Showing posts with label educação. Show all posts
Showing posts with label educação. Show all posts

February 09, 2026

Aqui está um exemplo da falha do Estado aos cidadãos de que fala Adalberto Fernandes

 


"Preocupado", Presidente promulga alterações no acesso ao ensino superior
DN

Marcelo está preocupado com "alguns efeitos do entendimento de instituições do ensino superior no sentido minimalista e facilitista", lê-se no comunicado da promulgação.

[segundo o executivo] o aumento do número mínimo de provas de ingresso provocou uma redução do número de estudantes que acederam ao ensino superior no presente ano letivo. O objetivo é “reforçar a flexibilidade do sistema de acesso” e “contribuir para o aumento da qualificação da população, em linha com a meta de ultrapassar os 50 % de diplomados entre os 25 e os 34 anos até 2030”.

----------------

O governo quer melhorar a formação dos portugueses? Quer jovens mais bem preparados para uma cidadania plena e construtiva e para uma força de trabalho forte? Não. O próprio executivo confessa que o que lhe interessa é a meta de ultrapassar os 50 % de diplomados entre os 25 e os 34 anos até 2030” - ou seja, quer um aumento artificial de diplomados num muito curto espaço de tempo, três anos e meio.

É possível, em três anos e meio, transformar uma população em degradação de qualidade educativa numa população excelente? Não. Na educação tudo leva muito tempo a construir. Seria melhor para as populações e para o país apostar na qualidade da educação a médio e longo prazo? Sim. Isso foi feito no início dos anos 90 do século passado e resultou numa real mobilidade social e numa preparação competente da nossa força de trabalho, que aliás está a ser aproveitada por outros países.

Acontece que o governo, como outros antes dele, é eleitoralista e cobarde. Quer votos imediatos e fáceis e não quer a responsabilidade que vem com o poder. Então, em vez de apostar na qualidade da educação, aposta na fraude encapotada que consiste em anular os critérios que possam ser obstáculo à certificação de pessoas que de outro modo talvez nem acabassem o secundário.

Como diz Adalberto Fernandes no artigo do post anterior, Erros graves em domínios como a saúde, a educação, a justiça e a segurança coletiva têm impactos profundos na vida das pessoas.

Portanto temos aqui um caso perfeito de como o Estado está a falhar aos cidadãos: o sacrifício de uma formação de jovens com qualidade e consequente às metas partidárias com vista ao voto imediato e à manutenção do poder.

O Presidente da República, ele mesmo um professor, sabe-o perfeitamente mas o que faz? Defende os portugueses? Defende os interesses dos estudantes e do país futuro (que não são ir para a universidade só porque sim)? Defende essa massa de gente certificada artificialmente com um diploma que não serve para nada porque corresponde a um fogo-fátuo? Não. Aprova o facilitismo, o populismo e a desresponsabilização da educação e deixa andar.

E é assim que o Estado falha aos cidadãos.

February 05, 2026

ME - desnorte e desinteresse pela educação



Faz algum sentido extinguir organismos sem ter já preparado para entrar em acção a nova estrutura? Deixar um hiato de anos enquanto se pensa na nova orgânica? Gerir o dia-a-dia no vazio? É como ir fazer um transplante de coração e esquecer-se que é preciso um substituto porque o corpo não trabalha sem ele.  


A Reestruturação do MECI e o vazio nas escolas 
By Rui Cardoso

A coisa prometia, modernização, agilidade e o fim da “obesidade” ministerial que tanto atormenta o Terreiro do Paço. Mas o que temos, com a bênção dos Despachos n.º 919-A e 919-B/2026, é um autêntico número de ilusionismo administrativo. O MECI anunciou o fim da DGAE, do IGeFE e da Secretaria-Geral com a fanfarra de quem descobre a pólvora, atirando as competências para cima das CCDR e um chorrilho de Unidades. O pequeno detalhe, aquele pormenor insignificante que a malta dos gabinetes costuma esquecer, é que nas CCDR as cadeiras destinadas aos Vice-Presidentes responsáveis pela Educação continuam vazias, a ganhar pó e à espera de nomeação, nas tais Unidades ninguém sabe o que se passa. É a descentralização do “faz de conta”: mandam-se os processos para uma estrutura que ainda não tem cabeça para pensar, nem mãos para executar, deixando os Diretores a olhar para o mapa à espera que alguém lhes diga onde fica a nova capital da burocracia.

Enquanto a AGSE e a EduQA não saem da incubadora das intenções, as DGEstE regionais vivem num cenário digno de um filme de terror. Oficialmente estão condenadas, mas, como ainda não foram formalmente extintas nem integradas, vão sobrevivendo num “limbo” existencial. É o Estado no seu melhor, os funcionários das direções regionais tentam manter as escolas a boiar, mas sem saberem se no dia seguinte ainda têm carimbo ou se a porta já tem uma fechadura nova. Trabalha-se por inércia, gere-se por milagre e sobrevive-se por teimosia, enquanto o Ministério se entretém a desenhar organogramas coloridos. No meio deste caos, onde estaria o famoso “Gestor Dedicado”? Aquela figura celestial prometida pelo Ministro Fernando Alexandre, que seria o interlocutor único de cada Agrupamento, parece ter o mesmo estatuto do Monstro de Loch Ness, muita gente fala dele, mas ninguém o viu. Supostamente, este “anjo da guarda” deveria encaminhar as nossas dúvidas para as novas unidades, mas na prática, o Diretor que tenha um problema com um horário ou um contrato tem duas opções, ou liga para o número do costume e ninguém atende, ou acende uma vela ao Santo Expedito.

O vazio de poder é de tal ordem que os Diretores se sentem como capitães de um navio a quem roubaram as bússolas em plena tempestade. Não há a quem recorrer e o auxílio na gestão transformou-se num exercício de adivinhação. Dizem-nos que a EduQA vai avaliar a qualidade, talvez possam começar por avaliar a qualidade deste processo de transição que deixou as escolas num deserto de respostas. Entre o despacho que extingue e a agência que não nasce, o “chão da escola” continua a ser o único sítio onde a realidade teima em não caber nos PowerPoint do Ministério.
Se alguém vir um Gestor Dedicado a passar pela EN2, por favor, peça-lhe para ligar para o Viso. Temos umas Assistentes técnicas à espera de saber quem lhes tira duvidas.

Enterrar a educação para servir interesses privados

 

Paulo Miguel Viegas
do FB

Nas últimas décadas Portugal conquistou um feito muito raro: edificou uma Escola Pública de excelência que se tornou o principal promotor de equidade e promotor de escalada social. Hoje em dia, contudo, sobre este edifício paira a ameaça de derrocada. O atual caminho de divisão da tutela — fruto da municipalização e da perda do estatuto público dos professores — não é somente uma reforma administrativa; é um desvio profundo do modelo que define as políticas educativas europeias mais prósperas e eficazes.

