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April 13, 2026

Como uma farmacêutica aldraba para lucrar biliões à custa dos doentes com cancro



Merck transformou medicamento contra o cancro num êxito de vendas, mas é tão caro que poucos o podem pagar

EXPRESSO

Uma investigação do Consórcio International de Jornalistas de investigação (ICIJ), Cancer Calculus, mostra como a gigante farmacêutica Merck construiu uma fortaleza de patentes, negociou em segredo e fez uma acção de lobbying implacável para defender o Keytruda, o pilar das suas receitas
05:00


Sydney P. Freedberg (ICIJ) e Brenda Medina (ICIJ)
RESUMO
Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) revela como a farmacêutica Merck utilizou...Ler mais


Poucos dias antes do Natal de 2025, os líderes de nove empresas farmacêuticas juntavam-se na Sala Roosevelt da Casa Branca, onde já esteve pendurado o Prémio Nobel da Paz de 1906 atribuído a Teddy Roosevelt. Os fotógrafos acorreram para tirar fotografias enquanto os executivos — três mulheres e seis homens — estavam de pé, desconfortáveis, a bater com os pés e a tamborilar com os dedos à espera do Presidente Donald Trump. Os chefes das farmacêuticas tinham todos fechado acordos para baixar drasticamente os preços de alguns dos seus medicamentos mais emblemáticos.


Passaram quase 15 minutos até Trump entrar na sala, seguido pelo Secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., e por vários altos funcionários. O Presidente olhou de relance para os executivos.


“Uau, que grupo de pessoas”, disse Trump. “Ganham muito dinheiro.”


No conjunto, a remuneração anual destes executivos ultrapassava os 100 milhões de dólares. Mas apenas um deles — o advogado de empresas com óculos e barbicha — estava ao leme de um colosso farmacêutico de 57 mil milhões de euros com um medicamento salva-vidas que era incomportável para boa parte do mundo: Robert M. Davis, presidente executivo e presidente do conselho de administração da Merck & Co., fabricante do êxito de vendas anti-cancro pembrolizumab. Marca comercial: Keytruda.


Trump prometeu que os preços dos medicamentos iriam cair “a toda a velocidade” graças aos novos acordos. Antes do final da cerimónia, cada executivo aproximou-se do púlpito para dizer algumas palavras. Quando chegou a vez de Davis, este declarou apoio “a 100%” às acções do Presidente.


“Reflicto sobre o vosso objectivo de garantir acessibilidade económica e acesso aos americanos, mas igualmente de fazer subir os preços fora dos EUA”, disse Davis.


Davis prometeu que a Merck baixaria os preços de um medicamento para a diabetes e de um comprimido cardiovascular, mas não disse nada sobre cortar o custo do Keytruda, que representou 28 mil milhões de euros em vendas em 2025 e quase metade das receitas da Merck. Na verdade, a gigante farmacêutica sediada em Nova Jérsia iria tornar a vida ainda mais difícil a muitos doentes oncológicos em todo o mundo.


Uma investigação do Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) revela como uma das maiores farmacêuticas do mundo recorreu a uma série de tácticas tanto para inflacionar o volume de prescrições como para manter o preço alto, através de lobbying e procurando atrasar a chegada de versões mais baratas do medicamento a centenas de milhares de doentes oncológicos nos próximos anos. Tudo isto se desenrola enquanto governos de todo o mundo gastam montantes crescentes em Keytruda, com preços elevados a apertar os orçamentos públicos, mesmo em países ricos. Os preços de tabela vão de cerca de 70 mil euros por ano na Alemanha e 180 mil euros nos EUA, 81 mil no Líbano e cerca de 113 mil na Colômbia, 57 mil na África do Sul e 100 mil na Croácia.


O cancro é uma ameaça crescente para a saúde pública, responsável por quase 1 em cada 6 mortes em todo o mundo. As projecções mostram que as taxas de cancro estão a aumentar sobretudo em países de rendimentos mais baixos, onde o Keytruda continua, em larga medida, incomportável. Prevê-se que o número de mortes dispare 75%, atingindo 18,6 milhões em 2050, com algumas terapêuticas novas a custarem já mais de um milhão de dólares por doente.

DESIGUALDADE NO ACESSO AO TRATAMENTO

Viver com — ou para além de — um diagnóstico de cancro acarreta custos profundos: físicos, emocionais e financeiros. Há doentes tão desesperados por Keytruda que recorrem ao mercado negro para conseguir o medicamento mais barato, sem saberem se é mesmo o medicamento ou uma falsificação. Outros doentes que procuram Keytruda enfrentam obstáculos burocráticos angustiantes e acabam a processar os respectivos governos para conseguir aceder ao medicamento; nem todos sobrevivem o tempo suficiente para conhecer a decisão dos tribunais.

As reportagens dos parceiros do ICIJ em seis continentes traçam um retrato de profunda e perigosa desigualdade.

Na Índia, as famílias que procuram Keytruda dependem de uma rede de protecção esfarrapada: cobertura de seguro deficiente, programa de assistência a doentes da Merck e dinheiro do próprio bolso. No Brasil, o sétimo país mais populoso do mundo, a maioria dos doentes oncológicos não tem dinheiro para o Keytruda e milhares recorrem aos tribunais para o conseguir. Na África do Sul, onde a esmagadora maioria dos cidadãos não tem meios para aceder a cuidados de saúde privados e o rendimento mensal típico de um agregado familiar é inferior a 435 euros, uma única dose de Keytruda custa cerca de 10 vezes esse valor: 4266 euros.

No Reino Unido, a investigação mostra que o Keytruda encabeça a lista de medicamentos pelos quais o subfinanciado Serviço Nacional de Saúde (NHS) paga em excesso. Para alguns doentes com cancro do pulmão, o NHS tem estado a pagar pelo Keytruda cinco vezes mais do que devia, segundo dados de custo-eficácia da Universidade de York partilhados com o Bureau of Investigative Journalism, parceiro do ICIJ no Reino Unido. E na Guatemala, um médico que lida com acesso limitado teve de escolher dois entre os seus muitos doentes para receberem o medicamento. “O que me resta fazer? Brincar aos deuses?”, disse Julio Ramirez, responsável pela unidade de oncologia do hospital público regional de Quetzaltenango, segunda maior cidade da Guatemala. “O primeiro doente que chega, é a esse que vou dar o tratamento, porque é tudo o que posso fazer.”

Cancer Calculus, uma investigação de um ano do ICIJ e de 48 parceiros de media em 37 países, baseia-se em centenas de entrevistas a oncologistas, doentes oncológicos e suas famílias, especialistas em patentes, reguladores, conhecedores da indústria farmacêutica e outros, bem como em dados exclusivos sobre preços e análises de patentes, e em milhares de páginas de apresentações de empresas, documentos de conselhos de patentes, processos judiciais e registos empresariais e regulatórios. Os parceiros do ICIJ desenterraram também registos de saúde pública, actas de reuniões, dados sobre preços e comparticipações, entre outros documentos, através de pelo menos 1020 pedidos de acesso a documentos administrativos em 28 países.

TÁTICAS AGRESSIVAS

A investigação explora a forma como a Merck — conhecida como MSD fora dos EUA e do Canadá — recorreu a táticas agressivas, mas legais, para aumentar as suas receitas com o Keytruda e fazer dele um dos medicamentos mais vendidos de sempre — à custa de alguns doentes.

Entre as conclusões do projecto, destacamos:
A Merck e outras entidades farmacêuticas e médicas exploraram o sistema de patentes para construir uma fortaleza em torno do Keytruda, com pelo menos 1212 pedidos de patente em 53 países, regiões e territórios. Este fluxo de patentes secundárias poderá ajudar a Merck a sufocar a concorrência e a manter preços elevados — e milhares de milhões de euros em receitas — durante 14 anos depois de as suas patentes originais expirarem em 2028.
A Merck tem promovido uma dosagem de Keytruda mais elevada do que o necessário, dizem alguns investigadores oncológicos de referência. E essa dosagem poderá custar ao mundo cerca de 54,35 mil milhões de euros só em doentes com cancro do pulmão até 2040, segundo investigadores da Organização Mundial da Saúde.
A gigante farmacêutica aproveitou-se de atalhos regulatórios da indústria, ajudou a orquestrar uma onerosa campanha de lobbying global e operou com uma enorme falta de transparência nos preços. Distribuiu, nos EUA, dezenas de milhões de euros em honorários de consultoria, despesas de viagem e outros pagamentos relacionados com o Keytruda a médicos e profissionais de saúde.

Todas estas estratégias geram receitas para a Merck, com cerca de 60% das vendas de Keytruda a serem feitas nos EUA.

Uma análise do ICIJ mostra que a Merck gerou cerca de 142 mil milhões de euros em vendas de Keytruda desde 2014, chegando a mais de 3 milhões de pessoas. A empresa canalizou perto de 65 mil milhões de euros em dividendos para os acionistas e 37 mil milhões em recompras de ações próprias ao mesmo tempo que reduziu os impostos pagos nos EUA contabilizando lucros em jurisdições com tributação mais baixa. No relatório anual de 2025, a Merck declarou ter pago cerca de 1,4 mil milhões de euros em impostos sobre o rendimento nos EUA, contra 3,9 mil milhões noutros países, incluindo 1,83 mil milhões na Suíça.

Davis recusou comentar, mas a vice-presidente sénior da Merck, Johanna Herrmann, defendeu as práticas de fixação de preços da empresa, afirmando que o preço do Keytruda “reflecte o seu valor para os doentes e para os sistemas de saúde”.

“Temos um longo historial de fixação responsável dos preços dos nossos medicamentos, de modo a reflectirem o seu valor para os doentes, pagadores e sociedade”, escreveu numa carta dirigida ao ICIJ.

Herrmann reconheceu, numa carta separada, que a Merck enfrenta “pressões políticas e empresariais crescentes” quanto ao acesso e aos preços nos mercados emergentes. Mas disse que a empresa está a trabalhar para garantir que os cuidados de saúde sejam “acessíveis, eficientes, equitativos e sustentáveis à escala global”.

