Showing posts with label educação. Show all posts
Showing posts with label educação. Show all posts

March 24, 2026

Promover as explicações porque as condições da escola pública são miseráveis




Esta notícia é mais um sintoma do abandono da escola pública pelo governo. É um tragédia. Faz-se a apologia, não do investimento numa escola de qualidade, mas em explicações de qualidade. "Um professor para cada três alunos"; "aqui não há barulho". Professores que podiam estar nas escolas, preferem dar explicações: poucos alunos, salários altos, quem não quer aprender e não se interessa pelos estudos não tem lugar. Os serviços públicos vão sendo destruídos para dar lugar a uma sociedade autoritária de favorecidos e... outros. É evidente que os que sobram nos serviços públicos vão desistindo porque não é possível ter 7 turmas de 30 alunos, fora o resto do trabalho e fazer um bom trabalho, como se se tivesse 3 alunos aqui e mais 3 ali.

Os “miúdos invisíveis” quando têm explicações dão nas vistas

Centros de Estudo Gulbenkian arrancaram este ano em modo projecto-piloto em três bairros para levar explicações personalizadas a alunos que não as poderiam pagar. 

Um professor para cada três alunos. Português, Matemática, Inglês. Nalguns casos, mais do que isso. São quatro horas e meia por semana de apoio personalizado, depois da escola. 
Aqui "não há barulho, há calma", descreve Afonso, 11 anos — neste "centro de explicações", localizado num dos maiores bairros de realojamento social da Grande Lisboa, são muitos os que se queixam de que na escola há demasiado ruído nas salas de aulas, turmas muito grandes e às vezes "porrada" no intervalo, o que não é grande ambiente para se estudar.

 

March 21, 2026

Boa sorte com isso

 

Falta de professores: diretores escolares ligam a docentes para aceitarem ir dar aulas 

Escolas entram em contacto com antigos profissionais para tentarem atribuir horas. Alguns também fazem apelos nas redes sociais, promovendo horários a concurso nas suas escolas. DN

-------------

Há falta de professores de um modo dramático, mas o governo faz alguma coisa para promover a carreira dos professores? Não. Faz o oposto.

Hoje-em-dia é muito difícil ser professor. Os alunos chegam às aulas sem respeito pelo conhecimento, impreparados para uma educação escolar em resultado do uso excessivo de telemóveis e redes sociais, carregados de falsos conhecimentos que foram buscar às redes sociais e pensam ser a verdade e sabendo que não é necessário estudar para irem passando de ano e obter certificados. 

Porém, o pior de tudo são os pais. Porque dantes, se os alunos tivessem comportamentos inapropriados, violentos, de constante perturbação ou desrespeito, dizíamos aos pais e os pais colaboravam connosco mas agora os pais suportam esses comportamentos contra os professores e tornam o trabalho um inferno.

Aqui vai um exemplo para se ter um ideia do que é hoje-em-dia normal no comportamento nesse campo. Aqui há uns anos uma directora de turma chamou uma EE porque o filho ia para as aulas masturbar-se. A mãe apareceu na escola e perguntou à DT, 'o que queria saber é para onde a professora estava a olhar para perceber o que ele estava a fazer? Malandra!" Isto hoje-em-dia é típico.

Há pais cujos filhos são ordinários para os professores e colegas e em vez de os educarem aparecem com advogados para fazer bullying aos professores. Não por acaso, quando os candidatos aparecem nas escolas e vêem que o horário tem direcção de turma vão-se embora e não o aceitam.

A mim, quando me perguntam se ser professor vale a pena hoje-em-dia, digo que não - porque é a verdade. E explico: maus salários, más condições, nenhuma carreira séria, burocracias inúteis infernais, total falta de respeito do ME, políticas de sabotagem do nosso trabalho e um grande número de pais extremamente hostis.

O último factor mencionado é um dos que mais pesa. Todos os dias que entro na sala de directores de turma encontro colegas DT num enorme stress, por conta do comportamento de pais a propósito de maus comportamento de filhos. Situações aberrantes e extremamente desgastantes.

Dar aulas é muito desgastante. Entramos numa turma e temos ali 30 adolescentes, sendo que a maioria não quer estar ali e está à espera, ou de ser entretido com 'coisas giras' tipo imagens de vídeo ou de ser alimentado com resumos de resumos que não impliquem nenhum esforço da sua parte, muito menos estudo. E ali estamos nós a gerir o ambiente da sala de aula -para se poder desenvolver experiências de aprendizagem- e todos os comportamentos individuais desses 30 adolescentes. Ao mesmo tempo que desenvolvemos o trabalho, que asseguramos que os alunos estão a assimilar conteúdos e a desenvolver processos correctos de raciocínio, estamos continuamente a absorver toda a energia (positiva e negativa) que exsudam, carregada de problemas, medos, ansiedades, expectativas, jogos de poder, violência, frustrações, necessidades de confronto de autoridade, depressões, picos emocionais, etc. Tudo isto enquanto tomamos dezenas de micro-decisões relativamente a alunos particulares, em que pesamos instantaneamente os prós e os contras das decisões no progresso dos alunos e no impacto na turma. Sai-se de cada aula esgotado deste exercício de fazer de pára-choques dos problemas e da energia dos alunos e ao fim de uma manhã ou de uma tarde de aulas uma pessoa está completamente esgotada e só quer silêncio. E eis que aparece um EE a queixar-se da nota do filho (que não estuda nada), ou a fazer queixa do professor porque o filho é uma criança muito sensível e o EE quer vir assistir às aulas para fazer os trabalhos com o filho e o professor não deixa.

Há falta de professores e andam a ligar a professores para virem assumir turmas? Boa sorte com isso.

March 19, 2026

Sabes que o governo desistiu da educação pública em Portugal?

 

Sabes que o governo, mesmo tendo agora amplas evidências dos prejuízos que o uso da IA faz ao desenvolvimento cognitivo e social das crianças e jovens adolescentes vai impor uma [pseudo]educação com recurso à IA para não ter que gastar dinheiro ou chatear-se com investimento na educação, nomeadamente na contratação de professores formados e de técnicos especializados? Sabes que isso significa desistir da formação intelectual e humanista das crianças e adolescentes? Sabes que isso significa transformá-los em peças da máquina incapazes de pensar sobre a própria máquina?

'Tomem lá um assistente digital de IA, estupidifiquem-se com ele porque fiz um contrato com uma Big Tech que sai muito mais barato que andar a formar professores, enriquecer os currículos escolares, etc.'


