July 12, 2020

Há presos políticos na Europa? Sim




“In Europe the following must apply: anyone who has been tortured needs help and can rely on the rule of law. Neither is guaranteed with Julian Assange.” Sigmar Gabriel
(Former Minister for Foreign Affairs Germany)
#FreeAssange #DontExtraditeAssange
https://dontextraditeassange.com/statements

Estratégias políticas que não entendo



Estou convencida que o CDS, a seguir este rumo, vai desaparecer para o Chega nas próximas eleições. O PSD vai perder uma grande fatia de eleitorado e o Chega vai crescer à custa destes dois partidos. Como se diz no showbiz, bad publicity is better than no publicity. Deixou de ouvir falar-se no CDS, não sabemos se tem algum projecto, não faz oposição, só fala no Chega. O PSD era um partido que, tradicionalmente, tinha sempre muito lugar nas notícias porque tinha muito debate interno. Havia sempre sociais-democratas discordantes e o partido fazia uma oposição robusta ao partido do governo. Pois agora não se fala do PSD a não ser de vez em quando para noticiar as parvoíces de Rio que fazem mais mossa que os críticos do partido.
Repare-se que apesar do PS dominar a quase totalidade dos meios de comunicação social ao ponto de mandar embora vozes discordantes, o Ventura anda sempre nas bocas do mundo.

Na AR, aquele coitado intelectual e mau exemplo ético que faz de Presidente da Casa pensa sinceramente que está a livrar o país do fascismo que aí vem com o Ventura e adopta comportamentos próprios de regimes autoritários para calar o homem do Chega. Faz uma perseguição tão óbvia ao homem que só lhe arranja adeptos e seguidores.
Nas próximas eleições o Chega vai rapar o prato dos partidos que deviam ser oposição, CDS e PSD, já que os outros da AR estão comprometidos com o governo. O CDS corre o risco de desaparecer ou de, pelo menos, trocar de lugar com o Chega: fica com um deputado sozinho ao lado das cadeiras do Chega que antes eram suas. Não vai ser bonito de ver, mas é o que provavelmente vai acontecer.


Contra a higienização académica do racismo e fascismo do Chega

Enquanto investigadoras e investigadores, defendemos que a produção de conhecimento académico não se coaduna com propósitos de normalização, legitimação e branqueamento de um partido racista e com desígnios antidemocráticos.

Q.E.D.



É importante sabermos para onde queremos ir. Aposta na ferrovia, investimento da reindustrialização do país, instrumentos para a recapitalização das empresas, melhor e mais desburocratização da administração pública, aposta na saúde, no turismo de qualidade, foco numa política que combata as desigualdades sociais e noutra política que desenhe uma transição energética inteligente são ingredientes da VEPRESP. A vacina, criada por António Costa Silva (presidente da Partex e escolhido pelo Governo para traçar a estratégia para a retoma) parece ter a composição certa. Agora é preciso conhecer quanto custa, se a conseguimos pagar e perceber também quantas doses e em que datas tem de ser tomada para surtir efeito.
Rosália Amorim


Aqui está uma pessoa cuja voz tem muito peso no país dado o volume da sua conta bancária, a defender o amigo da Lurdes Rodrigues como uma vacina milagrosa para o país. E a Amorim enuncia as áreas importantes de investimento no país: ferrovia, indústria, empresas, administração pública, saúde, desigualdades sociais. Educação? Zero, nada. Relativamente ao post anterior: q.e.d.

O que a sociedade espera dos professores? Tudo. O que está disposta a contribuir? Nada



Sociedade: em Portugal mais de 2 milhões de miúdos vivem no limiar da fome.
Escolas: podemos ajudar... os miúdos podem tomar o pequeno-almoço e o almoço na escola.

