January 22, 2026
DN - mais um título enganador, desta vez a chamar racistas aos professores
No jornal de hoje a grande notícia da primeira página é que um estudo universitário revela que os professores discriminam alunos pela cor da pele ou país de origem.
Depois, quando vamos ler a notícia, não houve nenhum estudo. Houve um inquérito a 1400 pessoas de 9 escolas de Lisboa. Entre essas 1400 pessoas, umas eram alunos, outras professores, funcionários e directores.Tenho a certeza que, se forem fazer um inquérito a pais (e a alunos) sobre se sentem que os seus filhos não são valorizados pelos professores hão-de ter respostas positivas na ordem dos 99,9%. Depois chamem-lhe um estudo e digam que os professores são inimigos dos alunos.
Continuem assim que vão bem.
January 20, 2026
UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA
UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA
O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui e aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!
E, como em casos congéneres, confirma-se a Lei de Murphy: o que pode piorar, piora: a "iniciativa é conduzida pela Teach For Portugal", sucursal do empório global que é a Teach for All, a que nós, como tantos outros países, abrimos carinhosamente as portas das escolas públicas para que "apoiasse" os "mais desfavorecidos" para que tenham "acesso a oportunidades".
Então, seguindo a notícia do sítio online Human Resources, os tais líderes empresariais e autárquicos de referência, "acompanhados por mentores da Teach For Portugal e pelos professores das escolas":
1) "preparam previamente as aulas em conjunto" com essa organização e com os professores, "garantindo que os conteúdos (Literacia Financeira, Empreendedorismo ou Objectivos de Desenvolvimento Sustentável) estão alinhados com o currículo e adequados ao perfil da turma";
2) trabalham com alunos em sala de aula, "respondendo a perguntas, partilhando experiências e dinamizando actividades".
Entendi bem? Os "líderes empresariais e autárquicos de referência", nomeados na notícia, vão preparar aulas, ou seja, planificar aulas?! Com apoio da Teach For Portugal?! E vão trabalhar com alunos em sala de aula?! Nos temas de literacia financeira empreendedorismo e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável?!
E se esta disrupção (palavra na moda) não fosse bastante, a iniciativa procura duas coisas:
1) "aproximar o sector empresarial e as autarquias da realidade diária da escola pública";
2) "reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho e "ao papel central da escola pública".
Entre as perguntas mais óbvias que não podem deixar de se colocar, saliento as seguintes:
1) haverá directores que deixam entrar estes líderes e esta organização na sua escola (que é pública) e professores que se dispõem a trabalhar com eles, permitindo-lhes ocupar o seu lugar na sala de aula para "dinamizar actividades" (isso mesmo, dinamizar actividades"!)?
2) se isso acontecer, não perceberão que os alunos serão usados em experiências inconsequentes, decorrentes de interesses particulares, de ordem política e económica (aqui tão obviamente ligadas)?
3) será legal que quem não tenha formação para ser professor, não seja credenciado como tal, não saiba do ofício, possa planificar e leccionar (duas tarefas centrais na docência e que envolvem uma multiplicidade de saberes especializados, além de uma enorme responsabilidade)?
4) será legal "aproximar o sector empresarial e as autarquia" da escola pública, estratégia claramente ideológica, quando na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo está plasmada a proibição de programar o ensino segundo quaisquer directrizes políticas, ideológicas...?
5) será legal categorizar crianças e jovens que estão na escola pública como "mais desfavorecidos" e, em função disso, delinear intervenções externas e marginais à sua função educativa, sendo que os "mais favorecidos" ficarão a salvo delas?
E é bem evidente que, caso sejam invocados princípios éticos estruturantes - dignidade, justiça, liberdade... - este altruísmo-de-trazer-por-casa desaba de imediato.
Uma nota mais sobre a fineza retórica:
- substituir os professores por quem não é professor, colocando-os ao serviço de entidades particulares, "pretende reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho;
- subverter os desígnios da escola pública é reconhecer o "papel central da escola pública".
Vê-se aqui muito bem a figura do "duplo pensar" que Orwell captou e denunciou, mas que, ainda assim, continua a funcionar lindamente na manipulação de massas.
Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.
