António Carlos Cortez
No debate sobre os exames, uma pergunta deveria ser feita: estamos a preparar bem os alunos do secundário para a universidade? A resposta é óbvia, mas dói ouvir.
Desde 2017 que a
média nacional a Português vem descendo regular e consolidadamente. Literatura Portuguesa é a disciplina com a média mais baixa de todas. Neste ano de 2026, a média de negativas a Português foi de 29,7%. No caso de Literatura, tendo-se apresentado a exame nesta disciplina 900 alunos, a média é de 9,6 valores. Com efeito, se virmos igualmente as médias de outras disciplinas da área de Humanidades – Filosofia e História –, veremos que há, desde 2017, um padrão geral de abaixamento das competências de escrita e de leitura por parte dos alunos portugueses. Mesmo os melhores alunos portugueses de hoje, como confirmam o PIRLS e o PISA, têm problemas de literacia literária e, em bom rigor, não conseguiriam responder de forma proficiente a questionários dos exames destas disciplinas, e nomeadamente questionários de exames de Português, tais quais esses exames se apresentavam nos anos 90. Especialmente exigente era o Grupo III, o da dissertação.
Em 2026, nesse mesmo Grupo III,
pede-se, nesta 2.ª fase, o seguinte: que o estudante, depois de 12 anos de escolaridade obrigatória, “defenda uma perspectiva pessoal sobre o contributo das experiências pessoais e dos conhecimentos adquiridos na escola para o enriquecimento da visão que cada indivíduo constrói do mundo”. Trata-se, a meu ver, da prova mais cabal de incompetência científica por parte de quem concebe este exame. Neste Grupo III, o que está em causa é avaliar a capacidade de argumentação perante um tema ou problema e, ao mesmo tempo, medir a literacia de escrita.
Com questões deste género, que convidam ao discurso mais subjectivo e impressionista, opinativo e acrítico, o que se avalia? Que leituras e que competência de discurso argumentativo têm os alunos do 12.º de ter, se o que lhes é perguntado é de um primarismo e de uma infantilidade ímpares?
Comparemos e analisemos agora o exame nacional de 1997 com a idiotice de exames nesta disciplina que, de há uns bons dez, 15 anos a esta parte, têm condicionado a prática e a qualidade das aulas de muitos professores, infantilizando e facilitando processos de ensino-aprendizagem. Uma pergunta prévia, no debate sobre os exames, no seu todo, deveria ser feita: estamos a preparar bem os alunos do secundário para a universidade? A resposta é óbvia, mas dói ouvir: o que temos vindo a formar é toda uma geração de estudantes que, no fundo, sabem que para terem acesso ao ensino superior nada têm de ter lido e não têm de escrever, de facto, com proficiência. Vejamos o exame de 1997, 1.ª fase, Português A.
Constava de um poema de Fernando Pessoa, o ortónimo – “Bóiam leves, desatentos” –, texto de forte sugestão poética, pelas metáforas (“Bóiam leves, desatentos,/ Meus pensamentos de mágoa,/ Como, no sono dos ventos,/ As algas, cabelos lentos/ Do corpo morto das águas” (1.ª estrofe) e pela compreensão exigida quanto a questões de estilo. Para além da melopeia dos versos e da correspondência pensamentos/cabelos (de possível raiz baudelaireana e remetendo para o mito de Ofélia, tão do agrado da estesia simbolista-decadentista que o moderno Pessoa aproveita), há neste poema – e isso pedia-se no questionário de 1997 – uma associação entre pensamentos-sono-corpo morto-algas (águas paradas) e a existência dos próprios pensamentos que, fora do sujeito, bóiam “como folhas mortas/ À tona de águas paradas”. O poema escolhido para avaliar a competência de leitura era, em 1997, indiscutivelmente mais complexo que qualquer texto que hoje os fazedores desta miséria de exames escolhem. Veja-se: é o “sono de ser”, é o nada como problema moderno para um “eu” a braços com os seus pensamentos “de mágoa”, o problema que o estudante tinha de compreender. Isso subentende-se no que era pedido no Grupo I: “Elabore um comentário global do texto que acabou de ler, focando os seguintes tópicos: a) marcas de objectividade/ subjectividade na expressão lírica do “eu”; b) campos semânticos da fragmentação e do negativismo; c) recursos estilísticos e sua expressividade; d) construção da musicalidade; e) marcas características da poesia ortónima pessoana.” Que aluno conseguiria, hoje, em 2026, fazer semelhante comentário crítico? Nenhum – digo-o com lamento, mas sem receio.
Para além do mais, não havia quaisquer constrangimentos de limitação mínima ou máxima de palavras no grupo seguinte. E muito menos se propunha uma avaliação com escolhas múltiplas e V/F. O que se avaliava (e classificava) era mesmo a literacia escrita, as competências do ler um texto complexo e do escrever crítica e analiticamente.
