O que distingue governantes carismáticos democráticos de governantes carismáticos autoritários? O carácter: os primeiros servem algo maior que eles mesmos - o país e os próprios princípios democráticos - e os segundos servem-e a si mesmos - os seus correligionários, a sua família e os amigos contra os princípios democráticos.
July 28, 2020
A propósito
That do not do the thing they most do show,
Who, moving others, are themselves as stone,
Unmoved, cold, and to temptation slow:
They rightly do inherit heaven's graces
And husband nature's riches from expense;
They are the lords and owners of their faces,
Others but stewards of their excellence.
The summer's flower is to the summer sweet
Though to itself it only live and die,
But if that flower with base infection meet,
The basest weed outbraves his dignity:
For sweetest things turn sourest by their deeds;
Lilies that fester smell far worse than weeds.
Shakespeare, soneto 94
Entachados - a monarquia da república
Não é nenhuma surpresa sermos um país que dá um passo à frente e três atrás. Quem nos governa nunca teve que se virar sozinho em lado algum. Ou é filho de um papá que telefona para arranjar emprego ou matricula-se num partido e faz lá dentro amizades com um padrinho que interessa. É assim que tiram um curso de sociologia e acabadinhos de sair da faculdade são administradores de um hospital ou adjuntos de um ministro ou algo do género com um salário inicial que corresponde ao fim de carreira de maioria dos outros que trabalharam sem papás e padrinhos a pedir tachos. Não admira que esbanjem o dinheiro dos outros: foi o que lhes ensinaram toda a vida. É a monarquia da república.
Portugal antigo
O Chefe republicano tinha na véspera insultado a monarquia no Parlamento e foi desafiado para um duelo por um deputado monárquico.Tudo acabou com um ligeiro ferimento no braço do Costa.
July 27, 2020
Céu de uma noite de Verão
Céu nocturno sobre Ragusa, Sicília, Itália - 18 de Julho de 2020.
© #TWAN_Guest: Salvatore Cerruto, twanight.org/Guest
© #TWAN_Guest: Salvatore Cerruto, twanight.org/Guest
Um alinhamento espectacular da Lua, vénus e Aldebaran (uma estrela 500 vezes mais brilhante que o nosso sol, a 66 anos-luz de distância). Podemos ver as Plêiades (ou sete irmãs) em cima a completar esta magnífica vista de uma noite de Verão nos campos de Hyblaean.
🌐 Photographer's web site: https://
.
#twanight — em Sicily, Italy.
"palavras de carne e osso"
Disseste em belo português,
Curto e simples,
Palavras de carne e osso,
Tacteando até encontrar um olhar.
Viajámos para trás,
Resolvemos os mistérios
Das formas fílmicas do adeus,
Entorpecidas, arrebatadas
Presas à liberdade da imaginação.
Rompe-se uma fina camada de cal,
Inocente,
O tumulto do medo ao querer
Um pouco de ti em tudo o mais.
Disseste, nada mais do que isso.
Daniel Costa-Lourenço, "Heróis"
Curto e simples,
Palavras de carne e osso,
Tacteando até encontrar um olhar.
Viajámos para trás,
Resolvemos os mistérios
Das formas fílmicas do adeus,
Entorpecidas, arrebatadas
Presas à liberdade da imaginação.
Rompe-se uma fina camada de cal,
Inocente,
O tumulto do medo ao querer
Um pouco de ti em tudo o mais.
Disseste, nada mais do que isso.
Daniel Costa-Lourenço, "Heróis"
Fotografia: yoanguerreiro - instagram
Baleal, Peniche (1,5 hours from Lisbon)
Baleal, Peniche (1,5 hours from Lisbon)
Mar da Palha
Não percebo este problema dos médicos
Se o governo sabe que não há médicos seniores para tutelarem os médicos que querem aceder a especialidades, porque não autoriza a contratação desses médicos, paralelamente à autorização para formar mais médicos? Não o fazendo, acabamos por estar a formar médicos que depois vão-se embora porque não conseguem aceder a especialidades. Para além de que, por este caminho, daqui a 10 anos não há especialistas de coisa alguma.
