May 02, 2026

Resultado da conversa de Trump com Putin? Retirada de tropas da Alemanha

 

O facto de Trump ter retirado 5000 soldados americanos da Alemanha logo após ter falado com Putin é mera coincidência?

Retirar as tropas da Alemanha é um autogolo

As forças americanas na Europa estão lá para defender os interesses dos Estados Unidos.

ERIC S. EDELMAN E FRANKLIN C. MILLER

Um olhar mais detalhado sobre a Alemanha mostra que os Estados Unidos mantêm actualmente cerca de 35.000 militares no país, incluindo cinco guarnições do Exército, os quartéis-generais do Comando Europeu e do Comando Africano, e os campos de treino em Vilseck, Hohenfels e Grafenwöhr (que são os melhores e maiores centros de treino de forças terrestres fora dos Estados Unidos). 

Além disso, o centro médico militar de Landstuhl é o maior e mais sofisticado centro médico militar norte-americano fora dos EUA e serve tanto os teatros de operações do Comando Europeu como do Comando Central. A Força Aérea dispõe de um importante centro de transporte em Ramstein, que também apoia operações desses dois comandos. 

Se estas infraestruturas não existissem já no início da guerra com o Irão, teríamos de as ter criado. Reduzi-las ou eliminá-las degradaria — ou até paralisaria — operações militares que hoje damos por garantidas.

No entanto, os erros estratégicos não ficam por aqui. De forma inexplicável, Trump acabou de cancelar o destacamento previsto do sistema de mísseis hipersónicos de longo alcance Dark Eagle do Exército para a Alemanha, onde serviria para contrabalançar os mísseis russos Oreshnik e Iskander já posicionados. Isto foi um presente para Vladimir Putin, com quem Trump falou há apenas alguns dias.

Para além da perda militar representada pela redução de tropas, o custo financeiro de tal imprudência — mesmo que essas forças sejam deslocadas para outros países da NATO cujos líderes o presidente chama de “amigos” — atingiria provavelmente, no mínimo, várias centenas de milhões de dólares, um desperdício total numa altura em que o Departamento de Defesa apela a um aumento da despesa para reconstruir o aparelho de defesa dos EUA. 

Cada dólar gasto a deslocar tropas e equipamento pela Europa é um dólar que não pode ser investido na reposição das reservas cada vez mais reduzidas de munições críticas.

A presença militar dos EUA em Espanha é menor do que na Alemanha, mas inclui a base naval de Rota, onde estão estacionados quatro destroyers de defesa anti-míssil estrategicamente posicionados para proteger aliados no sudoeste da Aliança — bem como para vigiar o Estreito de Gibraltar, que liga o Mar Mediterrâneo ao Oceano Atlântico. 

A Força Aérea tem também uma presença significativa no oeste de Espanha, em Morón, a partir de onde facilita operações logísticas e expedicionárias. Tal como na Alemanha, estas duas localizações estão perfeitamente posicionadas para apoiar e sustentar a projeção global de poder dos EUA.

A retirada de forças norte-americanas das suas bases em Itália criaria uma enorme lacuna no dispositivo avançado. A presença dos EUA em Itália inclui uma ala de caças em Aviano, uma brigada aerotransportada de reação rápida em Vicenza, um esquadrão de segurança da Força Aérea essencial para apoiar a participação italiana na força nuclear de dupla capacidade da NATO, uma estação aérea naval chave na Sicília — absolutamente central para os esforços aliados de guerra anti-submarina no Mediterrâneo —, o quartel-general da Sexta Frota e uma grande actividade de apoio naval. 

Remover estas forças de Itália destruiria a capacidade dos Estados Unidos de dominar o Mediterrâneo Oriental, o que seria uma boa notícia para a Rússia e a China, mas muito menos para Israel e outros parceiros de segurança dos EUA no Médio Oriente, sem falar dos aliados da NATO no sudeste da Europa.

O PIOR DESTES CENÁRIOS ainda não foi ordenado, mas o facto de o Presidente Trump ter determinado a saída de um em cada sete militares norte-americanos estacionados na Alemanha sugere que leva a sério uma redução da presença militar na Europa. 

No conjunto, este impulso, motivado por ressentimento, não só diminuiria a capacidade de projecção de poder dos EUA, como também reduziria significativamente a postura de dissuasão e defesa da NATO.

Talvez essa seja a intenção do presidente. A sua persistente incapacidade de compreender o valor da aliança para os Estados Unidos, bem como a sua animosidade de longa data em relação à NATO, têm levado repetidamente a ponderações sobre a saída da aliança. A legislação atual impede-o de abandonar a NATO sem aprovação do Congresso, algo que dificilmente obterá, a julgar pela ovação de pé que o Rei Carlos III recebeu ao elogiar a aliança no seu recente discurso perante uma sessão conjunta do Congresso.

A retirada de forças pode ser uma forma indireta de enfraquecer a NATO. Se é esse o plano de Trump, então que esse debate seja feito às claras. A maioria dos norte-americanos apoia a NATO e o papel dos EUA nela. Se Trump quiser mudar a política, primeiro terá de mudar essa opinião.



Educação: "Há que pensar a infância "como uma espécie de base da humanidade"



do blog https://dererummundi.blogspot.com/

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A INFÂNCIA "COMO UMA ESPÉCIE DE BASE DA HUMANIDADE"




O jornal Público, na sua versão online do passado domingo, deu a conhecer uma entrevista feita pela jornalista Cristiana Faria Moreira a uma investigadora de Comunicação e Estudos dos Media e ex-directora do Institute for Research on Digital Literacies da Universidade de York, no Canadá (ver aqui). No seu trabalho destaca-se o capitalismo digital e as tecnologias destinadas a crianças (kidtech).

Dessa entrevista, extraio, e reproduzo abaixo, alguns aspectos que responsáveis pela educação escolar, formadores de professores, directores escolares, professores e outros profissionais de ensino devem ter presente nas decisões que tomam.

