November 07, 2026
November 04, 2026
Salman Rushdie acerca de 'Candide'
Muito actual, não apenas o livro, a demolição irónica de Voltaire da ideia de Leibniz de que estamos no melhor dos mundos possíveis, dado os horrores do mundo, mas o comentário brilhante de Salman Rushdie. Muito bom.
August 14, 2026
Anthropic: 1,5 mil milhões de dólares de multa por ter desenvolvido a sua IA com livros pirateados.
Hashem Al-Ghaili
Um tribunal dos EUA aprovou a maior indemnização por violação de direitos de autor da história do país, condenando a Anthropic a pagar 1,5 mil milhões de dólares por ter desenvolvido a sua IA com livros pirateados.
Na maior indemnização por violação de direitos de autor conhecida da história dos EUA, um juiz federal finalizou um acordo histórico de ação coletiva no valor de 1,5 mil milhões de dólares entre a empresa de inteligência artificial Anthropic e uma coligação de autores e editoras.
A batalha judicial teve início quando a escritora de romances de suspense Andrea Bartz e outros criadores acusaram a empresa desenvolvedora do chatbot Claude de descarregar centenas de milhares de livros protegidos por direitos de autor a partir de sites de pirataria online, como o Library Genesis. Em vez de enfrentar um julgamento moroso, a Anthropic concordou com o pagamento avultado, que abrange cerca de 482 000 livros. Os titulares de direitos elegíveis deverão receber cerca de 3 000 dólares por obra afetada, tendo mais de 91% das obras elegíveis já sido reclamadas por autores e editoras.
Embora este acordo recorde marque uma vitória monumental para os escritores, deixa por resolver o debate jurídico central em torno do treino da IA generativa. O tribunal estabeleceu uma distinção crucial, salientando que, embora o treino técnico de modelos de IA possa ser considerado uso justo, a aquisição e o armazenamento não autorizados de materiais pirateados constituem uma clara violação dos direitos de autor.
Esta decisão indica que, embora as empresas de IA possam, legalmente, aprender com textos protegidos por direitos de autor ao abrigo das diretrizes de uso justo, têm de obter os seus dados de treino através de meios autorizados e pagos, em vez de recorrerem a bibliotecas paralelas. Com dezenas de outros processos judiciais relacionados com direitos de autor a pairar no ar, esta decisão histórica sinaliza que a luta pelos direitos de criação na era da IA está longe de ter terminado.
A ‘bananas’ order for 5,000 obscure titles from a bookshop in Galway fuels suspicion
Independent retailers are receiving vast orders for obscure titles, fuelling suspicions that tech companies are are using them to train AI.
August 08, 2026
Livros - Catarina de Bragança
No original, Charles II’s Portuguese Queen: The Legacy of Catherine of Braganza. Muito bom. Escrito com rigor e minúcia, esquadrinha todos os episódios da vida desta rainha na Corte Inglesa.
Entretanto, vou ler este:
Esta autora, Mary Beard, é uma grande classicista, especialista na Roma Antiga, professora na Universidade de Cambridge.O facto dela ser uma pessoa interessantíssima e ser uma grande especialista no tema, foi insignificante face ao seu aspecto - no mundo de gente estúpida em que vivemos, as mulheres têm de parecer barbies nas TVs. Seja como for, ela não se deixou assediar e quando o programa findou escreveu este livro que foi :
A New York Times Notable Book
Named one of the Best Books of the Year by the Wall Street Journal, the Economist,Foreign Affairs, and Kirkus Reviews
Finalist for the National Book Critics Circle Award (Nonfiction)
Shortlisted for the Cundill Prize in Historical Literature
Finalist for the Los Angeles Times Book Prize (History)
A San Francisco Chronicle Holiday Gift Guide Selection
A New York Times Book Review Editors’ Choice Selection
July 21, 2026
Assuntos sérios: à atenção das editoras
Quando os livros são volumosos, encaderná-los com capa dura não ajuda à leitura. Não é possível pegar neles com uma só mão, lê-los deitada, não têm flexibilidade nenhuma. Há pouco tempo, como andei a ler a Odisseia na versão portuguesa da Quetzal, em capa dura e na versão inglesa da Norton, em capa mole, maleável, essa diferença ainda se tornou mais penosa. Por cada canto que lia em português ia ler um em inglês só para conseguir ter o livro na mão e ler sem estar sempre consciente do peso do livro.
July 08, 2026
S.P.Q.R. by Mary Beard
Mary Beard é uma professora de 71 anos que estuda romanos mortos e recebeu ameaças de violação por falar em público. A sua resposta: Escrever um livro que prova que há 3.000 anos que calam as mulheres.
Mary Beard é professora de clássicos em Cambridge. Passa os dias a estudar o Império Romano – uma civilização que desmoronou há mil e quinhentos anos. Durante a maior parte da sua carreira, isso significou artigos acadêmicos lidos por outros especialistas, palestras para estudantes, pesquisa silenciosa em bibliotecas.Depois começou a aparecer na televisão.
Nos anos 2000, Mary começou a apresentar documentários da BBC sobre a Roma antiga. Ela era brilhante, acessível, divertida. Fazia a história de dois mil anos atrás relevante e viva.
Mary tinha cinquenta e poucos anos, cabelo comprido e cinzento, um buraco característico entre os dentes e zero interesse em se ajustar aos padrões de beleza. Vestia-se casualmente. Não usava maquilhagem. Parecia professora, não modelo.
E a internet perdeu a cabeça.
Os comentários foram cruéis: era "feia demais" para a TV. Devia "ficar na biblioteca". Um espectador disse que tinha "cara para rádio". Quando Mary falava de política ou de questões contemporâneas — coisas que os intelectuais públicos homens fazem constantemente sem controvérsia — a reacção intensificou-se.
Recebeu ameaças de violação. Ameaças de morte. Descrições gráficas da violência que desconhecidos queriam infligir-lhe por ter opiniões sendo uma mulher visível.
Em 2013, depois que Mary apareceu em um programa da BBC discutindo sobre imigração, um homem tuitou que gostaria de ver seus genitais mutilados. Foi processado, mas o padrão continuou: sempre que Mary falava em público, uma torrente de abuso misógino a seguia.
A maioria das pessoas ter-se-ia aposentado. Teria apagado as redes sociais. Teria parado de aparecer em público.
Mary fez o oposto. Começou a estudar a razão de isso estava acontecendo. Não psicologicamente — não é terapeuta para analisar cada troll — mas historicamente. Estruturalmente. Usando as mesmas ferramentas que tinha aplicado ao estudo da Roma antiga durante décadas.
O que ela descobriu foi que esse padrão de silenciar as mulheres não é moderno. É antigo. Muito antigo.
Em 2014, deu uma palestra intitulada A voz pública das mulheres. Em 2017 expandiu-a num pequeno livro: Mulheres e Poder: Um Manifesto. Apenas 115 páginas. Mas traçam três mil anos de evidências que mostram que as mulheres foram sistematicamente excluídas da autoridade pública desde o início da civilização ocidental.
Mary começa com a Odisseia de Homero — escrita no ano 700 a.C. No início da história, Penélope desce as escadas para pedir a um bardo que pare de cantar uma canção porque a entristece. Seu filho Telémaco — que é um muito jovem um adulto — diz-lhe: "Mãe, volte para cima e cuide das suas próprias tarefas... O discurso será coisa dos homens."