Se o governo autoriza a contratação de médicos para prevenir essa situação dos mais novos poderem depois ter formação especializada, porque é que as Universidades e a Ordem dos Médicos não autoriza o aumento de vagas?
Há aqui qualquer coisa que não se percebe, mas o que percebemos é que este problema atinge-nos a nós todos.
Estes artigos irritam
Ensino à distância pode deixar "traumas para a vida toda" em alguns alunos
A especialista, que durante anos trabalhou em psicologia infantil, lembra: "se tiver um pai que me ajuda a estudar, que compreende a matéria e a revê comigo, é possível que eu tenha um rendimento escolar superior a outro colega que não tem pais que consigam acompanhar. O mesmo se eu estiver numa casa com todas as condições e o meu colega viver numa casa com muito barulho e a passar frio".
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O que esta psicóloga [uma tal, Catarina Lucas] diz não tem nada que ver com o ensino à distância mas sim com a situação de carência e fraca alfabetização de muitas famílias portuguesas e o primeiro factor referido não é resolvido pela escola, nem hoje nem nunca. Nem entendo o termo, 'trauma' neste contexto que ela refere.
O objectivo da escola não é fazer com que os alunos tenham muita auto-estima, nem isso é um produto escasso na maioria dos alunos a partir de uma certa idade, pelo menos, ao contrário do que se pensa. Uma coisa é termos cuidado em não ferir a auto-estima das pessoas outra muito diferente é pensar que a escola serve para dar auto-estima aos alunos.
Diz aos professores para não culpabilizarem os alunos... mas alguma professor culpabiliza os alunos pela pandemia, por não terem famílias com recursos, por terem passo mais dificuldades na aprendizagem...? Mas as pessoas são doidas? E quem é que publica estas parvoíces num jornal nacional?
A senhora ainda se põe a dizer aos professores como devem trabalhar, que têm de baixar a exigência e tal. Falta de auto-estima ela não tem, porque sendo psicóloga clínica, pensa que isso lhe dá formação especializada em ensino.
De vez em quando, envio alunos para psicólogos, por várias razões, com o acordo dos pais, claro. Nesses casos, escrevo qualquer coisa para o psicólogo saber a razão de pensar que o aluno precisa de um acompanhamento especializado. No entanto, nunca jamais me passaria pela cabeça acrescentar um diagnóstico e uma prescrição de tratamento como se o lidar com adolescentes me desse formação especializada para prescrever tratamentos. Pois é exactamente o que faz todo o gato pingado aos professores: explicarem-lhes como devem fazer o seu trabalho.
A minha escola fez um inquérito à comunidade sobre a experiência deste ensino à distância: professores, alunos e pais. O inquérito tinha espaço para as pessoas fazerem observações. Nas respostas muitos pais que não são professores, deram a sua opinião sobre o ensino: que não concordam com um certo método de ensino, que o outro utilizou tecnologia que não gostam... é a mesma coisa que eu agora ir dizer que não estou de acordo com a maneira como se constroem as pontes ou que acho que as cirurgias deviam ser feitas com outros instrumentos... onde é que os pessoas foram buscar a ideia de que percebem alguma coisa acerca de ensinar?
A mim interessa-me saber as dificuldades que os alunos e pais sentiram nesta modalidade de ensino porque isso dá-me dados para saber se tenho que mudar estratégias, mas a opinião que têm sobre como se deve ensinar, não me interessa um átomo nem me ajuda a perceber as dificuldades que tiveram e o que posso melhorar.
