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May 27, 2026

Público: especialista em títulos enganadores

 

Novas regras de acesso ao superior restringem entrada de estudantes com deficiência

Regulamento passou a exigir um único critério para o contingente de estudantes com deficiência: atestado multiusos com incapacidade superior a 60%. Famílias temem exclusão de alunos com doença grave.

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O Público dá a entender que os alunos com deficiência não vão poder ter acesso ao ensino superior. É falso. 

O que acontece é que, até agora, para além dos atestados de incapacidade, que são passado por uma junta médica, os estudantes podiam apresentar como comprovativo, terem sido sujeitos a medidas adicionais de suporte à aprendizagem nas escolas. 

O que são medidas adicionais de suporte à aprendizagem? São medidas que foram criadas para dar apoio a casos específicos de alunos que têm certas características. Por exemplo, um aluno com dislexia, tem direito a que não lhe contabilizem os erros ortográficos (ou certos erros) na avaliação; ou um aluno bipolar tem direito a certas medidas de apoio; ou um aluno fortemente medicado para a depressão ou ansiedade, o que agora começa a ser mais ou menos comum. Há médicos que carregam tão fortemente esses miúdos de medicação anti-depressiva que eles andam meio zonzos e deixam de conseguir concentrar-se. Estes últimos casos costumam ser temporários mas precisam de um trabalho e avaliação algo diferenciados.

O que acontece é que essas medidas foram generalizando-se, ao ponto das escolas terem equipas enormes só para isso e foram 'inventado' razões para essas medidas. Há turmas de 30 alunos onde uns 20 têm medidas adicionais. Um professor com 6 ou 7 turmas pode ter uma centena e meia de alunos com medidas, para os quais têm de preencher, um a um, um documento com 200 parâmetros ou mais, por tudo e mais alguma coisa, o que lhe retira qualquer valor pedagógico que pudesse ter. Há reuniões onde só se preenchem cruzes em vez de se falar dos alunos e de como resolver problemas.

Mais, como os pais vêem uns a ter testes mais curtos ou mais fáceis por terem essas medidas, agora há um rodopio a clínicas que vivem de passar atestados para que os meninos possam ir sempre passando sem incómodos. Um aluno tem mau comportamento? Aplicam-se medidas de apoio à aprendizagem!! Até o mau comportamento que os alunos trazem de casa é um problema para o professor resolver na aula. Não ãbeneficia nada os alunos, em geral e apenas um controlo da escola sobre os professores. É absurdo. Há colegas que pensam que estes absurdos são obrigatórios por lei...

Gerou-se um enorme abuso. Há pais que dizem, 'o meu filho tem um piquinho (assim mesmo) de défice cognitivo e precisa de medidas; ou tem hiperactividade. Pedimos o documento médico comprovativo. Muitas vezes não têm, e dizem que sempre tiveram essas medidas sem nenhum documento. É aí que aparecem as clínicas de psicólogos que 'dão' atestados de qualquer coisa a precisar de medidas adicionais como pãezinhos quentes. Porque os alunos com dislexias e outros problemas desses, têm documentos, às vezes desde a escola primária, que é logo quando se detectam. Já fazem exames diferentes dos outros.

E há médicos sem juízo. Já me aconteceu, por várias vezes, médicos escreverem-me um papel a dizer, 'fulano de tal está doente e tem permissão para faltar períodos prolongados. Não devem ser-lhe marcadas faltas às ausências nem deve ser avaliado'!! E quando digo às mães que isso é ilegal, que não é possível um aluno faltar sem justificações, para além das determinadas na lei, e que não pode, não ser avaliado, mais do que um período escolar, ficam surpreendidas e respondem, 'mas foi o médico que mandou'. Pois, mas o médico não dita regras à escola e aos professores, quem o faz é a legislação em vigor e o ME.

Portanto, não é verdade que se queira prejudicar os deficientes e o Público mais uma vez manipula. Será verdade que à conta destes abusos, haverá alguém que cai pelas frestas da lei e é preciso pensar nesses, como o relatado neste artigo, do adolescente com uma doença rara, mas não acredito que seja verdade que não aceitar os milhares e milhares de alunos com medidas adicionais que agora são um exército nas escolas, seja pensado para prejudicar deficientes.


May 25, 2026

As escolas como terreno de caça




ADVANCE STATION ESTÁ A SER INVESTIGADA PELO DIAP 

Burla nas escolas: Direcção-Geral da Educação autorizou empresa privada a ‘sacar’ dados de alunos a partir de 2011

Desde 2014 que a empresa usava uma suposta associação como fachada para entrar nas escolas, através da realização de “inquéritos”, “testes de orientação vocacional” e “projectos educativos”. Mas uma investigação do PÁGINA UM detectou que já em 2011 a empresa obteve autorização da Direção-Geral da Educação (DGE) — que foi integrada no novo Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA)— para “sacar” dados dos alunos de escolas públicas, através da realização de um “inquérito”, apesar dos evidentes conflitos de interesse. O “inquérito” autorizado não só era inapropriado para as idades dos alunos, como não tinha rigor científico e ainda apresentava inúmeros erros ortográficos.

Isto significa que há pelo menos 15 anos que o empresário de venda de cursos de formação João Carlos da Silva Oliveira Dias, dono da Advance Station, tem acesso directo aos alunos das escolas públicas para obter os seus dados e detectar tendências de necessidades formativas. Com essa informação, tem conseguido não só obter informação crucial para saber quais os “cursos” a vender, mas — mais importante — tem ganhado acesso directo aos encarregados de educação, aos quais vende cursos com recurso a práticas comerciais ilegais.

(...) o acesso “autorizado” de João Dias aos dados dos alunos do ensino público já vem de 2011, quando a DGE autorizou uma sua empresa, a Avance Station SA (que foi incorporada na então Joviform) a fazer “inquéritos” nas escolas.


May 24, 2026

A universidade que optou por reduzir a sua dimensão

 

A universidade que optou por reduzir a sua dimensão


Uma instituição de referência aposta que turmas mais pequenas significam melhores resultados.

por Kate Hidalgo Bellows

Salvo a interrupção ocasional dos aviões a jacto da Força Aérea a sobrevoar a zona, a primavera na Universidade do Arizona parece idílica. Os estudantes apanham sol, tiram fotografias de final de curso e desviam-se de robôs antropomórficos de entrega de comida. 

A agitação descontraída não deixa perceber que o campus culturalmente diverso, com 43 mil estudantes de licenciatura, é, na verdade, mais reduzido do que tem sido nos últimos anos.

Numa altura em que a maioria das universidades procura aumentar o número de matrículas para reforçar as suas finanças, o Arizona está a fazer precisamente o contrário. No Outono de 2025, a turma de estudantes do primeiro ano diminuiu quase um quinto — uma mudança que os responsáveis descrevem como intencional. 

O presidente e o vice-reitor consideraram que demasiados estudantes estavam a entrar sem preparação suficiente. Pretendiam aumentar a taxa de conclusão dos cursos, que é inferior à de qualquer uma das instituições comparáveis do Arizona. E queriam reduzir o montante de apoio financeiro atribuído a estudantes que não eram do Arizona.

Algumas universidades públicas de referência limitaram o crescimento nos últimos anos para evitar a sobrelotação, num contexto de aumento de popularidade. Mas a lógica do Arizona — admitir menos estudantes para aumentar a conclusão dos cursos e reduzir custos — destaca-se.

Há dúvidas quanto ao grau em que a quebra no número de novos estudantes no Outono passado foi estratégica ou uma surpresa desagradável. E a redução de custos não foi apenas algo desejável; foi uma necessidade. O Arizona saiu recentemente de um défice orçamental de 177 milhões de dólares criado pela própria instituição — resultado de previsões deficientes e de comunicação inadequada. O anúncio de uma «crise financeira» foi um diagnóstico chocante para uma grande universidade num Estado em crescimento, aparentemente o tipo de instituição que deveria estar a prosperar.

