Por que razão a China continua a resistir a alianças formaisGeosec InsightsÀ primeira vista, a política externa da China apresenta um paradoxo. Pequim é a única potência com dimensão económica, capacidade industrial, modernização militar e alcance diplomático suficientes para desafiar os Estados Unidos enquanto rival sistémico. No entanto, ao contrário de Washington, não construiu uma rede global de alianças militares vinculativas.
Washington tem operado através de tratados formais de defesa, bases militares avançadas, estruturas de comando de alianças, inter-operabilidade e garantias de segurança de longo prazo. Pequim, pelo contrário, escolheu uma abordagem diferente para expandir a sua influência. Esta inclui uma combinação de parcerias estratégicas, projectos de infraestruturas, coordenação política, dependência económica e comercial, exercícios militares e fóruns multilaterais, mas não compromissos jurídicos que obrigariam a China a defender outro Estado em caso de guerra. Por outras palavras, a China tem evitado alianças como a NATO e, em particular, cláusulas como o artigo 5.º da NATO.
Esta é uma escolha estratégica deliberada. Pequim não quer reproduzir o sistema de alianças americano porque não o vê apenas como uma fonte de força, mas também como uma estrutura de obrigações, exposição e potencial envolvimento involuntário em conflitos. A China quer parceiros, não aliados no sentido jurídico estrito; influência sem compromissos automáticos; poder de pressão sem obrigações partilhadas; acesso sem dependência. Acima de tudo, quer liberdade de acção.
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O modelo de alianças dos EUA e a lógica diferente da China
Um dos pilares da predominância global americana é a arquitectura de alianças do país. A NATO, provavelmente a aliança militar mais bem-sucedida da história e uma das principais alianças de Washington, continua a ser apenas uma parte de um sistema mais vasto. Washington mantém tratados de aliança com a Austrália, o Japão, a Coreia do Sul, a Tailândia e as Filipinas, além de outras parcerias de segurança na Europa, no Indo-Pacífico e no Médio Oriente. Este sistema proporciona a Washington acesso, redes de informações, legitimidade, inter-operabilidade militar, influência política e económica e capacidade de projecção militar avançada.
Washington encara as alianças como multiplicadores do seu poder, permitindo-lhe ultrapassar as limitações impostas pela geografia. Através das suas alianças, as forças americanas mantêm uma presença contínua na Europa, no Pacífico, no Médio Oriente e na Ásia Oriental, muito para além dos Estados Unidos continentais. Este sistema alargado de alianças e parcerias permitiu aos EUA moldar os equilíbrios regionais de acordo com os seus interesses nacionais e impedir que as crises se transformassem em ameaças directas.
No entanto, este sistema também criou expectativas políticas, uma vez que os aliados americanos dependem fortemente da proteção dos EUA, enquanto os próprios EUA dependem da cooperação e do alinhamento dos seus aliados. A recente guerra no Médio Oriente demonstrou os limites da dependência, tanto para os Estados Unidos como para os seus aliados.
A China, por seu lado, encara o sistema de alianças de forma diferente. Para os decisores políticos chineses, as alianças americanas não são meros acordos de segurança neutros, mas instrumentos de contenção, sobretudo na Ásia Oriental. Neste sentido, as forças americanas na Coreia do Sul e no Japão, a aliança entre os EUA e as Filipinas, o AUKUS, o QUAD e os Five Eyes são vistos como partes de um sistema mais amplo destinado a conter a expansão chinesa, especialmente no perímetro marítimo de Pequim.
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A China tem parceiros, não um verdadeiro sistema de alianças
A ausência de alianças formais não significa que a China não mantenha relações estreitas com outras potências. Em primeiro lugar, Pequim mantém uma parceria próxima com Moscovo. Além disso, a China mantém uma relação estreita com o Paquistão, profundos laços económicos em todo o Sul Global, influência crescente em algumas regiões de África e do Médio Oriente e um papel institucional em fóruns como a Organização de Cooperação de Xangai e os BRICS. Por fim, a China tem apenas um tratado formal de defesa, herdado da Guerra Fria, com a Coreia do Norte.
