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January 22, 2026

Tempo de ecrã é um bem económico de pobre

 

DN - mais um título enganador, desta vez a chamar racistas aos professores

 


No jornal de hoje a grande notícia da primeira página é que um estudo universitário revela que os professores discriminam alunos pela cor da pele ou país de origem.

Depois, quando vamos ler a notícia, não houve nenhum estudo.  Houve um inquérito a 1400 pessoas de 9 escolas de Lisboa. Entre essas 1400 pessoas, umas eram alunos, outras professores, funcionários e directores. 

Em Portugal há cerca de 2 milhões de alunos, 150 mil professores e não sei quantos assistentes operacionais. Este inquérito representa quem?

Portanto, não houve nenhum estudo, nada foi observado, nem há dados objectivos de discriminação, nem critérios sobre o que se considera discriminação e que variáveis foram testadas. Nada. Há uma percepção de alunos -que não sabemos quantos são- de sentirem que foram discriminados. 

E é provável que alguns tenham sido. Não tenho dúvidas de que haverá discriminação. Agora, se é para tratar do assunto a sério, não se vai para os jornais com uma porcaria de um inquérito sem o mínimo de rigor e obectividade acusar os professores em letras garrafais de serem em quase 40% dos casos, racistas.

Que a UNL chame a isto um «estudo», mostra a decadência do trabalho universitário.

É evidente que quem lê o título assume que este inquérito é mesmo um estudo -até vem com a chancela da UNL- e da próxima vez que for à escola e tiver oportunidade, sendo EE, vai chamar racistas aos professores.

Ninguém quer ser professor, mesmo os que querem, quando chegam às escolas e vêem que os horários têm direcções de turma recusam logo o horário, mas os jornais, os professores universitários e o governo, não desistem da cruzada de denegrir professores.

Tenho a certeza que, se forem fazer um inquérito a pais (e a alunos) sobre se sentem que os seus filhos não são valorizados pelos professores hão-de ter respostas positivas na ordem dos 99,9%. Depois chamem-lhe um estudo e digam que os professores são inimigos dos alunos.

Continuem assim que vão bem.


Porque estamos embrutecendo, explicado às crianças

 

January 20, 2026

UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

 

UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui e aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!



E, como em casos congéneres, confirma-se a Lei de Murphy: o que pode piorar, piora: a "iniciativa é conduzida pela Teach For Portugal", sucursal do empório global que é a Teach for All, a que nós, como tantos outros países, abrimos carinhosamente as portas das escolas públicas para que "apoiasse" os "mais desfavorecidos" para que tenham "acesso a oportunidades".

Então, seguindo a notícia do sítio online Human Resources, os tais líderes empresariais e autárquicos de referência, "acompanhados por mentores da Teach For Portugal e pelos professores das escolas":
1) "preparam previamente as aulas em conjunto" com essa organização e com os professores, "garantindo que os conteúdos (Literacia Financeira, Empreendedorismo ou Objectivos de Desenvolvimento Sustentável) estão alinhados com o currículo e adequados ao perfil da turma";
2) trabalham com alunos em sala de aula, "respondendo a perguntas, partilhando experiências e dinamizando actividades".

Entendi bem? Os "líderes empresariais e autárquicos de referência", nomeados na notícia, vão preparar aulas, ou seja, planificar aulas?! Com apoio da Teach For Portugal?! E vão trabalhar com alunos em sala de aula?! Nos temas de literacia financeira empreendedorismo e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável?!

E se esta disrupção (palavra na moda) não fosse bastante, a iniciativa procura duas coisas:

1) "aproximar o sector empresarial e as autarquias da realidade diária da escola pública";
2) "reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho e "ao papel central da escola pública".

Entre as perguntas mais óbvias que não podem deixar de se colocar, saliento as seguintes:

1) haverá directores que deixam entrar estes líderes e esta organização na sua escola (que é pública) e professores que se dispõem a trabalhar com eles, permitindo-lhes ocupar o seu lugar na sala de aula para "dinamizar actividades" (isso mesmo, dinamizar actividades"!)?
2) se isso acontecer, não perceberão que os alunos serão usados em experiências inconsequentes, decorrentes de interesses particulares, de ordem política e económica (aqui tão obviamente ligadas)?
3) será legal que quem não tenha formação para ser professor, não seja credenciado como tal, não saiba do ofício, possa planificar e leccionar (duas tarefas centrais na docência e que envolvem uma multiplicidade de saberes especializados, além de uma enorme responsabilidade)?
4) será legal "aproximar o sector empresarial e as autarquia" da escola pública, estratégia claramente ideológica, quando na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo está plasmada a proibição de programar o ensino segundo quaisquer directrizes políticas, ideológicas...?
5) será legal categorizar crianças e jovens que estão na escola pública como "mais desfavorecidos" e, em função disso, delinear intervenções externas e marginais à sua função educativa, sendo que os "mais favorecidos" ficarão a salvo delas?

E é bem evidente que, caso sejam invocados princípios éticos estruturantes - dignidade, justiça, liberdade... - este altruísmo-de-trazer-por-casa desaba de imediato.

Uma nota mais sobre a fineza retórica:

- substituir os professores por quem não é professor, colocando-os ao serviço de entidades particulares, "pretende reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho;
- subverter os desígnios da escola pública é reconhecer o "papel central da escola pública".

Vê-se aqui muito bem a figura do "duplo pensar" que Orwell captou e denunciou, mas que, ainda assim, continua a funcionar lindamente na manipulação de massas.

Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.


January 18, 2026

Isto é a ver filmes, agora imaginem o que é com a aprendizagem nas escolas

 

Matt Damon, o actor, conta aqui como o diálogo dos filmes tem mudado, no sentido de ser cada vez mais simplista, dos seus pontos principais serem repetidos inúmeras vezes para lidar com o facto de os jovens verem os filmes enquanto olham para o telemóvel e não conseguirem, por isso, uma atenção continuada que consiga acompanhar uma trama e um diálogo mais complexos. Os telemóveis e as redes sociais têm de ser proibidos até aos 16 anos, pelo menos. 

