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December 23, 2025

«Exigência»?? Indigência...

 

Chamar «exigente» a ter de fazer duas provas para entrar no ensino superior e dizer que foi isso e não as incapacidades dos alunos que impediu a sua entrada na universidade é une blague, como dizem os franceses. É por estas e outras afins que temos 30 alunos a pôr uma universidade em tribunal por falta de empatia com os seus sonhos de serem médicos. Temos os exemplos catastróficos de outros países (ver o vídeo abaixo) mas não serve de nada porque o governo já decidiu continuar o desinvestimento na educação e não quer as falhas todas à vista e para isso precisa de fabricar sucessos artificiais. Em breve a «exigência» para entrar num curso superior será saber escrever o próprio nome - e aviso já que nem todos vão entrar.


Exigência de duas provas de acesso ao superior impediu colocação de 2000 alunos
Em Agosto, ministro dizia que não fazia sentido “mudar as regras novamente”. Politécnicos dizem que foram as evidências que o fizeram mudar de opinião. Será só uma prova. Reitores não estão contra. (Público)

December 19, 2025

Uma analogia com a educação - e não é boa

 



Podemos fazer uma analogia entre o treino incorrecto da voz e suas consequências, de que Jessye Norman, uma soprano operática formidável aqui fala, com o treino da mente, na educação escolar - de um modo inverso.

Se tentamos treinar tarde demais os processos linguísticos e cognitivos, muitos deles já atrofiaram. Se as ligações neuronais não foram feitas na devida altura, as redes neuronais já podaram esses neurónios que em tempos procuravam fazer ligações a outros neurónios e às redes.

A pobreza de linguagem com que os alunos chegam agora ao secundário impede a aprendizagem de muitos conteúdos formais e informais. São lacunas, não de informação, mas de formação de processos internos.

A pobreza de linguagem não se refere apenas a falta de vocabulário. Refere-se a pobreza na construção frásica, nos tempos verbais (afecta a compreensão das nuances das, e entre, possibilidades teóricas condicionais), nos elementos de ligação lógica (afecta a capacidade de acompanhar um raciocínio longo e complexo com várias premissas lógicas encadeadas) e nos vários constituintes do pensamento: discorrer, inferir, imaginar, especular, argumentar, negar... tudo isso implica um desenvolvimento de linguagem que a maioria dos alunos já não traz como bagagem de ferramentas de trabalho que lhes permita expandir o pensamento.

Repare-se neste diálogo entre dois rapazes açorianos. Vemos perfeitamente que não são estúpidos. Um deles fala da inutilidade da educação escolar para a sua vida futura de pescador - o que é falso, mas vê-se que ele não tem linguagem [mental] para compreender ou, sequer, aprender, uma educação formal académica. Não foi desenvolvida.



Quanto menos os alunos aprendem mais folhas nos obrigam a preencher (aí umas sessenta perguntas por cada aluno que tem negativa em testes) para parecer que fazem alguma coisa e ninguém reparar que não investem nos agentes de mudança que são os professores e os técnicos especialistas.

A incompetência de ministro atrás de ministro e de seus pedagogos da moda trouxe-nos aqui e ainda nos vai levar para um maior desastre. As coisas ainda estão longe do pior porque o desastre que são as políticas do ensino básico só agora estão a chegar ao secundário. 

Claro que o ministro não quer alunos a fazer exames para que tudo fique à mostra. Pelos vistos não basta os testes dos exames sempre os mesmos, de ano para ano, para os alunos chegarem lá já a saber o que dizer e fazer.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

Ouvi dizer que este ministro quer pôr a carreira de professor com seis anos em cada escalão, em vez dos quatro que agora temos. E que tudo o que tem que ver com a educação vai passar a ser decidido e gerido por um organismo semi-independente do ministério e que as nomeações para esse organismo são políticas.

O que vale é que já não estou nisto muitos mais anos. 

Sr. ministro, quer ordenar a mediocridade, ordene, mas não há necessidade de mentir



O ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, anunciou esta sexta-feira que o Governo vai propor a redução, de duas para uma, das provas de ingresso obrigatórias para a esmagadora maioria dos cursos do ensino superior.

Adiantou que há cursos, designadamente na área da engenharia, em que vão ser obrigatórias as duas provas de ingresso, e outros, como a medicina, com três provas.“Há regras especiais para determinadas áreas. Mas cabe à instituição, a partir do momento em que nós temos a validação pelo ensino secundário e com os exames nacionais, definir as condições de ingresso”, adiantou.

Mas a regra geral será a obrigatoriedade de apenas uma prova de ingresso. O ministro disse entender o argumento do aumento da exigência para garantir que os alunos que entram no ensino superior tenham os requisitos necessários, mas lembrou que em causa estão estudantes que concluíram o ensino secundário.

“Não me parece que alguém que tenha concluído o secundário em Portugal não esteja em condições de aceder a um curso superior”, defendeu


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O que vale é que já não me restam muitos anos nisto porque não tenho vocação nenhuma para o embuste em que a educação pública se tornou.
A notícia de que este ministro seria diferente foi largamente exagerada.

December 04, 2025

Os nossos políticos já desistiram da escola pública


A discussão sobre a inteligência artificial no ensino reabre o debate sobre o apoio escolar privado e as disparidades de acesso à aprendizagem.a propósito da recente polémica em torno do anunciado tutor de inteligência artificial (IA) para o ensino. Sabe-se ainda pouco sobre o projeto e é claro que será recomendável ensaiá-lo numa prova de conceito, experimentá-lo num projeto-piloto e avaliá-lo antes de o estender a toda a comunidade escolar.

Não se trata, evidentemente, de substituir os professores nem o seu papel crucial no ensino e no apoio aos estudantes. A IA deve apenas complementar essa função, sobretudo para quem está desamparado em casa e sem apoio familiar direto. É claro que nada será simples, sabendo-se que a informação imprecisa está ainda entre os maiores riscos dos sistemas avançados do IA. Ainda assim vale a pena tentar este uso da tecnologia para um bom propósito: o de ajudar aqueles que não podem pagar explicações privadas, oferecendo-lhes apoio até de forma personalizada.

Recordei, aliás, ao ler algumas das reações negativas imediatas contra o tutor de IA, outras muito semelhantes que testemunhei em diferentes ocasiões contra projetos mais disruptivos de modernização. Não me esqueço do que se disse aquando do anúncio do Cartão de Cidadão: que vinha aí o "Big Brother", que podíamos até ser clonados, que era de todo uma promessa falsa e um projeto impossível.
Maria Manuel Leitão Marques in dn.pt

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Maria Manuel Leitão Marques é uma euro-deputada da área da Economia, mas como é sabido toda a gente fala de educação como se fosse especialista.

O argumento dela para defender o tutor de IA é a necessidade dos alunos terem explicações fora da escola e os mais desfavorecidos não terem dinheiro para pagá-las. Acho este argumento fantástico: então agora, um sistema de explicadores privados já faz parte do projecto da escola pública?

Diz que o projecto não se destina a substituir professores, mas é mesmo disso que se trata: não havendo vontade política de investir na escola pública para captar jovens para a profissão e sabendo-se que a falta de professores se vai agravar ainda mais, dá-se a cada aluno um substituto de professor.

Quando havia professores em abundância nas escolas os alunos não precisavam de explicadores privados - nós próprios fazíamos esse serviço, os apoios estavam no nosso horário lectivo. Eram muito eficazes. Nuno Crato foi quem acabou com isso para mandar 30 mil professores embora e poupar dinheiro. Agora não há professores para leccionar as aulas quanto mais para apoios/explicações. Assumam, em vez de virem com falsos argumentos sobre os tutores de IA serem bons para os alunos. Não são.