Sociedade: os miúdos não têm acesso a médico de família ou dentista nem dinheiro para medicina privada.
Escolas: podemos ajudar... trazemos médicos ou enfermeiros à escola para exames aos olhos, aos dentes. Muitos professores usam contactos pessoais para marcar consultas médicas gratuitas a alunos, conseguir acompanhamento psicológico, etc. Muitos professores fazem colectas entre si e gastam dinheiro do seu salário para comprar óculos para alunos, por exemplo ou cadeiras de rodas.

Sociedade: 20% das famílias portugueses vive em dificuldades. 
Escolas: podemos ajudar... fazemos recolha de roupas, sapatos e damos para alunos carenciados. Muitos professores gastam dinheiro do seu salário para comprar bens de primeira necessidade para alunos, por exemplo.

Sociedade: muitos alunos são vítimas de maus tratos, abusos e negligência, em casa.
Escolas: podemos ajudar... fazemos das escolas sítios seguros e dos professores pessoas-refúgio. Teremos psicólogos mas não em número suficiente... professores sem treino em questões de trauma acompanham esses alunos e orientam-nos semanalmente. Os professores passarão mais tempo com esses miúdos que com os seus próprios filhos. Ficam afectados por não poderem fazer mais pelos miúdos ao seu cuidado.

Sociedade: muitos miúdos têm pais que trabalham longe e saem depois da hora de fecho das escolas.
Escolas: podemos ajudar... arranjamos programas e professores para ajudarem os alunos com os trabalhos de casa, mantemos as escolas abertas com funcionários que os acompanhem até os pais chegarem. Professores e funcionários chegarão a casa tarde para resolver esse problema das famílias.

Sociedade: muitas famílias não têm dinheiro para viajar, nem formação para levar os miúdos a uma exposição, sequer.
Escolas: podemos ajudar... organizamos visitas de estudo com professores que façam de guias pedagógicos. Se os alunos não têm dinheiro para pagar a visita muitos professores pagam-na do seu bolso.

Sociedade: uma percentagem grande de alunos não têm pais capazes de os ajudar nos trabalhos da escola.
Escolas: podemos ajudar... arranjaremos professores que ficam na escola depois das aulas para ajudar os alunos. Esses professores perderam as suas noites e fins de semana a trabalhar para preparar aulas, classificar testes e trabalhos, responder a emails, etc., sem tempo para as suas famílias.

Sociedade: muitos alunos não têm nenhuma actividade física.
Escolas: podemos ajudar... a educação física e o desporto são obrigatórios e os professores acompanham os alunos com problemas físicos desenhando programas especiais para eles.

Sociedade: todos os anos há milhares casos de bullying, violência nas escolas, por parte de alunos e pais.
Escolas: podemos ajudar... detectamos os alunos que fazem bullying, protegemos as vítimas, disciplinamos os ofensores, fornecemos-lhes acompanhamento pedagógico por professores sem treino para isso, se não houver psicólogos.

Sociedade: 20% das famílias vive no limiar da sustentabilidade - muitos negligenciam os filhos, não acompanham os seus estudos, nem se interessam pelos seus problemas escolares.
Escolas: podemos ajudar... contactamos os pais e mesmo sem assistentes sociais arranjamos maneira de falar com eles. Muitos só têm a escolaridade básica e falta de educação e ofendem os professores que são quem ajuda os filhos. Perseguem professores e usam-nos para descarregar as suas frustrações da vida. Alguns chegam a bater nos professores. Têm expectativas absurdas e novelescas para os filhos, baseadas nos discursos governamentais. Mas não se preocupem que mesmo assim continuamos a apostar nesses alunos e a acompanhá-los mais aos pais. Por vezes os pais vêm à escola falar com os professores sobre os seus problemas pessoais porque não têm ninguém com quem desabafar e que os ajude: mãe que vivem sozinhas com os filhos e um avô idoso doente e não têm dinheiro para pô-lo numa instituição, nem para pagar os tratamentos - vêm à escola só para desabafar e chorar com um adulto. Por vezes vivem com um marido alcoólico e abusador e têm medo pelos filhos vêm à escola só para desabafar e chorar com um adulto. Por vezes os pais têm 3 empregos para poderem sustentar os filhos e vêm à escola para desabafar e chorar com um adulto. Não se preocupem, pois os professores directores de turma ouvem todas essas pessoas e ajudam sempre que podem.