Esta é literalmente uma das primeiras cenas da literatura ocidental: um homem mandando uma mulher calar-se e voltar ao trabalho feminino.
Mary rastreia este padrão por 3 mil anos. Mulheres romanas que falavam em público eram descritas como "latindo" — sons de animais, não linguagem humana. Quando tentavam falar no Fórum, eram retiradas fisicamente.
Mulheres medievais que reclamavam autoridade religiosa eram rotuladas de bruxas.
O padrão é consistente: as mulheres são bem-vindas a ter influência privada, a sussurrar conselhos a homens poderosos, a trabalhar nos bastidores. Mas a autoridade pública — o poder de falar, de mandar, de tomar decisões — foi codificada como masculino desde a Odisseia.
O argumento de Mary não é que as mulheres tenham sido completamente excluídas do poder. É que o próprio poder foi definido de maneiras que fazem a autoridade feminina parecer anti-natural, errada. Mesmo quando as mulheres alcançam posições de autoridade, enfrentam pressão constante para se ajustarem. Líderes homens são apenas líderes. Líderes mulheres navegam por laços duplos impossíveis.
A própria experiência de Mary prova sua tese. É uma das maiores especialistas mundiais na Roma antiga. Publicou dezenas de livros. É professora em Cambridge. As suas credenciais são inquestionáveis, mas quando se tornou publicamente visível, a resposta não foi o debate com suas ideias. Foram ataques à sua aparência, à sua idade, ao seu direito de falar.
Desconhecidos disseram-lhe que era muito feia para a televisão — uma crítica que nunca é feita a historiadores homens com credenciais muito menores. Quando discutia política, recebia ameaças de estupro — ameaças projectadas especificamente para silenciá-la.
Este é o padrão que Mary rastreou durante três mil anos, e experimentou isso na sua própria carne. A sua resposta não foi desistir. Foi demonstrar que esse mecanismo de silenciamento sempre existiu, que antecede a internet por milênios.
Quando você achava que a história não podia ficar mais chocante, Mary Beard descobriu na Roma antiga insultos que a ligam directamente ao que acontece hoje no Twitter - agora X. Descobriu que o discurso político violento da Roma Antiga é muito parecido com o actual X.
June 17, 2026
Uma historieta de hoje
Hoje estava como suplente aos exames da manhã na minha escola, que é em Setúbal. Um colega contou que ontem apareceu uma mulher para fazer o exame de Português e não dava com a sua sala. Ele foi com ela ao sítio onde estão afixadas as salas e viram tudo de todas as maneiras e não encontraram o nome dela. E ele perguntou, 'tem a certeza de que se inscreveu nesta escola?'Ao que ela responde: 'sim, então isto não é a escola da Moita?' Ao fim de 40 anos nisto ainda somos surpreendidos...
Enfim, como ninguém chamou suplentes, tive tempo de ler este livro, que também é um livro de historietas. São historietas de um moçambicano goês de uma família com alguma importância que andou pelas 'províncias ultramarinas' como então se dizia quando tudo era Portugal, desde o Minho a Timor e que tem coisas para contar. Era um subversivo, como lhes chamavam os do anterior regime e, portanto, era da esquerda, um comunista, como eram mais menos todos na época dado não haver mais nenhum partido organizado. Chama -agora- ao comunismo, o maior embuste do século XX.
Tem histórias interessantes, algumas giras, outras cómicas. Todas informativas de um certo tipo de vida e de quadro mental da época. Está lido.
May 23, 2026
Estou a reler a Odisseia de Homero
Li que Christopher Nolan está a rodar um filme sobre a Odisseia e resolvi reler o livro. Li a Odisseia quando era adolescente numa versão resumida para adolescentes de uma coleção de clássicos para a juventude que a minha mãe comprava para nós.
Depois, comprei-o quando acabei o curso numa altura em que andava muito interessada em ler gregos e medievais. Essa edição era uma tradução inglesa e nessa altura ainda tinha dificuldade com poesia em inglês e ia lendo pedaços. Entretanto, há uns anos saiu esta edição da Quetzal e comprei-a mas ainda não tinha lido, só folheado.
Há uns meses comprei outra edição da obra numa tradução inglesa de uma mulher (esta aqui ao lado) porque li um artigo a dizer que era a primeira tradução da Odisseia feita por uma mulher e que a perspectiva era algo diferente das dos homens. Fiquei com curiosidade.
Então, ontem comecei a ler a tradução portuguesa, depois de ler sobre umas polémicas com a abordagem de Nolen.
Estou a ler o livro como quem lê um romance, isto é, não páro para ir ler as notas (a não ser que alguma passagem me desperte curiosidade ou dúvida), dado que já conheço as histórias e as personagens principais - não todas, pois são muitas, mas não preciso de saber o nome de todos.
O que estou a fazer é a comparar com a versão inglesa de Emily Wilson, nas passagens que me parecem ter um olhar masculino na tradução. Não há grandes diferenças -até agora- mas há nuances.
Estou a ler um canto por dia. São mais ou menos 15 páginas. Sendo que são 24 cantos, no fim de Junho está lido. Por acaso lembrei-me que podia ler esta obra e gravar no YouTube como fiz com o Guerra e Paz. Essa obra levou-me pelo menos 9 meses a ler e gravar as leituras. Esta levaria um mês. Podia fazer isso nas férias. Quinze páginas lêem-se num instante. Se tiver disposição logo faço. Para quem nunca leu e não lhe apetece ler, mas gostava de conhecer e gosta que lhe leiam. Veremos.
Tenho pena de saber quase nada de grego antigo. O suficiente para perceber umas citações de filosofia que aparecem nos livros, mas não para ler um livro, nem de longe nem de perto. Se tivesse menos vinte anos ia aprender grego antigo porque uma obra desta deve perder muito na tradução, por muito boa que seja. Dantes era mais difícil aceder ao conhecimento. Conciliar um trabalho desgastante física e intelectualmente, mais a vida particular com filhos e o estudo, sobretudo em outra cidade. Pelo menos para as mulheres. Hoje-em-dia os miúdos queixam-se de muitas dificuldades, o que é verdade, mas têm enormes facilidades no acesso à informação que nós não tínhamos.
April 05, 2026
Livros - "Não há grande génio sem um toque de loucura"
«Não há grande génio sem um toque de loucura» é uma frase de Séneca, o Jovem, que a atribuiu a Aristóteles. Na sua obra Problemata, Aristóteles argumentou que todos os indivíduos excepcionais — quer na filosofia, na política, na poesia ou nas artes — eram, de alguma forma, melancólicos. Não no sentido actual de doença mental mas no sentido de natureza intensa, dada à meditação profunda e contemplativa, que permite ver além dos limites convencionais, desafiar as normas e pensar de forma diferente.
Este livro, escrito por Margot e Rudolf Wittkower, um casal de Berlim que fugiu da Alemanha nos anos 30, primeiro para Inglaterra, depois para os EUA, retoma essa ideia da Melancolia como fonte do génio criativo.
