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March 07, 2026

Os ficheiros Epstein mostram a escala da cumplicidade com a cultura de violação e pedofilia ao mais alto nível

 



 

O escândalo Epstein é espantoso pela dimensão da cumplicidade e da cultura de violação no topo da sociedade.”

O pensador Marc Crépon, especializado nas formas e nos efeitos da violência, analisa a reacção pública ao escândalo sexual numa entrevista ao Le Monde. Alerta para o risco de se ignorar o sofrimento e o trauma das vítimas.

Entrevista de Yasmine Khiat.

Desde que a administração Trump divulgou mais de três milhões de documentos do processo de Jeffrey Epstein, a 30 de janeiro, o escândalo continua a perturbar a opinião pública. Todas as atenções se voltaram para o financeiro de Nova Iorque que dirigia uma rede internacional de tráfico sexual e abuso sexual de menores.

Marc Crépon, professor de filosofia na École Normale Supérieure, analisa de que forma este escândalo de abusos sexuais pôs a nossa sociedade à prova. O diretor de investigação do Centro Nacional de Investigação Científica (CNRS) escreveu numerosos livros sobre violência, incluindo Le Consentement meurtrier (Consentimento assassino).

Depois de o escritor Gabriel Matzneff ter sido acusado de violar menores, publicou Ces temps-ci. La société à l’épreuve des affaires de mœurs ("Estes tempos: a sociedade posta à prova pelos escândalos sexuais"), um ensaio em que examina até que ponto a sociedade, no passado, foi complacente perante esse tipo de violência sexual.


De que forma o escândalo Epstein constitui um teste para as nossas sociedades?

O caso Epstein expõe um sistema de utilização e exploração de jovens raparigas, reduzidas ao estatuto de objetos sexuais e colocadas à disposição dos poderosos. É evidente que um escândalo sexual desta natureza põe a sociedade à prova, não apenas porque a confronta com o seu silêncio passado, mas também porque traz consigo várias armadilhas.

A primeira é a deriva para teorias da conspiração, partindo do pressuposto de que todos os que detêm poder são predadores sexuais – quando, na realidade, não se tratava de uma vasta rede, mas antes de um círculo no qual jovens mulheres eram oferecidas a indivíduos muito específicos que beneficiavam dos “favores em espécie” proporcionados por Epstein.

A segunda armadilha é concentrar a atenção apenas nos perpetradores, esquecendo as vítimas e as formas como a violência sexual destruiu as suas vidas.

Como explica o fascínio por Epstein e pelas suas ligações?


Ficamos espantados com a dimensão da cumplicidade e da cultura de violação nos níveis mais altos da sociedade. Jeffrey Epstein foi condenado pela primeira vez em 2008 [sentenciado a 18 meses de prisão] por solicitação de prostituição de uma menor. Tratava-se de crimes extremamente graves, e ainda assim, isso não impediu várias pessoas de manter relações com ele. Continuar a associar-se a Jeffrey Epstein, conhecendo plenamente os factos, equivale a uma total minimização dos seus crimes.

Para ler o resto da entrevista: 
https://www.lemonde.fr/en/opinion/article/2026/02/26

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O escândalo Jeffrey Epstein tem sido descrito por especialistas em direitos humanos, jornalistas e investigadores como um escândalo global profundo, caracterizado pelo abuso sexual sistemático de menores, por uma “cultura de violação”que tratava as vítimas como mercadorias e por uma ampla cumplicidade entre uma rede de indivíduos ricos e influentes. 

A divulgação de milhares de documentos judiciais (os chamados “Epstein Files”) a partir de 2024 expôs ainda mais a dimensão dessa rede, implicando figuras das áreas das finanças, da academia, ciência e da política.

Dimensão 

Abuso sistemático e tráfico:
Especialistas independentes em direitos humanos das Nações Unidas descreveram as alegações como um possível “empreendimento criminoso global”, envolvendo escravidão sexual, tráfico de pessoas e tortura. Assinalaram que os crimes eram tão generalizados que podem atingir o limiar jurídico de “crimes contra a humanidade”.

Rede internacional:
A operação não se limitava a um único local, tendo uma dimensão internacional, com transporte de vítimas entre propriedades nos Estados Unidos, na Europa e nas Caraíbas.

Vitimas:
As vítimas eram frequentemente jovens vulneráveis, havendo indícios de que algumas tinham apenas 9 anos de idade.

Cumplicidade das elites e “cultura de violação”

Um “contexto” de poder:
O escândalo é frequentemente enquadrado não apenas como as ações de um único homem, mas como expressão de uma “cultura de violação” nos níveis mais altos da sociedade, onde estruturas patriarcais e riqueza extrema permitiam a objectificação de mulheres e crianças.

Cumplicidade dos poderosos:
Os documentos revelaram como numerosos indivíduos poderosos — incluindo líderes empresariais, políticos e cientistas — interagiram com Epstein, com alguns a visitarem a sua ilha privada ou a participarem nos seus círculos sociais, mesmo após a sua condenação em 2008.

Falhas institucionais:
O escândalo expôs uma “falha sistémica na proteção das crianças”, com procuradores, advogados, juízes e outros profissionais do sistema jurídico e instituições, muitas responsáveis pela proteção de menores, acusados de permitir ou ignorar os abusos, frequentemente através de acordos judiciais extremamente favoráveis que facilitaram imunidade para os criminosos.

Proteção da reputação:
O aspeto da “cultura de violação” também se evidencia na forma como estes abusos foram tratados por alguns como um “segredo aberto” ou um ruído de fundo normalizado, o que permitiu que continuassem durante anos.

Legado 

Impacto global:
O Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos citou o caso Epstein, juntamente com outros, como prova de uma emergência global de violência contra as mulheres e do silenciamento das vítimas.

As consequências dos “Epstein Files”:
A divulgação contínua de documentos levou a um intenso escrutínio das elites consideradas cúmplices, com críticos a exigirem responsabilização, observando que apenas uma pessoa (Ghislaine Maxwell) foi condenada em relação à rede de tráfico.

Questões por responder:
Apesar das condenações, continuam a existir dúvidas sobre a verdadeira dimensão da rede e sobre a eventual proteção continuada de outras pessoas envolvidas.

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Um dos documentos que li defende que esta cultura de violação começa com a objectificação das raparigas e mulheres e sempre esteve à vista de todos. Um ex-modelo conta que sempre foi costume os organizadores de festas de homens ricos e poderosos contratarem modelos muito jovens para aparecerem nas festas. Não tinham que fazer nada a não ser está lá e ser simpáticas. Sempre foi uma questão de prestígio, para quem dava a festa ou promovia o encontro, ter as modelos mais novas de idade e mais bonitas para exibir, como quem exibe um Patek Philippe ou um Lamborghini. Como Trump exibe salas decoradas a folha de ouro.

Quando o Lancet revela os números de 840 milhões de adolescentes raparigas e mulheres vítimas de assaltos e abusos sexuais (o que se sabe é sempre menos que a realidade) é evidente que estes números revelam, simultaneamente, uma cultura de normalização e encobrimento dos crimes dos homens - 840 milhões de raparigas e mulheres vítimas de crimes de abuso sexual indicam quantos homens violadores e abusadores sexuais? 840 milhões de homens? Mais?
Muitos países, nomeadamente os islamitas, onde a pedofilia e a violação de raparigas é legal através de leis de casamento pedófilas e criminosas, absorvem grande parte deste número de quase um bilião de raparigas e mulheres abusadas; mas nos outros países não-islamitas com legislações de protecção de menores e criminalizarão de violação, este abuso também se faz meio às claras, com a cumplicidade tácita de todos dos poderes, porque todos vemos como as raparigas e mulheres aparecem a enfeitar o cenário, como objectos-troféu, nas festas de milionários filmadas para as redes sociais, nas festas de eventos de políticos ao mais alto nível, nos filmes, nas revistas, na publicidade da TV, etc.

Os ficheiros Epstein revelam conversas de Académicos eminentes com Epstein, como Noam Chomsky, Joscha Bach (MIT) e outros. Falam sobre controlo da população através da estratégia de fazer com que um filho sais demasiado caro, sobre engenharia genética de pessoas negras e mulheres que defendem serem geneticamente menos inteligentes, sobre alterações climáticas, etc. Epstein, obcecado pela longevidade (Putin também é obcecado com isso) queria fazer uma quinta de produção de bebés seus, com raparigas, provavelmente menores traficadas, inseminadas com o seu sémen.







Portanto, muita gente entre as elites políticas, económicas, financeiras, académicas e sociais estava por dentro de planos seus criminosos, já depois de ter sido condenado por solicitar prostituição de menores e juntaram-se a ele alegre e entusiasticamente. Muitas conversas têm afirmações com linguagem sofisticada para parecerem cientificidades ou erudições, mas não passam de idiotices, como Bach, um alemão do MIT, dizer que os alemães estou completamente inoculados contra o fascismo e outras idiotices do género. Estamos a falar de pessoas que decidem das vidas do outros, que decidem políticas de saúde, políticas económicas e financeiras, políticas educativas, são responsáveis por instituições de solidariedade social, etc.

Nos EUA está em curso um processo de encobrimento destes crimes, desde logo porque Trump é um nome citado dezenas de milhar de vezes nos documentos:

Ainda ontem o Congresso chumbou uma proposta de inquérito a membros do Congresso acusados de assédio e abuso sexual de funcionárias - uma delas suicidou-se. Estes homens pensam-se acima da lei porque sabem que outros homens poderosos lhes guardam as costas, de maneira que agem com imensa arrogância e impunidade.

Fica aqui a reacção de Epstein sendo confrontado por um advogado que não se impressiona, nem com o seu nome, nem com as suas ligações ao mundo do grande poder e dinheiro:

March 01, 2026

Entrevista a Zelensky: “Temos pressa de acabar com a guerra”

 

por Simon Shuster in “The Atlantic Online”


Na tarde de quarta-feira, o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky convidou-me para uma entrevista no seu gabinete em Kiev. Passou quase um ano desde a última vez que nos encontrámos naquela sala, decorada com os emblemas das unidades militares que combatem na guerra contra a Rússia. Nessa altura, em março de 2025, o Presidente ucraniano queria falar sobre a discussão que tivera com Donald Trump na Sala Oval, um ponto baixo na relação entre ambos.

Desta vez, Trump voltava a dominar-lhe o pensamento. Zelensky vê o Presidente norte-americano como o único capaz de forçar o Kremlin a ceder e a fazer concessões em nome da paz. E mostrou estar perfeitamente consciente do que poderia levar Trump a priorizar os interesses da Ucrânia nas negociações para pôr fim aos combates, após quatro anos de guerra.

Mais tarde, nesse dia, Zelensky iria reunir-se com a sua equipa de negociadores, que regressara recentemente de uma ronda de conversações com os russos, em Abu Dhabi. Está prevista outra ronda para a próxima semana, e o Presidente não quer perder esta oportunidade de alcançar um acordo, mas insiste que qualquer entendimento terá de ser aceitável para o povo ucraniano, cuja aprovação pretende alcançar num referendo já esta primavera.