Sociedade: muitos jovens que acabam a escola não têm dinheiro para continuar os estudos. As bolsas de estudo são em número reduzidíssimo  e com tantos obstáculos para ninguém as conseguir que quase ninguém as consegue. 
Escolas: podemos ajudar... muitos alunos continuam a contactar os professores depois de sair da escola. Entraram para a universidade mas não têm dinheiro para o passe que são 120 euros por mês ou para livros. O professor ajuda-os. Eles prometem pagar de volta. Geralmente fazem-no. Ou não conseguiram entrar para a universidade nem arranjar trabalho. Deixam-nos mensagens às duas da manhã: só penso em suicidar-me, não tenho quem me ajude, lembrei-me de si. Entraram para a universidade mas não têm nenhum ajuda lá dentro. Nós ajudamos. Arranjamos livros, aconselhamos acerca do que fazer, de como lidar com este ou aquele professor, de como estudar.

Sociedade: estamos no meio de um pandemia difícil de controlar. Vamos fechar as escolas e os miúdos ficam sem aulas.
Escolas: podemos ajudar... prescindimos das férias da Páscoa, se for preciso gastamos dinheiro a comprar um PC melhor, com câmara, fazemos formações rápidas, instalamos aplicações, internet de banda larga, fazemos reuniões online, montamos um sistema de comunicação com alunos e pais online. Não se preocupem que quando o período começar, estaremos no nosso posto a trabalhar e a ajudar os alunos e os pais, se for preciso.

Sociedade: os números da pandemia voltaram a aumentar. Porque escolhemos, durante décadas, ignorar as desigualdades, a pobreza, a escola pública, a discriminação e a segurança no emprego que são a raíz de todos os problemas acima mencionados, agora precisamos que as escolas abram para os alunos terem refeições, ajuda de aconselhamento e psicologia, acesso a computadores, a livros, sapatos, etc. e tudo isto com acompanhamento e supervisão. Parece que o COVID afecta pouco as crianças e os jovens, logo, vamos a abrir!

Professores: podemos ajudar, claro... sentimos falta dos miúdos nas aulas. Mas e a respeito dos 50% de professores que têm mais de 50 anos? E os que são imunodeprimidos ou vivem com alguém que o é? E as grávidas? Vamos ter condições de segurança? Turmas pequenas de modo a que os alunos estejam a um metro e meio cada? Horários desencontrados para que a sala dos alunos e dos professores não esteja apinhada de gente sem possibilidade de distanciamento físico? Máscaras para todos e desinfectante? Funcionários para limpar e desinfectar os espaços? 

Sociedade: Uau! Que é isso? Deixem-se de queixas. Sempre estiveram dispostos a sacrificar o tempo de família, o salário, a vossa saúde mental... então agora que precisamos de vocês não estão dispostos a dar a vossa saúde e a vida, até, se for preciso, para que a sociedade possa continuar a ignorar as suas responsabilidades, atirar tudo para cima de vocês e ir dormir descansada? Ainda por cima uns 80% de vocês são mulheres e é o que nós, sociedade, esperamos que as mulheres façam: que cuidem e se sacrifiquem pelos outros.

Durante décadas as escolas e os professores foram o penso-rápido das falhas da sociedade, porque nos preocupamos com os miúdos. Sabemos que são eles quem geralmente mais sofre com as falhas da sociedade. As escolas e os professores não são responsáveis, nem capazes de reparar o Portugal pobre e endividado, com governos minados de corrupção e tráfico de influências que desvia o dinheiro de melhorar as escolas para projectos que comprometem o desenvolvimento da sociedade, a melhoria das condições de vida, a diminuição das desigualdades, o fim da pobreza.

