July 05, 2020

Como as coisas mudam radicalmente em duas ou três dezenas de anos - e não para melhor



Reagan foi um homem da direita forte e convicta, mas passadas umas poucas dezenas de anos -tirando a parvoíce daquela ideia mitológica que tem acerca dos EUA serem fadados para a grandeza- o discurso dele aparece como um discurso da esquerda, de defesa dos imigrantes e do pluralismo de culturas. Muito interessante.


Próximo ano lectivo - fazer mais mal que bem



"(...) O mundo que eu gostaria de ver seria um mundo livre da virulência das hostilidades de grupo, capaz de compreender que a felicidade de todos deve antes derivar-se da cooperação do que da luta. Gostaria de ver um mundo em que a educação tivesse por objetivo antes a liberdade mental do que o encarceramento do espírito dos jovens numa rígida armadura de dogmas, que tem em vista protegê-los, através da vida, contra os dardos das provas imparciais. O mundo precisa de corações e de cérebros francos, e não é mediante sistemas rígidos, quer sejam velhos ou novos, que isso pode ser conseguido."

- Bertrand Russell, "Por que não sou cristão"


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Lembrei-me disto a propósito do inferno que estão a preparar para os alunos no próximo ano lectivo à conta da enorme histeria dos adultos que se lhes há-se pegar porque os miúdos são como esponjas: férias pequeninas, ano lectivo mais comprido, intervalos dentro das salas, intervalos pequeninos que nem dão tempo para ir beber água ou ir à casa de banho. Trabalho extra depois das aulas com recuperações curriculares... este inferno não é próprio para adultos, quanto mais para crianças e adolescentes e vai fazer mais mal que bem, porque a educação é um processo e não se pode enfiar à força conhecimentos e experiência de vida nas pessoas. Precisa de tempo de maturação para que se processe a interiorização e acomodação dos conhecimentos e das experiências. O que vai acontecer é os miúdos cansarem-se rapidamente, stressarem-se com o stress dos adultos e começarem a comprometer as aprendizagens por desgaste mental e falta de tempo para a vida não escolar. Tudo isto, por sua vez, vai pôr as pessoas desnorteadas que mandam no país a pressionarem histericamente os professores e as escolas e há-de ser um caos de intranquilidade e de vitórias pírricas. Vitórias pírricas são amargas e por vezes, nestas idades, maus precedentes na formação de espíritos que se querem inteiros e livres. Os miúdos não vão ter tempo nem oportunidade para recuperar destes meses fechados em casa. Sou da geração que apanhou o 25 de Abril ainda andava na escola, no liceu como se chamavam na altura. Foram tempos sem anos lectivos completos - greves e RGAs e RGPs dia sim dia não, durante anos. Não ficámos menos desenvolvidos ou mais ignorantes por isso. Tudo isto é um disparate e os desnorteados que nos governam deprimem-me.

Maldivas?



Nah.. Tróia, Setúbal



Fotografia: topcomporta - instagram
via 
Mar da Palha

Just imagine




René Magritte
L'empire de la réflexion, 1942
Oil on canvas
50 by 73 cm
Private collection

Bom dia - amanhecer nas Portas do Rodão



by Sérgio Santos


July 04, 2020

O Polvo no poder


João Moura é autarca em Ourém (presidente da Assembleia Municipal) e a sua empresa (Quadradoaometro) celebrou um contrato com a sua própria Câmara, de Ourém. Foi um ajuste directo de 65 mil euros, de forma camuflada, assinado pela sua esposa. Assim, tornou-se fornecedor (em nome da mulher) da Câmara de que supostamente fiscaliza os contratos (que, para ele são obviamente óptimos, quiçá perfeitos!). Com este cadastro de conflito de interesses, está no local certo: é deputado e dirigente máximo do PSD.

Se eu escrevesse aqui os comentários que adornam esta imagem com esta frase no FB...



O mais simpático diz assim, 'esta criatura deprime-me'.


