conflitos entre reinos, porque neles se faziam prisioneiros de guerra e os prisioneiros de guerra eram escravos legítimos, de acordo com as regras da época. Os reinos que não se submetiam a esta lógica eram eles próprios escravizados. Portanto, muitos soberanos africanos escolhiam o mal menor, que era obter pessoas, porque assim eram deixados em paz.

Pois, isso é verdade, mas sempre foi uma estratégia de conquista e continua a ser feito, infelizmente. Não vê a Rússia a fomentar conflitos internos nos países vizinhos para os explorar, escravizar e tirar os rendimentos desses territórios? Os europeus e americanos não fomentam conflitos na RDC por causa dos minérios raros? Isso não é uma espécie de variação do colonialismo? 
Infelizmente, estas estratégias são uma parte grande da História humana e nós portugueses também fomos activos nessa conquista e exploração do outro pela força. Agora, reduzir essa faceta triste e violenta da natureza humana aos Descobrimentos portugueses, parece-me despropositado.
Aliás, todo o artigo é uma inflamação de ânimos em vez de uma reflexão séria sobre os assuntos. Um mau serviço prestado ao tema, em meu entender porque é tudo dito sem rigor e sem fundamento.

April 09, 2024

As portas de bronze do Senado Antigo de Roma

 

Agora na Basílica de São João de Latrão. 800 kg de bronze. Mais de 2000 anos. Do outro lado são todas trabalhadas.



March 03, 2024

Deixar a marca da evolução das ideias nos espaços ou apagá-la?

 


A view of the Temple of Diana at Evora - curiosa gravura de produção inglesa datada de 1795, parte integrante da obra "Travels in Portugal, trhough the Provinces of Entre Douro e Minho, Beira, Estremadura and Alem-Tejo", de James Murphy.


É particularmente interessante porque nos mostra a aparência que tinha ainda nesse tempo, tão diferente daquela que hoje ostenta.
Não foi, no entanto, unânime o destino a dar ao Templo Romano de Évora, quando a partir dos anos cinquenta do século XIX se começou a ter noção da sua real importância como polo central da identidade histórica da cidade.
Com efeito, por esses anos, o monumento permanecia ocultado numa espécie de torre medieval, com os espaços entre as colunas emparedados com paredes de alvenaria e coroado por ameias, fruto das transformações arquitectónias operadas durante a Idade Média, convertido em estrutura militar e depois em açougue.
Consultou a Câmara de Évora diversas personalidades nacionais habilitadas na matéria para se eleger a melhor solução, tendo sido díspares as opiniões sustentadas.
Para uns, a demolição do Templo. Para outros, mantê-lo como estava. Para outros ainda, o mais correcto seria o expurgo dos acrescentos medievais, os quais, no seu entender, constituíam uma profanação e abastardamento da traça romana, que urgia recuperar.
Em Julho de 1870, perante os resultados da consulta, a Câmara Municipal determina que se proceda ao restauro da traça original do Templo Romano, entregando a direcção da obra a Giuseppe Cinatti, o autor das Ruínas Fingidas do Passeio Público de Évora.
Para esta decisão, em muito terá contribuído a opinião de Alexandre Herculano, o mais conceituado historiador da sua época, que numa visita a Évora em Maio de 1870 se pronunciara a favor da completa desobstrução das estruturas romanas.
José Luís Espada-Feyo via A Torre do Tombo

February 13, 2024

O que vês?

 


A bandeira de Ceuta 🙂
O brasão português a cobrir as cores de Lisboa.

(via A Torre do Tombo)

December 30, 2023

Uma renda passar de 1.300€ para 11.000€



É para garantirem que os põem na rua. Vamos ver se vai ali nascer a 10º loja de pastéis de nata da rua. Ganância, ganância, ganância. 


Renda aumentada “de 1300 para 11.000€”: Restaurante Bota Alta despede-se aos 47 anos


“Tenho pena, muita pena de fechar, assim como tenho pena do Bairro Alto e desta Lisboa que está a fechar”, lamenta o proprietário, Paulo Cassiano.