Abrir as escolas em pânico tem menos que ver com a educação que com as outras falhas da sociedade que a escola supre, em alguma medida, nomeadamente ter alguém que supervisione os miúdos para os pais poderem voltar ao trabalho e participar na economia. 

Ninguém melhor que os professores sabe as dificuldades das famílias: acho que ficou claro, mais acima, que somos nós que ouvimos, acompanhamos e servimos muitas vezes de amortecedor dos seus problemas monetários, identitários, existenciais. Exceptuando as famílias, ninguém, a não ser os professores se preocupa verdadeiramente com os alunos, não em abstracto, como números num futuro económico mas como pessoas com uma existência real, agora, porque os conhecemos de perto, acompanhamos as suas vidas. 

No entanto, não somos carneiros enviados para o matadouro pela razão que a sociedade sabe que não se interessa o suficiente pelos filhos do país para atacar com seriedade e meios de investimento os problemas da desigualdade, da pobreza, da discriminação, da precariedade do emprego e as outras raízes dos problemas e espera que os professores, se sacrifiquem e morram no seu posto a pôr pensos-rápidos nas hemorragias sociais.

inspirado em Alison Holman


July 11, 2020

Poesia ao anoitecer



Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.
Sophia de Mello Breyner Andresen


Fotografia: _jonhjase - instagram 
Caparica, Almada, Lisboa

Hoje? Sábado solarengo com ar de praia?



Passei a tarde a ler/estudar Hegel. Há muito tempo que não o lia e sinto falta. A internet e os meios digitais são uma coisa fantástica. Como é que há uns anos seria possível assistir a aulas de um curso de mestrado ou de doutoramento sem andar a frequentá-los? Não seria, obviamente. Ter acesso a certos professores muito bons? Impossível. Pois, mas agora é e há tanto material na internet que se soubermos encontrá-lo podemos quase tudo.
Uma universidade convida um professor para dar umas aulas sobre, Hegel, por exemplo, e grava a aula. Como as universidades, hoje-em-dia, têm alunos internacionais, o professor dá a aula em inglês, o que torna acessível aulas de universidades de países com línguas que não falamos como as alemãs, as eslavas, etc. Então, faz-se uma pequena pesquisa pelos cursos/universidades que nos interessam e vai-se dar com aulas excelentes de professores excelentes, que pegam num conceito, num capítulo ou tema de um autor difícil -neste caso de Hegel- e desmontam muito bem as passagem mais obscuras.
É precioso porque Hegel é mais obscuro que Heraclito, chamado, o obscuro, é complexo e uma pessoa precisa de ajuda para destrinçar certos nós porque ele não facilita nada. Não é qualquer um que explica bem Hegel, quer dizer, que consegue tornar claro alguns textos dele. Avança-se em certos textos dele como os alpinistas no K2: com uma picareta na mão, passinho a passinho e pausas para respirar. Foi assim que descobri um indivíduo muito bom que me ajudou a entrar em certas passagens cavernosas hegelianas onde já não entrava há muitos anos, sem tropeçar.

Schopenhauer não podia com Hegel. Dizia que ele era um charlatão banal, vácuo, repugnante e ignorante, que misturava insanidade e disparates com uma arrogância sem precedentes, que os seus partidários transmitiam-no como se tratasse de sabedoria imortal tida como verdade por idiotas… e que tinha condenado à ruína toda uma geração de intelectuais. Ahah. Outros dizem exactamente isto mas de Heidegger   ahahah.   ... acho imensa piada - quem pensa que a filosofia é um assunto de sábios muito calmos em modo zen... bem, está muito enganado.