Na nossa investigação, concluímos que a conduta da Merck era típica da indústria farmacêutica — e que a empresa não constituía um caso isolado em termos das suas práticas comerciais globais. Mas o crescimento extraordinário e o interesse em torno do Keytruda poderão estar a empurrar ainda mais os limites do que é aceitável pelos padrões da indústria.

Peter Maybarduk, director do grupo de acesso a medicamentos da Public Citizen, uma organização de defesa dos consumidores sem fins lucrativos sediada em Washington, disse que a indústria farmacêutica criou um sistema de regras globais para proteger os fabricantes de medicamentos e garantir que os governos ricos os defendem. “Há toda uma arquitectura por detrás do Keytruda e de cada medicamento patenteado, em que o Governo dos EUA e a Europa dão a cara pela indústria e pelas suas regras”, afirmou.

Esse sistema é marcado por grandes interrogações sobre como as práticas da Merck e das outras grandes farmacêuticas afectam o futuro do nosso bem-estar colectivo. A forma como tudo isto se desenrola é, muitas vezes, a história de colocar os lucros à frente dos doentes. Para os que têm e para os que não têm em todo o mundo, pode também ser a história de quem vive e quem morre.

PRINCÍPIOS MILAGROSOS

Rob Davis, 59 anos, cresceu em Franklin, no Indiana, uma terra agrícola a cerca de 30 quilómetros a sul de Indianápolis, à sombra da Eli Lilly, uma das maiores farmacêuticas do mundo. Trabalharia na Lilly durante 14 anos enquanto fazia os seus cursos de gestão e direito.


Quando o seu pai, Morris, auditor, lutava contra o cancro, Davis foi a uma entrevista de emprego com o então presidente executivo da Merck, Ken Frazier. No final da reunião, Frazier dirigiu Davis para uma imagem junto à porta. Queria mostrar-lhe um diapositivo de PowerPoint colado na parede, contou Davis numa entrevista em 2024 na faculdade de direito da Universidade Northwestern. Mostrava diferentes tipos de tumores e as respectivas respostas ao Keytruda. “É por isto que tens de vir para a Merck”, disse-lhe Frazier. “Porque vamos fazer uma diferença real.”


Davis entrou na Merck como director financeiro na Primavera de 2014, alguns meses antes de o seu pai morrer de cancro do pulmão aos 82 anos. “Pergunto-me o que teria acontecido se aquele medicamento estivesse disponível há 10 anos, quando o meu pai estava a travar a sua batalha”, disse na entrevista.

Enquanto Davis se instalava no novo cargo, a Merck preparava-se para lançar o Keytruda para tratar o melanoma, a forma mais mortífera de cancro de pele. Preço de tabela previsto nos EUA: cerca de 11 000 euros por mês, ou 130 000 euros por ano.

Quando surgiu, revolucionou o tratamento do cancro. Pertencendo a uma classe de imunoterapias chamada inibidores de pontos de controlo imunitário, o Keytruda deslocou o foco do ataque directo aos tumores para a capacitação do sistema imunitário para os combater. Aprovado nos EUA para tratar 19 tipos de tumores — incluindo da pele, pulmão, mama e cólon —, tornou-se uma tábua de salvação para milhões, transformando formas anteriormente terminais de cancro avançado em doenças controláveis e aumentando as taxas de sobrevivência de outros doentes com cancros de difícil tratamento — por vezes durante meses, por vezes durante anos.

“Todos estes anos depois, não deixei de cá vir agradecer pela minha vida, por estar viva”, disse Carolina García Corsini a uma jornalista do ICIJ num santuário católico em Madrid. Antiga jornalista e mãe de três filhos da capital espanhola, García tinha 37 anos e estava grávida de quatro meses quando lhe foi diagnosticado um melanoma metastizado, em Fevereiro de 2011. Os tumores tinham-se espalhado para a mama esquerda. Depois de garantir um lugar disputado no primeiro ensaio clínico do Keytruda, começou a deslocar-se a Paris de poucas em poucas semanas para receber tratamento. Catorze anos depois e em remissão, disse: “Estou convencida de que é um milagre.”

A Merck ocupa hoje o 65.º lugar da Fortune 500, e o negócio do Keytruda gera receitas superiores às da McDonald's ou de toda a Liga Nacional de Futebol Americano (NFL).

Hoje, como presidente executivo e presidente do conselho de administração da Merck e líder do poderoso lobby sectorial PhRMA, Davis promove pilares-chave da agenda da indústria: que a protecção das patentes e os preços elevados ajudam as farmacêuticas a recuperar os milhares de milhões gastos no desenvolvimento de novos medicamentos e a fazê-los chegar aos doentes em segurança e em larga escala. O processo demora normalmente uma década ou mais, e uma patente nos EUA — que dura, em geral, 20 anos a contar da data do pedido — permite às empresas usufruir de uma posição dominante no mercado, cobrar preços mais elevados, recuperar custos de investigação e desenvolvimento e gerar lucros para financiar investigação futura. De 2011 a 2023, disse Davis em depoimento ao Congresso em 2024, a Merck investiu 40 mil milhões de euros na investigação, desenvolvimento e fabrico do Keytruda. Citou mais de 2200 ensaios clínicos — realizados pela Merck e por outros investigadores — para estudar o Keytruda, e a empresa tenciona investir mais 16 mil milhões de euros em estudos clínicos do Keytruda já entrada a década de 2030.

Mas uma nova análise da Public Eye, organização sem fins lucrativos sediada na Suíça que defende a responsabilização das empresas, estima os custos de I&D do Keytruda em 1,65 mil milhões de euros — 1% das receitas globais do medicamento desde o lançamento em 2014. Somando o custo dos ensaios clínicos falhados, a estimativa de I&D sobe para 4,2 mil milhões de euros, ou 3% das receitas. Patrick Durisch, especialista em farmacêuticas da Public Eye, disse que baseou os seus números numa análise dos ensaios clínicos do Keytruda e dos seus custos médios, que constituem a maior fatia das despesas de I&D.

Os números de Davis são “absolutamente inverificáveis”, disse Durisch ao ICIJ. “A Merck pode atirar com qualquer número que lhe apeteça — o mais alto possível para justificar o preço exorbitante.”

“A parcela de custos de I&D em relação ao preço de um frasco é muito reduzida e há muito que foi recuperada”, acrescentou. “O preço é, por isso, excessivamente alto, não para cobrir custos de I&D ou cobrir riscos, mas para obter lucros máximos.”

Nathan Cherny, oncologista e director da unidade de dor oncológica e medicina paliativa do Centro Médico Shaare Zedek, em Israel, disse que uma “tempestade perfeita” levou ao elevado custo do Keytruda. Começou em 2003, quando o Congresso dos EUA aprovou uma cláusula de “não interferência” como parte da lei do Medicare, exigindo que o Governo aceitasse os preços de tabela dos fabricantes para novos medicamentos sem qualquer negociação de preços. Apesar de a cláusula impedir o Governo federal de negociar preços, os seus apoiantes apresentaram-na como um reforço — e não como uma suspensão — das forças de mercado, transferindo o poder negocial para os planos privados em vez do Estado.

“Foi uma suspensão das forças de mercado”, disse Cherny ao ICIJ. E o seu impacto sentiu-se em todo o mundo.

UM “FAROESTE” DO DESENVOLVIMENTO DE MEDICAMENTOS

A campanha de promoção do Keytruda estava no seu segundo ano quando um acontecimento extraordinário deu origem a uma bonança em termos de relações públicas: em 2015, os médicos de Jimmy Carter usaram com êxito o Keytruda para tratar o cancro de pele letal do antigo Presidente dos EUA, que se tinha espalhado para o fígado e para o cérebro quando ele tinha 91 anos. Os doentes passaram a clamar pelo “medicamento do Presidente”. E Carter viveu até aos 100 anos.

Para o plano de negócios do Keytruda, a Merck baseou-se em estratégias saídas directamente do manual da indústria farmacêutica, que se enraizaram nos Estados Unidos e se espalharam internacionalmente: usou investigação financiada pelos contribuintes, estratégias de preços confidenciais e atalhos regulatórios, que permitiram à Merck entrar mais cedo no mercado e vender o Keytruda a preços altos — antes mesmo de existirem provas clínicas completas. O ICIJ verificou que o Keytruda recebeu, nos EUA, pelo menos 33 aprovações expeditas — mais do que qualquer outro medicamento — ao abrigo de programas regulatórios especiais concebidos para acelerar o desenvolvimento de novos medicamentos para doenças graves ou potencialmente fatais. Mas essas aprovações enfrentam controvérsia devido à precocidade com que os medicamentos chegam ao mercado, aos seus custos elevados e, por vezes, à fragilidade das provas clínicas. A Merck, por exemplo, retirou dois tratamentos com Keytruda que tinham obtido aprovação acelerada da Food and Drug Administration (FDA) dos EUA, por não terem produzido benefícios suficientes.

A nossa investigação mostra também como a Merck tirou partido da designação de medicamento órfão, uma categoria que oferece incentivos às empresas para desenvolverem medicamentos para doenças raras. A Merck obteve nove designações de órfão distintas para um único medicamento: o Keytruda.

Outra prática da Merck que se está a expandir globalmente: financiar grupos de doentes que defendem cobertura por seguros, fazem lobbying junto de governos e apoiam aprovações regulatórias mais rápidas, ao mesmo tempo que injectam dinheiro em pagamentos a médicos e outros profissionais de saúde. Só nos EUA, os registos mostram que a Merck gastou perto de 48 milhões de euros em honorários relacionados com o Keytruda pagos a profissionais de saúde entre 2018 e 2024, com cinco médicos a receberem mais de 920 mil euros cada.

A Merck afirmou que este tipo de pagamentos ajuda a informar a comunidade de saúde sobre o Keytruda, o que, por sua vez, melhora os cuidados aos doentes.

Mas um estudo norte-americano realizado para o National Bureau of Economic Research concluiu que a prescrição de medicamentos oncológicos administrados por médicos, como o Keytruda, aumentou 4% nos 12 meses seguintes a um profissional de saúde ter recebido fundos de uma farmacêutica. Esses pagamentos — que cobrem refeições, viagens, investigação, consultoria e honorários por palestras — levaram a um maior gasto dos médicos em medicamentos oncológicos, mas sem qualquer melhoria na sobrevivência dos doentes.