Daí o título do livro, Nascido sob Saturno - Saturno é o deus da melancolia e dos melancólicos diz-se que têm uma disposição saturnina - e daí, também, a primeira página trazer uma representação da Melancolia de Jacob Gheyn.January 04, 2026
Livros - "O caminho para Wigan Pier" de George Orwell
Este livro nasce de Orwell ter recebido do seu editor, Victor Gollancz, em 1936, a incumbência de visitar áreas que sofriam de desemprego em massa, nos condados de Lancashire e Yorkshire, bem como de uma enorme crise de habitação que atirava as pessoas para bairros de lata repugnantes de sujidade, falta de privacidade e convívio com toda a espécie de indigência. Eram áreas fortemente industrializadas e mineiras e é pelas minas que ele começa.
Um livro muito bom e muito actual em vários sentidos.
Deixo aqui uns excertos da 2ª e 3ª partes sobre os preconceitos de classe e o socialismo. Não deixo da 1ª apenas porque porque são muitos extensos, embora sejam muito impressionantes e instrutivos.
Além disso, o hábito de lavar o corpo inteiro todos os dias é muito recente na Europa, e a classe operária em geral é mais conservadora do que a burguesia. Mas os ingleses estão ficando visivelmente mais limpos, e podemos esperar que daqui a cem anos serão quase tão limpos como os japoneses. É uma pena que os que tanto idealizam a classe operária acham necessário elogiar todas as características que ela tem, e assim fingir que a sujeira é, de algum jeito, algo meritório. E eis aqui algo bem curioso: o socialista e o católico democrático sentimental, do tipo Chesterton, às vezes se dão as mãos; ambos lhe dirão que a sujeira é saudável e “natural”, e a limpeza apenas uma moda ou, na melhor das hipóteses, um luxo.***
Eles parecem não ver que estão apenas dando um colorido à ideia de que as pessoas de classe operária são sujas por opção, e não por necessidade. Na verdade as pessoas que têm acesso ao banho em geral o utilizam. Mas o essencial é que as pessoas da classe média acreditam que a classe operária é suja — vemos na passagem acima que o próprio Maugham acredita — e, o que é pior, que essa sujeira deles é, de algum modo, inerente a eles.
(...)
Mas o que dizer do homem de classe média cujos pontos de vista não são reacionários, e sim “avançados”? Por baixo da sua máscara revolucionária, será que ele é, realmente, tão diferente do outro?
Um homem de classe média abraça o socialismo e talvez até entre no Partido Comunista. Que diferença real será que isso faz? É claro que, vivendo no esquema da sociedade capitalista, ele tem que continuar ganhando a vida, e não se pode culpá-lo se ele se apega a seu status econômico burguês. Mas será que há alguma mudança em seus gostos, em seus hábitos, em suas maneiras, no seu repertório imaginativo — em sua “ideologia”, para usar o jargão comunista? Será que há nele alguma mudança, exceto que ele agora vota no Partido Trabalhista ou, quando possível, no Comunista? É visível que de hábito ele ainda se associa à sua própria classe; fica imensamente mais à vontade com um membro de sua própria classe, que o considera um perigoso bolchevique, do que com um membro da classe trabalhadora, que, supostamente, concorda com ele; suas preferências em matéria de comida, vinhos, roupas, livros, quadros, música, balé, ainda são reconhecíveis como gostos burgueses; e o mais significativo: ele invariavelmente se casa dentro de sua própria classe. Veja qualquer socialista burguês. Veja o Camarada X, membro do Partido Comunista da Grã--Bretanha e autor de Marxismo para crianças. O Camarada X, na verdade, estudou em Eton. Estaria pronto para morrer nas barricadas, pelo menos na teoria, mas você nota que ele continua deixando o botão inferior do colete sem fechar. Ele idealiza os proletários, mas é notável como seus hábitos pouco se parecem com os deles. Quem sabe alguma vez, por mera fanfarronada, já fumou um charuto sem tirar o anel da marca; mas para ele seria quase fisicamente impossível colocar na boca um pedaço de queijo espetado na ponta da faca ou ficar dentro de casa de boné, ou mesmo beber chá no pires. Talvez as boas maneiras à mesa não sejam um mau teste de sinceridade. Já conheci muitos socialistas burgueses, já ouvi horas e horas suas tiradas contra sua própria classe; e contudo nunca, nem uma única vez, conheci algum que tenha assimilado as maneiras de o proletariado se portar à mesa. E, afinal de contas, por que não? Por que um homem que julga que todas as virtudes residem no proletariado deveria continuar fazendo tanto esforço para tomar sopa sem fazer barulho? Só pode ser porque, no fundo do coração, ele sente que as maneiras da classe baixa são repulsivas.
(...)
Muita gente, porém, imagina que consegue abolir as distinções de classe sem fazer nenhuma mudança desconfortável em seus próprios hábitos e na sua “ideologia”. Vêm daí as impetuosas iniciativas para romper as barreiras de classe que podemos ver por todo lado. Em toda parte há pessoas de boa vontade que acreditam sinceramente que estão trabalhando para derrubar as distinções de classe. O socialista de classe média se entusiasma com o proletariado e organiza “escolas de verão” onde o proletário e o burguês arrependido devem cair um no braço do outro e se tornar irmãos para sempre; e os visitantes burgueses saem de lá dizendo como tudo aquilo é tão maravilhoso e inspirador (os proletários saem dizendo coisas bem diferentes). E há também aquele tipo de burguês piedoso e benemérito, relíquia do período de William Morris e do socialismo cristão, mas ainda surpreendentemente comum, que vive dizendo: “Mas por que deveríamos nivelar por baixo? Por que não nivelar por cima?”, e propõe subir o nível da classe trabalhadora (até alcançar o seu próprio) por meio de higiene, suco de frutas, controle da natalidade, poesia etc. Até mesmo o duque de York (hoje rei George VI ) organiza um acampamento anual onde se espera que jovens das public schools e garotos da favela se misturem em termos exatamente iguais — e, aliás, de fato se misturam nesse período —, mais ou menos como os animais nessas gaiolas do tipo “Família Feliz”, onde um cachorro, um gato, duas doninhas, um coelho e três canários mantêm uma trégua armada enquanto o olho do treinador está bem firme em cima deles.Todos esses esforços deliberados e conscientes para romper as divisões de classe são, creio, um equívoco muito sério. Às vezes são apenas fúteis, mas, quando apresentam um resultado definido, em geral só servem para intensificar o preconceito de classe. E isso, pensando bem, é o que se poderia esperar. Você forçou o ritmo e armou uma igualdade incômoda, e nada natural, entre uma classe e a outra; o atrito resultante traz à superfície todo tipo de sentimentos que sem isso teriam permanecido enterrados, talvez para sempre. Como eu já disse a respeito de Galsworthy, as opiniões do sentimentalista se transformam em seus opostos ao primeiro toque da realidade. Basta arranhar a superfície do pacifista comum e você encontra um chauvinista pronto para a briga. O sujeito de classe média que vota no ILP* e o barbudo que toma suco de frutas são totalmente a favor de uma sociedade sem classes, contanto que enxerguem o proletariado pela outra ponta do telescópio; basta forçá-los a ter algum contato real com um proletário — entrar em uma briga com um estivador bêbado em um sábado à noite, por exemplo — e eles são capazes de voltar bem rápido a um esnobismo de classe média do tipo mais vulgar. A maioria dos socialistas de classe média, porém, não tem a menor probabilidade de entrar em brigas com estivadores bêbados; e quando fazem algum contato genuíno com a classe trabalhadora, em geral é com a intelligentsia da classe trabalhadora.
(...)
Nem é preciso observar que nesse momento estamos em uma situação muito grave, tão grave que até as pessoas mais burras acham difícil não tomar conhecimento do que se passa.