Dois anos depois, os responsáveis insistem que o campus está a prosperar, que o défice foi resolvido e que as turmas sobrelotadas pertencem ao passado. 

A universidade espera remodelar ainda mais o perfil dos estudantes do primeiro ano através de alterações na sua estratégia de admissões, criando um prazo antecipado de candidatura (early action) com prioridade na atribuição de bolsas e eliminando a aceitação automática com base em determinados valores de média académica. (O Arizona ainda não divulgou os dados preliminares relativos ao número de estudantes previsto para o próximo Outono; os responsáveis afirmaram, na semana passada, que tanto a taxa de aceitação de vagas como a média académica dos estudantes do primeiro ano aumentaram. O prazo para confirmação da inscrição, tradicionalmente a 1 de maio, foi prolongado até 15 de maio.)

Alguns, em Tucson, vêem, contudo, grandes riscos nestas mudanças. Se estas resultarem numa turma demasiado pequena, a universidade poderá voltar a enfrentar problemas financeiros. E, se conduzirem a um corpo estudantil mais rico e menos diverso do que anteriormente, os responsáveis terão de responder a questões sobre quem a universidade realmente serve.

A Universidade do Arizona aumentou a sua taxa de admissão nos últimos anos e aceita actualmente mais de 80% dos candidatos. Mas, ao mesmo tempo, a universidade tem recebido um número muito elevado de candidaturas «que talvez não fossem sérias», e procurava atrair esses candidatos através da concessão de apoios financeiros generosos, afirmou o presidente, Suresh Garimella.

Garimella afirmou que, quando esses estudantes não tinham notas suficientes para entrar noutras instituições, acabavam por escolher o Arizona e enfrentavam dificuldades académicas, por vezes sem conseguirem concluir os estudos.

«Talvez não os devêssemos ter trazido para cá em primeiro lugar», afirmou. «Quero ter cuidado com a forma como digo isto, porque alguns desses estudantes já estão aqui. Não quero dizer que não deviam estar aqui, mas penso que a nossa nova abordagem é muito mais responsável do ponto de vista ético no que diz respeito à admissão dos estudantes mais adequados.»

Em 2025, o Arizona reduziu os significativos descontos nas propinas para estudantes provenientes de outros Estados, diminuindo uma categoria de apoios financeiros atribuídos com base no mérito académico que os responsáveis receavam não ser suficientemente selectiva e que teria atraído para o campus estudantes menos preparados. A universidade também tinha despedido, em 2024, alguns recrutadores de admissões que estavam distribuídos pelo país, numa altura em que enfrentava dificuldades orçamentais.

Essas mudanças provocaram uma queda impressionante nas matrículas, após anos de rápido crescimento. No final de Setembro, o Arizona informou que a turma de novos estudantes tinha descido de 9.314 para 7.506. Esse número correspondia aproximadamente à dimensão das turmas do primeiro ano antes da pandemia.

O principal factor foi a diminuição do número de estudantes provenientes de outros Estados que efetivamente se matricularam, os quais representam quase metade dos estudantes de licenciatura. A taxa de concretização das matrículas (yield rate) entre os estudantes do primeiro ano vindos de outros estados caiu de 12,5% para 8,5% entre 2024 e 2025. O número de estudantes internacionais também registou uma quebra, à medida que os estudantes estrangeiros enfrentavam dificuldades relacionadas com vistos.

A administração apresentou estas mudanças de forma positiva. Segundo um comunicado, a nova estratégia «restabelece a dimensão tradicional das turmas do primeiro ano e aumenta substancialmente a percentagem de estudantes do Arizona». E, devido à redução da política de descontos, as receitas provenientes das propinas não sofreram alterações significativas, afirmaram os responsáveis.

«Somos instituições do Arizona e queremos dar prioridade aos habitantes do Arizona», afirmou Doug Goodyear, presidente do Conselho de Regentes do Arizona. «Portanto, não se trata apenas de as turmas serem demasiado grandes, mas também de o montante de apoio financeiro concedido a estudantes de fora do Estado ter sido demasiado elevado.»

A vice-reitora Patricia Prelock, que assumiu funções em Maio passado, escreveu um artigo de opinião no Arizona Daily Star a contrariar um impulso comum no ensino superior: o de continuar a crescer.

«A cada Outono, as universidades entram numa corrida para celebrar o crescimento das matrículas, como se mais significasse automaticamente melhor», escreveu Prelock. «Mas o número de alunos, por si só, esconde a missão: saber se os estudantes estão preparados para a exigência da universidade, quantos progridem até à conclusão dos cursos e, em última análise, quantos se formam preparados para um trabalho significativo e vidas realizadas.»

A taxa de graduação em seis anos do Arizona é de 70,9%. Das 14 instituições que o Arizona considera suas pares (e que, por sua vez, também o consideram par), todas têm taxas mais elevadas (a da Ohio State é de 86,6%, a da Michigan State é de 80% e a da University of Missouri at Columbia é de 76,6%, para citar alguns exemplos).

Prelock afirmou que gostaria de ver uma taxa de graduação em seis anos de 85% e uma taxa de retenção do primeiro para o segundo ano de 90% (a instituição situa-se atualmente nos 83,2%).

«Por cada estudante que conseguimos reter, a universidade poupa dinheiro, e o estudante também poupa dinheiro», afirmou Prelock. «E por cada estudante que consegue concluir o curso em quatro anos, isso representa uma vantagem financeira significativa, tanto para o estudante como para a universidade.»

Para a turma que entra no Outono de 2026, a Universidade do Arizona introduziu novas alterações para tentar construir um corpo estudantil mais competitivo.

Anteriormente, os candidatos tradicionais tinham admissão garantida na universidade se frequentassem uma escola secundária acreditada e estivessem, ou nos 25% superiores da sua turma de finalistas, ou tivessem uma média ponderada não ajustada de 3,0 até ao 11.º ano em determinadas disciplinas.

«Era realmente um processo de admissão baseado na média final», disse Garimella ao The Chronicle. «Tinha uma média de 4,0, recebia este nível de bolsa. 3,9, recebia este. 3,8, recebia este. O número de estudantes admitidos aumentou muito ao longo de quatro ou cinco anos com essa abordagem.»

Mas alguns dos estudantes que esse modelo trouxe «não estavam preparados para aguentar o ritmo», afirmou, e não conseguiram manter-se nem concluir os estudos em números suficientes.

Agora, todos os candidatos são avaliados através de uma análise mais abrangente — desempenho académico, actividades extracurriculares e uma redacção — típica de instituições com selectividade moderada. A universidade também introduziu um prazo de candidatura antecipada (early action) em Novembro, para concentrar a atenção dos candidatos mais motivados.

A universidade também restaurou e reforçou os cargos de recrutadores de admissões. Prelock afirmou compreender porque é que esses postos foram eliminados, mas sublinhou que eram importantes.

«Tenho a certeza de que foi por isso que [as matrículas] também estiveram baixas no último ano», disse Prelock, reconhecendo que a descida não foi inteiramente intencional, «porque não havia pessoas no terreno a contar verdadeiramente a história da Universidade do Arizona.»

Além disso, o Arizona está a tentar simplificar e melhorar a oferta de alojamento e os serviços estudantis, afirmou Amanda Kraus, vice-reitora dos assuntos estudantis. Um novo edifício de residências universitárias, com capacidade para 1.200 estudantes e uma cantina integrada, deverá abrir no outono de 2028.

O Arizona está também a avançar para a expectativa de que os estudantes de primeiro ano, em início de licenciatura, vivam no campus. As autoridades calcularam que os estudantes do primeiro ano que vivem no campus apresentam, em média, uma taxa de retenção do primeiro para o segundo ano de 81%, comparativamente a 73% entre os que vivem fora do campus. Aqueles que vivem no campus durante um ano ou mais têm uma taxa de graduação em quatro anos 50% superior. Haverá excepções para estudantes que vivam num raio de 30 milhas do campus ou que enfrentem circunstâncias ou dificuldades específicas.