Os pagamentos a grupos de doentes não foram menos significativos. Nos EUA, a Merck pagou dezenas de milhões de euros a grupos de defesa dos doentes. Na Austrália, a Australian Broadcasting Corporation, parceira do ICIJ, descobriu financiamentos em mais de 100 casos em que a filial australiana da Merck pagou a grupos de doentes um total de 1,4 milhões de euros entre 2014 e 2024. Na Bélgica, o jornal De Tijd descobriu que uma dúzia de grupos de doentes e organizações de cuidados de saúde que receberam cerca de 1,7 milhões de euros da filial belga da Merck entre 2022 e 2024 também fizeram lobbying por posições alinhadas com as da empresa.

A Merck defendeu tais práticas, afirmando ao ICIJ que qualquer colaboração ou financiamento envolvendo organizações de doentes é inteiramente independente das avaliações de tecnologias de saúde e não pode ser interpretado como um incentivo à prescrição.

Em 2021, cientistas seniores da FDA manifestavam preocupação com o crescimento explosivo da imunoterapia, dominada pelo Keytruda. Richard Pazdur, então responsável pela unidade da FDA dedicada a melhorar o desenvolvimento de medicamentos oncológicos, e Julia A. Beaver, então chefe de oncologia da FDA, escreveram no New England Journal of Medicine, em Dezembro de 2021, que o crescimento desenfreado e rápido dos inibidores de pontos de controlo tinha conduzido a um “Faroeste” do desenvolvimento de medicamentos, com uma debandada de patrocinadores comerciais, ensaios clínicos e planos de desenvolvimento redundantes.

A imunoterapia, embora oferecendo resultados que mudam vidas — e por vezes milagrosos — para um pequeno número de doentes oncológicos, não conseguiu ajudar muitos outros, e alguns queixaram-se de que os médicos minimizavam os riscos.

Pauline Cameron, hoje com 76 anos, contou à Australian Broadcasting Corporation que a oncologista do marido vendeu o Keytruda como um milagre para o seu melanoma metastizado. Veterano da Guerra do Vietname natural de Adelaide, Paul Cameron, então com 76 anos, aceitou tomar Keytruda em 2022 depois de a sua oncologista, Rachel Roberts-Thomson, lhe ter dito que tinha cerca de nove meses de vida. Segundo Pauline, Roberts-Thomson disse que os efeitos secundários eram mínimos e que a quimioterapia era muito pior. O que Roberts-Thomson não revelou, segundo Pauline: a oncologista integrava conselhos consultivos de pelo menos seis empresas farmacêuticas, incluindo a Merck.

Roberts-Thomson não respondeu a vários pedidos de comentário do ICIJ e da Australian Broadcasting Corporation.

Poucos dias após a primeira infusão de Keytruda, Paul sentiu-se fraco. As pálpebras descaíram e não conseguia manter a cabeça erguida. Morreu de uma síndrome de sobreposição induzida pelo Keytruda, um efeito secundário raro de origem imunitária.

“Para o Paul, o Keytruda foi como pôr um comboio numa linha sem travões”, disse Pauline. Disse que gostaria que a Merck investisse mais em compreender por que razão o medicamento pode causar danos tão catastróficos tão depressa.

Herrmann, vice-presidente da Merck, não respondeu a perguntas específicas sobre Paul Cameron, mas rejeitou veementemente qualquer afirmação de que a empresa tinha ficado aquém dos elevados padrões de transparência e integridade. “Nada é mais importante para a Merck do que a saúde dos doentes que usam os nossos medicamentos”, disse.

As vendas do Keytruda dispararam globalmente. De 2020 a 2024, segundo dados de vendas exclusivos partilhados com o ICIJ pelo IQVIA Institute for Human Data Science, registou-se um aumento de 232% em França, para 2,6 mil milhões de euros; 265% no Brasil para 693,4 milhões de euros; 491% no México para 126,32 milhões de euros; e 584% na Turquia para perto de 92 milhões de euros.

Wolf-Dieter Ludwig, oncologista que presidiu durante 18 anos à comissão de medicamentos da Associação Médica Alemã, citou o Keytruda como exemplo de onde está a ser gasto demasiado dinheiro no sistema de saúde. O medicamento fez uma diferença significativa em alguns tipos de cancro, disse aos parceiros do ICIJ na Paper Trail Media, mas raramente conduz à cura e o preço elevado não se justifica. As farmacêuticas usam frequentemente a expressão “game changer”, disse Ludwig, mas trata-se, acima de tudo, de bom marketing.

PREÇOS EXTREMOS, SEGREDO EXTREMO

O rápido crescimento das receitas do Keytruda deveu-se mais ao número crescente de doentes tratados e de prescrições do que a um aumento de preços, segundo uma análise realizada para o ICIJ. A despesa farmacêutica, alimentada por medicamentos como o Keytruda, atingiu máximos históricos na década de 2020. A Merck diz que fixa preços diferentes para os seus produtos consoante os mercados — e por vezes dentro do mesmo mercado — para garantir que chegam ao maior número possível de doentes.

Mas, à medida que a crise global em torno do disparar dos preços dos medicamentos se intensificava, Davis manifestou preocupação com as dificuldades financeiras dos doentes oncológicos. Desde que o Keytruda chegou ao mercado em 2014, o ICIJ encontrou 632 casos em que doentes de 51 países recorreram ao GoFundMe e a outros sites de financiamento colectivo para angariar dinheiro para tratamentos com Keytruda.

“Temos de concentrar esforços na redução dos custos suportados pelo doente do próprio bolso”, disse o presidente executivo da Merck a investidores numa conferência sobre saúde em 2021. “É esse o ponto central.”

A investigação do ICIJ descobriu que os preços de tabela da Merck, ou seja, os preços iniciais sem desconto, variam enormemente entre países, indo de cerca de 782€ por um único frasco de 100 mg na Indonésia até 5 533,80€ pelo mesmo frasco nos EUA.

As disparidades extremas decorrem de descontos e abatimentos secretos aplicados aos preços de tabela em diferentes países, bem como das diferentes formas como os sistemas de saúde decidem os custos dos medicamentos. Não há tecto de preços para a maior parte dos medicamentos sujeitos a receita médica nos EUA, onde os fabricantes fixam os preços largamente por conta própria. Em muitos outros países, os governos negoceiam com as farmacêuticas para fixar um preço.

Uma característica comum dos sistemas de fixação de preços de medicamentos em todo o mundo: prosperam em segredo. Pelo menos meia dúzia de autoridades em todo o mundo recusou divulgar ao ICIJ pormenores sobre a despesa pública com Keytruda ou sobre o número de doentes a receber o medicamento. Invocaram um conjunto de explicações — por exemplo, que elas próprias ou a Merck tinham considerado a informação um “segredo comercial”.

Apesar do sigilo extremo, o ICIJ obteve e comparou os preços de tabela do Keytruda e os preços máximos de venda em 31 países. Encontrou grandes diferenças em termos de acessibilidade, com o Keytruda comparativamente menos acessível nos países mais pobres. Na África do Sul, o preço de tabela do Keytruda (excluindo impostos e taxas) é de cerca de 3500 euros por uma dose de 200 mg — um terço do preço de tabela nos EUA. Ainda assim, é muito menos acessível na África do Sul, onde uma pessoa que ganhe o rendimento mediano nem sequer consegue comprar uma dose por ano, ao passo que, nos EUA, um doente com o rendimento mediano consegue pagar menos de cinco doses.

Ao mesmo tempo, segundo a análise do ICIJ, os americanos com rendimento mediano podem pagar menos Keytruda do que quem ganha o rendimento mediano em alguns países europeus ricos, como a França e a Bélgica. Em países mais pobres da Europa de Leste, como a Bulgária e a Hungria, o Keytruda tende a ser menos acessível do que na Europa Ocidental mais próspera. E no México e em vários outros países da América Latina, os preços de tabela tendem a ser mais elevados — quando ajustados aos níveis económicos — do que em países mais ricos.

Na Guatemala, Alberto Xum pensou, como muitos doentes oncológicos da América Latina, que teria de prescindir totalmente do tratamento. Um ano de frascos de Keytruda custa 165.000 euros ou mais no país centro-americano, e Xum, um artesão de 65 anos sem seguro, vende recordações em couro numa região onde o rendimento mensal médio dos agregados familiares ronda os 640 euros. Diagnosticado com cancro do rim metastizado em 2022, Xum disse ao seu oncologista, Julio Ramirez, que estava pronto a desistir do tratamento. “Disse ao médico que não podia pagar”, contou. “Estava a pôr a minha vida nas mãos de Deus.”

Para sorte de Xum, porém, Ramirez estava prestes a receber autorização do ministério da saúde para um dos primeiros tratamentos com Keytruda no seu hospital. Xum foi o escolhido. De três em três semanas, durante os dois anos seguintes, Xum apanhou um autocarro durante 2 horas e meia desde a sua aldeia rural, Samayac, até ao hospital público de Quetzaltenango para receber a infusão de 10.000 euros, paga pelo Estado. “Por vezes pergunto: quem sou eu para merecer tanta sorte?”, disse Xum ao ICIJ. Os seus tumores tinham diminuído, mas não estava em remissão.

Um novo estudo apoia as conclusões do ICIJ. Seis meses de tratamento com Keytruda para cancro da cabeça e do pescoço custam quase 80 vezes o rendimento mensal médio na Índia e 43 vezes o rendimento médio no Paquistão. O custo continua catastroficamente elevado também nos países ricos: cerca de seis vezes o rendimento mensal médio nos EUA e nove vezes o rendimento médio no Reino Unido. Em suma, seis meses de Keytruda variam entre 7061,92 euros no Bangladesh e 35.193,68 euros na Austrália, concluíram os investigadores: as imunoterapias modernas continuam economicamente inacessíveis na maior parte dos contextos.