As crianças e os jovens são um recurso financeiro para as empresas, que os veem como uma fonte de lucro. Isso não é novo: há muito tempo que estão "no centro da cultura de consumo e do capitalismo", mas hoje temos "empresas enormes, gigantescas" a fazê-lo com competência inaudita. Essas empresas:

a) Moldam as crianças e os jovens como consumidores. Nos espaços digitais recolhem-se os seus gostos e orienta-se a publicidade em função desses gostos. E isto sem respeito pela privacidade. É o fim da privacidade;

b) Extraem deles dados com grande interesse económico: "podem-se vender a anunciantes, a máquinas de IA preditiva. Nem sequer conhecemos todas as formas como esses dados podem ser utilizados. E pensemos em grandes volumes de dados e no que, a partir deles, se pode compreender de toda uma geração ou de toda uma comunidade". É certa:

- a falta de transparência acerca do que acontece aos dados. "O que temos de perguntar é: para onde vão esses dados? Não sabemos, assim como não sabemos quanto tempo vão ser guardados, nem que outras entidades terão acesso;

- a ausência de regulação das empresas tecnológicas e das suas plataformas, não obstante a responsabilidade que os governos têm "de garantir que estas estruturas vão ao encontro das necessidades da população. Dizer às pessoas para se manterem afastadas não é uma solução (...). Parte do problema é que estas empresas são reguladas globalmente. Às vezes nem sequer as conseguimos definir. E isso tem sido uma forma de contornar a regulamentação".

c) A indústria do edtech, das tecnologias aplicadas à educação, "é global, enorme, e a crescer exponencialmente, à medida que mais governos estão a cortar no financiamento às escolas públicas". (...) "Também acho que é importante pensar no que é que está a faltar às crianças para estarem a recorrer a estas ferramentas".

d) "Quanto mais extremo for o que se diz, mais atenção se recebe, mais valor se cria. Não basta ter mais utilizadores, é fazer com que eles fiquem mais tempo, ter mais conteúdo, deixar as pessoas furiosas e irritadas... tudo isso cria valor para a plataforma. As empresas de redes sociais não se importam que vejas os conteúdos porque os odeias ou porque gostas deles. Ser um conteúdo extremista ganha atenção. Tudo o que dizemos sobre misoginia, sobre racismo, é incorporado ali.

e) "À medida que este material se tornar parte das ferramentas de IA preditiva perdemos o controlo sobre ele. E é bastante assustador pensar nas implicações que isso pode ter a longo prazo e sobre as quais sabemos ainda muito pouco".

Essas empresas "isentam-se completamente de toda a responsabilidade. E depois responsabilizamos pais e responsabilizam as escolas." Há muito que as crianças estão no centro da cultura de consumo e do capitalismo, mas a escola e a sala de aula são espaços que devem pugnar pela segurança.

Conclui essa investigadora: "está a tornar-se bastante assustador". É que

"Se mudarmos a infância, acabamos por mudar o que significa ser humano"
Há que pensar a infância "como uma espécie de base da humanidade".

A Ucrânia que lance drones em cima deles

 

Sobretudo se desfilarem o exército e armas. Não faça como da outra vez que se inibiu de atacar o exército de Putin e o seu bando de mafiosos durante as marchas militares de comemorações.


Como falar com Putin? Da única maneira que ele percebe

 

Macron fala ao Exército francês sobre a OTAN, a Ucrânia e a estratégia de defesa europeia

 

Macron: 
Estamos a organizar a coligação dos dispostos a garantir a segurança na Ucrânia sob comando franco-britânico.
Os europeus devem assumir mais responsabilidade pela sua própria defesa, manter a interoperabilidade da OTAN e ser capazes de agir em conjunto.
Este exercício demonstrou que os europeus podem, de forma credível, levar a cabo em conjunto uma operação desta envergadura, com a França como nação-quadro.
Essa é uma mensagem clara para os nossos parceiros ucranianos e para todos os exércitos europeus que sabem que podem participar nessas missões.
Em fevereiro de 2022, poucos especialistas acreditavam que a Ucrânia iria resistir, mas os ucranianos resistiram, inovaram e defenderam o seu território passo a passo com fortaleza de espírito. Nenhum equipamento fará isso por vocês. No final, a vitória continua a depender das pessoas.


Porque é que os EUA abandonaram a Ucrânia?

 

Para apoiar Putin. Uma coisa é a Europa liderar no financiamento da Ucrânia, pois é um país europeu, outra muito diferente são os EUA abandonarem a Ucrânia para apoiar o invasor. 


Espero que o governo não vá nesta conversa





Os americanos vendem os aviões mas o controlo informático das máquinas fica com eles. Portugal está na UE e tem que investir na defesa europeia, não na industria americana para depois os americanos controlarem o que podemos ou não fazer.

Americanos querem um “aliado forte” e fazem pressão ao mais alto nível para Portugal comprar caças F-35


Vítor Matos - Expresso

Títulos enganadores para atacar professores

 

Fui ler o artigo pensando ir encontrar professores criminosos,que cometeram crimes contra alunos. Sendo 800 em 120 mil professores, são 0,6 %, mas mesmo assim, 800 professores criminosos contra alunos... Li o artigo e afinal, a maioria dos 800 processos são para obrigar os professores a darem as notas que os pais querem; um processo deveu-se a uma professora ter gritado com um aluno; uma professora foi perseguida e obrigada a pôr baixa pela própria escola, porque muitas direcções têm medo dos pais. Porém, lemos o título e parece que os professores são um bando de criminosos. Já vi este artigo em duas redes sociais com comentadores/pais a chamar nomes aos professores. Gostava de saber a porcentagem de processos em outras profissões. Enfim, continuem assim que vão bem na campanha para levarem professores para as escolas.