March 13, 2026

Péssimas ideias na educação

 


Hoje disseram-em -não sei se é verdade- que um indivíduo no pelouro da educação na Câmara Municipal anda a pressionar as escolas para deixarem de ter avaliações trimestrais e passarem a ter semestrais porque isso lhe facilita a burocracia de distribuir funcionários pelas escolas.

Desde quando se tomam medidas relativas aos alunos -neste caso francamente prejudiciais e anti-pedagógicas- para facilitar a vida a burocratas??

Não conheço nenhum professor que defenda as avaliações semestrais. No primeiro semestre em que os alunos se estão adaptar à disciplina e/ou ao professor, os alunos em geral tiram notas baixas que depois compensam nos dois períodos seguintes, o que não poderão fazer se tiverem apenas duas avaliações.

Também acontece, dizem-me os colegas que trabalham com o básico, que os alunos, quando já conhecem a disciplina e o professor de anos anteriores, tiram boas notas no 1º semestre e depois, como sabem que a avaliação é continua e a nota do primeiro semestre faz média com o 2º nunca mais fazem nada e vão para as aulas sabotar.

Há universidades que põem a hipótese de passar as aulas de semestres a trimestres ou quadrimestres para os alunos terem mais avaliações e nas escolas, onde os alunos são muito mais imaturos, querem diminuir as avaliações prejudicando os alunos.

Espero que na minha escola -isso ainda não foi discutido em todos os grupos disciplinares- chumbem essa ideia perniciosa que prejudica os alunos e as aulas, independentemente de chatearem um burocrata.

Parece que o mesmo senhor também quer que as aulas passem de 90 minutos para 50 minutos. É não ter noção do que são os alunos actuais. Hoje tive duas turmas a fazerem uma ficha de trabalho, a propósito de um texto que analisámos na aula, com consulta do caderno de apontamentos e com duração de uma hora. Teoricamente, sobravam 30 minutos para avançar na matéria. Pois, não. Primeiro que se sentem e se preparem e que façam as mesmas perguntas 20 vezes sobre o que já foi devidamente explicado, passaram 20 minutos. Resultado: quando recolhi as respostas sobravam dez minutos. E isto sou eu que sou aquela pessoa que, assim que toca para entrar, aí vou eu. Chego à porta da sala um ou dois minutos depois do toque. Quando as aulas forem de cinquenta minutos. entre começar a aula, os tempos de quebra próprios de aulas com adolescentes, etc., no máximo aproveitam-se 30 minutos.

Na educação só vemos pioras. Sei que já não vou estar nisto muito mais anos, mas custa ver estragar tudo e saber que se prejudicam os alunos gratuitamente.


Qual a importância que o novo presidente dá à educação? Nenhuma. Zero.

 

Educação Zero

A única vez que me cruzei pessoalmente com o recém-empossado Presidente da República foi há muitos anos, mais de 15, quando ele presidia à Comissão de Educação do Parlamento. Eram os anos de chumbo na área da Educação, devido às políticas da dupla José Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, e o ambiente estava longe de ser pacífico.

A hostilidade, em especial de certas parlamentares do Partido Socialista, para com as delegações de professores que iam apresentar as suas posições à Comissão, roçava a agressividade e, em diversas atitudes, transbordava para a descortesia, para não dizer pior. Constava entre os grupos de professores, que então se formavam e procuravam interlocutores na classe política, que António José Seguro era alguém que sabia ouvir. E eu confirmei que ouvia. Falar é que nem tanto, mas isso não é o que interessa agora.

O que interessa, pelo menos a mim, é saber qual é a atitude do novo Presidente em relação à Educação, atendendo a essa sua experiência e aparente interesse por esta área de governação. Por isso, li com atenção (estava em aulas, não pude ouvir) o seu discurso de posse, mais de 2800 palavras e de 18.000 caracteres, quando tudo transcrito para papel e incluindo as alongadas cortesias protocolares. E fui em busca de referências à Educação e à Escola Pública (ou privada).

Busquei e não encontrei. Contabilizei um punhado de referências à Saúde, o que se compreende. Gostei da evocação da Liberdade numas quantas passagens. Deparei com algumas menções à Justiça, algo que parece recorrente nestas alturas, mesmo que dê em nada ou ainda pior. Um par de referências à Habitação, assim como à Defesa e à Segurança. Falou no contexto internacional. Falou da “ciência, da inovação e da cultura, como motores da transformação social e da emancipação do ser humano”, e que “precisamos de mobilizar o talento das nossas universidades, dos cientistas, dos criadores culturais, dos empresários, dos trabalhadores, das instituições públicas”.

Achei que devia voltar a pesquisar, não me tivesse escapado alguma referência à Educação, ao Ensino, até de forma egoísta aos professores. Nada. Zero. Ao que parece, tudo deve estar bem no sector e o ministro da pasta é que tem razão em nem falar em números, porque, não se sabendo de nada ao certo, não se pode demonstrar que algo está mal. Estando em implementação diversas medidas alegadamente reformistas e em preparação ou negociação muitas outras, do currículo à carreira docente, não era de esperar tamanho apagão.

Enganados andam aqueles que pensam que a Educação deve ser a base da formação dos futuros cidadãos, a barreira para a proliferação dos discursos demagógicos ou a melhor maneira de, desde cedo, promover uma atitude de tolerância no debate sobre o que nos diferencia, mas não nos deve tornar necessariamente inimigos sem dó. Aliás, uma atitude que o novo Presidente da República sempre pareceu apoiar.

Mas as coisas são o que são. Há prioridades e há o resto. A Educação, em particular a não-superior, nem ficou para os restos do discurso. Não apareceu. Não teve direito a uma palavra. Zero.

Paulo Guinote in https://www.dn.pt/opiniao-dn/educao-zero

March 12, 2026

Tendências na educação

 

Aqui há uns anos o ex-ministro -na altura SE- João Costa mandou que se sistematizasse a ajuda aos alunos com problemas de vária ordem, como dislexias, autismo e outras. Essa ajuda já havia mas dependia dos esforços do DT em evidenciar o problema e encaminhá-lo para alguém competente. As novas medidas de ex-ministro sistematizaram essa ajuda. Há agora documentos que o Conselho de Turma preenche para anulos que precisem de medidas, que são depois encaminhados para uma equipa da escola que aloca os recursos (que não existem) para apoiar esses alunos. No papel parece tudo bem, na realidade, nem por isso.