January 09, 2026

Não temos professores e o ME ameaça os professores com cortes de salários

 

Os sumários da discórdia

3) o ministério quer que registar um sumário no final de cada aula passe a ser um dever dos professores, consagrado no documento que enquadra a profissão;

Público
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Escrever sumários não é tão fácil como parece. Raramente escrevo o sumário no início e muito menos no fim da aula. Dantes, quando o fazíamos num livro de ponto, não falhava, em 30 segundos escrevia o sumário, logo no início da aula, mas agora que o fazemos numa plataforma online que nos obriga a entrar na plataforma, escrever o nome e password, e depois abrir o email para ir buscar o código de verificação de segurança em computadores do século passado que levam 5 minutos inteiros a iniciar e outros tantos a aceder à plataforma e depois ao email, não é possível. É um imenso tempo perdido e, na maioria dos casos, os alunos da maioria das turmas, não estando a ser orientados por 2 minutos que sejam, começam logo a esparvoar.  
É claro que nem falo da quantidade de vezes em que não há internet ou há mas a plataforma onde se escrevem os sumários está inacessível, às vezes por 3 dias a fio. Os computadores são do século passado, avariam-se e há um professor apenas para arranjá-los a todos, depois seu horário lectivo.

Quando toca à saída não fico no intervalo a escrever sumários. Talvez o ministro esteja esquecido que durante os intervalos não estamos ao serviço desde que Crato mandou contabilizar o nosso tempo de trabalho em minutos para nos retirar os intervalos do horário de trabalho e contabilizar esse tempo em aulas, para nos obrigar a trabalhar mais pelo mesmo preço e poder despedir milhares de professores - assim que toca para a saída da aula pára o relógio do nosso trabalho e só retoma quando toca à entrada e voltamos a uma outra aula. Assim como assim, já gasto vários minutos do meu intervalo porque quando toca para sair, os alunos levam tempo a arrumar as coisas e a sair e é preciso desligar o projector, apagar o quadro, deixar as janelas fechadas, etc. Às vezes ainda vêm tirar dúvidas.

Quando acontece o tempo a seguir ao da aula ser de DT, então, sento-me diante do PC da sala de DTs e escrevo os sumários do dia mais algum atrasado do dia anterior ou da semana anterior assim - isto, se não tiver EE à minha espera, porque se tiver não os deixo à espera para ir escrever sumários ou se tiver outro assunto urgente da DT, como resolver algum conflito ou ter que ir falar com alguém sobre qualquer assunto importante para algum aluno. E claro que muitas vezes não há um PC disponível porque há 4 computadores para 30 DT.

E pode parecer que ter de escrever o sumário até ao fim do mês é um pedido razoável, mas há inúmeras situações em que não é possível: estarmos a dois ou três dias do fim do mês a a plataforma deixar de funcionar; escrever o sumário da última semana do mês, na semana seguinte -que já é outro mês- por qualquer razão: a pessoa fica doente de repente, uma semana de baixa, por exemplo e entretanto mudou o mês e tem dois dias de sumários atrasados. Então isso é razão para nos roubarem o salário? O trabalho com os alunos e para os alunos é prioritário à burocracia de escrever sumários. 

Quando a escola tinha funcionários, os funcionários do bloco, que sabiam antecipadamente se o professor estava em visita de estudo ou num evento de escola com os alunos, etc. estavam ali a vigiar a entrada das turmas para as aulas até todos os professores entrarem e marcavam falta aos professores que faltavam. Mas como o governo, na senda dos anteriores, quer que a educação, à semelhança da saúde, pague os calotes dos banqueiros e os empregos a amigos e afins, quer que as escolas trabalhem sem funcionários, sem professores e quer que os professores ponham a burocracia à frente do trabalho pedagógico. 

A questão é: temos falta de professores, ninguém quer esta carreira que é mal paga, sobrecarregada com tarefas burocráticas e exigências que não correspondem ao trabalho de professor (ser médico, psicólogo, assistente social, secretário, arquivador, funcionário do INE e sei lá mais o quê), constantemente vilipendiada pelas associações de pais, governantes e afins e o ME acha de valor ameaçar que nos tira o salário por causa da porcaria dos sumários.

Quer saber quantos professores estão a dar aulas? Mande os caciques das cunhas que andam a arrastar o rabo pelos ministérios e poder local fazer de nossos controladores ao modo soviético. E de cada vez que um professor se atrasar num sumário mande-os dar-nos uma sova, mandar-nos para a prisão. Vergastadas ou execuções como o Irão. É o mínimo para este crime de atrasar-se a escrever os sumários.

É assim que se perde o respeito pelos governantes.

January 07, 2026

Sr. ministro da educação, o ministério é seu - chegue-se à frente

 


Educação. Falta de acordo entre sindicatos e ministério deixa 2.º período ameaçado por protestos

Fenprof apresenta contraproposta do Estatuto da Carreira Docente ao MECI. Se não for ao encontro de algumas exigências, avança "grande iniciativa de professores”. Diretores temem greves.
DN
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Não há professores. Não precisamos de 30 novas instituições e organismos a crescer no ME -por muito que perceba que precisem de cargos para encaixar amigos e correligionários-, precisamos é de professores e de técnicos especializados. 

Quanto mais aumentam as exigências à profissão, de tal maneira que descrevem as nossas funções como uma espécie de magia, pois é-nos exigido que mudemos o comportamento de alunos delinquentes para seres afáveis, que punhamos a aprender com entusiasmo alunos que não sabem ler nem escrever, que resolvamos os problemas do foro psicológico ou até psiquiátrico dos alunos -só falta o ME mudar o nome para ministério da magia- mais diminuem as exigências para contratar professores. 

Já agora acontece irem buscar para ensinar biologia ao 9º ano, por exemplo, alguém que não conseguiu acabar o secundário no ensino regular e foi para um curso profissional que nada tem que ver com biologia e a quem o coordenador do grupo de biologia tem que explicar o que é um ecossistema e outros conceitos que fazem parte da sua próxima aula. Antes de cada aula o professor tem ele mesmo uma aula sobre a aula que vai dar. Outro, tem de ser ensinado a fazer um teste e ele mesmo tem o seu teste corrigido antes de o aplicar aos alunos e depois de o aplicar precisa que o colega o corrija consigo porque não sabe fazê-lo. Outro pede, na reunião de avaliação ou outra qualquer em que lhe calhou fazer a acta, para que seja outra pessoa a fazê-la porque não 'tem jeito' para escrever.