Se olharmos para sistemas educativos de referência, como na Finlândia, Dinamarca ou Alemanha, podemos ver um denominador comum: o Estado não abdica da sua responsabilidade direta; nada sai da sua tutela. Nestes países, a carreira de professor é uma carreira de prestígio, sustentada por um vínculo sólido com o Estado central, que garante que um aluno, independentemente da sua geografia ou extrato social, tenha acesso a professores com o mesmo rigor de seleção e estabilidade. O sucesso europeu prova que a qualidade não nasce da concorrência entre municípios ou da flexibilidade laboral, mas da confiança mútua entre o Estado e os seus quadros.

Esta nova maré de privatização velada não surge do nada; vem, sim, resgatar uma visão que teve o seu expoente máximo no mandato do ex Ministro da Educação Nuno Crato. Sob a bandeira da "liberdade de escolha", o modelo de expansão desenfreada dos contratos de associação procurou (em muitos casos com sucesso para quem deles beneficiou) desviar a responsabilidade do Estado para o setor cooperativo e privado.
 
Foi dinheiro a ser distribuído a rodos! Na altura, o financiamento público seguia o aluno para fora da escola pública, criando uma rede paralela que, em muitos casos, serviu apenas para esvaziar e encerrar escolas públicas perfeitamente funcionais em nome de interesses privados. O que se pretendia, e que agora regressa com uma nova roupagem, era a substituição da gestão pública direta por um mercado de serviços educativos não necessariamente de excelência. De repente o ensino privado deixou de ser para quem podia pagar passando a ser quase universal. Em muitos casos alguns colégios até passaram a ser financiados para receber algum “restolho triste e (não muito) solitário”, parafraseando a canção de Mafalda Veiga.

Em sentido contrário ao sucesso europeu, o caminho que se desenha agora assemelha-se ao que já vivemos na saúde oral. Com a introdução do "cheque-dentista", o Estado desistiu de criar uma resposta pública estruturada. Hoje, no "top of mind" dos portugueses, uma dor de dentes é um problema para resolver no setor privado. O Estado tornou-se um mero pagador de faturas, perdendo a capacidade de planear e executar. A estratégia para a saúde oral passou a ser “pagar para desresponsabilizar” (e alimentar alguns grupos, emtenda-se).

O risco de replicar este modelo na educação é ainda mais traiçoeiro. Ao fragilizar o estatuto de funcionário público e transferir a gestão para as autarquias, abre-se a porta a um novo e lucrativo mercado: o das empresas de gestão de recursos humanos especializadas em serviços docentes (já devem estar para abrir algumas empresas destas; com quê? Com fundos comunitários, claro está). 

Se o Estado deixa de contratar diretamente, as escolas e municípios serão empurrados para o outsourcing. Em breve, poderemos ter professores contratados por municípios aplicando “critérios regionais” (uso o eufemismo) ou por empresas de trabalho temporário ou consultoras de RH, onde o docente passa a ser um "recurso" flexível, despojado de carreira, de memória pedagógica e de vínculo à comunidade escolar. O “Professor”, essa raça em vias de extinção no nosso país, tenderá a ser extinta sendo substituída por “técnicos superiores (ou nem isso) de ensino”.

Este cenário de "Uberização" (ou terceirização, se preferirem) do ensino é o oposto do que Portugal precisa para fixar os jovens talentos nas escolas. A excelência educativa exige continuidade e dedicação, algo que empresas focadas na margem de lucro e contratos de curta duração não podem oferecer. Se permitirmos que a tutela se dilua numa rede de subcontratações, perderemos o controlo estratégico sobre o futuro do país, ou será que a estratégia é mesmo essa?

A escola pública não pode ser reduzida a uma folha de Excel gerida por privados ou por autarquias sem escala. Se o Estado abdica de ser o garante da carreira de quem ensina, está, na verdade, a abdicar do seu papel de arquiteto da próxima geração.
E que grandes gerações produziu já Portugal...

A destruição da profissão de professor para benefício de interesses privados

 

Onde estão os sindicatos? O ME andar a pagar 60 mil euros a mentores que não têm de sujeitar-se às regras da profissão porque funcionan como consultores dos professores, coisa de que não precisamos, mas que o governo promove como solução para a destruição da carreira de professor. Um desperdício de dinheiro para satisfazer amigos, calculo, com empresas privadas de fogo-fátuo que vivem do dinheiro público. Entretanto, para os professores, cada vez há mais impedimentos ao ensino, induzidos pela burocracia. Neste país a iniciativa privada vive dos subsídios e contratos com dinheiros públicos, como diz um amigo meu.

"2027, ano mágico na Educação"



As declarações do actual ministro da Educação, após tomar posse em 2024, acerca da “urgência” da resolução de diversos problemas no sector, se excluirmos a recuperação do tempo de serviço docente, são já uma vaga memória, embora tenham sido retomadas quando se manteve na pasta em 2025.

Da revisão do Estatuto da Carreira Docente à reformulação das “aprendizagens essenciais” e dos programas disciplinares, passando pelo modelo de gestão escolar e pelo estatuto dos directores, não esquecendo - concorde-se ou não - a redefinição dos ciclos de escolaridade ou a simplificação dos procedimentos administrativos nas escolas e entre estas e a tutela, tudo foi apresentado como carecendo de intervenção imediata. Bem como o problema da falta de professores, herdado dos anteriores governantes, também considerado emergente, a par da necessidade da contabilização rigorosa dos alunos sem aulas.

Eis que, à medida que o tempo foi passando, se sucederam dois fenómenos curiosos: por um lado, o adiamento sucessivo de tudo o que se tinha apresentado como emergência, enquanto surgiram medidas em áreas que não tinham sido anunciadas como prioritárias, quiçá para dar uma aparência de acção. Se excluirmos o pacote de medidas para consumo mediático acerca da falta de professores, de que apenas a atribuição de horas extraordinárias produziu alguns efeitos, tudo vai sendo adiado para o ano lectivo de 2027-28.

A principal excepção foi uma algo abstrusa “reforma” da estrutura orgânica do MECI que se alega ser no sentido da “modernização” ou “inovação”, mas cujos resultados iniciais parecem traduzir-se numa desnecessária disrupção, pouco criativa, dos circuitos de comunicação entre as escolas e os serviços centrais do Ministério da Educação.

Quanto ao que antes era urgente, se é verdade que há matérias que exigem uma preparação cuidada, para não se adoptarem soluções apressadas e pouco consistentes com a realidade, não é menos verdade que estes adiamentos - com negociações feitas a um ritmo de caracol trôpego - transmitem uma sensação de impreparação técnica e falta de coragem política para assumir opções que se sabem ser passíveis de polémica.