No afã de dizerem que todos estão incluídos, não estando, os tais documentos são cada vez mais pormenorizados ao ponto de cobrirem, não apenas os alunos que têm problemas de aprendizagem (sendo a mais comum a dislexia) como todo e qualquer problema, tendo os tais documentos mais de 300 questões para cobrir toda a sorte de problemas, os que existem e os que não existem. Um aluno faltista e agressivo com toda a gente tem agora direito a medidas especiais  - chamadas «medidas universais» para se distinguirem das medidas específicas para problemas como autismo, cegueira, etc. (para estas, dado que não há recursos especializados nas escolas, o que continua a valer são os esforços do DT em encaminhar o aluno para alguém competente)

Ora, em que consistem essas medidas universais? Ter testes adaptados, mais fáceis, poder ter mais tempo para realizar trabalhos, ter ajuda para fazê-los etc. Evidentemente que estas medidas não têm nenhuma relação com a agressividade ou com o facto de um aluno ter andado desde o 5º ano até ao 9º sem estudar e a faltar às aulas. Porém, dado que não aprende, tem direito às medidas universais.

Então, para responder à questão do título do post, quais são as novas tendências da educação? Os pais irem à escola pedir ao DT para o seu filhos ter 'medidas universais' a matemática, por exemplo. A intenção é, obviamente, terem testes mais fáceis ou nem terem testes e passarem sem saber nada. 

Que tem isto que ver com inclusão, melhorar a educação, formar alunos mais capazes, com pensamento crítico e outras arengadas que esse senhor atirava para o ar para parecer que estava a fazer algo de mérito? Pois, nada.

Já tinha lido há tempos que esta situação se passava nas universidades americanas. Os alunos pedirem condições especiais alegando ter um problema qualquer para poderem ter facilidades especiais nos exames ou até terem direito a não fazer exames e passar de ano.

Calculo que o ex-ministro em questão tenha ido copiar estas ideias às universidades dos coitadinhos da esquerda americana, mas com elas importou também as fraudes que por lá grassam nas universidades e que por aqui começam a fazer o seu caminho nas escolas.

No futuro, que já é presente, os médicos que nos atenderem, os engenheiros que constroem os nosso edifícios, os informáticos que codificam a IA que organiza as nossas vidas, os políticos que decidem das nossas vidas, etc. serão, muitos, senão a maioria deles, «os licenciados das medidas universais.»


March 05, 2026

Pornografia, influenciadores pornógrafos, crianças e adolescentes

 

Esta audição deste vídeo é sobre pedofilia e passa-se nos EUA, mas sabemos que a internet da pornografia não tem fronteiras e que as crianças começam logo a vê-la aos 10 anos de idade. Não que a procurem, mas porque ela vem ter com eles, nas redes sociais - e por cá, até nas festas de estudantes nas escolas. 

Já se pensou bem nisto? Um rapaz, anos antes de beijar uma rapariga pela primeira vez, já viu outras como ela a serem espancadas, penetradas por gangs de homens, com sexo anal, estrangulamento, etc. Que tipo de relação vai ter com a sua namorada? O que pensa ser normal fazer-lhe? O que pensa que será normal ela prestar-se a fazer?

A Inglaterra acaba de proibir a pornografia extrema. Teve logo muitas vozes críticas a falar em liberdade de expressão. Ora, espancar raparigas e mulheres, violar, humilhar sexualmente, estrangular, etc., são crimes punidos por lei. Porém, se for na pornografia passam a ser arte e liberdade de expressão?

Por cá, há pais que pensam que não dar acesso aos filhos a redes sociais, onde este lixo todo aparece, é cortar-lhes a liberdade. Liberdade de quê? De verem pedofilia em forma de porno? Violações em forma de porno? Estrangulamentos sexuais?


February 22, 2026

"A sociedade precisa de diversidade de talentos"

 




"A vida é orgânica e não linear e nem toda a gente precisa de ir para a universidade".

É verdade que enquanto professora é difícil ver jovens intelectualmente dotados e com apetência pelo conhecimento dizerem que querem ser bombeiros. Parece um desperdício, mas a verdade é que as pessoas precisam descobrir os seus talentos.

Ao contrário do que pensam e dizem as pessoas que nunca trabalharam com alunos, nomeadamente no secundário, não é do interesse nem da vontade de todos os alunos irem para a universidade e, como diz este palestrante, também não é do interesse da sociedade.

Muitos alunos não têm nenhum interesse nem respeito pela aprendizagem ou pelo conhecimento. Eu sei que as pessoas em geral pensam que os alunos desinteressados pelos estudos são aqueles que não foram motivados ou algo do género. Não é verdade. Há alunos que não têm interesse e alguns não têm talento ou capacidade para o estudo. Isso é algo que um professor com um bocadinho de experiência vê imediatamente. Há alunos que vêm mal preparados e até desmotivados mas que revelam potencial para a aprendizagem e outros odeiam tudo o que tem que ver com o estudo e não pescam nada de nada - mas põem-nos em cursos de prosseguimento de estudos. 

Há um grupo de alunos que oscila, quer dizer, se os puserem numa turma interessante e trabalhadora eles engrupam-se, por assim dizer, mas se estiverem numa turma desinteressada, também se engrupam, negativamente.

Se calhar têm talentos não académicos que não se descobrem porque os currículos são pobres e pouco diversificados e porque os governantes estão obcecados com pôr toda a gente na universidade, mesmo que tenham de baixar os critérios de entrada ou a exigência dos próprios cursos, ao nível do mais burro.

No entanto, obrigam-nos a estudar até ao 12º ano e eles estão ali a fazer um sacrifício tremendo quando podiam estar a descobrir talentos práticos num curso prático que lhes desse uma possibilidade de vida em vez de irem engrossar a coluna dos nem-nem.

Alguém imagina se tivessem obrigado o Cristiano Ronaldo a ir para a universidade? Eu sei que é um exemplo extremo, mas milhares de jovens adolescentes que se calhar têm talento para uma variedade de trabalhos, estão bloqueados em cursos que não têm nada que ver com eles, nem lhes interessam, nem são bons neles.

February 09, 2026

Aqui está um exemplo da falha do Estado aos cidadãos de que fala Adalberto Fernandes

 


"Preocupado", Presidente promulga alterações no acesso ao ensino superior
DN

Marcelo está preocupado com "alguns efeitos do entendimento de instituições do ensino superior no sentido minimalista e facilitista", lê-se no comunicado da promulgação.