Enfim, estamos nisto e a solução não pode ser, merdificar ainda mais a carreira ao ponto de só arranjaram gente desta. Neste momento, os professores que estão na carreira e andam pelos 45 anos são pessoas que entraram na carreira quando era difícil entrar e só entravam pessoas com muitas qualificações. Porém, essas não são a maioria. A maioria são as pessoas da minha idade que se reformam daqui a uns poucos anos e cada ano que passa temos menos uns milhares de professores.

É preciso dizer que desde o final dos anos 80 até a início do século XXI houve uma grande valorização da carreira dos professores. Não que se ganhasse muito dinheiro, isso nunca aconteceu, mas melhoraram muito as condições de trabalho e alguns benefícios. Foi isso que atraiu muita gente de qualidade e formação sólida durante uns 25 anos. 

Desde então foi sempre a destruir. Primeiro veio a desinteligência abroncada da Rodrigues, depois a cavalgadurice de PPC, depois os me first, Costacenteno. Também os pais tentaram de todas as maneiras destruir professores. Nas escolas onde aparecem para fazer bullying a professores (é o legado da Rodrigues) e na Associação de Pais que deveria chamar-se Associação Idiota do Ódio a Professores. E finalmente os professores universitários, esses especialistas em não-pedagogia, que se vingavam das suas frustrações dizendo mal de professores. Entre estes todos destruíram a carreira.

Portanto, sr. ministro da educação, o ministério é seu - chegue-se à frente.
Os professores são professores porque gostam de ensinar. Aproveite-nos essa característica e vá buscar pessoas sérias com formação séria que gostem de ensinar. Vá buscar técnicos que queiram trabalhar com crianças e adolescentes - quando percebemos um aluno com problemas psicológicos, quem o pode ajudar é um psicólogo e quando um aluno tem falhas nos conhecimentos porque não teve professores no ano anterior, precisa de explicações, ou seja, são precisos professores para dar explicações a alunos fora das aulas. Valorize a carreira e a própria educação. Acabe com a certificação de alunos via a burocrartização e chantagem a professores.

O país depende da educação. Que tipo de país seremos sem uma educação de qualidade? Ou já assumiram que os pobrezinhos são certificados e os endinheirados são instruídos como deve ser, numa divisão de classes profunda ao modo do século XIX e princípio do século XX? São esses os ideais de Abril?

January 06, 2026

Que a revisão do Estatuto da Carreira Docente esteja a ser liderada pelo ministro das finanças já diz tudo

 

Não há professores, mas o governo, em vez de valorizar a carreira dos professores, que têm impacto na educação dos alunos, está a tentar politizá-la e mediocrizá-la, ainda mais, para poder aprofundar a sua proletarização (ainda mais) e com isso poupar dinheiro, como o fizeram Sócrates, PPC e Costa, os seus mentores no assunto.

Será mais ou menos assim: o ministro escolhe os directores 'adequados' que, por sua vez, escolhem os professores 'adequados' e têm poder para pô-los a andar ou impedir que progridam na carreira se não se mostraram submissos à 'adequação' preconizada pelo governo através dos directores 'adequados' e das novas estruturas que gerem a educação, 'adequadamente'. A autonomia pedagógica, fundamental para os professores não serem obrigados a leccionar segundo o interesse político ou ideológico ou religioso do chefe e do ministro do momento, desaparece. Não há menção a horário de trabalho, nem a doenças profissionais. A formação contínua obrigatória desaparece para se poderem contratar os mais burros e ignorantes, porém 'adequados'.


A revisão do Estatuto da Carreira Docente é determinante para o futuro da profissão

Mário Nogueira

As negociações, sob controlo do Ministério das Finanças, são gato escondido com o rabo todo de fora.

Iniciou-se o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD) com a apresentação aos sindicatos de uma proposta relativa ao tema 1, Perfil do docente, Direitos, Deveres e Garantias. Num momento em que faltam milhares de professores, seria de esperar que, visando reverter o problema, a revisão começasse com os temas da estrutura da carreira, estatuto remuneratório e avaliação do desempenho, mas não foi essa a opção do Governo.

As negociações, sob controlo do Ministério das Finanças, na pessoa da secretária de Estado Marisa Garrido, são gato escondido com o rabo todo de fora. O que verdadeiramente está em cima da mesa é o esvaziamento do ECD de matérias que justificam a sua existência.

Sem dizer ao que vem, o Governo procura aplicar o ReCAP (Regulamento de Competências na Administração Pública). Ou seja, aplicar aos docentes o regime geral da administração pública em matérias como a seleção e recrutamento (concursos) e avaliação do desempenho. Se a proposta passar, a avaliação dos docentes ditará uma progressão na carreira com “compensações em função do grau em que contribuem para o desempenho do organismo” (prémios) e as unidades orgânicas passarão a poder selecionar e recrutar os docentes para mapas de pessoal, de acordo com as competências que considerarem adequadas.

Percebe-se, assim, que o motivo para a imposição deste tema como primeiro da revisão do ECD decorre da intenção de aplicar, em aspetos essenciais da profissão docente, o regime geral da administração pública e eliminar matérias que são “traves mestras” da sua definição como corpo especial. A intenção não é nova e foi tentada, sempre sem êxito, pelos governos de Sócrates, Passos Coelho e António Costa.

Ademais, o documento apresentado pelo Governo, entre outros aspetos, elimina o direito à negociação coletiva e o de participação através das organizações profissionais e sindicais do pessoal docente em órgãos que, no âmbito nacional, regional autónomo ou regional, prevejam a representação do pessoal docente; revoga o direito à autoformação, de acordo com os respetivos planos individuais de formação; retira a menção a doenças que resultam do exercício continuado da profissão; nunca refere o horário de trabalho, nem a necessidade de clarificar o conteúdo funcional e a duração de cada uma das suas componentes.