«Sabemos que os estudantes que vivem no campus têm um desempenho melhor, por isso estamos a investir nisso», afirmou Kraus.

Joshua Travis Brown, professor assistente na Escola de Educação da Universidade Johns Hopkins, afirmou que há alguma verdade na ideia de que, quanto mais pontos de contacto um estudante tem, maior é o sentido de pertença, maior o acesso a serviços de apoio e maior a probabilidade de o estudante permanecer na instituição. «É menos provável que se perca pelo caminho porque só vai ao campus numa terça ou quinta de manhã, ou numa terça e quinta à noite, e no resto do tempo está apenas na comunidade local.»

O próprio Brown começou os seus estudos no Arizona, vivendo em casa. Descreveu o campus como um «mar de indivíduos», muito maior do que a sua escola secundária em Tucson. Após um ano perdido no meio da multidão, transferiu-se para uma instituição religiosa mais pequena fora do Estado.

«Porque estava no campus, mergulhei na cultura da instituição para a qual me transferi e acredito que me tornei uma pessoa melhor por causa disso», afirmou. «Sou, ironicamente, um desses indivíduos … a quem a Universidade do Arizona está agora a começar a dar mais atenção.»

A estratégia de redução do Arizona levanta questões sobre aquilo que, exactamente, a universidade pretende tornar-se e a quem quer servir.

A universidade tem de lidar com a sua vizinha gigantesca, a Arizona State University, que cresceu exponencialmente nas últimas duas décadas e se tornou pioneira no ensino online. As duas instituições têm taxas de admissão e de graduação semelhantes. Encontrar formas de diferenciar o Arizona da ASU parece ser essencial para traçar um caminho futuro, mesmo que os responsáveis da universidade não o expressem explicitamente dessa forma. «Somos todos amigos e felizes no Arizona», afirmou Goodyear, presidente do conselho.

Leila Hudson, professora associada de estudos do Médio Oriente e presidente do Senado Académico, mostrou-se menos sentimental em relação à concorrência com a ASU e aludiu a uma diferença significativa entre os dois campus: o Arizona teve seis presidentes no mesmo período em que Michael Crow liderou a ASU.

«Eles estavam a ganhar-nos terreno enquanto a nossa liderança hesitava e cometia erros», afirmou.

Hudson e outros docentes mostram-se compreensivos quanto à necessidade de manter turmas com dimensões mais controladas, mas preocupados com o facto de a universidade poder deixar de estar acessível a estudantes de todas as origens sociais.

A universidade tem uma elevada proporção de estudantes de licenciatura hispânicos e latinos, de 27,8%, e uma percentagem significativa de estudantes elegíveis para bolsas Pell, de 28,4%. O campus ocupa quase 400 acres no centro de Tucson, a cerca de uma hora da fronteira com o México e próximo de várias nações indígenas.

Nolan Cabrera, professor no Centro de Estudos do Ensino Superior que investiga as dinâmicas raciais nos campus universitários, afirmou que a redução do número de estudantes considerados «em risco» está claramente ligada a questões de raça e classe.

«Estamos a pegar em estudantes que já têm privilégios, trazê-los para cá e dizer: “Vejam, somos uma instituição melhor” nesse processo», afirmou Cabrera. Em contrapartida, acrescentou, a universidade pode fazer uma grande diferença para estudantes de reservas e de zonas mais pobres do estado.

Cabrera, que lecciona na universidade desde 2011, disse que os últimos presidentes da instituição tiveram todos a ideia errada de que poderiam transformar o Arizona numa «instituição pública de elite ao nível de Berkeley ou Michigan». Mas, segundo ele, a universidade nunca terá os mesmos recursos nem atrairá o mesmo tipo de estudantes.

Hudson descreveu a taxa de graduação do campus como um «tema sensível».

«Somos muito cautelosos com qualquer modelo que seja explicitamente ou implicitamente desenhado para selecionar estudantes tipicamente brancos, de classe média ou média-alta, à custa das nossas comunidades sub-representadas», afirmou Hudson. «Somos, e devemos ser, igualmente acessíveis a todos os estudantes do Arizona, por isso [o corpo docente] rejeita de forma muito firme qualquer … modelo que procure melhorar as nossas taxas de retenção e de graduação através de uma seleção demográfica dos nossos estudantes.»

Hudson disse que houve confusão este ano em torno das alterações nas admissões, uma vez que estudantes que poderiam ter assumido que seriam admitidos acabaram por não ser, tendo de procurar outras opções.

Questionada sobre as preocupações dos docentes, Prelock afirmou que existem muitas perceções erradas. Segundo ela, circulam anedotas — por exemplo, sobre o filho de alguém que não foi admitido —, mas estas não contam a história completa.

«Quando os docentes têm preocupações ou veem uma mudança, querem sempre saber: “Ok, como é que isso me vai afectar?”», afirmou ela. Sublinhou que o sucesso dos estudantes deve ser a bússola orientadora (North Star).

«Não é apropriado», disse a vice-reitora, «aceitarmos estudantes que sabemos que não têm qualquer hipótese de ter sucesso e que não têm meios financeiros para isso.»

https://www.chronicle.com/article/the-university-that-chose-to-shrink

May 23, 2026

Habituar os alunos a saber ler nas entrelinhas

 

Ontem aproveitei, para as aulas do 10º ano, uma declaração de uma psiquiatra numa TV sobre o caso das crianças abandonadas, para mostrar como podemos conhecer a posição metafísica de uma pessoa relativamente a um problema, neste caso à questão do livre-arbítrio, mesmo sem a pessoa no-lo dizer clara e explicitamente. Mesmo que ela não soubesse -o que não será o caso- que está a mostrar uma posição filosófica numa questão metafísica. Habituar os alunos a saber ler nas entrelinhas, fazendo uso de temas que trabalhámos nas aulas para fazer inferências significativas e ganhar conhecimentos sobre os outros e o mundo. A psiquiatra em questão usou um argumento determinista sem o referir enquanto tal. A 3ª formulação do imperativo kantiano, sobre os outros seres racionais serem, e deverem, ser tratados, também como legisladores universais, parece-me muitas vezes uma prevenção do determinismo que nega aos outros autonomia moral. As ciências, em especial as ciências duras, são muito deterministas e há uma fatia grande da realidade que não se submete ao método experimental e lhes escapa.


May 19, 2026

Currículos na mesma, controle dos professores aumentado




Pelo que percebo deste artigo -não li com atenção a proposta de 'mudanças' do ME- nos currículos nada muda e o que muda são parâmetros de controlo dos professores para aumentar a burocracia sob o mantra da pseudo-inclusão. 
Também, pelo que leio, querem tirar a lógica do currículo de Filosofia. Passaram de ter a lógica aprofundada ao máximo para a excluírem completamente? É tudo feito sem critérios e sem valor pedagógico.

Professores que testaram novas aprendizagens essenciais dizem que pouco muda no dia-a-dia

Rui Gaudêncio, Público

Ministério da Educação, Ciência e Inovação está a rever as aprendizagens essenciais de todas as disciplinas 

Algumas escolas puseram à prova, logo no início do ano lectivo, a primeira versão dos novos documentos orientadores que o Governo tinha aprovado no Verão para os 1.º, 3.º, 5.º, 7.º e 10.º anos.

Professores que testaram as novas aprendizagens essenciais no início do ano lectivo dizem que pouco muda no conteúdo dos currículos e no dia-a-dia dos alunos, mas passam a existir orientações mais claras sobre a avaliação de desempenho. O Ministério da Educação, Ciência e Inovação (MECI) está a rever as aprendizagens essenciais (AE) de todas as disciplinas e, no final de Março, colocou em consulta pública uma versão preliminar revista.

Antes disso, algumas escolas puseram à prova, logo no início do ano lectivo, a primeira versão dos novos documentos orientadores que o Governo tinha aprovado no Verão para os 1.º, 3.º, 5.º, 7.º e 10.º anos.