Zelensky falou-me extensamente destes planos, das condições que terão de ser cumpridas antes de avançarem e do papel crucial que espera que Trump desempenhe. O que se segue são trechos da nossa conversa, que foram editados para maior clareza.

Obrigado, senhor Presidente, por disponibilizar tempo para esta conversa. Ultimamente têm saído inúmeras notícias sobre a Rússia que não são, de modo algum, favoráveis. A economia russa está sob pressão, além de terem sofrido imensas baixas. Como avalia hoje o equilíbrio de forças na guerra?
A Ucrânia não está a perder e penso que a Administração Trump já percebeu isso mesmo. De certa forma, pode tê-los surpreendido, porque a propaganda russa também os influencia. Recentemente, calculámos que um único quilómetro de território ucraniano ocupado lhes custa 170 baixas, mortos ou feridos com tal gravidade que não regressam ao combate. Temos todas as provas disso. Dizer que nos últimos seis meses estão a vencer em algum lugar? Não.

“Creio que não há vitória maior para Trump do que pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Esta é a maior guerra terrestre em décadas”


Como é que esta situação influencia o processo negocial?
A nossa tática é fazer com que os americanos não pensem que queremos continuar a guerra. Não basta dizer que não queremos continuar a combater. Foi por isso que começámos a apoiar as suas propostas, seja como for que as apresentem. Quando dizem: “Temos de nos reunir!”, respondemos: “Claro!” “Estão prontos para ficar onde se encontram agora?” “Estamos prontos.” “Estão preparados para fazer algumas cedências?” “Apenas se o outro lado também o fizer.” “Estão prontos para se reunirem com os russos nos EUA?” “Para nós é indiferente o lugar, desde que não seja em Moscovo.”

Após a última ronda de negociações, em Abu Dhabi, disse que a posição russa se suavizou em alguns aspetos. Por exemplo, começaram a discutir um encontro trilateral entre si, Donald Trump e Vladimir Putin. O que é que isso lhe indica? Qual é a tática russa aqui?
Na minha opinião, eles precisam de abandonar todo o nosso território. Isso não é possível hoje. Mas, se quisermos ter uma linha de contacto que não atravesse cidades ao meio, então alguém terá de recuar. Se disserem que retiram e nós também retirarmos, isso pode funcionar em zonas como a estepe. Mas em zonas onde existem cidades não faz sentido. Se sairmos, ficará uma zona morta. Por isso considero que essa ideia não faz sentido. Quanto às sugestões de uma “zona económica livre”, para nós significa simplesmente abandonar o nosso território. Não vejo justiça nisso. Não é correto.

Como interpreta os objetivos e interesses americanos neste processo de paz? O que é que os move?
Creio que não há vitória maior para Trump do que pôr fim à guerra entre a Rússia e a Ucrânia. Esta é a maior guerra terrestre em décadas. Para o seu legado, isso seria o principal.

Os americanos disseram como reagiriam se a Rússia violasse um acordo de paz e voltasse a atacar a Ucrânia? Estariam, por exemplo, preparados para impor uma zona de exclusão aérea?
Iria haver uma reação: armas, sanções e uma resposta firme. A questão é que tipo de resposta. É necessário compreender isso claramente. O que significa, na prática, o apoio dos nossos parceiros? Até agora temos, digamos, sinais positivos, que precisam de se traduzir numa definição de ações concretas. Queremos saber exatamente qual será a reação no caso de nova agressão, como a de 2022. O que farão concretamente os nossos parceiros? Tudo isso tem de ficar escrito.

Em 2022 pediu aos EUA e à NATO que impusessem uma zona de exclusão aérea, para abater mísseis que sobrevoassem a Ucrânia sem entrarem no espaço aéreo ucraniano. Tem indicação de que os americanos estariam dispostos a fazê-lo?
Isso ainda não ficou definido. Já levantámos a questão e vamos continuar a fazê-lo, porque entretanto houve diferentes propostas. Por exemplo, a “coligação dos dispostos” poderia ter aviões posicionados na fronteira da Ucrânia prontos para abater alvos aéreos.

Manifestou preocupação com o facto de as conversações entre os EUA e a Rússia terem abordado questões relativas ao território soberano da Ucrânia. O que quis dizer exatamente?
Sabemos que os americanos estão a desenvolver relações bilaterais com os russos. Compreendemos o sinal que deram: “Vamos começar por acabar com a guerra.” Apoiamos essa posição. É justo, mas, na nossa perspetiva, não podem desenvolver projetos entre os dois países durante esta guerra. Temos informação de que estão a discutir documentos bilaterais entre si. Já disse que esses documentos não devem incluir questões relacionadas com a Ucrânia. Nem estou a falar de questões económicas. Por exemplo, os russos fizeram um apelo aos americanos relativamente a determinados territórios ocupados. Se estão a construir relações sobre o nosso território, temos o direito de saber.

Tem informação de que tais projetos estão a ser discutidos no contexto das conversações entre os EUA e a Rússia?
Não. Sei que a parte russa levantou essas questões. Acredito que estão a levantar questões mais perigosas do que as que mencionei. Refiro-me ao plano económico. Imaginemos, por exemplo, que a Rússia pretende o reconhecimento americano de algum território sob o seu controlo. Não estou a dizer que os americanos o fa­riam. Estou apenas a dizer que os russos o querem e pressionam nesse sentido. Sou contra isso. É perigoso. E, na minha opinião, seria perigoso também para o Presidente Trump dentro do seu próprio país.

Como assim?
Os Estados Unidos são uma grande democracia. Poderiam ser provocados a reconhecer este ou aquele território, o que é simplesmente impossível. Se um grande país reconhecer território temporariamente ocupado, então muitos outros territórios poderão ser alvo de tentativas de conquista pela força.

Pediu a Putin que se reunisse consigo para decidir as partes mais sensíveis do plano de paz. Como imagina essa reunião? O que é que lhe quer dizer, olhando-o nos olhos?
Não se trata de querer olhá-lo nos olhos. Não me interessam sentimentos. Temos questões relacionadas com o território ucraniano que ninguém consegue resolver. As políticas de diferentes nações permitiram que Putin opinasse sobre este tema, ocupando terras e justificando as suas ações. Neste momento há apenas uma força — a Ucrânia — que combate fisicamente contra ele. 
A minha conversa com ele só pode centrar-se no fim da guerra. Tem de ser uma conversa absolutamente aberta, na medida do possível. Trata-se simplesmente de falar sobre como acabar com a guerra de forma que não recomece.

Imagino que seria difícil conter as emoções durante essa reunião.
Por que razão deveria ser emocional ou não emocional? O que muda isso? O nosso objetivo é acabar com a guerra. Ele pode ter outro objetivo. Não sabemos. Durante a guerra, nunca nos reunimos. Todos tentaram fazer algo e ainda assim a guerra continua. Por isso parece-me lógico que haja uma reunião de líderes que possam discutir as questões mais difíceis. Com quem mais poderia falar sobre o território?

Acredita que Putin estaria disposto a reunir-se e a assinar um acordo que incluísse, por exemplo, garantias de segurança para a Ucrânia?
Não creio que nenhum dos lados tenha um desejo real de se encontrar. Somos inimigos. Honestamente, ninguém expressou uma vontade clara de o fazer, mas existe disponibilidade. É a decisão certa, reunirmo-nos e tentar acabar com a guerra. Os americanos perguntaram-nos o que pensamos sobre essa reunião e respondemos-lhes que estamos de acordo. Estamos prontos para nos reunirmos em qualquer formato, exceto em Moscovo ou na Bielorrússia.

“Não creio que nenhum dos lados tenha um desejo real de se encontrar. Somos inimigos. Honestamente, ninguém expressou uma vontade clara de o fazer, mas existe disponibilidade”

Alguns aspetos do plano de paz de 20 pontos exigiriam um referendo. O povo ucraniano terá de aprovar qualquer parte do plano relacionada com território?
Não é bem assim. De modo geral, qualquer acordo para terminar uma guerra deve ser assinado pelos Presidentes e depois ratificado pelos Parlamentos ou através de referendo. Não acredito que consigamos implementar um plano excelente para nós e mau para os russos. Como já disse honestamente, mesmo que haja um plano para manter a linha da frente onde está, ainda assim considero melhor realizar um referendo. Não é apenas melhor para nós. O nosso povo passou por esta guerra e ganhou o direito de votar sim ou não. É uma questão de justiça. Um referendo teria grande força na garantia da segurança da Ucrânia, porque estou certo de que o mundo o reconhecerá, se for realizado corretamente.

Quanto tempo pensa que será necessário para isso acontecer?
Depende da vontade política dos russos. Se estiverem realmente prontos para acabar com a guerra e se as condições hoje inaceitáveis para a Ucrânia forem alteradas por um compromisso razoável, podemos pensar nos próximos passos. Pode levar vários meses, porque se não estiverem prontos não faz sentido falar disso.

Nos Estados Unidos levantou-se também a questão das eleições na Ucrânia. Quando poderiam ocorrer?
Os EUA levantaram essa questão e os russos também. Já disse que ninguém está agarrado ao poder. Estou pronto para eleições, mas para isso precisamos de segurança. Garantias de segurança e cessar-fogo são condições necessárias. Nada tem a ver com datas. Poderíamos tê-las realizado há muito. Às vezes, quando ouvimos essas propostas, tenho a impressão de que é como se perguntassem: “O que mais podemos oferecer aos ucranianos para ver se recusam?” Não temos medo de nada. Eleições? Estamos prontos. Referendo? Estamos prontos. Deixemos o povo decidir.

Pelo encadeamento de condições que descreve como necessárias para avançar com as negociações, não parece que tenha grande pressa.
Não é verdade. Temos pressa de acabar com a guerra. Estamos a sofrer perdas. Principalmente perdas humanas: soldados, civis. Precisamos de estar o mais próximo possível dos parceiros que podem parar Putin, e nesta altura parece que apenas Trump é capaz de o fazer. Outros que também poderiam fazê-lo não parecem estar a agir. E os que tentam são incapazes ou não são levados a sério pelos russos. Por isso decidiram que esta seria a forma mais fácil e rápida de se livrarem de mim. Penso que a ideia de eleições durante a guerra foi, acima de tudo, uma posição russa. Mais tarde, o lado americano retomou-a. Não é segredo. Não culpo os americanos, mas evocaram o exemplo de Abraham Lincoln, que realizou eleições durante a guerra civil. Disseram: “Demonstre que está pronto.” 
E eu respondi: “Estou pronto.”

“Não queremos que os americanos abandonem estas negociações. Não entendo porque não veriam o valor disto para si próprios. Estamos a apoiar as tentativas de paz”

Sente que os próximos meses são a janela de oportunidade para acabar com a guerra, enquanto Trump está realmente empenhado?
Creio que sim. É a minha opinião pessoal. Sei que os americanos às vezes se ofendem quando a expresso, mas é claro para mim que os russos podem usar este tempo para acabar com a guerra enquanto o Presidente Trump está realmente interessado nisso e é importante e valioso para ele. Pode soar demasiado mercantil para alguns, mas sejamos honestos: o cenário mais vantajoso para Trump seria fazê-lo antes das eleições intercalares. Seria uma vitória política para ele. Sim, ele quer que haja menos mortes, mas falemos a sério. Para ele é apenas uma vitória, uma vitória política.