A transferência para o regime geral da administração pública de matérias tão importantes como a seleção e recrutamento (concursos) e avaliação do desempenho, com o devido impacto na progressão, fará com que os docentes se sujeitem, ainda mais, a discricionariedades, gerará maiores injustiças e competição, levará a perda de autonomia pedagógica e criará maior vulnerabilidade da profissão em relação a regras do código laboral, no quadro da chamada “convergência” que os governos usam para aplicar o pior de dois males.

É necessário os professores darem força aos seus sindicatos para que recusem esta proposta que, a ser aprovada, condicionaria toda a negociação seguinte relativa à revisão do ECD.

December 23, 2025

«Exigência»?? Indigência...

 

Chamar «exigente» a ter de fazer duas provas para entrar no ensino superior e dizer que foi isso e não as incapacidades dos alunos que impediu a sua entrada na universidade é une blague, como dizem os franceses. É por estas e outras afins que temos 30 alunos a pôr uma universidade em tribunal por falta de empatia com os seus sonhos de serem médicos. Temos os exemplos catastróficos de outros países (ver o vídeo abaixo) mas não serve de nada porque o governo já decidiu continuar o desinvestimento na educação e não quer as falhas todas à vista e para isso precisa de fabricar sucessos artificiais. Em breve a «exigência» para entrar num curso superior será saber escrever o próprio nome - e aviso já que nem todos vão entrar.


Exigência de duas provas de acesso ao superior impediu colocação de 2000 alunos
Em Agosto, ministro dizia que não fazia sentido “mudar as regras novamente”. Politécnicos dizem que foram as evidências que o fizeram mudar de opinião. Será só uma prova. Reitores não estão contra. (Público)

December 19, 2025

Uma analogia com a educação - e não é boa

 



Podemos fazer uma analogia entre o treino incorrecto da voz e suas consequências, de que Jessye Norman, uma soprano operática formidável aqui fala, com o treino da mente, na educação escolar - de um modo inverso.

Se tentamos treinar tarde demais os processos linguísticos e cognitivos, muitos deles já atrofiaram. Se as ligações neuronais não foram feitas na devida altura, as redes neuronais já podaram esses neurónios que em tempos procuravam fazer ligações a outros neurónios e às redes.

A pobreza de linguagem com que os alunos chegam agora ao secundário impede a aprendizagem de muitos conteúdos formais e informais. São lacunas, não de informação, mas de formação de processos internos.

A pobreza de linguagem não se refere apenas a falta de vocabulário. Refere-se a pobreza na construção frásica, nos tempos verbais (afecta a compreensão das nuances das, e entre, possibilidades teóricas condicionais), nos elementos de ligação lógica (afecta a capacidade de acompanhar um raciocínio longo e complexo com várias premissas lógicas encadeadas) e nos vários constituintes do pensamento: discorrer, inferir, imaginar, especular, argumentar, negar... tudo isso implica um desenvolvimento de linguagem que a maioria dos alunos já não traz como bagagem de ferramentas de trabalho que lhes permita expandir o pensamento.

Repare-se neste diálogo entre dois rapazes açorianos. Vemos perfeitamente que não são estúpidos. Um deles fala da inutilidade da educação escolar para a sua vida futura de pescador - o que é falso, mas vê-se que ele não tem linguagem [mental] para compreender ou, sequer, aprender, uma educação formal académica. Não foi desenvolvida.



Quanto menos os alunos aprendem mais folhas nos obrigam a preencher (aí umas sessenta perguntas por cada aluno que tem negativa em testes) para parecer que fazem alguma coisa e ninguém reparar que não investem nos agentes de mudança que são os professores e os técnicos especialistas.

A incompetência de ministro atrás de ministro e de seus pedagogos da moda trouxe-nos aqui e ainda nos vai levar para um maior desastre. As coisas ainda estão longe do pior porque o desastre que são as políticas do ensino básico só agora estão a chegar ao secundário. 

Claro que o ministro não quer alunos a fazer exames para que tudo fique à mostra. Pelos vistos não basta os testes dos exames sempre os mesmos, de ano para ano, para os alunos chegarem lá já a saber o que dizer e fazer.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

Ouvi dizer que este ministro quer pôr a carreira de professor com seis anos em cada escalão, em vez dos quatro que agora temos. E que tudo o que tem que ver com a educação vai passar a ser decidido e gerido por um organismo semi-independente do ministério e que as nomeações para esse organismo são políticas.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

Sr. ministro, quer ordenar a mediocridade, ordene, mas não há necessidade de mentir



O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, anunciou esta sexta-feira que o Governo vai propor a redução, de duas para uma, das provas de ingresso obrigatórias para a esmagadora maioria dos cursos do ensino superior.

Adiantou que há cursos, designadamente na área da engenharia, em que vão ser obrigatórias as duas provas de ingresso, e outros, como a medicina, com três provas.“Há regras especiais para determinadas áreas. Mas cabe à instituição, a partir do momento em que nós temos a validação pelo ensino secundário e com os exames nacionais, definir as condições de ingresso”, adiantou.

Mas a regra geral será a obrigatoriedade de apenas uma prova de ingresso. O ministro disse entender o argumento do aumento da exigência para garantir que os alunos que entram no ensino superior tenham os requisitos necessários, mas lembrou que em causa estão estudantes que concluíram o ensino secundário.

“Não me parece que alguém que tenha concluído o secundário em Portugal não esteja em condições de aceder a um curso superior”, defendeu


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O que vale é que já não me restam muitos anos nisto porque não tenho vocação nenhuma para o embuste em que a educação pública se tornou.
A notícia de que este ministro seria diferente foi largamente exagerada.

December 04, 2025

Os nossos políticos já desistiram da escola pública


A discussão sobre a inteligência artificial no ensino reabre o debate sobre o apoio escolar privado e as disparidades de acesso à aprendizagem.a propósito da recente polémica em torno do anunciado tutor de inteligência artificial (IA) para o ensino. Sabe-se ainda pouco sobre o projeto e é claro que será recomendável ensaiá-lo numa prova de conceito, experimentá-lo num projeto-piloto e avaliá-lo antes de o estender a toda a comunidade escolar.