Com o projecto-piloto, implementado em 12 escolas, a tutela pretendia que os professores testassem, em particular, os novos descritores, que indicam o que o aluno deve ser capaz de fazer para demonstrar que desenvolveu determinada competência, e os descritores de avaliação, com diferentes níveis de desempenho.

Com poucas mudanças no conteúdo dos currículos, os professores envolvidos apontam entre as principais diferenças, precisamente, os descritores de avaliação.

Para João Oliveira, professor de Biologia e Geologia no Colégio Rainha Santa Isabel, em Coimbra, a versão que recebeu em Setembro clarifica a avaliação na disciplina e torna os descritores mais operacionais.

Na mesma escola, que implementou o projecto nas turmas de 5.º e 10.º anos, o professor de História Paulo Lavoura considera que a introdução de descritores de desempenho por nível para cada domínio de avaliação vai permitir que os alunos sejam avaliados de forma "mais objectiva e transparente", mas gostava de ver mudanças maiores quanto às matérias leccionadas.

"Alguns conteúdos de História de Portugal poderiam ser aprofundados e determinados temas mais abstractos ou muito extensos podem não ser adequados ao nível de maturidade dos alunos do 10.º ano", argumenta o docente.

Apesar de elogiar aspectos como a valorização do pensamento crítico e a aproximação dos conteúdos à realidade actual dos alunos, Paulo Lavoura diz que há temas em que falta "profundidade histórica" e alerta para o risco de "lacunas na bagagem cultural académica".

Também professora de História, no agrupamento de Albufeira, Maria José Leote queixa-se de demasiada matéria e lamenta que, no âmbito do projecto-piloto, o MECI não tenha pedido opinião aos docentes sobre os conhecimentos previstos nas AE.

"São muitos temas, tantos que, a certa altura, há uma aflição para não deixarmos nada para trás e tentarmos conseguir ensinar tudo", diz à Lusa, descrevendo uma "luta contra o tempo" em que é muito difícil "tratar os temas com profundidade e adoptar estratégias activas que sejam desejáveis".

Do colégio Rainha Santa Isabel, o professor de Matemática Afonso Athayde concorda que, pelo menos no que respeita ao 10.º ano, as novas AE vão mudar pouco no dia-a-dia dos alunos e as alterações introduzidas não terão impacto significativo nos conhecimentos adquiridos, mas deixa igualmente notas quanto às competências previstas.

"A insistência em não abordar a lógica, transversal a toda a Matemática e presente em quase todos os domínios dos três anos, é difícil de perceber. Referenciar a lógica, ensinar os valores lógicos, proposições, condições e quantificadores é essencial", defende.

Por outro lado, uma das dimensões reforçadas nos novos documentos orientadores é a articulação da educação para a cidadania com as disciplinas do ensino secundário, em que a Cidadania e Desenvolvimento não existe como disciplina autónoma.

"No fundo, o que muda é haver um maior grau de orientação, apesar de serem temas transversais", explicou à Lusa Marco Neves, que coordena o departamento de Ciências Exactas no agrupamento de Albufeira.

Na prática, os professores já introduziam nas aulas as dimensões relacionadas com as respectivas disciplinas, mas os documentos orientadores em vigor são, segundo os docentes, pouco claros quanto à forma de fazê-lo, passando agora a incluir "pistas organizativas" para estabelecer conexões mais directas.

Em Loures, Ana Filipa Tavares implementou as novas AE na turma do 3.º ano e refere que a experiência reforçou a ideia de que a eficácia das orientações curriculares, que considera valorizarem a diferenciação pedagógica, depende da capacidade das escolas de "criar condições que possibilitem uma resposta pedagógica verdadeiramente diferenciada, inclusiva e sustentável", preocupações diárias que o documento não resolve.

Quanto aos descritores de desempenho, a professora do agrupamento Maria Keil alerta que, sobretudo no 1.º ciclo, os alunos estão ainda em fases de desenvolvimento diferentes, com ritmos de aprendizagem distintos.

"A redução da avaliação a níveis poderá, em alguns casos, simplificar excessivamente a complexidade do processo de aprendizagem e não reflectir integralmente a evolução individual de cada criança", justifica.

Olhando para os documentos submetidos a consulta pública, os professores ouvidos pela Lusa reconhecem alterações que reflectem o contributo dado ao MECI após o 1.º período de aulas, mas gostavam, ainda assim, de ter sido ouvidos sobre alterações mais abrangentes.

May 18, 2026

Já chegou às universidades...

 

Pais e agências de pseudo-pedagogia, continuem pelo mesmo caminho que vão bem.

May 07, 2026

O empobrecimento da língua é a ruína do pensamento

 

O desaparecimento gradual dos tempos verbais (subjuntivo, pretérito simples, pretérito imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado…) conduz a um processo de pensamento ancorado no presente, confinado ao instante, incapaz de se projetar no tempo.

O uso generalizado da forma informal «tu», o desaparecimento das maiúsculas e da pontuação, são golpes fatais para a subtileza da expressão.

A eliminação da palavra «mademoiselle» não é apenas uma renúncia ao encanto estético de uma palavra, mas também uma promoção da ideia de que não há nada entre uma menina e uma mulher.

Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidades para expressar emoções e menos possibilidades de elaborar o pensamento.

Estudos demonstraram que uma parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da incapacidade de traduzir emoções em palavras. Sem palavras para construir o raciocínio, o pensamento complexo tão caro a Edgar Morin é dificultado, tornado impossível.

Quanto mais pobre for a língua, menos pensamento existe.

A história está repleta de exemplos, e abundam os escritos — desde George Orwell em *1984* a Ray Bradbury em *Fahrenheit 451* — que relatam como ditaduras de todos os tipos obstruíram o pensamento ao reduzir e distorcer o número e o significado das palavras.

Não há pensamento crítico sem pensamento. E não há pensamento sem palavras. Como se pode construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o domínio do condicional? Como se pode imaginar o futuro sem a conjugação do tempo futuro? Como se pode compreender a temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo — sejam eles passados ou futuros — e a sua duração relativa, sem uma língua que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderá vir a acontecer e o que será depois de o que poderá vir a acontecer ter ocorrido? Se hoje fosse necessário ouvir um grito de guerra, seria este, dirigido a pais e professores: façam os vossos filhos, os vossos alunos, os vossos discípulos falar, ler e escrever.

Ensinem e pratiquem a língua nas suas formas mais variadas, mesmo que pareça complicado, especialmente se for complicado. Porque nesse esforço reside a liberdade. Aqueles que explicam incessantemente que a ortografia deve ser simplificada, que a língua deve ser expurgada das suas «falhas», que os géneros, os tempos verbais e as nuances devem ser abolidos — tudo o que cria complexidade — são os coveiros do espírito humano. Não há liberdade sem exigências. Não há beleza sem o pensamento da beleza.

Christophe Clavé

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Esta semana, dois alunos diferentes em turmas diferentes perguntaram-me, 'o que é valham?' Disse-lhes que é uma forma de conjugar o verbo valer e perguntei se nunca tinham ouvido expressões como, 'Valha-me Deus'? Não.

Numa turma, a propósito do consequencialismo de Stuart Mill, às tantas, disse, 'de boas intenções está o inferno cheio'. 'O quê? O que é isso?' Nunca tinham ouvido este dito popular e não o perceberam. Conheciam a palavra inferno embora nem todos soubessem dizer a que se refere mas, mesmo depois de explicar essa referência, não conseguiram perceber o sentido daquele ditado popular. Tive que explicá-lo. 

Nunca terem ouvido estas expressões diz-me que não se dão com os pais ou outros adultos que são quem usa este tipo de expressões. Depois, estava a contar isto a umas amigas e uma delas disse-me que se enerva quando vai a casa dos filhos e vê os netos sempre agarrados a ecrãs, cada um no seu quarto, sem falar com os pais. Estamos a falar de pessoas com formação superior e carreiras de sucesso... 

