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January 10, 2026

Ser lúcido a ver os outros e cego a ver-se a si próprio



Neste artigo o jornalista faz um diagnóstico muito certeiro desta esquerda cúmplice com os autoritarismos anti-Ocidente. Critica o seu dogmatismo, cegueira e incapacidade de auto-crítica. Porém, exibe exactamente os mesmos males. Defende como repugnante a hostilidade contra Trump, fazendo tábua-rasa dos seus crimes - violação de menores, cumplicidade activa com redes de tráfico e prostituição de menores, tentativa de derrube do Estado democrático, perseguição a jornalistas e políticos, roubos de Estado, bullying internacional, promessas de invadir países, etc. Mais, defende a entrada de Trump com militares, com raptos e mortes na Venezuela com o argumento de que é sempre bom derrubar um ditador, dizendo que os seus críticos se agarram a um mero "formalismo legal", como se, criticar um ditador por raptar outro ditador para lhe roubar petróleo e outras riquezas fosse um pormenor técnico insignificante no grande esquema das coisas.

Este é o grande problema dos dias que correm: a direita defende ditadores, terroristas colonialistas e proto-fascistas como Trump e outros do género e a esquerda defende ditadores, terroristas colonialistas e fascistas como os Ayatolas, o Hamas e outros do género, enquanto se acusam uns aos outros de apoiantes de ditadores. Curiosamente, ou não, ambos os lados têm grandes defensores de Putin, o paradigma do fascismo colonialista imperialista... 

Onde é que nós, aqueles que não se revêem em fascistas, sejam políticos ou religiosos, ficamos? 

Quer um dos lados vença ou o outro, ficamos sempre subjugados por fascismo. Se a Europa não se une contra estes fascismos -o de Trump, o de Putin, o dos islamitas- baseada nas ideias do ilumiminismo (autonomia, liberdade, discussão racional, crítica, Estado de Direito) e não na fé, propaganda e ideologias radicais, e se não consegue tornar-se um bastião de resistência a estes fascismos, estaremos no início de uma nova Idade Média, emparedados entre o fascismo de Trump, a ocidente, o de Putin, a leste e o de islamitas a sul.

A entrada de Trump na Venezuela, se por um lado põe problemas a Putin, por causa do petróleo, por outro, reforça a sua ideologia fascista das esferas de influência e da legitimidade da força como única diplomacia.

Infelizmente o jornalismo já não faz um bom trabalho a lutar pela democracia. Está comprometido.

Ser de esquerda faz pessoas boas defenderem coisas más

A falência da bússola moral provocada pelo dogma político leva algumas pessoas a traírem os valores iluministas que dão à Humanidade a sua decência natural.

Ricardo Simões Ferreira
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

Foi o físico e Nobel Steven Weinberg quem disse, em 1999, uma verdade que o jornalista Christopher Hitchens viria a transformar num pilar da sua crítica: "Com ou sem religião, as pessoas boas farão o bem e as pessoas más farão o mal. Mas, para que as pessoas boas façam coisas más, é necessária a religião." E em plena terceira década do século XXI, esta realidade, mesmo com o declínio das Igrejas no Ocidente, não desapareceu – mudou de pele.

O dogma, a infalibilidade e o fascínio pelo poder inquisitório encontraram um novo hospedeiro, numa certa esquerda radical que, perante os escombros morais do seu projeto social, derrotado no século passado, prefere a cegueira voluntária à admissão do erro.

É impossível olhar para a sociedade atual e não questionar: como chegámos a este abismo ético onde indivíduos que se autointitulam "humanistas" se tornam cúmplices abjetos da continuada repressão em Cuba, do regime dos ayatollahsno Irão ou da miséria na Nicarágua? Pela transformação da política numa "religião secular", como bem diagnosticou Raymond Aron em O Ópio dos Intelectuais (publicado logo em 1955). O marxismo não é uma teoria económica, é um sistema de fé totalitário que oferece tudo, da promessa de um paraíso terrestre (a utopia) a um bode expiatório para o mal (o capitalismo), passando por um clero académico encarregue de polir a narrativa.

Assim, quando a ideologia se torna fé, a realidade (essa, a que vivemos) passa a ser uma heresia a ser suprimida. Se o socialismo real produz invariavelmente fome e cadáveres, o crente não questiona a doutrina – culpa os "traidores" ou o "bloqueio". É uma dissonância cognitiva que raia a psicose: para não admitirem que a sua bússola moral está partida, estas "pessoas boas" preferem ignorar o sofrimento de milhões. O sofrimento humano resume-se então a um detalhe estatístico, porque o que importa é a preservação do dogma.

