Para quem gosta de ambientes literários passados no coração do Inverno em paisagens solitariamente geladas.
Ariel Lawhon, The Frozen River
Para quem gosta de ambientes literários passados no coração do Inverno em paisagens solitariamente geladas.
Hoje é o dia do professor e quem fala em professores, fala em livros e em ler - ou, pelo menos, falava.
Aldus Manutius foi a figura mais importante da época renascentista, nas áreas de impressão, publicação e tipografia, fundador de uma verdadeira dinastia de grandes impressores-editores e da famosa Aldine Press.
O livro é muito bom. É o relato do seu percurso intelectual, religioso, moral e político. Nesse sentido particular faz lembrar o Discurso do Método de Descartes. À medida que avança no livro vai revelando as razões da sua transformação interior pelo relato dos acontecimentos da sua vida e como os experenciou.
Ele escreve o livro para o público mas em primeiro lugar para o seu pai, por quem tinha uma grande adoração, desde muito miúdo. Está a contar ao pai -e a justificar-se- o percurso que fez e o trouxe onde está.
Mosab Ypusef explica como nasce o Hamas. Nasce de um erro dos israelitas e depois ele viu o pai ser preso muitas vezes, torturado, afastado da família. Aos 18 anos, revoltado contra os israelitas resolve com um primo comprar armas. Como são muito novos, fala com o primo sobre as armas usando o telemóvel do pai e, é claro, vai preso porque os israelitas ouvem tudo.
O campo de prisioneiros está dividido por facções, a do Hamas, a da Jihad Islâmica, a do Movimento de Libertação da Palestina, etc. e todos têm que escolher uma mesmo que não tenham nenhuma. Ele escolhe o Hamas, por causa do pai e do tio que está lá preso e que ele descreve como um tipo hipócrita, enorme e brutal, capaz das piores crueldades gratuitas. A prisão é o sítio onde ele pela primeira vez vê o que é o Hamas.
As secções são dirigidas pelos próprios e os dirigentes do Hamas são carrascos do seu próprio povo dentro da prisão: tortura, sevícias sexuais, crueldades bárbaras. A ele não lhe tocam por ele ser filho de um dirigente do Hamas.
É também dentro da prisão que ele contacta pela primeira vez com israelitas, com comunistas, com liberais e outras ideias para além do Alá do Islão e começa a pôr em causa os métodos do Hamas e a própria interpretação de um Islão bárbaro e cruel que quer a guerra pela guerra - ele acha muitas das regras e preceitos do islão do Hamas sem sentido nenhum e atávicos. Começa a distanciar-se.
O Movimento de Libertação da Palestina, diz ele, luta por um Estado palestiniano; o Hamas luta por um Estado islâmico e a eliminação dos judeus.
Entretanto os israelitas, que lhe propõem ser espião do Hamas, percurso que ele faz aos pouco e à medida que vê a brutalidade do Hamas, tratam-no com mais humanidade que o seu próprio povo. Aos 20 anos vai estudar na Universidade por incentivo e com o dinheiro dos israelitas e começa a sua 'carreira' de espião. Está numa altura da vida em que quer aprender e tomar contacto com outras ideias, outras religiões e o mundo fora daqueles muros mentais..
Fica-nos a ideia de que os palestinianos vulgares estão fechados na religião e no islamismo e têm uma visão do mundo apertadinha e medieval. É a religião, mais a religião e só a religião.
O pai, ele não o entende, porque conta que ele é uma pessoa inteligente, extremamente gentil em casa e com toda a gente fora de casa, incapaz de matar, mas ao mesmo tempo assina de cruz todas as barbaridades do Hamas com as quais concorda.
Enfim, vou a meio e tenho muita curiosidade em saber do resto do percurso.
Vou comprar este livro. Vi uma entrevista com o autor na RTP África e fiquei interessada.
Como a sina da humanidade pode mudar rapidamente. Parece que foi anteontem que nos convencemos de ter atingido o glorioso ponto culminante da História, após o colapso da União Soviética e, com ela, do comunismo, e o triunfo da democracia liberal ocidental e do seu aliado inseparável, o capitalismo. Naquela altura, parecia que tudo o que restava fazer era corrigir as falhas da nossa infalível economia política e exportá-la para as partes do planeta que ainda não tinham visto a luz neoliberal.