Se chegar o momento de realizar um referendo para aprovar um plano de paz, qual seria a sua mensagem para o povo? Como é que os convenceria a ir votar?
Depende do que estiver em causa. Se forem propostas sem concessões, sem conclusões justas ou inviáveis, não direi às pessoas para votarem sim. Não desejo realizar um referendo sobre propostas que não funcionem. Não é razoável e defendo isso junto de todos os negociadores.

E se o referendo e as eleições fossem realizados em simultâneo?
Pode acontecer. Não tenho problemas com isso. O mais importante é que funcione e que as pessoas participem. Não devemos submeter um mau acordo a referendo. Considero isso visceralmente injusto. Lembre-se de que há pessoas sem luz, sem nada. Algumas provavelmente estariam dispostas a aceitar quaisquer condições, mas não podemos aceitar as condições que a Rússia propõe, porque amanhã poderiam iniciar outra guerra.

E se Trump disser que está farto das negociações e decidir mudar o foco para a política interna?
Isso seria mau. Não queremos que os americanos abandonem estas negociações. Não entendo porque não veriam o valor disto para si próprios. Estamos a apoiar as tentativas de paz. Sim, o Presidente americano pode mudar o foco. E, se isso travar o processo, será mais difícil avançar.

E, nesse caso, tudo seria decidido no campo de batalha?
Não necessariamente. Continuariam a existir algum tipo de negociações noutro formato. Elas já começaram. O problema é que ainda não vi verdadeira vontade russa de terminar a guerra. Sim, agora mostram mais abertura por causa de Trump, mas, se ele se afastar, essa abertura desaparece. Como é que isso vai afetar as suas ações? Não vai. Se não quiserem acabar com a guerra, não interessa o que possamos dizer. Farão tudo para a prolongar. É por isso que, independentemente de os EUA ajudarem ou não nas negociações, o resultado seria o mesmo: os russos encontrarão maneiras de não acabar com a guerra. É mais fácil terminá-la com os americanos, porque podem pressionar os russos. Penso que, neste momento, Donald Trump é a única pessoa capaz de o fazer.

Tradução Joana Henriques - Expresso

Artigo originalmente publicado a 13 de fevereiro, após a segunda ronda de conversações de paz mediadas pelos EUA, em Abu Dhabi

January 09, 2026

Entrevista a Trump - um Ali Babá na Casa Branca

 

Esta semana, quatro dos meus colegas sentaram-se com o presidente Trump para uma entrevista rara e abrangente que durou quase duas horas. Ouviram uma longa chamada que Trump recebeu de Gustavo Petro, presidente da Colômbia. Assistiram, juntamente com o presidente, a um vídeo de um agente de imigração a matar a tiros uma mulher de 37 anos em Minnesota. Em seguida, foram conduzidos a um passeio pela residência.

Trump falou sobre o ataque do fim de semana passado à Venezuela e o seu desejo de anexar a Gronelândia. E deixou claro que poderia — e iria — continuar a usar o poder americano para obter lucro e supremacia política.

O presidente Trump não se conteve.

Sentado atrás da sua secretária no Salão Oval, onde mantém um modelo dos bombardeiros B-2 usados no ataque do ano passado ao programa nuclear do Irão, Trump disse ao The New York Times que os Estados Unidos continuariam no comando da Venezuela enquanto ele quisesse — talvez por anos. Disse que não ficaria satisfeito com nada menos do que a «propriedade» da Gronelândia. Disse que a Europa precisava «se comportar» e que a OTAN era inútil sem os Estados Unidos.

E disse que não se sentia limitado por nenhuma lei, norma, controle ou equilíbrio internacional.

Questionado pelos meus colegas se havia algum limite à sua capacidade de usar o poderio militar americano, ele disse: «Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode me impedir».

«Não preciso do direito internacional», acrescentou.

Foi o reconhecimento mais directo até agora da visão de mundo de Trump: apenas a força nacional deve ser o factor decisivo quando os interesses das nações colidem. 

Trump parecia encorajado pelo sucesso da sua recente operação na Venezuela. Rejeitou as normas da ordem pós-Segunda Guerra Mundial, que os Estados Unidos ajudaram a estabelecer, como um fardo desnecessário.

Questionado se as suas ações poderiam servir de precedente na Ucrânia ou em Taiwan, ele descartou a ideia. O presidente Xi Jinping, da China, disse ele, não ousaria atacar Taiwan durante o seu mandato.

«Ele pode fazê-lo depois de termos um presidente diferente, mas não acho que o fará comigo como presidente», afirmou.

Reunimos mais alguns destaques da entrevista abaixo. Pode acompanhar a nossa cobertura aqui.

Venezuela

Trump disse que esperava que os Estados Unidos governassem a Venezuela e extraíssem petróleo das suas enormes reservas durante anos, insistindo que o governo interino do país — liderado por partidários leais ao agora preso Nicolás Maduro — está «a dar-nos tudo o que consideramos necessário».

«Vamos reconstruí-la de uma forma muito lucrativa», disse Trump. «Vamos usar petróleo e vamos extrair petróleo. Estamos a baixar os preços do petróleo e vamos dar dinheiro à Venezuela, que precisa desesperadamente dele.»

Groenlândia

Trump falou sobre os seus planos para a Groenlândia, que é controlada pela Dinamarca, um aliado da OTAN.

Na sua opinião, não era suficiente exercer o direito dos EUA, ao abrigo de um tratado de 1951, de reabrir bases militares há muito fechadas naquele enorme território.

«A propriedade é muito importante», disse Trump. «Porque é isso que sinto ser psicologicamente necessário para o sucesso. Acho que a propriedade dá-lhe algo que não se consegue com um contrato de arrendamento ou um tratado. A propriedade dá-lhe coisas e elementos que não se conseguem apenas assinando um documento.»

Quando questionado sobre qual era a sua maior prioridade, obter a Gronelândia ou preservar a OTAN, Trump recusou-se a responder diretamente, mas reconheceu que «pode ser uma escolha».

Ucrânia

Trump disse aos meus colegas que estava pronto para se comprometer com o envolvimento dos Estados Unidos na defesa futura da Ucrânia, mas apenas porque estava confiante de que a Rússia não tentaria invadir o país novamente. «Tenho a forte convicção de que eles não voltariam a invadir, ou eu não concordaria com isso», disse Trump.

Os comentários de Trump foram mais longe do que antes, sinalizando a sua abertura para assumir tal compromisso, pelo menos num papel de apoio.

Eles também mostraram que Trump continuava convencido do desejo professado pelo presidente Vladimir Putin pela paz, apesar da relutância demonstrada pela Rússia em acabar com a guerra após quase um ano de negociações com os Estados Unidos. “Acho que ele quer fazer um acordo”, disse ele.

O tiroteio do ICE

Na quarta-feira, poucas horas antes da entrevista, um agente da Imigração e Alfândega atirou numa mulher de 37 anos em Minneapolis. Trump disse que ela estava em falta porque tentou «atropelar» o agente.


By Katrin Bennhold in NYT

December 27, 2025

Filmes - 'Taking sides'



Fui dar com este filme de 2001 acerca do inquérito dos americanos na Comissão de desnazificação sobre a cooperação de Furtwängler com as cúpulas nazis. 
A dasnazificação era dirigida a civis com poder e influência sobre quem caia a suspeita de terem colaborado com o regime. Enquanto não havia decisão da Comissão (podia durar uns anos) não podiam retomar o trabalho e, mesmo depois, os que eram considerados culpados, mesmo de serem só simpatizantes eram cancelados durante uns anos até poderem retomar os cargos - Heidegger tentou suicidar-se após a condenação da Comissão que o impediu de dar aulas em qualquer universidade durante anos. 

O filme acompanha o inquérito da desnazificação de Furtwängler, desde a inquirição de testemunhas aos interrogatórios do próprio maestro. 

A questão de  Furtwängler é uma polémica sem conclusão. Os seus detractores mostram os concertos dele para as elites nazis (adoravam-no), invocam o facto de ele ter sido nomeado conselheiro de Goebbels para a cultura e a sua proximidade com Göring. Os seus defensores invocam a sua genialidade na música - ele é considerado por muitos especialistas o melhor condutor de sempre -, os judeus que ajudou a fugir, a sua própria defesa, isto é, ter escolhido ficar no país e tentar ter uma influencia positiva, humanizar as pessoas pela música. O filme explora a polémica.



No filme, o inquiridor a quem incumbem a tarefa de mostrar a cumplicidade de Furtwängler com os nazis é um major que na vida civil era um investigador de seguros. Tem dois ajudantes: um deles um judeu alemão que fugiu da Alemanha para os EUA nos anos 30 mas que perdeu os pais e a outra uma alemã, filha de um dos conspiradores executado por ter tentado matar Hitler. Ambos tomam o partido de Furtwängler. São alemães, são amantes de música, admiradores do seu génio e percebem a dificuldade da vida na Alemanha naquele tempo.

Harvey Keitel constrói um inquiridor que vê o mundo a preto e branco e está habituado a todo o género de esquemas de criminosos para escapar à justiça e beneficiar das transgressões. Vê a música como um divertimento e não percebe a relação telúrica dos alemães com a música. Para ele, Furtwängler quis ter um pé nos dois mundos. Não queria os nazis mas queria muito a glória. Não se convence com as tentativas de Furtwängler de lhe explicar que a posição da arte numa ditadura é muito difícil e é como andar na corda bamba e que numa ditadura não é imoral querer ficar e tentar mudar alguma coisa por dentro.

Furtwängler é interpretado por Stellan Skarsgård que o constrói magistralmente. Conseguimos ver na sua cara o dilema, a humilhação, a complexidade das emoções, a dignidade com que aguenta o pragmatismo in-complexado do americano que chega e julga a partir de um ponto de vista exterior de quem nunca teve de navegar numa sociedade totalitária na mão de mafiosos.

Furtwängler não era só admirado na Alemanha, mas em todo o lado. Neste pequeno excerto de entrevista, Yehudi Menuhin, um judeu americano que passou grande parte da sua vida na GB, um violinista virtuoso, fala sobre Furtwängler, sobre a dificuldade da arte se posicionar face à política e sobre a facilidade com que um grupo de criminosos pode subir ao poder e recriar uma sociedade totalitária em outro país qualquer - estava a adivinhar os nossos dias.



 Pus-me a estabelecer um paralelo entre o caso de Furtwängler na Alemanha nazi e o caso de artistas russos nesta Rússia imperialista totalitária, governada por criminosos mafiosos. Digamos que a guerra acaba agora. Como julgaríamos um maestro, bailarino, etc., que fosse nomeado conselheiro de Putin para a cultura e fizesse espectáculos para Putin e a sua quadrilha de malfeitores? Diríamos que por ter ajudado ucranianos a fugir isso desculpa a sua posição? Que o seu génio está para além da política?