Sem surpresa, atrás da opinião da psicóloga sobre o ensino, vêm os ideólogos da felicidade dizer que deve-se acabar com as avaliações de teste porque são o demónio e o diabo a nove. Isto irrita. Sempre as mesmas conversas que não resolvem nada.
dos alunos
Estou aqui a falar com os alunos do 12º ano porque ainda estou a editar a sebenta que fizemos (vou ter que trabalhar nisto durante as férias - isto dá mais trabalho do que parecia se quero equilibrar as contribuições dos vários grupos de trabalho e confirmar as referências e isso). Resolvi perguntar-lhes aos como correram os exames. Até agora só um disse que não correram muito bem. Os outros acharam fáceis. Ainda bem.
Oh, coitado, que pena. Vamos já fazer um minuto de silêncio por ele...
Mulher aperta genitais para travar agressor em Braga
Vantagens do mundo digital
O meu cartão de cidadão caducou em pleno estado de emergência e o dia que tinha agendado para ir tratar dele ficou sem efeito devido ao confinamento. Recebi uma SMS do Instituto dos Registos e Notariado a dizer, 'se não vai alterar dados e quer renovação imediata do CC, escreva xpto sim, se não quer escreva xpto não'. Escrevi, sim, claro. Recebi outra SMS a dizer que iam enviar um email com os dados de pagamento e assim que o recebessem enviavam uma carta com os códigos de levantamento do novo cartão. Depois só teria que agendar por telefone ou online a data de entrega - dia e hora. Agendei online em dois minutos. Assim foi e hoje, à hora marcada, estava à porta da Loja do Cidadão, chamaram o meu nome e em cinco minutos trouxe o novo cartão. Ainda foi muito mais barato do que costumava ser. É bom quando as coisas funcionam bem e nos poupam tempo e burocracias chatas.
Leituras pela manhã - A franqueza como uma virtude essencial
As the Ancient Greeks knew, frankness is an essential virtue
Hartmut Leppin
Em debates públicos, a palavra de um vendedor ambulante deve contar tanto quanto a de um aristocrata bem educado? A democracia clássica ateniense foi baseada nessa premissa. Todo o cidadão ateniense tinha o mesmo direito de falar sobre todos os assuntos discutidos na assembleia popular. Os gregos antigos chamavam-lhe parrhesía, uma palavra baseada nas raízes pas/pan (tudo/toda a gente) e résis (discurso/ palavra). Os defensores da democracia esperavam que a soma das contribuições de muitos indivíduos diferentes levasse à melhor decisão. Mas a história da parrhesía demonstra que essa ainda é uma questão em aberto: se a democracia se deve basear num direito atribuído a todos os cidadãos ou na virtude dos mais instruídos.
Apesar de terem diferentes visões sobre os méritos da democracia, Demóstenes e Platão compartilhavam a convicção de que não bastava alguém dizer algo e que a competência para falar de maneira significativa não devia ser baseada apenas na igualdade, mas estar relacionada com uma autoridade pessoal e intelectual . Com a emergência de grandes estados monárquicos no mundo mediterrâneo desde Alexandre, o Grande (336-323 AEC), as democracias perderam importância. Correspondentemente, a parrhesía transformou-se numa virtude de elite, especialmente de filósofos. É claro que falamos de homens (poucos escritores antigos consideravam as mulheres capazes de agir/falar com parrhesía) que possuíam tanto a capacidade intelectual quanto a autoridade pessoal para usar a parrhesía. Eles podiam fazer isso em público, mas o seu campo principal eram as relações pessoais. Desta maneira, a franqueza tornou-se uma virtude interpessoal.
Muitos aristocratas helenísticos e romanos esforçaram-se por cumprir os ideais filosóficos e o ideal da parrhesía. Permitia a exibição pública de pelo menos duas virtudes filosóficas importantes: coragem e autocontrole. Ao reconhecerem suas falhas, os criticados mostraram que não eram tiranos. Dessa forma, a franqueza também era útil para os repreendidos. Jogavam um jogo parrhesiástico.