O tutor de IA não é um substituo de professor. Uma coisa é usar-se a IA para projectos orientados por professores, o que já se faz e há-de fazer-se muito mais no futuro. É excelente, mas outra coisa diferente é usar um tutor de IA para aprender conteúdos ou para lhe fazer os trabalhos escolares.

Não sei se esta deputada já ouviu falar de Marco Buscaglia, um colaborador do Chicago Sun Times que escreveu um artigo com uma lista de livros de leituras de Verão, onde apenas 5 existem. Quando os leitores começaram a interrogar o jornal sobre aqueles livros inexistentes, Marco Buscaglia confessou que pede ao seu tutor de IA para lhe escrever os artigos para o jornal. Disse que costuma ir verificar se as informações da IA são correctas (cof, cof...) mas daquela vez se tinha esquecido.

A qualidade do conhecimento académico tem vindo a decair. Dantes íamos consultar enciclopédias e dicionários escritos por estudiosos nas áreas, depois veio o google e passámos a ir ao google e à Wikipédia onde escreve qualquer pessoa, mas ainda assim, tem controladores humanos que verificam as informações e conhecimentos que lá aparecem. Agora vai-se à opinião média do indivíduo médio do planeta - que como se sabe tem imensa credibilidade. Há um par de semanas o Grok de Musk respondeu a uma pergunta sobre o Holocausto dizendo que a sua realidade era polémica.

Uma coisa é um adulto, já formado e com conhecimentos usar a IA para buscar informações e ter espírito crítico para avaliar o que lê, outra coisa são crianças em processo de desenvolvimento das estruturas do próprio conhecimento, completamente vulneráveis, usarem tutores de IA.

O outro argumento da deputada a favor dos tutores de IA é o de serem "projectos disjuntivos de modernização" (algo que não se dá ao trabalho de explicar e deixa assim para parecer que é algo muito à frente) de maneira que quem adverte contra os perigos do seu uso é não-moderno ou atrasado - é o que deixa subentendido.

Finalmente dá como exemplo de "projecto disjuntivo de modernidade" que teve críticas, o caso do Cartão de Cidadão que muito diziam que era o Big Brother. Pasmo que esta política euro-deputada não perceba que é exactamente isso. Desde que temos o CC com dados biométricos que as autoridades, dentro e fora do país, sabem tudo a nosso respeito e se quiserem usam-no como ferramenta de controlo, como aliás já se faz na China de modo agressivo. Sim, é um meio de segurança e um instrumento muito eficaz e facilitador, burocraticamente falando, mas tem esse lado de intrusão na esfera da nossa privacidade. É tão eficaz que a deputada nem se apercebe disso.

Ora, o tutor de IA, não tem os benefícios de segurança ou de desburocratizarão do CC e tem os malefícios de ser um meio de informação não credível e manipulador de crianças e jovens em idades vulneráveis, intelectual e psicologicamente.

November 29, 2025

"Os professores são indispensáveis mediadores culturais e humanos" - Tolentino de Mendonça




Tolentino de Mendonça partilha Prémio Eduardo Lourenço com a “classe dos professores em crise”

O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores.

"Quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui", declarou o cardeal, nesta quinta-feira, na Guarda 

O cardeal e poeta falou da “precariedade nas condições de trabalho”, da “complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos” e de “uma espécie de solidão social” que afectam tantos professores.

"Diz-se hoje que são uma classe em crise e que perdeu o prestígio social que lhe estava associada. São preocupantes, em muitas partes do mundo, os indicadores do desgaste, desmotivação e burnout entre os professores", afirmou o cardeal José Tolentino de Mendonça que partilhou nesta quinta-feira o Prémio Eduardo Lourenço, atribuído pelo Centro de Estudos Ibéricos (CEI), na Guarda, a essa "classe em crise", pelo seu "extraordinário contributo social e cultural".

O poeta e escritor falava após receber o galardão na sessão solene dos 826 anos da fundação da Guarda. Dizendo-se "muito grato" pelo prémio, considerou que o legado do pensador e mentor do CEI, Eduardo Lourenço, é "relevar o papel da Educação e da figura do professor".

José Tolentino de Mendonça disse que os professores se sentem "remetidos a uma precariedade nas condições de trabalho, perdidos na complexidade sempre maior dos requisitos burocráticos para o desenvolvimento das próprias funções, ou então apresentam-se feridos por uma espécie de solidão social". "É como se aquilo que tivessem para dar, hoje, valesse menos."

O prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação no Vaticano deixou um aviso: "A irrelevância dos professores é um alarme para as sociedades porque, quando o investimento em educação não se realiza, é a qualificação da cidadania que diminui."

E continuou: "Numa época de acelerada transformação, como a que vivemos, onde se inauguram tantas possibilidades, mas também tantas incógnitas, como o impacto da inteligência artificial, a omnipresença da tecnologia, a crescente incerteza e vulnerabilidade entre os jovens, precisamos de potenciar o papel dos professores como indispensáveis mediadores culturais e humanos."

Para Tolentino de Mendonça, o professor "não é uma profissão do passado, é uma missão indispensável ao futuro", porque é necessária a existência de "mestres e educadores, não só para encontrar respostas, mas para formular perguntas".


November 28, 2025

The skills of the future needs the skills of the past

 



Uma coisa que noto é que a grande maioria dos alunos de hoje não vêm preparados para aprender, muito menos para pensar. Aliás, nem sequer sabem escutar. Vêm preparados para dar opiniões a partir das informações desconectadas, superficiais e, muitas vezes, falsas ou erróneas, das redes sociais. Os pais mandam os filhos para a escola cobertos com uma capa de verniz dura. Nenhuma porosidade. Tudo resvala. Isto resulta em parte das novas tecnologias alienantes e castradoras do desenvolvimento cognitivo mas não só, porque estes mesmos alunos, quando querem muito aprender futebol ou videojogos ou outra coisa qualquer do seu perfil de viciados em entretenimento, são capazes de ter uma atitude receptiva de aprendizagem. Portanto, esta atitude perante a educação escolar resulta em grande parte da desvalorização intencional do respeito pela aprendizagem escolar (os ritmos e esforços que implica) que os governos ocidentais injectaram nas sociedades nos últimos 20 anos com intuitos meramente economicistas, apoiados pelos pedagogos da felicidade oca, com a cumplicidade ignorante dos pais e a ganância das corporações tecnológicas.

November 20, 2025

Dez competências básicas que os alunos da 3º classe já não sabem fazer


Uma professora primária listou dez competências básicas que os alunos do 3º ano já não sabem fazer: como ler um relógio analógico, contar dinheiro físico ou escrever em letra cursiva, conseguir memorizar os números de telefone dos pais, saber o endereço da sua casa, saber usar um dicionário, seguir instruções com várias etapas, atar os sapatos, lembrar-se dos nomes dos pais, saber de onde é a sua família ou lembrar-se do ano em que nasceram.

 

@mommy_n_zachy What’s happening to our kids? I need answers!! #teachertok #elementaryteacher #teacherproblemsboredteachers #teacher ♬ original sound - mommy_n_zachy

 

O que torna a situação ainda pior, segundo ela, é que muitos alunos não parecem muito interessados em aprender essas competências básicos e para os professores, começar do zero em tantas tarefas fundamentais torna ainda mais difícil um trabalho já de si exigente, especialmente quando turmas grandes e tempo limitado já sobrecarregam a sua capacidade.