Em vez de se estabelecer um cronograma para a introdução gradual de modificações estruturais no sistema educativo, parece ter-se optado por agregar todas num curto espaço de tempo, lançando-as sobre as escolas em conjunto, o que dificilmente se pode considerar uma boa ideia, excepto se faz parte de alguma estratégia ligada aos ciclos políticos e ao desejo de apresentar “resultados” no calendário eleitoral.

O que significa que o ano lectivo de 2027-28 parece surgir no horizonte como uma espécie de “ano mágico”, no qual tudo vai acontecer, ficando por saber se será um annus mirabilis ou horribilis. Atendendo ao que se observa em outras áreas da governação, o prato da balança pende claramente para um dos lados.

Paulo Guinote in DN

February 03, 2026

A IA não é uma ferramenta, é um agente

 

Fiquei chocado porque pensei que na Universidade do século XXI não havia académicos capazes de propor a proibição de uso de ferramentas de auxílio ao conhecimento e aprendizagem.

João Duque in expresso.pt/opiniao
---------

Este indivíduo ainda não percebeu o que é a IA e pensa que é mais uma ferramenta de auxílio. A ausência de conhecimentos e consciência dele, sendo um professor universitário, assusta tanto como a displicência com que as 'elites' minimizam os riscos da IA.

Como diz Yuval Noah Harari, a IA não é uma ferramenta, é um agente. Tem poder de decisão e acção independentes dos seres humanos. Já agora, redes sociais geridas por uma IA ainda primitiva, dir-se-ia pouco inteligente, tem o poder de influenciar políticas económicas e financeiras, eleições, suicídios de adolescentes, alteração da linguagem científica, mediocrização dos sistemas educativos...

Não sou contra a IA, até porque seria inútil, mas sou a favor de se tomar consciência dos problemas que acarreta para não sermos apanhados num turbilhão do qual nunca mais sairemos, porque seremos sempre menos inteligentes do que será necessário para o tipo de inteligência que a IA tornará dominante. 

Em vez, 'penso, logo existo', será, 'penso a uma velocidade estonteante, de tal modo que, ainda tu não percebeste sequer a lógica do que estou a fazer e já eu o implementei no mundo inteiro e já está a mudar a realidade e não vejo razão para levar em conta os teus interesses'. 

E assusta-me que professores catedráticos, políticos outros influenciadores sejam ainda tão ignorantes acerca da IA que reduzam o seu discurso a generalidades de não se poder proibir porque estamos no século XXI e de fazerem comparações históricas inadequadas ao caso presente. 

Este discurso deste senhor é uma colecção de vacuidades sobre o tema. Não o problematiza, não reflecte sobre as suas variáveis, limita-se a chamar nomes e a rebaixar todos os que assinaram o tal documento contra o uso da IA que vem a ser feito indiscriminadamente nas universidades.

Temos já várias evidências dos perigos da IA na vida económica e financeira, na educação e no desenvolvimento das crianças e adolescentes, na arte e não temos nenhuma evidência de que no futuro a IA, podendo fazer-nos mais mal, escolha ser amiga dos humanos e levar em consideração os seus interesses. 

Escolher tapar os olhos para não ver e deixar a agência com a própria IA não é uma estratégia inteligente.

Deixo aqui mais uma conversa para quem queira pensar a sério no problema.


Davos: uma conversa entre Yuval Harari e Irene Tracey (neuro-cientista) sobre IA e educação

 

Yuval Noah Harari em conversa com Irene Tracey, neuro-cientista e vice-reitora da Universidade de Oxford.
Yuval Noah Harari compara a IA aos mercenários anglos, saxões e jutos que os bretões trouxeram para lutar contra os escoceses que os invadiam do Norte. E eles vieram e ganharam essa luta e depois, vendo que os bretãos eram fracos resolveram tomar posse de Inglaterra. A IA não é uma mera ferramenta que se possa usar e pôr de lado à discrição, porque se a IA pensa, toma conta dos processos linguisticos e mentais humanos. É um agente e é um agente de mudança que pode ser à margem dos interesses humanos.
Qual é o lugar, então, que sobra para o humano?
Parecemos crianças que encontram uma esfera e começam a jogar à bola com ela, não percebendo que é uma bomba.
Para ouvir toda a conversa: bit.ly/YNH-WEF

January 31, 2026

Educação: impor a mediocridade a todos


Este professora americana com mais de três décadas de experiência de ensino preocupa-se, como todos nós que estamos no ramo da educação escolar, com a degradação das capacidades e desenvolvimento cognitivos dos alunos que vêm sendo demonstradas a nível mundial há mais de duas décadas, de modo consistente e gradual, num vector negativo.

Ela sintetiza aqui os pontos principais do artigo de Jared HorvathWe Gave Students Laptops and Took Away Their Brains que acompanhou a publicação do seu livro, The Digital Delusion. Horvath mostra e explica o efeito devastador dos ecrãs no desenvolvimento cognitivo e linguístico das crianças e dos jovens e propõe algumas estratégias de reversão desse fenómeno.






Uma das estratégias que ele propõe dirige-se aos pais e consiste em aconselhá-los a desconfiar das «inovações» que os governos querem impor na educação e que em geral não passam de soluções fáceis como, vamos dar um tutor digital a cada um que é igual a apenas darem acesso a uma OpenAI qualquer, para problemas complexos, muitas vezes por cedência a lobbies de empresas tecnológicas - isto digo eu. 

Horvath propõe que essas inovações sejam sujeitas a escrutínio de evidências como em qualquer projecto científico - antes de fazerem dos filhos cobaias com intuitos economicistas, sem respeito nenhum pela educação, dignidade e projecto de vida autónoma dos alunos.

Há outras estratégias propostas: ler em papel, fazer anotações. O acto de anotar um texto, construir notas de um texto ou de uma discussão oral obriga a um trabalho complexo do cérebro que engloba quase todas as áreas do córtex, nomeadamente a tarefa de seleccionar a informação relevante, organizá-la conceptualmente, apresentá-la numa sequência lógica e pertinente, encadear raciocínios de modo lógico, utilizar o vocabulário adequado, etc. Estar a ler num ecrã dispensa todo esse trabalho e pôr uma plataforma de IA a fazer trabalho por si e a dar as respostas é uma burrificação de todas as potencialidades. É como dizer: não é preciso usares o teu pensamento que a IA faz isso por ti, deixa-o aí inerte ou usa-o para te divertires. Não é preciso pensares.

Ontem dei-me ao trabalho de ouvir um podcast, que é uma coisa que detesto porque não é possível passar por cima das gorduras das conversas como se faz num texto, pela razão de ter curiosidade no assunto e querer saber de novidades na área em questão: a inteligência. A tese da psiquiatria especialista é a de que uma pessoa inteligente e muito boa numa área tende a ser muito boa em muitas outras áreas, ao contrário do que em geral se intui. 