Nenhuma das parcerias acima mencionadas é, de forma alguma, equivalente à NATO ou à aliança entre os EUA e o Japão: Não criam um sistema de comando unificado;
Não obrigam automaticamente a China a defender vários parceiros;
Não exigem que Pequim mantenha grandes forças permanentes estacionadas em território aliado;
Não inserem a política de segurança chinesa numa estrutura de aliança partilhada.
No entanto, as parcerias chinesas são úteis porque são politicamente abrangentes e juridicamente limitadas: Permitem à China cooperar com a Rússia sem assumir todos os riscos russos.
Permitem-lhe apoiar o Paquistão sem ficar presa a todas as crises entre a Índia e o Paquistão.
Permitem-lhe relacionar-se com o Irão, a Arábia Saudita, Israel, os palestinianos e os Estados do Golfo sem escolher formalmente um dos lados em todos os conflitos regionais.
Permitem à China apresentar-se como mediadora quando isso lhe é conveniente e como contrapeso de uma grande potência quando necessário.
Este é o núcleo do modelo chinês: máximo espaço diplomático com um mínimo de obrigações formais.
A lição histórica: a cisão sino-soviética
Uma das razões que explicam a abordagem chinesa é histórica. Mais especificamente, a aliança da China com a União Soviética, nas primeiras fases da Guerra Fria, começou como uma parceria ideológica entre as duas potências comunistas. Rapidamente, porém, transformou-se numa lição sobre dependência, desconfiança e hierarquia.
A cisão posterior indicou aos dirigentes chineses que o alinhamento ideológico não é suficiente para manter uma aliança, sobretudo quando uma das partes é tratada como um parceiro inferior — neste caso, a União Soviética tratava a China como não sendo um parceiro em pé de igualdade. Consequentemente, a relação sino-soviética deteriorou-se até se transformar em hostilidade, incluindo confrontos militares ao longo das fronteiras.
Esta experiência teve um impacto profundo no pensamento estratégico chinês, reforçando a suspeita de que as alianças formais podem limitar a liberdade de ação e, consequentemente, reduzir a soberania. O aliado poderoso pode transformar-se num patrono, numa limitação e, por fim, numa ameaça.
(...)Soberania e controlo
Outro aspecto importante da estratégia chinesa de não estabelecer alianças está relacionado com a obsessão do Partido Comunista Chinês (PCC) pelo controlo. A interpretação que o PCC faz da história moderna da China é moldada pelo «Século da Humilhação», que teria resultado da intervenção estrangeira, dos tratados desiguais, da fragmentação territorial e da pressão externa. Quer se aceite ou não esta narrativa na sua totalidade, ela continua a ser central para a forma como Pequim explica o seu comportamento em matéria de segurança.
As alianças formais exigem normalmente coordenação, partilha de informações, interoperabilidade, planeamento conjunto e acesso militar estrangeiro. Para os EUA, isto faz parte da gestão normal de uma aliança; para a China, cria desconforto. Pequim não quer forças militares estrangeiras integradas na sua arquitetura de segurança, nem parceiros externos a influenciar o seu processo de tomada de decisões. Naturalmente, também não quer que as suas próprias forças armadas dependam do consenso dos aliados.(...)
Conclusão
A China não evita alianças formais por ser fraca, mas porque encara as alianças rígidas como um risco. A cisão sino-soviética ensinou a Pequim que até parceiros ideológicos podem transformar-se em constrangimentos. A observação de Washington ensinou-lhe que as alianças ampliam o poder, mas também criam obrigações, testes de credibilidade e riscos de envolvimento em conflitos.
(...)Em vez disso, a China constrói uma ampla rede de parcerias flexíveis que apoia a sua ascensão, complica a estratégia dos EUA e preserva a sua liberdade de ação.
O problema das alianças da China, em última análise, não diz respeito tanto à doutrina como ao tipo de grande potência que Pequim pretende ser. Os EUA construíram uma ordem assente em aliados, enquanto a China está a construir a sua influência em torno da autonomia. Saber se esse modelo resistirá a uma grande crise é uma das questões decisivas desta década.
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O artigo refere que a China tem alianças que não implicam a partilha de informação militar e estratégica, a um comando militar unificado e também não a obrigam a entrar em conflitos que não escolheu, como acontece com o artigo 5º da NATO, mantendo a sua independência e liberdade de acção - ao contrário dos EUA que têm um sistema alargado de alianças e parcerias que lhes permitiu moldar os equilíbrios regionais de acordo com os seus interesses nacionais e impedir que as crises se transformassem em ameaças directas.
Esta análise é interessante mas passa ao lado do principal: os EUA eram (ainda são de algum modo) uma democracia e a China é uma ditadura e tudo o resto decorre desse facto.
E a China é uma ditadura de um país grande - em território, em número de pessoas e em estrutura militar. Isto é importante, porque uma ditadura de um país pequeno (pense-se em Portugal de Salazar) só é uma ameaça para o próprio povo e, por isso, necessita de alianças com países mais fortes para se defender de outros fortes. Mas uma ditadura num país enorme, em território, em número de pessoas e em estrutura militar, não tem necessidade de alianças. Ninguém os ameaça e eles é que são intimidantes para os países vizinhos na sua esfera geográfica, logo em risco de serem seus subalternos, de uma maneira ou de outra. Veja-se o caso da Rússia.
Porém, as democracias não operam na base da intimidação militar e da ocupação territorial pela força. Respeitam-se umas às outras enquanto Estados de direito e, por isso, confiam umas nas outras, em muitos assuntos e partilham informação estratégica que as ditaduras, que não respeitam leis internacionais e o Estado de direito, nunca partilhariam. A NATO é uma aliança de defesa e não de ataque. Ao contrário das ditaduras, as democracias precisam de alianças pois o seu poder de influência é diplomático, político e económico e o poder militar é uma reserva de defesa, não um argumento na mesa de negociações.
Repare-se na UE. De cada vez que um candidato pró-ditadura vai a eleições, a primeira coisa que diz é que quer ser independente da NATO e da própria UE. Quer autonomia total, não ter que partilhar nada, etc. Veja-se Farage e o Brexit, veja-se a Hungria de Orban (o seu ministro dos negócios estrangeiros Szijjártó, agora trabalha para a China), veja-se a líder do AfD, a Le Pen, os bloquistas e comunistas portugueses.
Este artigo vê a questão do ponto de vista da China e dos EUA -o que cada um quer- mas esquece-se que as alianças são voluntárias e não forçadas. Ninguém quereria uma aliança do género da NATO com a China ou com a Rússia, sabendo que essa aliança implica ficar dependente de uma ditadura feroz. Bem, agora a Rússia talvez quisesse -temporariamente-porque está com a corda no pescoço.
Todos queriam, em tempos, ter alianças com os EUA, mas repare-se como as alianças dos EUA da América estão a morrer, por afastamento dos aliados, desde o momento em que os EUA se transformaram numa oligarquia intimidante que usa o poder militar como argumento. De repente, as democracias europeias, o Canadá, o México e outros países pelo mundo fora, começaram a desligar-se deles: primeiro na partilha de informação secreta, depois militar, depois económica, agora digital. Muitos já estão à procura de outras alianças para os substituir.
Portanto, a grande diferença que a China tinha relativamente aos EUA em termos de estilo de alianças, fundava-se no facto de a China ser uma ditadura num país enorme. Neste momento em que Trump ameaça invadir aliados, tarifar aliados, apoiar inimigos dos seus aliados e afirma não querer ter laços que os prendam a acções de outros países, cada vez tem menos diferenças com a China - ou com a Rússia.
É intimidante, argumenta com a força militar e quer colónias e países que se subalternizem, em vez de aliados. E isto acontece porque já não são uma democracia séria, são uma oligarquia ainda com instituições democráticas mas já muito deterioradas que não inspiram confiança.
Portanto, a principal diferença entre a China e os EUA era a primeira ser uma ditadura e a segunda uma democracia e daí decorriam os estilos de alianças diferentes. Agora já não são tão diferentes assim.