[segundo o executivo] o aumento do número mínimo de provas de ingresso provocou uma redução do número de estudantes que acederam ao ensino superior no presente ano letivo. O objetivo é “reforçar a flexibilidade do sistema de acesso” e “contribuir para o aumento da qualificação da população, em linha com a meta de ultrapassar os 50 % de diplomados entre os 25 e os 34 anos até 2030”.

----------------

O governo quer melhorar a formação dos portugueses? Quer jovens mais bem preparados para uma cidadania plena e construtiva e para uma força de trabalho forte? Não. O próprio executivo confessa que o que lhe interessa é a meta de ultrapassar os 50 % de diplomados entre os 25 e os 34 anos até 2030” - ou seja, quer um aumento artificial de diplomados num muito curto espaço de tempo, três anos e meio.

É possível, em três anos e meio, transformar uma população em degradação de qualidade educativa numa população excelente? Não. Na educação tudo leva muito tempo a construir. Seria melhor para as populações e para o país apostar na qualidade da educação a médio e longo prazo? Sim. Isso foi feito no início dos anos 90 do século passado e resultou numa real mobilidade social e numa preparação competente da nossa força de trabalho, que aliás está a ser aproveitada por outros países.

Acontece que o governo, como outros antes dele, é eleitoralista e cobarde. Quer votos imediatos e fáceis e não quer a responsabilidade que vem com o poder. Então, em vez de apostar na qualidade da educação, aposta na fraude encapotada que consiste em anular os critérios que possam ser obstáculo à certificação de pessoas que de outro modo talvez nem acabassem o secundário.

Como diz Adalberto Fernandes no artigo do post anterior, Erros graves em domínios como a saúde, a educação, a justiça e a segurança coletiva têm impactos profundos na vida das pessoas.

Portanto temos aqui um caso perfeito de como o Estado está a falhar aos cidadãos: o sacrifício de uma formação de jovens com qualidade e consequente às metas partidárias com vista ao voto imediato e à manutenção do poder.

O Presidente da República, ele mesmo um professor, sabe-o perfeitamente mas o que faz? Defende os portugueses? Defende os interesses dos estudantes e do país futuro (que não são ir para a universidade só porque sim)? Defende essa massa de gente certificada artificialmente com um diploma que não serve para nada porque corresponde a um fogo-fátuo? Não. Aprova o facilitismo, o populismo e a desresponsabilização da educação e deixa andar.

E é assim que o Estado falha aos cidadãos.

February 05, 2026

ME - desnorte e desinteresse pela educação



Faz algum sentido extinguir organismos sem ter já preparado para entrar em acção a nova estrutura? Deixar um hiato de anos enquanto se pensa na nova orgânica? Gerir o dia-a-dia no vazio? É como ir fazer um transplante de coração e esquecer-se que é preciso um substituto porque o corpo não trabalha sem ele.  


A Reestruturação do MECI e o vazio nas escolas 
By Rui Cardoso

A coisa prometia, modernização, agilidade e o fim da “obesidade” ministerial que tanto atormenta o Terreiro do Paço. Mas o que temos, com a bênção dos Despachos n.º 919-A e 919-B/2026, é um autêntico número de ilusionismo administrativo. O MECI anunciou o fim da DGAE, do IGeFE e da Secretaria-Geral com a fanfarra de quem descobre a pólvora, atirando as competências para cima das CCDR e um chorrilho de Unidades. O pequeno detalhe, aquele pormenor insignificante que a malta dos gabinetes costuma esquecer, é que nas CCDR as cadeiras destinadas aos Vice-Presidentes responsáveis pela Educação continuam vazias, a ganhar pó e à espera de nomeação, nas tais Unidades ninguém sabe o que se passa. É a descentralização do “faz de conta”: mandam-se os processos para uma estrutura que ainda não tem cabeça para pensar, nem mãos para executar, deixando os Diretores a olhar para o mapa à espera que alguém lhes diga onde fica a nova capital da burocracia.

Enquanto a AGSE e a EduQA não saem da incubadora das intenções, as DGEstE regionais vivem num cenário digno de um filme de terror. Oficialmente estão condenadas, mas, como ainda não foram formalmente extintas nem integradas, vão sobrevivendo num “limbo” existencial. É o Estado no seu melhor, os funcionários das direções regionais tentam manter as escolas a boiar, mas sem saberem se no dia seguinte ainda têm carimbo ou se a porta já tem uma fechadura nova. Trabalha-se por inércia, gere-se por milagre e sobrevive-se por teimosia, enquanto o Ministério se entretém a desenhar organogramas coloridos. No meio deste caos, onde estaria o famoso “Gestor Dedicado”? Aquela figura celestial prometida pelo Ministro Fernando Alexandre, que seria o interlocutor único de cada Agrupamento, parece ter o mesmo estatuto do Monstro de Loch Ness, muita gente fala dele, mas ninguém o viu. Supostamente, este “anjo da guarda” deveria encaminhar as nossas dúvidas para as novas unidades, mas na prática, o Diretor que tenha um problema com um horário ou um contrato tem duas opções, ou liga para o número do costume e ninguém atende, ou acende uma vela ao Santo Expedito.

O vazio de poder é de tal ordem que os Diretores se sentem como capitães de um navio a quem roubaram as bússolas em plena tempestade. Não há a quem recorrer e o auxílio na gestão transformou-se num exercício de adivinhação. Dizem-nos que a EduQA vai avaliar a qualidade, talvez possam começar por avaliar a qualidade deste processo de transição que deixou as escolas num deserto de respostas. Entre o despacho que extingue e a agência que não nasce, o “chão da escola” continua a ser o único sítio onde a realidade teima em não caber nos PowerPoint do Ministério.
Se alguém vir um Gestor Dedicado a passar pela EN2, por favor, peça-lhe para ligar para o Viso. Temos umas Assistentes técnicas à espera de saber quem lhes tira duvidas.

Enterrar a educação para servir interesses privados

 

Paulo Miguel Viegas
do FB

Nas últimas décadas Portugal conquistou um feito muito raro: edificou uma Escola Pública de excelência que se tornou o principal promotor de equidade e promotor de escalada social. Hoje em dia, contudo, sobre este edifício paira a ameaça de derrocada. O atual caminho de divisão da tutela — fruto da municipalização e da perda do estatuto público dos professores — não é somente uma reforma administrativa; é um desvio profundo do modelo que define as políticas educativas europeias mais prósperas e eficazes.