O estudo da inteligência ainda está na pré-história, ainda se baseia em teorias do início do século XX não desenvolvidas ou testadas e várias razões que ela apresenta para a sua tese não me convenceram porque fui capaz, não sendo nenhuma especialista no assunto, de pensar imediatamente em variáveis que não foram consideradas. 

Seja como for, o que me parece é que pessoas que são bastante boas numa área, em geral tendem a pensar que também serão boas em outras áreas só por serem inteligentes naquela, esquecendo que são bons na sua área porque têm conhecimentos sólidos e experiência. De maneira que quando tentam entrar em outras áreas, faltando-lhes os conhecimentos e a experiência cometem imensos erros, dos quais não se apercebem porque partem do pressuposto que a sua inteligência basta.

É assim que vemos governantes decidir sobre assuntos dos quais pouco ou nada sabem como se fossem peritos nessas áreas. Podia acontecer rodearem-se de peritos com provas dadas, mas não, rodeiam-se de 'peritos' da sua confiança política e em consonância com os seus interesses. 

No nosso país, o último ministro da educação que fez um trabalho com mérito foi o Roberto Carneiro - que nem sequer gostava de professores. Carneiro tinha respeito pela educação e embora a sua visão da educação tenha um fundamento cristão era virada para o futuro, aberta e pluralista, mas humanista, com respeito pela autonomia da pessoa e não uma manipulação tecnocrata e meramente pragmática de engenharia social como foi apanágio de todos os que se lhe seguiram, até aos dias de hoje. Nesse sentido, investiu na educação: na riqueza do currículo escolar e na na formação continua dos professores. O empobrecimento do currículo escolar foi decidido por Crato (os alunos só têm que saber português e matemática era o seu lema) que se julga um especialista em educação; a destruição da formação contínua dos professores e até da própria, iniciada pelo anterior ministro (caso típico de se pensar um ás em todas as áreas por ter tido sucesso como linguista), está agora em plena destruição por este ministro.

O actual ME, como os anteriores, porque são professores universitários com uma carreira de sucesso, convencem-se que também serão bons em outras áreas, nomeadamente a educação escolar, a psicologia do desenvolvimento, as estruturas cognitivas, os instrumentos digitais, etc. 
É assim que decidem com critérios economicistas sem pensar ou sequer perceber o impacto que as suas medidas de merceeiro terão no futuro das crianças e jovens, logo, do país. 

Mesmo quando todos os indícios e evidências desde há mais de 20 anos são consistentes a mostrar os efeitos negativos da educação com ecrãs no desenvolvimento da linguagem e capacidades cognitivas vão impô-lo e já começaram a chamar retrógrados aos que advertem sobre os seus perigos, irreversíveis, no desenvolvimento linguístico e cognitivo.

Copiam as priores práticas -como as de Inglaterra cuja educação está um desastre- em vez de olharem para a reversão deste erro em países que consistentemente estão à frente nos índices de competências e conhecimentos dos alunos, como Singapura, Suécia, Finlândia, China.

Se a associação de pais deste país fossem composta por pessoas interessadas na educação dos filhos em vez de sicofantas de ministros, adoptavas algumas das estratégias propostas por Horvath, de cada vez que um governo vem impor mediocridade ao sistema de educação, seja com tutores digitais, seja com empresas a colocarem a leccionar nas escolas pessoas que fizeram uma cadeira de qualquer coisa num curso de qualquer coisa.

Por exemplo, de cada vez que anunciam a imposição de mais tempo de ecrã, perguntar: 'essa medida já foi validada por evidências?'; 'há países que melhoraram o desempenho dos seus alunos nos testes internacionais depois de a adoptar?', 'há evidências de prejuízo no desenvolvimento dos alunos e na sua saúde mental?' etc. Não havendo respostas positivas não deixar que se faça dos alunos cobaias de experimentos economicistas que lhes estragam a vida a eles e o futuro a nós todos enquanto país. 

January 29, 2026

Pobres professores do futuro

 


Paulo Guinote
DN

Vai estando em negociação, em modo muito lento, um novo Estatuto da Carreira Docente (ECD). Parece que será para entrar em vigor em 2027, um ano para o qual anda a ser remetida muita coisa em matéria de Educação, incluindo matérias curriculares, de estrutura dos ciclos de escolaridade e mesmo da gestão escolar. No caso do ECD, não sei se é para marcar os 20 anos da versão anterior, de 2007, de muito má memória para a classe docente. O que pode ser um péssimo sinal.

Se fazer uma revisão deste tipo com calma e ponderação parece certo, já desperta desconfiança a “articulação” desse novo Estatuto com uma vaga de outras medidas, desde a chamada “reforma do Estado” às leis laborais, passando pela multiplicidade de micro-medidas tomadas para tentar remendar a falta de professores. E é por isso que me sinto preocupado em relação aos professores do futuro, porque aos da minha geração já pouco surpreende ou sobra para fazer pior, além do oculto desejo de nos obrigar a ficar no activo até não conseguirmos ter actividade alguma.

Não me refiro a questões como as que, de forma extemporânea, tiveram alguma circulação nas redes sociais sobre um pretenso fim do vínculo público dos professores, algo que extrapola de modo, por enquanto, delirante a situação concreta ou ignora o que se passa com os professores contratados há anos.

Refiro-me à menorização do papel do professor na sociedade e nas próprias escolas, se passarem a definitivas (como é usual) medidas apresentadas como sendo de “emergência”, desde logo a redução dos critérios académicos para exercer a docência. O argumento de se exigir uma “licenciatura” esconde que ela pode nem estar relacionada com a área disciplinar, bastando umas dezenas de créditos mais ou menos aparentados com essa área. Se acrescentarmos a excitação com as potencialidades da Inteligência Artificial e dos “tutores digitais”, cruzando-a com as correntes pedagógicas construtivistas, ficamos com o caminho aberto para o professor não passar de um mero acompanhante dos alunos na sala de aula, erodindo ainda mais o seu estatuto profissional.

De pouco adiantará uma vinculação acelerada ou melhores condições salariais no início da carreira, se esta for estruturada de modo a impedir um horizonte de progressão alargado e a negar uma aposentação em condições dignas. Será como garantir que um bebé terá boas condições ao nascer, mas que verá o crescimento limitado por motivos exógenos e que ao chegar à velhice será deixado ao abandono.

Tudo isto é possível graças à aposta na combinação da indiferença de uns (os mais velhos, ansiosos por partir) com a ignorância de outros (os novos, ansiosos por qualquer garantia, mesmo que ilusória), acrescendo o que está a ser feito para “reconfigurar” a classe docente no sentido de a fragilizar e reduzir a uma massa acrítica, intercambiável e substituível por um qualquer holograma.