Na helenística, os judeus definiram um recurso adicional de parrhesía: a confiança em Deus. O verdadeiro crente era capaz de agir com parrhesía diante de Deus e da humanidade. Os cristãos seguiram essa linha de pensamento. Os mártires serviram de exemplo desse conceito: pronunciaram publicamente as suas convicções sabendo que morreriam por eles. Tendo mostrado parrhesía na vida, compareciam diante de Deus e podiam falar com ele com parrhesía, a fim de salvar as almas de outros cristãos. Tanto da perspectiva judaica quanto da cristã, as mulheres podiam demonstrar essa confiança em Deus da mesma maneira que os homens - um importante afastamento do mundo clássico.
A história da franqueza, no sentido clássico, revela um dilema do papel do discurso público. A liberdade de expressão é um direito civil básico, mas ninguém pode ignorar a facilidade com que esse direito é mal utilizado. A falta de conhecimento e a falta de responsabilidade tornam a liberdade de expressão um direito arriscado. No entanto, mesmo que um falante possua essas qualidades, mesmo que ele ou ela seja ouvido, o jogo parrhesiástico pode começar de novo.
Hoje, uma garota que não sorri e até mostra sinais de evidente sofrimento tornou-se a nossa parrhesiastés mais popular. Greta Thunberg é a contadora da verdade que depende da autoridade do conhecimento científico para nos explicar como decidir sobre o nosso futuro. O poder desse papel na história, nas suas diferentes formas, é certamente uma das razões de seu impacto dramático. No seu papel, no entanto, ela também oferece uma oportunidade para aqueles que ela repreende de encenar a sua disposição de ouvir e aplaudir o rígido crítico, numa longa tradição. Mas este pode ser apenas o primeiro passo.
citação deste dia
Reading makes immigrants of us all. It takes us away from home, but more important, it finds homes for us everywhere. Jean Rhys
July 26, 2020
A persistência da natureza
John Wilkinson
Dali - A Rosa Meditativa
Equívocos e contradições de Fernanda Câncio
Em seguida fala de 'cultura de cancelamento' dando o exemplo da carta assinada pelos 153 intelectuais americanos que terá sido motivada, em sua opinião, pela polémica à volta dos tuítes de J.K. Rowling sobre a expressão, 'pessoas que menstruam' no âmbito de uma campanha de produtos higiénicos (tradicionalmente chamados femininos). Esse é o segundo equívoco de FC porque J.K. Rowling, ao falar acerca do assunto, está a dar voz às pessoas que critica e não a silenciá-las. Ora, a cultura de cancelamento é justamente o oposto: trata-se de silenciar pessoas não lhes dando voz, tirando-lhes a voz ou ignorando-as como se não existissem.
Não estou aqui a concordar ou a discordar da opinião de J.K. Rowling, estou a fazer notar que criticar (entenda-se criticar como um processo analítico) e argumentar são modos de dar aos outros um estatuto de igualdade e por isso a crítica e a argumentação estão presentes em democracia e não em ditaduras.
Cultura de cancelamento era -e ainda é- o que se fazia aos negros e às mulheres e não só, que eram ostracizados e ignorados, quer dizer, nem sequer se lhes reconhecia voz. Como se faz em muitas culturas de modo generalizado.
Ora, J.K. Rowling dá voz aos seus opositores a partir do momento em que os reconhece como interlocutores, mesmo que seja para criticá-los. A reacção dos opositores que se sentiram atingidos não foi a de argumentar e criticar mas de chamar-lhe nomes e peticionar para que fosse ostracizada. Imediatamente apareceram pessoas a dizer que se recusavam a trabalhar com ela ou a participar na edição dos seus livros. Nem um argumento contra, apenas castigo.
Cá em Portugal também se escreveu uma carta aberta a pedir que calassem o André Ventura por ser fascista. Não me lembro de ver FC criticar essa carta como critica esta. Será porque está de acordo com o conteúdo da carta? Esse é o equívoco e a contradição: sermos a favor de cartas abertas que mandam calar alguém de que não gostamos e contra cartas abertas que pedem para que se possa falar do que não gostamos.