May 01, 2026

Ranking da liberdade de imprensa no mundo - 2026

 

Os primeiros 20 países são todos, excepto um, da Europa, quase todos da Ocidental. Portugal está em 10º, sendo o primeiro do nível 2, 'sim, há liberdade de imprensa, mas...' RU, no 18º; Espanha no 29ª; Austrália no 33º; Grécia no 86º. Tem interesse porque são governos de esquerda e deviam, segundo as narrativas de esquerda acerca de si mesma, ser os maiores apoiantes da liberdade de imprensa - que está indissociavelmente ligada à democracia. Os regimes islamitas, elogiados pela esquerda como o ideal de civilização dos direitos humanos aparecem no fim da tabela - perto dos regimes comunistas ou pró-comunistas.

https://rsf.org/en/index?year=2026


«Os Estados autoritários, os poderes políticos cúmplices ou incompetentes, os agentes económicos predatórios e as plataformas online insuficientemente regulamentadas são os principais responsáveis pelo declínio global da liberdade de imprensa», afirmou Anne Bocande, diretora editorial da RSF, num comunicado.

Bocande afirmou que a inacção perante tais ameaças aos meios de comunicação social constitui uma forma de aprovação.

O relatório salientou que menos de 1% da população mundial vive num país onde a liberdade de imprensa foi classificada como «boa», uma descida em relação aos 20% registados em 2002, descrevendo o jornalismo como cada vez mais criminalizado a nível mundial.

Outrora um mercado modelo para a liberdade de imprensa, os EUA registaram um declínio nos últimos anos, atribuído ao presidente dos EUA, Donald Trump, e à postura hostil da sua administração para com os repórteres. Trump rotulou os meios de comunicação críticos de «notícias falsas», intentou ou ameaçou com ações judiciais contra empresas de comunicação social e brincou com a possibilidade de os repórteres serem alvejados.

Em toda a região da Ásia-Pacífico, as perspetivas eram sombrias, com a análise que acompanha o índice a projetar um declínio ainda maior da liberdade de imprensa no futuro, alimentado por leis repressivas e táticas aprendidas com regimes repressivos.

«As táticas de censura e propaganda desenvolvidas pelos regimes autoritários regionais, com a China à cabeça, estão agora a espalhar-se muito para além das suas fronteiras», afirma o relatório. A China ocupou o 178.º lugar no índice, ficando apenas à frente da Coreia do Norte e da Eritreia, um pequeno país costeiro africano onde não existem meios de comunicação independentes, de acordo com o índice.

Os países europeus ocuparam posições mais favoráveis, com a Noruega no topo do ranking global, seguida pelos Países Baixos, Estónia, Dinamarca e Suécia. As suas classificações devem-se, em grande parte, a proteções legais robustas.

A RSF elabora o seu índice anual há 25 anos, avaliando 180 países e territórios, desde os mais livres até aos mais opressivos. O grupo, fundado em Montpellier por quatro jornalistas em 1985, defende a promoção dos direitos dos jornalistas a nível global.

https://www.japantimes


Ormuz: uma opinião em contra-mão


“Os americanos já não estão interessados em manter a ordem global às suas próprias custas. Durante oitenta anos, a Marinha dos Estados Unidos garantiu a segurança dos mares para todos. Essa era acabou. A partir de agora, se quiseres que o teu petróleo chegue ao destino, terás de garantir tu próprio a sua segurança.” — Peter Zeihan

O Mito da “Portagem de Ormuz”


Apesar das notícias nos media globais que afirmam que o Irão “fechou” Ormuz ou está a cobrar “taxas de trânsito”, isto não passa de propaganda iraniana reciclada.

Sejamos claros: não existem taxas de trânsito em Ormuz. O parlamento iraniano apresentou um “projecto de lei” e a câmara de eco irresponsável das redes sociais tratou-o como um facto consumado. Não se trata de uma portagem. 

Porque é que o Irão cobraria aos seus parceiros como a China, a Índia ou o Paquistão? Além disso, os canais de águas profundas de Ormuz situam-se em águas de Omã, não iranianas.

A razão pela qual o tráfego de petroleiros abrandou não é porque o Irão tenha fechado um “portão”, mas porque os Estados Unidos não têm pressa em fornecer seguros marítimos. Nenhum armador se atreve a navegar sem seguro, mesmo com escolta militar. Os americanos estão deliberadamente a arrastar os pés — é o “detox” em acção, forçando os europeus a assumir finalmente o esforço principal.

Pode discutir-se se o plano de Trump é “bom” ou “mau”, mas não se pode discutir os resultados. Está a alcançar um enorme sucesso no Irão e a projectar um poder inegável em direcção à China.

Falando da China: depois de ter interrompido as importações de petróleo dos EUA seis meses antes da eleição de Trump, Pequim voltou a comprar petróleo americano. Porquê? Porque Ormuz está, na prática, “fechado” devido à falta de seguros e, com a Venezuela e o Irão fora de jogo, os chineses perceberam que não têm outras opções.

WEISSWORD in https://weissword.


A russificação dos EUA



Hoje, G. Elliott Morris, do Strength in Numbers, assinalou que Trump atingiu um novo mínimo tanto no desempenho global do seu cargo como na forma como gere a economia, com -22,2 e -40,3, respetivamente. 

Esses números reflectem a percentagem de pessoas que aprovam a sua actuação numa determinada área menos as que a desaprovam. De facto, Morris observou que a taxa de aprovação de Trump na economia é tão baixa que “literalmente rebentou a escala deste gráfico no meu portal de dados”.

Na terça-feira, Morris explicou no Strength in Numbers que, embora os republicanos tenham argumentado recentemente que precisam apenas de mobilizar eleitores para vencer as eleições intercalares, a afluência às urnas não é o seu problema. O verdadeiro problema é que os eleitores não gostam do que Trump está a fazer.

Um símbolo evidente da presidência de Trump é a sua decisão unilateral de demolir a Ala Este da Casa Branca e substituí-la por um gigantesco salão de baile. Uma nova sondagem do Washington Post–ABC News–Ipsos, divulgada hoje, mostra que os americanos se opõem ao salão de baile por uma margem de cerca de dois para um. Cinquenta e seis por cento dos americanos opõem-se, enquanto apenas 28% o apoiam. Entre os que se opõem, 47% fazem-no de forma veemente.

