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January 14, 2025

"O aumento da utilização da IA está associado à erosão das capacidades de pensamento crítico"

 


O aumento da utilização da IA está associado à erosão das capacidades de pensamento crítico

por Justin Jackson 

Um estudo realizado por Michael Gerlich, da SBS Swiss Business School, concluiu que a crescente dependência de ferramentas de inteligência artificial (IA) está associada a uma diminuição das capacidades de pensamento crítico. O estudo aponta a transferência cognitiva como o principal factor de declínio.




A influência da IA cresce rapidamente. Uma rápida pesquisa de histórias científicas relacionadas com a IA revela como esta se tornou uma ferramenta fundamental. Milhares de análises e tomada de decisões assistidas e apoiadas por IA ajudam os cientistas a melhorar a sua investigação.

A IA também se tornou mais integrada nas actividades diárias, desde assistentes virtuais a informações complexas e apoio à decisão. O aumento da utilização está a começar a influenciar a forma como as pessoas pensam, com especial impacto entre os jovens, que são utilizadores ávidos da tecnologia na sua vida pessoal.

Um aspecto atractivo das ferramentas de IA é a transferência cognitiva, em que as pessoas confiam nas ferramentas para fazer tarefas e reduzir o seu esforço mental. Como a tecnologia é muito recente e está a ser rapidamente adoptada de formas imprevisíveis, surgem questões sobre os seus potenciais impactos a longo prazo nas funções cognitivas, como a memória, a atenção e a resolução de problemas, em períodos prolongados ou em volume de transferência cognitiva.

No estudo AI Tools in Society: Impacts on Cognitive Offloading and the Future of Critical Thinking, publicado na revista Societies, Gerlich investiga se a utilização de ferramentas de IA está correlacionada com os resultados do pensamento crítico e explora a forma como a transferência cognitiva medeia esta relação.

Foi utilizada uma combinação de inquéritos quantitativos e entrevistas qualitativas com 666 participantes no Reino Unido. Os participantes estavam distribuídos por três grupos etários (17-25, 26-45, 46 anos ou mais) e possuíam habilitações académicas variadas.
(...)
As análises estatísticas demonstraram uma correlação negativa significativa entre o uso de ferramentas de IA e as pontuações de pensamento crítico (r = -0,68, p <0,001). Os utilizadores frequentes de IA demonstraram uma capacidade reduzida de avaliar criticamente a informação e de se envolverem na resolução reflexiva de problemas.

A transferência cognitiva estava fortemente correlacionada com a utilização de ferramentas de IA (r = +0,72) e inversamente relacionada com o pensamento crítico (r = -0,75). A análise de mediação revelou que a transferência cognitiva explica parcialmente a relação negativa entre a confiança na IA e o desempenho do pensamento crítico.

Os participantes mais jovens (17-25) revelaram uma maior dependência das ferramentas de IA e pontuações mais baixas de pensamento crítico em comparação com os grupos etários mais velhos. O nível de escolaridade avançado correlacionou-se positivamente com as competências de pensamento crítico, sugerindo que a educação atenua alguns impactos cognitivos da dependência da IA.

Os mais jovens, mais dependentes das ferramentas da IA, são os mais afectados.

As conclusões do estudo, se forem reproduzidas, poderão ter implicações significativas para a política educativa e para a integração da IA em contextos profissionais. As escolas e universidades poderão querer dar ênfase a exercícios de pensamento crítico e ao desenvolvimento de competências metacognitivas para contrabalançar a dependência da IA e os efeitos cognitivos.
(...)
Se a sobrevivência num ambiente orientado para a tecnologia não exigir as competências clássicas do raciocínio humano, é provável que essas competências não sobrevivam, desaparecendo do uso como a letra cursiva manuscrita, a matemática sem calculadoras, as mensagens de texto sem autocorreção e os livros sem áudio.