O ICIJ apurou que os custos de tratamento com Keytruda para os doentes são particularmente caóticos nos EUA. Dados compilados pela Serif Health, empresa de São Francisco que analisa informação sobre comparticipações no sector da saúde, mostram que os custos para doentes e seguradoras variam dramaticamente. Pelos EUA fora, os custos estimados vão de entre 5400 euros e 40.300 euros por um tratamento típico de Keytruda de 200 mg.

Para Barbara Thornton, auxiliar de cuidados domiciliários de 64 anos de Cincinnati, no Ohio, que recentemente venceu um cancro do pâncreas, os tratamentos com Keytruda no centro de ambulatório de um hospital próximo custavam bem acima do preço de tabela. Cada tratamento vinha acompanhado de uma factura de cerca de 40.000 euros. Uma combinação do seguro do marido, da assistência financeira do hospital e do Medicaid cobriu a maior parte da sua quota-parte. “Tive sorte. Tinha seguro”, disse Thornton. “Não vivemos à grande — passe a expressão.”

O Health Care Cost Institute, grupo sem fins lucrativos que analisa pedidos de comparticipação em seguros patrocinados por entidades empregadoras nos EUA, reviu para o ICIJ dados sobre custos do Keytruda entre 2018 e 2022. Em 2022, esses planos de seguro pagaram 3,49 mil milhões de euros pela cobertura do Keytruda para apenas 30.997 doentes - ou cerca de 112.600 euros por doente. O custo podia quase duplicar quando o medicamento era administrado em ambulatório hospitalar em vez de num consultório médico.

Num comunicado, a porta-voz da Merck, Julie Cunningham, atribuiu os preços elevados nos EUA aos gestores de benefícios de farmácia e às seguradoras de saúde, intermediários que extraem descontos e taxas. Herrmann disse que 59% dos doentes norte-americanos com seguro privado não pagaram nada do próprio bolso por Keytruda e que a Merck disponibilizou 1,6 mil milhões de euros em medicamentos gratuitos nos EUA em 2024.

Para Nasır Nesanır, presidente do ramo de saúde pública da Associação Médica Turca, estas disparidades enquadram-se em questões mais amplas. “Deve a inovação médica ser encarada como um ganho comum da humanidade?”, perguntou Nesanır em entrevista à parceira do ICIJ DW Türkçe. “Ou deve continuar a ser um activo comercial sob protecção de patente que aprofunda a desigualdade global?”

"COMO É DEVASTADOR PARA ELES”

Em Bombaim, a cidade mais rica da Índia, onde mais de metade da população vive em bairros de lata ou em pobreza extrema, 101 doentes e respectivos familiares esperam no corredor à porta da clínica de oncologia do Hospital Nair pelas suas consultas com Amol Akhade, oncologista de renome. Vê a Índia a tornar-se a “capital mundial do cancro” devido à enorme subida do número de casos. E há ainda este desafio: um mês de Keytruda pode equivaler a mais de 12 meses de salário no país.

Akhade aponta para o corredor de ambulatório apinhado. “Na multidão de 100 doentes que vê lá fora, perto de 70 doentes com tumores sólidos poderiam ter beneficiado significativamente do Keytruda. No entanto, neste momento, nem sequer somos capazes de discutir esta opção de tratamento com eles, porque é simplesmente inviável.”

“São trabalhadores diários que vivem ao dia”, disse Akhade ao ICIJ. “Estão preocupados é em saber de onde virá a próxima refeição.” O Governo indiano fornece quimioterapia gratuita a estes doentes. Outros recebem ajuda dos programas de assistência da Merck. Na Índia, o programa chama-se Kiran, nome derivado do sânscrito que significa “raio de luz”, e que permite aos doentes comprar cinco frascos e receber 12 gratuitamente.

Um dos principais oncologistas do Tata Memorial Hospital concorda. “É de partir o coração e desanimador para nós”, disse Kumar Prabhash ao ICIJ. “E agora pensemos do ponto de vista do doente o quão devastador é para eles.”

Prabhash e colegas em Bombaim e Deli estão a trabalhar em formas custo-eficazes de alargar o acesso. Embora a Merck recomende 200 mg de Keytruda de três em três semanas, médicos em hospitais indianos estão a testar imunoterapias em dose baixa. Noutros estudos, doentes receberam dosagens ajustadas ao peso — 2 mg por quilograma de três em três semanas, ou 1 mg por quilo de seis em seis semanas. Hospitais em Singapura, Malásia e Taiwan chegaram a uma conclusão semelhante, e vários países — incluindo os Países Baixos, o Canadá e Israel — começaram a passar para a dosagem ajustada ao peso.

As poupanças podem ser enormes. Daniel Goldstein, oncologista de origem britânica que exerce em Israel, descobriu em 2017 que a dose fixa de Keytruda custa ao sistema de saúde dos EUA 760 milhões de euros adicionais por ano. Investigadores da Organização Mundial da Saúde estimaram que o mundo poderia poupar 4,6 mil milhões de euros ao longo de 15 anos se os doentes com cancro do pulmão recebessem Keytruda com base no peso, em vez de doses fixas.

A Merck disse basear as suas fórmulas de dosagem nas provas clínicas detalhadas na informação de prescrição aprovada pela FDA. Mas Bishal Gyawali, oncologista e investigador de políticas do medicamento no Canadá, disse aos parceiros do ICIJ no Toronto Star que a Merck provavelmente dá a mesma dose a toda a gente por uma razão: dinheiro. “Podem vender mais do medicamento e vão ganhar mais dinheiro. Não há razão científica, médica ou biológica para o fazer. É puramente motivado comercialmente.”

“UMA POTENCIAL MINA”

Esperando proteger a sua galinha dos ovos de ouro, a Merck manteve-se concentrada na principal forma que conhecia de manter os preços altos: o sistema global de patentes. As patentes principais do Keytruda iriam expirar em 2028, e os investidores preocupavam-se com a forma como a Merck iria gerar receitas depois de o Keytruda perder o seu monopólio. Essa perda de exclusividade abriria as comportas a rivais com preços muito mais baixos — um precipício de patente (patent cliff) de 32 mil milhões de euros.

Para que tal não acontecesse, a Merck mobilizou o seu exército de advogados. Tahir Amin, fundador da Initiative for Medicines, Access and Knowledge (I-MAK), chamou à estratégia da Merck um esquema de abuso de patentes em várias frentes para prolongar o seu monopólio. A Merck diz que a I-MAK propaga o mito de que as farmacêuticas manipulam o sistema de patentes ao apresentar múltiplas patentes sobrepostas para atrasar indevidamente a entrada de medicamentos genéricos ou biossimilares.

Quando o ICIJ mapeou o panorama de patentes do Keytruda, encontrou 1212 pedidos de patente relacionados com o medicamento, em 53 países, regiões e territórios — incluindo 194 nos EUA, 123 no Japão, 87 na Austrália, 80 na China e 74 tanto na Coreia do Sul como no Canadá. O ICIJ encontrou 211 patentes concedidas que ajudam a proteger o domínio do Keytruda pelo menos até 2042 — 14 anos depois de as patentes originais expirarem. Identificou ainda pelo menos outras 337 patentes pendentes. 84% de todos estes pedidos foram apresentados depois da aprovação do Keytruda em 2014.

“Cada pedido de patente é uma potencial mina” que pode criar um desafio jurídico dispendioso e demorado para os concorrentes mais baratos, disse Amin ao ICIJ. “O objectivo é bombardear o concorrente em tapete com tantas patentes quantas possível.”

Mas a Merck diz que as suas patentes posteriores a 2014 são genuinamente novas descobertas. “Continuamos a avaliar o Keytruda na esperança de alargar a sua utilização a outras formas de cancro”, disse Herrmann. “Isto inclui inovações em torno da formulação, dosagem e novas utilizações, incluindo combinações com outros agentes.”

A correria da Merck para fortificar o seu domínio inclui apresentar pedidos de patente com pequenas alterações às quantidades de dosagem e aos calendários de administração, bem como pedidos para combinações do Keytruda com outro medicamento. O ICIJ identificou 29 pedidos apresentados conjuntamente pela Merck e pela japonesa Eisai relativos à terapêutica de combinação do Keytruda com o medicamento oncológico Lenvima.

A Merck engendrou outra estratégia comum: o “salto de produto” (product hop), que consiste em apresentar novas patentes para uma versão semelhante e mais recente do mesmo medicamento, reiniciando o relógio das patentes. A Merck espera passar até 40% dos seus clientes para uma injecção de Keytruda administrada por via subcutânea, em vez de uma infusão intravenosa, antes que os rivais mais baratos consigam afirmar-se.

E a Merck adoptou uma nova táctica de preços na América Latina em 2024, quando uma empresa argentina tentou abalar o mercado com uma versão local e mais barata do Keytruda chamada PembroX. A Merck não tinha qualquer patente em vigor na Argentina. O PembroX entrou à venda em Janeiro de 2025; no dia anterior ao lançamento, a Merck baixou subitamente o preço do Keytruda em 50%, ficando apenas marginalmente acima do preço da concorrência, disse Gustavo Pelizzari, presidente executivo da farmacêutica rival Elea, aos parceiros argentinos do ICIJ.

“Estou convencido de que estão a vender muito mais barato na Argentina do que nos Estados Unidos”, disse Pelizzari. “A Merck devia ser obrigada a vender ao preço argentino. É por isso que não tornam os preços públicos.”

EXPLOSÕES DE PREÇOS

Davis sofreu uma onda de ódio online depois de ter expressado condolências por Brian Thompson, presidente executivo da UnitedHealthcare, baleado mortalmente à porta de um hotel de Midtown Manhattan em Dezembro de 2024. A morte ao início da manhã desencadeou uma celebração generalizada por parte de doentes de todo o mundo que tinham visto pedidos de comparticipação recusados pelos seus seguros.

Davis lidava com pressões adicionais: embora o termo da patente do Keytruda ainda estivesse a quatro anos de distância, os investidores já se preparavam para o impacto. Com o novo Presidente dos EUA a apregoar nos comícios de campanha preços mais baixos para os medicamentos, o que significaria isso para a Merck e o Keytruda?