Tenho a certeza que se tivesse visto o filme antes da guerra da Rússia teria achado o inquiridor americano um bocado bruto e insensível às complexidades da vida mas agora... é uma questão difícil.

Uma coisa que gosto no filme é não tomar parte, nem a favor nem contra Furtwängler. Mostra os dois lados e deixa-nos a pensar. Porém, a última cena do filme é uma filmagem real da época, que mostra o final da Nona de Beethoven perante uma plateia de altos oficiais nazis. No fim, o oficial que está à frente, ao centro, levanta-se e vai apertar a mão a Furtwängler, que se inclina e lhe aperta a mão. E o realizador põe a câmara a fazer um zoom às suas mãos e vemo-lo, depois de apertar a mão ao nazi, a passar o lenço que tinha na outra mão para essa e limpar a mão - conclusão: quando te dás muito com nazis tens de passar o tempo a limpar as mãos...

Bruckner: Symphony No.7 "Adagio", orquestra de Berlim, conduzida por Furtwängler - a peça que os nazis escolheram passar na rádio após saber-se do suicídio de Hitler.



October 26, 2025

Anne Applebaum em entrevista



"... é muito importante que os europeus tenham os olhos bem abertos, percebam o que está a acontecer e compreendam o impacto que isso tem para eles e para a sua segurança. Pode haver um Presidente diferente daqui a três anos, talvez. Uma grande parte dos americanos ainda gosta da NATO, quer continuar a ser membro da alian­ça e quer ter aliados, entre outros. Mas também há uma parte significativa da população americana que não quer aliados, que não gosta especialmente da Europa e que não quer ter nenhuma relação especial. Espero que os europeus compreendam isso e comecem a tirar conclusões. Conclusões para a sua segurança, claro, mas também para a economia."

Grande entrevista a Anne Applebaum: “Na Administração Trump há quem veja a Europa como o principal inimigo”

Cristina Margato

É disso que dá conta em “O Crepúsculo da Democracia” e “Autocracia, Inc.”, e é sobre essas práticas autocráticas que tem escrito e falado, nos últimos anos, também a propósito da política do seu país, os Estados Unidos.  (...) é das poucas pessoas que expõem de modo claro o que se está a passar nos Estados Unidos. 
(...)
Enquanto terminava a transcrição da conversa li o último artigo de Applebaum na “The Atlantic”, desta vez sobre María Corina Machado, Prémio Nobel da Paz de 2025, título que Trump tanto desejava. Fixei a atenção neste parágrafo: “Neste momento, quando os cidadãos das democra­cias mais liberais e mais bem-sucedidas desistiram, questionando-se sobre se a sua participação na política tem algum valor, os venezuelanos lutam contra a violência com não violência, opondo-se à corrupção com coragem.”

Há um ano, ainda antes da eleição de Trump, iniciou um podcast intitulado “Autocracy in America” [com Peter Pomerantsev]. Vou citá-la: “Já existem táticas autoritárias em ação nos Estados Unidos. Para as erradicar, é preciso saber onde as procurar.” Continua a procurar nos mesmos lugares?
Naquela altura estava a descrever a mudança cultural pela qual o país estava a passar. Agora, essa mudança é evidente. Os instintos autoritários, que antes podiam ser observados em governos estaduais, estão agora presentes ao nível do Governo Federal. Parte da Administração está a usar regulamentações contra os órgãos de comunicação social, militarizou o serviço federal de alfândega e transformou-o numa força paramilitar. Tropas de diferentes partes do país foram colocadas em estados e cidades contra a vontade de governadores e presidentes de Câmara. Atualmente, Trump persegue e processa abertamente os seus inimigos políticos, mesmo que não tenham cometido qualquer irregularidade.

Hoje, Trump anunciou que quer enviar a Guarda Nacional para Chicago, contra a vontade do governador do Illinois e do presidente da Câmara de Chicago...
Sim, e isso é algo sem precedentes. A Guarda Nacional já foi usada em emergências, após furacões ou outros desastres naturais, e até, num passado mais distante, em grandes motins, mas sempre com aprovação do governador ou das autoridades locais.

Já disse várias vezes que Trump segue um manual usado por outros ditadores. Em que é que a sua atuação difere?
A única coisa que é diferente daquilo que Putin ou Viktor Orbán fizeram é a velocidade. Tudo está a acontecer de modo muito rápido, e essa aceleração é o que confunde e surpreende as pessoas. Muitas coisas estão a ser feitas de uma só vez. Tradicionalmente, é o Congresso que controla o dinheiro, os orçamentos e os impostos. Historicamente, é o Congresso que serve para limitar o poder do Presidente, pois é para isso que existe. No entanto, para grande surpresa, o Congresso tem-se recusado a travá-lo. As tarifas, por exemplo, são da competência do Congresso, não do Presidente. No entanto, a liderança deste Congresso tem permitido que Trump faça o que quer.

Desde a eleição de Trump que os democratas parecem apáticos, desorganizados e confusos. Isso também é um problema...
Não é bem assim. Há vários democratas que estão ativos online e que estão a ser bastante claros sobre o que está a acontecer. E há democratas que decidiram promover o debate sobre a suspensão do Governo, através de uma conversa focada nos cuidados de saúde, que é a razão pela qual o Governo está paralisado. Parece-me errada a expectativa de que haverá um democrata como contraponto a Trump, alguém do outro lado que seja o seu adversário direto. Isso não vai acontecer. Quer dizer, pode acontecer quando chegarmos à campanha presidencial, mas não é assim que funciona o nosso sistema político. Não temos um líder da oposição. Por outro lado, sempre que há uma tomada de poder autoritária — como aconteceu na Rússia, na Polónia ou no Irão — dá-se uma fragmentação da oposição. As pessoas têm de compreender as novas regras.

É como se não tivessem um mapa para o caminho...
E não têm, porque na verdade nunca tivemos um Presidente que desrespeitasse abertamente a lei e depois desafiasse os tribunais a impedi-lo de o fazer. Isso não é algo que tenha acontecido antes. Pelo menos que eu me lembre na história recente dos EUA.


Passei três meses em Nova Iorque após a eleição de Donald Trump. Nas conversas que fui tendo ao longo desse tempo percebi que, apesar de alguma apatia, as pessoas continuavam a acreditar que o sistema ia funcionar, que os tribunais iam agir, que o Congresso ia ter uma palavra a dizer...
Sim, as pessoas assumiram que o sistema ia funcionar como sempre funcionou. E muitas pessoas, incluindo muitos democratas, não conseguiram reconhecer que o que Trump estava a fazer era diferente. Ainda assim, há quem não reconheça. Em Washington, um advogado muito conceituado, que trata de casos importantes no Supremo Tribunal, com quem discuti, dizia-me: “Não te preocupes. Não fiques perturbada. Eles não podem fazer essas coisas, porque o Tribunal vai impedi-los.” Acho que ele estava enganado. As pessoas que estão habituadas a um certo tipo de política têm este tipo de reações. Se os democratas não perceberam, os republicanos também não. Sei disso porque os republicanos falam, nos bastidores, sobre o assunto; e dizem, fora do registo oficial, que muitos senadores estão incomodados com o comportamento de alguns membros da Administração e com certas decisões que estão a ser tomadas; mas nenhum deles encontrou ainda uma estratégia. Diria que a maioria dos americanos — e não é só uma opinião minha — se opõe ao que Trump está a fazer. As sondagens confirmam-no. Opõe-se, por exemplo, ao envio de tropas para as cidades. Ou à utilização de um regulador federal contra uma estação de televisão para despedir um comediante [Jimmy Kimmel]. Neste último caso, a ação foi particularmente impopular. Portanto, a maior parte destas ações é mal recebida.

O que significa que, a partir de agora, já não há recuo. Face à impopularidade, Trump fará tudo para se manter no poder.
Sem dúvida. O que diz é verdade. E depois vem aí a próxima fase. O governador Pritzker, do Illinois, acredita que a militarização das ruas de Chicago, com forças e equipamento militar, serve para habituar os americanos à ideia antes das eleições intercalares do próximo ano. Estou apenas a citar o governador do Illinois. Não fui eu que o disse. Em seguida serão feitos enormes esforços para manipular as eleições. Tenho a certeza de que isso vai acontecer. Se conseguirão ou não, isso já é outra questão. Os Estados Unidos têm um sistema eleitoral muito descentralizado. Cada estado gere as suas próprias eleições, e todos os estados têm regras diferentes. Neste momento estou a trabalhar nessa área.

Fala de uma forma muito direta e frontal sobre o que está a acontecer, e isso é o que vejo acontecer, de modo geral, na “The Atlantic”. Mas não me parece que o “The New York Times”, por exemplo, seja tão claro, e há muita gente que partilha esta opinião.
Para ser justa com o “The New York Times”, é preciso dizer que o jornal tem a tradição de tentar manter-se politicamente neutro, e, neste momento, isso não lhes serve muito bem, porque torna mais difícil explicar o que está a acontecer. Ser politicamente neutro, num sistema democrático, implica dizer que a política deste lado é X e a política daquele lado é Y. Depois podemos analisar essas políticas e dizer, por exemplo: “Esta seria boa para este grupo de pessoas e aquela seria melhor para outro.” Há uma análise a fazer. Mas o que está a acontecer agora é muito diferente: trata-se de uma tentativa de mudança na natureza das instituições americanas, nos meios de comunicação, nas universidades, na ciência e até no próprio meio empresarial. E isso não se consegue descrever através da abordagem tradicional de “um lado versus o outro” usada por norma no jornalismo político. É importante evitar ser hiperbólico ou exagerado e não dar às pessoas a impressão de que as coisas foram mais longe do que realmente foram. Na verdade, os jornalistas são frágeis, estão bastante expostos em muitos aspetos e são impopulares. Mas também não me parece que a maioria dos americanos queira ver homens mascarados a sair de carrinhas e a prender pessoas depois de as arrastar pelo chão.

Era disso que eu estava a falar... Ainda assim, evita a palavra fascismo. Porquê?
Não gosto da palavra fascismo, porque faz com que as pessoas pensem nos nazis e comecem a lembrar-se de imediato dos filmes que viram sobre a Segunda Guerra Mundial ou Auschwitz, como “A Lista de Schindler”... Sei que a palavra fascista tem uma tradição histórica mais antiga e que, na verdade, foi Mussolini quem a inventou, não Hitler. É certo que algumas das táticas que estão a ser usadas, neste momento, podem ser facilmente comparadas às de Mussolini ou até às de Hitler, nos seus primeiros tempos. Mas também me parece que, se eu usar a palavra fascista, as pessoas começam a pensar numa imagem distante ou errada. Além disso, é uma palavra que, pelo menos em inglês, foi muito banalizada. Há muitos anos que as pessoas se chamam fascistas umas às outras. Mas isso não quer dizer que não haja outras pessoas que a usem. Tenho amigos que defendem que se devia usar essa palavra, porque há aspetos... Quer dizer, alguma da linguagem que Trump usou durante a campanha eleitoral foi — e presumo que tenha sido alguém da sua equipa que sabia o que estava a fazer — literalmente retirada do “Mein Kampf”. Literalmente. Aquela frase sobre “os imigrantes envenenarem o sangue da nação”. Sim, é do Hitler. Não sei se o próprio Trump sabia, mas alguém sabia. É difícil dizer se fizeram isso para alarmar as pessoas ou por outra razão. Mas não acho que usar a palavra fascismo ajude alguém a perceber o que se está a passar. E o objetivo não é chamar nomes. O objetivo é fazer com que as pessoas compreendam o que está a acontecer.