O que torna a situação ainda muito mais preocupante, a meu ver, é que um muito grande número de alunos, quando chegam às minhas mãos no 10º ano, ainda não sabem o número de telefone de um dos pais, o nome completo dos pais, o endereço da sua casa, ler um relógio analógico, ler letra cursiva (não percebem a sua própria letra e pedem-me ajuda para decifrá-la), usar um dicionário, seguir instruções com várias etapas, não sabem a profissão dos pais, não sabem de onde são as suas famílias, não sabem o que é uma dezena, uma dúzia, uma quinzena, não sabem as provincias/regiões do país e outras coisas básicas que agora não lembro.

O exemplo da professora do vídeo refere-se a alunos nos EUA e os meus alunos são portugueses e o que isto mostra é que existe uma decadência da educação que é global e não local e o facto determinante deste padrão é a tecnologia digital: os smartphones que ensinam as crianças a não aprender e a não querer aprender. Dado que têm no bolso um assistente que sabe tudo por eles, já interiorizaram que a aprendizagem é desnecessária. Pelos vistos os pais também interiorizaram a ideia de que não precisam ensinar nada aos filhos, dado que eles têm um smartphone. Leio que aqui no país o PM quer estupidificar ainda mais os alunos e dar a cada um um assistente digital que lhes ensine a irrelevância do esforça na aprendizagem e a desnecessidade da procura do saber.

Ontem estive num hospital e na sala de espera, um pai com uma criança ainda de chupeta, sentou-se e deu à criança um smartphone para se entreter enquanto ele fazia scroll no seu telemóvel.  Continuem assim que vão bem.

November 14, 2025

Porque é que os médicos mais novos não estão dispostos a sacrifícios




Porque é que os médicos mais novos não querem trabalhar as horas necessárias para serem... cirurgiões?

Henrique Raposo
Expresso

Boa tarde.

Há um ano, mais coisa menos coisa, causei uma certa polémica porque critiquei a geração mais nova dos médicos, a geração que agora tem um nome pejorativo: tarefeiros. Tive razão antes do tempo, devia ter feito esses textos só agora: agora, sim, parece que há uma abertura social ou cultural para se criticar esta atitude à “tarefeiro”, à “biscateiro” na medicina.

Até a Ordem dos Médicos critica, lembrando que há princípios éticos básicos nesta profissão, que, por razões óbvias, é diferente de todas as outras. Sucede que os médicos da Gen-Z e até da geração millennial têm alguma dificuldade em compreender esse espírito de corpo e sacrifício inerente à profissão. Porque, médicos ou não, esta geração tem de facto um problema laboral, vê na ética de trabalho uma usurpação do lifestyle.

Durante aqueles dias de polémica, fui criticado em público por jovens médicos e elogiado em privado por médicos mais velhos, que, na linha de Eduardo Barroso, veem algo de quase criminoso no que a nova geração anda a fazer ou a não fazer. Álvaro Beleza vai no mesmo caminho. Aliás, este debate entre mais velhos e mais novos atravessa a classe médica em todos os países. Quando os médicos novos americanos pedem mais equilíbrio trabalho/lazer, os mais velhos reagem e relembram que “that’s not the job”. O lifestyle não é para os médicos. Tal como não é para polícias, por exemplo, ou bombeiros sapadores, ou artistas, ou jornalistas.

Portanto, parece-me que a base do problema aqui é que há de facto um problema entre a Gen-Z e o trabalho. Parece mesmo que o trabalho é mais stressante para a Gen Z do que o desemprego - não é piada, é um trabalho sério do jornal “The New York Times”. Esta aversão ao trabalho de uma geração torna-se obviamente ainda mais grave quando falamos de médicos.

Sim, há que criticar, não os médicos em geral, mas uma geração mais nova que recusa fazer horas, recusa fazer os horários “chatos”, recusa até fazer especialidades e que – o que é ainda mais grave – está a colocar em causa a posição de cirurgião.

Como dizia há dias na Renascença o presidente da associação de administradores hospitalares, muitos jovens médicos não querem muito simplesmente trabalhar as horas necessárias para serem cirurgiões; não acham atrativo, acham que é demasiado trabalho. Isto é de uma gravidade imensa, tal como é imenso o silêncio sobre o tema. Isto devia gerar polémica e urgência no debate. Esta falta de cirurgiões (presente e futura) parece-me um problema ainda mais grave do que os interesses instalados dos tarefeiros.

No sector privado, os responsáveis dizem a mesma coisa: os médicos mais novos não querem trabalhar como as velhas gerações, mas parece que não se passa nada, aceita-se isto como normal ou inevitável. E, de resto, há uma contradição neste discurso dos responsáveis, públicos e privados. Por um lado, uma responsável respeitadíssima como Isabel Vaz diz que é preciso perceber que os médicos mais novos não querem trabalhar tanto, mas depois diz também que eles, os médicos, são como uma tropa de elite. Mas como é que se entra numa tropa de elite sem uma ética de trabalho e de serviço, como é que se entra numa tropa de elite se recusamos fazer horas e dar tudo pela missão?

Mais: como é que pode haver especialistas e cirurgiões se não trabalharem as horas que as gerações anteriores trabalhavam? A resposta é que não há e não haverá. Eis portanto um dado gravíssimo que está por debater: em breve, teremos uma carência gravíssima de cirurgiões.

E repare-se que este problema não é só português, é de uma geração inteira no ocidente inteiro. Na Polónia, discute-se o envelhecimento dos cirurgiões e a falta de cirurgiões mais novos, pois os médicos da nova geração não querem o trabalho extra e acham a tarefa demasiado stressante. Ou seja, não querem a responsabilidade.

Na Alemanha é igual. Idem para o Canadá. Idem para Inglaterra.

Aliás, no Reino Unido há uma desistência da própria profissão.Idem para os EUA. Em breve, só nos EUA faltarão cerca de 25 mil cirurgiões. É uma mudança sísmica que põe em causa a saúde da população inteira e, repito, é impressionante que não se fale mais do assunto. Porque não me parece que o problema seja a falta de dinheiro. Há aqui um bloqueio cultural de uma geração que recusa simplesmente trabalhar o número de horas necessárias para se treinar e praticar cirurgia. E isto é algo que já se nota pelo menos desde 2010, o que significa que o problema também marca os millenials.

Para terminar, sobram quatro grandes questões.

Primeira: se não queriam a responsabilidade e o stress da profissão, porque é que entraram nas escolas de medicina? Não será altura de mudarmos a forma como selecionamos os alunos das faculdades de medicina?

Segunda: um cirurgião veterano sente que a cirurgia em geral está a ficar mais perigosa para os doentes; os mais velhos sentem que os mais novos estão impreparados, algo registado nos EUA e em Portugal pelos mais velhos.

Terceira: com uma geração de médicos assim, ancorados no ethos da Gen-Z, não há sistema de saúde que aguente, cá e lá fora.

Quarta: tendo em conta esta deserção dos próprios médicos, será que a profissão de médico não será uma das primeiras grandes vítimas da Inteligência Artificial?

Um abraço,
Henrique

October 06, 2025

Acabo de ver o Filinto na TV a fazer lobby contra os professores

 

A apelar aos ministérios da Saúde e da Educação para conspirarem no sentido de impedirem que os professores doentes sejam reconhecidos e tratados como tal, como manda a lei. 

A notícia deste lobby contra os professores é de ontem, do dia do Professor. É a maneira deste director lutar pela profissão de professor.

Filinto Lima tem sido conivente com todas as políticas de destruição dos sucessivos MEs desde há muitos anos.