Dan Diamond e Scott Clement, do Washington Post, assinalam que as pessoas também não gostam do arco triunfal proposto por Trump — 52% contra, face a 21% a favor — nem da ideia de colocar a assinatura de Trump no papel-moeda. Sessenta e oito por cento dos americanos opõem-se a esse plano, enquanto apenas 12% o apoiam. Até entre os republicanos há oposição, por 40% contra 28%.

E depois há a guerra de Trump contra o Irão. Uma sondagem recente da Reuters/Ipsos mostra que apenas 34% dos americanos aprovam os ataques ao Irão, enquanto 61% se opõem. 

Os preços da gasolina continuam a subir, com o petróleo Brent a ultrapassar hoje brevemente os 114 dólares por barril — o valor mais alto desde junho de 2022, pouco depois de a Rússia ter lançado o seu ataque à Ucrânia. O senador Angus King (I-ME) referiu hoje na CNN que estes preços mais elevados estão actualmente a custar aos consumidores americanos cerca de 700 milhões de dólares por dia.

No seu Substack de hoje, o economista Paul Krugman observou que o acrónimo “TACO” (“Trump Always Chickens Out”, ou seja, “Trump acobarda-se sempre”) foi substituído por “NACHO”: “Not A Chance Hormuz Opens” (“Não há hipótese de Ormuz reabrir”). Krugman explica que é improvável que o Irão reabra o Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo mundial antes de Israel e os EUA iniciarem ataques aéreos contra o Irão a 28 de fevereiro de 2026, até que “os danos económicos provocados pelo seu encerramento se tornem muito mais graves”.

Trump mantém um bloqueio norte-americano aos portos iranianos, e o Irão afirma que não reabrirá o estreito até que esse bloqueio ao transporte marítimo iraniano seja levantado. Krugman nota que o ego de Trump não lhe permitirá “encarar a realidade de que ele, mais ou menos sozinho, conduziu a América à maior derrota estratégica da sua história”.

Assim, ilude-se pensando que pode extrair concessões do Irão, embora não tenha sido claro quanto a quais seriam. Por seu lado, observa Krugman, as autoridades iranianas não têm incentivo para chegar a acordo, tanto porque a pressão sobre o petróleo prejudica os EUA e, portanto, Trump, como porque não têm razões para acreditar que Trump cumpriria qualquer acordo. Ele tem o hábito de quebrar acordos.

“A questão agora”, escreveu Krugman, é “quanta destruição terão de suportar o mundo e a América antes de Trump estar disposto a aceitar a realidade?”

O secretário da Defesa, Pete Hegseth, testemunhou ontem perante a Comissão das Forças Armadas da Câmara dos Representantes e hoje perante a Comissão das Forças Armadas do Senado sobre o pedido de Trump de um orçamento de defesa de 1,5 triliões de dólares (medida americana) e sobre a guerra com o Irão. Foi a primeira vez que um membro da administração compareceu numa audição pública desde o início da guerra e os legisladores tinham muito a dizer. O senador Jack Reed, de Rhode Island, o democrata mais graduado na comissão, resumiu a situação:
“Há sessenta e um dias o Presidente Trump iniciou unilateralmente a guerra no Irão. Não tinha uma estratégia coerente. Recusou apresentar o caso ao povo americano ou consultar o Congresso. Não apresentou qualquer prova de uma ameaça imediata e ignorou os conselhos de especialistas militares e de inteligência que o alertaram para as consequências. Hoje, o nosso país encontra-se numa posição estratégica pior. O Estreito de Ormuz estava aberto. Agora está fechado. Treze militares perderam tragicamente a vida e mais de 400 ficaram feridos. Perdemos dezenas de aeronaves, sofremos danos significativos nas nossas bases na região e consumimos uma quantidade alarmante do nosso arsenal de mísseis. O moral e a prontidão das forças, especialmente entre unidades e navios sobrecarregados, como o porta-aviões USS Gerald R. Ford, foram afetados. Os preços da gasolina e dos fertilizantes dispararam em todo o mundo. As famílias americanas estão a suportar o custo de uma guerra com a qual nada queriam ter a ver e da qual nada ganharam.”
Amanhã assinalam-se 60 dias desde que Trump informou o Congresso de que tinha iniciado ações militares contra o Irão. Ao abrigo da Lei dos Poderes de Guerra de 1973, após 60 dias o presidente tem de pôr fim às hostilidades ou obter aprovação do Congresso. No seu testemunho de hoje, Hegseth tentou argumentar que o prazo de 60 dias é suspenso durante um cessar-fogo, apenas para o senador Tim Kaine (D-VA) assinalar que a lei não diz isso.

Ainda assim, hoje os republicanos no Senado bloquearam outra medida democrata — a sexta, apresentada pelo senador Adam Schiff (D-CA) — para obrigar Trump a pôr fim à guerra com o Irão. O presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson (R-LA), disse a jornalistas da NBC News que o Congresso não precisa de interferir nas ações de Trump no Irão porque os EUA não estão atualmente “em guerra”.

E depois há a corrupção. 

Na semana passada, surgiu a notícia de que uma start-up apoiada por Eric, filho do Presidente Trump, ganhou um contrato de 24 milhões de dólares do Pentágono. Hoje soube-se que a Força Aérea dos EUA concordou em comprar um número não divulgado de drones a uma empresa apoiada pelos filhos de Trump.

E depois há a incompetência. 

Hoje, após uma paralisação de 76 dias, os republicanos na Câmara dos Representantes aprovaram finalmente uma medida do Senado para financiar o Departamento de Segurança Interna, enquanto retinham verbas do ICE e da Alfândega e Protecção de Fronteiras. O Senado aprovou o diploma por unanimidade a 27 de março, mas, como correspondia ao que os democratas pretendiam, o presidente da Câmara recusou levá-lo a votação até hoje.

