July 07, 2020
Vivemos numa época filosófica - aproveite-se
Heraclito dizia que o logos — a razão que governa o mundo, digamos assim — habita os seres humanos, mas na maior parte permanece adormecido.
Uma maioria de pessoas vive apressada, esgota-se nas acções-rotinas do dia-a-dia, nos afazeres, no consumo, nas metas e objectivos próximos, nos projectos em curso, nos prazeres e desejos imediatos, no quotidiano da vida sem mais. Vive adormecida. De repente, a pandemia criou uma situação-limite, de vida e de morte, que obrigou a parar e nessa paragem a razão acordou, liberta do quotidiano desenfreado e começou a ponderar sobre: a urgência da vida, as prioridades (família, as pessoas), a relação com o meio ambiente, a relação com os outros animais, a relação com o trabalho, o valor da ciência, a garantia de verdade, o valor da educação, o vazio do consumismo, a dignidade humana, a responsabilidade ética para com os outros, a procura de verdade no meio do excesso de informação, a ética política, a necessidade dos outros, a inter-conexão de todos, a solidão, o equilíbrio e a brevidade da vida.
Todas estas questões são agora discutidas em todo o lado, desde as redes sociais aos meios de comunicação, todos os dias. Ora, o que são estas questões senão questões filosóficas? É nas situações de ruptura com o quotidiano que as questões filosóficas se impõem e a razão acorda. Que se seja capaz de mudar as agulhas das linhas por onde correm os comboios da vida comum antes que a razão se adormeça de novo.
O Presidente e a AR suicidaram-se juntamente com a oposição - só nos restam os juízes para não ficarmos à mercê do autoritarismo governativo
O Governo tem vindo sistematicamente a legislar através de resoluções do Conselho de Ministros, que não necessitam da promulgação do Presidente da República.
Luís Menezes Leitão
A crise de enormes proporções que o país atravessa deveria ter conduzido a uma actuação conjunta dos diversos órgãos de soberania no sentido de a mesma ser ultrapassada. É esse o nosso modelo constitucional, onde se prevê que o estado de emergência é decretado pelo Presidente da República, após autorização do Parlamento, cabendo ao Governo apenas a sua execução. E a Constituição tem o cuidado de referir que o estado de emergência só pode alterar a normalidade constitucional nos termos previstos na Constituição e na lei, não podendo nomeadamente afectar a aplicação das regras constitucionais relativas à competência e ao funcionamento dos órgãos de soberania.
Sucede, porém, que desde que se procedeu ao levantamento do estado de emergência estamos a assistir a uma gestão da crise exclusivamente pelo Governo, sem qualquer intervenção do Parlamento e muito menos do Presidente da República. É por isso que o Governo tem vindo sistematicamente a legislar através de resoluções do Conselho de Ministros, que não necessitam da promulgação do Presidente, e através das quais se têm restringido gravemente os direitos fundamentais das pessoas, sem que nenhum outro órgão de soberania se tenha incomodado com esta situação. Especialmente preocupante é o facto de o Presidente da República, como garante do regular funcionamento das instituições democráticas, não estar minimamente preocupado com esta nova forma de aprovar diplomas, que, pelos vistos, já não necessitam da sua promulgação.
Mas a oposição no Parlamento também tem andado completamente desaparecida, parecendo que estamos com um Governo de maioria absoluta. As propostas legislativas que o Governo apresenta são sistematicamente aprovadas, independentemente das contradições que contêm, das discriminações que estabelecem ou até das graves consequências que acarretam. E, sobre isto, os partidos da oposição, se é que ainda existe alguma, dizem pouco ou nada. Um simples debate no Parlamento é para o principal partido da oposição um filme de terror, dado que nada tem a criticar ou qualquer medida alternativa a sugerir. Não admira, por isso, a proposta que apresentou de acabar com os debates quinzenais com o primeiro-ministro, um dos poucos momentos nesta crise em que se tem visto o primeiro-ministro a explicar a situação perante os representantes do povo.
Não seria de estranhar, perante uma crise gravíssima e que todos os dias aumenta, que o primeiro-ministro procurasse evitar ir ao Parlamento. Recorde-se a iniciativa de Boris Johnson de suspender o Parlamento britânico em Agosto passado, precisamente para elidir a sistemática perda de votações que estava a ter no caso do Brexit, iniciativa essa que acabou rechaçada nos tribunais. Em Portugal, no entanto, o absurdo é de tal ordem que a iniciativa de dispensar o primeiro-ministro de ir ao Parlamento não é do próprio, mas antes do líder da oposição, contribuindo este assim para a diminuição do papel do Parlamento quando o seu objectivo deveria ser o inverso.