Não se trata, evidentemente, de substituir os professores nem o seu papel crucial no ensino e no apoio aos estudantes. A IA deve apenas complementar essa função, sobretudo para quem está desamparado em casa e sem apoio familiar direto. É claro que nada será simples, sabendo-se que a informação imprecisa está ainda entre os maiores riscos dos sistemas avançados do IA. Ainda assim vale a pena tentar este uso da tecnologia para um bom propósito: o de ajudar aqueles que não podem pagar explicações privadas, oferecendo-lhes apoio até de forma personalizada.

Recordei, aliás, ao ler algumas das reações negativas imediatas contra o tutor de IA, outras muito semelhantes que testemunhei em diferentes ocasiões contra projetos mais disruptivos de modernização. Não me esqueço do que se disse aquando do anúncio do Cartão de Cidadão: que vinha aí o "Big Brother", que podíamos até ser clonados, que era de todo uma promessa falsa e um projeto impossível.
Maria Manuel Leitão Marques in dn.pt

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Maria Manuel Leitão Marques é uma euro-deputada da área da Economia, mas como é sabido toda a gente fala de educação como se fosse especialista.

O argumento dela para defender o tutor de IA é a necessidade dos alunos terem explicações fora da escola e os mais desfavorecidos não terem dinheiro para pagá-las. Acho este argumento fantástico: então agora, um sistema de explicadores privados já faz parte do projecto da escola pública?

Diz que o projecto não se destina a substituir professores, mas é mesmo disso que se trata: não havendo vontade política de investir na escola pública para captar jovens para a profissão e sabendo-se que a falta de professores se vai agravar ainda mais, dá-se a cada aluno um substituto de professor.

Quando havia professores em abundância nas escolas os alunos não precisavam de explicadores privados - nós próprios fazíamos esse serviço, os apoios estavam no nosso horário lectivo. Eram muito eficazes. Nuno Crato foi quem acabou com isso para mandar 30 mil professores embora e poupar dinheiro. Agora não há professores para leccionar as aulas quanto mais para apoios/explicações. Assumam, em vez de virem com falsos argumentos sobre os tutores de IA serem bons para os alunos. Não são.

O tutor de IA não é um substituo de professor. Uma coisa é usar-se a IA para projectos orientados por professores, o que já se faz e há-de fazer-se muito mais no futuro. É excelente, mas outra coisa diferente é usar um tutor de IA para aprender conteúdos ou para lhe fazer os trabalhos escolares.

Não sei se esta deputada já ouviu falar de Marco Buscaglia, um colaborador do Chicago Sun Times que escreveu um artigo com uma lista de livros de leituras de Verão, onde apenas 5 existem. Quando os leitores começaram a interrogar o jornal sobre aqueles livros inexistentes, Marco Buscaglia confessou que pede ao seu tutor de IA para lhe escrever os artigos para o jornal. Disse que costuma ir verificar se as informações da IA são correctas (cof, cof...) mas daquela vez se tinha esquecido.

A qualidade do conhecimento académico tem vindo a decair. Dantes íamos consultar enciclopédias e dicionários escritos por estudiosos nas áreas, depois veio o google e passámos a ir ao google e à Wikipédia onde escreve qualquer pessoa, mas ainda assim, tem controladores humanos que verificam as informações e conhecimentos que lá aparecem. Agora vai-se à opinião média do indivíduo médio do planeta - que como se sabe tem imensa credibilidade. Há um par de semanas o Grok de Musk respondeu a uma pergunta sobre o Holocausto dizendo que a sua realidade era polémica.

Uma coisa é um adulto, já formado e com conhecimentos usar a IA para buscar informações e ter espírito crítico para avaliar o que lê, outra coisa são crianças em processo de desenvolvimento das estruturas do próprio conhecimento, completamente vulneráveis, usarem tutores de IA.

O outro argumento da deputada a favor dos tutores de IA é o de serem "projectos disjuntivos de modernização" (algo que não se dá ao trabalho de explicar e deixa assim para parecer que é algo muito à frente) de maneira que quem adverte contra os perigos do seu uso é não-moderno ou atrasado - é o que deixa subentendido.

Finalmente dá como exemplo de "projecto disjuntivo de modernidade" que teve críticas, o caso do Cartão de Cidadão que muito diziam que era o Big Brother. Pasmo que esta política euro-deputada não perceba que é exactamente isso. Desde que temos o CC com dados biométricos que as autoridades, dentro e fora do país, sabem tudo a nosso respeito e se quiserem usam-no como ferramenta de controlo, como aliás já se faz na China de modo agressivo. Sim, é um meio de segurança e um instrumento muito eficaz e facilitador, burocraticamente falando, mas tem esse lado de intrusão na esfera da nossa privacidade. É tão eficaz que a deputada nem se apercebe disso.

Ora, o tutor de IA, não tem os benefícios de segurança ou de desburocratizarão do CC e tem os malefícios de ser um meio de informação não credível e manipulador de crianças e jovens em idades vulneráveis, intelectual e psicologicamente.

November 29, 2025

"Os professores são indispensáveis mediadores culturais e humanos" - Tolentino de Mendonça




Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”

O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores.

"Quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui", declarou o cardeal, nesta quinta-feira, na Guarda 

O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores.

"Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores", afirmou o cardeal José Tolentino de Mendonça que partilhou nesta quinta-feira o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI), na Guarda, a essa "classe em crise", pelo seu "extraordinário contributo social e cultural".

O poeta e escritor falava após receber o galardão na sessão solene dos 826 anos da fundação da Guarda. Dizendo-se "muito grato" pelo prémio, considerou que o legado do pensador e mentor do CEI, Eduardo Lourenço, é "relevar o papel da Educação e da figura do professor".

José Tolentino de Mendonça disse que os professores se sentem "remetidos a uma precariedade nas condições de trabalho, perdidos na complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos para o desenvolvimento das próprias funções, ou então apresentam-se feridos por uma espécie de solidão social". "É como se aquilo que tivessem para dar, hoje, valesse menos."

O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação no Vaticano deixou um aviso: "A irrelevância dos professores é um alarme para as sociedades porque, quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui."

E continuou: "Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos."

Para Tolentino de Mendonça, o professor "não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro", porque é necessária a existência de "mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas".