Na semana passada saiu aí um tal de inquérito aos diretores, coordenadores e professores que concluiu que 95% aprovam as direcções das escolas em que estão. Não fui ver como o inquérito foi feito e quem interrogaram, de facto, mas estou no sistema educativo há cerca de 40 anos e para acreditar nesse resultado teria de acreditar na percentagem de 95% de votos com que Putin foi eleito.



October 02, 2025

Completamente de acordo


Empatia?
Paulo Guinote
DN

Lê-se e custa a acreditar. Os candidatos excluídos do “Concurso Especial para Acesso ao Mestrado em Medicina por Titulares do Grau de Licenciado” da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto por não terem cumprido os critérios definidos para serem aprovados, acusam o Reitor da instituição de “total falta de empatia” ao longo do processo.

Eram 37 as vagas que ficaram por preencher, pois os candidatos, numa prova de conhecimentos com 100 perguntas de resposta múltipla, não conseguiram atingir o patamar definido no Regulamento que determinava que “serão excluídos, para efeitos de colocação, os candidatos com classificação inferior a 14 valores na prova de conhecimentos” (n.º 4 do artigo 7.º). Algo que os candidatos conheciam por ser um Regulamento já de 2019.

Não me interessam aqui as polémicas entre os envolvidos, nem se o Regulamento em causa é adequado ou não, mas apenas o argumento da “empatia” como relevante para o processo de selecção dos candidatos. Ou seja, os ditos candidatos queixam-se de o Reitor não se ter colocado na sua posição e não ter tido a capacidade de sentir o que eles sentiram ao verem-se excluídos do concurso. Se estão a usar o termo “empatia” na acepção correcta. Desconhecendo o Reitor e não pretendendo avaliar ou defender as suas acções, tenho alguma dificuldade em aceitar que se considere a “empatia” como critério de acesso a um qualquer curso superior e por maioria de razão a um mestrado especialmente exigente.

Claro que se nos colocarmos no lugar de quem viu ficar por satisfazer um desejo, cumprir um objectivo, atingir uma meta, é natural que se compreendam o desânimo e a tristeza. Mas, daí a aceitar que a compreensão desses sentimentos seja argumento para contornar o processo de selecção previamente definido e conhecido é um salto (i)lógico que me escapa. Compreendo que isso seja a consequência natural de um “paradigma” que se instalou no nosso sistema educativo desde os ciclos iniciais de escolaridade no sentido de se considerar que o “sucesso” é um direito e não o resultado de um esforço. Que o “sucesso” é algo quase garantido se tivermos em conta os sentimentos e não apenas o desempenho de quem quer aceder a algo.

Se isto se passa no acesso ao segundo ciclo de estudos universitários, imagine-se o que se passa em ciclos de estudos “inferiores”, do Básico ao Secundário e as argumentações tidas como válidas para criticar quem não usa a “empatia” como critério de avaliação dos seus alunos. Só que há uma diferença entre compreender as dificuldades e obstáculos que muitos alunos precisam de ultrapassar e aceitar que isso é critério para garantir a satisfação dos seus desejos, independentemente do seu desempenho.

A sério, gostava mesmo que existisse uma pequena noção dos danos e da erosão que este tipo de mentalidade tem causado no nosso sistema educativo, desde a sua base.

*********

Este ano tenho turmas do 10º ano. 'Perco' sempre muito tempo, neste ano de escolaridade com a introdução de metodologias de pensamento e de trabalho próprias da disciplina de Filosofia, com vista a que progridam de pensadores irreflectidos para, pelo menos, pensadores conscientes e alerta - algo que eles consideram aborrecido porque ainda não percebem a importância de pensar e ajuizar com critérios que emprestem qualidade ao pensamento - quero que aprendam a perceber as falhas no pensamento e argumentação aplicando esses critérios como parâmetros de avaliação.

Estávamos na última aula a analisar um conjunto de critérios que devem ser respeitados nos raciocínios e argumentações para que sejam válidos e quando chegámos ao critério da relevância dei um exemplo em forma de questão: - suponham que um aluno me diz, relativamente a uma nota de 10 num teste, que a nota é injusta porque estudou muito para esse teste. O argumento da quantidade de estudo é relevante, é pertinente, para o juízo da adequação da nota?' Ou, suponham que uma pessoa treinou 5 anos para uma maratona e chegou quase em último e outra que treinou só 1 ano ganhou a prova? Os anos de treino podem servir de argumento pertinente para reclamar um lugar no pódio?' _ Não, foi a resposta que todos deram, embora um ou dois acrescentassem que é uma situação chata, injusta. Mas é injusta?, perguntei.  _Não, é justa porque o pódio é para os que mostram resultados. Mas é chato e é chato estudar muito e não ter boa nota.

Devia ser evidente para estudantes no fim da licenciatura que a quantidade de horas que estudaram ou o gosto que têm por uma profissão não é relevante para serem admitidos sem que cumpram os mínimos exigidos por esse curso. 

Esta confusão entre empatia e justiça, entre empatia e exigência de direitos, incentivada por ministros de educação, tem feitos estragos imensos na qualidade da educação, na qualidade da formação das crianças e jovens.

September 25, 2025

Não, não é

 

Para além do peso esperado das reformas por motivo de idade, mais de 50% dos docentes com menos de 30 anos consideram abandonar a carreira. Mas a capacidade de atração da escola pública ainda é real: quase um em cada quatro docentes das escolas privadas admite concorrer ao ensino público.

https://www.publico.pt/

A escola pública só é atractiva para quem já está no ensino, não para quem procura uma carreira para seguir. É atractiva para professores do ensino privado, onde muitas escolas tratam os professores ainda muito pior que no público; resta ver se esses professores aguentariam as turmas enormes do público, com alunos não escolhidos a dedo entre as famílias com mais poder económico e educação condizente, mas todo e qualquer um que entre pela porta da sala adentro. É que é outro universo completamente diferente. Portanto, se é com base neste raciocínio que constroem os outros, é melhor rever as conclusões.

"Afinal, quem nos governa? "




Na passada semana, a ministra da Saúde fez uma declaração que não mereceu a devida atenção, pelo que revela do papel actual de alguns governantes, meras testas de ferro daqueles que efectivamente definem as políticas públicas em áreas cruciais da governação. Transcrevo de forma extensa as declarações colhidas e transcritas pela SIC Notícias:

“Aprendi que nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece. A situação que se vive na península de Setúbal é muito preocupante. Acreditei no plano que me foi apresentado e confiei nas equipas. Foi muito penalizador para mim ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer perceber porquê (…)”

Estas declarações são especialmente preocupantes, não apenas pela realidade que retratam, até porque quem vive na região conhece a crescente disfuncionalidade do SNS, mas pelo modo como a ministra revela o processo de tomada de decisões e o seu papel de mera comunicadora pública de soluções que a transcendem e nem sequer parece compreender.

No fundo, ela considera-se penalizada porque assumiu politicamente uma solução que lhe garantiram que funcionaria e nem percebe porque foi “desfeita”. A afirmação de que “nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece” é um auto-atestado de incompetência acerca da área que tutela, porque revela que foi incapaz de avaliar se o que lhe foi apresentado era credível ou realizável. Apenas acreditou que sim, porque alguém lhe garantiu que funcionaria. Mas quem lhe garantiu isso? E, já agora, para que serve uma governante, se o seu papel é apenas o de “assumir politicamente” o que outros definiram?

