“Regressar ao que é essencial” é a expressão mais repetida pelo ex-ministro da Educação de um país que já foi um modelo e que agora reequaciona várias da decisões tomadas nos últimos anos.
Nos anos 1990, a Suécia era considerada um modelo em termos de Educação. Os seus alunos conseguiam lugares de destaque nas avaliações internacionais feitas regularmente pela OCDE. E várias das políticas que tornavam aquele país especial — transferência de poder para as comunidades locais, grande investimento no ensino independente, garantia da "liberdade de escolha" total às famílias — serviram de inspiração a outros. O país foi também pioneiro na digitalização da educação. As escolas foram equipadas com computadores etablets. Livros de papel foram substituídos por manuais digitais. Mas, desde o início dos anos 2000, os resultados dos alunos começaram a piorar. Johan Pehrson, que foi ministro da Educação até Junho, sublinha que não foi só na Suécia. "Coincide com a entrada dos smartphones no mundo ocidental", e em especial na vida das gerações mais novas. E também na vida das escolas.
Esta semana, o ex-ministro sueco deu uma entrevista ao PÚBLICO, em Lisboa, onde está para participar no
Book 2.0, um evento de dois dias, na Fundação Champalimaud, promovido pela Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, e que, até esta quinta-feira, debate o futuro dos livros, o papel que têm na evolução humana, e as novas formas de criar, aceder e partilhar leitura na era digital.
Lembrou que, por detrás de cada aplicação nas redes sociais, há milhares de engenheiros a pensar como é que a vão tornar mais atraente para as crianças. E viciante. É por isso que a escola deve ser "uma zona livre" de smartphones e redes sociais. Mas é preciso mais.
É preciso assumir que se foi demasiado longe no uso de ecrãs nas escolas, e que, afirma, é mesmo preciso ter livros, físicos, para aprender. "Pensámos que quanto mais ecrãs, quanto mais plataformas digitais utilizássemos, melhor sistema educativo teríamos." Foi um erro, reconhece. Foi por isso que o Governo anunciou uma reforma que passa por "regressar ao essencial": ler, escrever, saber matemática, garantir calma e disciplina nas aulas...
Pehrson liderou até recentemente o partido Liberais, que integra o Governo de coligação sueco, que está a operar várias reformas no sistema educação. Antes de ser ministro da Educação teve a seu cargo a pasta do Emprego e Integração. É advogado de formação. Um liberal que hoje também questiona um tema caro aos liberais: o financiamento público de escolas que não são geridas pelo Estado. Também esse modelo está a ser reequacionado.
"Costumávamos ter um dos melhores sistemas escolares. Agora já não o temos, mas estamos a recuperar, diria eu."
Em Portugal, o ano escolar vai começar com a proibição de smartphones nas escolas até ao 6.º ano. O que está a ser feito na Suécia? E o que pensa da proibição?Penso que é necessário ajudar todos os jovens que frequentam a escola a concentrarem-se na sua educação, porque devem ser capazes de se tornarem cidadãos independentes e capacitados para poderem realizar alguns dos seus sonhos e para poderem fazer parte do mercado de trabalho do futuro. É preciso apostar muito na educação. Assistimos nestes dias a uma conferência que juntou alguns dos piores ditadores do mundo, como a China, o Irão, a Rússia, que pretendem criar uma nova ordem mundial. Para defendermos a nossa liberdade, e para sermos competitivos, o sistema educativo é muito importante. E os smartphones são um grande problema. Nas salas de aula desviam a atenção…
[Na Suécia] vamos proibi-los nas escolas, até ao 9.º ano.É uma medida nova?Sim. Também decidimos que devemos promover mais os livros de bolso, que todas as crianças devem ter o seu próprio livro, físico, em todas as disciplinas.
Há uns anos, a Suécia foi um dos primeiros países do mundo a investir fortemente na digitalização da educação, apostando nos em computadores, ecrãs, manuais digitais a substituir os livros em papel. E agora recuam porquê?Fomos muito ingénuos, diria eu. A Suécia tem muito medo de uma coisa: de não ser um país moderno. Pensámos que quanto mais ecrãs, quanto mais plataformas digitais utilizássemos, melhor sistema educativo teríamos.
E isso está errado?Estava errado. Estamos a voltar ao que é essencial, ao papel e à caneta, e aos livros em papel para os mais novos... Queremos ter engenheiros, os melhores e mais qualificados do mundo, queremos inteligência artificial (IA) e digitalização, mas isso é para a universidade e para depois da universidade.
É claro que no 7.º e no 8.º anos temos de ter uma sala de aula moderna, e aprender alguma programação e... Mas isso não é estar na escola a ver o TikTok. O TikTok é um submundo, é um mundo mau.