Este é ainda o subproduto de décadas de uma "Longa Marcha" realizada nas instituições Ocidentais. Escolas e meios de comunicação foram há muito capturados por uma hegemonia que substituiu o pensamento crítico por uma dita "clareza moral" – um eufemismo para a doutrinação. Isso hoje é bem patente no ódio patológico a figuras como Donald Trump, que funciona como uma lobotomia intelectual. Se Trump ordena a captura de um criminoso como Nicolás Maduro, a esquerda no seu todo, num espasmo de hipocrisia, corre a defender o tirano em nome de um "direito internacional" que nunca evocam para as vítimas da ditadura. O antiamericanismo tornou-se o seu único mandamento, mesmo que isso os obrigue a beijar (outra vez) a mão de déspotas sanguinários.

É de um narcisismo moral repugnante. Estas pessoas não amam os oprimidos que dizem defender. Apenas odeiam o sistema que lhes permite viver em liberdade. Defender Cuba enquanto bebem um café num bairro giro de Lisboa não é solidariedade, é um luxo que se torna obsceno porque essa mesma pessoa vive num regime que nunca a obrigará a comer pão racionado. A sua solidariedade é seletiva, pois desumaniza os venezuelanos, ou os cubanos, ou os que estiverem na mira no momento, tratando-os como meras peças descartáveis de um tabuleiro geopolítico.

A captura de Maduro pelos EUA pode ser, do ponto de vista do formalismo legal, muito discutível. E o futuro daquela nação permanece, tragicamente, incerto. Mas há uma clareza moral que nenhum jurista de conveniência pode ofuscar: um tirano sanguinário, responsável por tortura e miséria sistémica, foi finalmente posto atrás das grades. E isso, dê por onde der, é sempre uma excelente notícia para qualquer ser humano que ainda possua um átomo de decência.

Se queremos chegar a ser uma Humanidade minimamente iluminada, temos de recuperar o espírito iconoclasta de Hitchens – ele próprio um homem inicialmente de esquerda. É preciso denunciar a cobardia desta gente que, em nome de uma utopia morta, prefere validar a mensagem de autocratas do que dar o braço a torcer à realidade. Enquanto os deixarmos influenciar a opinião pública e as nossas crianças, continuaremos a produzir "pessoas boas" que marcham entusiasticamente ao lado do mal.


September 23, 2025

A direita e a esquerda trocaram de fatos

 


Os conservadores extremistas estão muito mais alinhados com os terroristas do Hamas que com os israelitas: oposição através da violência e do incitamento ao ódio, ódios à voz das mulheres e às democracias. Aqui neste vídeo, os apoiantes do Hamas vieram para a rua, em Milão, de cara tapada e com pedras na mão, assim que souberam que o governo de Meloni não ia reconhecer o seu Estado de terroristas. O modo de estar dos islamitas do Hamas, seja em paz ou em guerra, é a violência. Isto bate certo com os conservadores americanos cujas estrelas são pessoas que incitam ao ódio, à violência armada (veja-se como Trump mudou o nome do «Ministério da Defesa» para «Ministério da Guerra» - e quer o Nobel da Paz...), à propagação de milícias, tendo como base comum aos palestinianos do Hamas, uma vivência fanática da religião.
Em contrapartida a esquerda moderada, que costumava estar alinhada com o diálogo, a discussão de ideias, o respeito pelos direitos humanos, etc., agora está alinhada com os terroristas, normaliza o fanatismo religioso (o fanatismo violento dos islamitas do Hamas não é diferente do fanatismo violento do KKK), a violência dos terroristas do Hamas, seja a de rua, seja a da violação de mulheres como um modo cultural legítimo que deve ser aceite, mais os assassinatos e a tortura como meios legítimos de ganhar poder - deixou-se engolir pelos extremistas.
Uns e outros estão em total contradição com os seus princípios e valores. Trocaram de posições e é estranho vê-los em negação, vestidos com os fatos do adversário como se fossem os seus.


October 22, 2020

É por isto que só temos incompetentes em tudo quanto é cargo

 


O princípio deste artigo, que é de ontem, penso, diz que Cavaco Silva fez uma coisa bem feita e boa (obrigar a acordo entre os partidos da geringonça) mas como o autor é contra Cavaco Silva concluiu que ele fez o bem sem querer, quer dizer, a intenção era má mas foi incompetente na execução e resultou em competência - veja-se lá a complicação; depois diz que Marcelo fez de modo diferente e mal (não obrigar a acordo entre os partidos da geringonça) e no fim do artigo exorta-o a fazer o que Cavaco fez (embora não diga por estas palavras) e conclui que Marcelo fez mal, foi incompetente mas como foi com boa intenção, há competência, de modo que Marcelo foi um incompetente, competente, com resultado incompetente - ao contrário de Cavaco que foi um competente, incompetente, com resultado competente.