Como a FC muito bem sabe, hoje-em-dia o twitter tornou-se uma guilhotina e nos EUA, sobretudo, um professor universitário, um dirigente de uma empresa, um autor, etc, ser acusado de racismo ou homofobia ou machismo, sem um único argumento que seja, dá origem a despedimentos sem apelo nem agravo, porque, felizmente, os que não tinham voz, agora têm, mas, infelizmente, às vezes usam-na exactamente da mesma maneira que os antigos opressores usavam: mandam calar e castigar. Tem havido casos escandalosos. Não me parece que isso seja um benefício social, que melhore o racismo, a homofobia, a transfobia, o machismo ou outro 'ismo' qualquer.
Finalmente, FC admira-se que pessoas que são feministas possam assinar uma carta contra 'oprimidos', em seu entender. De facto, muita gente, e a FC é uma dessas pessoas, pelo que lemos nas suas crónicas de jornal, abstêm-se de criticar as mulheres, sendo mulheres, os gays, sendo gays, os negros, sendo negro, os políticos de esquerda, sendo de esquerda, os partidos de direita, sendo de direita, etc. Para essas pessoas, eu estar aqui a criticar a FC, uma feminista, é um erro. Como nunca devia ter criticado a Lurdes Rodrigues ou esta Ministra da Saúde ou outra qualquer mulher, porque na opinião dessas pessoas, se critico mulheres estou a dar armas ao inimigo, por assim dizer. Só que a mim parecem-me esses serem são maus princípios para se construir uma sociedade mais justa e igualitária e não critico ou elogio pessoas na base do sexo, cor, credo, orientação política, etc.
Liberdade de expressão e de crítica, que estão na base de uma cultura de 'não cancelamento' e não opressão, só se preservam e fortalecem se defendermos regimes políticos que as valorizem, desde logo dando voz às pessoas, dando instrumentos de controlo à oposição, valorizando vozes críticas, dando força à imprensa livre. Não me lembro de uma única vez, sequer, ter lido crónicas de FC a criticar governos que se destacaram na censura de opositores, na tentativa de controlo dos meios de comunicação social, nem sequer me lembro de ler críticas a indivíduos extremamente machistas da esquerda, ou mulheres ministras que usavam do cancelamento para calar tudo e todos. Dir-me-à que nas suas crónicas fala do que quer. Pois, é exactamente isso a liberdade expressão. Não estou de acordo com ela neste aspecto (embora concorde com muitas das suas crónicas) mas defendo o seu direito a falar do que quer, como quer.
No que me diz respeito sou a favor de argumentar e criticar e não de mandar calar. Já me tentaram calar muitas vezes à força, com bullying, com calúnias vergonhosas. Continuei a falar. Nunca na minha vida colaborei para que alguém deixasse de ter voz. De vez em quando tenho alunos muito racistas e machistas. Podia, pura e simplesmente, mandá-los calar e não lhes dar voz, como vejo outros fazerem. Não deixo que ofendam ninguém, mas não os mando calar. Argumento e obrigo-os a argumentar até que não tenham argumentos. E faço isto uma e outra vez com muita paciência e sem me irritar até que são os próprios a reconhecer que não têm razão. Alguns são teimosos e nunca dão o braço a torcer mesmo não tendo argumentos. Não fico a embirrar com eles por causa disso. São fruto de uma educação e sei muito bem não consigo chegar a todos e há quem não goste mim... A diferença entre mim e a FC é que, muito provavelmente, a FC entende que a mera opinião racista ou machista deles já é, por si, ofensiva para essas minorias, e que isso é razão suficiente para os mandar calar. Não é a minha maneira de pensar.