Os retrocessos nos resultados dos alunos, a que assistimos, devem-se a essa excessiva digitalização do ensino? As crianças estavam a perder a capacidade de aprender a escrever?Sim. Há aspectos positivos nas plataformas, os pais podem acompanhar melhor o que estamos a fazer na escola, por exemplo, mas há uma visão geral que se perde quando não se tem um livro e uma educação mais tradicional. Depois, as redes sociais estão a envenenar a geração mais jovem.
Mas elas estão aí, e os jovens têm acesso.Mas a escola deve ser uma “zona livre”. A escola é financiada pelo Estado, é o local onde as crianças de famílias desfavorecidas devem ter a oportunidade de se equipararem às outras crianças, porque a educação é a verdadeira ferramenta para tornar as pessoas independentes e prepará-las para o futuro.
Também temos de trabalhar no sentido de os pais serem responsáveis para que as crianças tenham uma infância mais livre de smartphones. Esta era a minha visão enquanto ministro da Educação. Mas o Governo sueco continua nesta via, o que me deixa muito satisfeito.
Todos esses ecrãs e plataformas digitais, tudo isso custou milhões.Tudo foi muito subsidiado pelas empresas tecnológicas, pelo menos na Suécia, e havia uma enorme concorrência entre as duas maiores empresas, a Microsoft ou a Apple. Ofereceram muitas plataformas digitais, muitos computadores e ecrãs inteligentes, iPads ou similares. No início, argumentou-se que esta era uma forma de tornar o acesso a este tipo de tecnologias mais justo, porque também as crianças de famílias desfavorecidas podiam obter os seus equipamentos...
Mas hoje em dia vê-se que é ao contrário, que os miúdos privilegiados têm pais que lhes tiram os smartphones e lhes põem um livro à frente e dizem: "Leiam!"
É claro que se pode ter o equipamento e utilizá-lo na educação, mas tem de ter um valor acrescentado, cientificamente, não pode ser nos equipamentos pessoais dos alunos, no computador da escola, onde não há redes sociais e outras coisas a perturbar, e tem de haver os livros físicos, em cada disciplina, de Matemática, de Línguas, de Química…
Além disso, a criança deve poder ir para o pátio da escola no intervalo entre as aulas, deve encontrar-se com os seus colegas, deve discutir com eles, deve brincar, deve mexer-se para não ficar sentado, obeso e doente. É preciso conhecer pessoas, é uma forma de combater o bullying, de acabar com a solidão. Eu quero ter um dos países mais digitalizados do mundo, mas isso é para os adultos e as crianças aprenderam a usar a digitalização de forma sensata. Na Suécia, hoje, aos 15 anos, as crianças usam [ecrãs] seis horas por dia, não dormem. E não estão concentradas na sala de aula.
Vem a Portugal para participar numa conferência sobre o futuro dos livros e sobre a leitura. Quais são as suas expectativas?Estou ansioso. Penso que temos de discutir isto em toda a Europa, tanto na Suécia como em Portugal. Tudo o que construímos, a democracia, o Estado-providência, a ciência, foi construído com base no que lemos. Para ser crítico, para fazer parte da sociedade, para ser um actor, um indivíduo capaz de intervir na sociedade, de construir, é preciso ler. E a leitura torna-nos mais inteligentes. Não ficamos tão zangados quando lemos como quando andamos pelas redes sociais. Vejo isso a toda a hora, as pessoas zangadas nas redes!
E é importante ler para proteger os valores que tanto apreciamos, para resolver os desafios do futuro, os do clima e os outros. Temos de nos concentrar na leitura. É estranho que se precise de uma conferência para falar de leitura.
Os livros estão a perder a guerra?Na Suécia estamos a trabalhar com as bibliotecas. Estamos a desenvolver diferentes estratégias para chegar às pessoas que não lêem. Temos um imposto de 6% sobre os livros. Temos projectos, campanhas, oferecemos um livro a todos os profissionais do futebol, temos os livros infantis tradicionais, dizemos que as crianças que ainda não sabem sueco devem ter acesso a esses livros na sua língua materna.
É preciso promover a literatura de alta qualidade e a literatura convencional, de diferentes formas. Mas não é fácil. Porque é uma luta pelo tempo das pessoas, que estão presas às redes sociais. É preciso começar na escola.
“Sou um capitalista, mas na Educação não!”