Estamos vivendo em um mundo em que ninguém é livre, em que quase ninguém tem segurança, em que é quase impossível ser honesto e continuar vivo. Para enormes blocos da classe operária, as condições de vida são como descrevi nos capítulos iniciais deste livro, e não há chance de que essas condições mostrem qualquer melhoria fundamental. O máximo que a classe trabalhadora inglesa pode esperar é uma redução ocasional e temporária do desemprego, quando este ou aquele setor é estimulado artificialmente por alguma coisa, como o rearmamento, por exemplo. Até mesmo a classe média, pela primeira vez na sua história, está sentindo que é preciso apertar o cinto. Ainda não conheceram a fome de verdade, porém mais e mais gente dessa classe se vê enredada em uma espécie de rede mortal de frustração, em que fica cada vez mais difícil para alguém se convencer de que é uma pessoa feliz, ativa ou útil.
(...)
Parece que foi ontem que os socialistas, em especial os marxistas ortodoxos, me diziam, com sorrisos de superioridade, que o socialismo viria por si só, ou por meio de um processo misterioso chamado “necessidade histórica”. É possível que essa convicção continue existindo, mas foi abalada, para dizer o mínimo. Vêm daí as repentinas tentativas dos comunistas em vários países de se aliar com forças democráticas, as quais eles vêm sabotando há anos. Em um momento como este, há uma necessidade desesperada de descobrir exatamente por que o apelo socialista fracassou. E não adianta atribuir a atual repulsa pelo socialismo à burrice humana ou a motivações desonestas. Para eliminar essa repulsa, é preciso compreendê-la, o que significa entrar dentro da cabeça do opositor comum do socialismo, ou pelo menos considerar seus pontos de vista com simpatia.
January 02, 2026
Como ler um livro por semana - ou até dois
Não há nenhuma fórmula mágica. É uma questão de criar uma rotina adaptada à vida pessoal.
Há um pressuposto que é, obviamente, o querer ler. Posto isso, aqui vão algumas normas:
1. Ter livros. Se não tem livros para ler em casa, quando tem um tempo livre, não lê. Então, deve-se ter livros para ler. Tem-se sempre uns livros a mais do que se consegue ler, para ter escolha.
2. Ter livros variados e não apenas um tipo de livros, para poder pousar (ou pausar) um que esteja numa parte aborrecida ou cansativa e pegar em outro. Não se obrigar a ler livros que não lhe interessam - a não ser quando são trabalho obrigatório.
3. Procurar experimentar novas categorias de literatura que serão novos filões de leitura. Há muitos tipos de livros: ensaios, policiais, romances históricos, ficção científica, fantasia, biografias e auto-biografias, história, política, arte, etc. Em livros mais densos, de informação faço sempre anotações para pegar o fio da meada quando volto a pegar no livro depois de uma pausa.
4. Andar sempre com livros, sejam de papel ou digitais. Descarregue um leitor digital e armazene no telemóvel ou no tablet vários livros. Há muitas plataformas com livros gratuitos que se podem descarregar, de todos os estilos e categorias, desde clássicos a contemporâneos. Ainda hoje li sobre um serviço de livros gratuitos ligados às bibliotecas públicas. A intenção é ler sempre que tem um tempo livre: a caminho do trabalho, enquanto toma o pequeno-almoço, numa pausa do trabalho, numa fila de espera no médico ou num serviço público, etc., em vez de perder tempo a fixar o telemóvel. Pode ouvir-se livros (áudio-livros descarregados para o telemóvel) em situações que seja difícil ler, como por exemplo, num transporte público em que vá em pé.
5. Criar uma rotina adaptada à sua vida. Por exemplo, hoje-em-dia leio muito de madrugada -porque acordo muito cedo- ou a meio da tarde. Dantes lia pela noite dentro, mas agora já não consigo. O objectivo é ter uma meta de páginas por dia, digamos, umas 40 - ou, se de início isso for muito, umas 25. Não interessa o número certo de páginas, o que interessa é ter essa rotina e cumpri-la ao longo do dia. É claro, se temos tempo livre a sério, podemos ler um livro num dia, como fiz ontem com a biografia de Erasmo. Se lemos (ou ouvimos) 40 páginas por dia, numa semana lemos um livro de 280 páginas. Se não é um leitor lento e consegue ler mais do 40 páginas (ou se tem dias mais livres em que lê 100 páginas) lê dois livros por semana - por exemplo, um livro maior e outro mais pequeno.
6. Escolhe-se o livro para o momento - por isso é que é importante ter vários livros diferentes em casa. Em momentos mais longos e calmos ler aquele livros que requerem reflexão e digestão lenta, em momentos mais curtos ler livros mais leves e de fácil absorção.
7. Quando encontra um autor que gosta, explore-o. Nos livros que dão prazer a ler, facilmente se ultrapassam as 40 páginas sem dar por isso.
8. Fundamental: desligar as notificações do telemóvel, pô-lo no silêncio e, até, de preferência, deixá-lo em outro sítio. Minimizar as distracções. Eu guardo o telemóvel numa gaveta ou deixo-o numa outra divisão da casa. Também fecho o portátil e ponho-o longe. Ponho música a tocar baixo. Tenho uma cadeira muito confortável onde só me sento para ler e já a associei a leitura, de maneira que quando me sento lá leio durante muito tempo.
9. Perder algum tempo a pesquisar livros interessantes para ler, seja na internet, seja nas livrarias. Falar com outros leitores que respeite e saber o que andam a ler.
10. Quando experimenta um livro sobre um tema novo, explore o tema, porque isso leva a outros interesses e outros livros. Por exemplo, quando reli, 'Guerra e Paz' fiquei curiosa com os trajes militares e de festa que descreve em pormenor de maneira que depois andei a ler sobre moda e vestuário civil e militar da Europa dessa época napoleónica e andei a investigar o tema. Depois interessei-me pelo mobiliário estilo Império, que me levou a outros interesses.
11. Se por acaso calha não ter livros novos em casa, pegue num dicionário antigo ou melhor, num dicionário etimológico (há muitos online para quem não os tem em papel) e investigue palavras. A origem e evolução das palavras contam uma grande história sobre as pessoas, as ideias, os acontecimentos, a própria história. A questão é: não passe um dia sem ler, seja o que for.
12. Tenha livros de colectâneas de contos. São óptimos para quando queremos ler algo do princípio ao fim em pouco tempo. Todas as culturas têm a sua mitologia e há centenas de livros com as histórias das personagens e acontecimentos dessas mitologias, que quase sempre são fascinantes de ler e muito educativas.
Por fim, pegue aos filhos o gosto pela leitura. Leia e leia-lhes livros desde que nascem. Logo ali nos primeiros meses já há livros para explorar com eles e contar histórias.
January 01, 2026
Livros - Triunfo e tragédia de Erasmo de Roterdão
Erasmo foi o primeiro a ter uma consciência europeia. Um conciliador por natureza, um anti-fanático, um humanista racional e civilizador, prezava a sua liberdade e independência acima de tudo e nunca se quis prender, nem a ordens religiosas, nem a príncipes -sacrificou o título de Doutor da Igreja para manter a sua liberdade- e viajou constantemente pela Europa, de biblioteca em biblioteca, com a sua voracidade de conhecimento. Estabeleceu uma rede de contactos com estudiosos de imensos países europeus. Era procurado por príncipes da igreja e seculares, justamente pelos seus conhecimentos e fama de imparcialidade.
Vale muito a pena ler. Stefan Zweig não escreve uma mera biografia, antes acompanha Erasmo com reflexões próprias e acutilantes sobre o ser humano, os intelectuais, as religiões, a história.
De facto, o programa europeu de intercâmbio cultural universitário não poderia ter tido um outro nome senão este de Erasmus. Ele simboliza o que há de melhor no espírito e valores europeus humanistas e de procura de conhecimento.December 25, 2025
Livros para ler no Inverno
Para quem gosta de ambientes literários passados no coração do Inverno em paisagens solitariamente geladas.
Ariel Lawhon, The Frozen River
October 09, 2025
Livros - The Last Ottoman Generation...
Morava num apartamento na Avenida Lexington e trabalhava discretamente como bibliotecário na cidade de Nova Iorque. Passava os dias rodeado de livros, em vez de cortesãos. No seu tempo livre, encantava as crianças locais com espectáculos de marionetas.
The Last Ottoman Generation and the Making of the Modern Middle East
por Michael Provence
October 05, 2025
Celebrar Aldus Manutius (1449-1515)
Hoje é o dia do professor e quem fala em professores, fala em livros e em ler - ou, pelo menos, falava.
Aldus Manutius foi a figura mais importante da época renascentista, nas áreas de impressão, publicação e tipografia, fundador de uma verdadeira dinastia de grandes impressores-editores e da famosa Aldine Press.August 21, 2025
Livros - Uma entrevista muito interessante com Pedro Paixão
Lembro-me de Pedro Paixão como professor de Filosofia. Dava uma cadeira de Filosofia Contemporânea e foi ele que me pôs interessada em Marx e Hegel, por exemplo e foi com ele que aprendi a gostar de Wittgenstein. Pelos vistos, agora interessa-se mais por teologia que por Filosofia. Quando publicou o primeiro livro fui comprar, esperando encontrar o professor de Filosofia, mas o livro era outra coisa muito diferente e perdi o interesse. Agora esta entrevista sobre o seu novo livro, Desvio da Memória - Anotações sobre a Destruição dos Judeus Europeus, despertou-me novamente o interesse.
Pedro Paixão: “O judaísmo não é propriamente uma religião, é uma forma de vida
O escritor fez uma longa viagem a Auschwitz, cumprindo um percurso histórico e cultural com imensas estações. O resultado: Desvio da Memória, difícil de classificar quanto ao género.
António Guerreiro (entrevista)
Pedro Paixão é um escritor que teve um imenso sucesso nos anos de 1990, quando se estreou com o romance A Noiva Judia. Uma categoria narrativa que, sobretudo em França, tem conhecido nos últimos anos um considerável sucesso, a chamada autoficção, serve parcialmente para classificar a produção romanesca de Pedro Paixão que obteve na época uma larga difusão. Era então colocada, de maneira quase unânime, numa categoria a que se dava o nome, hoje obsoleto, de “literatura light”. O que, de resto, não coincidia bem com a cultura sofisticada do seu autor e as suas confessadas preferências literárias.
Lendo hoje com atenção, talvez essa produção seja menos light do que parecia e seja dotada de uma autoconsciência literária que a resgata dessa suposta leveza. Há quem recorde Pedro Paixão como professor de Filosofia na Universidade Católica e depois na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; outros, recordam-no certamente como um dos fundadores do jornal O Independente, ao lado de Miguel Esteves Cardoso e Paulo Portas, muito embora se tenha desvinculado muito cedo dessa publicação e do seu círculo; outros ainda, recordá-lo-ão como fotógrafo, cuja obra foi mostrada em exposições e livros; poucos, porém, terão dado pela sua produção vasta, em vários géneros, que nunca foi interrompida, mas seguiu caminhos muito mais discretos do que aqueles que marcam o início da sua carreira literária.
Com Desvio da Memória, um imenso volume de cerca de 800 páginas que tem como subtítulo Anotações sobre a Destruição dos Judeus Europeus, o escritor apresenta-se sob a roupagem de um historiador, de um investigador de factos, lugares, figuras e episódios históricos que fazem parte de uma constelação que tem no seu centro a Catástrofe (assim, com letra maiúscula, como surge no livro) que o nome de Auschwitz evoca.
Desvio de Memória é um conjunto enorme de textos que são como uma viagem histórica e, muitas vezes, um exercício de elaboração interpretativa. Fornece-nos um manancial de informação, muitas vezes em registo narrativo ou até romanesco, que tem tanto de historiográfico como de memória. Este livro penetra fundo nos territórios sombrios da história europeia do século XX e contribui com um conceito, o de “desvio da memória”, para aquele campo de estudos que, na língua inglesa, se chama memory studies. O judaísmo, a história e a geografia da cultura judaica, assim como a exegese de alguns episódios do Antigo Testamento, são uma matéria fundamental deste livro que combina erudição e investigação com narrativas daquilo a que se pode chamar viagem crítica e sentimental pelos “tempos sombrios” e seus prolongamentos da história europeia do século XX.
Comecemos exactamente pela primeira frase do seu livro: “Em Agosto de 2010, decidi ir a Auschwitz.” Esta frase leva-nos a pensar que o livro é a narrativa de uma viagem a um lugar muito especial. Mas afinal a dimensão narrativa está quase ausente.
É antes uma viagem no tempo, uma viagem histórica.
No fundo, é uma viagem por uma constelação de lugares de memória que tem Auschwitz no centro. O que motivou a decisão de lá ir?
Não sei responder. Foi uma coisa repentina. Tinha acabado de fazer uma exposição de fotografia que correu muito mal. Desde os meus 18 anos que me interesso pelo acontecimento do qual Auschwitz é o nome. Mas nunca me tinha passado pela cabeça lá ir, nem sabia bem localizá-lo geograficamente.
Todos os textos que integram o livro foram escritos depois da viagem?
Todos. Fui-os escrevendo ao longo de 12 anos. Tive de ler e estudar muito, estudar muito. Não sou historiador, nem este é um livro de História, mas os factos que descrevo são confirmados por fontes que considerei seguras, confiáveis.
A tão problemática e consagrada dicotomia história/memória e a vaga memorial que lhe corresponde entram aqui em força...
Muito especialmente através daquilo a que chamo “desvio da memória”, que é uma maneira de enganar, de deturpar, muito embora utilizando factos verdadeiros.
Trata-se de construções fraudulentas da memória e da história?
Sim. No caso de Auschwitz, a Igreja Católica, ao tentar cristianizar o Holocausto, ao tentar colocar-se do lado das vítimas, procura negar a responsabilidade inegável que teve no anti-semitismo europeu e esconder o apoio que os seus mais altos dignitários tiveram na subida ao poder de Hitler e na consolidação do regime, sobretudo através da Concordata, que foi assinada entre o Vaticano e o Estado alemão seis meses depois da subida ao poder de Hitler, em Julho de 1933. As homilias, tanto de João Paulo II como de Bento XVI em Auschwitz, são nitidamente desvios da memória que me chocaram.
Em nenhum momento a Igreja Católica Romana reconheceu a sua responsabilidade?
Nunca. Tenta sempre pôr-se do lado das vítimas. Veja-se como explora dois casos de que falo no meu livro: o do padre Maximiliano Kolbe e o de Edith Stein, uma judia convertida ao cristianismo. Ela foi morta em Auschwitz, tal como a sua irmã Rosa, não por ser uma freira católica, mas por ser judia. A classificação como judeu não dependia da religião que se tinha, dependia do sangue que corria nas veias. Quanto ao padre Maximiliano Kolbe, ele foi de facto assassinado em Auschwitz quando Auschwitz era ainda só um campo para prisioneiros polacos e soviéticos. Não havia judeus sequer. Só alguns meses mais tarde é que é inaugurado o campo de morte de Auschwitz-Birkenau. A canonização do padre Maximiliano como santo e mártir, por supostamente se ter oferecido para substituir um prisioneiro (mas a versão da Igreja é enganosa, e perceber isso chocou-me), não é senão um acto para tentar cristianizar o Holocausto.
Como descreve a sua experiência de visitar o campo de Auschwitz transformado num memorial?
Não senti quase nada. Fiquei um pouco chocado ao ver que o campo estava transformado num sítio turístico. As pessoas que lá vão não fazem a mínima ideia do que estão a ver.
Mas esse quase-conceito de desvio da memória pode ter utilizações mais banais, em contextos diferentes?
É algo que eu próprio faço, às vezes. Por exemplo, quando digo que a minha mãe é americana. É um facto que a minha mãe tinha a naturalidade americana por ter nascido nos Estados Unidos. Mas de facto não era americana, era filha de emigrantes portugueses e voltou para Portugal aos 11 anos. Não gostava de falar inglês, preferia o francês, e não falava dos Estados Unidos. Quando eu digo a alguém que a minha mãe é americana, estou a dizer uma verdade, mas estou a enganar porque levo o meu interlocutor a ter uma série de expectativas quanto à minha mãe americana que não correspondem à realidade.
A memória é enganadora. Por isso é que a historiografia sempre teve uma suspeita em relação a ela...
A memória é parcial, tendenciosa, e até muitas vezes falaciosa. E muda com o tempo. Mas o desvio da memória é diferente, há uma intencionalidade de enganar.
É disso de que acusa fortemente, em muitos dos textos deste livro, a Igreja Católica. E o protestantismo?
Os protestantes não se portaram melhor do que os católicos, mas, como os protestantes estão divididos em várias denominações, não há aquela unidade da herança católica. Lutero julgou que, com a sua reforma, os judeus pudessem converter-se ao cristianismo, mas quando viu que isso não aconteceu tornou-se violentamente anti-semita e escreveu um dos textos anti-semitas mais violentos que alguma vez foram escritos, sobre “a mentira dos judeus”.
Curiosamente, numa página do seu livro refere-se ao filósofo austríaco Otto Weininger, um judeu que é um exemplo extremo de jüdische Selbsthass, do ódio do judeu por si próprio, por ser judeu.
Weininger, que escreveu Sexo e Carácter, um livro furiosamente anti-semita e misógino, mas que é ao mesmo tempo genial e terrível, suicidou-se aos 23 anos, em Viena, na casa onde Beethoven tinha morrido. Esse livro, publicado em 1903, teve uma enorme influência, na sua época.
A sua recepção atravessou fronteiras. Em Itália teve um enorme sucesso. Mas regressemos à sua “ida” a Auschwitz. Que preparação prévia a determinou? Tudo começa certamente numa relação com o judaísmo...
Sem dúvida, desde muito novo. Em todos os meus livros de ficção, há sempre alguma história que tem que ver com o judaísmo. Depois do 25 de Abril pertenci a um partido que era o MES [Movimento de Esquerda Socialista]. Quando saí do MES, uma das minhas ideias era ir para Israel e inscrever-me nas IDF, as Forças de Defesa Israelitas.
Mas esse interesse pelo judaísmo é de ordem intelectual e cultural. Não se trata de uma profissão de fé religiosa...
Sim, é isso. Entre os meus autores preferidos estão o Proust e o Kafka, que são judeus. E também Isaac Bashevis Singer, que foi Prémio Nobel. Ele passou por Lisboa quando emigrou da Polónia para os Estados Unidos e conta uma conversa que teve com um taxista lisboeta. A presença dos judeus na cultura europeia é de uma enorme proporção. Freud era judeu, mas era anti-semita, de certa maneira. O seu último livro, Moisés e a Religião Monoteísta, é um livro terrível para os judeus, sobretudo na altura em que é publicado, em 1939.
Entrou no judaísmo por mediação cultural e literária, independentemente do sionismo?
Até ter começado a ler e a estudar mais profundamente os textos de Theodor Herzl, o fundador do sionismo político moderno, nem tinha bem consciência do que era o sionismo. Herzl era um homem perturbado e muito inculto, totalmente assimilado. Teve uma vida trágica, um casamento muito infeliz, os seus dois filhos, que nem eram circuncidados, suicidaram-se. Ser judeu não é ser sionista. Tenho vários amigos em Israel que não são sionistas. Há jornais em Israel que não são sionistas, por exemplo o Haaretz. Na semana passada, esse jornal publicou um artigo que dizia que a fome em Gaza é da responsabilidade do exército israelita. Tem a coragem, e a capacidade, de expor a verdade. Mas não simplifiquemos nem generalizemos quando dizemos que a culpa é de Israel. Israel é o quê? É o Estado de Israel? É o Governo actual de Israel? São os israelitas? Os israelitas têm opiniões muito diversas. Há aquele dito muito conhecido segundo o qual se há sete judeus, há sete opiniões.
Tendo ido muitas vezes a Jerusalém e também a outras cidades israelitas, com que ideia é que ficou?
Percebi que havia muita segregação e muito desconhecimento entre os israelitas judeus e os israelitas árabes, que são quase um milhão. Eu tinha amigos judeus, mas também tinha amigos árabes. E eles não sabiam coisas mínimas uns sobre os outros. E mesmo entre os judeus há uma grande rivalidade, e até um desacordo entre os sefarditas e os asquenazes. Porque, ao longo da história, transformaram-se e tornaram-se muito diferentes. E o Estado de Israel, por ser judaico, não pode, a meu ver, ser um verdadeiro Estado de direito, como um Estado islâmico não o pode ser.
Ainda quanto ao sionismo: progressivamente foi-se dando um desvio em relação àquilo que foi quase o projecto utópico de criação de um Estado voltado para a paz, que preconizava uma sociedade que tinha aspectos de utopia...
Israel não tem uma Constituição porque não consegue escrever sequer o preâmbulo. Para justificar a sua presença, a sua criação, tenho de evocar factos, tenho de fazer também um desvio da memória. De facto, só houve um Estado judaico no tempo de David. Só houve três reis de Israel: Saul, David e Salomão. Israel significa aquele que luta contra Deus. O fio condutor da Bíblia hebraica, o Tanakh, é um conflito entre o divino e o humano, entre Deus e as suas criaturas, que estão sempre a desobedecer-Lhe.
Por isso é que Deus é um tirano. Para disciplinar as suas criaturas tem de as castigar.
Deus é extremamente violento. É o Senhor dos exércitos, também. No Novo Testamento, o conflito é muito diferente, é entre Jesus e os judeus. Jesus, no sentido estrito, não é judeu. Era muito diferente ser judeu da Judeia ou ser judeu da Galileia. Muito diferente. Até o dialecto aramaico que falavam era diferente. E todos os apóstolos de Jesus eram galileus menos um, Judas, o traidor, que era judeu. É uma coisa que se repete constantemente, este conflito entre o judeu e o grupo que o segue, armado. São Paulo, em Jerusalém, receando ser julgado e condenado à morte pelos judeus, diz que é romano, filho de pais romanos, para não ser crucificado... Há várias tradições, mas, na segunda tradição, ele é morto, mas não crucificado, é decapitado por ser romano.
Há alguns textos do seu livro que são exercícios de exegese bíblica.
É verdade. Aí arrisco-me a cometer erros. Para mim, parece-me óbvio, pela leitura dos Evangelhos, que Jesus não só tem desprezo, mas quase odeia relações familiares. Em nenhum caso ele chama mãe a Maria, ou pelo nome, nunca. Trata-a pelo nome ou por mulher, o que é uma forma rude de tratar a mãe. E quando um discípulo lhe pede para ir enterrar o pai, ele diz-lhe para deixar os mortos, para voltar costas ao pai e à mãe e para o seguir. É terrível, Jesus desprezava os laços familiares. Nenhum dos seus discípulos era seu familiar. O que os unia era uma ligação ideológica, muito mais forte que uma ligação familiar.
Voltemos à questão da memória, para referir o conceito de “lugares de memória”, do historiador francês Pierre Nora. Parece-me pertinente evocar este conceito para dizer que o seu livro é um périplo historiográfico por diversos lugares de memória, no centro dos quais está Auschwitz.
Auschwitz é mais do que um lugar, é o nome do acontecimento a que chamo Catástrofe, para evitar nomeá-lo como holocausto, que é um sacrifício de um animal pelo fogo. Não é correcto dizer que o extermínio dos judeus europeus foi um holocausto, um sacrifício dedicado a Deus. Por outro lado, a palavra Holocausto refere-se só aos que foram mortos. É preciso ter em conta que as vítimas do que aconteceu não foram apenas os que morreram, foram também muitos que sobreviveram. Mas é difícil arranjar um nome para o que aconteceu. Os motivos são muito mais mitológicos e teológicos do que simplesmente políticos. Esta é a minha ideia de fundo. Não é um conflito social ou político, na cabeça de Hitler tratava-se de um conflito teológico, mais do que de racismo. O racismo é diferente, não pretende a destruição do escravo. O racista precisa do escravo para se continuar a sentir superior ao outro. Eu não posso ter ódio por um simples instrumento ao meu serviço. Hitler vê no judeu um poder descomunal...
E, portanto, um perigo. Mas o racismo não é isso? Não consiste em ver naquele que é diferente um perigo, uma ameaça? Vejamos, por exemplo, o documentário dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936, da autoria de Leni Riefenstahl. O seu olhar muito estetizado sobre os corpos apolíneos dos atletas alemães não é racista?
É verdade que há aí uma exaltação da “raça germânica”. E “raça”, como sabemos, é hoje considerado, tanto nos estudos antropológicos como sociológicos, um conceito não científico e não pertinente. Mas Leni Riefenstahl, muitos anos depois, em 1973, também fotografou os negros de uma tribo do Sul do Sudão, os Nuba.
Sobre essas fotografias escreveu Susan Sontag um célebre texto onde defendia, com fortes argumentos, que Leni Riefenstahl não se tinha arrependido de ser racista e tinha encontrado em África uma raça superior de negros.
Ela apreciava mesmo a beleza daqueles negros. Hitler também considerou os japoneses como arianos honorários.
E não reside o racismo de Riefenstahl precisamente nessa estetização? Mas voltemos à matéria do seu livro. Foi durante anos professor no departamento de Filosofia, na FCSH da Universidade Nova de Lisboa. Transferiu-se com armas e bagagens da filosofia para a teologia?
É verdade. Interesso-me agora mais por teologia do que por filosofia.
Como é que se deu essa deslocação?
Foi fundamental ler o Tanakh, a Bíblia Hebraica. Aquilo que nós conhecemos como Antigo Testamento é uma tradução de uma tradução. Primeiro, há a tradução, no século III a.C., para grego. E depois há a tradução para o latim, que é a vulgata de São Jerónimo, a versão canónica. Só no século XIX é que a Igreja permitiu a sua tradução para as línguas vernaculares. Quando há uma tradução, há uma alteração do ambiente. Para mim foi indispensável a leitura do Tanakh, que literariamente é, de facto, uma obra incomparável, absolutamente extraordinária. É, ao mesmo tempo, sublime e terrível. E isso é nítido no original hebraico, que não aparece nas traduções para o grego e depois para o latim. Os grandes heróis da Bíblia Hebraica cometem faltas gravíssimas, pecam gravemente contra Deus. Enquanto no Novo Testamento as personagens principais são todas imaculadas, sem qualquer mancha de pecado. Jesus é totalmente humano, salvo no pecado. Mas o que é um humano sem pecado? O pecado tem sempre que ver com o sexo. O sexo. Há ali um tabu muito forte...
E não existe esse tabu no Antigo Testamento?
Não, o sexo tem de ser controlado, tem regras, sobretudo por causa da menstruação da mulher. Mas não é pecado, de modo algum. Temos um texto erótico, lindíssimo, que é a canção de Salomão, o Cântico dos Cânticos, um texto belíssimo sobre amor físico. No Novo Testamento só há algumas pequenas passagens em que há qualquer coisa de erótico, mas são coisas mínimas. Para o cristianismo, este mundo não vale nada, a nossa vida só tem valor como preâmbulo para a vida eterna. Isso não acontece no judaísmo bíblico, que não tem o Paraíso e o Inferno. O judaísmo não é propriamente uma religião, é uma forma de vida. Está muito mais perto do islão. Enquanto no cristianismo a base é teologia, no judaísmo, a teologia é interdita, não se pode tentar compreender ou racionalizar Deus. Essa é a razão pela qual Espinosa, filho de judeus portugueses expulsos de Portugal e refugiados em Amesterdão, foi alvo da mais alta punição, o chérem, a excomunhão hebraica, que é muito mais forte do que a excomunhão católica. Significa ser expulso da comunidade. E Uriel da Costa, judeu sefardita que nasceu no Porto, suicidou-se em Amesterdão depois de também ter sido excomungado.
Uriel da Costa, apesar de português, não é por cá muito recordado. A excepção é o livro de Agustina Bessa-Luís Um Bicho da Terra. É mais fácil encontrá-lo referido na Alemanha e no Norte da Europa.
É a grande diferença entre o Sul da Europa, católico, e o Norte, protestante. A reforma, de facto, mudou completamente a sociedade. Começou com Lutero.
Mas até num país católico, do Sul da Europa, como a Itália, encontramos bem fornecidas secções de teologia e de judaísmo, nas livrarias.
Os italianos não eram anti-semitas. Em Itália, deu-se a assimilação dos judeus.
Isso explica que Primo Levi, em Se isto é um Homem, tenha escrito que foi em Auschwitz que se tornou judeu.
O Primo Levi é um homem e escritor extraordinário. A capa do meu livro reproduz uma fotografia da escada do prédio onde viveu, em Turim, tirada pelo meu amigo Luís Quintais, em cujo vão Levi se precipitou, pensa-se que voluntariamente. Tudo aponta para a tese do suicídio.
Como é que vê os ataques das forças armadas de Israel a Gaza, a retaliação na sequência do 7 de Outubro?