“Os alunos vão caber todos dentro da sala” – Tiago Brandão Rodrigues 



Hendrik Voogd



Faz um bocadinho lembrar a nostalgia do Claude Lorrain num ambiente arcadiano, sem dúvida influenciado pela vida em Itália, mas com aquela luz que os holandeses sabiam impregnar nas pinturas. O resultado é um bocadinho mágico.


clicar na imagem para ver em ecrã total

Hendrik Voogd (Dutch, 1768-1839), 
Italian Landscape with Umbrella Pines" (1807)
Amsterdam, Rijksmuseum

To put it bluntly hihihi




BOOM! Mas quem está à espera disto? 😍




Filmes - ‘Never Rarely Sometimes Always’



Uma pequena jóia, este filme. Sobre uma adolescente muito introvertida de 17 anos de uma pequena cidade conservadora e provinciana da Pensilvânia, nos EUA, que descobre estar grávida. Sem apoio da mãe, sobrecarregada de tarefas às ordens de um padrasto que não se interessa, sem apoio do namorado que é o típico idiota que vai para cama com ela e depois lhe chama slut, sem apoio da clínica onde vai fazer o teste da gravidez, que lhe mostra um daqueles vídeos contra o aborto e sem dinheiro, tenta acabar sozinha com a gravidez. Não consegue.

A rapariga estuda e trabalha em part-time com uma prima num supermercado onde atura os homens a meterem-se com ela e o supervisor da loja sem nenhuma consideração por elas. Essa prima é quem a ajuda. Percebe o que se passa, tira algum dinheiro do supermercado para a camioneta até NY e vai com ela porque no estado da Pensilvânia só se pode abortar em caso de incesto ou de violação. Mais tarde, em NY, mas perguntas que a enfermeira lhe faz e dão nome ao filme, ficamos a saber que já foi forçada a fazer sexo, inclusivé sexo anal, desde muito nova, que o namorado lhe bate, obriga-a a fazer sexo sem protecção, etc., frequentemente contra a vontade dela. Portanto, de facto, foi muitas vezes violada...

As raparigas chegam a NY e ela percebe que não está de 10 semanas como lhe tinham dito lá na terra dela, mas de 18 semanas. Pensando que seria um procedimento para uma tarde descobre que tem de ir a outra clínica no dia a seguir onde façam abortos no segundo trimestre de gravidez. Uma daquelas clínicas que tem sempre adultos à porta a insultar as miúdas que lá vão, como se não tivessem já problemas que cheguem. Os únicos adultos que a ajudam e a tratam de acordo com as necessidades, problemas e idade dela são os do centro de saúde e da clínica onde acaba por fazer o aborto.

Entretanto, como têm que ficar lá duas noites porque o procedimento de interrupção de gravidez precisa de tempo para a dilatação cervical e, não tendo dinheiro para hotéis, passam as duas noites na rua, nas estações, no metro, com homens a assediar, ela com dificuldade em andar dos procedimentos de preparação que fez mais a prima, a arrastar uma mala. Há uma grande cumplicidade entre as duas raparigas, de quem sabe que nestes problemas ninguém ajuda a não ser o pessoal médico das clínicas e só podem contar umas com as outras.

O filme mostra a seriedade do problema - vê-se que ela e a prima estão muito conscientes da gravidade do acto, mas sem melodramas -é uma coisa que tem que fazer e faz, sem lamúrias, dramas ou queixumes; mostra como os homens têm, como coisa natural, um comportamento invasivo do território das raparigas e das mulheres e depois deixam-nas sozinhas com os problemas e ainda as julgam e perseguem.

A rapariga faz o procedimento e voltam para casa. Pouco falam do que se passou e vê-se que volta para uma vida de silêncio e incompreensão a não ser de outras raparigas-mulheres que sabem o que é passar por estas coisas e não ter ninguém para ajudar e não poder dizer a ninguém para não ser crucificada.

Há uma série de anos, numa altura em que se fez um referendo sobre o aborto aqui no país, organizámos uma discussão sobre o assunto numa turma a pedido deles, miúdos de 16 e 17 anos. No fim da aula fiquei a falar com um grupo de raparigas que era amigas. Algumas delas disseram-me que já tinham abortado. Uma delas disse que era sexualmente activa desde muito nova. Muito, mesmo.
De vez em quando tenho alunas grávidas. Às vezes os pais ajudam, outras vezes expulsam-nas de casa. Deve haver muitas a fazer abortos para escaparem a... muita coisa, muita coisa, que não têm idade para ter que aguentar.