November 28, 2025

The skills of the future needs the skills of the past

 



Uma coisa que noto é que a grande maioria dos alunos de hoje não vêm preparados para aprender, muito menos para pensar. Aliás, nem sequer sabem escutar. Vêm preparados para dar opiniões a partir das informações desconectadas, superficiais e, muitas vezes, falsas ou erróneas, das redes sociais. Os pais mandam os filhos para a escola cobertos com uma capa de verniz dura. Nenhuma porosidade. Tudo resvala. Isto resulta em parte das novas tecnologias alienantes e castradoras do desenvolvimento cognitivo mas não só, porque estes mesmos alunos, quando querem muito aprender futebol ou videojogos ou outra coisa qualquer do seu perfil de viciados em entretenimento, são capazes de ter uma atitude receptiva de aprendizagem. Portanto, esta atitude perante a educação escolar resulta em grande parte da desvalorização intencional do respeito pela aprendizagem escolar (os ritmos e esforços que implica) que os governos ocidentais injectaram nas sociedades nos últimos 20 anos com intuitos meramente economicistas, apoiados pelos pedagogos da felicidade oca, com a cumplicidade ignorante dos pais e a ganância das corporações tecnológicas.

November 20, 2025

Dez competências básicas que os alunos da 3º classe já não sabem fazer


Uma professora primária listou dez competências básicas que os alunos do 3º ano já não sabem fazer: como ler um relógio analógico, contar dinheiro físico ou escrever em letra cursiva, conseguir memorizar os números de telefone dos pais, saber o endereço da sua casa, saber usar um dicionário, seguir instruções com várias etapas, atar os sapatos, lembrar-se dos nomes dos pais, saber de onde é a sua família ou lembrar-se do ano em que nasceram.

 

@mommy_n_zachy What’s happening to our kids? I need answers!! #teachertok #elementaryteacher #teacherproblemsboredteachers #teacher ♬ original sound - mommy_n_zachy

 

O que torna a situação ainda pior, segundo ela, é que muitos alunos não parecem muito interessados em aprender essas competências básicos e para os professores, começar do zero em tantas tarefas fundamentais torna ainda mais difícil um trabalho já de si exigente, especialmente quando turmas grandes e tempo limitado já sobrecarregam a sua capacidade.

O que torna a situação ainda muito mais preocupante, a meu ver, é que um muito grande número de alunos, quando chegam às minhas mãos no 10º ano, ainda não sabem o número de telefone de um dos pais, o nome completo dos pais, o endereço da sua casa, ler um relógio analógico, ler letra cursiva (não percebem a sua própria letra e pedem-me ajuda para decifrá-la), usar um dicionário, seguir instruções com várias etapas, não sabem a profissão dos pais, não sabem de onde são as suas famílias, não sabem o que é uma dezena, uma dúzia, uma quinzena, não sabem as provincias/regiões do país e outras coisas básicas que agora não lembro.

O exemplo da professora do vídeo refere-se a alunos nos EUA e os meus alunos são portugueses e o que isto mostra é que existe uma decadência da educação que é global e não local e o facto determinante deste padrão é a tecnologia digital: os smartphones que ensinam as crianças a não aprender e a não querer aprender. Dado que têm no bolso um assistente que sabe tudo por eles, já interiorizaram que a aprendizagem é desnecessária. Pelos vistos os pais também interiorizaram a ideia de que não precisam ensinar nada aos filhos, dado que eles têm um smartphone. Leio que aqui no país o PM quer estupidificar ainda mais os alunos e dar a cada um um assistente digital que lhes ensine a irrelevância do esforça na aprendizagem e a desnecessidade da procura do saber.

Ontem estive num hospital e na sala de espera, um pai com uma criança ainda de chupeta, sentou-se e deu à criança um smartphone para se entreter enquanto ele fazia scroll no seu telemóvel.  Continuem assim que vão bem.

November 14, 2025

Porque é que os médicos mais novos não estão dispostos a sacrifícios




Porque é que os médicos mais novos não querem trabalhar as horas necessárias para serem... cirurgiões?

Henrique Raposo
Expresso

Boa tarde.

Há um ano, mais coisa menos coisa, causei uma certa polémica porque critiquei a geração mais nova dos médicos, a geração que agora tem um nome pejorativo: tarefeiros. Tive razão antes do tempo, devia ter feito esses textos só agora: agora, sim, parece que há uma abertura social ou cultural para se criticar esta atitude à “tarefeiro”, à “biscateiro” na medicina.

Até a Ordem dos Médicos critica, lembrando que há princípios éticos básicos nesta profissão, que, por razões óbvias, é diferente de todas as outras. Sucede que os médicos da Gen-Z e até da geração millennial têm alguma dificuldade em compreender esse espírito de corpo e sacrifício inerente à profissão. Porque, médicos ou não, esta geração tem de facto um problema laboral, vê na ética de trabalho uma usurpação do lifestyle.

Durante aqueles dias de polémica, fui criticado em público por jovens médicos e elogiado em privado por médicos mais velhos, que, na linha de Eduardo Barroso, veem algo de quase criminoso no que a nova geração anda a fazer ou a não fazer. Álvaro Beleza vai no mesmo caminho. Aliás, este debate entre mais velhos e mais novos atravessa a classe médica em todos os países. Quando os médicos novos americanos pedem mais equilíbrio trabalho/lazer, os mais velhos reagem e relembram que “that’s not the job”. O lifestyle não é para os médicos. Tal como não é para polícias, por exemplo, ou bombeiros sapadores, ou artistas, ou jornalistas.

Portanto, parece-me que a base do problema aqui é que há de facto um problema entre a Gen-Z e o trabalho. Parece mesmo que o trabalho é mais stressante para a Gen Z do que o desemprego - não é piada, é um trabalho sério do jornal “The New York Times”. Esta aversão ao trabalho de uma geração torna-se obviamente ainda mais grave quando falamos de médicos.

Sim, há que criticar, não os médicos em geral, mas uma geração mais nova que recusa fazer horas, recusa fazer os horários “chatos”, recusa até fazer especialidades e que – o que é ainda mais grave – está a colocar em causa a posição de cirurgião.