Sente-se mais segura na Polónia ou nos Estados Unidos [Anne Applebaum é casada com um político]?
Sinto-me segura na Polónia, nos Estados Unidos e em Portugal. Sinto-me muito segura aqui, em Lisboa. Não sei... O que devia fazer: preocupar-me? Quer dizer, não.

A revista “The Atlantic” decidiu dar um passo nesta luta, recusando a neutralidade...
Não é bem assim que a revista descreve o que está a fazer. “The Atlantic” é uma revista muito antiga. É anterior à Guerra Civil. Foi fundada por abolicionistas e teve, desde o início, bons e maus editores, mas nunca perdeu o foco nas ideias e nos ideais da América, na interpretação e compreensão da revolução americana e da história dos Estados Unidos. É isso que estamos a fazer agora. Não somos de direita. Não somos de esquerda. Estamos interessados na democracia e no Estado de Direito. Estou lá desde o ano 2000, portanto, há 25 anos, e, sempre que há uma grande reunião, é disto que se fala e é isto que o atual editor defende. Esta é a ideia central da revista. Não somos a resistência, não somos a esquerda. Estamos a defender os ideais dos documentos fundadores dos Estados Unidos.

Se Trump está a seguir o manual dos regimes autoritários, como diz, nalgum momento os meios de comunicação social serão atacados, como aliás já está a acontecer. Por quanto tempo será possível manter essa liberdade?
Não vamos exagerar o poder deles. Eles não têm controlo total. Quer dizer, não controlam o dono da “The Atlantic”, nem têm forma de controlar o “The New York Times”. Além disso, há mecanismos que também funcionam contra eles. Por exemplo, quando usaram a Federal Communications Commission (FCC) para pressionar uma estação de televisão, como a Disney, para retirar do ar um comediante que os satirizava, o Jimmy Kimmel, centenas de milhares de pessoas cancelaram as suas assinaturas do Disney Channel e deixaram de ir aos parques, em todo o mundo. Isso tornou-se um grande problema para a Disney. Este é um dos exemplos de como estas coisas podem funcionar nos dois sentidos.

O poder está nos consumidores?
Nem sempre vai depender dos consumidores. Mas, sim, o que é preciso reter é que há mais pessoas que desaprovam o que eles estão a fazer do que pessoas que os apoiam.

Até que ponto o “excecionalismo americano”, a ideia de que os Estados Unidos é um país diferente de todos os outros, facilitou a eleição de Trump, apesar de os sinais serem claros? Há aquela ideia de que um regime autocrático “nunca poderia acontecer aqui”...
Sim, acho que isso é muito importante, e já o dissemos. Fiz aquele podcast, “Autocracy in America”, por exemplo, e escrevi bastante durante a campanha eleitoral. Passei muito tempo a alertar as pessoas. Mas sabe o que percebi? Que as pessoas não queriam ouvir o que eu estava a dizer.

E algumas delas continuam a não querer ouvir...
Não, não querem ouvir. Veem tudo como se se tratasse de política partidária normal e dizem: “Bem, os democratas também fizeram coisas más.” Há vários tipos de resposta.

É muito claro: existem duas realidades. Caminhamos lado a lado na mesma direção, mas as pessoas veem coisas diferentes. Há uma dissonância cognitiva que nos separa.
Isso é verdade em todo o lado. Quer dizer, é verdade em todas as sociedades. Não temos uma realidade partilhada.

Estudou a história da Rússia e da Ucrânia, os gulags, as autocracias. Viu alguma coisa a este nível?
O desejo de criar uma realidade falsa que seja útil ao líder é algo muito antigo. Provavelmente, já existia na Roma Antiga. Nos Estados Unidos, até por ser um país muito grande, sempre existiram diferentes correntes de pensamento político e sempre houve uma imprensa que retratava o mundo de forma diferente. Isso não é assim tão novo. O que é diferente agora é a rigidez destas divisões, o facto de já não estarmos apenas perante opiniões diferentes. Porque as pessoas sempre tiveram opiniões diferentes. Algumas achavam que os impostos eram bons, outras que eram maus. Agora temos conjuntos de factos completamente distintos. Por exemplo, estava a ler um relato sobre o que aconteceu após o horrível assassínio de Charlie Kirk. Uma mulher estava a conversar com uma amiga que era admiradora dele e falava sobre a sua vida e de como Kirk era maravilhoso, mas nunca, literalmente nunca, o tinha visto ou ouvido. Quando percebeu que ele tinha feito várias declarações a atacar mulheres negras, a mesma mulher ficou chocada. Portanto, ela conhecia uma versão da vida de Kirk e outras pessoas conheciam uma versão completamente diferente. Tinham visões opostas sobre quem ele era, dependendo dos vídeos que tinham visto. E isso marca uma diferença profunda em relação ao passado.

A única solução passa por regular as redes sociais?
As redes sociais causaram e continuam a causar um dano enorme. Parte do problema prende-se com o facto de esta polarização ser muito útil a algumas das empresas de redes sociais. Tudo o que agravou a situação, como o uso de bots, contas falsas, etc., é comercialmente vantajoso para essas empresas, que não tiveram incentivos externos para controlar ou melhorar a situação. Podiam fazê-lo, porque, na verdade, é tecnicamente possível. Da mesma forma que é possível escrever um algoritmo que favoreça a indignação, a raiva, a polarização ou o envolvimento, também se pode escrever um que favoreça o consenso e a aproximação entre pessoas. Portanto, nem sequer estamos a falar de verdade ou mentira. Estamos a falar do tipo de emoções que queremos que as mensagens suscitem. Acontece que estas empresas decidiram que, comercialmente, é do seu interesse dividir as pessoas, e nós permitimos que isso acontecesse. Os europeus permitiram que empresas americanas e chinesas de redes sociais influenciassem o debate político. Se pensarmos nisso agora, é inacreditável.

Devemos pensar em regulamentação?

Sim, mas seria preciso ser muito claro sobre o que se está a fazer e porquê. Estas empresas não querem ser reguladas, e agora aliaram-se à Administração Trump, embora nem todas o tenham feito. É preciso percebermos que há pessoas dentro da Administração Trump que veem a Europa como o principal inimigo, o rival mais importante, pessoas que procuram enfraquecer ou acabar com a União Europeia e que tentam eleger líderes de extrema-direita por toda a Europa. Elon Musk e J. D. Vance fizeram campanha pelo AfD [partido de direita radical populista alemão]. Talvez as pessoas decidam que não se querem importar com isso ou que conseguem ultrapassar essa realidade — mas é muito importante reconhecer que é isso que está a acontecer e que muitas empresas de redes sociais também fazem parte disso. Os algoritmos são escritos de forma a favorecer a extrema-direita. Não há dúvida de que é o que acontece no X [ex-Twitter].

É conhecido o fim que tem sido dado aos oligarcas que se juntaram a Putin. Vai acontecer o mesmo com Trump? Acha que há risco de começarem a desaparecer ou a “cair” das varandas?
Quer dizer, é uma tradição diferente, e esse tipo de repressão também demorou muito tempo a acontecer. Não sei. Não consigo prever o que vai acontecer, mas não acho que eles vão desaparecer. Pode ser que Trump tente usar o poder do Estado para controlar tudo o que é nosso.

O que pensa que levou Musk a sair do DOGE?
Musk decidiu afastar-se porque descobriu que estar envolvido na política era mau para a Tesla. Mas é preciso dizer que continua a ser um grande beneficiário de financiamento do Governo dos EUA e que, no final de contas, causou grandes danos a cerca de 20 ou 30 instituições diferentes que estavam a investigá-lo, assim como às suas empresas. Por isso — embora os danos sofridos pela Tesla tenham sido enormes e a empresa tenha começado a perder dinheiro —, o episódio acabou por lhe ser bastante benéfico.

Estará a guardar os dados sobre os contribuintes que obteve durante esse tempo?

Talvez.

Quando foi a primeira vez que se apercebeu da relação entre Trump e o dinheiro russo?
Há 30 anos, antes de Putin chegar ao poder. Trump já estava interessado em ter uma relação com a Rússia antes do fim da União Soviética. Há um momento famoso em que Trump vai a Moscovo, no final dos anos 80, e no regresso manda publicar grandes anúncios em três jornais americanos, a dizer que as alianças dos EUA são muito más, que nos enfraquecem e que devíamos estar mais próximos da União Soviética. Com o colapso da União Soviética, o sector do imobiliário comercial foi — e não sei se ainda é — particularmente atrativo para o crime organizado e para o branquea­mento de capitais, porque permitia que determinadas empresas adquirissem propriedades de modo anónimo. Nessa altura, havia muito dinheiro oriundo do mundo pós-soviético e muitas pessoas à procura de sítios para o guardar. Sabemos que parte desse dinheiro acabou por entrar no universo Trump, através de transações comerciais e negócios que ele fez com pessoas russas ou com os seus representantes em Nova Iorque. Portanto, essa relação já vem de longe. Um dos filhos de Trump chegou a mencionar a entrada de dinheiro russo nas suas propriedades e uma grande parte dos apartamentos vendidos nos edifí­cios de Trump foi comprada anonimamente. Depois, a imagem mental que Trump tem da Rússia é a de que é um bom lugar para os negócios, e é isso que ele aprecia.

Qual a responsabilidade que atribui a Administrações como a de Obama e Biden nesta relação com o dinheiro corrupto das autocracias?
É verdade que, desde o início dos anos 90, tivemos um sistema financeiro internacional — e isto não é só culpa dos americanos, mas também dos europeus e de outros países — que facilitou a saída de dinheiro roubado de países como a Rússia, escondido em paraísos fiscais, ou movimentado através do Chipre e Luxemburgo. Parte desse dinheiro acabou por ser investido em imobiliário em Nova Iorque, Londres, Miami e, provavelmente, também aqui, em Lisboa. Esse dinheiro teve impactos diferentes e alterou os mercados imobiliários. No caso de Londres, penso que terá literalmente mudado a cidade, porque foram construídos edifícios especificamente para acomodar esse tipo de investimento. Ao mesmo tempo, houve uma explosão de dinheiro sujo, ou “dinheiro obscuro”, como chamamos nos EUA, na política americana. Culpo todos os Presidentes americanos, desde os anos 90, por permitirem que isto acontecesse, assim como os líderes europeus. Ganhou-se muito dinheiro com estas práticas em cidades como Londres ou Nova Iorque. Bancos, advogados, consultores fiscais... Todos lucraram. Mas foi muito prejudicial politicamente. Primeiro, porque permitiu que muitos líderes autocráticos se mantivessem no poder, não só na Rússia, mas também em África, na Ásia e noutros lugares. Além disso, corrompeu o nosso próprio sistema financeiro.