#FreeAssange



Julian Paul Assange fez ontem anos. Passou-os na prisão onde está mais de 20 horas por dia em regime de solitária. No mês passado autorizaram a que tivesse um rádio para diminuir a tortura em que vive para que tenhamos acesso a informação de crimes que os governos nos escondem. 
A decisão judicial de extraditar Assange para os EUA tem influência directa no jornalismo de todo o mundo porque ele será condenado por acções que fazem parte do quotidiano do jornalismo de investigação e isso criará um precedente para proibir a imprensa livre. Com a tendência actual de autoritarismo dos regimes a questão da imprensa livre é cada vez mais importante. No entanto, não se vê um único jornal a assumir campanha a favor dos direitos humanos que lhe têm sido negados.



 “The Wikileaks founder Julian Assange is currently held in HMP Belmarsh, while the UK decides if he can be extradited to the US, where he has been charged with violating the Espionage Act, and faces the prospect of spending the rest of his life in prison if he is found guilty. As Alan Rusbridger, the former editor of the Guardian, has written, the charges against Assange are ‘attempting to criminalise things journalists regularly do when they receive and publish true information given to them by sources or whistleblowers’.”

“According to the RSF, ‘the next 10 years will be pivotal for press freedom because of converging crises affecting the future of journalism: a geopolitical crisis (due to the aggressiveness of authoritarian regimes); a technological crisis (due to a lack of democratic guarantees); a democratic crisis (due to polarisation and repressive policies); a crisis of trust (due to suspicion and even hatred of the media); and an economic crisis (impoverishing quality journalism).'”

À atenção do senhor primeiro-ministro



Que interessa isto agora? Agora vem tarde, não? Que andam vocês a fazer no governo? Como é possível não terem percebido a importância fulcral do turismo na nossa economia? O que anda o SS a fazer, ele e os diplomatas? Os espanhóis e os italianos tiveram um cenário de pandemia dramático com milhares de mortos e souberam resolver politicamente o assunto. Esta decisão dos britânicos, que há-de ser seguida por outros, é o resultado de uma enorme falha e falta de visão políticas do governo. Muita arrogância e desprezo por medidas de segurança. Quantos hotéis, restaurantes e pequenas empresas subsidiárias vão este ano à falência por conta da displicência do governo?
De modo que pergunto: isto é o quê e em que é que ajuda a mudar a situação? Ou é a vossa maneira de se desresponsabilizarem da vossa incapacidade em resolver os problemas do país?



Temos a censura de volta



A jornalista vai deixar a estação televisiva após 20 anos de trabalho. Ana Leal tinha recentemente sido suspensa pela TVI por ter divulgado e-mails que trocou com a Direção de Informação do canal ao Conselho de Redação.

É a Ana Leal castigada e é a ministra filha do papá que vai perseguir os que têm discursos que ela e o papá não gostam e castigá-los. E é para isto que pagamos a essa gente.


"A TODOS QUERO AGRADECER A FASE MAIS FELIZ DA MINHA VIDA ENQUANTO JORNALISTA.
FORAM MOMENTOS DE PURO PRAZER E DE DEVER CUMPRIDO.
DURANTE O PROGRAMA ANA LEAL EMITIMOS CERCA DE CEM REPORTAGENS DE INVESTIGAÇÃO QUE INCOMODARAM PODERES INSTALADOS E PESSOAS QUE SE JULGAVAM INTOCÁVEIS.
VOLTARIA A FAZER TUDO DA MESMA FORMA, COM O ORGULHO DE QUEM NÃO VERGA A NENHUM TIPO DE PRESSÃO."
Ana Leal

🤣 🤣 🤣



É isto...



Estou aqui há um par de horas a enviar papéis e a fazer contas. No mês passado, entre exames de medicina nuclear, consultas, tratamentos e fisioterapia foram-se cerca de 850 euros.

Agradeço que tenham a decência de me descongelar a carreira, sff.
Obrigada.

Princípios fundamentas da educação infantil segundo Marguerite Yourcenar



′′Condeno a ignorância que reina neste momento tanto nas democracias como nos regimes totalitários. Essa ignorância é tão forte, muitas vezes tão total que diríamos ser desejada pelo sistema, senão pelo regime. Tenho pensado muitas vezes sobre o que pode ser a educação da criança.


Penso que seria necessário estudos básicos, muito simples, onde a criança aprendesse que existe no universo, num planeta cujos recursos deverá aprender a poupar para mais tarde, dependendo do ar, da água, da todos os seres vivos e que o menor erro ou violência pode destruir tudo.