Como dizia há dias na Renascença o presidente da associação de administradores hospitalares, muitos jovens médicos não querem muito simplesmente trabalhar as horas necessárias para serem cirurgiões; não acham atrativo, acham que é demasiado trabalho. Isto é de uma gravidade imensa, tal como é imenso o silêncio sobre o tema. Isto devia gerar polémica e urgência no debate. Esta falta de cirurgiões (presente e futura) parece-me um problema ainda mais grave do que os interesses instalados dos tarefeiros.

No sector privado, os responsáveis dizem a mesma coisa: os médicos mais novos não querem trabalhar como as velhas gerações, mas parece que não se passa nada, aceita-se isto como normal ou inevitável. E, de resto, há uma contradição neste discurso dos responsáveis, públicos e privados. Por um lado, uma responsável respeitadíssima como Isabel Vaz diz que é preciso perceber que os médicos mais novos não querem trabalhar tanto, mas depois diz também que eles, os médicos, são como uma tropa de elite. Mas como é que se entra numa tropa de elite sem uma ética de trabalho e de serviço, como é que se entra numa tropa de elite se recusamos fazer horas e dar tudo pela missão?

Mais: como é que pode haver especialistas e cirurgiões se não trabalharem as horas que as gerações anteriores trabalhavam? A resposta é que não há e não haverá. Eis portanto um dado gravíssimo que está por debater: em breve, teremos uma carência gravíssima de cirurgiões.

E repare-se que este problema não é só português, é de uma geração inteira no ocidente inteiro. Na Polónia, discute-se o envelhecimento dos cirurgiões e a falta de cirurgiões mais novos, pois os médicos da nova geração não querem o trabalho extra e acham a tarefa demasiado stressante. Ou seja, não querem a responsabilidade.

Na Alemanha é igual. Idem para o Canadá. Idem para Inglaterra.

Aliás, no Reino Unido há uma desistência da própria profissão.Idem para os EUA. Em breve, só nos EUA faltarão cerca de 25 mil cirurgiões. É uma mudança sísmica que põe em causa a saúde da população inteira e, repito, é impressionante que não se fale mais do assunto. Porque não me parece que o problema seja a falta de dinheiro. Há aqui um bloqueio cultural de uma geração que recusa simplesmente trabalhar o número de horas necessárias para se treinar e praticar cirurgia. E isto é algo que já se nota pelo menos desde 2010, o que significa que o problema também marca os millenials.

Para terminar, sobram quatro grandes questões.

Primeira: se não queriam a responsabilidade e o stress da profissão, porque é que entraram nas escolas de medicina? Não será altura de mudarmos a forma como selecionamos os alunos das faculdades de medicina?

Segunda: um cirurgião veterano sente que a cirurgia em geral está a ficar mais perigosa para os doentes; os mais velhos sentem que os mais novos estão impreparados, algo registado nos EUA e em Portugal pelos mais velhos.

Terceira: com uma geração de médicos assim, ancorados no ethos da Gen-Z, não há sistema de saúde que aguente, cá e lá fora.

Quarta: tendo em conta esta deserção dos próprios médicos, será que a profissão de médico não será uma das primeiras grandes vítimas da Inteligência Artificial?

Um abraço,
Henrique

October 06, 2025

Acabo de ver o Filinto na TV a fazer lobby contra os professores

 

A apelar aos ministérios da Saúde e da Educação para conspirarem no sentido de impedirem que os professores doentes sejam reconhecidos e tratados como tal, como manda a lei. 

A notícia deste lobby contra os professores é de ontem, do dia do Professor. É a maneira deste director lutar pela profissão de professor.

Filinto Lima tem sido conivente com todas as políticas de destruição dos sucessivos MEs desde há muitos anos.

Na semana passada saiu aí um tal de inquérito aos diretores, coordenadores e professores que concluiu que 95% aprovam as direcções das escolas em que estão. Não fui ver como o inquérito foi feito e quem interrogaram, de facto, mas estou no sistema educativo há cerca de 40 anos e para acreditar nesse resultado teria de acreditar na percentagem de 95% de votos com que Putin foi eleito.



October 02, 2025

Completamente de acordo


Empatia?
Paulo Guinote
DN

Lê-se e custa a acreditar. Os candidatos excluídos do “Concurso Especial para Acesso ao Mestrado em Medicina por Titulares do Grau de Licenciado” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto por não terem cumprido os critérios definidos para serem aprovados, acusam o Reitor da instituição de “total falta de empatia” ao longo do processo.

Eram 37 as vagas que ficaram por preencher, pois os candidatos, numa prova de conhecimentos com 100 perguntas de resposta múltipla, não conseguiram atingir o patamar definido no Regulamento que determinava que “serão excluídos, para efeitos de colocação, os candidatos com classificação inferior a 14 valores na prova de conhecimentos” (n.º 4 do artigo 7.º). Algo que os candidatos conheciam por ser um Regulamento já de 2019.

Não me interessam aqui as polémicas entre os envolvidos, nem se o Regulamento em causa é adequado ou não, mas apenas o argumento da “empatia” como relevante para o processo de selecção dos candidatos. Ou seja, os ditos candidatos queixam-se de o Reitor não se ter colocado na sua posição e não ter tido a capacidade de sentir o que eles sentiram ao verem-se excluídos do concurso. Se estão a usar o termo “empatia” na acepção correcta. Desconhecendo o Reitor e não pretendendo avaliar ou defender as suas acções, tenho alguma dificuldade em aceitar que se considere a “empatia” como critério de acesso a um qualquer curso superior e por maioria de razão a um mestrado especialmente exigente.

Claro que se nos colocarmos no lugar de quem viu ficar por satisfazer um desejo, cumprir um objectivo, atingir uma meta, é natural que se compreendam o desânimo e a tristeza. Mas, daí a aceitar que a compreensão desses sentimentos seja argumento para contornar o processo de selecção previamente definido e conhecido é um salto (i)lógico que me escapa. Compreendo que isso seja a consequência natural de um “paradigma” que se instalou no nosso sistema educativo desde os ciclos iniciais de escolaridade no sentido de se considerar que o “sucesso” é um direito e não o resultado de um esforço. Que o “sucesso” é algo quase garantido se tivermos em conta os sentimentos e não apenas o desempenho de quem quer aceder a algo.