Lembro-me de um deputado do Parlamento Europeu, há pouco tempo, ter defendido no plenário que as mulheres deviam ganhar sempre menos que os homens pela razão de os homens, serem, obviamente, mais inteligentes que as mulheres. Houve logo petições para o destituir, como castigo de ser tão machista e de o PE não querer que se pense que ele é representativo da casa. A questão é que ele é mesmo representativo pois representa todos os que votaram nele. O que é preciso mudar é a mentalidade das pessoas que votam em homens como ele e não cancelá-lo.
Estou convicta que para se mudar as mentalidades de maneira sólida e não provisória, é preciso persistência e resistência, argumentos convincentes, firmeza e coerência, coragem. Acredito na educação como modo de melhorar as sociedades, mas não à força. Pela palavra. É preciso atitude filosófica de distanciamento e paciência para perceber que a sua luta de hoje vai ser aproveitada, não por si, mas pelos que vieram depois. E que até podem deitar tudo a perder.
Fernanda Câncio
...
Há muito me confunde o tipo de raciocínio que combina uma defesa maximalista da liberdade de expressão com a aflição face às reações - também discursivas - de desagrado que certas expressões de liberdade ocasionam. E mais me confunde ainda que quem repita "palavras são só palavras, não são ações", se transtorne com tempestades tuiterianas (a última vez que vi, o Twitter é feito de palavras), protestos vocais ou mesmo apelos a boicote. Raios, isso não é tudo palavras? Tão palavras como dizer que uma mulher trans não é uma mulher, ou que só as mulheres menstruam, e que se menstrua é mulher - o que é afinal uma forma não particularmente subtil de boicotar vários grupos de pessoas, recusando-lhes o direito a definir a sua identidade e, decorrentemente, a, como a minha amiga, entrar numa casa de banho identificada com o género com que se identificam.
Assim, o que Rowling fez, do seu considerável lugar de poder, foi participar no "cancelamento" daqueles grupos de pessoas - grupos de pessoas historicamente perseguidas, anuladas, obliteradas, assassinadas. E o que esta carta faz, ao afirmar que há menos liberdade discursiva e de debate hoje, é fazer de conta que antes não havia grupos inteiros de pessoas "canceladas", sem direito a voz ou a sequer se autonomearem, e que esse cancelamento, derivado de estruturas relacionais de poder que se perpetuam, não continua a subsistir.
Que haja feministas a assinar uma carta na qual se certifica existir menor liberdade de debate porque os historicamente oprimidos e silenciados agora falam, se irritam e contra-atacam, disputando o poder, é mesmo muito deprimente.
Próximo ano lectivo - questões de segurança
As escolas devem ter turmas mais pequenas e mais profissionais, nomeadamente não docentes, defende o Sindicato de Todos os Professores, que vai iniciar uma campanha de sensibilização. “Os professores querem voltar, mas com turmas como até agora é impensável”, referiu o dirigente André Pestana.
1. As máscaras comunitárias, de tecido, são daquelas compradas no chinês sem nenhuma proteção eficaz ou são daquelas MO que se diz terem uma proteção de 99%? É que, se são das primeiras, é o mesmo que darem nada.
2. Três máscaras por período que podem lavar-se até 20 vezes. Calculo que ao fim de terem ido a lavar a 60º, 10 vezes, a protecção já não é de 99% , mas de 50% ou menos - isto para as tais máscaras especiais porque as outras devem ter uma eficácia de 10% e ao fim de 10 lavagens têm protecção zero, ou pior, absorvem tudo o que lá se deposita.
3. Três máscaras por período que podem lavar-se até 20 vezes. Vamos supor que são das tais especiais e que podem mesmo lavar-se 20 vezes sem perder todas as características de protecção. De cada vez que um professor tenha que ir de manhã e depois à tarde à escola (aulas de manhã, reunião à tarde, ou apoio ao estudo à tarde, por exemplo, o que acontece frequentemente à maioria dos professores), ao fim de um mês gastaram-se as lavagens todas das 3 máscaras.