Aprenderia que os homens se mataram uns aos outros em guerras que só produziram outras guerras, e que cada país arranja a sua história, de modo falso, de maneira a lisonjear o seu orgulho.
Seria ensinada acerca do passado para se sentir ligada aos seres humanos que a precederam, para que os admire quando o merecem, sem forjar ídolos, nem com o presente ou com um futuro hipotético.

Tentaríamos familiarizá-la com os livros e as coisas; saberia o nome das plantas, conheceria os animais sem se entregar às horríveis vivissecções impostas às crianças e aos adolescentes muito jovens, sob pretexto de biologia; aprenderia a dar primeiros socorros aos feridos; a sua educação sexual incluiria a presença de um parto, a sua educação mental a vista de grandes doentes e de mortos.

Também lhe dariam simples noções de moral sem as quais a vida em sociedade é impossível, instrução que as escolas básicas não se atrevem a dar neste país.

Em matéria de religião, não lhe imporia nenhuma prática ou dogma, mas dir-lhe-ia algo de todas as grandes religiões do mundo, principalmente da do país onde se encontra, para despertar nela o respeito e destruir antecipadamente alguns preconceitos odiosos.

Seria ensinado a gostar do trabalho quando o trabalho é útil e a não se deixar levar por fraudes publicitárias, começando por aquela que gaba os doces, preparando cáries e diabetes futuros.

Certamente há uma maneira de falar com crianças sobre coisas verdadeiramente importantes mais cedo do que nós fazemos. "


Marguerite Yourcenar
(tradução minha)


Angela Merkele em entrevista ao Guardian, em modo estadista



Não há dúvida que a mulher tem a cabeça no lugar e as ideias ordenadas e quando sai do modo alemão e entra no modo estadista faz muita diferença qualitativa na estabilidade e motivação do projecto europeu. Repare-se que em toda a entrevista nunca diz mal ou critica outros países - em vez disso, muda sempre a orientação do discurso para os desafios da UE e o seu potencial positivo. Muito inteligente. O problema é ser, cada vez mais, uma voz a reflectir uma minoria e não a corrente que arrasta as águas.
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I see my job as working for a self-determined, liberal Europe rooted in the fundamental rights of the individual.

We should start by doing everything we can to make ourselves more resilient. We need to stand together as Europeans, otherwise we will only weaken ourselves. China has become a global player. That makes us partners in economic cooperation and combating climate change, but also competitors with very different political systems. Not to talk to each other would certainly be a bad idea.

We need to let go of the idea that it is for us to define what Britain should want. That is for Britain to define – and we, the EU27, will respond appropriately.

Look at the world; look at China or India. There are compelling reasons to remain committed to a transatlantic defence community and our shared nuclear umbrella. But of course Europe needs to carry more of the burden than during the cold war. We grew up in the certain knowledge that the United States wanted to be a world power. Should the US now wish to withdraw from that role of its own free will, we would have to reflect on that very deeply.

We recognise misinformation campaigns; the weapons of hybrid warfare, as it is called, are part of Russia’s arsenal …

… the murder in Berlin’s Tiergarten park is a serious incident, obviously, the blame for which is currently being ascertained in court. At any rate, we recognise hybrid warfare, methods of destabilisation, as a Russian behaviour pattern. On the other hand, there are good reasons to keep engaging in constructive dialogue with Russia. In countries like Syria and Libya, countries in Europe’s immediate neighbourhood, Russia’s strategic influence is great. I will therefore continue to strive for cooperation.


Outro a pedir para os professores morrerem em serviço como se estivéssemos em guerra




Uma hora nobre para as escolas
Manuel Carvalho

Se, em Setembro, as escolas e os professores forem capazes de recuperar as aprendizagens perdidas com a pandemia, desenvolvendo as capacidades dos alunos sem descurar a recuperação de bases sólidas para aprendizagens futuras, terão prestado um enorme serviço ao país.


Não é uma questão de ser capaz é uma questão de ter condições para trabalhar. 

Outro histérico




Porque quem não trabalha com a ciência tem de trabalhar com a percepção e com o medo. E são eles que nos levam a arrancar as crianças da escola, tirando-lhes o direito a crescer e aprender, apesar do vírus não representar qualquer risco significativo para elas. Para nos protegermos.