Se isto se passa no acesso ao segundo ciclo de estudos universitários, imagine-se o que se passa em ciclos de estudos “inferiores”, do Básico ao Secundário e as argumentações tidas como válidas para criticar quem não usa a “empatia” como critério de avaliação dos seus alunos. Só que há uma diferença entre compreender as dificuldades e obstáculos que muitos alunos precisam de ultrapassar e aceitar que isso é critério para garantir a satisfação dos seus desejos, independentemente do seu desempenho.

A sério, gostava mesmo que existisse uma pequena noção dos danos e da erosão que este tipo de mentalidade tem causado no nosso sistema educativo, desde a sua base.

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Este ano tenho turmas do 10º ano. 'Perco' sempre muito tempo, neste ano de escolaridade com a introdução de metodologias de pensamento e de trabalho próprias da disciplina de Filosofia, com vista a que progridam de pensadores irreflectidos para, pelo menos, pensadores conscientes e alerta - algo que eles consideram aborrecido porque ainda não percebem a importância de pensar e ajuizar com critérios que emprestem qualidade ao pensamento - quero que aprendam a perceber as falhas no pensamento e argumentação aplicando esses critérios como parâmetros de avaliação.

Estávamos na última aula a analisar um conjunto de critérios que devem ser respeitados nos raciocínios e argumentações para que sejam válidos e quando chegámos ao critério da relevância dei um exemplo em forma de questão: - suponham que um aluno me diz, relativamente a uma nota de 10 num teste, que a nota é injusta porque estudou muito para esse teste. O argumento da quantidade de estudo é relevante, é pertinente, para o juízo da adequação da nota?' Ou, suponham que uma pessoa treinou 5 anos para uma maratona e chegou quase em último e outra que treinou só 1 ano ganhou a prova? Os anos de treino podem servir de argumento pertinente para reclamar um lugar no pódio?' _ Não, foi a resposta que todos deram, embora um ou dois acrescentassem que é uma situação chata, injusta. Mas é injusta?, perguntei.  _Não, é justa porque o pódio é para os que mostram resultados. Mas é chato e é chato estudar muito e não ter boa nota.

Devia ser evidente para estudantes no fim da licenciatura que a quantidade de horas que estudaram ou o gosto que têm por uma profissão não é relevante para serem admitidos sem que cumpram os mínimos exigidos por esse curso. 

Esta confusão entre empatia e justiça, entre empatia e exigência de direitos, incentivada por ministros de educação, tem feitos estragos imensos na qualidade da educação, na qualidade da formação das crianças e jovens.

September 25, 2025

Não, não é

 

Para além do peso esperado das reformas por motivo de idade, mais de 50% dos docentes com menos de 30 anos consideram abandonar a carreira. Mas a capacidade de atração da escola pública ainda é real: quase um em cada quatro docentes das escolas privadas admite concorrer ao ensino público.

https://www.publico.pt/

A escola pública só é atractiva para quem já está no ensino, não para quem procura uma carreira para seguir. É atractiva para professores do ensino privado, onde muitas escolas tratam os professores ainda muito pior que no público; resta ver se esses professores aguentariam as turmas enormes do público, com alunos não escolhidos a dedo entre as famílias com mais poder económico e educação condizente, mas todo e qualquer um que entre pela porta da sala adentro. É que é outro universo completamente diferente. Portanto, se é com base neste raciocínio que constroem os outros, é melhor rever as conclusões.

"Afinal, quem nos governa? "




Na passada semana, a ministra da Saúde fez uma declaração que não mereceu a devida atenção, pelo que revela do papel actual de alguns governantes, meras testas de ferro daqueles que efectivamente definem as políticas públicas em áreas cruciais da governação. Transcrevo de forma extensa as declarações colhidas e transcritas pela SIC Notícias:

“Aprendi que nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece. A situação que se vive na península de Setúbal é muito preocupante. Acreditei no plano que me foi apresentado e confiei nas equipas. Foi muito penalizador para mim ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer perceber porquê (…)”

Estas declarações são especialmente preocupantes, não apenas pela realidade que retratam, até porque quem vive na região conhece a crescente disfuncionalidade do SNS, mas pelo modo como a ministra revela o processo de tomada de decisões e o seu papel de mera comunicadora pública de soluções que a transcendem e nem sequer parece compreender.

No fundo, ela considera-se penalizada porque assumiu politicamente uma solução que lhe garantiram que funcionaria e nem percebe porque foi “desfeita”. A afirmação de que “nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece” é um auto-atestado de incompetência acerca da área que tutela, porque revela que foi incapaz de avaliar se o que lhe foi apresentado era credível ou realizável. Apenas acreditou que sim, porque alguém lhe garantiu que funcionaria. Mas quem lhe garantiu isso? E, já agora, para que serve uma governante, se o seu papel é apenas o de “assumir politicamente” o que outros definiram?

De certo modo é como com a Educação, sem as consequências letais de curto prazo, para a Saúde Pública. Alguém convenceu o ministro a assumir uma “solução” que levaria à colocação de professores em 98-99% das escolas, o que é algo que só alguém com um enorme desconhecimento do terreno pode tomar como verdadeiro. Será que acha que é por acelerar o processo de contratação de professores que eles brotam onde não existem? Do mesmo modo, foi convencido a assumir uma “reforma” da orgânica do ministério que outros delinearam e cujas consequências práticas ele dá toda a sensação de desconhecer. A seu favor tem algo que a ministra da Saúde não tem… a relativa acalmia causada pela recuperação do tempo de serviço, mas, no essencial, é outr@ governante que assumiu “soluções” que lhe foram apresentadas como garantidas e não o são.

Claro que a questão que se coloca é… afinal, quem é que anda a vender “soluções” a estes governantes? E a segunda questão é… porque temos governantes que “assumem soluções” em vez de tomarem decisões com base nos seus conhecimentos, na sua competência técnica e na sua capacidade política? Ou, resumindo, quem é que, afinal, nos anda a (des)governar?

Paulo Guinote in DN