“Há, portanto, muitas preocupações em torno do Keytruda”, disse Tim Anderson, então analista de acções do Bank of America, durante uma conferência telefónica de resultados em Abril de 2025. A Merck estava confiante, respondeu Davis: “Temos mais de 20 novos produtos que vemos a chegar nos próximos anos, quase todos com potencial de êxito de vendas.”

A Merck pagou 15 milhões de euros à PhRMA em 2024 para fazer lobbying em seu nome, e Davis, seguindo as pisadas do seu antecessor, foi eleito presidente da associação sectorial em Fevereiro. A PhRMA pediu explicitamente aos funcionários norte-americanos que visassem a política de medicamentos europeia e tomassem medidas contra países que tentam controlar os preços. Entre as nações apontadas: Austrália, Canadá, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Japão, Coreia do Sul, Espanha, Suíça e Reino Unido.

Numa conferência em Paris, em Fevereiro, o vice-primeiro-ministro e ministro da Saúde da Bélgica, Frank Vandenbroucke, detalhou o “aperto” (squeeze) para fazer subir os preços. “A administração Trump está preparada para usar a coerção comercial para forçar os governos europeus a alterar as suas práticas de fixação de preços.” Citou a alegação de Trump, em Janeiro, de que tinha pressionado o Presidente Emmanuel Macron a aumentar os preços dos medicamentos franceses, ameaçando aplicar tarifas de 100% ao champanhe.

Após meses de pressão da Casa Branca, Davis juntou-se a executivos de 15 empresas farmacêuticas para subscrever acordos com Trump no sentido de vender medicamentos a preços mais baixos nos EUA. Nem a administração Trump nem os fabricantes quiseram divulgar pormenores dos acordos. A Merck não quis dizer se Trump abriu uma excepção para o Keytruda, mas investigadores de políticas de saúde e fontes governamentais disseram não ser claro que o preço do Keytruda venha a baixar nos EUA tão cedo. Os preços poderão, no entanto, subir noutros lados — como já subiram no Reino Unido ou como poderão subir na Alemanha, onde uma fonte da indústria antevê “explosões de preços”. E, disse Peter Maybarduk, “nos países pobres, tudo o que os planos de Trump podem alcançar é mais sofrimento e morte”.

PROMESSAS E PRESCRIÇÕES

Em Fevereiro, Trump aproveitou o seu discurso sobre o Estado da União para fazer um discurso de incentivo sobre o abrandamento da economia norte-americana. “O nosso país está outra vez a ganhar. Na verdade, estamos a ganhar tanto que nem sabemos bem o que fazer com isso.”

“Pus os medicamentos sujeitos a receita médica a passar do preço mais alto do mundo inteiro para o mais baixo”, disse Trump. “O resultado são diferenças de preço de 300, 400, 500, 600% e mais” — alegações para as quais a administração não forneceu quaisquer provas.

Não houve qualquer menção ao Keytruda. Trump dedicou apenas cinco minutos das 1 hora e 47 minutos — o discurso sobre o Estado da União mais longo da história — a falar de custos com saúde. Celebrou a equipa masculina norte-americana de hóquei no gelo durante mais um minuto.

A quase 5000 quilómetros de distância, na Guatemala, o contraste com as grandes promessas de Trump em matéria de cuidados de saúde acessíveis sentia-se a um mundo de distância. Ao nascer do sol numa fria sexta-feira de Fevereiro, Julio Ramirez, o oncologista que tratou Alberto Xum, atravessou a pequena sala de espera da unidade de oncologia do seu hospital público, a caminho do gabinete onde vê cerca de 40 doentes por semana.

Ramirez mostrou a um jornalista do ICIJ listas manuscritas de medicamentos de que precisa para os seus doentes. Sabia que era pouco provável que conseguisse obtê-los todos por causa das restrições orçamentais. “Olhe, eu não me estou a queixar. Tenho a oportunidade de dar [Keytruda] pelo menos a dois ou três doentes aqui no hospital” — uma melhoria face ao que conseguia oferecer anteriormente.

“O meu sonho seria poder dar a todos os meus doentes as receitas de que precisam, sem ter de jogar ao "lá em cima do piano" para decidir quem fica e quem não fica”, disse.

Era hora de o médico começar a ver os doentes do dia. Um homem baixo, de meia-idade, com máscara facial e gorro de esqui, avançou silenciosamente em direcção ao gabinete, agarrado aos seus mais recentes resultados de exames. Ramirez apertou-lhe a mão e, depois, deitou mãos àquilo que podia — e ao que não podia — fazer por ele.

Contribuiram para esta investigação: Echo Hui (Australian Broadcasting Corporation); Andrés Bermúdez Liévano, Iván Ruiz (CLIP); Hala Nasreddine (DARAJ); Lars Bové (De Tijd); Zsuzsanna Wirth, Zita Szopko (direkt36); Pelin Ünker (DW Türkçe); Sergio Silva Numa (El Espectador); Carlos Carabaña, Daniele Grasso (El País); Gaby de Groot, Thieu Vaessen (Het Financieele Dagblad); Mariel Fitz Patrick (Infobae); Shauna Bowers (Irish Times); Jiyoon Kim (KCIJ-Newstapa); Kristof Clerix (Knack); Gloria Riva e Leo Sisti (L'Espresso); Francisca Skoknic (LaBot); Hugo Alconada Mon (La Nación); Natasha Cambronero (La Nación); Anne-Sophie Leurquin (Le Soir); Yiswaree Palansamy (Malaysiakini); Jacob Borg (Malta Times); Dejan Milovac (MANS); Maria Christoph, Sophia Stahl (Paper Trail Media); Jody García (Plaza Pública); Guilherme Waltenberg (Poder360); Stefan Melichar (profil); Despina Papageorgiou (Reporters United); Violeta Santiago (Quinto Elemento Lab); Fabiola Torres (Salud con Lupa); Fiona Walker, Andjela Milivojevic (The Bureau of Investigative Journalism); Nayonika Bose, Anonna Dutt, Kaunain Sheriff (The Indian Express); Amy Dempsey, Jesse McLean, Megan Ogilvie (Toronto Star); Jacob Borg (Times of Malta); Dirk Waterval, Martijn Roessingh (Trouw); Austin Fast (USA Today); Kirsi Karppinen, Minna Knus-Galan (Yle); Denise Ajiri, Agustin Armendariz, Jelena Cosic, Isabella Cota, Jesús Escudero, Miguel Fiandor Gutiérrez, Karrie Kehoe, Micah Reddy, Delphine Reuter, Joanna Robin, David Rowell, Richard H.P. Sia, Dean Starkman, Fergus Shiel, Annys Shin, Angie Wu (ICIJ).

October 08, 2025

Livros russos + crime organizado = Putin...?

 


O caso Pushkin: desmascarando os ladrões por trás de um roubo internacional de livros raros


Entre 2022 e 2023, cerca de 170 edições raras e valiosas de clássicos russos foram roubadas de bibliotecas em toda a Europa. 
Livros com um valor superior a £2.5m.

***

Roubaram livros de bibliotecas da Polónia, Letónia, Estónia, Lituânia, Finlândia, República Checa, França, Suíça e Alemanha. Em alguns casos deixaram fac similes sofisticados no lugar. Isto cheira a crime organizado. Livros russos + crime organizado = Putin...?

(como é que as bibliotecas põem livros raros e valiosos nas mãos de desconhecidos, sem referências nem nada? Os livros foram pedidos para leitura; no caso da Polónia, por exemplo, pediram para ver 8 livros raros e o responsável trouxe os livros e deixei-o-os sozinhos com os livros - 5 desapareceram com os leitores quando fizeram uma pausa para fumar)


July 29, 2024

Os bancos combinavam entre si como prejudicar os clientes

 


O Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) confirmou hoje as multas aplicadas pela Autoridade da Concorrência (AdC) a 14 bancos, em 2019, por violação da concorrência, rejeitando os recursos apresentados da decisão do regulador.


Em 09 de setembro de 2019, a AdC condenou 14 bancos ao pagamento de coimas no valor global de 225 milhões de euros por prática concertada de troca de informação comercial sensível, durante um período de mais de dez anos, entre 2002 e 2013.

Os bancos condenados são o BBVA, o BIC (por factos praticados pelo então BPN), o BPI, o BCP, o BES, o Banif, o Barclays, a CGD, a Caixa Central de Crédito Agrícola Mútuo, o Montepio, o Santander (por factos por si praticados e por factos praticados pelo Banco Popular), o Deutsche Bank e a UCI.

Destes, só o Banif e o Deutsche Bank não apresentaram recurso da decisão da AdC.

February 13, 2024

Se não era para ganhar dinheiro porque roubava os dados?

 

Este rapaz quer ser preso em Portugal porque nos EUA não perdoam estes casos. Quantas pessoas deixou ele em dificuldades ou na miséria com o seu negócio de roubar em larga escala? Isto não é um crime de adolescente que rouba uns dinheiros para sair à noite. Este rapaz montou um negócio de roubo profissional. Entrava nas contas das pessoas, roubava-lhes os dados pessoais e financeiros e vendia-os a outros ladrões e criminosos de todo o género. Sabe-se lá quantos foram vítimas de chantagem e outras coisas.


Hacker de Viseu que EUA querem extraditar promete colaborar com autoridades portuguesas

A plataforma que Diogo Santos Coelho terá criado com apenas 14 anos chegou a ter cerca de meio milhão de utilizadores. Funcionava como um fórum que transaccionava enormes quantidades de dados roubados online, como números de cartões de crédito, referências de contas bancárias, credenciais de acesso ou senhas e nomes de utilizadores.

Hacker de Viseu que EUA querem extraditar promete colaborar com autoridades portuguesas
Numa entrevista dada em Janeiro de 2021, um ano antes de ser detido, Diogo Santos Coelho afirmou que não acreditava na tentativa de vender dados por centenas de milhares de dólares, como faziam outros hackers, e que quando criou o RaidForums o objectivo inicial não era ganhar dinheiro.