À medida que a IA se torna cada vez mais parte integrante da vida quotidiana, encontrar um equilíbrio entre tirar partido dos seus benefícios e manter as competências de pensamento crítico só será crucial enquanto estas mantiverem o seu valor.
(...)
Num futuro ponto de viragem, a necessidade de pensamento crítico derivado do ser humano poderá diminuir mais rapidamente do que os efeitos de declínio cognitivo da utilização da IA como ferramenta. Poderá continuar a existir em algumas profissões que terão de o manter no início - talvez com canalizadores e electricistas e outros cenários de trabalho físico combinado com competências de resolução de problemas.
(...
Eventualmente, serão desenvolvidos sistemas que deixarão de exigir estas competências, e o tempo dos humanos como líderes do pensamento crítico no planeta terá terminado. Embora isto possa parecer assustador à primeira vista, com alucinações de IA e algoritmos controlados por mãos invisíveis, o mundo que emerge do outro lado da dependência do pensamento humano bem fundamentado pode parecer surpreendentemente muito parecido com aquele em que temos vivido durante séculos.

Para ler o artigo todo: phys.org/news/2025-ai-linked-eroding-critical-skills
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A conclusão deste indivíduo é que não faz mal que o ser humano deixe de saber pensar, se a IA gerar mais valor acrescentado... é tudo uma questão económica? O ser humano deixar de pensar tem um nome: decadência. Já tivemos isso durante mil anos de Idade Média: fé, sensações, emoções, impulsos, superstição, etc. Temos nos dias de hoje amostras dessa decadência: o islão, os cristãos evangelistas e outros. Um mundo em que deixássemos de pensar (fazer raciocínios especializados em áreas profissionais não é o mesmo que pensar) e entregássemos o pensamento à IA (quem é que introduz os parâmetros dos processos da IA?) seria um mundo de decadência humana. Há quem esteja em paz com o fim do ser humano ou a sua passagem para um outro estádio, mais passivo, mas não se chame a isso evolução.
Pessoalmente penso que a IA devia ser usada nas escolas em ambientes e situações pontuais, muito controladas, justamente para não bloquear as capacidades de pensamento crítico dos jovens. A IA é útil para ajudar o pensamento e não para o substituir, fomentando a regressão do desenvolvimento e aprendizagem dos processos mentais.

December 22, 2020

Este Natal ofereça livros

 


Já não é a primeira vez que falamos aqui deste elo entre a linguagem, o pensamento, a argumentação, a liberdade e a democracia, mas nunca é demais lembrar.

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É a inversão do efeito Flynn.
Parece que o nível de inteligência medido pelos testes diminui nos países mais desenvolvidos.
Pode haver muitas causas para esse fenómeno. Um deles pode ser o empobrecimento da linguagem.
Na verdade, vários estudos mostram a diminuição do conhecimento lexical e o empobrecimento da linguagem: não é apenas a redução do vocabulário utilizado, mas também as sutilezas linguísticas que permitem elaborar e formular pensamentos complexos.

O desaparecimento gradual dos tempos (subjuntivo, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dá origem a um pensamento quase sempre no presente, limitado ao momento: incapaz de projeções no tempo.

A simplificação dos tutoriais, o desaparecimento das letras maiúsculas e da pontuação são exemplos de "golpes mortais" na precisão e variedade de expressão.
Apenas um exemplo: eliminar a palavra "signorina" (agora obsoleta) não significa apenas abrir mão da estética de uma palavra, mas também promover involuntariamente a ideia de que entre uma menina e uma mulher não existem fases intermediárias.

Menos palavras e menos verbos conjugados significam menos capacidade de expressar emoções e menos capacidade de processar um pensamento. Estudos têm mostrado que parte da violência nas esferas pública e privada decorre diretamente da  incapacidade de descrever as emoções em palavras.
Sem palavras para construir um argumento, o pensamento complexo torna-se impossível. Quanto mais pobre a linguagem, mais o pensamento desaparece.

A história está cheia de exemplos e muitos livros (Georges Orwell - "1984"; Ray Bradbury - "Fahrenheit 451") contam como todos os regimes totalitários sempre atrapalharam o pensamento, reduzindo o número e o significado das palavras.
Se não houver pensamentos, não há pensamentos críticos. E não há pensamento sem palavras.
Como construir um pensamento hipotético-dedutivo sem o condicional?
Como pensar o futuro sem uma conjugação com o futuro?
Como é possível captar uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, passado ou futuro, e sua duração relativa, sem uma linguagem que distinga entre o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderia ser, e o que será depois do que pode ter acontecido, realmente aconteceu?