November 29, 2023

Revivalismo arquitectónico

 


Dresden - os Atalantes em primeiro plano e a Catedral de Nossa Senhora, reconstruída, ao fundo.

Alguns países da Europa que tiveram os monumentos das suas cidades destruídos estão num revivalismo arquitectónico. Dresden, na Alemanha, é um desses casos, a Hungria é outro.

@Yunhehtn


November 01, 2023

Uma breve e condensada história de Israel-Palestina

 


October 25, 2023

Ainda hoje falamos dele

 


O insulto infligido ao cadáver de Heitor, príncipe de Troia, pelo seu adversário, o herói Aquiles. Ainda hoje falamos dele. Aprende-se muito com a História.


@MuseeLouvre



September 17, 2023

Inesperado II




Estaline Hitler, Franz Josef Freud, Trotsky e Tito percorreram as mesmas ruas em Viena em 1913. Os emigrantes iam aos mesmos cafés e terão visto o Kaiser nas ruas. Porém, só Estaline e Trotsky se conheceram um ao outro... e se odiaram. Do livro, Young Stalin de S Sebag Montefiore


1913: Quando Hitler, Trotsky, Tito, Freud e Estaline viviam todos juntos em Viena.   ~Vintage Maps



September 04, 2023

Os russos ainda acreditam em, 'Czar bom, boiardos maus'

 


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A Rússia recusa-se a receber de volta 58 prisioneiros de guerra feridos, apesar de a Ucrânia estar disposta a enviá-los sem qualquer troca (não é "um por um", não há acordo, basicamente, é só levarem-nos). E isto diz tudo o que é preciso saber sobre "o segundo exército do mundo".

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Uma História de Cartas aos Czares da Rússia

Se vivia na Rússia e desejava qualquer coisa, desde uma vaca a uma democracia parlamentar, podia sempre contar com a velha tradição russa de escrever uma carta ao czar. Esta tradição russa renasceu no início do século XX, quando a confiança da população russa no czar estava a desaparecer rapidamente...

A primeira petição colectiva das massas populares ao Czar russo assumiu a forma de uma manifestação religiosa. Em 9 de janeiro de 1905, 100 000 pessoas marcharam em direção ao Palácio de inverno, lideradas pelo padre Gapon, um sacerdote ortodoxo. Pretendiam apresentar um conjunto de reivindicações moderadas de igualdade universal e de direitos dos trabalhadores a conceder pelo próprio czar. 
A procissão levava bandeiras e ícones brancos para garantir ao Czar que não eram socialistas, anarquistas ou outros malfeitores, mas fiéis ortodoxos que respeitavam a sua autoridade. A polícia imperial respondeu disparando contra a multidão, matando quase 1000 pessoas. Diz-se que o Padre Gapon, perturbado, exclamou: "Já não há Deus. Não há Czar!" 

Tradição russa: Czar bom, boiardos maus

Porque é que o clero e as massas empobrecidas de São Petersburgo acreditavam que as suas manobras iriam resultar? Não sabiam que a sua sociedade era uma autocracia brutal? É bem possível que não soubessem. Durante séculos, em toda a Europa, os regimes monárquicos mantiveram-se no poder principalmente através da ideia do direito divino - a crença, apoiada pelas várias igrejas cristãs, de que os monarcas têm o direito, dado por Deus, de governar os seus súbditos. Esta crença, porém, não era suficiente por si só.


Um aspecto fundamental do mito monárquico era a fé na benevolência do governante. Mesmo que os súbditos se apercebessem da injustiça, da pobreza ou da opressão, esta estava sempre longe do monarca. A ira dos governados era dirigida à aristocracia e às figuras da administração imperial. Estes tinham muito mais interacções quotidianas com as pessoas comuns e não tinham o verniz místico do governante. Na Rússia, esta crença foi até resumida no ditado popular "Czar bom, boiardos maus".