Elle King - Baby Outlaw




Mr. B




Horizontes




Léon Spilliaert (Belge,1881 - 1946)

Almoço



Chegaram as compras do supermercado e vem um riesling - estava a apetecer-me. Eu sei que não é português e devia preferir vinhos portugueses, mas isso é o que normalmente faço e de vez em quando apetece-me outros vinhos. No tempo em que vivi em Bruxelas aprendi e habituei-me a apreciar outros vinhos e fiquei com esse gosto que alimento menos vezes do que gostava. No mês passado andei a beber um Luís Pato, agora é este. Uma garrafa dá-me para um mês inteiro.




Enfim, como hoje o almoço um bacalhau à Gomes de Sá, vamos ver se combinam :)


Lê-se e não se acredita



Peritos alertam para subida de casos três semanas após o início das aulas. Ministério promete reforçar cuidados intensivos e laboratórios e apostar em teleconsultas para doentes não-covid. Vacina da gripe será antecipada


Lemos este artigo que fala sobre medidas que vão ser tomadas na área da saúde e algumas delas, são estas dirigidas para as escolas, que se pensa ser o maior foco de surtos de COVID assim que o ano lectivo começar. E que medidas são essas? Nenhumas. Lê-se e não se acredita: ter mais pessoas ao telefone, mais laboratórios a testar e vacinar contra a gripe. O que tem a vacina da gripe a ver com o COVID? Nada, que saibamos. As outras medidas não são de prevenção, são de remediação. 

De facto, não é o ministério da saúde mas o da educação quem devia estar a preparar medidas de prevenção, o que não fez, até agora, muito antes pelo contrário.

Vejamos: o caso, por enquanto, ainda não é dramático. O terceiro período é geralmente muito pequeno (mês e meio), ao contrário dos outros dois, cada um com três meses inteiros de aulas. Portanto, não é um terço do ano, é menos de um quarto - este ano, dado que as aulas foram estendidas até final de junho por causa da pandemia, até foi maior que era para ser. E trabalhou-se, por pressão dos professores, porque o secretário de Estado começou por dizer que o terceiro período era para só para entreter alunos. É claro que foi um terceiro período atípico e negativo, relativamente ao que são as aulas presenciais, ao acompanhamento pelos professores e aos recursos que apesar de tudo existem nas escolas e não nas casas da maioria dos alunos.

No entanto, volto a dizer, foi um mês e meio de aulas presenciais que se perdeu, na totalidade do ano lectivo. Não é dramático. Agora, se o próximo ano não for preparado e se acabar com escolas fechadas por causa de surtos de COVID, com alunos e professores doentes e exaustos por um ano sem intervalos de aulas, sem férias e com trabalho extra, aí sim, será dramático, porque será um ano inteiro, não apenas perdido, como um hiato na continuidade da vida. Não, será um ano com acumulação de experiências negativas. E isso deixa outras marcas nas possibilidades dos alunos.

Porque razão o governo não se interessa pela educação e só vê as escolas como custos? Não sei, isso para mim é um enigma, mas não abona em seu favor.

Porque razão o ME e nomeadamente na pessoa do ministro não luta pelas escolas e já veio dizer que não vai fazer nada para as escolas poderem trabalhar com os alunos em condições de segurança, sabendo que essa falha vai cavar ainda mais o fosso entre pobres e ricos? Não sei, mas nós vemos que esse problema das desigualdades não é sentido nem abordado pelas nossas elites políticas, sendo que até dizem, algumas, que os portugueses têm que esquecer isso da equidade.

Porque razão o ME pensou o próximo ano lectivo mais como um castigo para alunos e professores que como uma possibilidade de resultados positivos? Não sei, mas desconfio que não atribuem importância suficiente à escola pública para gastar dinheiro com ela, como atribuem aos projectos faraónicos, aos banqueiros amigos, a terem muitos ministérios para distribuir camaradas, etc.

