April 28, 2026

Este miúdo vem ou vai para a escola

 

Está com a mochila da escola. Há professores que têm de lidar com a sua convicção de que pode fazer tudo o que deseja. Com ele e com os pais dele, porque de algum lado lhe vem esta convicção de poder e impunidade. E porque é que nenhum adulto o agarra, nomeadamente o segurança da loja? Porque sabe que se o agarrar os papás põem-lhe um processo em cima de maus-tratos a crianças e fazem-lhe a vida num inferno. 

Dos professores e da escola, tudo se espera hoje-em-dia: que ensinem os currículos, que auto-regulem crianças e adolescentes com zero auto-regulação e máxima auto-indulgência, que detectem e saibam lidar com crianças e adolescentes ansiosos, depressivos, autistas, hiperactivos, disléxicos e outras deficiências e/ou incapacidades (há pais que nos pedem se podemos levar os filhos aos médicos - não têm paciência) que lidem com os mal educados, os delinquentes, os misóginos agressivos, os viciados em redes sociais e em pornografia; que saibam elaborar planos de assistência para cada um e todos esses alunos, que os eduquem para saberem cuidar da sua saúde, da economia, para serem empreendedores, para saberem lutar contra a violência social, para saberem identificar os seus talentos, para serem competentes a alcançar os seus objectivos, etc. Espera-se que o professor trabalhe 50 horas por semana, que não tenha noites nem fins-de-semana e que dedique todo o seu tempo livre, não à sua família e interesses próprios mas a responder a emails e a fazer planos para alunos.

Não admira que os professores estejam am burnout e que ninguém queira ser professor. Nenhuma outra profissão trabalha tantas horas de borla sem nenhum reconhecimento. E no fim o senhor da tutela fica muito surpreendido por os professores serem competentes. É que ele pensa que os bons resultados são consequência do pensamento mágico e não de horas de trabalho decentes, de estabilidade no trabalho para poder haver dedicação, de salários condignos, de condições de trabalho e de apoio ao trabalho de lidar com a indisciplina de alunos e pais.

Este fim-de-semana, num almoço com um grupo de pessoas, uma professora que lá estava disse-me que na sua escola, que é na zona da Grande Lisboa, o director não permitia que se usasse linguagem negativa nas aulas e chamava os professores para 'ralhar' sempre que havia queixas. E o que é linguagem negativa? É, por exemplo, o professor dizer, 'não percebeste a ideia', em vez de dizer, 'exprimi-me mal, caso contrário tinhas percebido a ideia'; ou dizer a palavra 'não'. São as novas pedagogias imbecilizantes.

O bom comportamento não é uma técnica que se ensine. É um ensinamento através de consequências, que são o que ensina a responsabilidade ligada à liberdade.


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