A política em Portugal é isto: se és da direita, tudo o que a esquerda faz é mal intencionado e se és da esquerda, todos que são da direita são mal intencionados. Não interessa que façam bem e sejam competentes, interessa é que sejam da esquerda (neste caso, porque podia ser o inverso se o articulista fosse da direita). 

Ou as pessoas como são calculistas e dão sempre passos a calcular o efeito e não a pensar no bem, assumem que os outros são todos iguais.




July 05, 2020

Como as coisas mudam radicalmente em duas ou três dezenas de anos - e não para melhor



Reagan foi um homem da direita forte e convicta, mas passadas umas poucas dezenas de anos -tirando a parvoíce daquela ideia mitológica que tem acerca dos EUA serem fadados para a grandeza- o discurso dele aparece como um discurso da esquerda, de defesa dos imigrantes e do pluralismo de culturas. Muito interessante.


May 24, 2020

Não há dúvida de que Ventura vai de vento em popa



Frequentemente é o assunto do dia e não pelas razões certas, mas porque os que deviam estar ocupados a pensar acerca da razão de cada vez mais gente apostar nele e de como contrariar esse facto, se reduzirem à prática de chamar-lhe nomes, censurá-lo e rogar-lhe pragas. É assim que Ventura vai a caminho de roubar muito votos à chamada direita (O CDS) e até ao PDS, partidos que perdem seguidores todos os dias por estarem sem cabeça e sem rumo. Vem isto a propósito da quantidade de disparates que leio nas notícias, contra e a favor de Ventura, nem uns nem outros com argumentos dignos desse nome: ou escrevem a chamar-lhe fascista abjecto e coisas do mesmo teor -em que é que isso ajuda a refutar/desmascarar as posições dele e a mudar as ideias de quem vê nele um corajoso que se atreve a dizer o que todos calam subservientemente-, ou escrevem discursos pseudo-filosóficos, como este que acabo de ler de um tal Gabrial Mithá Ribeiro, uma colagem de palavras mal empregues e com parágrafos inteiros ocos de significado.

Não há dúvida de que Ventura vai de vento em popa e, se nada mudar nesta estratégia que faz dele uma vítima, havemos de ver o partido dele aumentar os deputados na próxima legislatura, não por os portugueses serem direitistas, mas por a direita portuguesa pensante estar perdida, sem rumo e sem cabeça. E como a direita não produz um discurso de alternativa contra as ideias de Ventura, quanto mais os da esquerda o ofendem e achincalham mais votos ele rouba à direita tradicional, de modo que esta direita, a pensante, devia ter uma estratégia para combater a vitimização de Ventura, que é o que lhe dá votos. E assim, em vez de o proibir e censurar, como fez a Cofina que recebeu milhões do governo de Fero Rodrigues que odeia o Ventura, deviam era demolir os seus falsos-argumentos. Pelos vistos não sabem como é que isso se faz, só sabem é chamar nomes. é um favor que lhe fazem a ele e à esquerda.

May 20, 2020

As feridas que não fecham




as-feridas-abertas-do-comunismo-estao-a-empurrar-hungaros-para-extrema-direita-

São inúmeros os países europeus que viveram, durante décadas, sob o jugo de sistemas ditatoriais. Milhares de cidadãos, considerados inimigos dos regimes pelos mais variados motivos, deram entrada em prisões, campos de trabalho ou de concentração. Aos milhões foram executados. A Hungria não foi, neste plano, uma excepção. Alinhado à esquerda estalinista, o regime comunista húngaro, que vigorou entre 1949 e 1989, vitimou centenas de milhares de pessoas. Hoje, longe do comunismo que a feriu tão gravemente, a Hungria é um país encostado à direita conservadora, nacionalista e populista.
(...)
Cada país convive de forma diferente com as feridas da ditadura. Daniel não crê que a Hungria queira, activamente, silenciar o passado. Nem acredita que tal fosse possível. “Mas também não o processámos, nem compensámos as vítimas, nem revelámos a verdade inteiramente”, observa. Está convicto de que os húngaros preferem não enfrentar os factos, que preferem "esquecer, viajar, trabalhar muito". Também não existe vontade política de explorar o passado, uma vez que muitos daqueles que governam hoje o país tiveram familiares directos em cargos de poder no período da ditadura. Mas pode um país ferido superar os seus traumas sem os processar? Pode uma fuga do comunismo justificar uma abertura de portas à extrema-direita?
(...)
Na Hungria não há grupos radicais tão numerosos como noutros países da Europa. O comunismo e outros pensamentos de esquerda estão gastos, obsoletos. Existem grupos de homens idosos que ainda se identificam com eles, talvez alguns mihares de pessoas na Hungria, hoje, na totalidade. O que é bom, creio. Vejo todos os tipos de radicalismo como perigosos num estado pós-socialista."