De certo modo é como com a Educação, sem as consequências letais de curto prazo, para a Saúde Pública. Alguém convenceu o ministro a assumir uma “solução” que levaria à colocação de professores em 98-99% das escolas, o que é algo que só alguém com um enorme desconhecimento do terreno pode tomar como verdadeiro. Será que acha que é por acelerar o processo de contratação de professores que eles brotam onde não existem? Do mesmo modo, foi convencido a assumir uma “reforma” da orgânica do ministério que outros delinearam e cujas consequências práticas ele dá toda a sensação de desconhecer. A seu favor tem algo que a ministra da Saúde não tem… a relativa acalmia causada pela recuperação do tempo de serviço, mas, no essencial, é outr@ governante que assumiu “soluções” que lhe foram apresentadas como garantidas e não o são.

Claro que a questão que se coloca é… afinal, quem é que anda a vender “soluções” a estes governantes? E a segunda questão é… porque temos governantes que “assumem soluções” em vez de tomarem decisões com base nos seus conhecimentos, na sua competência técnica e na sua capacidade política? Ou, resumindo, quem é que, afinal, nos anda a (des)governar?

Paulo Guinote in DN

September 22, 2025

Educação: as consequências de se escolher políticos sem conhecimentos e políticas de curto prazo

 


Mais de 20 anos com ministros da educação completamente ignorantes do que é o ensino não universitário, em governos que só pensam até ao próximo mês, deu nesta catástrofe, há mais de 10 anos anunciada por todos nós que nos encontramos no sistema. Um enorme esforço que foi feito nos anos 80, durante mais de 20 anos, de investir na qualidade dos professores, deitado ao lixo por políticos sem conhecimentos e com políticas de curto prazo. Políticas de enfiar dinheiro em bancos e em investimentos de amigos, em edifícios faraónicos e sociedades de advogados amigos...
O 1º ciclo é aquele em que é mais importante o professor ter conhecimentos sólidos de pedagogia porque os alunos estão num nível de autonomia zero, de modo que interiorizam todos os ensinamentos, bons ou maus, sem nenhuma capacidade de se auto-corrigirem. É quando se aprende a ler, a escrever e a calcular e uma má aprendizagem condiciona toda a aprendizagem seguinte, construída sobre aquelas primeiras aprendizagens.
Mas nem mesmo nesta catástrofe se pensa em valorizar a profissão.


Ministério admite docentes não profissionalizados no 1.º ciclo, Missão Escola Pública diz que não é legal

Orientações servem, segundo a tutela, para "alargar o universo de candidatos elegíveis e reforçar a capacidade de resposta das escolas" 

Tiago Bernardo Lopes

Movimento de professores questiona legalidade das orientações do ministério. “A rede pública está a dividir-se entre escolas com professores profissionalizados e escolas asseguradas por remendos.”

A nova Agência para a Gestão do Sistema Educativo (AGSE) ​enviou esta semana às direcção das escolas (...) algo que o movimento de professores Missão Escola Pública considera que "não está previsto na lei". E que terá consequências negativas na educação de muitas crianças, sobretudo no Sul do país.

A missiva é assinada por Raúl Capaz Coelho, presidente do conselho directivo da agência que tem como missão gerir o sistema educativo, (...) e defende que "essa possibilidade permite (...) reforçar a capacidade de resposta das escolas, contribuindo para o preenchimento dos horários e para a estabilidade do funcionamento."

"Estão a dar possibilidade de não profissionalizados leccionarem 1.º ciclo, o que não está previsto na lei", diz Cristina Mota, que cita o Decreto-Lei 80-A, de 2023, onde esta possibilidade está contemplada para várias disciplinas, mas não para o pré-escolar e 1.º ciclo. 

A nova orientação é, na perspectiva desta professora, problemática. 
"É grave porque no pré-escolar e no 1.º ciclo estamos a falar dos primeiros anos de escolaridade, do início do percurso dos alunos, das bases — que são essenciais para o percurso académico. Têm de ser professores qualificados, do ponto de vista pedagógico, a garantir essas bases". 
"Isto vem reforçar a teoria da Missão Escola Pública de que temos duas realidades, uma a Norte e outra a Sul do país." A Norte, não há a carência de docentes que se verifica a Sul".

O problema já tinha sido levantando para outros níveis de ensino. Numa análise às colocações de professores (...) este movimento concluiu que "a Norte, os alunos têm aulas asseguradas por professores profissionalizados e experientes, colocados pelo concurso nacional, e a Sul, a maioria dos horários não encontra resposta e acaba entregue através de contratação de escola a recursos humanos sem formação em ensino e sem qualquer experiência".

"É o retrato de uma escola a duas velocidades, onde a qualidade do ensino começa inevitavelmente a ser colocada em causa", descrevia o movimento em comunicado. "A rede pública está a dividir-se entre escolas com professores profissionalizados e escolas de recurso, asseguradas por remendos. Esta realidade compromete de forma grave a equidade no acesso à educação, transformando o local onde se nasce e estuda num factor determinante da qualidade do ensino a que se tem direito."

Com as orientações agora enviadas às escolas abre-se a porta no pré-escolar e no 1.º ciclo a profissionais que não têm formação específica ou formal para exercer a profissão de professor — têm uma licenciatura, mas não concluíram o mestrado que os habilita profissionalmente para a docência. 

Ao argumento de que ao longo dos anos, muitas gerações de alunos tiveram docentes não profissionalizados, Cristina Mota lembra que no passado as licenciaturas tinham quatro ou cinco anos. E hoje têm apenas três. "Não preparam as pessoas da mesma forma." 

E acrescenta que a este problema se somam outros, que acentuarão, no futuro, o fosso que já se verifica numa série de indicadores de desempenho académico entre os alunos do Norte e do Sul do país. Por exemplo: "Medidas de promoção do sucesso escolar, como as turmas por turnos e ou os reforços em certas disciplinas" não estão a ser aplicadas nas escolas do Sul, precisamente por falta de docentes.

September 17, 2025

Alunos de todos os continentes

 


Hoje conheci a outra turma do 10º ano. São simpáticos e pareceram-me atinados, conscientes do mundo em que vivem e uma mão-cheia deles pareceram-me cheios de interesse em aprender. Pareceu-me haver ali um bom potencial e isso motivou-me (hoje uma colega contou-me que tem uma turma do 8º ano que tem lá 14 leitores! Alunos que lêem livros regularmente. Nem tudo está perdido). Entre as duas turmas do 10º tenho alunos da Ucrânia, do Senegal, do Casaquistão, da Venezuela, da China (um dos chineses só fala mandarim) e outros do Brasil e de Angola, mas como estes falam português é como se não fossem estrangeiros. Tenho alunos, não dos PALOPs ou do Brasil, que já são imigrantes de 2ª geração.

Há falta de professores de Português Língua Não Materna. Estes alunos tinham que ter aulas de PLNM todos os dias. Enfim...


September 15, 2025

Professores em França - depressão, esgotamento

 

Igual em todo o lado. Populações de estudantes com gente dos quatro cantos do mundo, miúdos com problemas mentais, problemas de aprendizagem, tudo é atirado paras as escolas sem nenhum apoio, para os professores e as direcções tratarem de tudo. Os pais cada vez mais agressivos. Este director sai da escola a olhar por cima do ombro e pelo espelho retrovisor para ver se é seguido, dada a quantidade de insultos e ameaças. Na semana passada, uma directora de uma escola suicidou-se. Mesmo se nove em cada dez professores gosta da profissão, metade quer mudar de profissão. Isto passa-se lá e passa-se cá.


 

September 13, 2025

Mais uma opinião na CNN

 

"Nas escolas em que os telemóveis foram banidos os tempos de utilização não baixam"

A proibição de uso do telemóvel está a aumentar a socialização nas escolas, mas pode também aumentar a agressividade entre alunos.

Tito Morais, criador do projeto Miudos Seguros na Net, defende a necessidade de "aprender a conviver com as tecnologias" e diz que banir os aparelhos das escolas não é solução.