January 18, 2026
Isto é a ver filmes, agora imaginem o que é com a aprendizagem nas escolas
Matt Damon, o actor, conta aqui como o diálogo dos filmes tem mudado, no sentido de ser cada vez mais simplista, dos seus pontos principais serem repetidos inúmeras vezes para lidar com o facto de os jovens verem os filmes enquanto olham para o telemóvel e não conseguirem, por isso, uma atenção continuada que consiga acompanhar uma trama e um diálogo mais complexos. Os telemóveis e as redes sociais têm de ser proibidos até aos 16 anos, pelo menos.
🍿 Netflix deliberately dumbs down dialogue — because viewers simply don’t follow the plot
— NEXTA (@nexta_tv) January 17, 2026
Matt Damon talked about this on Joe Rogan’s podcast. According to him, Netflix explicitly asks writers to repeat key plot points multiple times in dialogue, so viewers who are glued to… pic.twitter.com/0vO59hbjul
January 09, 2026
Não temos professores e o ME ameaça os professores com cortes de salários
Os sumários da discórdia
3) o ministério quer que registar um sumário no final de cada aula passe a ser um dever dos professores, consagrado no documento que enquadra a profissão;Público
January 07, 2026
Sr. ministro da educação, o ministério é seu - chegue-se à frente
Educação. Falta de acordo entre sindicatos e ministério deixa 2.º período ameaçado por protestos
Fenprof apresenta contraproposta do Estatuto da Carreira Docente ao MECI. Se não for ao encontro de algumas exigências, avança "grande iniciativa de professores”. Diretores temem greves.
DN
January 06, 2026
Que a revisão do Estatuto da Carreira Docente esteja a ser liderada pelo ministro das finanças já diz tudo
Não há professores, mas o governo, em vez de valorizar a carreira dos professores, que têm impacto na educação dos alunos, está a tentar politizá-la e mediocrizá-la, ainda mais, para poder aprofundar a sua proletarização (ainda mais) e com isso poupar dinheiro, como o fizeram Sócrates, PPC e Costa, os seus mentores no assunto.
Será mais ou menos assim: o ministro escolhe os directores 'adequados' que, por sua vez, escolhem os professores 'adequados' e têm poder para pô-los a andar ou impedir que progridam na carreira se não se mostraram submissos à 'adequação' preconizada pelo governo através dos directores 'adequados' e das novas estruturas que gerem a educação, 'adequadamente'. A autonomia pedagógica, fundamental para os professores não serem obrigados a leccionar segundo o interesse político ou ideológico ou religioso do chefe e do ministro do momento, desaparece. Não há menção a horário de trabalho, nem a doenças profissionais. A formação contínua obrigatória desaparece para se poderem contratar os mais burros e ignorantes, porém 'adequados'.
A revisão do Estatuto da Carreira Docente é determinante para o futuro da profissão
Mário Nogueira
As negociações, sob controlo do Ministério das Finanças, são gato escondido com o rabo todo de fora.
Iniciou-se o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD) com a apresentação aos sindicatos de uma proposta relativa ao tema 1, Perfil do docente, Direitos, Deveres e Garantias. Num momento em que faltam milhares de professores, seria de esperar que, visando reverter o problema, a revisão começasse com os temas da estrutura da carreira, estatuto remuneratório e avaliação do desempenho, mas não foi essa a opção do Governo.
As negociações, sob controlo do Ministério das Finanças, na pessoa da secretária de Estado Marisa Garrido, são gato escondido com o rabo todo de fora. O que verdadeiramente está em cima da mesa é o esvaziamento do ECD de matérias que justificam a sua existência.
Sem dizer ao que vem, o Governo procura aplicar o ReCAP (Regulamento de Competências na Administração Pública). Ou seja, aplicar aos docentes o regime geral da administração pública em matérias como a seleção e recrutamento (concursos) e avaliação do desempenho. Se a proposta passar, a avaliação dos docentes ditará uma progressão na carreira com “compensações em função do grau em que contribuem para o desempenho do organismo” (prémios) e as unidades orgânicas passarão a poder selecionar e recrutar os docentes para mapas de pessoal, de acordo com as competências que considerarem adequadas.
