December 27, 2025

Filmes - 'Taking sides'



Fui dar com este filme de 2001 acerca do inquérito dos americanos na Comissão de desnazificação sobre a cooperação de Furtwängler com as cúpulas nazis. 
A dasnazificação era dirigida a civis com poder e influência sobre quem caia a suspeita de terem colaborado com o regime. Enquanto não havia decisão da Comissão (podia durar uns anos) não podiam retomar o trabalho e, mesmo depois, os que eram considerados culpados, mesmo de serem só simpatizantes eram cancelados durante uns anos até poderem retomar os cargos - Heidegger tentou suicidar-se após a condenação da Comissão que o impediu de dar aulas em qualquer universidade durante anos. 

O filme acompanha o inquérito da desnazificação de Furtwängler, desde a inquirição de testemunhas aos interrogatórios do próprio maestro. 

A questão de  Furtwängler é uma polémica sem conclusão. Os seus detractores mostram os concertos dele para as elites nazis (adoravam-no), invocam o facto de ele ter sido nomeado conselheiro de Goebbels para a cultura e a sua proximidade com Göring. Os seus defensores invocam a sua genialidade na música - ele é considerado por muitos especialistas o melhor condutor de sempre -, os judeus que ajudou a fugir, a sua própria defesa, isto é, ter escolhido ficar no país e tentar ter uma influencia positiva, humanizar as pessoas pela música. O filme explora a polémica.



No filme, o inquiridor a quem incumbem a tarefa de mostrar a cumplicidade de Furtwängler com os nazis é um major que na vida civil era um investigador de seguros. Tem dois ajudantes: um deles um judeu alemão que fugiu da Alemanha para os EUA nos anos 30 mas que perdeu os pais e a outra uma alemã, filha de um dos conspiradores executado por ter tentado matar Hitler. Ambos tomam o partido de Furtwängler. São alemães, são amantes de música, admiradores do seu génio e percebem a dificuldade da vida na Alemanha naquele tempo.

Harvey Keitel constrói um inquiridor que vê o mundo a preto e branco e está habituado a todo o género de esquemas de criminosos para escapar à justiça e beneficiar das transgressões. Vê a música como um divertimento e não percebe a relação telúrica dos alemães com a música. Para ele, Furtwängler quis ter um pé nos dois mundos. Não queria os nazis mas queria muito a glória. Não se convence com as tentativas de Furtwängler de lhe explicar que a posição da arte numa ditadura é muito difícil e é como andar na corda bamba e que numa ditadura não é imoral querer ficar e tentar mudar alguma coisa por dentro.

Furtwängler é interpretado por Stellan Skarsgård que o constrói magistralmente. Conseguimos ver na sua cara o dilema, a humilhação, a complexidade das emoções, a dignidade com que aguenta o pragmatismo in-complexado do americano que chega e julga a partir de um ponto de vista exterior de quem nunca teve de navegar numa sociedade totalitária na mão de mafiosos.

Furtwängler não era só admirado na Alemanha, mas em todo o lado. Neste pequeno excerto de entrevista, Yehudi Menuhin, um judeu americano que passou grande parte da sua vida na GB, um violinista virtuoso, fala sobre Furtwängler, sobre a dificuldade da arte se posicionar face à política e sobre a facilidade com que um grupo de criminosos pode subir ao poder e recriar uma sociedade totalitária em outro país qualquer - estava a adivinhar os nossos dias.



 Pus-me a estabelecer um paralelo entre o caso de Furtwängler na Alemanha nazi e o caso de artistas russos nesta Rússia imperialista totalitária, governada por criminosos mafiosos. Digamos que a guerra acaba agora. Como julgaríamos um maestro, bailarino, etc., que fosse nomeado conselheiro de Putin para a cultura e fizesse espectáculos para Putin e a sua quadrilha de malfeitores? Diríamos que por ter ajudado ucranianos a fugir isso desculpa a sua posição? Que o seu génio está para além da política?

Tenho a certeza que se tivesse visto o filme antes da guerra da Rússia teria achado o inquiridor americano um bocado bruto e insensível às complexidades da vida mas agora... é uma questão difícil.

Uma coisa que gosto no filme é não tomar parte, nem a favor nem contra Furtwängler. Mostra os dois lados e deixa-nos a pensar. Porém, a última cena do filme é uma filmagem real da época, que mostra o final da Nona de Beethoven perante uma plateia de altos oficiais nazis. No fim, o oficial que está à frente, ao centro, levanta-se e vai apertar a mão a Furtwängler, que se inclina e lhe aperta a mão. E o realizador põe a câmara a fazer um zoom às suas mãos e vemo-lo, depois de apertar a mão ao nazi, a passar o lenço que tinha na outra mão para essa e limpar a mão - conclusão: quando te dás muito com nazis tens de passar o tempo a limpar as mãos...

Bruckner: Symphony No.7 "Adagio", orquestra de Berlim, conduzida por Furtwängler - a peça que os nazis escolheram passar na rádio após saber-se do suicídio de Hitler.



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