Os professores e os alunos não precisam de estar presos em salas apinhadas, sem intervalos como se fossem soldados que se enfiam em trincheiras sem ordem de sair até caírem por COVID ou exaustão total.

Os professores e os alunos precisam de condições de segurança para sentirem confiança e se carregarem de energia para se dedicarem ao trabalho no próximo ano, nas escolas, e o fazerem render ao máximo. 

Penso ter ficado claro, este ano, com a rapidez com que, numa semana e meia (e prescindindo das férias da Páscoa) os professores foram capazes de montar, sozinhos, sem a mais pequena ajuda do ME, um sistema de aulas à distância (com erros e falhas, sim, mas que no geral funcionou como remediação), que têm energia, vontade e boa disposição para o trabalho difícil do ano que vem. E ainda não terem medo de desafios. Agora, não podem esperar que o façam nas piores condições de segurança possível, pois isso é pedir-lhes que adoeçam para o ME e o governo não se incomodarem com o assunto.

Se as pessoas do ME não sabem ou não querem criar condições de segurança que ofereça confiança e, pelo contrário, só produzem obstáculos ao trabalho das escolas, por amor de deus, vão-se embora. Dêem lugar a quem saiba trabalhar. Os alunos e os professores não podem ser cobaias da vossa falta de competência para os cargos.

Outra coisa que tem ficado clara para todos é que a substituição de pessoas competentes por amigos, por moços de recados que não ofereçam resistência ou como pagamento de favores partidários, em tempos de crise, como a de agora, tem efeitos catastróficos. As pessoas não sabem trabalhar, não sabem pensar nos problemas, rodeiam-se de incompetentes iguais a eles e estragam tudo em que mexem, com consequências de restrição de futuro e, muitas vezes, de morte, como agora, na vida dos outros. Já tinha ficado claro com Pedrogão, agora entra pelos olhos adentro.

Sou só eu que me assusto com isto de o primeiro-ministro ter posto o país nas mãos de um homem



... um tipo da cepa da Lurdes Rodrigues que defende projectos faraónicos e fala em galinha de ovos de ouro? A galinha dos ovos de ouro é um conto infantil...

Objectos de desejo



O meu novo objecto de desejo é um livro com as obras de Bruegel que descobri há bocado na sequência de andar a explorar o significado deste estranho desenho onde se vêem figuras com rosto tapado com o mesmo vime das colmeias que parecem estar a roubar, dadas as suas poses furtivas. Um homem está pendurado num ramo de árvore, como se estivesse a esconder-se dos outros.
O mel, antes da descobertas das possibilidades da cana de açúcar, era um bem valioso e a cera das abelhas ainda mais. Sabendo nós que as obras de  Bruegel estão cheias de simbolismos e recados, nomeadamente acerca das guerras e conflitos que opunham católicos a protestantes, a tal ponto que pediu à mulher que destruísse muitas após a sua morte, é difícil olhar para esta obra tão estranha e não ficar a pensar o que quereria ele dizer com isto.
Enfim, para além disso, uma característica do desenho que me atrai é podermos 'ler' intenções humanas nas figuras, mesmo sem rosto, só pela posição e movimento aparente do corpo em interacção com o espaço físico e os objectos. O homem do meio parece estar muito tenso. Eles vêm protegidos com fatos especiais mas com as mãos ao ar, desprotegidas, o que é estranho. Não se percebe se os fatos são para se protegerem das abelhas, se para não serem reconhecidos. O que está na árvore está vestido normalmente. Estranho mas cativante, é difícil tirar os olhos dele. Descobri um estudo sobre esta obra que vou ler porque agora estou com curiosidade em saber sobre a obra.
A obra está num museu em Berlim ( Kupferstichkabinett) que é um museu de gravuras e desenhos. Nem me lembro de ter ouvido falar deste museu. Não estamos em tempos de poder ir passar um fim de semana a uma cidade qualquer para ir visitar um museu como fazíamos dantes, às vezes, o que é uma chatice.