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1º - Não consegui saber quem é este Tito Morais, qual é a sua formação, se é em desenvolvimento infantil e adolescente, psicologia, pedagogia ou apenas telemóveis;
2º - Fala em tecnologias e telemóveis como se fosse tudo a mesma coisa, mas não é; Os alunos não precisam de telemóveis para usar tecnologias nas escolas, em tempos e situações controladas;
3º - Vi o vídeo no link e o senhor Tito mais o entrevistador da CNN citam mais de um estudo dizendo depois que não sabem nada do estudo ou que o estudo não é representativos porque centenas não responderam, nem referem as datas dos estudos... Enfim, depreende-se que um deles é do ano passado pois refere-se às escolas onde foram proibidos os telemóveis.

Ora, é evidente que, se proibimos o uso de telemóveis a crianças e jovens que já estão mais ou menos ou mesmo viciados no seu uso, em redes sociais, em sites de javardices e de violência, eles tornam-se agressivos. Vão passar anos até termos uma geração de crianças a entrar nas escolas que não venha de casa já viciado e deformado por redes sociais, pornografia, sites de violência, etc.

Conheço alguns casos de miúdos que andam em colégios privados onde nunca tiveram autorização de levar telemóveis para a escola. Os pais também nunca lhes puseram telemóveis na mão, de maneira que não há, nem estranheza, nem violência. É uma continuidade do que é a sua educação.

Portanto, vai ser preciso educar os pais, consciencializá-los do perigo que os telemóveis trazem ao desenvolvimento dos filhos, pois assim que os miúdos nascem metem-lhes um telemóvel na mão para não os aturarem e depois quando querem parar esses vícios, já não conseguem e os miúdos tornam-se agressivos e mostram sinais de ressaca.

Também vai ser preciso fazer o que já fazem alguns países nórdicos que é proibir o acesso a sites e redes sociais a partir da hora do jantar e obrigar as plataformas a responsabilizarem-se pelos conteúdos.

Depois, este Tito só fala no bullying, mas o pior do vício dos telemóveis é a ausência da aprendizagem de processos mentais, de linguagem complexa, de raciocínios discursivos, de vocabulário, de conceitos, de capacidades de comunicação, de gestão da ansiedade, com a consequente regressão da inteligência, tendência persistente no mundo Ocidental que todos os indicadores internacionais mostram, desde a introdução dos smartphones. O pior é a sobrecarga de estimulação dos telemóveis que mata toda a curiosidade, o interesse, a motivação, a capacidade de estar aborrecido, sem entretenimento, a desenvolver a sua imaginação, focado num problema ou numa tarefa até resolvê-la. Como pode ser bom para eles irem dormir todos os dias às 2 e 3 da manhã porque ficam a ver pornografia ou a jogar jogos violentos com adultos no outro lado do mundo.

Já experimentámos durante 20 anos a exploração dos miúdos através dos telemóveis e o resultado é persistente e consistentmente mau, não apenas psicologicamente, mas socialmente e em termos de aprendizagem. Está na altura de experimentar desviciá-los. Esta teimosia em defender o vício do telemóvel parece a teimosia que dantes havia em defender os benefícios do tabaco.

September 10, 2025

Que surpresa...

 

A falta de professores é tão dramática e a procura pela profissão é tão escassa que se aceita qualquer um. 


Percentagem de docentes sem habilitação profissional aumentou

Relatório anual da OCDE 'Education at a Glance' volta a fazer referência à necessidade de valorizar a carreira docente. Mais de metade dos professores em Portugal tem mais de 50 anos.
DN

Primeiro aprendes para ler e depois lês para aprender

 

É muito mais difícil ensinar um aluno do 4º ano a ler que um do 1º ano. Dado que tens de saber ler para poder aprender, imagine-se como é difícil ensinar um aluno que chega ao 10º ano sem saber ler e como é tentador para eles recorrerem à IA para fazer o que não aprenderam em 10 anos de escolaridade. Como é que os alunos chegam ao 10º ano sem saber ler? Perguntem aos decisores das políticas educativas desenhadas para a mediocridade.

Quando as regras se tornam um fim em si mesmo II

 

No nosso sistema educativo o caso de se ter sacrificado a pedagogia ao cumprimento rigoroso de regras processuais, esvaziou o processo educativo de mérito. E os resultados estão à vista. Este ano, os alunos do 6º ano estão ao nível do 4º no que respeita ao domínio da Língua Portuguesa e os do 4º ano sabem mediocremente, Português e Matemática.

O objectivo de sobrecarregarem o ensino com regras processuais foi o mesmo que é descrito no artigo do post anterior: reduzir a arbitrariedade, aumentar a igualdade. Para esse fim, implantou-se um sistema de total controlo dos professores, através de processos burocráticos, sobretudo no que respeita à avaliação. 

Por exemplo, a ministra Rodrigues obrigava a que todos os professores do país, dissessem certas frases aos alunos, durante os exames, exactamente à mesma hora; o ministro anterior, Costa, redigia textos gigantescos e improdutivos para as escolas com regras de como os professores devem acender a luz ou algo do género e este ministro instaurou uma burocracia que implica fazer reuniões do Conselho Geral (um orgão que tem pais, representantes da Câmara e outros membros exteriores à escola), sempre que um professor quiser dizer a palavra 'sexo' nas aulas.

Os exames foram sendo reduzidos a escolhas múltiplas para que nenhuma resposta pudesse ter a correcção, que tem sempre algo de subjectivo, do professor e serem todos avaliados igualmente. O valor 'igualdade' está agora muito acima do valor, 'educação'. O problema é que esse tipo de avaliação não incentiva ao melhoramento pessoal (nem formativo nem de conhecimentos e competências), como sacrifica os melhores alunos, aqueles capazes de mostrar conhecimento e técnicas de modo extremamente competente, personalizado e original. À força de quererem anular a subjectividade inerente ao processo avaliativo, promoveram a mediocridade a norma. 

Do mesmo modo os professores gastam horas infindas a introduzir dados em plataformas de controlo do seu trabalho. A Rodrigues chamava-lhes «evidências» e avaliava os professores pelo número de evidências apresentadas. 

Resultado: tarefas que são comuns no âmbito de uma disciplina, como por exemplo, organizar sessões de argumentação na Filosofia, passaram a ser feitas de maneira a que pudessem depois ser introduzidas em plataformas em forma de evidências, sacrificando o próprio processo de aprendizagem dos alunos. Esse grande erro continua e ainda agora, se falamos com um colega num intervalo sobre avaliação ou currículos ou outra coisa qualquer, ele depois produz uma folha com a descrição da conversa e põe no seu relatório de avaliação como evidência de qualquer coisa, por exemplo, "promoção da qualidade do desenvolvimento dos currículos através da discussão..." Era de tal maneira que havia quem escrevesse 20 páginas no seu relatório de avaliação para mostrar muitas «evidências» e teve de legislar-se para não deixar que se escrevessem mais de 3.

Melhor seria que a Rodrigues tivesse criado estruturas de gestão escolar superiores, médias e intermédias, capazes de se responsabilizar pelo trabalho e inspecções independentes e pedagógicas (agora o que temos são inspectores que foram directores de escolas e são amigos deste e daquele) com critérios objectivos. Mas não, o que ela e os seguintes queriam era mesmo controlar os professores até ao absurdo.

Agora temos esta escola que trabalha muito para os papéis, pouco para os alunos e o resultado é a mediocridade. E todos fogem da profissão.