Tenho poucas certezas sobre o que nos está a acontecer. Só uma se vai instalando: que isto vai durar. Que teremos más notícias durante muito tempo. Podemos começar a disparar uns contra os outros, para ver se as culpas caem no vizinho. Ou podemos começar a discutir a fase seguinte: como vamos lidar com o vírus de forma a não sacrificar o futuro dos nossos filhos, a não destruir a economia e a democracia e a não viver numa sociedade patologicamente deprimida em nome da ilusão da imortalidade? Gostava de ser merecedor da herança dos que estiveram dispostos a morrer em nome da minha liberdade. Isso implica correr riscos para que a vida em comunidade não se torne numa paranoia infernal. Não estou disposto a fechar a juventude da minha filha em casa por dois anos para viver até aos 90.
Daniel Oliveira

Expresso


Porque quem não trabalha com a ciência tem de trabalhar com a percepção e com o medo? Os cientistas não trabalham com a percepção? Então? Vá ver o significado do termo, sff. E quem não é cientista só lhe resta o medo? Então e racionalidade, não existe? O pensamento, o espírito crítico?

...as crianças da escola, tirando-lhes o direito a crescer e aprender, apesar do vírus não representar qualquer risco significativo para elas? Se usasse a racionalidade percebia que, se desconhecemos o vírus, não sabemos se ele representa um risco significativo para as crianças, não é verdade? Por exemplo, as pessoas que apanham varíola estão sujeitas a apanhar mais tarde uma infecção viral grande. Esta consequência significativa só se soube muitos e muitos anos depois de se encontrar vacina. As doenças podem deixar sequelas latentes, invisíveis durante anos até que comecem a desenvolver-se num contexto qualquer que lhes é favorável e que desconhecemos. Por conseguinte, não sabemos se as crianças e adolescentes, ao contrair a doença, não ficam expostos e vulneráveis a consequências que só mais tarde se manifestarão. E não sabemos se essas consequências são pequenas ou graves. É por se desconhecer quase tudo do vírus que ele é tão perigoso: não conseguimos fazer um cálculo dos riscos.

... e a não viver numa sociedade patologicamente deprimida em nome da ilusão da imortalidade? Portanto a opção é entre viver no medo ou aceitar correr riscos desnecessários e morrer já? ... "morrer em nome da minha liberdade"? ..." correr riscos para que a vida em comunidade não se torne numa paranoia infernal"? "Não estou disposto a fechar a juventude da minha filha em casa por dois anos para viver até aos 90."  Fala como se estivéssemos em guerra e a opção fosse entre viver em paranóia ou atirarmo-nos do cimo do prédio para a morte... então e a opção do meio que é investir em segurança? Por exemplo, as escolas abrirem mas com segurança, como aconteceu neste final do ano com o 11º e o 12º anos? Isso implica desviar o dinheiro da banca, dos projectos bilionários  dos amigos e de todos os outros roubos e desperdícios. Não é preciso suicidar-nos, só é preciso ter políticos honestos e competentes.

Vejamos: os médicos que tratam de tuberculoses, SIDA e outras doenças infecciosas, os cirurgiões, trabalham constantemente com o risco de infecções. Tocam nas pessoas, falam com elas, abrem pessoas, as pessoas estão doentes, muitas têm doenças infecciosas. No entanto, trabalham e vão para casa e não infectam as famílias a torto e a direito. Porquê e como? Medidas de segurança.

E outra coisa: os pais hoje em dia assumem o papel de treinadores dos filhos como se os filhos fossem atletas de alta competição que não podem perder um dia de treino. Os miúdos são extremamente plásticos e resilientes e não são meses ou até um ano ou dois que dão cabo do desenvolvimento deles. Os seres humanos, a não ser que crescem isolados de contacto e linguagem humanas, mantêm o seu potencial de desenvolvimento apesar de terem desacelerado uns meses ou um ano ou até dois. E não estamos em tempo de guerra onde acontece toda a normalidade ser substituída pelo horror. Estamos em tempos de paz, de modo que essa histeria de, 'quero que todos morram porque o crescimento da minha filha tem de ser perfeito' é irracional. 

Precisamos de políticos que saibam gerir a crise com racionalidade e recursos aplicados, não em esgotos económicos e financeiros, mas em serviços que projectem o país no futuro - a educação, a saúde, a economia. Precisamos de flatten the curve das desigualdades que é isso que nos põe em desvantagem para lidar com crises.