4. Um professor que more em Alcobaça e esteja a dar aulas em Lisboa (para sermos simpáticos) fica na escola todo o dia, não vai almoçar a casa. Logo, não pode andar com a mesma máscara todo o dia. Ao fim de umas horas de estar fechado em salas em sem ar condicionado, cheias de alunos e a falar alto de modo a que os de trás o ouçam, tem a máscara toda encharcada.
5. As máscara laváveis obrigam a uma lavagem a 60º (mínimo) Portanto, todos os dias ou, até, duas vezes por dia, se terá que fazer um ciclo de lavagem a 60%, muitas vezes só com uma máscara lá dentro. Não sei o que sai mais caro...
6. Segundo indicações do SNS,
Os grupos de risco devem usar máscara?
Sim. Todas as pessoas incluídas nos grupos de risco para a COVID-19, são consideradas mais vulneráveis e devem usar máscara cirúrgica sempre que saiam de casa.
Segundo as recomendações da DGS:
Destacando que existem três tipos de máscaras – respiradores, máscaras cirúrgicas e não cirúrgicas/comunitárias -, a governante sublinhou que estas últimas são destinadas à população em geral, pelo que podem ser feitas com diferentes materiais, nomeadamente algodão ou têxtil. “Não se destinam em caso nenhum a ser utilizados por profissionais de saúde ou por pessoas doentes”, advertiu.
“a DGS recomendou a utilização de máscaras cirúrgicas a todos os profissionais de saúde, a pessoas com sintomas respiratórios e a pessoas que entrem em instituições de saúde”. Por outro lado, prosseguiu, a DGS “também recomendou a utilização de máscaras cirúrgicas a pessoas mais vulneráveis, nomeadamente a idosos com mais de 65 anos, com doenças crónicas e em estados de imunossupressão”.
Portanto, a todas as pessoas que caibam nesta categorização vão ser dadas máscaras comunitárias, como se não fizessem parte de grupos de risco? Ou o ME vai dizer, 'não quero saber, metam baixa que até é uma maneira de pouparmos dinheiro à vossa conta?'
7. Faço parte do grupo de risco por mais de uma razão: sou doente oncológica, a doença em questão é respiratória e sou imunodeprimida e não fui à escola dar aulas no 3º período - por sorte tinha só 10ºs anos e 12º com uma disciplina sem exame.
Falei com vários colegas que estiveram a trabalhar no 3º período, nestas condições de estarem todos separados e com horários desencontrados, dado só estarem na escola turmas do 11º e 12º anos e só nas disciplinas com exame que são poucas.
Disseram-me que mesmo assim, com poucos alunos, é difícil estar a falar com máscara e ser ouvido por todos e que rapidamente a máscara começa a ficar húmida com as salas quentes como são. As pessoas não têm ideia: eu saio sempre a suar das aulas, mesmo nos meses de Inverno.
Alguns disseram-me que a maneira de trabalhar melhor é levar máscara e viseira. Estar perto do quadro e ter a primeira linha de mesas a dois metros de distância. Enquanto se está ali perto do quadro ou da secretária (longe dos alunos) tirar a máscara e deixar só a viseira para se poder ser percebido por todos. Sempre que se aproxima das mesas dos alunos pôr a máscara e deixar a viseira. Ter um desinfetante para as mãos e usá-lo muitas vezes durante a aula. Um problema é quando os alunos têm que ir ao quadro, ou apresentar trabalhos e ficam ali perto dos professores, escrevem com as nossas canetas de quadro, usam o computador para projectar imagens nas apresentações, põem cadernos e outros objectos na nossa secretária, espirram, engasgam-se, tossem a falar do nervoso... Se os quadros são de giz, espirrar e tossir é quase obrigatório... Depois os próprios alunos quando intervêm, se estão nas últimas mesas não se ouvem cá à frente, de modo que têm que tirar a máscara.
E isto eram alunos mais velhos e não do básico. As coisas dentro de uma sala de aula são muito complicadas. Não são nada do que as pessoas imaginam que é estarem todos sossegadinhos enquanto um professor fala.