Se olharmos para sistemas educativos de referência, como na Finlândia, Dinamarca ou Alemanha, podemos ver um denominador comum: o Estado não abdica da sua responsabilidade direta; nada sai da sua tutela. Nestes países, a carreira de professor é uma carreira de prestígio, sustentada por um vínculo sólido com o Estado central, que garante que um aluno, independentemente da sua geografia ou extrato social, tenha acesso a professores com o mesmo rigor de seleção e estabilidade. O sucesso europeu prova que a qualidade não nasce da concorrência entre municípios ou da flexibilidade laboral, mas da confiança mútua entre o Estado e os seus quadros.

Esta nova maré de privatização velada não surge do nada; vem, sim, resgatar uma visão que teve o seu expoente máximo no mandato do ex Ministro da Educação Nuno Crato. Sob a bandeira da "liberdade de escolha", o modelo de expansão desenfreada dos contratos de associação procurou (em muitos casos com sucesso para quem deles beneficiou) desviar a responsabilidade do Estado para o setor cooperativo e privado.
 
Foi dinheiro a ser distribuído a rodos! Na altura, o financiamento público seguia o aluno para fora da escola pública, criando uma rede paralela que, em muitos casos, serviu apenas para esvaziar e encerrar escolas públicas perfeitamente funcionais em nome de interesses privados. O que se pretendia, e que agora regressa com uma nova roupagem, era a substituição da gestão pública direta por um mercado de serviços educativos não necessariamente de excelência. De repente o ensino privado deixou de ser para quem podia pagar passando a ser quase universal. Em muitos casos alguns colégios até passaram a ser financiados para receber algum “restolho triste e (não muito) solitário”, parafraseando a canção de Mafalda Veiga.

Em sentido contrário ao sucesso europeu, o caminho que se desenha agora assemelha-se ao que já vivemos na saúde oral. Com a introdução do "cheque-dentista", o Estado desistiu de criar uma resposta pública estruturada. Hoje, no "top of mind" dos portugueses, uma dor de dentes é um problema para resolver no setor privado. O Estado tornou-se um mero pagador de faturas, perdendo a capacidade de planear e executar. A estratégia para a saúde oral passou a ser “pagar para desresponsabilizar” (e alimentar alguns grupos, emtenda-se).

O risco de replicar este modelo na educação é ainda mais traiçoeiro. Ao fragilizar o estatuto de funcionário público e transferir a gestão para as autarquias, abre-se a porta a um novo e lucrativo mercado: o das empresas de gestão de recursos humanos especializadas em serviços docentes (já devem estar para abrir algumas empresas destas; com quê? Com fundos comunitários, claro está). 

Se o Estado deixa de contratar diretamente, as escolas e municípios serão empurrados para o outsourcing. Em breve, poderemos ter professores contratados por municípios aplicando “critérios regionais” (uso o eufemismo) ou por empresas de trabalho temporário ou consultoras de RH, onde o docente passa a ser um "recurso" flexível, despojado de carreira, de memória pedagógica e de vínculo à comunidade escolar. O “Professor”, essa raça em vias de extinção no nosso país, tenderá a ser extinta sendo substituída por “técnicos superiores (ou nem isso) de ensino”.

Este cenário de "Uberização" (ou terceirização, se preferirem) do ensino é o oposto do que Portugal precisa para fixar os jovens talentos nas escolas. A excelência educativa exige continuidade e dedicação, algo que empresas focadas na margem de lucro e contratos de curta duração não podem oferecer. Se permitirmos que a tutela se dilua numa rede de subcontratações, perderemos o controlo estratégico sobre o futuro do país, ou será que a estratégia é mesmo essa?

A escola pública não pode ser reduzida a uma folha de Excel gerida por privados ou por autarquias sem escala. Se o Estado abdica de ser o garante da carreira de quem ensina, está, na verdade, a abdicar do seu papel de arquiteto da próxima geração.
E que grandes gerações produziu já Portugal...

A destruição da profissão de professor para benefício de interesses privados

 

Onde estão os sindicatos? O ME andar a pagar 60 mil euros a mentores que não têm de sujeitar-se às regras da profissão porque funcionan como consultores dos professores, coisa de que não precisamos, mas que o governo promove como solução para a destruição da carreira de professor. Um desperdício de dinheiro para satisfazer amigos, calculo, com empresas privadas de fogo-fátuo que vivem do dinheiro público. Entretanto, para os professores, cada vez há mais impedimentos ao ensino, induzidos pela burocracia. Neste país a iniciativa privada vive dos subsídios e contratos com dinheiros públicos, como diz um amigo meu.

"2027, ano mágico na Educação"



As declarações do actual ministro da Educação, após tomar posse em 2024, acerca da “urgência” da resolução de diversos problemas no sector, se excluirmos a recuperação do tempo de serviço docente, são já uma vaga memória, embora tenham sido retomadas quando se manteve na pasta em 2025.

Da revisão do Estatuto da Carreira Docente à reformulação das “aprendizagens essenciais” e dos programas disciplinares, passando pelo modelo de gestão escolar e pelo estatuto dos directores, não esquecendo - concorde-se ou não - a redefinição dos ciclos de escolaridade ou a simplificação dos procedimentos administrativos nas escolas e entre estas e a tutela, tudo foi apresentado como carecendo de intervenção imediata. Bem como o problema da falta de professores, herdado dos anteriores governantes, também considerado emergente, a par da necessidade da contabilização rigorosa dos alunos sem aulas.

Eis que, à medida que o tempo foi passando, se sucederam dois fenómenos curiosos: por um lado, o adiamento sucessivo de tudo o que se tinha apresentado como emergência, enquanto surgiram medidas em áreas que não tinham sido anunciadas como prioritárias, quiçá para dar uma aparência de acção. Se excluirmos o pacote de medidas para consumo mediático acerca da falta de professores, de que apenas a atribuição de horas extraordinárias produziu alguns efeitos, tudo vai sendo adiado para o ano lectivo de 2027-28.

A principal excepção foi uma algo abstrusa “reforma” da estrutura orgânica do MECI que se alega ser no sentido da “modernização” ou “inovação”, mas cujos resultados iniciais parecem traduzir-se numa desnecessária disrupção, pouco criativa, dos circuitos de comunicação entre as escolas e os serviços centrais do Ministério da Educação.