January 12, 2024

Isto não poder ser constitucional

 


Terça à tarde fui ao hospital porque estava doente. Dado que os sintomas da doença em causa impedem que possa estar a dar aulas, a médica passou-me uma baixa para o dia de quarta, dado ter-me dito que quarta lá para o fim tarde os sintomas, em princípio, já não se manifestariam e, desde que não interrompesse os antibióticos, podia ir trabalhar no dia seguinte. O que aconteceu. 

Quando entreguei o atestado na secretaria a funcionária disse-me que os atestados de 1 dia equivalem a três e que, portanto, me vão descontar 3 dias dias de trabalho - e talvez o subsídio de almoço??

Como é que iso pode ser legal? Hoje, por exemplo, tive duas aulas logo pela manhã, depois estive a responder a EE e a colegas e a tratar de assuntos da DT. Depois fui almoçar e agora vou tratar de mais assuntos da DT com EE. Com que argumento válido me podem descontar os dias como se estivesse a faltar?

Por isso houve colegas que me disseram que devia ter faltado 3 dias porque andei a trabalhar de borla para o ME e para o governo. Não havendo razão para faltar e prejudicar as turmas, faltei um dia, mas sou castigada por cumprir os meus deveres.

Não sei como é possível isto ser constitucional, quer dizer, como é que isto não fere os meus direitos: cumprir os deveres e ser castigada?

Os governantes que inventam estes estratagemas para roubar os trabalhadores são ladrões. Em meu entender são pessoas desonestas e ladras.


November 11, 2023

March 21, 2023

A nossa democracia está doente de empresários gananciosos



"Poder excessivo" dos grupos económicos coloca Madeira em "dificuldades"

Ex-secretário regional das obras públicas, Sérgio Marques, considera preocupante o "aumento desmesurado do poder" dos empresários Luís Miguel Sousa e Avelino Farinha.

Sérgio Marques, secretário regional, entre 2015 e 2017, no primeiro governo de Miguel Albuquerque, antigo eurodeputado, e que se demitiu de deputado no parlamento nacional por não ter "confiança do presidente do meu presidente, do meu partido", após declarações ao Diário de Notícias, afirma que "os grupos económicos [AFA e Sousa] têm um poder excessivo" que coloca a região em "dificuldades em fazer valer o interesse público".

O também antigo deputado na Assembleia Regional madeirense fala de um "aumento desmesurado do poder destes grupos (...) principalmente agora que têm o Jornal da Madeira e DN-Madeira. Isso preocupa-me".

"O poder económico tem que estar limitado, subordinado ao poder político. A economia não pode estar aprisionada por meia dúzia de empresários", afirmou.

A maior parte dos macacos humanos da Forbes são doentes ou criminosos


Suíça: mais um caso em que se vai aos fundos de dinheiros públicos (aqueles que deviam ir para a educação, saúde, economia, etc.) sacar biliões para tapar a ganância e incompetência de banqueiros. Enquanto os banqueiros ladrões, corruptos ou incompetentes não forem responsabilizados não saímos deste sistema.

Por exemplo, porque querem tanto ouvir Salgado no tribunal? Ele quer ficar em casa? Pois que fique. Dêem-lhe um passe de 3ª idade e um quarto num lar da Misericórdia (se nenhum dos filhos o quiser), mas tratem é de lhe tirar tudo o que tem: todas as casa, propriedades, dentro e fora do país, mais as que pôs no nome dos filhos para fugir à justiça, mais a arte, os iates e tudo o mais que tivesse. Como fizeram ao Rendeiro. Pode ser que isso tudo pague metade do que roubou. Enquanto a Justiça não tiver coragem para isto, não saímos deste sistema de plutocratas.


Acções da banca afundam na Europa com compra do Credit Suisse pela UBS

Principais bancos europeus acumulam perdas bolsistas com negócio forçado entre os dois maiores bancos suíços.


March 16, 2023

Mundo = plutocratas unidos

 


The CEO of Silicon Valley Bank, Greg Becker, made $2.27 million in profits by selling his company stocks days before the bank collapsed.
Becker’s total compensation for 2022 was more than $9.9 million, including a $1.5 million cash bonus, filings show.

February 16, 2023

Não é a 1ª vez que Costa congela a carreira dos professores. Já o tinha feito quando era o nº2 de Sócrates

 

Era Buddy, buddy da Lurdes Rodrigues no governo. Discuti muito com um amigo na altura das eleições por ele ir votar no Costa. Disse-lhe, 'então mas não vês que ele e os outros todos são o governo de Sócrates e vão fazer igual?' Corrupção, roubalheiras e tirar aos que menos têm? Mas ele não acreditou e disse que não, que Costa era diferente. Pois, não me consola nada ter razão. Nunca mais nos vemos livres dos socráticos. A porca da política com os seus rebentos. Costa, o rei de Portugal que há 20 anos que não despega do poder.


January 19, 2023

Como há-de haver dinheiro para a escola pública...?

 


Agora percebo porque é que a Alexandra Reis pediu um milhão e meio de indemnização: porque antes dela já outra tinha sacado mais de um milhão. E sabe-se lá quantos mais.


Miguel Relvas, ex-ministro dos Assuntos Parlamentares de Passos Coelho, referiu que a indemnização à diretora da TAP aconteceu quando a empresa era governada pelos privados mas também pelo Estado.

O antigo ministro dos Assuntos Parlamentares do Governo de Passos Coelho revelou que a TAP pagou uma indemnização milionária quando já estava no controlo do Estado. Na “CNN Portugal”, Miguel Relvas esclareceu que se trata de uma indemnização superior a um milhão de euros a uma antiga diretora da companhia aérea.

“Já com a gestão pública, depois da renacionalização novamente da TAP, houve uma diretora que recebeu mais de um milhão de euros”, disse Miguel Relvas no programa do canal.

O ex-ministro apontou que, na altura da saída da diretora e da indemnização, a TAP era governada entre os privados e o Estado “mas o Estado já lá estava dentro” e que “nessa altura já existiam indemnizações desta dimensão, num país que paga mal na Administração Pública, onde a política de salários é baixa, temos uma empresa financiada pelo Estado nestas circunstâncias”.

Sobre o tema TAP, o antigo ministro analisou as declarações de Christine Ourmières-Widener na Assembleia da República e concluiu que a “vítima deste processo é Pedro Nuno Santos”.

Ainda assim, o ex-ministro apontou ser “surpreendente que não se fale do representante da empresa, que é o chairman, que é quem faz ou deveria fazer a ligação entre a empresa e o Estado”. Sabendo-se agora que a indemnização era do conhecimento do Governo, uma vez que o ex-secretário de Estado das Infraestruturas sabia do caso, “o chairman da empresa mantém o lugar mas não assume as suas responsabilidades”, registou o antigo governante.


August 02, 2022

Um artigo para o senhor Vítor Bento (presidente da Associação Portuguesa de Bancos) ler




Para perceber porque é que há uma  “hostilidade cultural” à obtenção de lucros. Aqui é o banco do Estado a obter lucros, ou melhor, a roubar descaradamente, viúvas indefesas. 



O estranho caso das dívidas das viúvas


Fernanda Câncio

A Caixa Geral de Aposentações está a fazer depender o pagamento de pensões de viuvez da cobrança de "dívidas" de dezenas de milhares de euros, sem as comprovar nem prestar qualquer esclarecimento sobre a formação. Isto apesar de a justiça já ter exigido explicações.

Imagine que perdeu o seu cônjuge e requer a pensão de sobrevivência a que tem direito. Tratando-se do decesso de um funcionário público, dirige o pedido à Caixa Geral de Aposentações, que passado algum tempo lhe responde, informando que tem direito a uma pensão de valor x. Está tudo bem, pensa, até ler o terceiro parágrafo: para receber a dita pensão tem de pagar uma dívida de mais de 21 mil euros à CGA, que esta simpaticamente se apresta a cobrar em 60 prestações durante cinco anos.

21 mil euros?, pergunta, sem querer acreditar. Mas porquê? A resposta está em duas linhas: trata-se do "montante global de descontos que não se encontram pagos, necessários para que a pensão de sobrevivência seja igual a metade da pensão de aposentação/reforma a que o falecido tinha/teria direito". Não há mais informação, nomeadamente remissão para diploma ou diplomas legais que sustentam tal "cobrança", prova do que é afirmado e de como se chegou a tais valores astronómicos e - fundamental - se existe alguma alternativa à aceitação da cobrança ou prazo para a impugnação/reclamação.

É aquilo ou, pensará o destinatário da carta, não se dando o caso de ser jurista ou especialista em segurança social, nada. Assim será com a maioria dos colocados nesta situação (quantos serão?) que precisem da pensão para sobreviver: temendo que uma reclamação implique o não pagamento, aceitarão sem recalcitrar. Pode até suceder que, dada a forma como o texto está escrito, nem sequer percebam o que lhes está a ser dito.

Foi o que sucedeu a Maria, 78 anos, viúva desde dezembro, que em março recebeu a missiva descrita e da mesma só retirou a informação sobre o montante da pensão que lhe ia ser paga; nem mesmo quando começou a recebê-la se deu conta, por lhe terem transferido várias prestações de uma vez, de a CGA estar a reter cerca de um terço.

Só quando mostrou a carta a outra pessoa, mais conhecedora de linguagens cifradas e entrelinhas, foi desenganada, tendo então percebido que a CGA considera que o marido, militar aposentado com serviço na guerra colonial, não efetuou os tais descontos "necessários" entre outubro de 1958 e julho de 1983.

Porquê? Como? E a ser assim, por que motivo, a existir uma dívida tão antiga, não foi ela apresentada, em tempo, a quem era responsável pelo seu pagamento (o marido)? Pode sequer a CGA cobrar uma dívida com mais de 40 anos?

Como já se percebeu, a carta não dá qualquer explicação sobre essas óbvias questões. Tão capciosa secura informativa seria sempre inaceitável; é-o ainda mais por ter sido já objeto de censura judicial, num processo apreciado pelo Tribunal Central Administrativo Norte em 2020, que teve como resultado a impugnação de uma comunicação idêntica.