Após o desastre militar de Dunquerque, na hora mais negra da democracia britânica, foi no Parlamento de Londres que Churchill pronunciou o seu célebre discurso anunciando: “Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas. Nunca nos renderemos”. Com a enorme crise que Portugal hoje atravessa, é no Parlamento que se espera que o primeiro-ministro anuncie o resultado das batalhas que travamos, mesmo que o líder da oposição não o queira. É preciso que termine esta governamentalização do regime e que todos os órgãos de soberania voltem a assumir o seu papel constitucional.
A crise de enormes proporções que o país atravessa deveria ter conduzido a uma actuação conjunta dos diversos órgãos de soberania no sentido de a mesma ser ultrapassada. É esse o nosso modelo constitucional, onde se prevê que o estado de emergência é decretado pelo Presidente da República, após autorização do Parlamento, cabendo ao Governo apenas a sua execução. E a Constituição tem o cuidado de referir que o estado de emergência só pode alterar a normalidade constitucional nos termos previstos na Constituição e na lei, não podendo nomeadamente afectar a aplicação das regras constitucionais relativas à competência e ao funcionamento dos órgãos de soberania.
Sucede, porém, que desde que se procedeu ao levantamento do estado de emergência estamos a assistir a uma gestão da crise exclusivamente pelo Governo, sem qualquer intervenção do Parlamento e muito menos do Presidente da República. É por isso que o Governo tem vindo sistematicamente a legislar através de resoluções do Conselho de Ministros, que não necessitam da promulgação do Presidente, e através das quais se têm restringido gravemente os direitos fundamentais das pessoas, sem que nenhum outro órgão de soberania se tenha incomodado com esta situação. Especialmente preocupante é o facto de o Presidente da República, como garante do regular funcionamento das instituições democráticas, não estar minimamente preocupado com esta nova forma de aprovar diplomas, que, pelos vistos, já não necessitam da sua promulgação.
Mas a oposição no Parlamento também tem andado completamente desaparecida, parecendo que estamos com um Governo de maioria absoluta. As propostas legislativas que o Governo apresenta são sistematicamente aprovadas, independentemente das contradições que contêm, das discriminações que estabelecem ou até das graves consequências que acarretam. E, sobre isto, os partidos da oposição, se é que ainda existe alguma, dizem pouco ou nada. Um simples debate no Parlamento é para o principal partido da oposição um filme de terror, dado que nada tem a criticar ou qualquer medida alternativa a sugerir. Não admira, por isso, a proposta que apresentou de acabar com os debates quinzenais com o primeiro-ministro, um dos poucos momentos nesta crise em que se tem visto o primeiro-ministro a explicar a situação perante os representantes do povo.
Não seria de estranhar, perante uma crise gravíssima e que todos os dias aumenta, que o primeiro-ministro procurasse evitar ir ao Parlamento. Recorde-se a iniciativa de Boris Johnson de suspender o Parlamento britânico em Agosto passado, precisamente para elidir a sistemática perda de votações que estava a ter no caso do Brexit, iniciativa essa que acabou rechaçada nos tribunais. Em Portugal, no entanto, o absurdo é de tal ordem que a iniciativa de dispensar o primeiro-ministro de ir ao Parlamento não é do próprio, mas antes do líder da oposição, contribuindo este assim para a diminuição do papel do Parlamento quando o seu objectivo deveria ser o inverso.
Após o desastre militar de Dunquerque, na hora mais negra da democracia britânica, foi no Parlamento de Londres que Churchill pronunciou o seu célebre discurso anunciando: “Iremos até ao fim. Lutaremos na França. Lutaremos nos mares e oceanos, lutaremos com confiança crescente e força crescente no ar, defenderemos a nossa ilha, qualquer que seja o custo. Lutaremos nas praias, lutaremos nos terrenos de desembarque, lutaremos nos campos e nas ruas, lutaremos nas colinas. Nunca nos renderemos”. Com a enorme crise que Portugal hoje atravessa, é no Parlamento que se espera que o primeiro-ministro anuncie o resultado das batalhas que travamos, mesmo que o líder da oposição não o queira. É preciso que termine esta governamentalização do regime e que todos os órgãos de soberania voltem a assumir o seu papel constitucional.