Quanto ao que antes era urgente, se é verdade que há matérias que exigem uma preparação cuidada, para não se adoptarem soluções apressadas e pouco consistentes com a realidade, não é menos verdade que estes adiamentos - com negociações feitas a um ritmo de caracol trôpego - transmitem uma sensação de impreparação técnica e falta de coragem política para assumir opções que se sabem ser passíveis de polémica.

Em vez de se estabelecer um cronograma para a introdução gradual de modificações estruturais no sistema educativo, parece ter-se optado por agregar todas num curto espaço de tempo, lançando-as sobre as escolas em conjunto, o que dificilmente se pode considerar uma boa ideia, excepto se faz parte de alguma estratégia ligada aos ciclos políticos e ao desejo de apresentar “resultados” no calendário eleitoral.

O que significa que o ano lectivo de 2027-28 parece surgir no horizonte como uma espécie de “ano mágico”, no qual tudo vai acontecer, ficando por saber se será um annus mirabilis ou horribilis. Atendendo ao que se observa em outras áreas da governação, o prato da balança pende claramente para um dos lados.

Paulo Guinote in DN

February 03, 2026

A IA não é uma ferramenta, é um agente

 

Fiquei chocado porque pensei que na Universidade do século XXI não havia académicos capazes de propor a proibição de uso de ferramentas de auxílio ao conhecimento e aprendizagem.

João Duque in expresso.pt/opiniao
---------

Este indivíduo ainda não percebeu o que é a IA e pensa que é mais uma ferramenta de auxílio. A ausência de conhecimentos e consciência dele, sendo um professor universitário, assusta tanto como a displicência com que as 'elites' minimizam os riscos da IA.

Como diz Yuval Noah Harari, a IA não é uma ferramenta, é um agente. Tem poder de decisão e acção independentes dos seres humanos. Já agora, redes sociais geridas por uma IA ainda primitiva, dir-se-ia pouco inteligente, tem o poder de influenciar políticas económicas e financeiras, eleições, suicídios de adolescentes, alteração da linguagem científica, mediocrização dos sistemas educativos...

Não sou contra a IA, até porque seria inútil, mas sou a favor de se tomar consciência dos problemas que acarreta para não sermos apanhados num turbilhão do qual nunca mais sairemos, porque seremos sempre menos inteligentes do que será necessário para o tipo de inteligência que a IA tornará dominante. 

Em vez, 'penso, logo existo', será, 'penso a uma velocidade estonteante, de tal modo que, ainda tu não percebeste sequer a lógica do que estou a fazer e já eu o implementei no mundo inteiro e já está a mudar a realidade e não vejo razão para levar em conta os teus interesses'. 

E assusta-me que professores catedráticos, políticos outros influenciadores sejam ainda tão ignorantes acerca da IA que reduzam o seu discurso a generalidades de não se poder proibir porque estamos no século XXI e de fazerem comparações históricas inadequadas ao caso presente. 

Este discurso deste senhor é uma colecção de vacuidades sobre o tema. Não o problematiza, não reflecte sobre as suas variáveis, limita-se a chamar nomes e a rebaixar todos os que assinaram o tal documento contra o uso da IA que vem a ser feito indiscriminadamente nas universidades.

Temos já várias evidências dos perigos da IA na vida económica e financeira, na educação e no desenvolvimento das crianças e adolescentes, na arte e não temos nenhuma evidência de que no futuro a IA, podendo fazer-nos mais mal, escolha ser amiga dos humanos e levar em consideração os seus interesses. 

Escolher tapar os olhos para não ver e deixar a agência com a própria IA não é uma estratégia inteligente.

Deixo aqui mais uma conversa para quem queira pensar a sério no problema.


Davos: uma conversa entre Yuval Harari e Irene Tracey (neuro-cientista) sobre IA e educação

 

Yuval Noah Harari em conversa com Irene Tracey, neuro-cientista e vice-reitora da Universidade de Oxford.
Yuval Noah Harari compara a IA aos mercenários anglos, saxões e jutos que os bretões trouxeram para lutar contra os escoceses que os invadiam do Norte. E eles vieram e ganharam essa luta e depois, vendo que os bretãos eram fracos resolveram tomar posse de Inglaterra. A IA não é uma mera ferramenta que se possa usar e pôr de lado à discrição, porque se a IA pensa, toma conta dos processos linguisticos e mentais humanos. É um agente e é um agente de mudança que pode ser à margem dos interesses humanos.
Qual é o lugar, então, que sobra para o humano?
Parecemos crianças que encontram uma esfera e começam a jogar à bola com ela, não percebendo que é uma bomba.
Para ouvir toda a conversa: bit.ly/YNH-WEF

January 31, 2026

Educação: impor a mediocridade a todos


Este professora americana com mais de três décadas de experiência de ensino preocupa-se, como todos nós que estamos no ramo da educação escolar, com a degradação das capacidades e desenvolvimento cognitivos dos alunos que vêm sendo demonstradas a nível mundial há mais de duas décadas, de modo consistente e gradual, num vector negativo.

Ela sintetiza aqui os pontos principais do artigo de Jared HorvathWe Gave Students Laptops and Took Away Their Brains que acompanhou a publicação do seu livro, The Digital Delusion. Horvath mostra e explica o efeito devastador dos ecrãs no desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças e dos jovens e propõe algumas estratégias de reversão desse fenómeno.






Uma das estratégias que ele propõe dirige-se aos pais e consiste em aconselhá-los a desconfiar das «inovações» que os governos querem impor na educação e que em geral não passam de soluções fáceis como, vamos dar um tutor digital a cada um que é igual a apenas darem acesso a uma OpenAI qualquer, para problemas complexos, muitas vezes por cedência a lobbies de empresas tecnológicas - isto digo eu. 

Horvath propõe que essas inovações sejam sujeitas a escrutínio de evidências como em qualquer projecto científico - antes de fazerem dos filhos cobaias com intuitos economicistas, sem respeito nenhum pela educação, dignidade e projecto de vida autónoma dos alunos.

Há outras estratégias propostas: ler em papel, fazer anotações. O acto de anotar um texto, construir notas de um texto ou de uma discussão oral obriga a um trabalho complexo do cérebro que engloba quase todas as áreas do córtex, nomeadamente a tarefa de seleccionar a informação relevante, organizá-la conceptualmente, apresentá-la numa sequência lógica e pertinente, encadear raciocínios de modo lógico, utilizar o vocabulário adequado, etc. Estar a ler num ecrã dispensa todo esse trabalho e pôr uma plataforma de IA a fazer trabalho por si e a dar as respostas é uma burrificação de todas as potencialidades. É como dizer: não é preciso usares o teu pensamento que a IA faz isso por ti, deixa-o aí inerte ou usa-o para te divertires. Não é preciso pensares.