8. Se as turmas não podem ser diminuídas em número de alunos de modo que cada aluno fique sozinho numa mesa, não vamos poder aproximarmos-nos dos alunos como fazemos frequentemente quando fazem trabalhou ou exercícios, por exemplo, em que vamos de mesa em mesa e paramos e estamos ali em cima dos alunos, pois dois por mesa numa sala pequena, fazem com que se tenha dificuldade até em passar por entre as mesas de tal maneira está tudo apertado- eu ando, muitas vezes, com um banco atrás e sento-me do outro lado da mesa deles e vejo o que estão a escrever, explico o que está bem e o que não está bem e porquê, espero que corrijam, volto a ler, eles aproveitam para tirar dúvidas, etc. Fico ali sentada com eles uns 5 minutos a falarmos uns em cima dos outros, até ver que estão orientados e depois passo a outra mesa.
Se estiver um aluno por mesa, podemos aproximar da mesa pelo lado mais distante do aluno, mas estando dois a dois, não há lado mais distante dos alunos e todo o trabalho que se faz individualmente deixa de poder fazer-se.
Sei que há escolas que fizeram todas as turmas com um máximo de 20 alunos para caberem um por mesa nas salas, o que quer dizer que tiveram autorização para isso. Espero que as outras também tenham.
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As salas de aula são espaços dinâmicos com muitas crianças ou adolescentes activos. No 1º ciclo e até ao 6º ano, então, calculo que as salas sejam difíceis de gerir porque os miúdos essa idade têm muita energia para gastar e não param quietos. E mesmo nos anos a seguir, até ao final do 10º ano, são muito irrequietos. Não se imagine que as salas de aula são uma missa onde os fiéis se mantêm em silêncio e imóveis a ouvir o padre cura. Nos intervalos, à hora de entrada e de saída, uma escola parece mais uma praia da Caparica em pleno Verão.
As pessoas que fazem estas normas para as escolas são pessoas habituadas a trabalhar em salas de edifícios com todas as condições, ou até palácios com pouca gente, adultos, devidamente distanciados, com ar condicionado, etc. e não têm noção do que é o trabalho numa escola, porque lá andaram como alunos e a visão que construíram é a da sua experiência subjectiva de miúdos. A maioria dos adultos que conheço tem má impressão da escola e dão como exemplo 1 professor que não gostaram ou que era antipático e 1 outro que não sabia muito do que ensinava. Ficaram cristalizados nessa subjectividade.
Ainda esta semana ouvi o secretário de Estado dizer que muitos professores encaram a avaliação como punição para os alunos e deu como exemplo um professor que disse, 'se não se portam bem faço-vos um teste surpresa'. Fiquei chocada. Nunca nestes 33 ou 34 anos de trabalho ouvi um único colega dizer que ia castigar os alunos com avaliações ou falar das avaliações como um castigo. O que muitos ainda defendem é que, sem avaliações para pressioná-los a maioria dos alunos nunca estudaria, o que não estou de acordo mas, usar a avaliação como punição foi coisa que nunca presenciei nestes anos todos nem nunca nenhum aluno se me queixou de tal coisa. Por conseguinte, os adultos, mesmo os que têm responsabilidades políticas na governação têm uma ideia errada, preconceituosa e imaginária da escola e do nosso trabalho enquanto professores, a partir de experiências subjectivas negativas que tiveram e fazem normas baseadas nessas cristalizações.
Enfim, estas foram as dúvidas que, assim de imediato, me surgiram ao ler esta notícia.
Como diz André Pestana do S.T.O.P., nós professores, queremos voltar a dar aulas, na escola, não em casa. Este final de ano lectivo foi uma remediação, uma experiência que não foi mais negativa porque durou dois meses e não um ano lectivo inteiro. No entanto, precisamos de saber, ao voltar à escola, que as condições são de segurança e de risco mínimo (sabendo que risco, há sempre algum) e não de falta de segurança e risco máximo.
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