Não podia, de resto, ser mais clara no acórdão a irritação dos juízes com "o modo como a CGA lida com os seus beneficiários, através de uma linguagem cifrada e impercetível, refugiando-se em fórmulas não intuitivas nem explícitas, mantendo a mesma postura quando litiga contenciosamente".

O caso em apreço é praticamente decalcado do de Maria, sendo o valor da alegada dívida idêntico (22 mil euros), e idêntico o "plano de pagamento": 60 prestações em cinco anos. A diferença é que esta outra viúva percebeu o que lhe era dito na carta e exigiu explicações à CGA, que ao longo de várias trocas de mails conseguiu não apresentar uma justificação compreensível - nem para a destinatária nem para os juízes e ministério público. O qual se junta à exasperação: "A Administração Pública não pode reagir em sucessivos e ligeiros telegramas, em jeito de "diz tu direi eu", num recorrente tiktok, quando já se percebeu que a beneficiária está perdida no meio das suas respostas. Impõe-se que pare e que alguém, em cumprimento do princípio da colaboração com os particulares (artigo 11 do Código de Processo Administrativo), agarre no assunto e detalhadamente, com todos os dados, justifique a decisão."

Não admira pois a conclusão do acórdão: "Está aqui em causa, na fixação da pensão de sobrevivência, uma suposta dívida do então cônjuge da Autora (...), sem que se percecione a que se reporta essa dívida, quem terá sido o responsável pela mesma, e quais os normativos em que assentam as operações aritméticas com vista à fixação do valor da dívida e do emergente valor da pensão fixada. Os ofícios remetidos (...) pela CGA cingem-se, no essencial, a um conjunto de parcelas, datas, fórmulas e quadros, sem que se percecione o seu fio condutor, quer em termos factuais, quer em termos normativos, assemelhando-se a enigmas insusceptíveis de serem revelados. (...) A fixação do valor de uma pensão, e a enunciação de eventuais dívidas de quotização que se refletirão no valor a atribuir mensalmente ao interessado, é um daqueles tipos de ato que carece de uma circunstanciada e clara fundamentação, (...) importando que se percecionem todas as operações aritméticas relevantes efetuadas, qual a razão dessa dedução, qual o fundamento de facto e de direito subjacente à referida operação, e em que momento ocorreu a dívida em questão e quem foi o seu responsável."

Não se sabendo como terminou este caso e se este acórdão, que examina e rejeita um recurso da CGA, foi o seu fim - a autora da ação exigia a impugnação da dívida em conjunto com a impugnação da comunicação da mesma -, o que se pode concluir é que a Caixa Geral de Aposentações, (desde 2015 tutelada pelo ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social) continua tranquilamente a enviar as mesmíssimas cartas, quais "enigmas insusceptíveis de serem revelados", como se nunca tivesse sido instada pela justiça a falar claramente e a comprovar aquilo que afirma.
É possível - e as respostas dadas pela CGA à autora da ação indiciam-no, pela sua total, até cómica, baralhada - que nem os técnicos que elaboram as cartas e se aprestam a aplicar a lei percebam que raio de dívidas são aquelas.

Porque é realmente difícil perceber. Mesmo admitindo a existência de períodos de carreiras contributivas de funcionários públicos nos quais o cálculo de descontos não incluía (como inclui hoje por imposição legal, através de uma "unificação" da taxa social única), uma parcela para as pensões de sobrevivência, como pode essa eventual falta ser imputada, tantas décadas depois, a quem vai beneficiar das pensões de sobrevivência? E como compreender que o cálculo dessa suposta dívida, relativa a remunerações com mais de 40 anos, seja feito - é o que se está a passar - com base no valor de remunerações atuais, enquanto pelo contrário as prestações entregues há décadas são, a atender ao caso descrito no processo judicial (15 escudos mensais, atualmente equivalente a sete cêntimos, pagos durante 22 anos e meio, correspondem na contabilidade da CGA a um total de 20,20 euros), tomadas pelo seu valor facial?

Era talvez de, como diz o Ministério Público no processo citado, alguém agarrar no assunto "e detalhadamente, com todos os dados", justificar esta trapalhada. Isto se o Estado não quer ser confundido com um qualquer burlão de phishing.

May 30, 2022

⚡️ Flash. #ArmUkraineNow

 


Paul Massaro

@apmassaro3

It’s honestly inexcusable that we’re almost 100 days into Russia’s brutal and unprovoked invasion of Ukraine and Nord Stream 1 is still operational

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Alex Kokcharov

@AlexKokcharov

Hello @Reuters Your reporting here is really poor. These are not "pro-Moscow authorities" of Kherson region in south Ukraine but the Russian occupation administrators. Please use the correct designations. Ever heard of fact checking?

Bonecos da marca japonesa Tamiya, 'Os invasores russos'

 



@Sputnik_Not

May 13, 2022

A ADSE agora prejudica propositadamente os beneficiários

 


Ligaram-me agora a dizer que o teste PCR de Covid que fiz em Fevereiro não é comparticipado porque estava positivo. Isto é, fiz o teste para fazer uma cirurgia, mas como estava positivo não fiz a cirurgia. Depois fiz a cirurgia que a ADSE recusou pagar (tinha os canais lacrimais completamente entupidos e precisei desentupir porque já não via nada sempre a chorar mas eles consideraram... não sei... um procedimento de luxo...?). Como recusaram pagar (a tal factura que o hospital não me envia... este país está na mão de ladrões...), agora alega que, como a cirurgia foi recusada pela ADSE, o teste covid não pode ser comparticipado. Portanto, a ADSE só comparticipa testes se forem usados para fazer cirurgias que a ADSE aprove.

Portanto, a nova maneira da ADSE tratar os beneficiários é roubar: primeira recusa comparticipar um procedimento e depois usa essa recusa para recusar outros, alegando a sua outra primeira recusa.

Se isto não é roubar não sei o que seja...

Desde que aquela mulher e o ideólogo comunista tomaram conta da ADSE que a associação existe para ficar com os dinheiros dos beneficiários e recusar prestar serviços.

Vão para aquela parte...


April 02, 2022

Saqueadores das cidades destruídas

 



The Kyiv Independent

@KyivIndependent


Serviços de informação da Ucrânia: Os militares russos montaram um bazar na Bielorrúsia para vender bens saqueadas. A Direcção de Informação do Ministério da Defesa diz que as tropas russas montaram um mercado ao ar livre na cidade bielorussa de Naroulia, onde vendem jóias roubadas, carros, cosméticos, e moeda.

December 01, 2021

Parece que Pinto da Costa roubou 40 milhões

 


E que usou parte do dinheiro para comprar resultados de jogos. Meu Deus, que surpresa... estamos todos chocados... quem diria... um indivíduo que manda no Norte há muitos anos... na bola, na prostituição, na política, nos negócios... isto não é nada típico deste Portugal do novo século...  


pinto-da-costa-suspeito-de-desviar-40-milhoes



Luvas no FC Porto servem para comprar resultados

Ministério Público diz que parte do dinheiro desviado do clube serviu para pagar a quem tinha capacidade para influenciar resultados.

October 04, 2021

Pandora Papers




BILLIONS HIDDEN BEYOND REACH


Uma grande quantidade de registos financeiros privados partilhados com o The Washington Post expõe o alcance do sistema secreto offshore utilizado para esconder biliões de dólares das autoridades fiscais, credores, investigadores criminais e - em 14 casos envolvendo actuais líderes nacionais - cidadãos de todo o mundo.

As revelações incluem mais de 100 milhões de dólares gastos pelo Rei Abdullah II da Jordânia em casas de luxo em Malibu, Califórnia e outros locais; milhões de dólares em propriedades e dinheiro secreto dos líderes da República Checa, Quénia, Equador e outros países e uma casa à beira-mar no Mónaco adquirida por um
a mulher russa, depois de ter tido um filho com o Presidente Vladimir Putin.

Outras revelações atingem funcionários dos EUA e outros líderes ocidentais que condenam frequentemente países mais pequenos cujos sistemas bancários permissivos têm sido explorados há décadas por saqueadores de bens e lavadores de dinheiro sujo.

Os ficheiros fornecem novas provas substanciais, por exemplo, de que o Dakota do Sul rivaliza agora com jurisdições notoriamente opacas na Europa e nas Caraíbas em matéria de sigilo financeiro. Dezenas de milhões de dólares de fora dos Estados Unidos estão agora protegidos por empresas fiduciárias em Sioux Falls, algumas delas ligadas a pessoas e empresas acusadas de abusos de direitos humanos e outras infracções.

Os detalhes estão contidos em mais de 11,9 milhões de registos financeiros obtidos pelo 'Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos' (ICIJ) e examinados pelo The Post e outras organizações noticiosas parceiras. Os ficheiros incluem e-mails privados, folhas de cálculo secretas, contratos clandestinos e outros registos que desbloqueiam esquemas financeiros impenetráveis e identificam os indivíduos por detrás deles.

O «tesouro», apelidad
o de Pandora Papers, excede as dimensões da fuga que estava no centro da investigação dos Panama Papers há cinco anos. Estes dados foram retirados de uma única firma de advogados, mas o novo material engloba registos de 14 entidades de serviços financeiros distintas que operam em países e territórios, incluindo a Suíça, Singapura, Chipre, Belize e as Ilhas Virgens Britânicas.

Os ficheiros detalham mais de 29.000 contas offshore, mais do dobro do número identificado nos Panama Papers. Entre os proprietários das contas encontram-se mais de 130 pessoas listadas como bilionários pela revista Forbes e mais de 330 funcionários públicos em mais de 90 países e territórios, o dobro do número encontrado nos documentos do Panamá.

Como resultado, os Pandora Papers permitem a contabilidade mais abrangente até à data de um universo financeiro paralelo cujos efeitos corrosivos podem abranger gerações - drenando somas significativas dos tesouros do governo, agravando as disparidades de riqueza, e protegendo as riquezas daqueles que trapaceiam e roubam enquanto impedem as autoridades e as vítimas de encontrar ou recuperar bens escondidos.

"O sistema financeiro offshore é um problema que deve preocupar qualquer pessoa cumpridora da lei em todo o mundo", disse Sherine Ebadi, uma ex-oficial do FBI que serviu como agente principal em dezenas de casos de crimes financeiros.