Cada vez têm menos referências em comum com os pais, os avós. Vejo isso nas aulas. Até há relativamente pouco tempo, podíamos falar numa banda ou num filme que os alunos conheciam. Agora? Nada. As referências culturais deles são influencers, personagens de jogos da PSP, músicas do Tik Tok.

É claro que se lessem alguma coisa com mais de um ou dois anos de idade, já tinham lido aquelas expressões.

O, não admirável, mundo novo.


Admirável mundo novo

 

Alunos cometem fraude, vão para os testes com as respostas já cabuladas, não cumprem a suspensão e exigem que as notas obtidas com fraude não sejam anuladas porque querem entrar com elas para a faculdade. Era só 20's atrás de 20's. Como é possível? Os papás apoiam a fraude dos seus príncipes e princesas e foram para a justiça para que os filhos sejam premiados pela fraude. Este é o estado da nossa educação. Em vez do Estado pôr um processo aos alunos e pais por fraude, são os fraudulentos que põem um processo à escola.




May 05, 2026

Mais um ignorante encartado que perora sem tino sobre a educação escolar


Segundo um estudo publicado neste jornal, um quarto dos alunos portugueses acabadinhos de concluir o 1.º ano não consegue ler 21 palavras num minuto.

Não interessa muito se frequentaram uma escola pública ou se andaram num colégio, mas importa determinantemente o contexto familiar em que as crianças são educadas; as habilitações dos pais são o que fazem mexer a agulha do estudo, pelo que a escola falha no papel de nivelador social.

As causas para o declínio são difíceis de apontar, pois é paradoxal que os investimentos nos sistemas de educação e o desenvolvimento geral das populações não se traduzam numa melhoria consistente da compreensão de textos.

Há várias hipóteses, a mais popular das quais que diz que o smartphone —​entretanto, banido das escolas — veio alterar as regras do jogo. As crianças têm acesso a esta tecnologia cada vez mais cedo, o tempo de atenção diminuiu, o algoritmo favorece o scroll e a leitura fica reduzida a um carrossel emocional. Esta é, por exemplo, a teoria de Jonathan Haidt, que correlacionou a explosão dos telemóveis inteligentes e a descida na literacia.

Também se discute, por outro lado, que a mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões. Se isto falha, tudo pode falhar.

Pedro Candeias, Público
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Este articulista é um jornalista desportivo, mas para não deixar sozinha a senhora que esta semana veio para o jornal denegrir a professora do filho mais os colegas e seus pais por causa de uma nota do seu filhinho (em meu entender isto de mostrar o poder de ter acesso a um jornal nacional para fritar os professores do filho configura um caso de bullying) resolveu também exercer a arte de falar do que não sabe.

Em primeiro lugar, as habilitações dos pais são o factor determinante no estudo, logo a escola está a falhar como nivelador social? Ele pensa que as habilitações por si só são uma espécie de pó mágico. As habilitações dos pais significam um nível de vida mais folgado, uma maior consciência da importância da educação escolar, um nível de educação para a aprendizagem, prévia à entrada na escola (saber ouvir, saber seguir uma instrução, estar ciente da necessidade do estudo) um nível de vocabulário, de complexidade frásica e argumentativa, significa que levem os filhos a viajar, que podem pô-los numa explicação quando necessário, etc. Pais a lidar com um só filho. 

As escolas têm os alunos em turmas de 30. Numa mesma turma há alunos que ainda não sabem ler, alunos que têm mais ou menos, alunos que não sabem estar numa sala de aula, que não sabem esperar a sua vez, enfim, sem educação parental para a sociabilidade, alunos completamente auto-indulgentes e alunos que vêm preparados para a aprendizagem escolar. A relação do professor é com o grupo-turma e não com cada aluno individualmente e, ao contrário do que diz este jornalista desportivo que trabalha num jornal mas não está informado, não tem havido investimentos nos sistemas de educação e no desenvolvimento geral das populações. Pelo contrário, estamos mais pobres e as escolas estão à míngua, não têm equipamentos, os currículos são muito pobres e não há professores - penso que tenha ouvido falar disso... Não é possível "nivelar", nestas condições, alunos completamente díspares quanto ao lugar em que se encontram, social, intelectual e emocionalmente, quando entram numa turma. Era preciso ter professores e técnicos a trabalhar com os alunos mais atrasados. Não há professores... Era preciso que os pais fossem responsabilizados pela educação parental. Era preciso tirar o peso de burocracias inúteis de cima dos professores. Os professores não são o Cristo milagreiro.

"Há várias hipóteses [para o declínio da educação], a mais popular das quais diz que o smartphone..." Não é mais popular, é a que tem mais evidências a suportá-la. Quando se vem para os jornais dizer mal dos professores e das escolas, o mínimo é ter um bocadinho de rigor na linguagem. E não, os telemóveis não foram banidos das escolas.

Finalmente, quanto a uma,
mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões
Não há nenhum paradigma que privilegie a eficácia, nem a eficácia é uma alternativa ao pensamento crítico. Existem em conjunto. Já ontem a senhora que vem para os jornais fazer escândalo por causa da nota do filho falava no paradigma da educação que pedia repetição em vez de pedir opiniões analíticas fundamentadas (um conselho que podia ela mesma ter seguido). Não existe nenhum paradigma tal, nem a repetição é concorrente do pensamento analítico. 

Um aluno que está a resolver exercícios de matemática, logo ao nível da escola primária, ao fazer repetidamente o processo de partir o problema nas suas partes e depois operar as partes até resolver o todo, está a interiorizar precocemente o próprio processo de análise de um problema.

"O pensamento crítico é a capacidade de analisar, avaliar e questionar informações de forma objectiva e racional. Envolve cepticismo saudável, lógica e fundamentação para evitar manipulação, sendo crucial para a tomada de decisões" - esta é uma definição da IA, é fácil de encontrar.

Como este senhor devia perceber, nenhum aluno na escola primária ou no 5º ano ou no 7º ou até depois têm essa capacidade analítica (a maioria dos meus alunos no 10º ano não a tem) para a qual se requer, em primeiro lugar, processos de abstração que as crianças ainda não têm. 

Para questionar informações é preciso ter conhecimentos. Se não temos conhecimentos o máximo que podemos fazer são perguntas - se sabemos fazer perguntas significantes, o que também requer alguns conhecimentos. Por exemplo, não falar de soluções na educação escolar sem ter conhecimentos sobre o tema de maneira a não opinar sem fundamento e sem tino. 

Dito isto, as disciplinas, em todos os anos escolares, têm muitos procedimentos e alguns são repetitivos (o que a memória não retém não fica aprendido), que indirectamente vão treinando os alunos nos processos analíticos, interiorizando o método de abstrair-se das inclinações subjectivas e tratar os problemas com regras, critérios objectivos, com preocupação de rigor, ao mesmo tempo que vão construindo um edifício de conhecimentos (da matéria em questão), sem os quais nenhum pensamento crítico é possível. Os processos repetitivos aparecem sempre como aplicação do que foi compreendido anteriormente, portanto, são aplicação de conhecimentos. Mas até essa compreensão, nos primeiros anos de escolaridade é indirecta porque as crianças estão em níveis do desenvolvimento intelectual que não permite a compreensão de certos conceitos. O treino do pensamento nos procedimentos lógicos e analíticos usando regras objetivas e universais é lento e durante muitos anos é indirecto. 

Mesmo um adulto, se quer ser crítico em relação a um assunto, tem que ter conhecimentos. Quando quero perceber assuntos da física fundamental pergunto a um amigo que é especialista nesse campo e, apesar de ser professora e de já ter sido aluna universitária, não assumo que sei o que é a educação universitária e as especificidades do ensino universitário. E quando quero saber pergunto-lhe a ele que é especialista. 