Dantes tínhamos um sistema educativo que sacrificava os que menos podem e têm e favorecia as elites, depois tivemos, durante um tempo, um sistema onde os que menos podem e têm tinham acesso, através da educação, ao elevador social, hoje temos um sistema que sacrifica os melhores para conforto dos mais medíocres. As elites saíram da escola pública.


September 03, 2025

Educação - completamente de acordo com o pensamento deste ex-ministro da educação sueco

 

Repare-se que na Suécia vão proibir os telemóveis até ao 9º ano, ou seja, durante todo o percurso escolar obrigatório, que acaba nesse ano ou aos 16 anos. Aqui a proibição é até ao 6º ano, metade do percurso escolar obrigatório no país, como se os alunos do 7º, 8º e 9º anos e até do 10º ano, onde chegam com 14 anos ou 15 acabados de fazer, tivessem algum tipo de maturidade para tomar consciência do efeito devastador dos telemóveis na sua formação pessoal e escolar. Mas aqui nunca se levam as decisões a bom porto com medo da opinião da Confap, esse organização desarrazoada que ainda está para contribuir um átomo para a educação escolar no país.


“Fomos ingénuos”: a Suécia, pioneira na digitalização da Educação, está “a voltar ao papel e à caneta”

“Regressar ao que é essencial” é a expressão mais repetida pelo ex-ministro da Educação de um país que já foi um modelo e que agora reequaciona várias da decisões tomadas nos últimos anos.

Nos anos 1990, a Suécia era considerada um modelo em termos de Educação. Os seus alunos conseguiam lugares de destaque nas avaliações internacionais feitas regularmente pela OCDE. E várias das políticas que tornavam aquele país especial — transferência de poder para as comunidades locais, grande investimento no ensino independente, garantia da "liberdade de escolha" total às famílias — serviram de inspiração a outros. O país foi também pioneiro na digitalização da educação. As escolas foram equipadas com computadores etablets. Livros de papel foram substituídos por manuais digitais. Mas, desde o início dos anos 2000, os resultados dos alunos começaram a piorar. Johan Pehrson, que foi ministro da Educação até Junho, sublinha que não foi só na Suécia. "Coincide com a entrada dos smartphones no mundo ocidental", e em especial na vida das gerações mais novas. E também na vida das escolas.

Esta semana, o ex-ministro sueco deu uma entrevista ao PÚBLICO, em Lisboa, onde está para participar no Book 2.0, um evento de dois dias, na Fundação Champalimaud, promovido pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, e que, até esta quinta-feira, debate o futuro dos livros, o papel que têm na evolução humana, e as novas formas de criar, aceder e partilhar leitura na era digital.

Lembrou que, por detrás de cada aplicação nas redes sociais, há milhares de engenheiros a pensar como é que a vão tornar mais atraente para as crianças. E viciante. É por isso que a escola deve ser "uma zona livre" de smartphones e redes sociais. Mas é preciso mais.

É preciso assumir que se foi demasiado longe no uso de ecrãs nas escolas, e que, afirma, é mesmo preciso ter livros, físicos, para aprender. "Pensámos que quanto mais ecrãs, quanto mais plataformas digitais utilizássemos, melhor sistema educativo teríamos." Foi um erro, reconhece. Foi por isso que o Governo anunciou uma reforma que passa por "regressar ao essencial": ler, escrever, saber matemática, garantir calma e disciplina nas aulas...

Pehrson liderou até recentemente o partido Liberais, que integra o Governo de coligação sueco, que está a operar várias reformas no sistema educação. Antes de ser ministro da Educação teve a seu cargo a pasta do Emprego e Integração. É advogado de formação. Um liberal que hoje também questiona um tema caro aos liberais: o financiamento público de escolas que não são geridas pelo Estado. Também esse modelo está a ser reequacionado. 
"Costumávamos ter um dos melhores sistemas escolares. Agora já não o temos, mas estamos a recuperar, diria eu."

Em Portugal, o ano escolar vai começar com a proibição de smartphones nas escolas até ao 6.º ano. O que está a ser feito na Suécia? E o que pensa da proibição?
Penso que é necessário ajudar todos os jovens que frequentam a escola a concentrarem-se na sua educação, porque devem ser capazes de se tornarem cidadãos independentes e capacitados para poderem realizar alguns dos seus sonhos e para poderem fazer parte do mercado de trabalho do futuro. É preciso apostar muito na educação. Assistimos nestes dias a uma conferência que juntou alguns dos piores ditadores do mundo, como a China, o Irão, a Rússia, que pretendem criar uma nova ordem mundial. Para defendermos a nossa liberdade, e para sermos competitivos, o sistema educativo é muito importante. E os smartphones são um grande problema. Nas salas de aula desviam a atenção… [Na Suécia] vamos proibi-los nas escolas, até ao 9.º ano.

É uma medida nova?
Sim. Também decidimos que devemos promover mais os livros de bolso, que todas as crianças devem ter o seu próprio livro, físico, em todas as disciplinas.

Há uns anos, a Suécia foi um dos primeiros países do mundo a investir fortemente na digitalização da educação, apostando nos em computadores, ecrãs, manuais digitais a substituir os livros em papel. E agora recuam porquê?
Fomos muito ingénuos, diria eu. A Suécia tem muito medo de uma coisa: de não ser um país moderno. Pensámos que quanto mais ecrãs, quanto mais plataformas digitais utilizássemos, melhor sistema educativo teríamos.

E isso está errado?
Estava errado. Estamos a voltar ao que é essencial, ao papel e à caneta, e aos livros em papel para os mais novos... Queremos ter engenheiros, os melhores e mais qualificados do mundo, queremos inteligência artificial (IA) e digitalização, mas isso é para a universidade e para depois da universidade.

É claro que no 7.º e no 8.º anos temos de ter uma sala de aula moderna, e aprender alguma programação e... Mas isso não é estar na escola a ver o TikTok. O TikTok é um submundo, é um mundo mau.

Os retrocessos nos resultados dos alunos, a que assistimos, devem-se a essa excessiva digitalização do ensino? As crianças estavam a perder a capacidade de aprender a escrever?
Sim. Há aspectos positivos nas plataformas, os pais podem acompanhar melhor o que estamos a fazer na escola, por exemplo, mas há uma visão geral que se perde quando não se tem um livro e uma educação mais tradicional. Depois, as redes sociais estão a envenenar a geração mais jovem.

Mas elas estão aí, e os jovens têm acesso.
Mas a escola deve ser uma “zona livre”. A escola é financiada pelo Estado, é o local onde as crianças de famílias desfavorecidas devem ter a oportunidade de se equipararem às outras crianças, porque a educação é a verdadeira ferramenta para tornar as pessoas independentes e prepará-las para o futuro.

Também temos de trabalhar no sentido de os pais serem responsáveis para que as crianças tenham uma infância mais livre de smartphones. Esta era a minha visão enquanto ministro da Educação. Mas o Governo sueco continua nesta via, o que me deixa muito satisfeito.

Todos esses ecrãs e plataformas digitais, tudo isso custou milhões.
Tudo foi muito subsidiado pelas empresas tecnológicas, pelo menos na Suécia, e havia uma enorme concorrência entre as duas maiores empresas, a Microsoft ou a Apple. Ofereceram muitas plataformas digitais, muitos computadores e ecrãs inteligentes, iPads ou similares. No início, argumentou-se que esta era uma forma de tornar o acesso a este tipo de tecnologias mais justo, porque também as crianças de famílias desfavorecidas podiam obter os seus equipamentos...

Mas hoje em dia vê-se que é ao contrário, que os miúdos privilegiados têm pais que lhes tiram os smartphones e lhes põem um livro à frente e dizem: "Leiam!"