Caros pais e professores: Façamos ("fazemos" na tradução brasileira) com que nossos filhos, nossos alunos falem, leiam e escrevam. Ensinar e praticar o idioma em suas mais diversas formas. Mesmo que pareça complicado. Principalmente se for complicado. Porque nesse esforço existe liberdade.
Aqueles que afirmam a necessidade de simplificar a grafia, descartar a linguagem de seus "defeitos", abolir gêneros, tempos, nuances, tudo que cria complexidade, são os verdadeiros arquitetos do empobrecimento da mente humana.
Não há liberdade sem necessidade.
Não há beleza sem o pensamento da beleza. "

January 23, 2020

A simplificação da língua implica a impossibilidade de complexidade do pensamento, a pobreza da língua leva à pobreza de pensamento




Baisse du QI, appauvrissement du langage et ruine de la pensée


O efeito de Flynn previa que o QI médio do ser humano não parasse de aumentar na população à medida que evoluíamos. Ora, desde os anos de 1980, os investigadores em ciências cognitivas parecem partilhar a constatação de uma inversão do efeito de Flynn e de um recuo do QI médio.

O nível de inteligência medido por testes de QI parece diminuir nos países mais desenvolvidos e há uma multitude de factores que podem ser a sua causa.
A essa diminuição da inteligência média junta-se um empobrecimento da linguagem. Numerosos estudos demonstram um retraimento do campo lexical e um empobrecimento da linguagem. Não é apenas a diminuição do vocabulário utilizado mas também as subtilezas da linguagem que permitem elaborar e formular um pensamento complexo.

O desaparecimento progressivo dos tempos (subjuntivo, passado simples, imperfeito, formas compostas do futuro, particípio passado) dão lugar a um pensamento do presente, limitado ao instante, incapaz de projecções no tempo. A generalização do tratamento 'por tu', o desaparecimento das maiúsculas e da pontuação são outros golpes mortais na subtileza da expressão.

Menos palavras e menos verbos conjugados significa menos capacidade de exprimir emoções e menos possibilidade de elaborar um pensamento. Estudos mostram que uma parte da violência na esfera pública e privada, provém directamente da incapacidade de traduzir as emoções em linguagem.

Sem palavras para construir um raciocínio, o pensamento complexo, tão caro a Edgar Morin, é entravado, torna-se impossível. Quanto mais a linguagem se torna pobre, menos pensamento existe.

A História é rica de exemplos e são numerosos os escritos, de Georges Orwell, em 1984, a Ray Bradbury, em Fahrenheit 451, que relatam como os ditadores cerceiam o pensamento reduzindo o número e o sentido das palavras. Não existe pensamento crítico sem pensamento e não existe pensamento sem palavras. Como se pode construir um pensamento hipotético-dedutivo sem dominar o condicional? Como perspectivar o futuro sem a conjugação do tempo futuro? Como apreender uma temporalidade, uma sucessão de elementos no tempo, que sejam passados ou por acontecer, bem como a sua duração relativa, sem uma língua que diferencia, o que poderia ter sido, o que foi, o que é, o que poderá vir a ser e o que será depois do que poderia ter acontecido, ter acontecido?

Se um grito de revolta devesse fazer-se entender nos dias hoje, seria dirigido aos pais e professores: façam falar, escrever e ler as vossas crianças, os votos alunos e estudantes. Ensinem e pratiquem a língua nas suas formas mais variadas, mesmo que ela pareça complicada, sobretudo se ela é complicada. Nesse esforço encontra-se a liberdade.

Aqueles que defendem a simplificação da ortografia, que dizem querer purgar a língua dos seus defeitos, abolir os géneros, os tempos, as nuances e tudo o que cria a complexidade, são os coveiros do espírito humano. Não há liberdade sem requisitos. Não há beleza sem o pensamento da beleza.

Tradução minha (de excertos)