Ainda agora comecei a ler e já tenho um problema para pensar
Li a primeira página do 1º capítulo e pensei, 'vou gostar do livro porque é exactamente isto que penso. O demasiado liso e brilhante é infantil, até me parece um bocado pornográfico: excesso de exposição seccionada e passiva que mata completamente o erotismo, naquele sentido muito lato... platónico, para abreviar'.
Problema: gosto do livro por ele ser, 'polido', quer dizer, por o autor ter uma maneira de pensar que vai ao encontro da minha e, por isso, não me oferecer resistência e não dar trabalho a pensar? Gosto do livro da mesma maneira que o depressivo-narcísico gosta de um outro que não lhe resista, como uma forma de se validar, de confirmar o seu poder? Não deveria, para ser coerente, gostar de um livro cujas ideias se me oponham e resistam e, nessa medida, me obriguem a des-subjectivar-me, condição de aprender, crescer, ampliar, etc.?
daqui:
Livros - a política e o Eros
Hoje já li dois livrinhos:
Este é um excerto de A 'Agonia de Eros'
Ainda vou ler este:
Estou tão desabituada de ler na minha língua que quando o faço dou por mim a tragar um livro num instante. Bem, se não for muito complexo e obrigar a paragens para organizar ideias e pensar antes de continuar.
Leituras pela manhã - Steps to an Ecology of Mind
For Bateson, mind existed as part of an integrated system that also involved elements of the world. He gives the example of a lumberjack cutting down a tree with an axe. Bateson argues that any definition of this woodcutter’s mental processes that doesn’t also include the axe, the tree, and the feedback loop back to the human body, is both incomplete and dangerously misleading. Although Bateson doesn’t make this comparison, his view is aligned with Heidegger’s concept of being-in-the-world, which allowed the German philosopher to bypass many of the paradoxes and problems created by out tendency to divide our schemas into subject and object.
As Bateson saw it, these narrow definitions of selfhood weren’t just problems related to philosophy but could easily turn into crises in the environment. People who see their mental existence as operating against the world take very different courses of action — hostile, exploitive, narcissistic — than those who understand their connectedness to their environment and social network.
Gregory Bateson, Steps to an Ecology of Mind (1972)
July 06, 2020
Estava aqui a pensar
... como seria se estivéssemos nesta pandemia e não tivéssemos a internet e o YouTube. Fui dar com este cover do White Rabbit dos Jefferson Airplane - vieram-me logo à memória e aos sentimentos recordações de sítios, pessoas e experiências. É uma grande sorte uma pessoa ter crescido ao mesmo tempo que a música rock nascia, crescia e evoluia, no contexto de uma revolução cultural de expansão, de liberdade. Uma revolução do amor, a única revolução que não se dedica à destruição e à vingança e deixa uma estrutura de aceitação do que é diferente.
É claro que este guitarrista não é o Craig Chaquico, que tira um som da guitarra equivalente a vários... humm... fumos... ahah mas não interessa. A Rachael Price, que canta esta música num contexto muito diferente do de então, consegue, mais a banda, recriar o ambiente emocional da música, se bem que não o psicadélico.
Fui à procura do original e encontrei-os num programa de TV de 1967, antes do Woodstock, quando já se falava nisso e se sabia que iria ser uma coisa em grande, como se vê no fim, nas perguntas e respostas aos músicos. Tão sinceros e puros na sua entrega à revolução à música. Espíritos livres. É como eu me lembro dessa época, que chegou a aqui um bocadinho mais tarde. Há muito jazz na voz da Grace Slick.
Uma boa notícia para variar - 70 mil aves poupadas à morte por máquinas assassinas
Proibida colheita mecânica noturna de azeitona
A apanha de azeitona feita com recurso a máquinas, durante o período noturno, contribui para o aumento da mortalidade das aves e, por isso, passa agora a ser proibida, adiantou esta segunda-feira o ministério do Ambiente e da Ação Climática. As conclusões são de um estudo sobre os impactos das culturas intensivas e superintensivas de olival em áreas de regadio feito, uma análise feita pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF).
De acordo com o estudo, avançou o ministério do Ambiente e da Ação Climática em comunicado, “a apanha mecânica noturna em olivais superintensivos provoca de forma significativa a mortalidade de aves e que as medidas de mitigação testadas, concretamente os processos de espantamento ensaiadas, se revelaram ineficaz.
a Quercus referiu que cada “época de colheita de azeitona representa a morte de um número mínimo de 70 mil aves, mas que poderá atingir um máximo de 100 mil aves”.
Onde andam as traças?