E está a ajudar a destruir o sistema político democrático, não só porque permite que os autocratas sobrevivam e se mantenham no poder mas também porque destrói a confiança dos cidadãos nos países democráticos.
Sim, provavelmente é verdade.

Acredita que as pessoas percebem quando há corrupção. É isso que as mobiliza, como aconteceu na Ucrânia, com Maidan, e na Rússia, com Navalny?
É importante que, quando se faz campanha contra a corrupção, se ligue essa luta à experiência das pessoas. Navalny, na Rússia, fez uma campanha muito eficaz contra a corrupção, ligando-a aos russos comuns. Dizia: “Eles construíram palácios e estão a roubar dinheiro. E é por isso que não tens estradas, que as escolas são más e os hospitais também.” Era uma mensagem muito eficaz, não só porque era verdadeira mas porque a corrupção, a injustiça e a sensação de desigualdade motivam muitas vezes as pessoas a querer mudança.

Agora que Navalny já não está cá, o que pensa dele? Muitas pessoas tinham receio de que ele também fosse de extrema-direita, um protoditador.
Acho que isso foi um erro. Já quase não importa, mas uma das últimas coisas que ele fez foi escrever um artigo em que descrevia a sua visão para a Rússia: uma democracia parlamentar. Foi também muito claro ao dizer que a guerra era um desastre. É verdade que, na vida, passou por várias fases e que tentou várias abordagens. Navalny estava interessado em mobilizar os russos e em chegar à população em geral. Não só em Moscovo e São Petersburgo, mas em todo o país, incluindo os trabalhadores. Fez várias experiências. Algumas com sucesso, outras não. Mas era uma pessoa criativa e interessante, e até agora foi o mais bem-sucedido a enfrentar Putin. Mas, infelizmente, isso já não importa...

Tal como a Anne, o seu amigo Garry Kasparov, dissidente russo, diz que uma sociedade como a russa não tem de ser eternamente antidemocrática. Mas, se recuarmos na história deste país, é difícil encontrar a democracia. É possível imaginar uma democracia na Rússia?
Houve momentos mais liberais ou mais abertos na história da Rússia, e também existe uma longa tradição de russos liberais que remonta ao século XIX. Os russos têm os mesmos instintos de justiça e equidade que as outras pessoas. Nenhum país está geneticamente determinado a ser de uma forma ou de outra. Portanto, consigo imaginar uma Rússia diferente. Tivemos uma Rússia diferente nos anos 90.

A Ucrânia e a Rússia sempre foram diferentes economicamente. Não pensa que a economia pode determinar o sistema político?
É verdade que países fortemente dependentes de um ou dois tipos de recursos naturais tendem ao autoritarismo, porque pequenos grupos tentam controlar esses recursos. No entanto, há o exemplo da Noruega...

O que acha que vai acontecer nos próximos dias com a paralisação nos Estados Unidos? Os democratas decidiram ir à luta no momento certo?
Sinceramente, não sei o que vai acontecer. Não sou uma insider e não faço parte das conversas internas. Sei que os democratas no Congresso chegaram à conclusão de que não podiam continuar sem fazer nada. Escolheram focar-se nos cuidados de saúde. Algumas pessoas acham que foi uma má ideia, outras acham que foi boa. Podiam ter feito outras escolhas. Como consequência, as pessoas tomaram consciência de que a legislação de Trump poderá criar enormes problemas para quem depende de cuidados de saúde públicos, como a Medicaid ou o Affordable Care Act. Conseguiram chamar a atenção para isso.

Sim, e vai ser pior nas zonas onde Trump venceu, porque há mais pessoas a depender destes sistemas.
Sim, vai ser pior, sim.

É estranho, mas é verdade: as pessoas votam contra os seus próprios interesses. As pessoas que mais votaram em Trump são as que mais estão a sofrer com as suas medidas.
Também se pode dizer que as pessoas ricas que votaram nos democratas votaram contra os seus interesses.

Sem dúvida. Alguns dos que votaram nos democratas acabaram por ganhar muito dinheiro na Bolsa com a vitória de Trump.
Sim, é verdade. Isso prova algo importante: as pessoas não votam apenas com base na economia. Votam por muitas razões. É muito difícil dizer por que razão alguém vota, porque as pessoas são complexas. Se alguém soubesse realmente, saberia como agir — mas não é assim que funciona. As pessoas têm interesses económicos, ideológicos, pessoais, instintos. Há muitas razões diferentes que levam as pessoas a votar.

No fim de contas, os EUA poderão ter cerca de 30 milhões de pessoas sem qualquer cuidado básico de saúde. Como é que isto é compreensível?
Não é novidade na história americana. Não é a primeira vez que isso acontece... Concordo que é escandaloso. Não sei bem o que quer dizer com “compreensível”, mas é preciso recordar que há um partido político nos EUA com uma ideologia que diz que o Estado não deve ajudar as pessoas e que tem tentado cortar tudo o que o Estado faz pelas pessoas. É nisso que acreditam. E a Cristina tem razão: até agora, as pessoas têm continuado a votar neles.

Uma das pessoas que Trump contratou defende o corte total de despesas. No entender dele, não se deve gastar nada. Zero.
Sim, está a falar do Russell Vought. É verdade que ele defende isso, e anda a dizê-lo há vários anos. Está na política americana há muito tempo. Ontem tomei o pequeno-almoço com um ex-membro do Congresso que falava sobre Vought e sobre a forma como ele se comportava há alguns anos, quando trabalhava numa das comissões do Congresso — não como membro eleito, mas como assessor.

Há a ideia de que os republicanos foram capturados por esta política de Trump. Não o querem, mas têm medo. Medo de quê?
Depende. Alguns têm medo de serem desafiados nas primárias — ou seja, que Trump ou a sua equipa apresentem um candidato contra eles nas próximas eleições. Muitos têm medo disso. Outros têm medo de serem atacados nas redes sociais, especialmente no X, que é a plataforma que mais os preocupa. Alguns, especialmente senadores, podem até ter medo de que, ao desafiarem Trump, sejam atacados ou de que os seus filhos sejam atacados no seu estado. Isso foi tema de um episódio do meu podcast há um ano. Há uma variedade de medos. E não esquecer: alguns concordam com ele. Acham que o Governo Federal é demasiado pesado, que o défice é excessivo, que as pessoas devem cuidar de si próprias e que o Governo não deve interferir na vida das pessoas.

Só para terminar, porque temos de encerrar. Uma das ideias que tem evocado para o futuro é que as pessoas que defendem a democracia e o Estado de Direito e que estão contra Trump devem encontrar os pontos em comum e trabalhar em conjunto.
Sim, devem criar coligações a partir do que têm em comum. Mas, se isto é o fim da conversa, quero aproveitar para dizer uma coisa antes de acabar: é muito importante que os europeus tenham os olhos bem abertos, percebam o que está a acontecer e compreendam o impacto que isso tem para eles e para a sua segurança. Pode haver um Presidente diferente daqui a três anos, talvez. Uma grande parte dos americanos ainda gosta da NATO, quer continuar a ser membro da alian­ça e quer ter aliados, entre outros. Mas também há uma parte significativa da população americana que não quer aliados, que não gosta especialmente da Europa e que não quer ter nenhuma relação especial. Espero que os europeus compreendam isso e comecem a tirar conclusões. Conclusões para a sua segurança, claro, mas também para a economia.

Acho que alguns dos países europeus que, ao longo deste ano, saíram do Acordo de Otava e começaram a colocar minas terrestres nas fronteiras já perceberam isso. Acha que os europeus ainda não perceberam?
Acho que alguns perceberam e outros não.

Enquanto europeus, temos a perceção de que os americanos não estão a perceber que, de certa forma, já estão a viver num regime autoritário e que as coisas podem piorar.
Ele ainda não conseguiu criar um regime autoritário. Está a tentar criar um, mas ainda não conseguiu. É muito importante fazer essa distinção.

No seu podcast, “Autocracy in America”, estava sempre a dizer que não estava a falar do futuro, mas do presente, do que está a acontecer agora nos EUA.
Mas nunca disse que estamos numa ditadura da qual não podemos sair. Não penso isso. Só estou a dizer que há comportamentos e práticas autoritárias das quais devemos estar conscientes. Elas estão presentes. Isso é verdade.

É também importante perceber que já não estamos no chamado “mundo livre”, aquele que surgiu depois da Segunda Guerra Mundial.
Sim, isso acabou. Acabou esse mundo, criado após a Segunda Guerra Mundial, essa ordem liberal baseada em regras, sustentada pelo poder e pela influência dos Estados Unidos. É muito importante que as pessoas compreendam isso, que interiorizem essa ideia e que tirem conclusões. Há muitas oportunidades para a Europa. A Europa tem o Estado de Direito. Tem educação não ideológica, em grande medida. Pode tornar-se o grande centro da ciência se os EUA abdicarem disso. Pode tornar-se o foco de investimento se for mais difícil investir nos Estados Unidos devido às constantes alterações na política comercial. A Europa tem sistemas estáveis. Tem regulamentação fiável que as pessoas compreendem. Tudo isso pode ser extremamente vantajoso para os europeus.

Muitas pessoas, mesmo aquelas que acreditam no excecionalismo americano, pensam que o caminho para a guerra civil está aberto. Tem receio de uma guerra civil nos Estados Unidos?
Não acho que vá haver uma guerra civil como no século XIX, com dois exércitos a combater em Gettysburg. Mas já há um nível muito elevado de violência política. E pode piorar.

Expresso

October 20, 2025

Uma das coisas que Putin conseguiu com esta guerra foi unir mais os europeus

 

Os serviços secretos holandeses estão a deixar de partilhar informações com os Estados Unidos e a trabalhar mais estreitamente com os seus parceiros europeus, afirmaram o diretor da AIVD, Erik Akerboom, e o diretor da MIVD, Peter Reesink, numa entrevista conjunta ao jornal Volkskrant.

A sua cautela em relação a Washington está relacionada com o que descrevem como a trajectória cada vez mais autocrática do presidente Trump, que demitiu altos funcionários por serem leais ao país e não a si e recorreu a processos judiciais para pressionar jornalistas, juízes e universidades.

Os diretores afirmaram que esta é a primeira vez que os eventos nos EUA moldam diretamente as relações dos serviços secretos holandeses com eles, marcando uma ruptura com décadas de estreita cooperação com a CIA e a NSA.

Ao mesmo tempo, a cooperação dentro da Europa aumentou. 

Akerboom disse que um grupo líder de serviços de inteligência do norte da Europa — incluindo os Países Baixos, Grã-Bretanha, Alemanha, os serviços escandinavos, França e Polónia — agora troca mais informações, incluindo dados brutos, impulsionado pela guerra da Rússia na Ucrânia.

Os directores também alertaram que a Rússia está por trás de dezenas de ataques cibernéticos bem-sucedidos na Holanda todos os anos, «em áreas onde causa perturbações reais», enquanto a China está a tornar-se uma ameaça digital ainda maior.