January 26, 2026

Mais um artigo sobre o uso da IA no ensino superior que não diz nada de relevante

 

Limita-se ao é proibido proibir. Pois, todos sabemos que a IA está aí e existe, mas dizer que deve ser usada desde que «com ética», dá vontade de rir, porque equivale a dizer aos estudantes, 'sejam honestos' e esperar que o sejam, quando sabemos que não o são. Nem os professores o são. 

A solução deste senhor que trabalha na área da IA é fazer dos professores polícias e especialistas em detectar cabuladores. Mas ser professor não é isso de andar a fazer avaliações, não para perceber o que o aluno progrediu e domina mas para detectar se andou a cabular. 

E ensinar a desconfiar e a confirmar fontes digitais já nós fazemos nas escolas, mas o problema é que os alunos não querem saber de fontes credíveis, querem é saber de uma aplicação que lhes faz os trabalhos e consegue as notas e os certificados.

Eu também não sou a favor da proibição no ensino superior mas sei que é um problema sério no que respeita à credibilidade epistémica da própria universidade e que é preciso pensar seriamente onde é útil a IA ser usada com mérito e onde o seu uso é um demérito. 

Mesmo nas escolas secundárias há disciplinas científicas-práticas onde o uso da IA faz sentido mas em disciplinas de Humanidades faz menos sentido. Às vezes faz sentido num determinado ponto. Por exemplo, tenho as minhas turma do 10º ano em vésperas de fazer testes de Lógica Proposicional. Tenho levado exercícios e disse-lhes que, se acabassem os exercícios e quisessem mais para treinar podiam trocar todas as conectivas, que é o suficiente para mudar os exercícios e os resultados ou ir à IA pedir mais exercícios e depois de os fazerem pedirem-lhe as soluções. Este é um caso em que é útil, mas em geral, substituir o pensamento por IA prejudica o desenvolvimento das suas potencialidades em formação. 

A IA não pode ser usada sem critério na educação e nem pode ser igualmente usada em qualquer situação, em todas as disciplinas, só porque existe. Isso é o mesmo que dizer, já que as redes sociais existem e os alunos as usam, vamos deixar que as usem para o seu trabalho. 

Portanto, este articulista não tem nenhuma solução válida para um problema que necessita urgentemente de solução e vem para os jornais dizer coisas inconsequentes. 

-----------

O ponto não é moralizar estudantes, é olhar para os incentivos e para o desenho da avaliação. Se um aluno consegue fazer um trabalho inteiro copiando respostas de um modelo de linguagem, o problema não é a IA, é o desenho da avaliação. Se fosse possível um estudante terminar uma licenciatura a papaguear textos que não percebe, a pergunta séria não seria “o que é que a IA está a fazer à universidade”, mas “que universidade construímos para que isso fosse possível?”

Proibir é o gesto mais fácil.

O desafio não é afastar a IA, é ensinar a usá-la. Ensinar a desconfiar das respostas, a comparar com fontes, a explicitar o que foi feito pela máquina e o que foi feito pela pessoa. Usar a IA como espelho devolutivo do pensamento: pedir ao estudante que mostre o prompt, critique o output, reescreva, explique por escrito onde concorda, onde discorda e porquê. Se quisermos, a IA pode ser um laboratório de pensamento crítico. Se a proibirmos, será apenas mais uma fonte de atalho silencioso.

Nelson Zagalo in https://www.publico

January 22, 2026

Tempo de ecrã é um bem económico de pobre

 

DN - mais um título enganador, desta vez a chamar racistas aos professores

 


No jornal de hoje a grande notícia da primeira página é que um estudo universitário revela que os professores discriminam alunos pela cor da pele ou país de origem.

Depois, quando vamos ler a notícia, não houve nenhum estudo.  Houve um inquérito a 1400 pessoas de 9 escolas de Lisboa. Entre essas 1400 pessoas, umas eram alunos, outras professores, funcionários e directores. 

Em Portugal há cerca de 2 milhões de alunos, 150 mil professores e não sei quantos assistentes operacionais. Este inquérito representa quem?

Portanto, não houve nenhum estudo, nada foi observado, nem há dados objectivos de discriminação, nem critérios sobre o que se considera discriminação e que variáveis foram testadas. Nada. Há uma percepção de alunos -que não sabemos quantos são- de sentirem que foram discriminados. 

E é provável que alguns tenham sido. Não tenho dúvidas de que haverá discriminação. Agora, se é para tratar do assunto a sério, não se vai para os jornais com uma porcaria de um inquérito sem o mínimo de rigor e obectividade acusar os professores em letras garrafais de serem em quase 40% dos casos, racistas.

Que a UNL chame a isto um «estudo», mostra a decadência do trabalho universitário.

É evidente que quem lê o título assume que este inquérito é mesmo um estudo -até vem com a chancela da UNL- e da próxima vez que for à escola e tiver oportunidade, sendo EE, vai chamar racistas aos professores.

Ninguém quer ser professor, mesmo os que querem, quando chegam às escolas e vêem que os horários têm direcções de turma recusam logo o horário, mas os jornais, os professores universitários e o governo, não desistem da cruzada de denegrir professores.

Tenho a certeza que, se forem fazer um inquérito a pais (e a alunos) sobre se sentem que os seus filhos não são valorizados pelos professores hão-de ter respostas positivas na ordem dos 99,9%. Depois chamem-lhe um estudo e digam que os professores são inimigos dos alunos.

Continuem assim que vão bem.


Porque estamos embrutecendo, explicado às crianças

 

January 20, 2026

UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

 

UM APELO A DIRECTORES E PROFESSORES DA ESCOLA PÚBLICA

O Ministro da Educação e o Governador do Banco de Portugal auto-investiram-se no papel de professores para "darem aulas" de "educação" financeira" (ver aqui e aqui). A eles juntam-se, agora, "líderes empresariais e autárquicos de referência em Portugal": "vão assumir o papel de «Professor por um Dia»" (ver aqui). A usurpação da “nobre e exigente tarefa de ensinar” (ver aqui) é óbvia!



E, como em casos congéneres, confirma-se a Lei de Murphy: o que pode piorar, piora: a "iniciativa é conduzida pela Teach For Portugal", sucursal do empório global que é a Teach for All, a que nós, como tantos outros países, abrimos carinhosamente as portas das escolas públicas para que "apoiasse" os "mais desfavorecidos" para que tenham "acesso a oportunidades".

Então, seguindo a notícia do sítio online Human Resources, os tais líderes empresariais e autárquicos de referência, "acompanhados por mentores da Teach For Portugal e pelos professores das escolas":
1) "preparam previamente as aulas em conjunto" com essa organização e com os professores, "garantindo que os conteúdos (Literacia Financeira, Empreendedorismo ou Objectivos de Desenvolvimento Sustentável) estão alinhados com o currículo e adequados ao perfil da turma";
2) trabalham com alunos em sala de aula, "respondendo a perguntas, partilhando experiências e dinamizando actividades".