Ontem dei-me ao trabalho de ouvir um podcast, que é uma coisa que detesto porque não é possível passar por cima das gorduras das conversas como se faz num texto, pela razão de ter curiosidade no assunto e querer saber de novidades na área em questão: a inteligência. A tese da psiquiatria especialista é a de que uma pessoa inteligente e muito boa numa área tende a ser muito boa em muitas outras áreas, ao contrário do que em geral se intui. 

O estudo da inteligência ainda está na pré-história, ainda se baseia em teorias do início do século XX não desenvolvidas ou testadas e várias razões que ela apresenta para a sua tese não me convenceram porque fui capaz, não sendo nenhuma especialista no assunto, de pensar imediatamente em variáveis que não foram consideradas. 

Seja como for, o que me parece é que pessoas que são bastante boas numa área, em geral tendem a pensar que também serão boas em outras áreas só por serem inteligentes naquela, esquecendo que são bons na sua área porque têm conhecimentos sólidos e experiência. De maneira que quando tentam entrar em outras áreas, faltando-lhes os conhecimentos e a experiência cometem imensos erros, dos quais não se apercebem porque partem do pressuposto que a sua inteligência basta.

É assim que vemos governantes decidir sobre assuntos dos quais pouco ou nada sabem como se fossem peritos nessas áreas. Podia acontecer rodearem-se de peritos com provas dadas, mas não, rodeiam-se de 'peritos' da sua confiança política e em consonância com os seus interesses. 

No nosso país, o último ministro da educação que fez um trabalho com mérito foi o Roberto Carneiro - que nem sequer gostava de professores. Carneiro tinha respeito pela educação e embora a sua visão da educação tenha um fundamento cristão era virada para o futuro, aberta e pluralista, mas humanista, com respeito pela autonomia da pessoa e não uma manipulação tecnocrata e meramente pragmática de engenharia social como foi apanágio de todos os que se lhe seguiram, até aos dias de hoje. Nesse sentido, investiu na educação: na riqueza do currículo escolar e na na formação continua dos professores. O empobrecimento do currículo escolar foi decidido por Crato (os alunos só têm que saber português e matemática era o seu lema) que se julga um especialista em educação; a destruição da formação contínua dos professores e até da própria, iniciada pelo anterior ministro (caso típico de se pensar um ás em todas as áreas por ter tido sucesso como linguista), está agora em plena destruição por este ministro.

O actual ME, como os anteriores, porque são professores universitários com uma carreira de sucesso, convencem-se que também serão bons em outras áreas, nomeadamente a educação escolar, a psicologia do desenvolvimento, as estruturas cognitivas, os instrumentos digitais, etc. 
É assim que decidem com critérios economicistas sem pensar ou sequer perceber o impacto que as suas medidas de merceeiro terão no futuro das crianças e jovens, logo, do país. 

Mesmo quando todos os indícios e evidências desde há mais de 20 anos são consistentes a mostrar os efeitos negativos da educação com ecrãs no desenvolvimento da linguagem e capacidades cognitivas vão impô-lo e já começaram a chamar retrógrados aos que advertem sobre os seus perigos, irreversíveis, no desenvolvimento linguístico e cognitivo.

Copiam as priores práticas -como as de Inglaterra cuja educação está um desastre- em vez de olharem para a reversão deste erro em países que consistentemente estão à frente nos índices de competências e conhecimentos dos alunos, como Singapura, Suécia, Finlândia, China.

Se a associação de pais deste país fossem composta por pessoas interessadas na educação dos filhos em vez de sicofantas de ministros, adoptavas algumas das estratégias propostas por Horvath, de cada vez que um governo vem impor mediocridade ao sistema de educação, seja com tutores digitais, seja com empresas a colocarem a leccionar nas escolas pessoas que fizeram uma cadeira de qualquer coisa num curso de qualquer coisa.

Por exemplo, de cada vez que anunciam a imposição de mais tempo de ecrã, perguntar: 'essa medida já foi validada por evidências?'; 'há países que melhoraram o desempenho dos seus alunos nos testes internacionais depois de a adoptar?', 'há evidências de prejuízo no desenvolvimento dos alunos e na sua saúde mental?' etc. Não havendo respostas positivas não deixar que se faça dos alunos cobaias de experimentos economicistas que lhes estragam a vida a eles e o futuro a nós todos enquanto país. 

January 29, 2026

Pobres professores do futuro

 


Paulo Guinote
DN

Vai estando em negociação, em modo muito lento, um novo Estatuto da Carreira Docente (ECD). Parece que será para entrar em vigor em 2027, um ano para o qual anda a ser remetida muita coisa em matéria de Educação, incluindo matérias curriculares, de estrutura dos ciclos de escolaridade e mesmo da gestão escolar. No caso do ECD, não sei se é para marcar os 20 anos da versão anterior, de 2007, de muito má memória para a classe docente. O que pode ser um péssimo sinal.

Se fazer uma revisão deste tipo com calma e ponderação parece certo, já desperta desconfiança a “articulação” desse novo Estatuto com uma vaga de outras medidas, desde a chamada “reforma do Estado” às leis laborais, passando pela multiplicidade de micro-medidas tomadas para tentar remendar a falta de professores. E é por isso que me sinto preocupado em relação aos professores do futuro, porque aos da minha geração já pouco surpreende ou sobra para fazer pior, além do oculto desejo de nos obrigar a ficar no activo até não conseguirmos ter actividade alguma.

Não me refiro a questões como as que, de forma extemporânea, tiveram alguma circulação nas redes sociais sobre um pretenso fim do vínculo público dos professores, algo que extrapola de modo, por enquanto, delirante a situação concreta ou ignora o que se passa com os professores contratados há anos.

Refiro-me à menorização do papel do professor na sociedade e nas próprias escolas, se passarem a definitivas (como é usual) medidas apresentadas como sendo de “emergência”, desde logo a redução dos critérios académicos para exercer a docência. O argumento de se exigir uma “licenciatura” esconde que ela pode nem estar relacionada com a área disciplinar, bastando umas dezenas de créditos mais ou menos aparentados com essa área. Se acrescentarmos a excitação com as potencialidades da Inteligência Artificial e dos “tutores digitais”, cruzando-a com as correntes pedagógicas construtivistas, ficamos com o caminho aberto para o professor não passar de um mero acompanhante dos alunos na sala de aula, erodindo ainda mais o seu estatuto profissional.

