Fui dar com um par de vídeos deste homem, André Simões, professor universitário e auto-proclamado grande especialista na Odisseia de Homero (tem pelo menos mais um vídeo em que diz várias vezes que é um especialista e goza com os críticos ignorantes, muito abaixo da sua grandeza) a chamar racistas e pessoas de ódio aos críticos do filme de Nolan.
Como se vê no vídeo, o senhor põe as mãos à cabeça e diz com um ar de superioridade paternalista, 'meu Deus são tão racistas e os conservadores ofendem-se com tanta facilidade' - bem, não são os conservadores que mandam censurar, cancelar, despedir e até prender todos os que têm o descaramento de não concordar com as suas opiniões e os reduzem a racistas, islamofóbicos, discursos de ódio, etc. Mas adiante.
Diz várias vezes que, "se não gostam do filme não vão vê-lo", quando é óbvio que, para se gostar ou desgostar do filme, é preciso primeiro vê-lo.
Digo já que não tenho opinião sobre o filme de Nolan, nem a favor nem contra porque ainda não o vi. Sei, no entanto, que há uma polémica sobre não haver actor nenhum grego entre as personagens do filme e também por Nolan ter contratado, um negro, um trans, um gay, etc. e ter feito do filme, segundo esses críticos, uma afirmação woke. Também não me vou pronunciar sobre isso porque, mais uma vez, ainda não vi o filme e não sei se essas críticas têm mérito.
Até poderei estar de acordo com Nolan, mas nunca com os maus argumentos e nos termos pretensiosos de superioridade moral deste indivíduo ou de considerar que quem não concorda comigo é logo racista, inferior, odioso, etc. ao ponto de ter chiliques afectados.
Portanto, este post é apenas sobre este discurso de auto-proclamação de superioridade moral e intelectual deste senhor, tão ao jeito da nova-esquerda. E declaro já que não sou especialista na Grécia Antiga, nem na Odisseia, mas também não me considero uma completa ignorante e, embora não seja intelectual ou moralmente superior a ninguém, também não sou inferior e sei alguma coisa de avaliar a argumentação das pessoas.
Então vamos lá seguir o seu discurso:
Depois de se proclamar moralmente superior reduzindo todas as críticas a Nolan a puro racismo diz que as pessoas negras não eram desconhecidas na Grécia Clássica. Ora, as críticas que fazem a Nolan não dizem que os gregos não conheciam pessoas negras. O que dizem é que Helena de Tróia e os deuses do Olimpo não eram negros. Eram esculpidos na estatuária e desenhados em frescos e vasos, etc., com feições mediterrâneas, nomeadamente gregas, tendo os gregos um fenótipo com feições muito características: o nariz, os lábios. Sim, eram feições idealizadas, porque são heróis e deuses, mas eram as dos gregos. Portanto, ele não responde à crítica mas a outra questão paralela.
Diz que está-se nas tintas para a cor dos actores, se a personagem que interpretam não depende da cor. Então, dizer que pessoalmente não quer saber da cor dos actores também não responde às críticas que fazem a Nolan por ignorar a origem grega das personagens, é só mais uma maneira de se sentir e proclamar moralmente superior.
Depois diz que os críticos "estão a fazer cherry picking a um verso perdido que fala da brancura dos braços de Helena" e que isso não quer dizer nada porque era uma maneira de dizer que era da realeza e que aliás a obra é uma ficção com personagens da mitologia. Porém, se ser branco equivale, como diz, a ser da realeza e se Helena era da realeza, então...
A seguir a falar em fazer cherry picking de um verso perdido sobre a brancura de Helena, o que faz ele? Cherry picking de um verso perdido no Livro XVI, na tradução de Frederico Lourenço onde se diz que Ulisses é negro. Faz exactamente o que critica os outros terem feito. O verso respectivo na tradução de FL diz:
Assim disse; e logo com a vara dourada lhe tocou Atena.
Primeiro vestiu-lhe o peito com uma capa e uma túnica
bem lavada: aumentou-lhe a estatura e restitui-lhe a juventude.