Bruegel - The Beekeepers and the Birdnester

July 10, 2020

Mr. P




Sometimes things are that simple




© Tomás Air 

I wish things were that simple (e acerca da ironia)



Estava aqui a olhar para esta fotografia e lembrei-me do conceito de ironia de Hegel. A ironia é uma figura retórica pela qual se diz o oposto do que se diz- exactamente com as mesmas palavras. Dizemos 'A' quando queremos dizer, 'não-A'. A questão é que dizemos exactamente a mesma frase e quem ouve tem de decidir se a frase quer dizer o que diz ou se quer dizer o seu oposto. O que significa que a frase é ao mesmo tempo 'A', o que é efectivamente dito e, 'não-A', o oposto do que é efectivamente dito, com as mesmas exactas palavras. Como é possível uma frase significar uma coisa e o seu oposto, ao mesmo tempo, isto é, sendo contraditório e, no entanto, fazendo sentido? É possível porque a contradição faz parte do mundo e é por isso que ouvimos uma frase e lhe podemos dar o significado oposto do que ela diz: porque fazemos parte do mundo e a contradição vive em nós e no mundo. Ou seja, no mundo, tudo poder ser 'A' e 'não-A' ao mesmo tempo e essa contradição não é falsidade, é sentido. Isto é uma enorme revolução no pensamento pois temos como certo que onde há contradição não há verdade, não há sentido. Enfim, lembrei-me disto a olhar para a simetria desta fotografia.






photo by Mikko Lagerstedt

Porque é que o nosso governo segue a política de Trump no que respeita à abertura das escolas, sem nenhuma segurança, no ano que vem?



Estão as duas totós da saúde na TV a dizer que nas escolas se vai garantir o distanciamento físico usando máscaras e pondo as mesas numa certa disposição. Que eu saiba, as máscaras não aumentam o espaço físico, não dilatam as salas de aula... e as carteiras já estão como devem estar, na maioria dos casos, que é em fila para ficarem de costas uns para outros. Que eu saiba a disposição das mesas também não dilata as salas de aula. As paredes não se deslocam, de modo que, nas salas onde se punham 28 alunos, em 14 mesas, vão continuar a ser as mesmas salas, com os mesmos 28 alunos (se não forem 30) dispostos dois a dois, por mesa, sem nenhum distanciamento. Afinal o que muda? Afinal onde se garante o distanciamento físico? E porque é que vêm para a televisão tentar enganar as pessoas?

O governo, nas pessoas do ME está a seguir as ideias e políticas de Trump - este, quer abrir as escolas sem segurança nenhuma porque está-se nas tintas para a vida dos outros. A minha questão é: o nosso governo agora é um seguidor de Trump?

Peticionar pela redução do número de alunos por turma já no próximo ano lectivo. Se concordas, assina




A Ndrangheta portuguesa?