Dantes, há uns 10 ou 15 anos, se abria um pacote de farinha e o deixava durante um par de meses na despensa, na embalagem original de papel, em vez de passá-la para um frasco hermético, quando lá ia e abria o pacote, encontrava traças enormes lá dentro. Agora? Pode ficar dois anos que quando se abre não tem bichos. Quer dizer, dantes a farinha estava viva, com organismos activos e agora deve ser só químicos e está tudo morto de qualquer maneira. Por isso o pão dantes era óptimo. Ao fim de uma semana ou dez dias ainda se comia muito bem sem ser torrado. Agora o melhor de todos não passa de assim-assim e ao fim de um dia está duro como pedra.
China em Hong-Kong
É preciso admirar os habitantes de Hong-Kong que não se deixam abater por coisa alguma que saia daquele partido repressivo chinês. Povos educados por décadas de ensino obrigatório e de ligação ao mundo via internet dão muito trabalho aos governos.
Chiça
Caraças! O tipo ainda não estava completamente desactivado e apareceu outra vez. Fui ao Tor e ele é que disse o nome da besta e pôs-me um programa a correr o disco que o descobriu logo. Chiça! Só me apetece dizer palavrões! Aquilo chama-se worlddata web daemon e estava escondido. Este aqui já não me engana.
Diário de bordo
Só agora consegui livrar-me do vírus que se instalou no PC. Chiça penico chapéu de côco! Fiquei com ódio ao Yahoo... que não tem culpa nenhuma...
Enfim... nem almocei ainda por causa desta cena. Um dia quase inteiro nisto. Serviu-me de lição. Espero :))
Assim que entrei no email tinha vários emails de alunos. Enviei as notas para casa deles, disse-lhes como vê-las online. Podem ir à escola vê-las, também, mas como no 2º período, por causa do confinamento, disse as notas a cada um, agora acharam que ia fazer a mesma coisa... duas DT... estar a mandar um email a cada um com as notas... nem pensar. Miúdos...
Acabaram-se as sovas do D., o meu fisioterapeuta. Faltava uma mas com a costela neste estado não pode ser. Tenho que ir nadar. O médico ortopedista disse que era um exercício óptimo. Antes da pandemia estavam a fazer um complexo com piscina olímpica numa zona que fica entre a minha casa e a escola. A 5m da escola. Tinha pensado, dado que acordo com as galinhas, inscrever-me e, 3 dias por semana, ir nadar logo à hora de abrir -isto se abrissem lá para as 7 ou 7 e meia da manhã- e depois seguir para a escola. Olha, com a pandemia a obra esteve parada e agora enfiar-me em piscinas públicas se calhar não é a melhor ideia. Logo se vê.
Estou desejando que cheguem as férias para meter um pé na água do mar. Espero que este ano esteja melhor. No ano passado foi só vento e água gelada. E este ano a casa há-de estar cheia. Animação não vai faltar. A cena de ir de máscara para a praia é uma chatice mas o que se há-de fazer?
A playlist de hoje tem de ser com Ennio Morricone, obviamente
Ennio Morricone morreu hoje. Deixa saudades e música muitíssimo boa, de modo que não será esquecido.
Coisas mesmo chatas da era digital
Estou desde as 7 e meia da manhã a tentar desinstalar um vírus que me entrou no sistema do pc por minha culpa. Queria muito instalar um programa e desactivei a firewall contra o aviso do sistema. Hoje tenho aqui uma porcaria de um vírus que redireciona todas as pesquisas para uma página do Yahoo cheia de publicidade. E não o consigo tirar de maneira nenhuma. A chatice que tem sido descobrir onde está o vírus, como se chama e como desinstalá-lo. Uma pessoa corre a lista de todos os programas na actividade do CPU à procura dele mas é claro que o bandido não vem com uma flag ou um nome fácil de identificar. Já fui à internet e vi 10 exemplos de desisntalá-lo mas nenhum funciona. No entanto, nesse processo já desinstalei malware que nem sabia que tinha. Os computadores deviam vir com uma secção de ajuda para idiotas, do género, ‘o que fazer se’, com instruções simples para utilizadores não programadores ou, melhor ainda, um programa que fizesse essas coisas sozinho. Depois, o Mac não tem aquela funcionalidade do Windows em que damos ordem ao sistema para recuar uma semana ou duas. Enfim, descobri uma maneira de resolver o problema com a máquina do tempo mas é complicada e requer tempo. Mas tem que ser porque não vejo outra maneira. Agora estou a passar ficheiros para um disco rígido e só depois poss fazer isso. Entretanto estou no pc antigo que é lento como tudo. Se estivéssemos em dia de dar aulas estava tramada.
July 05, 2020
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