Entendi bem? Os "líderes empresariais e autárquicos de referência", nomeados na notícia, vão preparar aulas, ou seja, planificar aulas?! Com apoio da Teach For Portugal?! E vão trabalhar com alunos em sala de aula?! Nos temas de literacia financeira empreendedorismo e Objectivos de Desenvolvimento Sustentável?!

E se esta disrupção (palavra na moda) não fosse bastante, a iniciativa procura duas coisas:

1) "aproximar o sector empresarial e as autarquias da realidade diária da escola pública";
2) "reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho e "ao papel central da escola pública".

Entre as perguntas mais óbvias que não podem deixar de se colocar, saliento as seguintes:

1) haverá directores que deixam entrar estes líderes e esta organização na sua escola (que é pública) e professores que se dispõem a trabalhar com eles, permitindo-lhes ocupar o seu lugar na sala de aula para "dinamizar actividades" (isso mesmo, dinamizar actividades"!)?
2) se isso acontecer, não perceberão que os alunos serão usados em experiências inconsequentes, decorrentes de interesses particulares, de ordem política e económica (aqui tão obviamente ligadas)?
3) será legal que quem não tenha formação para ser professor, não seja credenciado como tal, não saiba do ofício, possa planificar e leccionar (duas tarefas centrais na docência e que envolvem uma multiplicidade de saberes especializados, além de uma enorme responsabilidade)?
4) será legal "aproximar o sector empresarial e as autarquia" da escola pública, estratégia claramente ideológica, quando na Constituição da República Portuguesa e na Lei de Bases do Sistema Educativo está plasmada a proibição de programar o ensino segundo quaisquer directrizes políticas, ideológicas...?
5) será legal categorizar crianças e jovens que estão na escola pública como "mais desfavorecidos" e, em função disso, delinear intervenções externas e marginais à sua função educativa, sendo que os "mais favorecidos" ficarão a salvo delas?

E é bem evidente que, caso sejam invocados princípios éticos estruturantes - dignidade, justiça, liberdade... - este altruísmo-de-trazer-por-casa desaba de imediato.

Uma nota mais sobre a fineza retórica:

- substituir os professores por quem não é professor, colocando-os ao serviço de entidades particulares, "pretende reconhecer e valorizar o trabalho dos professores", dar "visibilidade à complexidade" a esse trabalho;
- subverter os desígnios da escola pública é reconhecer o "papel central da escola pública".

Vê-se aqui muito bem a figura do "duplo pensar" que Orwell captou e denunciou, mas que, ainda assim, continua a funcionar lindamente na manipulação de massas.

Termino com um apelo aos directores e aos professores, os últimos elos do sistema de ensino: com base na lei de autonomia de escola e no dever de educar de que estão investidos, não deixem entrar nas vossas escolas, nas vossas aulas "líderes empresariais e autárquicos", eles não são educadores, o seu lugar é nas empresas e nas câmaras, lá serão competentes e precisos, na escola não.


January 18, 2026

Isto é a ver filmes, agora imaginem o que é com a aprendizagem nas escolas

 

Matt Damon, o actor, conta aqui como o diálogo dos filmes tem mudado, no sentido de ser cada vez mais simplista, dos seus pontos principais serem repetidos inúmeras vezes para lidar com o facto de os jovens verem os filmes enquanto olham para o telemóvel e não conseguirem, por isso, uma atenção continuada que consiga acompanhar uma trama e um diálogo mais complexos. Os telemóveis e as redes sociais têm de ser proibidos até aos 16 anos, pelo menos. 

January 09, 2026

Não temos professores e o ME ameaça os professores com cortes de salários

 

Os sumários da discórdia

3) o ministério quer que registar um sumário no final de cada aula passe a ser um dever dos professores, consagrado no documento que enquadra a profissão;

Público
---------

Escrever sumários não é tão fácil como parece. Raramente escrevo o sumário no início e muito menos no fim da aula. Dantes, quando o fazíamos num livro de ponto, não falhava, em 30 segundos escrevia o sumário, logo no início da aula, mas agora que o fazemos numa plataforma online que nos obriga a entrar na plataforma, escrever o nome e password, e depois abrir o email para ir buscar o código de verificação de segurança em computadores do século passado que levam 5 minutos inteiros a iniciar e outros tantos a aceder à plataforma e depois ao email, não é possível. É um imenso tempo perdido e, na maioria dos casos, os alunos da maioria das turmas, não estando a ser orientados por 2 minutos que sejam, começam logo a esparvoar.  
É claro que nem falo da quantidade de vezes em que não há internet ou há mas a plataforma onde se escrevem os sumários está inacessível, às vezes por 3 dias a fio. Os computadores são do século passado, avariam-se e há um professor apenas para arranjá-los a todos, depois seu horário lectivo.

Quando toca à saída não fico no intervalo a escrever sumários. Talvez o ministro esteja esquecido que durante os intervalos não estamos ao serviço desde que Crato mandou contabilizar o nosso tempo de trabalho em minutos para nos retirar os intervalos do horário de trabalho e contabilizar esse tempo em aulas, para nos obrigar a trabalhar mais pelo mesmo preço e poder despedir milhares de professores - assim que toca para a saída da aula pára o relógio do nosso trabalho e só retoma quando toca à entrada e voltamos a uma outra aula. Assim como assim, já gasto vários minutos do meu intervalo porque quando toca para sair, os alunos levam tempo a arrumar as coisas e a sair e é preciso desligar o projector, apagar o quadro, deixar as janelas fechadas, etc. Às vezes ainda vêm tirar dúvidas.

Quando acontece o tempo a seguir ao da aula ser de DT, então, sento-me diante do PC da sala de DTs e escrevo os sumários do dia mais algum atrasado do dia anterior ou da semana anterior assim - isto, se não tiver EE à minha espera, porque se tiver não os deixo à espera para ir escrever sumários ou se tiver outro assunto urgente da DT, como resolver algum conflito ou ter que ir falar com alguém sobre qualquer assunto importante para algum aluno. E claro que muitas vezes não há um PC disponível porque há 4 computadores para 30 DT.

E pode parecer que ter de escrever o sumário até ao fim do mês é um pedido razoável, mas há inúmeras situações em que não é possível: estarmos a dois ou três dias do fim do mês a a plataforma deixar de funcionar; escrever o sumário da última semana do mês, na semana seguinte -que já é outro mês- por qualquer razão: a pessoa fica doente de repente, uma semana de baixa, por exemplo e entretanto mudou o mês e tem dois dias de sumários atrasados. Então isso é razão para nos roubarem o salário? O trabalho com os alunos e para os alunos é prioritário à burocracia de escrever sumários. 