É claro que se pode ter o equipamento e utilizá-lo na educação, mas tem de ter um valor acrescentado, cientificamente, não pode ser nos equipamentos pessoais dos alunos, no computador da escola, onde não há redes sociais e outras coisas a perturbar, e tem de haver os livros físicos, em cada disciplina, de Matemática, de Línguas, de Química…

Além disso, a criança deve poder ir para o pátio da escola no intervalo entre as aulas, deve encontrar-se com os seus colegas, deve discutir com eles, deve brincar, deve mexer-se para não ficar sentado, obeso e doente. É preciso conhecer pessoas, é uma forma de combater o bullying, de acabar com a solidão. Eu quero ter um dos países mais digitalizados do mundo, mas isso é para os adultos e as crianças aprenderam a usar a digitalização de forma sensata. Na Suécia, hoje, aos 15 anos, as crianças usam [ecrãs] seis horas por dia, não dormem. E não estão concentradas na sala de aula.

Vem a Portugal para participar numa conferência sobre o futuro dos livros e sobre a leitura. Quais são as suas expectativas?
Estou ansioso. Penso que temos de discutir isto em toda a Europa, tanto na Suécia como em Portugal. Tudo o que construímos, a democracia, o Estado-providência, a ciência, foi construído com base no que lemos. Para ser crítico, para fazer parte da sociedade, para ser um actor, um indivíduo capaz de intervir na sociedade, de construir, é preciso ler. E a leitura torna-nos mais inteligentes. Não ficamos tão zangados quando lemos como quando andamos pelas redes sociais. Vejo isso a toda a hora, as pessoas zangadas nas redes!

E é importante ler para proteger os valores que tanto apreciamos, para resolver os desafios do futuro, os do clima e os outros. Temos de nos concentrar na leitura. É estranho que se precise de uma conferência para falar de leitura.

Os livros estão a perder a guerra?

Na Suécia estamos a trabalhar com as bibliotecas. Estamos a desenvolver diferentes estratégias para chegar às pessoas que não lêem. Temos um imposto de 6% sobre os livros. Temos projectos, campanhas, oferecemos um livro a todos os profissionais do futebol, temos os livros infantis tradicionais, dizemos que as crianças que ainda não sabem sueco devem ter acesso a esses livros na sua língua materna.

É preciso promover a literatura de alta qualidade e a literatura convencional, de diferentes formas. Mas não é fácil. Porque é uma luta pelo tempo das pessoas, que estão presas às redes sociais. É preciso começar na escola.
“Sou um capitalista, mas na Educação não!”

Durante os anos 80 e 90, a educação sueca foi considerada uma das melhores do mundo, não só em termos de resultados académicos, mas também por ser considerada eficaz a compensar as diferenças dos contextos socioeconómicos dos diferentes alunos. Mas o PISA, o grande estudo da OCDE sobre as competências dos alunos, mostrou um declínio desde os anos 2000. Foi também o excesso de ecrãs?
Começou antes. Foi a falta de concentração no que é essencial. O essencial é ter ordem e calma na sala de aula, é aprender cedo a ler, a escrever, a matemática básica. E estamos também a mudar o sistema de classificação [dos alunos] e de notas. Trouxemos de volta as notas [a avaliação passa a ser feita em todas as disciplinas e não por curso como acontecia até agora]. Foram, no passado, consideradas injustas e dizia-se que criavam stress. Mas stress é não aprendermos o que precisamos! É não ter o poder de tomar decisões na nossa própria vida!

Depois, há 30 anos, começámos a ter um problema com aquilo a que chamamos as friskolor que são escolas independentes, que podem ser geridas por empresas privadas [ou fundações, ou cooperativas de pais] financiadas pelo Estado, para que os pais tenham liberdade total de escolha da escola para os seus filhos, seja pública ou privada.

O meu partido era muito favorável a isto, era a forma de permitir o desenvolvimento de diferentes estilos de aprendizagem, e também de fazer com que pequenas escolas no interior subsistissem. Mas depois ficou demasiado desregulado e acabámos por ter um sistema escolar em que as grandes empresas ganham dinheiro com a educação, o que não é aceitável. A tendência é para reduzirem as bibliotecas, para reduzirem o equipamento necessário para fazer experiências…

Porque é caro…
Por isso, estamos a mudar a forma como se financia. No nosso modelo o financiamento era entregue às autarquias locais. E isso está bem em Estocolmo, um grande município, ou Gotemburgo, ou Malmö, mas temos cerca de 290 municípios na Suécia, alguns com apenas 3000 habitantes, que têm de tratar dos idosos, da assistência social, das estradas, de tudo! E há grandes diferenças [no investimento na educação] entre regiões, e diria que essa é também uma explicação fundamental para os resultados caírem tanto no PISA.

Cabe aos pais candidatarem-se a uma escola que considerem boa para os seus filhos. Mas houve [com as escolas independentes] uma inflação das notas. Passou a ser um argumento para “vender” a escola: “Venham, porque aqui temos boas notas! Damos notas altas!” Mas será que se aprende mesmo ali?

E aprende-se?
Algumas destas escolas tendem a concentrar-se muito na questão da disciplina e da ordem, o que é bom, mas não houve um controlo suficiente sobre as notas [na Suécia há uma grande autonomia das escolas para decidirem os modelos de avaliação e progressão dos alunos]. Por isso, nomeou-se uma comissão para trabalhar na forma como devemos controlar as notas, porque é injusto, porque isso tem impacto no acesso à universidade, porque uma escolas cumprem e são exigentes e outras dão notas altas…

Tudo o que disse é a ruína do modelo da “liberdade de escolha”.
Sim. Eu sou absolutamente a favor desta ideia: toma as tuas decisões, és responsável por elas. Mas aqui estou a falar de educação, que é diferente de todas as outras dimensões do Estado Social. Qualquer empresa privada pode assegurar o tratamento do meu joelho, de forma eficiente, se eu precisar. A educação é o último reduto, é a instituição que tem de dar a todas as crianças um início de vida melhor. E por isso o Estado tem de ter muito mais controlo sobre a educação.

Como é que estão a resolver?
Uma vez mais, estamos a regressar ao que é essencial. Claro que [as empresas] não estão felizes. Temos um Governo conservador e liberal! Mas é preciso reavaliar isto. Ver o que correu mal. E o efeito que isso teve na educação e na sociedade.

Houve aqui um cocktail negativo: o Estado entregou a educação a pequenos municípios sem capacidade (enquanto grandes municípios tiveram capacidade); houve demasiada liberdade dada a grandes empresas para gerir escolas como negócios (mas existem diferentes tipos de ONG, diferentes tipos de outros actores que não trabalham para ter lucro e têm uma boa reputação, que são muito apreciados); mas a possibilidade de alguém se concentrar apenas na educação como forma de obter lucro…

Não funciona.
​... E eu sou um capitalista, mas não nesta área! O Estado tem de assumir mais controlo. E temos de voltar ao que é essencial. Não se aprende com um iPhone. E todas as pessoas que trabalham com crianças e estudam a forma como elas aprendem sabem que elas são muito vulneráveis, e é muito fácil ficarem muito viciadas.

A única forma de Portugal, a Suécia e todos os países semelhantes protegerem os seus valores, resolverem os problemas que enfrentamos e manterem a democracia é concentrarmo-nos na educação. Quando falamos do PISA, comparamo-nos com Portugal, com a Alemanha, com os Países Baixos e com os outros países… E tem piorado em toda a Europa. E coincide com a entrada dos smartphones no mundo ocidental. Estamos a prejudicar o futuro das crianças. É por isso que temos de fazer isto em conjunto, e é por isso que este é um tema tão importante na agenda da União Europeia.