Percebe-se, assim, que o motivo para a imposição deste tema como primeiro da revisão do ECD decorre da intenção de aplicar, em aspetos essenciais da profissão docente, o regime geral da administração pública e eliminar matérias que são “traves mestras” da sua definição como corpo especial. A intenção não é nova e foi tentada, sempre sem êxito, pelos governos de Sócrates, Passos Coelho e António Costa.
Ademais, o documento apresentado pelo Governo, entre outros aspetos, elimina o direito à negociação coletiva e o de participação através das organizações profissionais e sindicais do pessoal docente em órgãos que, no âmbito nacional, regional autónomo ou regional, prevejam a representação do pessoal docente; revoga o direito à autoformação, de acordo com os respetivos planos individuais de formação; retira a menção a doenças que resultam do exercício continuado da profissão; nunca refere o horário de trabalho, nem a necessidade de clarificar o conteúdo funcional e a duração de cada uma das suas componentes.
A transferência para o regime geral da administração pública de matérias tão importantes como a seleção e recrutamento (concursos) e avaliação do desempenho, com o devido impacto na progressão, fará com que os docentes se sujeitem, ainda mais, a discricionariedades, gerará maiores injustiças e competição, levará a perda de autonomia pedagógica e criará maior vulnerabilidade da profissão em relação a regras do código laboral, no quadro da chamada “convergência” que os governos usam para aplicar o pior de dois males.
É necessário os professores darem força aos seus sindicatos para que recusem esta proposta que, a ser aprovada, condicionaria toda a negociação seguinte relativa à revisão do ECD.
December 23, 2025
«Exigência»?? Indigência...
Chamar «exigente» a ter de fazer duas provas para entrar no ensino superior e dizer que foi isso e não as incapacidades dos alunos que impediu a sua entrada na universidade é une blague, como dizem os franceses. É por estas e outras afins que temos 30 alunos a pôr uma universidade em tribunal por falta de empatia com os seus sonhos de serem médicos. Temos os exemplos catastróficos de outros países (ver o vídeo abaixo) mas não serve de nada porque o governo já decidiu continuar o desinvestimento na educação e não quer as falhas todas à vista e para isso precisa de fabricar sucessos artificiais. Em breve a «exigência» para entrar num curso superior será saber escrever o próprio nome - e aviso já que nem todos vão entrar.
Exigência de duas provas de acesso ao superior impediu colocação de 2000 alunos
Em Agosto, ministro dizia que não fazia sentido “mudar as regras novamente”. Politécnicos dizem que foram as evidências que o fizeram mudar de opinião. Será só uma prova. Reitores não estão contra. (Público)
December 19, 2025
Uma analogia com a educação - e não é boa
Se tentamos treinar tarde demais os processos linguísticos e cognitivos, muitos deles já atrofiaram. Se as ligações neuronais não foram feitas na devida altura, as redes neuronais já podaram esses neurónios que em tempos procuravam fazer ligações a outros neurónios e às redes.
A pobreza de linguagem com que os alunos chegam agora ao secundário impede a aprendizagem de muitos conteúdos formais e informais. São lacunas, não de informação, mas de formação de processos internos.
A pobreza de linguagem não se refere apenas a falta de vocabulário. Refere-se a pobreza na construção frásica, nos tempos verbais (afecta a compreensão das nuances das, e entre, possibilidades teóricas condicionais), nos elementos de ligação lógica (afecta a capacidade de acompanhar um raciocínio longo e complexo com várias premissas lógicas encadeadas) e nos vários constituintes do pensamento: discorrer, inferir, imaginar, especular, argumentar, negar... tudo isso implica um desenvolvimento de linguagem que a maioria dos alunos já não traz como bagagem de ferramentas de trabalho que lhes permita expandir o pensamento.
Repare-se neste diálogo entre dois rapazes açorianos. Vemos perfeitamente que não são estúpidos. Um deles fala da inutilidade da educação escolar para a sua vida futura de pescador - o que é falso, mas vê-se que ele não tem linguagem [mental] para compreender ou, sequer, aprender, uma educação formal académica. Não foi desenvolvida.