Naqueles dias felizes, o Relógio do Juízo Final foi acertado a dezassete minutos da meia-noite - os membros do Bulletin board declararam alegremente em 1991 que a nova configuração “reflecte o nosso otimismo de que estamos a entrar numa nova era”. No entanto, este otimismo superficial durou pouco tempo.“A história do mundo não é outra coisa senão o progresso da consciência da liberdade’.Hegel entendia a história como um assunto muito complexo e problemático, em que o caminho para o progresso tem muitas vezes de suportar dar um passo em frente e quatro passos atrás antes de acabar por obter um ganho líquido.
Como já aconteceu muitas vezes na história urbana, a unidade defensiva e a segurança inverteram a sua polaridade e passaram a ansiedade, medo, hostilidade e agressão, especialmente quando parecia que uma cidade vizinha poderia prosperar à custa da sua rival. Recordemos os ataques descarados de Florença a Pisa e Siena! Este isolacionismo era, de facto, tão autodestrutivo que sancionava as forças de exploração e agressão, tanto na Igreja como no Estado, que procuravam, pelo menos, criar uma unidade mais inclusiva, transformando a muralha demasiado sólida num limite fronteiriço mais etéreo, delineando uma província muito mais vasta.
Não se pode deixar a muralha sem notar a função especial da porta da cidade: muito mais do que uma simples abertura, era um “ponto de encontro de dois mundos”, o urbano e o rural, o interior e o exterior.
A porta principal era a primeira saudação para o comerciante, o peregrino ou o viajante comum; era simultaneamente uma alfândega, um posto de controlo de passaportes e de imigração e um arco triunfal, com as suas torres e torreões a rivalizarem, como em Lubeck, com as da catedral ou da câmara municipal. Onde quer que o rio do tráfego abrande, tende a depositar a sua carga: assim, era geralmente junto às portas que se construíam os armazéns, se reuniam as estalagens e as tabernas, e nas ruas adjacentes os artesãos e os comerciantes instalavam as suas lojas.
Deste modo, o portão produzia, sem regulamentos especiais de zonas, os bairros económicos da cidade; e como havia mais de um portão, a própria natureza do tráfego de diferentes regiões tenderia a descentralizar e diferenciar as áreas comerciais. Como resultado desta disposição orgânica das funções, a zona interior da cidade não era sobrecarregada por qualquer tráfego, exceto aquele que as suas próprias necessidades geravam.
O significado original de “porto” deriva deste portal; e os comerciantes que se instalaram neste porto eram outrora chamados “carregadores”, até passarem o nome aos seus ajudantes.
“Por fim, não se deve esquecer uma função antiga da muralha, que voltou na Idade Média: servia de passeio aberto para recreio, sobretudo no verão. Mesmo quando os muros não tinham mais de seis metros de altura, davam um ponto de vista sobre a paisagem circundante e permitiam desfrutar das brisas de verão que não penetravam na cidade.”
O livro é interessante para quem não está por dentro da filosofia medieval com o seu excesso de racionalismo teológico e com a tímida evolução das ideias à medida que se foram alargando os horizontes, a partir do século XII, com o contacto com os povos do Oriente próximo, devido às cruzadas e com a expulsão dos mouros e descobrindo as obras de Aristóteles. Agora, quem espera que o livro seja, como dizem na contracapa, um resgate de uma época injustamente declarada de Idade das Trevas, pois desengane-se. A expressão Idade das Trevas não se refere a não haver pessoas inteligentes e pensantes, que as houve em fartura, mas à decadência da literatura, das artes, da filosofia e das ciências em geral, desde o fim do Império Romano, até ao século XII, por conta da ascenção de uma sociedade teocrática, que subjugou a cultura e o pensamento livre e que só muito a custo, conseguiu libertar-se desse jugo, tal como vemos hoje acontecer nas sociedades teocráticas muçulmanas.
Ainda agora me enviaram uma pergunta para porem a resposta num post de uma rede social: "qual o melhor livro que leste em 2024?" Não sei responder a isso! Como é que é possível lembrar-me de todos os livros que li? Só se tivesse anotado tudo o que li. Por exemplo, neste Natal deram-me estes livros:
Comecei a ler O Homem que Gostava de Cães, que é sobre Trotsky e o seu assassino, Rámon Mercader, bem como os horrores da ditadura totalitária comunista-soviética. Também já li o primeiro conto das Histórias de Ted Chiang, Tower of Babylon, por sinal muito bom.
Vou a meio do livro. Até tratou da História, agora vai tratar da cultura. Muito bm o livrinho.