Perante a crescente impopularidade de Trump, os republicanos estão a mudar não as suas políticas impopulares, mas as regras eleitorais, aparentemente na esperança de manipular o sistema para vencer eleições independentemente da sua impopularidade.

Ontem, com praticamente nenhuma participação pública, o Senado da Florida aprovou um mapa eleitoral manipulado (gerrymandering) concebido para dar mais quatro lugares no Congresso aos republicanos, apesar de, há mais de dez anos, os eleitores terem aprovado uma alteração constitucional que proíbe esse tipo de manipulação partidária.

Também ontem, a decisão do Supremo Tribunal no caso Louisiana v. Callais abriu caminho para que os republicanos nos Estados do sul redesenhem os seus mapas eleitorais, transferindo entre 10 e 15 lugares dos democratas para os republicanos. Na decisão, os seis juízes nomeados por presidentes republicanos declararam que os que alegam discriminação racial no desenho dos distritos têm de provar que os legisladores agiram intencionalmente com base na raça e não no partidarismo — algo que o tribunal declarou estar fora do alcance dos tribunais federais.

A decisão significa que os Estados podem agora redesenhar distritos para reduzir o poder eleitoral das minorias, um grupo demográfico que tende a votar nos democratas.

O governador republicano do Louisiana, Jeff Landry, declarou imediatamente o estado de emergência, suspendendo as eleições primárias no Estado para poder redesenhar os distritos e garantir mais um ou dois lugares republicanos. Mais de 100 mil boletins de voto por correspondência já tinham sido enviados — alguns já foram devolvidos — e a votação deveria começar dentro de dias.

Os democratas já interpuseram uma ação judicial contra a tentativa do governador de travar uma eleição já em curso e exigem que esta prossiga. A acção sublinha, entre outros pontos, que a Constituição atribui às legislaturas estaduais, e não ao governador, a responsabilidade de definir “os tempos, locais e modo de realização das eleições para senadores e representantes”.

Legisladores no Tennessee, Mississippi e Alabama também estão a considerar redesenhar distritos na sequência da decisão Callais.

Os democratas responderam ao enfraquecimento da Lei do Direito de Voto pelo Supremo Tribunal e às manipulações eleitorais dominadas pelos republicanos que certamente se seguirão. Estados dominados por democratas estão a considerar as suas próprias manipulações para contrabalançar os republicanos, bem como nova legislação para proteger os direitos de voto das minorias.
“A decisão de hoje por esta maioria ilegítima do Supremo Tribunal constitui um golpe contra a Lei do Direito de Voto e foi concebida para minar a capacidade das comunidades de cor em todo o país de elegerem o candidato da sua escolha”, disse aos jornalistas na quarta-feira Hakeem Jeffries (D-NY), líder da minoria na Câmara. “Mas não estamos aqui para recuar. Estamos aqui para reagir.”
Trump, entretanto, quer ainda mais. A sua conta nas redes sociais publicou hoje: 
“Quanto abuso pode o Senado Republicano suportar por parte dos lunáticos da esquerda radical, sob a forma de senadores democratas, antes de EXPLODIR (TERMINAR!) O FILIBUSTER e aprovar medidas a um ritmo recorde, incluindo a Lei Save America, que seria impensável sem o fim do filibuster?? Sem o filibuster, [p]oderíamos aprovar uma lei atrás de outra. Poderíamos aprovar leis e medidas que nunca sequer sonhámos aprovar. E sabem mais uma coisa? Não perderíamos durante 50 anos.”
As próximas eleições estão claramente no pensamento de Trump. Hoje, numa intervenção na NewsMax, disse: 
“É um problema eu não estar no boletim de voto. E tenho de convencer — toda a gente diz que se eu estivesse no boletim ganharíamos por uma vitória esmagadora. Tenho os melhores, alguns dos melhores números nas sondagens que alguma vez tive.”
por Heather Cox Richardson

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O que estará a China a pensar perante tanta incompetência estratégica política, diplomática e militar dos EUA, dentro e fora das suas fronteiras, levada a cabo por uma administração infiltrada ao mais alto nível por criminosos do mais baixo nível? Esperança de que pode expandir-se sem oposição credível e eficaz?

April 30, 2026

Kaja Kallas tem a cabeça arrumada

 

Não sei como é que este homem aguenta a pressão

 

E como consegue navegar no meio da esquizofrenia de tantos líderes medrosos.


É difícil mantermo-nos a par da esquizofrenia da alta política mundial

 

E não falo apenas do mafioso putin-lover da Casa Branca. Também os europeus, dia sim, dia não mudam a trajectória da sua política. Primeiro choram com medo de fazer um exército europeu não vá Trump zangar-se com eles - parecem Trump a lidar com Putin. Depois exigem que a Ucrânia se deixe aniquilar pelos russos: ora não podem atacar as fontes do petróleo, ora têm que arranjar as tubagens que a Rússia destrói co mísseis para continuarem a vender petróleo a inimigos, ora pedem para a Ucrânia render-se e dar territórios a Putin, ora pedem que a Ucrânia pague aos russos!!! Que líderes cobardes e mendazes! Assim não vamos lá.


Soluções

 





Instituto Planeta Vida

Polónia usa “muros de comida” para combater desperdício e para alimentar quem precisa.
Em várias cidades da Polónia, geladeiras comunitárias instaladas em paredes de becos viraram símbolo de solidariedade. Conhecidas como “muros de comida”, funcionam 24 horas por dia e estão abertas a qualquer pessoa.
Cafés, padarias e mercados abastecem diariamente as geladeiras com refeições frescas, frutas, pão e leite. Na maioria dos casos, são alimentos de qualidade que sobrariam no fim do dia e acabariam no lixo.
A regra é direta: se precisar, pegue. Se puder dar, contribua. Não há cadastro, fila ou perguntas. Nas portas, mensagens como “Sirva-se” e “Você não está sozinho” reforçam a ideia de apoio mútuo.
O modelo nasceu para reduzir o desperdício de alimentos e, ao mesmo tempo, garantir que pessoas em situação de vulnerabilidade tenham acesso a comida digna. Voluntários fazem a limpeza e verificam a validade dos produtos, mas a gestão é coletiva e baseada na confiança.
Para os poloneses, os “muros de comida” não são vistos como caridade. O conceito que sustenta a iniciativa é o de humanidade compartilhada: quem tem a mais deixa, quem precisa tira, sem burocracia e sem estigma.
Por: Joel CapembeL @bombas.nabanda