Sr. ministro, quer ordenar a mediocridade, ordene, mas não há necessidade de mentir
O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, anunciou esta sexta-feira que o Governo vai propor a redução, de duas para uma, das provas de ingresso obrigatórias para a esmagadora maioria dos cursos do ensino superior.
Adiantou que há cursos, designadamente na área da engenharia, em que vão ser obrigatórias as duas provas de ingresso, e outros, como a medicina, com três provas.“Há regras especiais para determinadas áreas. Mas cabe à instituição, a partir do momento em que nós temos a validação pelo ensino secundário e com os exames nacionais, definir as condições de ingresso”, adiantou.
Mas a regra geral será a obrigatoriedade de apenas uma prova de ingresso. O ministro disse entender o argumento do aumento da exigência para garantir que os alunos que entram no ensino superior tenham os requisitos necessários, mas lembrou que em causa estão estudantes que concluíram o ensino secundário.
“Não me parece que alguém que tenha concluído o secundário em Portugal não esteja em condições de aceder a um curso superior”, defendeu.
December 04, 2025
Os nossos políticos já desistiram da escola pública
A discussão sobre a inteligência artificial no ensino reabre o debate sobre o apoio escolar privado e as disparidades de acesso à aprendizagem.a propósito da recente polémica em torno do anunciado tutor de inteligência artificial (IA) para o ensino. Sabe-se ainda pouco sobre o projeto e é claro que será recomendável ensaiá-lo numa prova de conceito, experimentá-lo num projeto-piloto e avaliá-lo antes de o estender a toda a comunidade escolar.
Não se trata, evidentemente, de substituir os professores nem o seu papel crucial no ensino e no apoio aos estudantes. A IA deve apenas complementar essa função, sobretudo para quem está desamparado em casa e sem apoio familiar direto. É claro que nada será simples, sabendo-se que a informação imprecisa está ainda entre os maiores riscos dos sistemas avançados do IA. Ainda assim vale a pena tentar este uso da tecnologia para um bom propósito: o de ajudar aqueles que não podem pagar explicações privadas, oferecendo-lhes apoio até de forma personalizada.
Recordei, aliás, ao ler algumas das reações negativas imediatas contra o tutor de IA, outras muito semelhantes que testemunhei em diferentes ocasiões contra projetos mais disruptivos de modernização. Não me esqueço do que se disse aquando do anúncio do Cartão de Cidadão: que vinha aí o "Big Brother", que podíamos até ser clonados, que era de todo uma promessa falsa e um projeto impossível.
Maria Manuel Leitão Marques in dn.pt
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Maria Manuel Leitão Marques é uma euro-deputada da área da Economia, mas como é sabido toda a gente fala de educação como se fosse especialista.
O argumento dela para defender o tutor de IA é a necessidade dos alunos terem explicações fora da escola e os mais desfavorecidos não terem dinheiro para pagá-las. Acho este argumento fantástico: então agora, um sistema de explicadores privados já faz parte do projecto da escola pública?
Diz que o projecto não se destina a substituir professores, mas é mesmo disso que se trata: não havendo vontade política de investir na escola pública para captar jovens para a profissão e sabendo-se que a falta de professores se vai agravar ainda mais, dá-se a cada aluno um substituto de professor.
Quando havia professores em abundância nas escolas os alunos não precisavam de explicadores privados - nós próprios fazíamos esse serviço, os apoios estavam no nosso horário lectivo. Eram muito eficazes. Nuno Crato foi quem acabou com isso para mandar 30 mil professores embora e poupar dinheiro. Agora não há professores para leccionar as aulas quanto mais para apoios/explicações. Assumam, em vez de virem com falsos argumentos sobre os tutores de IA serem bons para os alunos. Não são.
O tutor de IA não é um substituo de professor. Uma coisa é usar-se a IA para projectos orientados por professores, o que já se faz e há-de fazer-se muito mais no futuro. É excelente, mas outra coisa diferente é usar um tutor de IA para aprender conteúdos ou para lhe fazer os trabalhos escolares.
Não sei se esta deputada já ouviu falar de Marco Buscaglia, um colaborador do Chicago Sun Times que escreveu um artigo com uma lista de livros de leituras de Verão, onde apenas 5 existem. Quando os leitores começaram a interrogar o jornal sobre aqueles livros inexistentes, Marco Buscaglia confessou que pede ao seu tutor de IA para lhe escrever os artigos para o jornal. Disse que costuma ir verificar se as informações da IA são correctas (cof, cof...) mas daquela vez se tinha esquecido.
A qualidade do conhecimento académico tem vindo a decair. Dantes íamos consultar enciclopédias e dicionários escritos por estudiosos nas áreas, depois veio o google e passámos a ir ao google e à Wikipédia onde escreve qualquer pessoa, mas ainda assim, tem controladores humanos que verificam as informações e conhecimentos que lá aparecem. Agora vai-se à opinião média do indivíduo médio do planeta - que como se sabe tem imensa credibilidade. Há um par de semanas o Grok de Musk respondeu a uma pergunta sobre o Holocausto dizendo que a sua realidade era polémica.
Uma coisa é um adulto, já formado e com conhecimentos usar a IA para buscar informações e ter espírito crítico para avaliar o que lê, outra coisa são crianças em processo de desenvolvimento das estruturas do próprio conhecimento, completamente vulneráveis, usarem tutores de IA.
O outro argumento da deputada a favor dos tutores de IA é o de serem "projectos disjuntivos de modernização" (algo que não se dá ao trabalho de explicar e deixa assim para parecer que é algo muito à frente) de maneira que quem adverte contra os perigos do seu uso é não-moderno ou atrasado - é o que deixa subentendido.
Finalmente dá como exemplo de "projecto disjuntivo de modernidade" que teve críticas, o caso do Cartão de Cidadão que muito diziam que era o Big Brother. Pasmo que esta política euro-deputada não perceba que é exactamente isso. Desde que temos o CC com dados biométricos que as autoridades, dentro e fora do país, sabem tudo a nosso respeito e se quiserem usam-no como ferramenta de controlo, como aliás já se faz na China de modo agressivo. Sim, é um meio de segurança e um instrumento muito eficaz e facilitador, burocraticamente falando, mas tem esse lado de intrusão na esfera da nossa privacidade. É tão eficaz que a deputada nem se apercebe disso.
Ora, o tutor de IA, não tem os benefícios de segurança ou de desburocratizarão do CC e tem os malefícios de ser um meio de informação não credível e manipulador de crianças e jovens em idades vulneráveis, intelectual e psicologicamente.
November 29, 2025
"Os professores são indispensáveis mediadores culturais e humanos" - Tolentino de Mendonça
Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”
O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores.
"Quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui", declarou o cardeal, nesta quinta-feira, na Guarda
O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores.
"Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores", afirmou o cardeal José Tolentino de Mendonça que partilhou nesta quinta-feira o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI), na Guarda, a essa "classe em crise", pelo seu "extraordinário contributo social e cultural".
O poeta e escritor falava após receber o galardão na sessão solene dos 826 anos da fundação da Guarda. Dizendo-se "muito grato" pelo prémio, considerou que o legado do pensador e mentor do CEI, Eduardo Lourenço, é "relevar o papel da Educação e da figura do professor".
José Tolentino de Mendonça disse que os professores se sentem "remetidos a uma precariedade nas condições de trabalho, perdidos na complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos para o desenvolvimento das próprias funções, ou então apresentam-se feridos por uma espécie de solidão social". "É como se aquilo que tivessem para dar, hoje, valesse menos."
O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação no Vaticano deixou um aviso: "A irrelevância dos professores é um alarme para as sociedades porque, quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui."
E continuou: "Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos."
Para Tolentino de Mendonça, o professor "não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro", porque é necessária a existência de "mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas".
November 28, 2025
The skills of the future needs the skills of the past
November 20, 2025
Dez competências básicas que os alunos da 3º classe já não sabem fazer
Uma professora primária listou dez competências básicas que os alunos do 3º ano já não sabem fazer: como ler um relógio analógico, contar dinheiro físico ou escrever em letra cursiva, conseguir memorizar os números de telefone dos pais, saber o endereço da sua casa, saber usar um dicionário, seguir instruções com várias etapas, atar os sapatos, lembrar-se dos nomes dos pais, saber de onde é a sua família ou lembrar-se do ano em que nasceram.
@mommy_n_zachy What’s happening to our kids? I need answers!! #teachertok #elementaryteacher #teacherproblemsboredteachers #teacher ♬ original sound - mommy_n_zachy
November 14, 2025
Porque é que os médicos mais novos não estão dispostos a sacrifícios
Porque é que os médicos mais novos não querem trabalhar as horas necessárias para serem... cirurgiões?
Henrique Raposo
Expresso
Boa tarde.
Há um ano, mais coisa menos coisa, causei uma certa polémica porque critiquei a geração mais nova dos médicos, a geração que agora tem um nome pejorativo: tarefeiros. Tive razão antes do tempo, devia ter feito esses textos só agora: agora, sim, parece que há uma abertura social ou cultural para se criticar esta atitude à “tarefeiro”, à “biscateiro” na medicina.
Até a Ordem dos Médicos critica, lembrando que há princípios éticos básicos nesta profissão, que, por razões óbvias, é diferente de todas as outras. Sucede que os médicos da Gen-Z e até da geração millennial têm alguma dificuldade em compreender esse espírito de corpo e sacrifício inerente à profissão. Porque, médicos ou não, esta geração tem de facto um problema laboral, vê na ética de trabalho uma usurpação do lifestyle.
Durante aqueles dias de polémica, fui criticado em público por jovens médicos e elogiado em privado por médicos mais velhos, que, na linha de Eduardo Barroso, veem algo de quase criminoso no que a nova geração anda a fazer ou a não fazer. Álvaro Beleza vai no mesmo caminho. Aliás, este debate entre mais velhos e mais novos atravessa a classe médica em todos os países. Quando os médicos novos americanos pedem mais equilíbrio trabalho/lazer, os mais velhos reagem e relembram que “that’s not the job”. O lifestyle não é para os médicos. Tal como não é para polícias, por exemplo, ou bombeiros sapadores, ou artistas, ou jornalistas.
Portanto, parece-me que a base do problema aqui é que há de facto um problema entre a Gen-Z e o trabalho. Parece mesmo que o trabalho é mais stressante para a Gen Z do que o desemprego - não é piada, é um trabalho sério do jornal “The New York Times”. Esta aversão ao trabalho de uma geração torna-se obviamente ainda mais grave quando falamos de médicos.
Sim, há que criticar, não os médicos em geral, mas uma geração mais nova que recusa fazer horas, recusa fazer os horários “chatos”, recusa até fazer especialidades e que – o que é ainda mais grave – está a colocar em causa a posição de cirurgião.
Como dizia há dias na Renascença o presidente da associação de administradores hospitalares, muitos jovens médicos não querem muito simplesmente trabalhar as horas necessárias para serem cirurgiões; não acham atrativo, acham que é demasiado trabalho. Isto é de uma gravidade imensa, tal como é imenso o silêncio sobre o tema. Isto devia gerar polémica e urgência no debate. Esta falta de cirurgiões (presente e futura) parece-me um problema ainda mais grave do que os interesses instalados dos tarefeiros.
No sector privado, os responsáveis dizem a mesma coisa: os médicos mais novos não querem trabalhar como as velhas gerações, mas parece que não se passa nada, aceita-se isto como normal ou inevitável. E, de resto, há uma contradição neste discurso dos responsáveis, públicos e privados. Por um lado, uma responsável respeitadíssima como Isabel Vaz diz que é preciso perceber que os médicos mais novos não querem trabalhar tanto, mas depois diz também que eles, os médicos, são como uma tropa de elite. Mas como é que se entra numa tropa de elite sem uma ética de trabalho e de serviço, como é que se entra numa tropa de elite se recusamos fazer horas e dar tudo pela missão?
Mais: como é que pode haver especialistas e cirurgiões se não trabalharem as horas que as gerações anteriores trabalhavam? A resposta é que não há e não haverá. Eis portanto um dado gravíssimo que está por debater: em breve, teremos uma carência gravíssima de cirurgiões.
E repare-se que este problema não é só português, é de uma geração inteira no ocidente inteiro. Na Polónia, discute-se o envelhecimento dos cirurgiões e a falta de cirurgiões mais novos, pois os médicos da nova geração não querem o trabalho extra e acham a tarefa demasiado stressante. Ou seja, não querem a responsabilidade.
Na Alemanha é igual. Idem para o Canadá. Idem para Inglaterra.
Aliás, no Reino Unido há uma desistência da própria profissão.Idem para os EUA. Em breve, só nos EUA faltarão cerca de 25 mil cirurgiões. É uma mudança sísmica que põe em causa a saúde da população inteira e, repito, é impressionante que não se fale mais do assunto. Porque não me parece que o problema seja a falta de dinheiro. Há aqui um bloqueio cultural de uma geração que recusa simplesmente trabalhar o número de horas necessárias para se treinar e praticar cirurgia. E isto é algo que já se nota pelo menos desde 2010, o que significa que o problema também marca os millenials.
Para terminar, sobram quatro grandes questões.
Primeira: se não queriam a responsabilidade e o stress da profissão, porque é que entraram nas escolas de medicina? Não será altura de mudarmos a forma como selecionamos os alunos das faculdades de medicina?
Segunda: um cirurgião veterano sente que a cirurgia em geral está a ficar mais perigosa para os doentes; os mais velhos sentem que os mais novos estão impreparados, algo registado nos EUA e em Portugal pelos mais velhos.
Terceira: com uma geração de médicos assim, ancorados no ethos da Gen-Z, não há sistema de saúde que aguente, cá e lá fora.
Quarta: tendo em conta esta deserção dos próprios médicos, será que a profissão de médico não será uma das primeiras grandes vítimas da Inteligência Artificial?
Um abraço,
Henrique
October 06, 2025
Acabo de ver o Filinto na TV a fazer lobby contra os professores
A apelar aos ministérios da Saúde e da Educação para conspirarem no sentido de impedirem que os professores doentes sejam reconhecidos e tratados como tal, como manda a lei.
A notícia deste lobby contra os professores é de ontem, do dia do Professor. É a maneira deste director lutar pela profissão de professor.
Filinto Lima tem sido conivente com todas as políticas de destruição dos sucessivos MEs desde há muitos anos.
Na semana passada saiu aí um tal de inquérito aos diretores, coordenadores e professores que concluiu que 95% aprovam as direcções das escolas em que estão. Não fui ver como o inquérito foi feito e quem interrogaram, de facto, mas estou no sistema educativo há cerca de 40 anos e para acreditar nesse resultado teria de acreditar na percentagem de 95% de votos com que Putin foi eleito.
October 02, 2025
Completamente de acordo
Lê-se e custa a acreditar. Os candidatos excluídos do “Concurso Especial para Acesso ao Mestrado em Medicina por Titulares do Grau de Licenciado” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto por não terem cumprido os critérios definidos para serem aprovados, acusam o Reitor da instituição de “total falta de empatia” ao longo do processo.
Eram 37 as vagas que ficaram por preencher, pois os candidatos, numa prova de conhecimentos com 100 perguntas de resposta múltipla, não conseguiram atingir o patamar definido no Regulamento que determinava que “serão excluídos, para efeitos de colocação, os candidatos com classificação inferior a 14 valores na prova de conhecimentos” (n.º 4 do artigo 7.º). Algo que os candidatos conheciam por ser um Regulamento já de 2019.
Não me interessam aqui as polémicas entre os envolvidos, nem se o Regulamento em causa é adequado ou não, mas apenas o argumento da “empatia” como relevante para o processo de selecção dos candidatos. Ou seja, os ditos candidatos queixam-se de o Reitor não se ter colocado na sua posição e não ter tido a capacidade de sentir o que eles sentiram ao verem-se excluídos do concurso. Se estão a usar o termo “empatia” na acepção correcta. Desconhecendo o Reitor e não pretendendo avaliar ou defender as suas acções, tenho alguma dificuldade em aceitar que se considere a “empatia” como critério de acesso a um qualquer curso superior e por maioria de razão a um mestrado especialmente exigente.