Fico sempre espantada quando os responsáveis políticos vêm dizer que a disciplina de cidadania serve para ensinar pensamento crítico porque é uma declaração da ignorância acerca do que significa treinar o pensamento crítico. Não é uma técnica que se ensine. 

Tudo na educação leva muito tempo, na ordem de anos, a desenvolver e de início só indirectamente se desenvolve, porque o cérebro das crianças e adolescentes tem de passar certas etapas para conseguir realizar certas operações mentais. E o cérebro não opera no vazio, opera sobre dados, conceitos, informações, conhecimentos. 

Na educação tudo é lento e complexo e os títulos dos jornais do género, 'não sei quem tem a receita para uma educação de sucesso' ou 'na escola tal descobriu-se o factor do sucesso' só mostram ignorância crassa e falta de entendimento básico do assunto. Infelizmente, não se coíbem de opinar, mas vemos que as sua opiniões vêm de um lugar vazio.

Hello!! Uns são filhos e outros enteados?


Soube hoje que quem dá formação profissional recebe mais 200€ no salário, como prémio, se não reprovar ninguém. 

HELLO! WHAT ABOU US?




May 04, 2026

Educação: remover o órgão e exigir a função

 

«E, ao mesmo tempo — tal é a tragicomédia da nossa situação —, continuamos a clamar por essas mesmas qualidades que estamos a tornar impossíveis. É quase impossível abrir uma revista sem deparar-se com a afirmação de que o que a nossa civilização precisa é de mais “determinação”, ou "dinamismo", ou "abnegação", ou “criatividade”. Com uma espécie de simplicidade medonha, removemos o órgão e exigimos a função. Criamos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Rimos da honra e ficamos chocados ao encontrar traidores no nosso meio. Castramos e exigimos que os castrados sejam fecundos.» 
— C. S. Lewis (1898–1963), “The Abolition of Man

The Wisdom Letter

Como é que uma cultura lamenta a ausência de virtudes que, silenciosamente, ensinou as pessoas a abandonar?


A educação é mais do que escolher um curso e uma carreira para fazer dinheiro



Hoje em dia, pensamos na educação como uma série de disciplinas dispersas que se estudam por motivos de carreira e mobilidade social:

A matemática é para engenheiros
A medicina é para médicos
A ciência é para biólogos
As humanidades são para pessoas sem recursos

A ideia da educação actual consiste em escolher uma disciplina, manter-se no seu caminho, formar-se, iniciar a carreira e depois fazer dinheiro. 

A educação é muito mais do que isso — durante a maior parte da História, a educação destinava-se a libertar a pessoa. A educação clássica ensinava para que a alma pudesse ser libertada; livre da confusão e do vício, orientada para a sabedoria e capaz de viver uma vida digna e com significado. (Sean Berube)

Como é que uma sociedade lamenta a ausência da cultura que, silenciosamente, ensinou as pessoas a abandonar?

Revisão do ECD: o ME pretende cortar fundos e eliminar direitos?




A insustentável dureza da revisão do ECD

O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade e, desde logo, os docentes se mobilizarem.

Mário Nogueira

O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade e, desde logo, os docentes se mobilizarem.

Adiando o que é prioritário para valorizar a carreira e tornar atrativa a profissão docente, os ministérios da Educação e das Finanças vão arrastando o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD). Para tal contribuirá o facto de os governantes terem percebido que a concretização das suas intenções é mais difícil do que pensavam, mas, também, que a contestação dos professores sobe de tom. Num momento em que são vários e justos os motivos de contestação dos portugueses (pacote laboral, preço dos combustíveis e inflação em geral, insuficiente apoio às vítimas das tempestades ou apoio ao belicismo de gente perigosa), o Governo não quer abrir um novo foco de forte protesto. Como tal, este é o momento oportuno de lutar para travar o objetivo dos governantes e conseguir que, da revisão do ECD, resulte a indispensável e inadiável valorização da carreira e da profissão de professor(a) e educador(a).

Ao longo do processo tem havido quem branqueie o curso da revisão, considerando serem apenas alterações de semântica, pelo que corpo especial e carreira de regime especial são a mesma coisa, assim como concurso e procedimentos concursais, ou que o facto de a carreira docente ser de corpo especial não evitou a divisão em categorias.

Há que ser sério: o que afirmam ser igual é muito diferente e, quanto à divisão, não teve a ver com a natureza da carreira, mas com a organização, passando de unicategorial para pluricategorial, o que foi derrotado, com luta, pelos professores.

Há 18 anos, na sequência da Lei 12-A/2008, cerca de mil carreiras da Administração Pública (AP) foram extintas e automaticamente integradas na de regime geral, então criada. Já os corpos especiais (diplomatas, militares, segurança, docentes, investigadores, médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e bombeiros) seriam convertidos em carreiras de regime especial, através de processos de revisão que iriam estabelecer, para cada um, as normas de transição. Só enfermagem (2009) e técnicos de diagnóstico e terapêutica (2017) viram a carreira convertida, com consequências que têm justificado fortes lutas, devido, entre outros motivos, à avaliação pelo SIADAP e à perniciosidade da TRU.

Para o Governo chegou a vez dos docentes, daí, logo à cabeça, ter escrito que a carreira será de regime especial, grau de complexidade funcional 3 (que decorre do requisito habilitacional), e que o perfil do docente terá em conta o Referencial de Competências para a AP (ReCAP), publicado pela Portaria 214/2024/1, que serve para caraterizar os postos de trabalho dos mapas de pessoal, os procedimentos concursais, a formação e desenvolvimento profissional e a avaliação do desempenho.

Do já longo processo, mas ainda curta revisão, já se percebeu a intenção de: as vagas de quadro serem substituídas por postos de trabalho (obviamente, em “mapas de pessoal”), com exceção dos quadros de zona pedagógica que, tendo 17.000 docentes, seria impossível afetar cada um a uma “unidade orgânica”; as cinco modalidades do concurso serem substituídas por dois procedimentos concursais que, misturando-as, complicam o que existe; todos os docentes passarem a estar sob regime de contratação em funções públicas, uns a termo e outros por tempo indeterminado, extinguindo-se a natureza definitiva do vínculo; o absurdo período probatório a mudar de nome para período experimental com indução, que não é uma coisa nem outra; as habilitações profissionais e próprias a serem substituídas por formação científica e pedagógica e formação científica, possibilitando que docentes sem formação pedagógica possam lecionar onde hoje estão impedidos, como é o caso do 1.º ciclo. A “vinculação” passa a fazer-se por “recrutamento”, que é a conversão do contrato a termo em tempo indeterminado, mas ainda sem se compreender o mecanismo. Ademais, o ministério pretende eliminar direitos como os de negociação coletiva, participação ou reconhecimento de doenças provocadas ou agravadas pelo exercício da profissão.

Quanto à estrutura da carreira, salários e progressão (TRU?), avaliação do desempenho (SIADAP? e ReCAP!), horários de trabalho e reduções letivas, por exemplo, são aspetos empurrados para mais tarde.

O anunciado objetivo da revisão era valorizar uma profissão de que muitos saem, por aposentação ou abandono, e poucos escolhem, havendo mesmo 30% dos estudantes dos cursos a desistir deles. Contudo, se o processo não está a corresponder ao que seria espectável, afirmações do ministro em que lamenta ser o patrão que mais emprega, comparando a Educação a uma cadeia de supermercados, e que a despesa com docentes atinge os 2% do PIB, indiciam que o governante se queixa de haver professores a mais e despesa excessiva, o que contraria a necessidade e o objetivo inicialmente previsto.

Reduzir profissionais e despesa, afinal, parece ser o verdadeiro objetivo e, nesse sentido, foram tomadas ou preparam-se medidas: transferência de toda a administração educativa para institutos públicos, que são entidades de administração indireta do Estado (AGSE, I.P.; EduQa, I.P.; CCDR, I.P.); integração dos ex-delegados regionais da DGEstE nas CCDR, I.P.; fusão de ciclos; transferência de mais financiamento para fundos europeus; aprofundamento da municipalização; aprendizagens essenciais; entre outras.