Akerboom alertou os viajantes holandeses na China sobre as chamadas operações de «acesso próximo», nas quais computadores portáteis e smartphones pertencentes a jornalistas, altos funcionários e especialistas técnicos são copiados fisicamente ou sem fios.

«As pessoas precisam realmente de estar cientes de que os seus dispositivos são vulneráveis», disse ele, acrescentando que mesmo os dados encriptados podem ser armazenados e posteriormente desencriptados usando inteligência artificial.

Ambos os chefes de inteligência disseram que a Holanda precisa de poderes mais amplos para agir mais rapidamente contra os ciberataques russos e chineses. «Queremos ser capazes de agir mais rapidamente quando vemos um ataque. O procedimento agora é muito demorado», disse Akerboom.


September 18, 2025

A liberdade de expressão nos EUA? Kaput



Nos EUA, em vez de estarem preocupados com a violência política, os assassinatos em escolas e o radicalismo de parte a parte, estão entusiasmados a despedir e perseguir pessoas que fazem uma piada ou dizem mal de Trump ou de qualquer coisa de um modo que os conservadores não gostem. Quando Trump sair do cargo daqui a três anos e meio, se sair(!), não vão haver instituições democráticas para reconstruir. Nos primeiros anos do governo Putin, a proibição de programas de comédia também era comum. O Kukli, da NTV, foi um dos programas de comédia mais famosos a ser cancelado em 2002. Os defensores de Putin na época chamaram isso de «decisão comercial».

ABC retira Jimmy Kimmel do ar por comentários sobre Charlie Kirk após pressão da FCC

Kimmel enfrentou críticas do presidente da Comissão Federal de Comunicações por comentários sobre a política do homem acusado de matar Kirk, o activista conservador.


Os comentários de Kimmel que levaram à suspensão do programa foram estes, na noite de segunda-feira. 
“Atingimos novos níveis baixeza no fim-de-semana, com o gangue MAGA tentando desesperadamente caracterizar o garoto que assassinou Charlie Kirk como qualquer coisa, menos um dos seus, e fazendo tudo o que podiam para ganhar pontos políticos com isso”.
Conservadores criticaram esses comentários, dizendo que caracterizavam erroneamente as crenças políticas de Tyler Robinson, o atirador acusado. 

A mãe dele disse aos promotores que o filho tinha recentemente mudado para a esquerda política e se tornado «mais pró-direitos dos homossexuais e transgéneros».

Carr, numa entrevista a um podcast de direita na quarta-feira, disse que as observações de Kimmel faziam parte de um «esforço concertado para mentir ao povo americano» e que a FCC «iria ter soluções».

nytimes


September 05, 2025

Preservar a democracia liberal


 

Liberalismo sem ilusões

by William A. Galston in https://democracyjournal (excertos)

Que a democracia liberal está sob ataque e na defensiva já não é novidade. A «terceira onda» de democratização que a impulsionou em todo o mundo atingiu o seu auge em 2006. Desde então, muitas democracias liberais entraram em declínio qualitativo, enquanto outras mudaram completamente para formas de governo iliberais e anti-democráticas.

Para resistir eficazmente a este ataque à democracia liberal, os defensores do sistema devem adoptar um realismo rigoroso sobre a natureza humana e o curso dos acontecimentos humanos. 

O interesse próprio racional nem sempre impulsiona os acontecimentos humanos; as paixões são importantes e o mal existe. A economia não é tudo, nem mesmo a «base» de tudo. A cultura e a religião mantiveram — e não perderão — o seu poder independente de moldar a compreensão e motivar a acção. A história também não garante a vitória da democracia liberal sobre os seus adversários; nada garante, porque sempre é possível mobilizar o lado sombrio da nossa natureza contra os esforços para criar um mundo melhor. Os seres humanos podem destruir o que construíram, e muitas vezes fazem-no. A história não tem lado nem fim.

As instituições democráticas liberais são construídas com dois objectivos em mente: ajudar a alcançar interesses coletivos e proteger contra a tirania. No entanto, eficácia e segurança puxam em direções opostas. Embora os freios e contrapesos possam proteger-nos contra concentrações perigosas de poder, também podem prejudicar a capacidade do governo de cumprir a vontade do povo. 

Quando problemas centrais permanecem sem solução por anos ou mesmo décadas, a frustração pública cresce. O mesmo acontece com o apoio a líderes que estão dispostos a quebrar as regras para fazer as coisas acontecerem.

Em segundo lugar, a democracia liberal exige tolerância para com opiniões e modos de vida minoritários aos quais muitos cidadãos se opõem veementemente. É natural sentir que, se consideramos certas opiniões ou modos de vida odiosos, devemos usar o poder público para os suprimir. Em muitos desses casos, a democracia liberal exige que refreemos esse impulso, um fardo psicológico que alguns consideram insuportável.

Queremos que a esfera pública reflicta o que consideramos mais valioso nos nossos compromissos privados [religiosidade, etnia, género, etc.]. A democracia liberal impede-nos de traduzir plenamente as nossas identidades pessoais nas nossas vidas públicas como cidadãos. Nem sempre é fácil aceitar isso.

A quarta dificuldade inerente à democracia liberal — a necessidade de compromisso — não é mais fácil de aceitar para muitos. Se o que eu quero é bom e verdadeiro, por que devo concordar em incorporar pontos de vista concorrentes nas decisões públicas? James Madison dá-nos a resposta: em circunstâncias de liberdade, a diversidade de pontos de vista é inevitável e, a menos que aqueles que concordam connosco formem uma maioria tão grande que seja irresistível, as alternativas ao compromisso são a inacção, que muitas vezes é mais prejudicial, ou a opressão, que é sempre mais prejudicial.

Os liberais preferem a paz à guerra, a abundância à penúria, a liberdade à tirania e o Estado de direito ao governo por decreto. Eles defendem a igualdade moral de todos os seres humanos e a igualdade cívica de todos os cidadãos. Acreditam que os indivíduos gozam de uma zona de imunidade em relação ao poder do Estado. E insistem que o consentimento, e não a coerção, é a base da autoridade política legítima.

Aceitar diferentes concepções do que é uma boa vida é o único caminho que nos permite viver juntos, apesar das nossas diferenças. A alternativa a aceitar diversas concepções do que é uma boa vida é uma guerra cultural sem fim.

Ilusões liberais
Passo agora dos problemas inerentes à democracia liberal para os erros de compreensão evitáveis e não forçados que enfraqueceram a capacidade dos defensores do sistema de resistir aos seus adversários. Essas ilusões dividem-se em três grupos: miopia, provincianismo e ingenuidade.

MIOPIA
Os defensores da democracia liberal de hoje muitas vezes sofrem do que pode ser chamado de materialismo míope: a crença, especialmente difundida entre as elites, de que as questões económicas são as verdadeiras questões e que as questões culturais são diversivas, deliberadamente intensificadas por líderes inescrupulosos para ganhar apoio para as suas agendas antiliberais. Essa estrutura quase marxista (a economia é a base, tudo o resto é a superestrutura) nega erroneamente a autonomia e o poder das questões culturais.

No cerne da cultura está a religião, cujo poder persistente os liberais muitas vezes subestimam. Por exemplo, quando a mais recente campanha eleitoral presidencial turca começou, muitos observadores acreditavam que a recessão económica e a inflação galopante do país acabariam com o domínio de duas décadas do presidente Erdogan no poder. Essa opinião tornou-se ainda mais dominante após a resposta hesitante de Erdogan a um terramoto que destruiu uma geração de desenvolvimento de infraestruturas e acabou com ou perturbou a vida de centenas de milhares de seus cidadãos. A comunidade internacional ficou surpreendida quando Erdogan liderou por 5 pontos percentuais após a primeira volta das eleições e depois ganhou a reeleição com 52% dos votos, aproximadamente a mesma percentagem que nas eleições presidenciais anteriores, cinco anos antes.

Mas isso não era novidade. Na verdade, foi a base religiosa rural e das pequenas cidades de Erdogan que o manteve no poder. As mulheres devotas eram especialmente fervorosas no seu apoio. Antes de Erdogan, explicavam elas, não podiam conseguir empregos públicos se usassem lenços de cabeça. Agora podiam. Ao acabar com a tradição de secularismo rigoroso na vida pública, Erdogan tornou-as cidadãs de pleno direito pela primeira vez, não sendo mais obrigadas a escolher entre a observância religiosa e o bem-estar económico das suas famílias. Até que os liberais — concentrados principalmente nas grandes cidades e capitais nacionais — se esforcem para compreender a influência duradoura da religião e da moralidade tradicional no interior do país, continuarão a ser surpreendidos pelos acontecimentos políticos.

PAROQUIALISMO
Muitos defensores da democracia liberal defendem alguma forma de transnacionalismo, seja concreto («cidadãos da Europa») ou difuso («comunidade internacional» ou mesmo «cidadãos do mundo»). Nesta perspetiva, as fronteiras e lealdades nacionais são consideradas formas de irracionalidade. Afinal, somos todos irmãos e irmãs por baixo da pele, e as reivindicações morais dos refugiados subsaarianos devem ser tão importantes para nós como as dos nossos concidadãos.

Essas opiniões, por mais sinceras que sejam, não são amplamente compartilhadas. O transnacionalismo é o provincialismo das elites. A maioria das pessoas nas democracias avançadas, bem como nas nações «em desenvolvimento», valoriza laços particulares — com as comunidades locais e com a nação, com amigos, familiares e compatriotas. 

O «nacionalismo liberal» não é oxímoro nem obsoleto, e os bons democratas liberais não estão moralmente impedidos de dar mais peso aos interesses e opiniões dos seus concidadãos. Isso não significa que possamos ignorar o sofrimento dos refugiados, mas as respostas que se exigem de nós podem ser limitadas — com razão — pelos nossos laços especiais. Desconsiderando esses laços, o utilitarismo universal é inaplicável ao mundo real da política.

O mesmo se aplica à ideia de que todos os seres humanos desejam as mesmas coisas. Sim, existe uma aversão universal aos grandes males da condição humana — pobreza, fome, pestilência e violência. No entanto, isso não significa que todos valorizem esses direitos ou desejem viver numa democracia liberal. 

A necessidade de segurança muitas vezes supera o desejo de democracia. Muitos indivíduos experimentam a liberdade como um fardo, não como uma oportunidade, e um sentimento de superioridade, individual ou coletiva, muitas vezes afasta a consciência da igualdade moral. Ignorar essas realidades leva a erros caros, como acreditar que a democracia liberal surgirá quando os tiranos forem removidos.

INGENUIDADE

De todas as ilusões liberais, a ingenuidade sobre o curso dos acontecimentos humanos e as possibilidades da natureza humana é a mais prejudicial.

No final do século XIX, muitos liberais passaram a considerar o seu credo como o resultado irreversível do progresso científico e moral. As escaramuças militares continuariam, é claro, mas os densos laços comerciais entre as nações tornaram as grandes guerras irracionais e, portanto, inconcebíveis.

A confiança no progresso inevitável rumo a um futuro liberal morreu nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, abrindo espaço para desafios filosóficos à democracia liberal — e para regimes revolucionários que rejeitaram tanto o liberalismo quanto a democracia como princípios organizacionais e reabilitaram o zelo religioso sob o disfarce da ideologia secular. 