Father Gapon leads the crowds in front of the Narva Gate in Saint Petersburg in 1905, via Google Arts & Culture

Um boiardo era um membro da nobreza do mais alto nível na Rússia e em toda a Europa de Leste. Por outras palavras, se o Czar tivesse conhecimento das injustiças que os seus subordinados cometiam sobre o povo, reagiria imediatamente e corrigi-las-ia. Foi com essa ideia que os cem mil manifestantes de São Petersburgo se aproximaram do palácio do Czar. A sua ingenuidade ficaria para a história como o Domingo Sangrento de 1905.

O que fez o Czar?

Curiosamente, o Czar Nicolau II não ordenou este massacre - nem sequer se encontrava no Palácio de Inverno na altura. 
Não se trata de o exonerar enquanto figura histórica. Nicolau II foi um autocrata brutal que desde muito cedo ganhou a alcunha de Nicolau, o Sangrento. 
Embora a alcunha tenha começado por lhe ser associada devido a um acidente - uma debandada durante a cerimónia da sua coroação - mais tarde ficou associada à fome, à má gestão económica, à repressão política e às guerras sem sentido que a Rússia viria a perder. No entanto, nesse incidente específico de janeiro de 1905, Nicolau II simplesmente não estava presente. Descreveu o acontecimento no seu diário como "um dia doloroso".

No entanto, aqueles que foram alvejados em frente ao seu palácio não sabiam disso. Para eles, tratava-se de uma resposta clara às suas reivindicações moderadas, o que abalou o seu grande respeito pelo Czar. Alguns acreditavam certamente que o próprio Nicolau tinha ordenado o massacre. Juntamente com as já mencionadas fomes, guerras e pobreza que gradualmente corroeram a sua legitimidade, o Domingo Sangrento foi um acontecimento dramático que contribuiu grandemente para o fim do mito do "bom Czar". Foi o início da Primeira Revolução Russa, que, apesar da sua brutal repressão, resultou em concessões por parte da autocracia. Dela resultou a primeira Constituição russa de sempre e a criação da assembleia nacional, conhecida como Duma.

Com a testa no chão

Para preservar a sua legitimidade em ruínas, o czar Nicolau II reinstitucionalizou a redação de petições populares. A petição ao governante já era uma tradição russa, embora o contacto direto com o Czar tivesse sido limitado nos anos 1700, tornando-se um privilégio das classes altas. 
Os pobres só podiam apresentar petições aos administradores locais e à nobreza (talvez uma das razões para o estereótipo dos "boiardos maus"). Estas petições e cartas conferiam às classes altas um nível significativo daquilo a que hoje se chamaria liberdade de expressão e, pelo menos, um sentimento de envolvimento nos processos políticos. 
Antes de uma revolta na cidade de Moscovo, em 1648, os cidadãos tinham enviado ao Czar uma petição em que expunham as suas queixas. Este facto demonstra que, em mais do que uma ocasião, a instituição da petição podia mesmo evitar revoltas e que as revoltas eram vistas como um último recurso.

Antes do século XVIII, as cartas estavam abertas a qualquer súbdito do Czar. Eram conhecidas como Chelobitnye (Челобитные). A tradição russa traduz-se literalmente por "bater na testa". Por outras palavras, pretendia evocar a situação de estar na presença física do governante, o que implicava que o sujeito se curvasse com a testa no chão. 
A instituição da escrita de cartas criou a sensação de uma linha direta para o czar, permitindo a cada pessoa do Império fazer ouvir a sua voz e reforçando a impressão de benevolência do Czar. Em 1608, por exemplo, um pobre padre implorou ao Czar Vasili IV que obrigasse um nobre local a dar-lhe uma vaca para que o clérigo pudesse alimentar a sua família (os padres ortodoxos podem casar). Apesar de parecerem banais, estas petições eram muitas vezes uma questão de vida ou de morte para os seus autores e talvez se situassem entre a lealdade e a revolta aberta contra a autoridade.

A tradição das petições regressa

No século XVIII, esta tradição russa extinguiu-se gradualmente, ou melhor, sofreu uma mudança qualitativa: os ricos eram os únicos que podiam apresentar petições diretamente ao Czar. No entanto, a imagem do Czar benevolente persistiu, assim como a crença de que se deve escrever-lhe. O facto de só os ricos escreverem não significa que as cartas se limitem aos assuntos da aristocracia. De facto, os sectores liberais da nobreza continuaram a escrever aos czares sobre questões de importância social mais vasta.