O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade, a comunidade educativa e, desde logo, os docentes se mobilizarem, contestando as atuais políticas educativas e exigindo uma Educação pública de qualidade, para todos, inclusiva, devidamente financiada e valorizada em todos os domínios. Pondo isso em causa, o ministro impõe a reforma do Estado na Educação, reforma que visa desconstruir e não melhorar.


May 02, 2026

Educação: "Há que pensar a infância "como uma espécie de base da humanidade"



do blog https://dererummundi.blogspot.com/

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A INFÂNCIA "COMO UMA ESPÉCIE DE BASE DA HUMANIDADE"




O jornal Público, na sua versão online do passado domingo, deu a conhecer uma entrevista feita pela jornalista Cristiana Faria Moreira a uma investigadora de Comunicação e Estudos dos Media e ex-directora do Institute for Research on Digital Literacies da Universidade de York, no Canadá (ver aqui). No seu trabalho destaca-se o capitalismo digital e as tecnologias destinadas a crianças (kidtech).

Dessa entrevista, extraio, e reproduzo abaixo, alguns aspectos que responsáveis pela educação escolar, formadores de professores, directores escolares, professores e outros profissionais de ensino devem ter presente nas decisões que tomam.

As crianças e os jovens são um recurso financeiro para as empresas, que os veem como uma fonte de lucro. Isso não é novo: há muito tempo que estão "no centro da cultura de consumo e do capitalismo", mas hoje temos "empresas enormes, gigantescas" a fazê-lo com competência inaudita. Essas empresas:

a) Moldam as crianças e os jovens como consumidores. Nos espaços digitais recolhem-se os seus gostos e orienta-se a publicidade em função desses gostos. E isto sem respeito pela privacidade. É o fim da privacidade;

b) Extraem deles dados com grande interesse económico: "podem-se vender a anunciantes, a máquinas de IA preditiva. Nem sequer conhecemos todas as formas como esses dados podem ser utilizados. E pensemos em grandes volumes de dados e no que, a partir deles, se pode compreender de toda uma geração ou de toda uma comunidade". É certa:

- a falta de transparência acerca do que acontece aos dados. "O que temos de perguntar é: para onde vão esses dados? Não sabemos, assim como não sabemos quanto tempo vão ser guardados, nem que outras entidades terão acesso;

- a ausência de regulação das empresas tecnológicas e das suas plataformas, não obstante a responsabilidade que os governos têm "de garantir que estas estruturas vão ao encontro das necessidades da população. Dizer às pessoas para se manterem afastadas não é uma solução (...). Parte do problema é que estas empresas são reguladas globalmente. Às vezes nem sequer as conseguimos definir. E isso tem sido uma forma de contornar a regulamentação".

c) A indústria do edtech, das tecnologias aplicadas à educação, "é global, enorme, e a crescer exponencialmente, à medida que mais governos estão a cortar no financiamento às escolas públicas". (...) "Também acho que é importante pensar no que é que está a faltar às crianças para estarem a recorrer a estas ferramentas".

d) "Quanto mais extremo for o que se diz, mais atenção se recebe, mais valor se cria. Não basta ter mais utilizadores, é fazer com que eles fiquem mais tempo, ter mais conteúdo, deixar as pessoas furiosas e irritadas... tudo isso cria valor para a plataforma. As empresas de redes sociais não se importam que vejas os conteúdos porque os odeias ou porque gostas deles. Ser um conteúdo extremista ganha atenção. Tudo o que dizemos sobre misoginia, sobre racismo, é incorporado ali.

e) "À medida que este material se tornar parte das ferramentas de IA preditiva perdemos o controlo sobre ele. E é bastante assustador pensar nas implicações que isso pode ter a longo prazo e sobre as quais sabemos ainda muito pouco".

Essas empresas "isentam-se completamente de toda a responsabilidade. E depois responsabilizamos pais e responsabilizam as escolas." Há muito que as crianças estão no centro da cultura de consumo e do capitalismo, mas a escola e a sala de aula são espaços que devem pugnar pela segurança.

Conclui essa investigadora: "está a tornar-se bastante assustador". É que

"Se mudarmos a infância, acabamos por mudar o que significa ser humano"
Há que pensar a infância "como uma espécie de base da humanidade".

Títulos enganadores para atacar professores

 

Fui ler o artigo pensando ir encontrar professores criminosos,que cometeram crimes contra alunos. Sendo 800 em 120 mil professores, são 0,6 %, mas mesmo assim, 800 professores criminosos contra alunos... Li o artigo e afinal, a maioria dos 800 processos são para obrigar os professores a darem as notas que os pais querem; um processo deveu-se a uma professora ter gritado com um aluno; uma professora foi perseguida e obrigada a pôr baixa pela própria escola, porque muitas direcções têm medo dos pais. Porém, lemos o título e parece que os professores são um bando de criminosos. Já vi este artigo em duas redes sociais com comentadores/pais a chamar nomes aos professores. Gostava de saber a porcentagem de processos em outras profissões. Enfim, continuem assim que vão bem na campanha para levarem professores para as escolas.




April 23, 2026

Professores portugueses são os que têm mais conhecimentos pedagógicos



Porém, desde a Lurdes Rodrigues que os governos tentam destruir os professores, desde chamar nomes todos os dias nos jornais a criar impedimentos na carreira para destruir a profissão. Este ministro quer transformar os professores em tarefeiros que correm de uma escola para outra sem nenhum respeito pela especificidade da profissão, desligados dos alunos, da mesma maneira que fizeram na destruição da saúde. Querem declarar a profissão de professor como sendo igual a outra qualquer de um qualquer funcionário público - alguém que está a atender num balcão, por exemplo. Querem 'des-especializar' a profissão para poupar dinheiro. Este ministro queixa-se de que outros antes dele destruíram a profissão, mas quer trilhar o mesmo caminho. 


Professores portugueses são os que têm mais conhecimentos pedagógicos

Os professores portugueses destacam-se num estudo da OCDE por serem os que apresentam mais conhecimentos pedagógicos, o que lhes permite lidar melhor com os desafios da sala de aula e fazer com que os alunos aprendam melhor. 

Uma equipa de investigadores quis saber o que “torna os professores excelentes” e, após questionar cerca de 20 mil docentes de oito países, encontrou uma relação entre conhecimentos pedagógicos e sucesso académico dos estudantes.

Os alunos de professores com mais conhecimentos pedagógicos tendem a ter melhores resultados a matemática e leitura, sublinha o relatório da OCDE.

Estes docentes conseguem “ler a sala” e “ajustar-se em tempo real”, estando mais preparados para tarefas como alterar a forma de explicar conteúdos quando um aluno não compreende, conseguindo dedicar mais tempo à aprendizagem e menos tempo a impor disciplina. “A excelência no ensino, ao que parece, não é um acaso”, alerta a OCDE, defendendo a importância dos países investirem nos conhecimentos pedagógicos.

“Como qualquer profissão baseada no conhecimento, exige que levemos a sério a preparação, o desenvolvimento e a aprendizagem contínua dos professores — não como algo secundário, mas como a estratégia central para melhorar os sistemas educativos. Exige que reconheçamos, recompensemos e valorizemos a especialização pedagógica com o mesmo respeito que atribuímos a outras profissões altamente qualificadas”, defendem os investigadores.

O estudo, divulgado esta quarta-feira, sublinha os benefícios das qualificações e de “programas de formação de professores mais curtos, acelerados ou especializados”, mas mostra também que na maioria dos países estudados não existe uma associação forte entre ter mais conhecimentos pedagógicos e querer manter-se na profissão por mais de cinco anos. No entanto, Portugal escapa a esta tendência, ao lado da Arábia Saudita e Marrocos.