É terrível, horrível. A morte de qualquer criança é uma coisa horrível. Mas é difícil ter uma opinião muito clara e nítida que nos tranquiliza a consciência sem cair na simplificação e na generalização. É bom porque nos tranquiliza a consciência. Com o seu conceito de “zona cinzenta”, Primo Levi ensinou-nos que há uma zona muito larga entre o moral e a imoral, entre a verdade e a mentira, entre o bem e o mal. E se quisermos encontrar os primeiros culpados do que está a acontecer, temos de culpar a França e a Inglaterra. Yitzhak Rabin, que foi assassinado em 1995, tinha ideias muito diferentes das que orientam o Governo de Benjamin Netanyahu, um homem corrupto que está a utilizar uma guerra para se manter no poder.
August 02, 2025
Livros - Filho do Hamas
O livro é muito bom. É o relato do seu percurso intelectual, religioso, moral e político. Nesse sentido particular faz lembrar o Discurso do Método de Descartes. À medida que avança no livro vai revelando as razões da sua transformação interior pelo relato dos acontecimentos da sua vida e como os experenciou.
Ele escreve o livro para o público mas em primeiro lugar para o seu pai, por quem tinha uma grande adoração, desde muito miúdo. Está a contar ao pai -e a justificar-se- o percurso que fez e o trouxe onde está.
Mosab Ypusef explica como nasce o Hamas. Nasce de um erro dos israelitas e depois ele viu o pai ser preso muitas vezes, torturado, afastado da família. Aos 18 anos, revoltado contra os israelitas resolve com um primo comprar armas. Como são muito novos, fala com o primo sobre as armas usando o telemóvel do pai e, é claro, vai preso porque os israelitas ouvem tudo.
O campo de prisioneiros está dividido por facções, a do Hamas, a da Jihad Islâmica, a do Movimento de Libertação da Palestina, etc. e todos têm que escolher uma mesmo que não tenham nenhuma. Ele escolhe o Hamas, por causa do pai e do tio que está lá preso e que ele descreve como um tipo hipócrita, enorme e brutal, capaz das piores crueldades gratuitas. A prisão é o sítio onde ele pela primeira vez vê o que é o Hamas.
As secções são dirigidas pelos próprios e os dirigentes do Hamas são carrascos do seu próprio povo dentro da prisão: tortura, sevícias sexuais, crueldades bárbaras. A ele não lhe tocam por ele ser filho de um dirigente do Hamas.
É também dentro da prisão que ele contacta pela primeira vez com israelitas, com comunistas, com liberais e outras ideias para além do Alá do Islão e começa a pôr em causa os métodos do Hamas e a própria interpretação de um Islão bárbaro e cruel que quer a guerra pela guerra - ele acha muitas das regras e preceitos do islão do Hamas sem sentido nenhum e atávicos. Começa a distanciar-se.
O Movimento de Libertação da Palestina, diz ele, luta por um Estado palestiniano; o Hamas luta por um Estado islâmico e a eliminação dos judeus.
Entretanto os israelitas, que lhe propõem ser espião do Hamas, percurso que ele faz aos pouco e à medida que vê a brutalidade do Hamas, tratam-no com mais humanidade que o seu próprio povo. Aos 20 anos vai estudar na Universidade por incentivo e com o dinheiro dos israelitas e começa a sua 'carreira' de espião. Está numa altura da vida em que quer aprender e tomar contacto com outras ideias, outras religiões e o mundo fora daqueles muros mentais..
Fica-nos a ideia de que os palestinianos vulgares estão fechados na religião e no islamismo e têm uma visão do mundo apertadinha e medieval. É a religião, mais a religião e só a religião.
O pai, ele não o entende, porque conta que ele é uma pessoa inteligente, extremamente gentil em casa e com toda a gente fora de casa, incapaz de matar, mas ao mesmo tempo assina de cruz todas as barbaridades do Hamas com as quais concorda.
Enfim, vou a meio e tenho muita curiosidade em saber do resto do percurso.
June 20, 2025
La vie en rose
Quando Isaac Newton dividiu a luz branca em raios coloridos, em 1666, não encontrou o cor-de-rosa. O laranja e o púrpura estavam lá, juntamente com o vermelho, o amarelo, o verde e o azul, pelo que, para os cientistas, essas eram as verdadeiras cores.
By Michel Pastoureau (Translated from French by Jody Gladding)
Princeton University Press 192pp
A madeira era reduzida a pó (um processo laborioso) e depois mergulhada em água durante muito tempo. A cor-de-rosa era tão popular que, quando os portugueses descobriram no Novo Mundo árvores tropicais cuja madeira possuía as mesmas propriedades do pau-brasil, deram-lhe ao país que colonizaram o nome delas.
O primeiro tratado europeu sobre pintura, o Libro dell'Arte de Cennino Cennini, data do início do século XV e discute a mistura de pigmentos necessária para obter tons carnudos. Para os frescos, recomenda-se uma combinação de ocre vermelho e cal, conhecida como cinabrese (não confundir com o cinábrio, que os romanos utilizavam), com gema de ovo adicionada como aglutinante. Segundo Cennini, as gemas dos ovos postos na cidade, por serem mais pálidas, são adequadas para os rostos dos jovens, enquanto os ovos colhidos no campo dão uma tonalidade mais escura, adequada para os homens mais velhos e mais rosados. Dependendo da finura dos pigmentos, o rosa resultante será suave e brilhante ou baço e áspero. Pastoureau salienta que, muitas vezes, existia um desfasamento entre o que os pintores diziam e o que faziam, uma vez que não queriam partilhar os seus segredos. Um belo painel pintado por Cennini em Siena, Natividade da Virgem (c 1390-1400), mostra uma figura vestida inteiramente de cor-de-rosa.
Veneza foi a capital indiscutível da cor na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Cidade comercial importadora de corantes do Oriente, foi também palco de pintores de renome como Bellini, Giorgione, Ticiano, Tintoretto e Veronese.
Nos têxteis, a moda do cor-de-rosa atingiu o seu auge entre 1750 e 1780, especialmente em França. Os rosas fortes estavam disponíveis para os compradores da classe média, levando as elites a procurar os tons pastel, mais caros. Charles Joseph de Ligne, marechal do exército do Sacro Império Romano-Germânico, foi apelidado de “o príncipe cor-de-rosa”, um termo que se referia não só ao seu gosto pelo cor-de-rosa no mobiliário e no vestuário, mas também ao seu optimismo e bom humor. Simbolicamente, o cor-de-rosa passou a indicar alegria de viver. Madame de Pompadour gostava de combinar os novos rosas com azuis e cinzentos, muitas vezes às riscas, e em Sèvres, um delicado tom de rosa pálido com um toque de laranja foi aperfeiçoado para a porcelana.
Na era do Romantismo, o cor-de-rosa assumiu associações femininas e, na década de 1820, era uma cor que os homens já não usavam. Muito rapidamente, deixou de estar na moda. No início do século XX, o cor-de-rosa estava em grande parte escondido, servindo principalmente como cor para a roupa interior das mulheres; se aparecesse numa peça de vestuário exterior, seria de um tom baço, sem nada de sedutor. À medida que o século avançava, o cor-de-rosa foi-se tornando ainda mais discreto: passou a ser uma cor para meninos e meninas, e depois só para meninas. A boneca Barbie, lançada em 1959, contribuiu para este processo.




