Ebadi apontou o papel que as contas offshore e os trusts de protecção de activos desempenham no tráfico de droga, ataques de resgates, comércio de armas e outros crimes. "Estes sistemas não permitem apenas que os trapaceiros fiscais evitem de pagar a sua justa parte. Eles minam o tecido de uma boa sociedade", disse Ebadi, agora director-geral associado da Kroll, uma empresa de investigação e consultoria empresarial.

Um trust é um acordo tipicamente envolvendo três partes: Um colono coloca algo valioso ao cuidado de um fideicomissário em benefício de um beneficiário.

Já deve ter ouvido falar de fideicomissários como este: Um avô rico pode criar um com um tio para um neto, dando ao neto um subsídio todos os meses, em vez de uma herança de montante fixo.

Mas nem todos os trusts são tão simples. Os trusts são flexíveis. Cada parte do trust pode ser um indivíduo, um grupo de pessoas, uma empresa ou uma combinação. Os activos do trust podem ser dinheiro, acções de uma empresa, bens imóveis, obras de arte - qualquer tipo de propriedade. Cada fideicomissário pode ter regras diferentes para o seu funcionamento.

Esta flexibilidade pode abrir a porta ao abuso. Em alguns estados americanos, advogados e empresas fiduciárias, apoiados por legisladores que estiveram no fabrico de leis favoráveis à indústria, conceberam elaboradas estruturas fiduciárias que podem proteger os bens das autoridades fiscais, credores e investigadores.

A investigação de Pandora Papers - baseada em milhões de documentos de empresas financeiras offshore - furou esse sigilo, revelando em alcance e detalhe sem precedentes como alguns criminosos, políticos e pessoas ricas protegeram os seus bens através da utilização de trusts e outros instrumentos offshore.

The Post, publica oito artigos, bem como peças em vídeo e áudio, com base no material Pandora. As histórias hoje publicadas centram-se em revelações sobre Abdullah e Putin. As histórias de amanhã irão explorar mais de perto os aspectos americanos deste sistema, incluindo os danos causados pelos paraísos fiscais dos EUA e a forma como os americanos acusados de irregularidades podem escapar às consequências financeiras através da utilização de entidades offshore. 
Nos dias seguintes, as histórias examinarão a pilhagem de artefactos asiáticos, examinarão a riqueza oculta dos bilionários que aparecem nos arquivos, e rastrearão o impacto das sanções dos EUA sobre os oligarcas russos.
Estas fazem parte de um pacote global de histórias baseadas nos Pandora Papers - um projecto que envolve 150 organizações noticiosas em 117 países e territórios. O pacote inclui relatórios da BBC e do Guardian que revelam novos detalhes sobre doadores estrangeiros que contribuem com milhões para o Partido Conservador do Primeiro-Ministro britânico Boris Johnson. O ICIJ tem colaborado com parceiros estrangeiros em histórias sobre uma ordem católica atormentada por escândalos no México, milhões de dólares detidos offshore por membros do governo do primeiro-ministro paquistanês Imran Khan, bem como as participações secretas de líderes da Europa para a América Latina.

(ilustração do Washington Post; Fotografia de Jabin Botsford/The Washington Post)


Rei Abdullah II.  -   Rei da Jordânia
O rei Abdullah tem sido o governante da Jordânia desde 1999.
Empresas offshore associadas ao rei já gastaram mais de 106 milhões de dólares em casas luxuosas em Malibu, Califórnia, Washington, D.C., e Londres. Quase 70 milhões de dólares foram gastos em três casas adjacentes com vista para o Oceano Pacífico, de acordo com os arquivos de Pandora e outros documentos, formando um dos maiores complexos de bluff-top em Malibu.
Os advogados do rei disseram que ele não utilizou indevidamente dinheiros públicos ou utilizou os proventos de ajuda ou assistência destinados a uso público.

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Ilustração do Washington Post; Fotografia de Erika Santelices/AFP/Getty Images)

Luis Abinader.  -   Presidente da República Dominicana

Luis Abinader foi eleito no ano passado como presidente da República Dominicana e é o seu mais rico funcionário público.
Os ficheiros de Pandora mostram que Abinader é co-proprietário de uma empresa panamenha com membros da família e é accionista com esses familiares noutra. Quando se tornou presidente, Abinader cumpriu as leis de divulgação e declarou tanto as empresas como pelo menos sete outras empresas offshore agrupadas sob um trust revogável. Disse ao Consórcio Internacional de Jornalistas Investigat (ICIJ) que detém entidades offshore porque a República Dominicana, até há pouco tempo, não tinha uma lei de sociedades eficientes necessárias para que as empresas locais fizessem negócios no estrangeiro.

Líderes
As histórias dos Panama Papers de há cinco anos levaram à demissão dos líderes da Islândia e do Paquistão. Poderia haver interesses políticos para alguns dos nomeados nos documentos de Pandora.

Andrej Babis, o primeiro-ministro checo que esta semana vai ser reeleito, é um político bilionário que se lançou como um adversário populista da elite europeia. Mas os documentos mostram que em 2009 comprou um castelo de 22 milhões de dólares perto de Cannes, França, com um cinema e duas piscinas, utilizando empresas de fachada que escondiam a identidade do seu novo proprietário. Babis não respondeu a pedidos de comentários.

No Quénia, o Presidente Uhuru Kenyatta cultivou a persona de um determinado inimigo da corrupção, dizendo em 2018 que "os bens de todos os funcionários públicos devem ser declarados publicamente". Mas documentos de Pandora mostram que ele e vários parentes próximos criaram pelo menos sete entidades offshore que detêm dinheiro e bens imobiliários no valor de mais de 30 milhões de dólares. Kenyatta não respondeu a pedidos de comentários.

Outros líderes mundiais ligados às contas offshore encontradas no cofre Pandora incluem o Presidente Milo Djukanovic do Montenegro, o Presidente Sebastián Piñera do Chile e o Presidente Luis Abinader da República Dominicana. 
Há revelações sobre as explorações offshore do casal de poder do Sri Lanka Thirukumar Nadesan e Nirupama Rajapaksa; e o governante do Dubai Mohammed bin Rashid al-Maktoum.

Mas os detalhes recentemente revelados sobre os activos offshore detidos pelo rei Abdullah da Jordânia, um aliado americano de longa data, são particularmente impressionantes. Documentos mostram que ele usou uma constelação de empresas de fachada para esconder compras de propriedades de luxo na Califórnia, Londres e no bairro de Georgetown em Washington, D.C.

As revelações surgem quando Abdullah enfrenta uma agitação política, incluindo um alegado golpe de Estado este ano, num reino que depende de milhares de milhões de dólares em ajuda dos Estados Unidos e de outros países. DLA Piper, uma firma de advogados que representa Abdullah, disse que "qualquer implicação de que haja algo de impróprio na [sua] propriedade através de empresas em jurisdições offshore é categoricamente negada".


Os uber-ricos americanos

O Panama Papers foi particularmente revelador sobre a utilização do sistema offshore por parte dos russos. Uma história relatou que um violoncelista russo, que era amigo de Putin desde a infância, estava secretamente ligado a contas offshore que detinham até 2 mil milhões de dólares.
Putin chamou a essa fuga de informação uma "provocação", insinuando que as agências de inteligência dos EUA estavam envolvidas como parte de um esforço para desacreditar o sistema financeiro russo e punir o líder russo, visando o seu círculo interno. Os funcionários norte-americanos negaram a alegação.
Desta vez, embora os russos representem uma parte desproporcionadamente grande das pessoas expostas nos ficheiros Pandora, os registos são mais abrangentes, pondo a nu as riquezas escondidas dos adversários e aliados dos EUA.

Os nomeados no cofre são tão variados como o antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair, a estrela pop colombiana Shakira, membros da elite da China e figuras da família real da Arábia Saudita.
Os cidadãos mais ricos dos Estados Unidos - incluindo o fundador da Amazónia, Jeff Bezos, proprietário do The Washington Post; Elon Musk, fundador de Tesla; Bill Gates, bilionário da Microsoft; e Warren Buffett, bilionário investidor - não aparecem nos documentos.

Os peritos financeiros afirmaram que os super-ricos nos Estados Unidos tendem a pagar taxas de impostos tão baixas que têm menos incentivos para procurar paraísos offshore. Mas a sua ausência nos arquivos também pode significar que americanos muito ricos recorrem a jurisdições offshore diferentes - incluindo as Ilhas Caimão - e empresas diferentes das representadas nos documentos de Pandora.

Existem ficheiros relativos ao envolvimento do ex-presidente Donald Trump num projecto hoteleiro do Panamá. Mas os documentos de Pandora não parecem revelar novas informações significativas sobre as suas finanças.

Robert F. Smith, frequentemente descrito como o negro mais rico dos Estados Unidos, é talvez o americano mais rico, cujas explorações offshore são detalhadas exaustivamente. Smith concordou no ano passado em pagar uma multa de 139 milhões de dólares e admitiu esconder fundos offshore e apresentar registos fiscais falsos como parte de um acordo de não-prosseguição com o Departamento de Justiça. O acordo apela a Smith a cooperar num caso separado contra Robert T. Brockman, um bilionário do Texas que apoiou Smith financeiramente e que foi acusado de esconder 2 mil milhões de dólares em rendimentos. Smith recusou-se a comentar esta história.

Contudo, talvez as revelações mais preocupantes para os Estados Unidos se centrem na sua cumplicidade crescente na economia offshore. Dakota do Sul, Nevada e outros estados adoptaram leis de sigilo financeiro que rivalizam com as das jurisdições offshore. Os registos mostram líderes de governos estrangeiros, os seus familiares e empresas a transferirem as suas fortunas privadas para trusts sediados nos EUA.
Em 2019, por exemplo, membros da família do antigo vice-presidente da República Dominicana, que em tempos liderou um dos maiores produtores de açúcar do país, concluíram vários trusts no Dakota do Sul. Os trusts detinham riqueza pessoal e acções da empresa, que foi acusada de violações dos direitos humanos e do trabalho, incluindo casas de famílias empobrecidas para expandir plantações.