João Rendeiro, ou a paradoxo do condenado que não vai preso


João Rendeiro, ex-presidente do Banco Privado Português – BPP – foi condenado a cinco anos e 8 meses de prisão efetiva, mas não irá para a cadeia se pagar 400 mil euros de “multa”.  Apesar de estar em parte incerta, será fácil para ele resolver essa questão com uma simples transferência bancária. Nada a que ele não esteja muito habituado a fazer.
O BPP era um banco especializado em gestão de fortunas. Só tinha clientes especiais, todos ricos. O banco geria fortunas de centenas de empresários e tinha vários políticos nos seus órgãos sociais e acionistas, como o ex-primeiro-ministro Francisco Pinto Balsemão, que era também presidente do Conselho Consultivo do banco, ou o advogado José Miguel Júdice que presidia à Assembleia Geral. Estavam acompanhados por figuras do PSD como João de Deus Pinheiro, António Nogueira Leite, Rui Machete ou Álvaro Barreto, mas também pelo ex-ministro socialista João Cravinho.
Quando o BPP colapsou, o Banco de Portugal deliberou revogar a autorização que concedera ao Banco Privado Português, S.A, para o exercício da atividade bancária, o que levou à  declaração de insolvência. Em conformidade com os dispositivos legais, o Banco de Portugal requereu no Tribunal de Comércio de Lisboa a liquidação da instituição e propôs a nomeação de uma Comissão Liquidatária. Em Portugal não existia memória da insolvência de um banco.
A liquidação do BPP deu origem a vários processos judiciais, quer do Estado quer de clientes, na tentativa de recuperar o dinheiro que lá tinham colocado e também para averiguar as circunstâncias que levaram à falência do BPP.
João Rendeiro foi, agora, considerado o autor do esquema que enganou clientes, auditores e a propria CMVM e até o Banco de Portugal. O tribunal deu como provado que Rendeiro deu ordens para mascarar a contabilidade do banco de modo a esconder prejuízos, fingir que o banco estava próspero e assim continuar a atrair clientes, leia-se milionário sem tempo para gerir as próprias fortunas.
Os arguidos nunca assumiram culpas nem remorsos, evidentemente, mas como são pessoas de bom trato e sem antecedentes criminais, o tribunal decidiu suspender as penas de prisão de todos os condenados, a saber: João Rendeiro, condenado a 5 anos e 8 meses e Paulo Guichard  condenado a 4 anos e 8 meses de prisão efetiva, embora as penas fiquem suspensas se os reús pagarem indemnizações mais ou menos simbólicas.
Nos três anos que antecederam a falência do BPP, foram distribuídos dividendos no valor de 30 milhões de euros a acionistas como Balsemão, Saviotti e Rendeiro. Os acionistas receberam metade do lucro do banco no ano anterior à descoberta da fraude. E a administração executiva viu o salário aumentado em 25,5% nesse ano de 2007. Em 2008, Rendeiro recebeu mais de 3 milhões de euros do BPP. A CMVM concluiu num inquérito em 2011 que os três administradores, dos quais dois foram agora condenados, terão desviado cerca de 100 milhões de euros para paraísos fiscais, através de complexos procedimentos bancários.
João Rendeiro vive em Cascais, num condomínio de luxo, a Quinta Patiño. Tem vizinhos como, por exemplo, o empresário Diogo Vaz Guedes, o último governador de Macau Vasco Rocha Vieira, o ex-ministro da Administração Interna Manuel Dias Loureiro, o empresário Nuno Vasconcellos, o hoteleiro Stefano Saviotti, o futebolista Simão Sabrosa, o ex-banqueiro José Maria Richiardi (BES), entre outros. Gente que não tem problemas com má vizinhança.

Em Portugal a pandemia passou à clandestinidade?



Se as reuniões entre o Infarmed, o Governo, o Presidente da República, os partidos e os parceiros sociais para os técnicos prestarem esclarecimentos sobre a evolução da covid-19 vão acabar, onde vai o governo buscar informações especializadas, quem o aconselha, como vamos agora saber da evolução da doença, das medidas que estão a ser tomadas, etc? Ou o Presidente, o governo e AR, os orgãos de soberania demitem-se das suas responsabilidades e deixam os portugueses, cada um por si, às escuras quanto à evolução da doença e à opinião de especialistas? Ou, daqui para a frente, o primeiro-ministro toma decisões políticas partidárias sem levar em conta a realidade da doença e depois manda um cientista qualquer amigo ir à TV com recadinhos ao povo? Ou é o SS que agora também tem nas mãos a questão do COVID? E porque se demitiu tanta gente na DGS? Tem alguma coisa que ver com esta passagem à clandestinidade?
Isto é muito preocupante. Só falta o primeiro-ministro seguir a opinião do ignorante do líder da oposição e deixar também de ir ao Parlamento responder a questões para isto virar um trumpismo.