Claro que se nos colocarmos no lugar de quem viu ficar por satisfazer um desejo, cumprir um objectivo, atingir uma meta, é natural que se compreendam o desânimo e a tristeza. Mas, daí a aceitar que a compreensão desses sentimentos seja argumento para contornar o processo de selecção previamente definido e conhecido é um salto (i)lógico que me escapa. Compreendo que isso seja a consequência natural de um “paradigma” que se instalou no nosso sistema educativo desde os ciclos iniciais de escolaridade no sentido de se considerar que o “sucesso” é um direito e não o resultado de um esforço. Que o “sucesso” é algo quase garantido se tivermos em conta os sentimentos e não apenas o desempenho de quem quer aceder a algo.
Se isto se passa no acesso ao segundo ciclo de estudos universitários, imagine-se o que se passa em ciclos de estudos “inferiores”, do Básico ao Secundário e as argumentações tidas como válidas para criticar quem não usa a “empatia” como critério de avaliação dos seus alunos. Só que há uma diferença entre compreender as dificuldades e obstáculos que muitos alunos precisam de ultrapassar e aceitar que isso é critério para garantir a satisfação dos seus desejos, independentemente do seu desempenho.
A sério, gostava mesmo que existisse uma pequena noção dos danos e da erosão que este tipo de mentalidade tem causado no nosso sistema educativo, desde a sua base.
September 25, 2025
Não, não é
Para além do peso esperado das reformas por motivo de idade, mais de 50% dos docentes com menos de 30 anos consideram abandonar a carreira. Mas a capacidade de atração da escola pública ainda é real: quase um em cada quatro docentes das escolas privadas admite concorrer ao ensino público.
https://www.publico.pt/
"Afinal, quem nos governa? "
Na passada semana, a ministra da Saúde fez uma declaração que não mereceu a devida atenção, pelo que revela do papel actual de alguns governantes, meras testas de ferro daqueles que efectivamente definem as políticas públicas em áreas cruciais da governação. Transcrevo de forma extensa as declarações colhidas e transcritas pela SIC Notícias:
“Aprendi que nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece. A situação que se vive na península de Setúbal é muito preocupante. Acreditei no plano que me foi apresentado e confiei nas equipas. Foi muito penalizador para mim ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer perceber porquê (…)”
Estas declarações são especialmente preocupantes, não apenas pela realidade que retratam, até porque quem vive na região conhece a crescente disfuncionalidade do SNS, mas pelo modo como a ministra revela o processo de tomada de decisões e o seu papel de mera comunicadora pública de soluções que a transcendem e nem sequer parece compreender.
No fundo, ela considera-se penalizada porque assumiu politicamente uma solução que lhe garantiram que funcionaria e nem percebe porque foi “desfeita”. A afirmação de que “nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece” é um auto-atestado de incompetência acerca da área que tutela, porque revela que foi incapaz de avaliar se o que lhe foi apresentado era credível ou realizável. Apenas acreditou que sim, porque alguém lhe garantiu que funcionaria. Mas quem lhe garantiu isso? E, já agora, para que serve uma governante, se o seu papel é apenas o de “assumir politicamente” o que outros definiram?
De certo modo é como com a Educação, sem as consequências letais de curto prazo, para a Saúde Pública. Alguém convenceu o ministro a assumir uma “solução” que levaria à colocação de professores em 98-99% das escolas, o que é algo que só alguém com um enorme desconhecimento do terreno pode tomar como verdadeiro. Será que acha que é por acelerar o processo de contratação de professores que eles brotam onde não existem? Do mesmo modo, foi convencido a assumir uma “reforma” da orgânica do ministério que outros delinearam e cujas consequências práticas ele dá toda a sensação de desconhecer. A seu favor tem algo que a ministra da Saúde não tem… a relativa acalmia causada pela recuperação do tempo de serviço, mas, no essencial, é outr@ governante que assumiu “soluções” que lhe foram apresentadas como garantidas e não o são.
Claro que a questão que se coloca é… afinal, quem é que anda a vender “soluções” a estes governantes? E a segunda questão é… porque temos governantes que “assumem soluções” em vez de tomarem decisões com base nos seus conhecimentos, na sua competência técnica e na sua capacidade política? Ou, resumindo, quem é que, afinal, nos anda a (des)governar?
Paulo Guinote in DN