Os investigadores acreditam que as intenções de carreira dos professores são influenciadas por um conjunto amplo de fatores, como as condições laborais, que vão desde os salários, às oportunidades de progressão na carreira e a horários de trabalho, e por isso pedem a valorização dos professores.

Os resultados do estudo hoje apresentado devem “incentivar as autoridades educativas a encontrar formas de melhor valorizar e reconhecer o contributo profissional que prestam”, defendem os especialistas, lembrando que o futuro da educação “será escrito nas salas de aula” por quem sabe dar vida às disciplinas.

https://eco.sapo.pt/2026/04/22/professores-portugueses-sao-os-que-tem-mais-conhecimentos-pedagogicos/

Desfazendo mitos da educação

 

Dois mitos interligados, sendo o segundo uma consequência do primeiro.

Mito nº 1 - Cada criança/adolescente aprende à sua maneira e o professor tem de ensinar de maneira diferenciada de acordo com as diferenças de cada um.

Mito nº 2 - O professor tem de fazer o currículo ir ao encontro do aluno.

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Mito nº 1

As pessoas não aprendem, cada um à sua maneira. Somos seres biológicos com as mesmas estruturas cerebrais (cortex visual, pré-frontal, somatossensorial, etc.) que funcionam mais ou menos da mesma maneira, com os mesmos padrões e que progridem mais ou menos do mesmo modo. 

O que torna a aprendizagem diferente é a experiência de vida e o lugar em que cada um está no desenvolvimento. Há crianças e adolescentes mais maduros e desenvolvidos e outros mais lentos. Por exemplo, a criança na 3ª classe já está plenamente no estádio das operações concretas ou está a entrar nele? Aos 14 anos já consegue mover-se com alguma facilidade no pensamento abstracto? 

Da minha experiência, é comum alunos entrarem no 10º ano muito novos, com 14 anos, ainda sem essa capacidade de entreterem hipóteses abstractas na sua mente, enquanto outros na mesma turma, já plenamente nos 15 anos a caminho dos 16, já o fazem com muito à-vontade (penso que só em casos excepcionais de crianças muito precoces se deve deixar entrar alunos muito cedo para a 1ª classe). Depois, acontece os alunos não terem tido professor e estarem atrasados nos conhecimentos (hoje-em-dia são raros os que não passaram por isso) ou terem entrado na turma a meio do ano ou os pais marcarem férias para a semana dos exames e os filhos faltarem (sim, acontece com alguma frequência).

Portanto, os alunos têm duas ou três maneiras de aprender: uns são mais extrovertidos e precisam de mais interacção, outros mais introvertidos e precisam de mais tempo de processamento interno, uns (poucos) são mais analíticos, outros (a maioria) são mais descritivos e precisam de muitas aplicações práticas, uns são mais metódicos, outros são desorganizados.

Agora, todos aprendem melhor se houver silêncio e concentração na sala de aula, se o professor explica exemplificando e aplicando, se o professor enraizar as aprendizagens numa contextualização, com exemplos e aplicações práticas, se os conteúdos vão sendo regurgitados e introduzidos nos novos temas, etc.

A narrativa dos pseudo-pedagogos e dos governos de que cada aluno é totalmente diferente e aprende de modo totalmente diferente e que os professores dentro da sala de aula devem ensinar cada aluno de maneira diferente, embora todos ao mesmo tempo, não só é falsa como absurda, da ordem do pensamento mágico.

Imagine-se um professor a ensinar uma turma ao mesmo tempo que não ensina a turma mas cada aluno individualmente; ao mesmo tempo ser muito concreto e muito abstracto; ao mesmo tempo ser interactivo e pouco interactivo; ao mesmo tempo ser sintético e analítico. Um professor ensinar uma turma de 30 alunos ao mesmo tempo mas não ensinar uma turma de 30 alunos ao mesmo tempo e em vez disso ensinar 30 alunos individualmente, como um explicador; um professor que prepara 30 planos de aula diferentes para cada aula, um para cada aluno.

Os (i)responsáveis dizem cada barbaridade...

O que fazem os professores é ir ajustando o ensino de maneira a homogeneizar mais ou menos a turma, tendo o cuidado de ter alimento preparado para os que estão muito avançados, para que não atrofiem as suas potencialidades. Quanto aos que estão muito atrasados, se for uma questão de desenvolvimento cognitivo, psicossocial, a única coisa a fazer é ir insistindo até que dêem o salto, mas se for o caso de terem grandes falhas nos conhecimentos por falta de professor ou por nunca terem estudado (as situações cada vez mais vulgares), não é possível o professor colmatar isso na aula. Não é possível o professor no 10º ano parar as aulas para explicar a esses alunos o que é a regra de três simples ou ensiná-los a escrever. Para isso tem de haver uma margem de professores que tenha horas no seu horário, para dar explicações a esses alunos, individualmente ou em pequenos grupos idênticos. No passado havia sempre professores efectivos nas escolas que tinham horários com algumas horas dedicadas a esse trabalho. Agora não há professores para as aulas com as turmas, quanto mais para dar apoios/explicações.

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Mito nº 2 - O professor tem de fazer o currículo ir ao encontro do aluno.

O professor tem de trabalhar o programa e o programa tem conteúdos e objectivos. Se o professor vai ao encontro dos alunos, em vez dos alunos mais fracos evoluírem e atingirem o nível de metas do programa, o que acontece é a adulteração do currículo, a inflação das notas que deixam de corresponder à apropriação dos conteúdos e técnicas do currículo (é um problema em todo o mundo ocidental já objecto de muitos estudos) e até, eventualmente, a descida de nível dos outros alunos da turma.

As pessoas que dizem estas barbaridades não sabem o lugar em que os alunos estão e o que implica 'ir ao encontro dos alunos'.

Portanto, o que deve acontecer, mais uma vez, é investir na carreira dos professores, para que haja professores com horas disponíveis para dar apoios/explicações, aos alunos que estão muito atrasados.

Tudo o que é bom e de qualidade custa dinheiro. Se querem um orçamento de pobrezinhos para a educação e se querem professores precários e tarefeiros para poupar dinheiro, depois o que têm é uma educação pobrezinha de pobrezinhos.

April 22, 2026

Citação deste dia



Sala de aula: o lugar que o professor arruma e o mundo desarruma. ~Lúcia Vaz Pedro in .jn.pt/opiniao


Aprender a não saber é o novo mantra de governos e pais

 

Toma lá um ecrã e vai aprender a não saber fazer coisa alguma e depois queixa-te o tempo todo de não saberes fazer nada.

Desfazendo mitos sobre ser professor

 

Nomeadamente o mito de que ser professor é uma vocação interna, um 'chamamento'. Ser professor é uma profissão que requer certas capacidades, muitas das quais se desenvolvem com a experiência. Há muitas razões para se seguir essa carreira e acontece muito que quem foi parar à profissão sem nenhuma vocação interna as desenvolva e aqueles que desde sempre quiseram ser professor e amam a ideia da profissão não tenham nenhum jeito para ela. Calculo que isto deva ser verdade em relação à maioria, se não todas, as profissões. O que importa quando se discute a profissão de professor, não é quem sempre teve esse 'chamamento' interno mas que condições existem para o trabalho de ensinar crianças e adolescentes hoje e, se essas condições são suficientes ou se estão abaixo do suficiente. Estão abaixo e por isso são muito poucos os que querem a profissão. Se a questão importante fosse o 'chamamento' interior, porque é que no passado não muito longínquo havia excesso de candidatos, na ordem das dezenas de milhar e de repente desapareceram todos? Começaram a nascer pessoas sem chamamento interno para a profissão? Não. Havia muitos candidatos porque a profissão, sendo difícil, tinha atractivos que chamavam as pessoas para dentro de si. O chamamento não é interior, é exterior e traduz-se em condições de trabalho e salários adequados. Dizer que tudo se reduz ao 'chamamento' interno do professor é uma maneira dos governos poderem varrer para debaixo do tapete todos os problemas sistémicos da profissão e não terem de resolver coisa alguma.