Quando a escola tinha funcionários, os funcionários do bloco, que sabiam antecipadamente se o professor estava em visita de estudo ou num evento de escola com os alunos, etc. estavam ali a vigiar a entrada das turmas para as aulas até todos os professores entrarem e marcavam falta aos professores que faltavam. Mas como o governo, na senda dos anteriores, quer que a educação, à semelhança da saúde, pague os calotes dos banqueiros e os empregos a amigos e afins, quer que as escolas trabalhem sem funcionários, sem professores e quer que os professores ponham a burocracia à frente do trabalho pedagógico. 

A questão é: temos falta de professores, ninguém quer esta carreira que é mal paga, sobrecarregada com tarefas burocráticas e exigências que não correspondem ao trabalho de professor (ser médico, psicólogo, assistente social, secretário, arquivador, funcionário do INE e sei lá mais o quê), constantemente vilipendiada pelas associações de pais, governantes e afins e o ME acha de valor ameaçar que nos tira o salário por causa da porcaria dos sumários.

Quer saber quantos professores estão a dar aulas? Mande os caciques das cunhas que andam a arrastar o rabo pelos ministérios e poder local fazer de nossos controladores ao modo soviético. E de cada vez que um professor se atrasar num sumário mande-os dar-nos uma sova, mandar-nos para a prisão. Vergastadas ou execuções como o Irão. É o mínimo para este crime de atrasar-se a escrever os sumários.

É assim que se perde o respeito pelos governantes.

January 07, 2026

Sr. ministro da educação, o ministério é seu - chegue-se à frente

 


Educação. Falta de acordo entre sindicatos e ministério deixa 2.º período ameaçado por protestos

Fenprof apresenta contraproposta do Estatuto da Carreira Docente ao MECI. Se não for ao encontro de algumas exigências, avança "grande iniciativa de professores”. Diretores temem greves.
DN
-------------

Não há professores. Não precisamos de 30 novas instituições e organismos a crescer no ME -por muito que perceba que precisem de cargos para encaixar amigos e correligionários-, precisamos é de professores e de técnicos especializados. 

Quanto mais aumentam as exigências à profissão, de tal maneira que descrevem as nossas funções como uma espécie de magia, pois é-nos exigido que mudemos o comportamento de alunos delinquentes para seres afáveis, que punhamos a aprender com entusiasmo alunos que não sabem ler nem escrever, que resolvamos os problemas do foro psicológico ou até psiquiátrico dos alunos -só falta o ME mudar o nome para ministério da magia- mais diminuem as exigências para contratar professores. 

Já agora acontece irem buscar para ensinar biologia ao 9º ano, por exemplo, alguém que não conseguiu acabar o secundário no ensino regular e foi para um curso profissional que nada tem que ver com biologia e a quem o coordenador do grupo de biologia tem que explicar o que é um ecossistema e outros conceitos que fazem parte da sua próxima aula. Antes de cada aula o professor tem ele mesmo uma aula sobre a aula que vai dar. Outro, tem de ser ensinado a fazer um teste e ele mesmo tem o seu teste corrigido antes de o aplicar aos alunos e depois de o aplicar precisa que o colega o corrija consigo porque não sabe fazê-lo. Outro pede, na reunião de avaliação ou outra qualquer em que lhe calhou fazer a acta, para que seja outra pessoa a fazê-la porque não 'tem jeito' para escrever.

Enfim, estamos nisto e a solução não pode ser, merdificar ainda mais a carreira ao ponto de só arranjaram gente desta. Neste momento, os professores que estão na carreira e andam pelos 45 anos são pessoas que entraram na carreira quando era difícil entrar e só entravam pessoas com muitas qualificações. Porém, essas não são a maioria. A maioria são as pessoas da minha idade que se reformam daqui a uns poucos anos e cada ano que passa temos menos uns milhares de professores.

É preciso dizer que desde o final dos anos 80 até a início do século XXI houve uma grande valorização da carreira dos professores. Não que se ganhasse muito dinheiro, isso nunca aconteceu, mas melhoraram muito as condições de trabalho e alguns benefícios. Foi isso que atraiu muita gente de qualidade e formação sólida durante uns 25 anos. 

Desde então foi sempre a destruir. Primeiro veio a desinteligência abroncada da Rodrigues, depois a cavalgadurice de PPC, depois os me first, Costacenteno. Também os pais tentaram de todas as maneiras destruir professores. Nas escolas onde aparecem para fazer bullying a professores (é o legado da Rodrigues) e na Associação de Pais que deveria chamar-se Associação Idiota do Ódio a Professores. E finalmente os professores universitários, esses especialistas em não-pedagogia, que se vingavam das suas frustrações dizendo mal de professores. Entre estes todos destruíram a carreira.

Portanto, sr. ministro da educação, o ministério é seu - chegue-se à frente.
Os professores são professores porque gostam de ensinar. Aproveite-nos essa característica e vá buscar pessoas sérias com formação séria que gostem de ensinar. Vá buscar técnicos que queiram trabalhar com crianças e adolescentes - quando percebemos um aluno com problemas psicológicos, quem o pode ajudar é um psicólogo e quando um aluno tem falhas nos conhecimentos porque não teve professores no ano anterior, precisa de explicações, ou seja, são precisos professores para dar explicações a alunos fora das aulas. Valorize a carreira e a própria educação. Acabe com a certificação de alunos via a burocrartização e chantagem a professores.

O país depende da educação. Que tipo de país seremos sem uma educação de qualidade? Ou já assumiram que os pobrezinhos são certificados e os endinheirados são instruídos como deve ser, numa divisão de classes profunda ao modo do século XIX e princípio do século XX? São esses os ideais de Abril?

January 06, 2026

Que a revisão do Estatuto da Carreira Docente esteja a ser liderada pelo ministro das finanças já diz tudo

 

Não há professores, mas o governo, em vez de valorizar a carreira dos professores, que têm impacto na educação dos alunos, está a tentar politizá-la e mediocrizá-la, ainda mais, para poder aprofundar a sua proletarização (ainda mais) e com isso poupar dinheiro, como o fizeram Sócrates, PPC e Costa, os seus mentores no assunto.

Será mais ou menos assim: o ministro escolhe os directores 'adequados' que, por sua vez, escolhem os professores 'adequados' e têm poder para pô-los a andar ou impedir que progridam na carreira se não se mostraram submissos à 'adequação' preconizada pelo governo através dos directores 'adequados' e das novas estruturas que gerem a educação, 'adequadamente'. A autonomia pedagógica, fundamental para os professores não serem obrigados a leccionar segundo o interesse político ou ideológico ou religioso do chefe e do ministro do momento, desaparece. Não há menção a horário de trabalho, nem a doenças profissionais. A formação contínua obrigatória desaparece para se poderem contratar os mais burros e ignorantes, porém 'adequados'.