Mahler e um jantar ucraniano

 


Fui ouvir a 5ª de Mahler. É uma sinfonia que não faz sentido como um todo. A primeira parte faz sentido sozinha, quer dizer os dois primeiros movimentos tempestuosos e caóticos da oração fúnebre. Fazem-me lembrar Béla Bartók. A segunda parte não faz sentido nenhum. Tanto tem drama e trompas ruidosas e violência como de repente estamos a ouvir uma valsinha. Parece uma mante de retalhos sem nexo. Depois vem o famoso Adagietto, aquela coisa wagneriana, lenta, como se o tempo tivesse parado, pungente e arrebatadora com píncaros poéticos de cordas e harpa que comove até às lágrimas, sobretudo se é tocada com extrema sensibilidade (o que foi). Como é que se sai daquele lugar etéreo para outra coisa qualquer? O que pode vir a seguir àquilo? Mas Mahler sai dali para o último movimento. Nesta sinfonia gosto da primeira parte e gosto do Adagietto, mas na minha cabeça são coisas separadas. 

Enfim, a seguir fomos jantar a um restaurante ucraniano ali perto, muito simpático.






Dividimos umas entradas. Gostámos especialmente de umas panquecas de batata com molho de cogumelos, ervas e natas frescas. Estava óptima. Depois comi o famoso supremo de frango à Kyiv. 


Houve quem preferisse a Frigideira Lviv



No fim dividimos este bolo chamado Spartak pelos quatro. 


Foi bom. Pessoas simpáticas e atenciosas. Comida boa.

Depois à volta apanhei um acidente na ponte com três carros enfaixados uns nos outros e cheguei tardíssimo.


April 29, 2026

A merdificação da tecnologia a merdificar as nossas vidas



Ultimamente passo a vida a desactivar funcionalidades no telemóvel. As últimas foram as notificações de bancos. De há um par de semanas a esta parte, de cada vez que pegava no telemóvel havia mensagens financeiras no ecrã bloqueado: pagaste x à companhia do gás; foi depositado x na tua conta, etc. E o Instagram também lá deixa mensagens sobre alguém ter publicado qualquer coisa. Passo o tempo a 'desnotificar'. Que chatice! Agora, se entro no Google Chrome, imediatamente bloqueia-me o ecrã com um pedido de só o usar a ele e declarar universalmente que é o meu browser preferido; em vários sites da Meta, tenho que declarar que quero ver anúncios para poder aceder ao site. Que merdice!
Pois um canadiano escreveu um livro sobre a merdificação da tecnologia que merdifica as nossas vidas fazendo monopólios e cartéis sob o olhar (merdoso) dos políticos, demasiado medrosos para os regular.


Screen and Shout

Gadgets and Gizmos

The origins of our digital nightmare


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Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It
by Cory Doctorow



Needy Media: How Tech Gets Personal
by Stephen Monteiro


Pouco tempo depois de receber o meu novo portátil de trabalho, fiquei extremamente frustrado com o Microsoft OneDrive, que insistia em que eu guardasse tudo na cloud. Parecia impossível guardar qualquer documento no disco rígido. Após algumas horas a procurar soluções, desinstalei o OneDrive, algo contra o qual muitos comentadores na internet alertavam veementemente. Senti que tinha de fazer alguma coisa, e isso até resolveu parcialmente o problema: agora consigo guardar e abrir ficheiros no meu computador (embora ainda tenha de passar por quatro janelas inúteis para o fazer). No entanto, sem o software de armazenamento, as coisas estão muito, muito instáveis. O Microsoft Word bloqueia constantemente e, quando reinicia, abre uma série de documentos aleatórios. Claro que não é só a Microsoft. Sempre que abro um PDF, a Adobe diz-me que parece ser um documento longo e pergunta se quero que a sua IA o resuma por mim. Como alguém que ganha a vida a ler e a escrever, não consigo imaginar uma pergunta mais insultuosa para o meu computador me fazer.

Felizmente, surgiu uma nova expressão para resumir a forma como a nossa tecnologia já não funciona tão bem como antigamente, uma expressão que entrou no léxico a uma velocidade impressionante: “enshittification” (merdificação). Cunhado pelo romancista, blogger e activista dos direitos digitais canadiano-britânico Cory Doctorow, o termo capta na perfeição grande parte do nosso atual inferno digital: nada é tão bom como antes e tudo, até ao limite, é despejado diretamente nos centros de dados. Em Enshittification: Why Everything Suddenly Got Worse and What to Do About It, Doctorow mostra como a nossa tecnologia se degradou tão rapidamente e apresenta algumas possíveis estratégias de mitigação.

Parte do apelo — e da graça — deste livro está na ousadia escatológica do título. Tendo cunhado uma expressão que define o espírito do tempo, Doctorow sabe combinar humor grosseiro com uma clareza surpreendente ao descrever o fenómeno de tudo se tornar mais “merdoso”, incluindo as suas causas e consequências. 

Usa a palavra centenas de vezes, bem como cria, com evidente prazer, várias derivações: merdificar e o seu oposto, desmerdificar; merdificatório e desmerdificatório; a merdina; a Grande Merdice; e (a minha favorita absoluta) o Merdoceno: a era geológica em que vivemos actualmente. Doctorow também sabe construir frases que prendem o leitor: “Quando uma empresa pode ‘merdificar’ os seus produtos, enfrentará a tentação permanente de o fazer.”

Por baixo da diversão do título — também presente na capa, que mostra um enorme emoji de cocó com “&$!#%” a tapar-lhe a suposta boca —, Doctorow fala muito a sério. Logo no primeiro parágrafo da introdução, não poupa palavras: “Não és só tu.” E continua: “A internet está a piorar, rapidamente. Os serviços de que dependemos, que antes adorávamos? Estão todos a transformar-se em montes de lixo, ao mesmo tempo. Pior ainda, o digital está a fundir-se com o físico, o que significa que as mesmas forças que estão a arruinar as nossas plataformas estão também a arruinar as nossas casas e os nossos carros, os locais onde trabalhamos e fazemos compras. O mundo é cada vez mais composto por computadores nos quais colocamos os nossos corpos, e computadores que colocamos dentro dos nossos corpos. E esses computadores são péssimos.”

Dei por mim a concordar com cada frase. Isto é, claro, parte do poder da palavra “merdificação”: todos reconhecemos a sua verdade.

Nas quatro secções seguintes — “A História Natural”, “A Patologia”, “A Epidemiologia” e “A Cura” —, Doctorow explica de forma inteligente como chegámos aqui. Em termos simples, este “colapso súbito das plataformas que está a acontecer à nossa volta” surgiu porque as grandes empresas tecnológicas procuram apenas maximizar os lucros e satisfazer os acionistas. Têm-nos algemados como clientes; mantêm as empresas presas aos seus sistemas; e intimidaram qualquer poder regulador governamental. 

Para quem duvide, Doctorow apresenta provas. Ele descreve como Facebook, Amazon, Apple e Twitter conseguiram atrair utilizadores e anunciantes com produtos revolucionários que, no início, funcionavam; mas, assim que todos ficámos dependentes, começaram a tornar-se cada vez piores. “Todas as nossas empresas tecnológicas estão a tornar-se terríveis”, escreve ele, “ao mesmo tempo, e não estão a morrer. Continuamos presos nas suas carcaças em decomposição, incapazes de escapar.”

O principal motor da merdificação é um capitalismo fora de controlo. Através de monopólios, de uma regulação perigosamente fraca e da falta de interoperabilidade, os gigantes empresariais podem basicamente fazer o que lhes apetece. 

Doctorow deixa claro quão grave é o panorama actual, em vários sectores: “Hoje, há cinco grandes editoras, quatro grandes estúdios, três grandes editoras discográficas, duas empresas que dominam as aplicações e uma única empresa que domina os ebooks e os audiolivros.” 

Como ele observa, “Cem empresas são uma multidão, uma turba. Cinco empresas são um cartel.” Sem supervisão, os Googles deste mundo podem sabotar os resultados de pesquisa para mostrar mais anúncios e aumentar os lucros. Esta é uma parte importante da enshittification: é feita deliberadamente. “Assim que o medo da concorrência foi eliminado”, escreve ele, “tornar a Pesquisa Google pior foi um pequeno preço a pagar por acções em alta e recompras massivas.”

Talvez a parte mais assustadora do alerta de Doctorow seja que já não se aplica apenas a sites e plataformas de redes sociais. Devido ao baixo custo dos microchips, praticamente todos os produtos imagináveis estão agora vulneráveis. 

Um exemplo revelador é a varinha sous vide da Anova Culinary, que, durante quase dez anos, vinha acompanhada de uma aplicação gratuita que permitia controlar o aparelho de cozinha. Em agosto de 2024, o CEO da empresa, Stephen Svajian, anunciou que os novos utilizadores teriam de pagar uma subscrição mensal de 2 dólares pela aplicação. Svajian apercebeu-se, escreve Doctorow, “de que os dados que recolhia dos seus clientes não valiam o suficiente para cobrir os custos de os espiar.” O mesmo acontece com muitos outros aparelhos domésticos aparentemente inofensivos. Até os nossos veículos nos estão a vigiar: “O teu carro é uma plataforma de vigilância sobre rodas que recolhe tanta informação sobre ti que os próprios fabricantes alertam que qualquer pessoa que obtenha acesso ao teu carro poderia, de facto, matar-te.”

O inventário que Doctorow faz de todos os truques, lacunas e desvios que empresas grandes e pequenas utilizam para maximizar lucros é devastador. Ele explica como recorrem às leis de direitos de autor para impedir qualquer pessoa de mexer nos seus produtos, sobretudo nas aplicações. 

Uma app “é um site envolto em propriedade intelectual suficiente para tornar crime instalar um bloqueador de anúncios ou qualquer outra modificação que faça o produto funcionar melhor para o utilizador, em detrimento dos accionistas da empresa.” Ao trazer outros exemplos, Doctorow mostra que a tecnologia é apenas uma parte influente de um quadro muito mais vasto. “Praticamente todos os sectores são assim”, diz-nos, “dos transportes rodoviários aos supermercados, dos hotéis à indústria aeroespacial. Quando aviões da Boeing começam a cair do céu, é esta força que está em ação: concentração, captura regulatória, enshittification.”

Com provas contundentes, Doctorow desmonta a forma como os nossos senhores tecnológicos nos abandonaram. Em Needy Media: How Tech Gets Personal, o professor de estudos da comunicação Stephen Monteiro segue uma abordagem ligeiramente diferente, escrevendo uma genealogia detalhada de como os nossos dispositivos mais pequenos se tornaram no que são hoje. 

Ao contrário do livro de Doctorow, que é um manual de economia disfarçado, Needy Media é tão académico quanto parece. Monteiro propõe-se argumentar que as “relações que existem entre os utilizadores e os seus dispositivos inteligentes portáteis têm tanto a ver com o valor afectivo das trocas multissensoriais, rudimentares, que ocorrem entre utilizador e dispositivo, como com as interacções com outras pessoas e sistemas, normalmente realizadas através de mensagens, chamadas, publicações nas redes sociais, scrolling e ações semelhantes.” Por outras palavras, os nossos gadgets inteligentes não são apenas objetos inanimados, mas mecanismos quase sencientes que capturam a nossa atenção.

Monteiro explora esta ideia através de várias histórias, algumas fascinantes, outras um pouco arrastadas. Apresenta as implicações da moda de montar o próprio computador nos anos 70, dos animais virtuais Tamagotchi no final dos anos 90, e dos leitores de MP3 personalizados com “skins”. Recupera estes precursores do nosso mundo digital actual para revelar o papel da interface com o utilizador, convidando os leitores a ver o rato, em particular, como um “artefacto cultural de significado ideológico”. 

Ao tornar visíveis as nossas interacções físicas com estes objetos, mostra que os nossos laços com eles são simultaneamente “íntimos e cúmplices”. Não só “tocamos, esfregamos e acariciamos os seus ecrãs de vidro para fazer e criar coisas”, como também os inclinamos e ajustamos as suas lentes para que nos observem, permitindo transmissões em direto, fotografias e o seu desbloqueio (além de ajudarmos a treinar os seus sistemas de reconhecimento facial). E não é tudo: “Fazemos-lhes perguntas ou pedidos através dos seus assistentes virtuais activados por voz. E quando emitem um sinal sonoro, vibram ou se iluminam, pegamos neles instintivamente e aproximamo-los de nós.”

Ao longo do livro, Monteiro recorda-nos a presença quase inquietante destes objetos no nosso quotidiano. “Os smartphones, smartwatches e semelhantes acompanham-nos praticamente para todo o lado há apenas vinte anos”, escreve, “e, no entanto, tornou-se difícil imaginar como era a vida antes.”


Embora muito diferentes no tom e no público-alvo, estes livros formam um excelente par, como ilustram as suas capas: o emoji de cocó irreverente de Enshittification e o emoji a soprar um beijo de Needy Media, a romper um papel de parede azul. Em conjunto, explicam como desenvolvemos relações tão afectivas com os nossos dispositivos, apesar da forma como os seus fabricantes se aproveitam de nós.

Doctorow, pelo menos, faz mais do que nos alarmar. Apresenta aquilo que considera ser a solução para o nosso dilema de enshittification. Afinal, se é verdade que o Enshittoceno é a era não só das “plataformas abusivas desmesuradas” mas também do seu colapso, então poderá haver cura. 

Desenshittificar implicaria uma regulação mais forte, leis de direito à reparação, sindicalização, entre outras medidas. Perante a ganância e má conduta capitalista evidentes, ele mantém-se esperançoso. “Podemos construir um sistema nervoso digital melhor, resistente à enshittification”, afirma, “um sistema capaz de coordenar os movimentos de massas de que precisamos para combater o fascismo, pôr fim a genocídios e salvar o nosso planeta e a nossa espécie.” 

Espero que tenha razão, embora tenha dúvidas. Para mim, o problema parece muito maior do que a necessidade de controlar estas empresas. O simples facto de estas entidades existirem já é parte do problema e, enquanto existirem, a riqueza e o poder continuarão a concentrar-se no topo. Para já, vou mudar para o LibreOffice, abandonar o Twitter e o Instagram e continuar a inspirar-me na máxima ludita de que a tecnologia deve trabalhar para nós, e não para os nossos patrões.

Aaron Kreuter in https://reviewcanada.ca/magazine/

April 28, 2026

Este miúdo vem ou vai para a escola

 

Está com a mochila da escola. Há professores que têm de lidar com a sua convicção de que pode fazer tudo o que deseja. Com ele e com os pais dele, porque de algum lado lhe vem esta convicção de poder e impunidade. E porque é que nenhum adulto o agarra, nomeadamente o segurança da loja? Porque sabe que se o agarrar os papás põem-lhe um processo em cima de maus-tratos a crianças e fazem-lhe a vida num inferno. 

Dos professores e da escola, tudo se espera hoje-em-dia: que ensinem os currículos, que auto-regulem crianças e adolescentes com zero auto-regulação e máxima auto-indulgência, que detectem e saibam lidar com crianças e adolescentes ansiosos, depressivos, autistas, hiperactivos, disléxicos e outras deficiências e/ou incapacidades (há pais que nos pedem se podemos levar os filhos aos médicos - não têm paciência) que lidem com os mal educados, os delinquentes, os misóginos agressivos, os viciados em redes sociais e em pornografia; que saibam elaborar planos de assistência para cada um e todos esses alunos, que os eduquem para saberem cuidar da sua saúde, da economia, para serem empreendedores, para saberem lutar contra a violência social, para saberem identificar os seus talentos, para serem competentes a alcançar os seus objectivos, etc. Espera-se que o professor trabalhe 50 horas por semana, que não tenha noites nem fins-de-semana e que dedique todo o seu tempo livre, não à sua família e interesses próprios mas a responder a emails e a fazer planos para alunos.

Não admira que os professores estejam am burnout e que ninguém queira ser professor. Nenhuma outra profissão trabalha tantas horas de borla sem nenhum reconhecimento. E no fim o senhor da tutela fica muito surpreendido por os professores serem competentes. É que ele pensa que os bons resultados são consequência do pensamento mágico e não de horas de trabalho decentes, de estabilidade no trabalho para poder haver dedicação, de salários condignos, de condições de trabalho e de apoio ao trabalho de lidar com a indisciplina de alunos e pais.

Este fim-de-semana, num almoço com um grupo de pessoas, uma professora que lá estava disse-me que na sua escola, que é na zona da Grande Lisboa, o director não permitia que se usasse linguagem negativa nas aulas e chamava os professores para 'ralhar' sempre que havia queixas. E o que é linguagem negativa? É, por exemplo, o professor dizer, 'não percebeste a ideia', em vez de dizer, 'exprimi-me mal, caso contrário tinhas percebido a ideia'; ou dizer a palavra 'não'. São as novas pedagogias imbecilizantes.

O bom comportamento não é uma técnica que se ensine. É um ensinamento através de consequências, que são o que ensina a responsabilidade ligada à liberdade.


Os inimigos dos nossos amigos são nossos inimigos também

 

Netanyahu faz negócio com terroristas contra outros terroristas

 

É igual a Trump que faz negócios com Putin contra os terroristas do Irão.