No últimos tempos vejo muito a pergunta: o que vem a seguir a Putin desaparecer? É o mesmo que perguntar, o que vem a seguir à tirania?
Os antigos consideravam a tirania o pior governo de todos. O mais corrompido, o mais destruidor da alma humana. Aquele em que um homem só, o tirano, governa pela força, pela corrupção e pelo medo, para se manter eternamente no poder e satisfazer as suas paixões mais baixas. Na tirania é costume a prisão arbitrária, as execuções, a intolerância a qualquer dissidência e a exigência de obediência cega. É a escravidão de um povo até ao mais recôndito da sua alma.
O tirano é mais que um ditador. César, na época romana, defendia-se dos que lhe chamavam tirano dizendo que não tinha destruído uma democracia mas substituído, com o apoio do povo, um sistema caótico de oligarcas, extremamente injusto por uma ordem de justiça: distribuiu terras, cancelou dívidas a cidadãos, não perseguiu oponentes políticos, respeitou o Senado e a lei, etc.
Platão pensava que a tirania se seguia a um período de desordem ou anarquia decorrente dos excessos da democracia acabar a ser governada pela turba, pelos ignorantes, por aqueles que entendem a verdade como um produto do poder em vez de retirarem o seu poder da força da verdade - a condenação de Sócrates, um homem justo, à morte, pela democracia, teve um grande impacto nele.
As evidências, no entanto, mostram que nem sempre se passa de uma degeneração de democracia para a tirania. Veja-se os EUA. Passaram de democracia a oligarquia, pelo voto e na próxima legislatura podem transformar-se numa tirania ou, pelo menos, numa ditadura não-benevolente, sem terem passado por uma degeneração da democracia prévia a esta oligarquia.
A Rússia passou de uma monarquia absoluta (a monarquia constitucional só durou 12 anos, de 1905 a 1917) para ciclos destrutivos de tirania de onde parece não conseguir sair. Teve aquele período entre 1905 e 1917 para se construir como uma sociedade democrática mas vinham de uma forma de vida feudal e escravizada, impreparada para isso. De 1917 até hoje tiveram apenas uma breve janela de oportunidade, depois da queda do muro de Berlin, para estabelecerem uma sociedade livre e democrática, mas por essa altura já levavam 70 anos de total disfuncionalidade, obscurantismo e corrupção da alma, como lhe chama Platão. A questão de Platão é mesmo essa: como se passa de uma tirania, ou pior, de um ciclo de tiranias, onde já nenhum dos vivos sabe o que é uma vida de liberdade e direitos civis, para um governo justo de justos?
Hoje em dia, as sociedades mais tirânicas, que mais destruíram e corromperam a alma humana são as islâmicas. A maioria desses 50 países são totalmente disfuncionais e imorais, embora nem todos estejam no estejam no extremo como o Afeganistão ou o Paquistão e até haja um ou dois em processo de reforma. Nesse países que vivem em tirania teocrática há mais de um milénio, os pais violam as filhas, os velhos compram crianças para violar, os pais e irmãos matam as filhas e as irmãs por honra, os homens declaram-se animais sexualmente descontrolados a exigir que ninguém se mostre ao pé deles, cortam as mãos, os pés, o nariz e mais o que for aos desobedientes. Apedrejam pessoas até à morte, decapitam-nas por terem opiniões diferentes, mandam as crianças explodir-se como declaração de terror, é permitido violar rapazes pequenos, ovelhas... É evidente que os homens que vêm dessas sociedades sem lei, mentalmente degeneradas, governadas há séculos e séculos e séculos por tiranos, sejam da religião ou de castas monárquicas, chegam aqui ao Ocidente e reproduzem dentro e fora das suas comunidades toda essa disfuncionalidade, tirania, degenerescência e violência. Como é que alguém pode pensar que mudar de local geográfico muda as pessoas como que por magia e que por estarem aqui passam a obedecer à lei e à ordem?
Adiante.
Platão considerava que, quando a tirania chegava a um ponto de extrema disfuncionalidade, a única maneira de a tirar de ciclos contínuos de destruição era através da razão, e consistia em conseguir que alguém sábio tomasse as rédeas do poder e restaurasse racionalmente a lei, a justiça e a ordem, com benevolência. (A alternativa seria um filósofo conseguir convencer o tirano a mudar o seu modo de governar, o que é muito difícil.) Júlio César via-se como esse ditador benevolente que tinha tirado Roma do caminho da destruição. Por exemplo, Ataturk, o fundador da Turquia moderna, poderá ser considerado um ditador desse género: acabou com uma teocracia brutal, tornou o Estado laico, deu direitos às mulheres, modernizou o país, etc. Gorbachev teve essa intenção mas a sociedade russa não estava -e não parece estar- preparada para viver em liberdade.
Aristóteles defendia que havia outros modos de acabar com as tiranias, como por exemplo, golpes de Estado, revoltas do povo, conspirações dos oligarcas. Porém, a questão que interessa a Platão não é a de saber como matar o tirano ou acabar com uma tirania para que alguém institua outra logo a seguir. Isso origina ciclos de destruição que perpetuam o caos. O que ele quer é um modo de acabar com a tirania e passar daí a um governo justo de homens justos.
Como é que uma sociedade, como a russa, por exemplo, ou a chinesa, a viver há séculos em regimes de monarquia absoluta seguidos de tirania (a China teve um monarquia constitucional durante uns meses apenas), tendo criado sociedades de escravos mentais, de almas corrompidas, desorientadas, disfuncionais, pode passar daí para um regime democrático?
Há duas hipóteses:
1. Um líder benevolente, com o apoio popular conseguir reunir um grupo de pessoas com uma mentalidade e formação humanista e reformadora e com coragem que instauram um regime de leis, um Estado de direito e uma sociedade a caminhar para a justiça;
2. Separa-se a Rússia das suas colónias desfazendo permanentemente o sonho do Império. Deixa de haver uma Federação russa que inclui montes de povos e países e passa a haver apenas o país Rússia. Os outros países que agora estão nessa federação imperialista tanto podem atomizar-se como juntarem-se em pares, trios, etc. consoante as suas identidades, língua, territórios e interesses. Seja como for, a Rússia deixa de ser uma tirania com um grande território e um grande exército e passa a ser um país como os outros, sem tamanho nem força para ser uma ameaça para o mundo.
As hipóteses negativas são: outro conjunto de oligarcas continuar o sistema de tirania ou, o exército tomar conta do país.
Portanto, a aposta mais segura para a segurança da Europa e do mundo é derrotar a Rússia na Ucrânia e apoiar a divisão da Federação em países independentes da Rússia.