Hoje, no exame de Português, à saída de 12 anos de escola, que poema se escolheu? Um poema de Eugénio de Andrade que comparece já no 3.º ano do ciclo primário! E que dizer do questionário de 2026? Perguntas sobre o que é que, por detrás das palavras de um poema de Eugénio de Andrade e de um outro poema de Caeiro, o leitor pode adivinhar quanto a estados de alma.
O que hoje se pede aos alunos é que escrevam textos de cariz personalista, absolutamente subjectivos, com a agravante de terem de recorrer a 350 palavras. Todos sabemos: esta é uma geração com uma tal falta de linguagem e de capacidades de análise de texto literário (mas também de qualquer tipo de texto) que, se tivessem de escrever sem limite imposto, provavelmente arriscávamo-nos a não termos nenhuma redacção para ler. Ao menos assim, com a indicação de 350 palavras, os estudantes sabem que têm de fazer o esforço por encher de palha o Grupo III.
Estudantes, filhos da pandemia, do TikTok, de uma vida de que estão ausentes a curiosidade e a sede de saber, o mistério e a imaginação, os alunos portugueses oscilam, como digo há mais de uma década, entre a letargia e a raiva, entre o estado amorfo das suas faculdades cognitivas e a explosão instintiva de frases sem nexo, sem verbos (“posso água?”), sem qualquer construção lógica e sem quaisquer referências culturais
Ninguém, na verdade – se for professor honesto, se for um aluno com o mínimo de consciência crítica, se for um pai minimamente exigente – pode considerar que estes exames nacionais avaliam (falo de Português, mas o mesmo podemos dizer de exames de História, de Filosofia ou de Geografia) seja o que for de competências de leitura e de escrita. Não há verdade nestes exames de Português, bem como de outras disciplinas, quando em mais de 70% do exame o estudante se limita a exercícios de adivinhação. As médias baixíssimas a Português e a Literatura espelham as consequências de mais de 15, 20 anos de políticas que puseram de parte a importância das Humanidades.
Mesmo os alunos de ciências têm hoje dificuldades reais de expressão escrita e de compreensão dos textos nas suas áreas específicas. Tudo porque lêem pouco ou nada e porque – e disto igualmente ninguém fala –, na prática didáctica, perdeu-se o hábito de analisar cientificamente um texto. Estudantes, filhos da pandemia, do TikTok, de uma vida de que estão ausentes a curiosidade e a sede de saber, o mistério e a imaginação, os alunos portugueses oscilam,
como digo há mais de uma década, entre a letargia e a raiva, entre o estado amorfo das suas faculdades cognitivas e a explosão instintiva de frases sem nexo, sem verbos (“posso água?”), sem qualquer construção lógica e sem quaisquer referências culturais.
Nota final: o que se pretendia no exame de 1997 no Grupo II, a 2.ª parte do dito momento de avaliação das competências? Isto: “Elabore uma dissertação em que aborde de forma desenvolvida e fundamentada as afirmações sobre a poesia de Cesário Verde aqui transcritas." E que texto era esse que o aluno de 1997 tinha de comentar? Este: “Na história da poesia da cidade, os poemas típicos de Cesário Verde são algo de inteiramente novo, pelo amor juvenil e constante à realidade concreta, vista com olhos de artista plástico, transposta em séries de instantâneos claros, exactos, flagrantes. Em 'Cristalizações', 'Num Bairro Moderno', 'O Sentimento dum Ocidental' descobrimos a figura integral de Lisboa.” Este ensaio de que livro era? Deste: Problemática da História Literária(Ática, 1961). Quem hoje é professor desta disciplina, saberá quem foi Jacinto do Prado Coelho? Leu e deu a ler a alunos seus ensaios desse grande professor e ensaísta maior da nossa cultura? Na formação de professores nesta área, conhece-se o essencial de A Educação do Sentimento Poético?
O grande debate sobre educação em Portugal está por fazer e prende-se com a formação sólida dos professores e
sobre a real exigência dos exames de acesso. Esta
reforma de Fernando Alexandre falha em toda a linha: desmantelou organismos do ministério; feriu de morte a fiabilidade e a justiça do processo de classificação; mecanizou e rebaixou os professores e estudantes à condição de animais mecânicos: uns a classificar, a etiquetar, outros a serem etiquetados. Exames perdidos, digitalização estupidificante, provincianismo e, conjuntamente com o seu secretário de Estado, Homem Cristo, um passa-culpas que revela a falta de honestidade de ambos. O essencial ficou por discutir: que estudantes temos hoje no superior, no secundário, no 3.º ciclo… Que Portugal teremos daqui a uns anos?