De pouco adiantará uma vinculação acelerada ou melhores condições salariais no início da carreira, se esta for estruturada de modo a impedir um horizonte de progressão alargado e a negar uma aposentação em condições dignas. Será como garantir que um bebé terá boas condições ao nascer, mas que verá o crescimento limitado por motivos exógenos e que ao chegar à velhice será deixado ao abandono.

Tudo isto é possível graças à aposta na combinação da indiferença de uns (os mais velhos, ansiosos por partir) com a ignorância de outros (os novos, ansiosos por qualquer garantia, mesmo que ilusória), acrescendo o que está a ser feito para “reconfigurar” a classe docente no sentido de a fragilizar e reduzir a uma massa acrítica, intercambiável e substituível por um qualquer holograma.

January 26, 2026

Mais um artigo sobre o uso da IA no ensino superior que não diz nada de relevante

 

Limita-se ao é proibido proibir. Pois, todos sabemos que a IA está aí e existe, mas dizer que deve ser usada desde que «com ética», dá vontade de rir, porque equivale a dizer aos estudantes, 'sejam honestos' e esperar que o sejam, quando sabemos que não o são. Nem os professores o são. 

A solução deste senhor que trabalha na área da IA é fazer dos professores polícias e especialistas em detectar cabuladores. Mas ser professor não é isso de andar a fazer avaliações, não para perceber o que o aluno progrediu e domina mas para detectar se andou a cabular. 

E ensinar a desconfiar e a confirmar fontes digitais já nós fazemos nas escolas, mas o problema é que os alunos não querem saber de fontes credíveis, querem é saber de uma aplicação que lhes faz os trabalhos e consegue as notas e os certificados.

Eu também não sou a favor da proibição no ensino superior mas sei que é um problema sério no que respeita à credibilidade epistémica da própria universidade e que é preciso pensar seriamente onde é útil a IA ser usada com mérito e onde o seu uso é um demérito. 

Mesmo nas escolas secundárias há disciplinas científicas-práticas onde o uso da IA faz sentido mas em disciplinas de Humanidades faz menos sentido. Às vezes faz sentido num determinado ponto. Por exemplo, tenho as minhas turma do 10º ano em vésperas de fazer testes de Lógica Proposicional. Tenho levado exercícios e disse-lhes que, se acabassem os exercícios e quisessem mais para treinar podiam trocar todas as conectivas, que é o suficiente para mudar os exercícios e os resultados ou ir à IA pedir mais exercícios e depois de os fazerem pedirem-lhe as soluções. Este é um caso em que é útil, mas em geral, substituir o pensamento por IA prejudica o desenvolvimento das suas potencialidades em formação. 

A IA não pode ser usada sem critério na educação e nem pode ser igualmente usada em qualquer situação, em todas as disciplinas, só porque existe. Isso é o mesmo que dizer, já que as redes sociais existem e os alunos as usam, vamos deixar que as usem para o seu trabalho. 

Portanto, este articulista não tem nenhuma solução válida para um problema que necessita urgentemente de solução e vem para os jornais dizer coisas inconsequentes. 

-----------

O ponto não é moralizar estudantes, é olhar para os incentivos e para o desenho da avaliação. Se um aluno consegue fazer um trabalho inteiro copiando respostas de um modelo de linguagem, o problema não é a IA, é o desenho da avaliação. Se fosse possível um estudante terminar uma licenciatura a papaguear textos que não percebe, a pergunta séria não seria “o que é que a IA está a fazer à universidade”, mas “que universidade construímos para que isso fosse possível?”

Proibir é o gesto mais fácil.

O desafio não é afastar a IA, é ensinar a usá-la. Ensinar a desconfiar das respostas, a comparar com fontes, a explicitar o que foi feito pela máquina e o que foi feito pela pessoa. Usar a IA como espelho devolutivo do pensamento: pedir ao estudante que mostre o prompt, critique o output, reescreva, explique por escrito onde concorda, onde discorda e porquê. Se quisermos, a IA pode ser um laboratório de pensamento crítico. Se a proibirmos, será apenas mais uma fonte de atalho silencioso.

Nelson Zagalo in https://www.publico

January 22, 2026

Tempo de ecrã é um bem económico de pobre

 

DN - mais um título enganador, desta vez a chamar racistas aos professores

 


No jornal de hoje a grande notícia da primeira página é que um estudo universitário revela que os professores discriminam alunos pela cor da pele ou país de origem.

Depois, quando vamos ler a notícia, não houve nenhum estudo.  Houve um inquérito a 1400 pessoas de 9 escolas de Lisboa. Entre essas 1400 pessoas, umas eram alunos, outras professores, funcionários e directores. 

Em Portugal há cerca de 2 milhões de alunos, 150 mil professores e não sei quantos assistentes operacionais. Este inquérito representa quem?

Portanto, não houve nenhum estudo, nada foi observado, nem há dados objectivos de discriminação, nem critérios sobre o que se considera discriminação e que variáveis foram testadas. Nada. Há uma percepção de alunos -que não sabemos quantos são- de sentirem que foram discriminados. 

E é provável que alguns tenham sido. Não tenho dúvidas de que haverá discriminação. Agora, se é para tratar do assunto a sério, não se vai para os jornais com uma porcaria de um inquérito sem o mínimo de rigor e obectividade acusar os professores em letras garrafais de serem em quase 40% dos casos, racistas.

Que a UNL chame a isto um «estudo», mostra a decadência do trabalho universitário.

É evidente que quem lê o título assume que este inquérito é mesmo um estudo -até vem com a chancela da UNL- e da próxima vez que for à escola e tiver oportunidade, sendo EE, vai chamar racistas aos professores.

Ninguém quer ser professor, mesmo os que querem, quando chegam às escolas e vêem que os horários têm direcções de turma recusam logo o horário, mas os jornais, os professores universitários e o governo, não desistem da cruzada de denegrir professores.

Tenho a certeza que, se forem fazer um inquérito a pais (e a alunos) sobre se sentem que os seus filhos não são valorizados pelos professores hão-de ter respostas positivas na ordem dos 99,9%. Depois chamem-lhe um estudo e digam que os professores são inimigos dos alunos.

Continuem assim que vão bem.