De novo ficou de pele negra, encheram-se-lhe as faces e a barba escureceu em torno do queixo.
Depois de deixar implícito que é óbvio que Ulisses é negro, André Simões crítica as pessoas não terem criticado Nolan por ter posto um actor branco a representar o Ulisses negro (agora já não refere ser uma obra de ficção da mitologia, agora já é certo que Ulisses é negro) e daí deduz que é tudo uma cambada de racistas e faz um teatrinho afectado, 'deixem-me em paz, estou farto do ódio dos racistas'. Portanto, em seu entender, as pessoas fazerem uma crítica contra a sua opinião é ódio e guerra. Já ele tratar os que criticam Nolan como racistas é o quê... respeito? Amor ao próximo?
Então, sendo ele um, moralmente superior especialista iluminado, deve saber que a tradução de Frederico Lourenço não é a única no mundo e até é muito recente. É, pois, provável que a maioria das pessoas não a tenha lido, assim como a tradução, também recente, de Emily Wilson que também traduz este verso usando o termo, negro. Provavelmente "têm na cabeça" como ele diz ideias das traduções anteriores que eram diferentes.
Na tradição das traduções de Homero anteriores, que eram e são ainda, estudadas nas escolas e universidades, este verso não era assim traduzido - como ele, do alto da sua superioridade intelectual, deve saber, até porque deve ter estudado por uma delas.
Por exemplo, na tradução de Robert Fagles de 1996 (a única que eu tinha até saírem estas recentes que agora também tenho e li), usada em muitos programas curriculares do ensino secundário americano e também em muitas escolas inglesas, o verso diz:
Athena stroked him with her golden wand. First she made the cloak and shirt on his body fresh and clean, then made him taller, supple, young, his ruddy tan came back, the cut of his jawline firmed and the dark beard clustered black around his chin.
Que pode traduzir-se para português, mais ou menos assim:
Atena acariciou-o/tocou-o com a sua varinha dourada. Primeiro, fez com que a capa e a camisa que lhe cobriam o corpo ficassem frescas e limpas; depois, tornou-o mais alto, mais ágil e mais jovem; o seu bronzeado saudável voltou a aparecer, o contorno do maxilar ficou mais definido e a barba escura aglomerou-se, negra, à volta do queixo.
A tradução de E.V. Rieu, mais antiga, que esteve em vigor desde 1946 até aos dias de hoje e, penso, que ainda é a tradução obrigatória nos exames ingleses, diz o seguinte:
Saying this, Athene touched him with her golden wand. She clothed him in a clean tunic and cloak, increased his stature, and restored his youthful complexion. His colour returned, his cheeks filled out, and his beard darkened. Then she departed, leaving Odysseus to return to the hut.
Que pode traduzir-se para português, mais ou menos assim:
Ao dizer isto, Atena tocou-o com a sua varinha dourada. Vestiu-o com uma túnica e um manto limpos, aumentou a sua estatura e devolveu-lhe a tez juvenil. A cor voltou-lhe ao rosto, as bochechas encheram-se e a barba escureceu. Depois, partiu, deixando Odisseu a regressar à cabana.
Por consequência, durante estes séculos de poucas traduções da Odisseia de Homero, nunca Ulisses apareceu negro nos versos ou Helena ou Atena ou outros deuses e heróis. Não é nada óbvio que as pessoas em geral saibam que agora se traduz Ulisses como sendo negro. Daí que seja normal as pessoas estranharem e que tenham uma ideia deles todos como mediterrâneos com feições e tez gregas. Como penso que os americanos estranhariam e criticariam se um japonês fizesse um filme sobre a Pocahontas e escolhesse uma actriz japonesa ou até um actor masculino que se apresenta como mulher, japonês, para a representar.
O que não acho normal, mas já me habituei porque é o padrão da nova-esquerda, é que um professor universitário não seja capaz de uma atitude de tentar compreender o ponto de vista da crítica, contrário ao seu, para ver se tem mérito, para depois responder à crítica, também com mérito, em vez de chamar nomes e ter chiliques do alto da sua superioridade moral. Mas isto sou eu que devo ser muito ignorante.