Durante os anos 80 e 90, a educação sueca foi considerada uma das melhores do mundo, não só em termos de resultados académicos, mas também por ser considerada eficaz a compensar as diferenças dos contextos socioeconómicos dos diferentes alunos. Mas o PISA, o grande estudo da OCDE sobre as competências dos alunos, mostrou um declínio desde os anos 2000. Foi também o excesso de ecrãs?Começou antes. Foi a falta de concentração no que é essencial. O essencial é ter ordem e calma na sala de aula, é aprender cedo a ler, a escrever, a matemática básica. E estamos também a mudar o sistema de classificação [dos alunos] e de notas. Trouxemos de volta as notas [a avaliação passa a ser feita em todas as disciplinas e não por curso como acontecia até agora]. Foram, no passado, consideradas injustas e dizia-se que criavam stress. Mas stress é não aprendermos o que precisamos! É não ter o poder de tomar decisões na nossa própria vida!
Depois, há 30 anos, começámos a ter um problema com aquilo a que chamamos as friskolor que são escolas independentes, que podem ser geridas por empresas privadas [ou fundações, ou cooperativas de pais] financiadas pelo Estado, para que os pais tenham liberdade total de escolha da escola para os seus filhos, seja pública ou privada.
O meu partido era muito favorável a isto, era a forma de permitir o desenvolvimento de diferentes estilos de aprendizagem, e também de fazer com que pequenas escolas no interior subsistissem. Mas depois ficou demasiado desregulado e acabámos por ter um sistema escolar em que as grandes empresas ganham dinheiro com a educação, o que não é aceitável. A tendência é para reduzirem as bibliotecas, para reduzirem o equipamento necessário para fazer experiências…
Porque é caro…Por isso, estamos a mudar a forma como se financia. No nosso modelo o financiamento era entregue às autarquias locais. E isso está bem em Estocolmo, um grande município, ou Gotemburgo, ou Malmö, mas temos cerca de 290 municípios na Suécia, alguns com apenas 3000 habitantes, que têm de tratar dos idosos, da assistência social, das estradas, de tudo! E há grandes diferenças [no investimento na educação] entre regiões, e diria que essa é também uma explicação fundamental para os resultados caírem tanto no PISA.
Cabe aos pais candidatarem-se a uma escola que considerem boa para os seus filhos. Mas houve [com as escolas independentes] uma inflação das notas. Passou a ser um argumento para “vender” a escola: “Venham, porque aqui temos boas notas! Damos notas altas!” Mas será que se aprende mesmo ali?
E aprende-se?Algumas destas escolas tendem a concentrar-se muito na questão da disciplina e da ordem, o que é bom, mas não houve um controlo suficiente sobre as notas [na Suécia há uma grande autonomia das escolas para decidirem os modelos de avaliação e progressão dos alunos]. Por isso, nomeou-se uma comissão para trabalhar na forma como devemos controlar as notas, porque é injusto, porque isso tem impacto no acesso à universidade, porque uma escolas cumprem e são exigentes e outras dão notas altas…
Tudo o que disse é a ruína do modelo da “liberdade de escolha”.Sim. Eu sou absolutamente a favor desta ideia: toma as tuas decisões, és responsável por elas. Mas aqui estou a falar de educação, que é diferente de todas as outras dimensões do Estado Social. Qualquer empresa privada pode assegurar o tratamento do meu joelho, de forma eficiente, se eu precisar. A educação é o último reduto, é a instituição que tem de dar a todas as crianças um início de vida melhor. E por isso o Estado tem de ter muito mais controlo sobre a educação.
Como é que estão a resolver?Uma vez mais, estamos a regressar ao que é essencial. Claro que [as empresas] não estão felizes. Temos um Governo conservador e liberal! Mas é preciso reavaliar isto. Ver o que correu mal. E o efeito que isso teve na educação e na sociedade.
Houve aqui um cocktail negativo: o Estado entregou a educação a pequenos municípios sem capacidade (enquanto grandes municípios tiveram capacidade); houve demasiada liberdade dada a grandes empresas para gerir escolas como negócios (mas existem diferentes tipos de ONG, diferentes tipos de outros actores que não trabalham para ter lucro e têm uma boa reputação, que são muito apreciados); mas a possibilidade de alguém se concentrar apenas na educação como forma de obter lucro…
Não funciona.
... E eu sou um capitalista, mas não nesta área! O Estado tem de assumir mais controlo. E temos de voltar ao que é essencial. Não se aprende com um iPhone. E todas as pessoas que trabalham com crianças e estudam a forma como elas aprendem sabem que elas são muito vulneráveis, e é muito fácil ficarem muito viciadas.
A única forma de Portugal, a Suécia e todos os países semelhantes protegerem os seus valores, resolverem os problemas que enfrentamos e manterem a democracia é concentrarmo-nos na educação. Quando falamos do PISA, comparamo-nos com Portugal, com a Alemanha, com os Países Baixos e com os outros países… E tem piorado em toda a Europa. E coincide com a entrada dos smartphones no mundo ocidental. Estamos a prejudicar o futuro das crianças. É por isso que temos de fazer isto em conjunto, e é por isso que este é um tema tão importante na agenda da União Europeia.