Esta mão de orangotango, podia ser humana. A dificuldade de imaginarmo-nos como natureza é que nos trouxe aqui. A ilustradora georgiana, Ana Miminoshvili, desenha uma natureza antropomórfica que nos olha e interroga. É uma excelente maneira de introduzir as crianças na natureza e habituá-las a verem-se como objectos de outros sujeitos observantes em vez de sujeitos dominantes.
Os antigos, ainda agora a reler Platão o vejo, viam um parentesco entre todos os seres da natureza, de tal maneira que uma pessoa, ao morrer, podia encarnar num qualquer animal. Os deuses transformavam-se e transformavam outros em animais, plantas e até em matéria inorgânica, o que mostra uma visão inclusiva do Ser. Essa visão perdeu-se.
Nós, humanos, somos agora um tumor da natureza. Num corpo saudável, as células saudáveis estão contidas dentro dos seus limites bem definidos, não os ultrapassam e não incomodam as vizinhas, nem lhes sabotam o trabalho ou impedem a vida. As células tumorais, pelo contrário, saem dos seus limites naturais, com uma espécie de patas alongadas (daí o nome de cancer) e começam a invadir as vizinhas, matando tudo. Quando são muito agressivas e afoitas até usam as estradas de sangue para saltar para países mais longínquos que são outros orgãos e começar aí outra colónia de destruição.
Se imaginarmos a totalidade da vida como uma enorme árvore com milhões de ramos, cada um com milhões de outros ramos e em todos eles folhas, botões, flores e frutos diferentes, nós humanos somos uma dessas ramificações que floresceu de um determinado modo. Se fossemos saudáveis, continuávamos a crescer nesse ramo sem incomodar o resto da árvore, mas não somos. Somos um tumor. Até aquela qualidade -a inteligência- que devia servir de macrófago, isto é, de célula destruidora de destruidores, dadas as suas vantagens naturais, se transformou, tal como nos tumores num inimigo interior que se vira contra a própria árvore que a sustém, numa desorientação irracional. E já invadimos e apodrecemos ramos inteiros até à morte. Como estamos numa ponta da árvore, nesta analogia, quando apodrecermos o tronco e as raízes, desaparecemos com eles. Tal como o tumor que vai destruindo até à sua própria destruição, que acontece com a morte do hospedeiro.
Ora, os cancros têm ligação com comportamentos negativos, nossos ou dos nossos antepassados. No caso do poder destruidor do homem o comportamento negativo é a competição agressiva. Uma competição, não de superação mas de aniquilamento do outro que nos é injectada desde a nascença como um veneno para o qual não há antídoto. É só vermos a linguagem dos governantes: ser o melhor, destruir os outros, ter mais dinheiro que todos, ser uma super-potência, etc.
Portanto, somos hóspedes e estamos a matar o hospedeiro.
É necessário vermo-nos na natureza como uma extremidade duma grande árvore que já estremece. Isso tem que fazer-se desde a infância, já que os nossos governantes, os homens das armas e os grandes milionários e bilionários, têm mostrado ser completamente incapazes de fazer uma revisão racional, encarar a sua responsabilidade e dar passos concretos para uma mudança de crescimento em vez de morte.
Esta ilustradora mostra um caminho. É isso que vejo nestas ilustrações.
A mão de um jovem orangotango. Fotografia de Jessie Williams (2017)
Ilustrações de Ana Miminoshvili de Tbilisi, Georgia.