Os horrores da Segunda Guerra Mundial reforçaram as dúvidas de que o interesse próprio racional pudesse conter o lado sombrio da natureza humana, dando origem a uma geração de liberais castigados para quem o medo era pelo menos tão fundamental quanto a esperança.

O Holocausto convenceu a geração pós-Segunda Guerra Mundial de que os impulsos destrutivos eram inerentes à nossa natureza. Os secularistas encontraram apoio para essa proposição na teoria da «pulsão de morte» de Sigmund Freud; os crentes, nos escritos do teólogo protestante e crítico social Reinhold Niebuhr, que citou a famosa descrição do pecado original como «a única doutrina empiricamente verificável da fé cristã».

Alguns estudiosos criticaram esses «liberais da Guerra Fria» por sucumbirem ao medo. Mas após a mobilização do ódio em grande escala, após os regimes assassinos de Hitler e Estaline e os genocídios de milhões de judeus e ucranianos, após a degeneração dos sonhos utópicos em pesadelos tirânicos na China de Mao, no Camboja de Pol Pot e em outros lugares, nenhuma outra conclusão parecia empiricamente ou moralmente defensável.

Mas à medida que a Europa se reconstruía, as economias e os estados de bem-estar social cresciam, o comércio internacional florescia, o colonialismo diminuía, a democracia liberal se espalhava e os Estados Unidos e a União Soviética estabeleciam um modus vivendi instável, as lições sombrias aprendidas entre 1914 e 1945 foram gradualmente desaparecendo, e a confiança voltou a ser o sentimento liberal dominante.

Após a queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética, ganhou força a crença de que a história segue apenas numa direção: rumo à vitória permanente da democracia liberal sobre outras formas de governo. 

Presidentes americanos de ambos os partidos políticos afirmaram que certas políticas eram erradas porque estavam «do lado errado da história» ou que certas práticas não podiam persistir porque pertenciam ao passado.
Infelizmente para eles, e para todos nós, a história não tem lado, e o retrocesso aos horrores do passado é sempre possível.

À medida que as divisões internas se aprofundavam nas democracias liberais estabelecidas, paixões há muito silenciadas ressurgiram, assim como os tipos de líderes que sabiam como usar essas paixões para fins iliberais. Esses desenvolvimentos apanharam de surpresa os liberais, que passaram a considerar irreversível o movimento em direção à tolerância no país e ao internacionalismo no exterior. É por isso que tantos líderes ocidentais ficaram chocados quando Vladimir Putin invadiu a Ucrânia.

Numa destilação cristalina da ilusão de que a história se move numa única direção, do pior para o melhor, a ex-secretária de Estado Condoleezza Rice refletiu sobre a invasão russa numa entrevista: 
«Lutar por território, pensar em termos étnicos, usar recursos para travar guerras. Pensei que tivéssemos superado isso.» Ela acrescentou: «Isso não deveria ter acontecido. Pensávamos que a linearidade do progresso humano deveria ter deixado tudo isso para trás”
 — como se a varinha mágica da história pudesse eliminar o ressentimento e o desejo de dominar da alma humana.

O compromisso com a democracia liberal deve ser separado da fé na inevitabilidade do progresso histórico. A mudança é inevitável, mas pode ser para pior e muitas vezes é. O progresso é possível, mas não é inevitável nem irreversível.

Sem dúvida, o progresso é real em alguns domínios. Os seres humanos compreendem melhor o mundo natural e, em certa medida, o mundo social e político, do que há séculos. Principalmente devido aos avanços na compreensão humana, fizemos progressos tecnológicos em muitas frentes, incluindo inovações médicas que corrigiram disfunções físicas, diminuíram a dor e aumentaram a longevidade.

Também fizemos progressos materiais: a percentagem de seres humanos que vivem em pobreza extrema é muito menor do que era há apenas algumas décadas.

No entanto, há menos evidências de progresso moral. Como a China demonstrou, mesmo ganhos económicos generalizados e uma classe média em expansão não garantem o avanço em direção às liberdades civis, muito menos à democracia liberal, e os ganhos provisórios em liberdade de expressão e pensamento podem evaporar-se. As guerras continuam a assolar vários continentes e civis inocentes continuam a morrer.

«Nunca mais» é um compromisso, não uma garantia, e, infelizmente, na prática, pode dar lugar a «mais uma vez».

Reconhecer a possibilidade de retrocesso não é um argumento contra políticas ambiciosas, mas é um lembrete de que os esforços para mudar o mundo com base na confiança no progresso podem sair pela culatra.

A fé equivocada no progresso histórico anda de mãos dadas com a ingenuidade psicológica. A maioria dos defensores da democracia liberal acredita que uma combinação de razão e interesse próprio é suficiente para explicar o comportamento humano. Isso deixa de fora a maioria dos sentimentos que moldam a vida política, incluindo as paixões sombrias — raiva, humilhação, ressentimento, medo e desejo de dominação.

O acordo pós-Primeira Guerra Mundial que retirou à Hungria mais de metade do seu território e deixou milhões de húngaros como minorias noutros países. O desejo de retaliar contradiz frequentemente o interesse próprio, tal como é convencionalmente entendido, mas isso não enfraquece o poder motivador da vingança.

É necessário, embora quase embaraçoso, reafirmar o óbvio. A capacidade para o mal faz parte da natureza humana, e alguns membros da nossa espécie sucumbem a ela. Há aqueles que gostam de dominar os outros — de os subordinar, humilhar, satisfazer a luxúria e infligir crueldades indescritíveis. 

O conflito entre esses prazeres perversos e o compromisso da democracia liberal com a igualdade moral de todos os seres humanos é evidente. Não é preciso aceitar a teologia de Agostinho para acreditar que a sua descrição dos seres humanos como orgulhosos e inclinados à dominação contém verdades significativas que negligenciamos por nossa conta e risco.

Embora não cheguem a ser, o mal absoluto, outros defeitos da nossa natureza também prejudicam a democracia liberal. Há pessoas que se satisfazem na guerra e não encontram satisfação na paz. Há pessoas cuja paixão pela conquista imperial se sobrepõe a qualquer respeito pelas fronteiras e pela soberania nacional. As leis e normas internacionais, por si só, não protegem as democracias liberais contra essas paixões. 

Para manter a paz, as democracias devem preparar-se para a guerra. Para resistir à agressão, devem estar preparadas para se defender com a força das armas.

Os acontecimentos recentes destacam os custos de esquecer essas verdades básicas. Quando Putin invadiu a Ucrânia e o Ocidente (depois de se recuperar do choque) se uniu à causa de Kiev, ficou claro que as nações europeias haviam permitido que sua capacidade de auto-defesa se deteriorasse. As suas forças armadas haviam enfraquecido e, com isso, a capacidade de produzir armamentos que elas mesmas e os ucranianos sitiados pudessem usar.

A capacidade de auto-defesa requer combatentes, bem como armas, e nenhuma concepção de cidadania democrática liberal está completa a menos que reconheça essa realidade.

Como dizia Agostinho, o mais perigoso dos pecados humanos é a libido dominandi — o desejo de dominar os outros e submetê-los à tirania da nossa vontade desenfreada. Lutamos contra esse impulso nas nossas vidas pessoais. Aprender a aceitar limites à nossa vontade — a abraçar plenamente a existência de outras vontades com reivindicações iguais às nossas — é uma jornada que começa na infância e termina, inacabada, com a morte.

A base da política decente
Reconhecer o lado sombrio da natureza humana não implica diminuir as nossas esperanças políticas. Immanuel Kant fez a sua famosa observação de que «do cepo torto da humanidade nunca se fez nada direito» num tratado que traçava um caminho para a concórdia duradoura entre as nações do mundo.

De facto, as décadas após a Segunda Guerra Mundial testemunharam a maior expansão de programas públicos para melhorar a segurança e o bem-estar individuais na história da humanidade. Muitos líderes de centro-direita e centro-esquerda acreditavam que esses programas eram necessários para impedir o retorno do extremismo destrutivo em ambos os extremos do espectro ideológico. 

Não há conexão entre o realismo liberal e o «neoliberalismo».

A base da política decente é o estabelecimento de instituições e normas que minimizem os maiores males da política — crueldade, guerra civil e tirania —, aliado ao incentivo de políticas que melhorem o bem-estar não apenas dos privilegiados, mas de todos os cidadãos. 

Impedir a expressão política do mal é a pré-condição para alcançar os bens possíveis da política. Isso significa impedir que qualquer indivíduo, grupo ou classe — por mais bem-intencionado que seja — obtenha o poder de desconsiderar os desejos e interesses de outros cidadãos.

Como os acontecimentos actuais demonstram, os Estados Unidos não são excepção a essas máximas. O presidente Trump mobilizou eficazmente a raiva e o medo do público a serviço da dominação e parece determinado a afirmar o poder executivo ao máximo, quaisquer que sejam as consequências para o sistema de freios e contrapesos que os fundadores viam como o baluarte institucional contra a tirania.

É impossível prever como isso vai acabar. Mas uma coisa já é clara: a impaciência com problemas há muito não resolvidos aumentou a tolerância do público em desconsiderar restrições legais em nome da obtenção de resultados rápidos, independentemente dos danos colaterais. 

Quando o Estado de Direito recua, o domínio da vontade arbitrária avança, sempre à custa da liberdade.

Como os Estados Unidos têm sido a principal potência mundial desde a Segunda Guerra Mundial e são considerados um modelo de governança democrática liberal, esses desenvolvimentos certamente terão consequências globais. 

O fim da ordem internacional baseada em regras, há muito defendida pelos liberais, abre as portas para o domínio da força e a redivisão do mundo em esferas de influência das grandes potências. Os autocratas reivindicarão a sua justificação, e os activistas democráticos procurarão em vão a ajuda, material ou mesmo moral, dos Estados Unidos para a sua luta contra a opressão. Qualquer que seja o veredicto que o povo americano der à administração Trump, ela já causou danos que, na melhor das hipóteses, levarão muito tempo para serem reparados. Alguns deles podem ser irreparáveis.

Os acontecimentos ocorridos em todo o mundo durante o século passado ensinaram uma dura lição que os americanos estão agora a reaprender dolorosamente: todas as alternativas à democracia liberal são piores do que a democracia liberal. Talvez haja circunstâncias em que isso não seja verdade, mas essa não é a realidade que existe hoje.

A única atitude responsável é abraçar a tarefa interminável de tornar a democracia liberal o melhor que ela pode ser. Isso requer um realismo rigoroso e disciplinado, livre das ilusões de que a história é progressista e que os seres humanos são perfectíveis. 

O lado sombrio da nossa natureza está aqui para ficar, e a democracia liberal não tem imunidade contra o colapso, quando é atacada por paixões sombrias. O realismo liberal significa descartar as esperanças de revoluções de qualquer tipo em favor do que Max Weber chamou de «perfuração lenta de tábuas duras». É assim que as reformas duradouras se consolidam. É o verdadeiro trabalho da democracia.