Talvez a mais famosa das cartas tenha sido escrita por Tolstoi, um dos maiores escritores russos, também de origem nobre. Embora fosse um aristocrata, Tolstoi era profundamente contra a sociedade feudal hierárquica e procurou activamente aliviar a miséria dos pobres da Rússia, especialmente dos camponeses. Era um anarquista cristão e um pacifista, tendo como base da sua crença uma interpretação literal do Sermão da Montanha de Jesus Cristo.

Em 1901, Tolstoi escreveu uma carta ao Czar Nicolau II, que chegou a ser publicada no New York Times. Tolstoi escreveu ao Czar para protestar contra os maus-tratos dos Dukhobortsy (Духоборцы, os "lutadores espirituais"), uma seita cristã pacifista inspirada no protestantismo. A existência deste grupo religioso radical não foi um acaso. Era um sinal da mudança dos tempos e das convulsões que se avizinhavam. O próprio Tolstoi o disse, escrevendo profeticamente na segunda carta: 
"É possível que o atual movimento, tal como os que o precederam, possa ser suprimido pelo emprego da força militar. Mas pode acontecer que os soldados e polícias, em quem o Governo deposita tanta confiança, se apercebam de que cumprir as suas instruções a este respeito envolveria o horrível crime de fratricídio e se recusem a obedecer às ordens."
Essa altura chegou menos de quatro anos depois. Já em 18 de fevereiro de 1905, cerca de quarenta dias após o Domingo Sangrento, o Czar Nicolau II autorizava petições sobre praticamente qualquer assunto imaginável. 
Estas petições são uma fonte histórica fascinante que nos dá uma imagem das queixas populares numa época turbulenta e, de facto, transformadora. Podemos ler sobre o domínio arbitrário dos senhores locais e a crença nas mudanças que os camponeses do campo esperavam. Uma vez que uma parte significativa da população era analfabeta, as cartas eram frequentemente um produto da acção colectiva, articulada numa assembleia de aldeia. A carta era assinada por aqueles que sabiam escrever, mas era um trabalho de todos os que estavam presentes. Estas cartas são, assim, o testemunho de um impulso para a governação popular numa época em que a autocracia estava nos seus estertores.

Petições e Revoluções: A tradição como subversão

No final de 1905, o número de petições aumenta rapidamente. O facto de o Czar ter prometido uma Constituição e de ter restabelecido a tradição de escrever cartas só veio reforçar o sentimento da população de que as suas queixas eram justificadas. As cartas começaram a conter ameaças veladas e não tão veladas dirigidas à monarquia. 
Os camponeses começam a afirmar a sua identidade colectiva, dizendo que são uma população pacífica, mas que não hesitariam em pegar em armas se as suas condições não fossem satisfeitas, uma vez que já tinham sido condenados a uma vida insuportável. Começam também a referir-se cada vez mais aos manifestos e proclamações políticas da época, tanto do Czar como dos revolucionários, demonstrando uma maior consciência política e, portanto, novos sinais de desestabilização do regime.


O Tribunal Regional por Mikhail Ivanovich Zoshchenko, 1888, via runivers

1905 foi um prelúdio da Revolução Russa de 1917 e as suas cartas camponesas eram um sinal das mudanças radicais que se avizinhavam: embora dirigidas ao czar e reminiscentes da antiga tradição russa, eram um sinal claro de modernidade. 

Apesar de invocarem ostensivamente a autoridade da monarquia, exemplificavam, de facto, o desmoronamento do seu poder e a constituição política da classe baixa russa numa força política. A população maioritária estava a caminho de outra revolta, ainda mais volátil do que a de 1905.

por por Stefan Guzvica, Mestre em História Comparada, Licenciatura em Humanidades, Sociedade e Cultura
Stefan é estudante de doutoramento em História na Universidade de Regensburg, Alemanha. É um investigador do comunismo e está atualmente a terminar a sua dissertação sobre os partidos comunistas dos Balcãs no período entre guerras.