A revisão do Estatuto da Carreira Docente é determinante para o futuro da profissão

Mário Nogueira

As negociações, sob controlo do Ministério das Finanças, são gato escondido com o rabo todo de fora.

Iniciou-se o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD) com a apresentação aos sindicatos de uma proposta relativa ao tema 1, Perfil do docente, Direitos, Deveres e Garantias. Num momento em que faltam milhares de professores, seria de esperar que, visando reverter o problema, a revisão começasse com os temas da estrutura da carreira, estatuto remuneratório e avaliação do desempenho, mas não foi essa a opção do Governo.

As negociações, sob controlo do Ministério das Finanças, na pessoa da secretária de Estado Marisa Garrido, são gato escondido com o rabo todo de fora. O que verdadeiramente está em cima da mesa é o esvaziamento do ECD de matérias que justificam a sua existência.

Sem dizer ao que vem, o Governo procura aplicar o ReCAP (Regulamento de Competências na Administração Pública). Ou seja, aplicar aos docentes o regime geral da administração pública em matérias como a seleção e recrutamento (concursos) e avaliação do desempenho. Se a proposta passar, a avaliação dos docentes ditará uma progressão na carreira com “compensações em função do grau em que contribuem para o desempenho do organismo” (prémios) e as unidades orgânicas passarão a poder selecionar e recrutar os docentes para mapas de pessoal, de acordo com as competências que considerarem adequadas.

Percebe-se, assim, que o motivo para a imposição deste tema como primeiro da revisão do ECD decorre da intenção de aplicar, em aspetos essenciais da profissão docente, o regime geral da administração pública e eliminar matérias que são “traves mestras” da sua definição como corpo especial. A intenção não é nova e foi tentada, sempre sem êxito, pelos governos de Sócrates, Passos Coelho e António Costa.

Ademais, o documento apresentado pelo Governo, entre outros aspetos, elimina o direito à negociação coletiva e o de participação através das organizações profissionais e sindicais do pessoal docente em órgãos que, no âmbito nacional, regional autónomo ou regional, prevejam a representação do pessoal docente; revoga o direito à autoformação, de acordo com os respetivos planos individuais de formação; retira a menção a doenças que resultam do exercício continuado da profissão; nunca refere o horário de trabalho, nem a necessidade de clarificar o conteúdo funcional e a duração de cada uma das suas componentes.

A transferência para o regime geral da administração pública de matérias tão importantes como a seleção e recrutamento (concursos) e avaliação do desempenho, com o devido impacto na progressão, fará com que os docentes se sujeitem, ainda mais, a discricionariedades, gerará maiores injustiças e competição, levará a perda de autonomia pedagógica e criará maior vulnerabilidade da profissão em relação a regras do código laboral, no quadro da chamada “convergência” que os governos usam para aplicar o pior de dois males.

É necessário os professores darem força aos seus sindicatos para que recusem esta proposta que, a ser aprovada, condicionaria toda a negociação seguinte relativa à revisão do ECD.

December 23, 2025

«Exigência»?? Indigência...

 

Chamar «exigente» a ter de fazer duas provas para entrar no ensino superior e dizer que foi isso e não as incapacidades dos alunos que impediu a sua entrada na universidade é une blague, como dizem os franceses. É por estas e outras afins que temos 30 alunos a pôr uma universidade em tribunal por falta de empatia com os seus sonhos de serem médicos. Temos os exemplos catastróficos de outros países (ver o vídeo abaixo) mas não serve de nada porque o governo já decidiu continuar o desinvestimento na educação e não quer as falhas todas à vista e para isso precisa de fabricar sucessos artificiais. Em breve a «exigência» para entrar num curso superior será saber escrever o próprio nome - e aviso já que nem todos vão entrar.


Exigência de duas provas de acesso ao superior impediu colocação de 2000 alunos
Em Agosto, ministro dizia que não fazia sentido “mudar as regras novamente”. Politécnicos dizem que foram as evidências que o fizeram mudar de opinião. Será só uma prova. Reitores não estão contra. (Público)

December 19, 2025

Uma analogia com a educação - e não é boa

 



Podemos fazer uma analogia entre o treino incorrecto da voz e suas consequências, de que Jessye Norman, uma soprano operática formidável aqui fala, com o treino da mente, na educação escolar - de um modo inverso.

Se tentamos treinar tarde demais os processos linguísticos e cognitivos, muitos deles já atrofiaram. Se as ligações neuronais não foram feitas na devida altura, as redes neuronais já podaram esses neurónios que em tempos procuravam fazer ligações a outros neurónios e às redes.

A pobreza de linguagem com que os alunos chegam agora ao secundário impede a aprendizagem de muitos conteúdos formais e informais. São lacunas, não de informação, mas de formação de processos internos.

A pobreza de linguagem não se refere apenas a falta de vocabulário. Refere-se a pobreza na construção frásica, nos tempos verbais (afecta a compreensão das nuances das, e entre, possibilidades teóricas condicionais), nos elementos de ligação lógica (afecta a capacidade de acompanhar um raciocínio longo e complexo com várias premissas lógicas encadeadas) e nos vários constituintes do pensamento: discorrer, inferir, imaginar, especular, argumentar, negar... tudo isso implica um desenvolvimento de linguagem que a maioria dos alunos já não traz como bagagem de ferramentas de trabalho que lhes permita expandir o pensamento.

Repare-se neste diálogo entre dois rapazes açorianos. Vemos perfeitamente que não são estúpidos. Um deles fala da inutilidade da educação escolar para a sua vida futura de pescador - o que é falso, mas vê-se que ele não tem linguagem [mental] para compreender ou, sequer, aprender, uma educação formal académica. Não foi desenvolvida.



Quanto menos os alunos aprendem mais folhas nos obrigam a preencher (aí umas sessenta perguntas por cada aluno que tem negativa em testes) para parecer que fazem alguma coisa e ninguém reparar que não investem nos agentes de mudança que são os professores e os técnicos especialistas.

A incompetência de ministro atrás de ministro e de seus pedagogos da moda trouxe-nos aqui e ainda nos vai levar para um maior desastre. As coisas ainda estão longe do pior porque o desastre que são as políticas do ensino básico só agora estão a chegar ao secundário. 

Claro que o ministro não quer alunos a fazer exames para que tudo fique à mostra. Pelos vistos não basta os testes dos exames sempre os mesmos, de ano para ano, para os alunos chegarem lá já a saber o que dizer e fazer.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

Ouvi dizer que este ministro quer pôr a carreira de professor com seis anos em cada escalão, em vez dos quatro que agora temos. E que tudo o que tem que ver com a educação vai passar a ser decidido e gerido por um organismo semi-independente do ministério e que as nomeações para esse organismo são políticas.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos.