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July 14, 2026

Por que razão os alemães comuns escolheram Hitler? E o que faria você?




Por que razão os alemães comuns escolheram Hitler é o título de um excelente ensaio de Celina101. O artigo é enorme. Vou fazer aqui uma suma porque o paralelismo entre a época que ela analisa e nossa é gritante. 

Diz ela:

A queda da República de Weimar é, geralmente, reduzida a uma narrativa simplista sobre como um louco hipnotizou uma população racional, através de propaganda e carisma. Estas explicações não resistem ao escrutínio histórico e infantilizam o eleitorado da época. Encarar a ascensão do Terceiro Reich apenas como um triunfo do ódio, do fanatismo ou da ilusão colectiva obscurece deliberadamente a realidade contingente do período entre guerras.
 
Segundo a autora, milhões de cidadãos comuns apoiaram ou aceitaram o Partido Nazi porque acreditavam que a Alemanha enfrentava uma crise existencial, viam-se entalados entre duas alternativas perigosas e más e escolheram a direita como a menos má. O nacional-socialismo foi apoiado, tolerado ou passivamente aceite por milhões de alemães comuns e racionais porque acreditavam que a sua nação se encontrava à beira de um colapso existencial. 

De um lado a esquerda radical com a revolta marxista-leninista revolucionária, destrutora da propriedade, activamente dirigida por uma potência exterior aos interesses dos alemães: Moscovo; do outro, a direita radical com um movimento militante e nacionalista que, apesar da sua violência bruta, prometia ordem e salvação nacional.

A ascensão de Hitler dependeu, em grande parte, de uma crise histórica multi-facetada: a derrota traumática na Primeira Guerra Mundial com a humilhação do Tratado de Versalhes, ciclos devastadores de ruína económica, a normalização da violência para-militar e a paralisia das instituições democráticas liberais. 

A República de Weimar tinha falhado redondamente em proporcionar segurança básica, prosperidade económica ou dignidade nacional. A democracia liberal era amplamente vista como um sistema fraco e estranho, imposto pelas potências conquistadoras, um sistema incapaz de proteger a nação da ameaça muito real de uma revolução bolchevique.

Neste clima de intensa polarização, o NSDAP era cada vez mais visto como uma força contra-revolucionária necessária, como um movimento implacável, mas restaurador, capaz de impor a ordem e defender a civilização europeia tradicional da dissolução comunista.

Quando a Alemanha se rendeu, ainda ocupava uma parte grande da França, Bélgica e Europa Oriental. A repentina capitulação, aliada ao colapso da monarquia dos Hohenzollern e à abdicação do Kaiser Guilherme II, foi um choque. Tendo sido alvo de uma enorme propaganda que prometia uma vitória iminente, a população estava totalmente impreparada para a derrota.

Criou-se o mito da "facada nas costas": difundiu-se a ideia de que o exército alemão não tinha sido derrotado militarmente, mas traído por políticos democratas, socialistas, comunistas e judeus corruptos, o que enfraqueceu desde o início a legitimidade da democracia.

O sentimento de traição estava ligado ao Tratado de Versalhes, entendido como uma vingança. A Alemanha foi desmembrada, privada de 13% do seu território europeu, incluindo a Alsácia-Lorena — de vital importância industrial — e o Corredor Polaco, uma perda que separou completamente a Prússia Oriental do resto do Estado alemão. Foram confiscadas todas as colónias ultramarinas, um abalo da «mentalidade imperial» pré-guerra, de proeza global e destino económico que tinha sido fundamental para a identidade da classe média alemã desde o final do século XIX. O exército ficou limitado a 100,000 homens, não podiam ter aviação, artilharia pesada ou submarinos. Foram esmagados económica e psicologicamente.

Mais do que um Estado derrotado, era uma sociedade desonrada, traída e degradada, onde milhões de veteranos desmobilizados regressavam a uma pátria fragmentada, alimentando ressentimentos insolúveis. A república democrática nasceu à sombra sufocante desta derrota, o que fez com que tivesse dificuldade em conquistar a lealdade patriótica das elites conservadoras, dos funcionários públicos e da classe média em geral, que associavam fundamentalmente a democracia à fraqueza nacional e à humilhação internacional.

A República de Weimar passou a ser associada à rendição e à humilhação nacionais.

O medo do comunismo: a Revolução Russa e as tentativas de revolução comunista na Alemanha criaram um profundo receio entre a classe média, os agricultores, os empresários e os conservadores. Muitos acreditavam que um governo comunista significaria expropriações, violência e destruição da ordem social. [e tinham muita razão]

Os alemães leram com horror sobre o extermínio da família Romanov, as execuções sumárias de inimigos de classe levadas a cabo pela Cheka e a expropriação total e sem remorsos da propriedade privada, das terras agrícolas e das empresas. Além disso, o anti-clericalismo militante do regime soviético, que resultou na destruição generalizada de igrejas e no assassinato de padres, aterrorizou profundamente as populações cristãs devotas da Alemanha, tanto católicas como protestantes. Muitos defendem que a polarização da sociedade entre-guerras se deveu ao perigo da ameaça agressiva do totalitarismo bolchevique. O nacional-socialismo e outros movimentos fascistas tiveram um impulso fundamental devido à genuína ameaça do totalitarismo da revolução marxista-leninista. 

Fundamentalmente, o bolchevismo era radical e militantemente internacionalista. Lenin e Trotsky consideravam o Estado russo, ainda atrasado, como o palco inicial para uma revolta operária global, sendo o Estado alemão — altamente industrializado e politicamente instável — o prémio necessário para a sobrevivência da revolução global. A criação da Internacional Comunista (Comintern) em 1919 sinalizou claramente a intenção de Moscovo de financiar activamente e exportar a revolução para o Ocidente.

Para o Mittelstand alemão (classe média), funcionários públicos, lojistas e agricultores independentes, uma vitória comunista não significava uma melhoria de vida. Significava «deskulakização», coletivização forçada, a perda de todos os bens pessoais e familiares e a potencial liquidação física por serem definidos como «inimigos de classe». Este medo criou um ambiente em que qualquer força política que prometesse esmagar impiedosamente a ameaça marxista era vista como um potencial salvador da civilização europeia tradicional, independentemente dos seus outros atributos extremos.

Por todo o país, mas sobretudo a sul, cidades alemãs espelhavam o sistema soviético, desafiando directamente o establishment de uma democracia parlamentar liberal e ameaçando contornar por completo a autoridade estatal tradicional.

O recém-formado Partido Comunista da Alemanha (KPD) tentou uma insurreição armada para derrubar o governo provisório social-democrata (SPD). Privado de um exército nacional fiável na sequência da desmobilização, o governo do SPD tomou a decisão de se aliar aos Freikorps, unidades para-militares de direita fortemente armadas, compostas por veteranos de guerra amargurados e por anti-republicanos.

Os Freikorps esmagaram a revolta nas ruas de Berlim, executando sumariamente Rosa Luxemburg e Liebknecht sem julgamento, um acontecimento que envenenou de forma permanente as relações entre o SPD moderado e o KPD radical, fracturando fatalmente a esquerda alemã.

No sul a violência ainda era pior. Em 1919, socialistas radicais e comunistas proclamaram a República Soviética da Baviera em Munique e começaram o seu terror vermelho. Capturaram propriedade privada e fizerem reféns entre a nobreza e figuras da direita. Quando as forças governamentais se aproximara da cidade, os revolucionários executaram reféns. Os Freikorps conquistaram Munique em Maio de 1919 com artilharia e lança-chamas, massacrando entre 600 e 1 200 comunistas, anarquistas e suspeitos de simpatizar com a esquerda.

A Baviera, tradicionalmente um bastião conservador e católico, virou-se drasticamente para a extrema-direita radical, encarando a breve república soviética como um terrível reinado de terror, escassez alimentar e ocupação estrangeira. Eis porque Munique se tornou um terreno fértil para o partido nazi de Hitler. Aliás, Hitler esteve presente em Munique durante estes eventos e aproveitou-os mais tarde nos seus discursos.

A violência política: durante a República de Weimar, nos anos 20 e 30, eram frequentes os confrontos armados entre comunistas e grupos para-militares de direita. Os governos sucediam-se uns aos outros. Esta instabilidade levou muitos cidadãos a concluir que apenas um governo forte conseguiria restaurar a ordem.

As fragilidades da República de Weimar: governos de coligação instáveis, sucessivas crises políticas e a utilização frequente de poderes de emergência sem escrutínio legal ou democrático fizeram muitos alemães perder a confiança na democracia parlamentar. A esquerda continuava aliada a Moscovo na tentativa de destruir a ordem democrática.

As crises económicas: a hiperinflação de 1923 destruiu as poupanças da classe média e a Grande Depressão provocou desemprego em massa e falências. Em vez de apoiar a economia com despesa pública, o governo impôs uma autoridade sufocante. Muitos passaram a considerar que os partidos tradicionais eram incapazes de resolver a situação. 

A estratégia política dos nazis: o NSDAP apresentou-se como um partido capaz de unir a nação, restaurar o orgulho nacional, combater o comunismo, criar emprego e revogar o Tratado de Versalhes. Adaptava a sua mensagem aos diferentes grupos sociais, prometendo soluções específicas para trabalhadores, agricultores, empresários e funcionários públicos.

Porque escolheram a extrema-direita e não a extrema-esquerda? 
A autora argumenta que, para muitos alemães, os nazis prometiam preservar a propriedade privada, a família, a religião e a identidade nacional, enquanto os comunistas eram vistos como uma ameaça revolucionária que destruiria essas instituições. A esquerda significava um perigo existencial, a direita um perigo conjuntural. 

Antes um extremismo temporário que ser uma colónia da Rússia.

Além disso, a divisão entre comunistas e sociais-democratas impediu uma frente comum contra Hitler.

O papel das elites conservadoras: Hitler não conquistou a maioria absoluta dos votos. Foi nomeado chanceler porque políticos conservadores e o presidente Hindenburg acreditavam que conseguiriam controlá-lo e utilizar a sua popularidade para estabilizar o país. Esse cálculo revelou-se desastroso.

A transformação em ditadura: depois de chegar legalmente ao poder, Hitler aproveitou o incêndio do Reichstag para suspender liberdades, prender opositores e obter poderes extraordinários, eliminando rapidamente a democracia.

Conclusão

O colapso da República de Weimar resultou da combinação de humilhação nacional, de crises económicas profundas, do medo do comunismo, da violência política e policial, da perda de confiança na democracia e suas instituições e dos erros das elites conservadoras. 

A autora defende que muitos alemães não viam a escolha entre democracia e ditadura, mas sim entre dois extremismos, considerando o nazismo o "mal menor" perante a ameaça de uma revolução comunista idêntica à da Rússia, da qual tinham tido uma amostra assustadora em várias cidades alemãs.

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É difícil não traçar um paralelismo entre esta situação e a nossa. Também hoje estamos desiludidos com o falhanço das instituições democráticas, as alianças  partidárias para formar governos são instáveis, a corrupção está generalizada, a justiça capturada, a cedência dos políticos a grupos canibais multinacionais, os poderes políticos que vivem e trabalham de costa voltadas para os 'soberanos' que somos nós, como diz a atriz alemã no vídeo do post anterior. Tomam decisões que prejudicam a maioria, desinvestem nos serviços públicos para fazer enriquecer boys e primos.

Quantos nos dias de hoje consideram que os partidos tradicionais não são capazes de resolver a situação de decadência das sociedades? O desinvestimento na educação em todo o mundo civilizado e a captura das universidades, seja por islamitas aliados à esquerda extrema, seja por bilionários aliados à direita radica, deu origem a extrema desconfiança das instituições que projectavam a nossa prosperidade e avanço no conhecimento. A saúde capturada por multi-nacionais vorazes, sem que os políticos intervenham. Por todo o lado a descrença e o medo.

Compreende-se que a seguir à Segunda Guerra as sociedades em geral tenham virado à esquerda, mas essa esquerda já não é esta esquerda que agora existe.

Esta nova esquerda está aliada a movimentos agressivos e alguns, como os islamistas radicais da IM (e não só), totalitários e extremamente violentos que querem impor a todos através da censura e da prisão a submissão ao seu ponto de vista. Tal como antes, usam o termo ódio como uma acusação de culpa e inventam fobias e ódios para calar a crítica. Os governos de esquerda, outrora vistos como bastiões da justiça social e da moralidade, agora mentem deliberadamente ao povo para poder impor ideologias devastadoras, não se separando em nada do MO da direita.

O islamismo radical é uma ameaça existencial ao nosso modo de vida, às nossas democracias, aos direitos humanos. E a esquerda, mesmo a moderada, está aliada a esse movimento e protege-o. Em Inglaterra já ninguém confia em nenhuma instituição, em França, na Bélgica, na Espanha, na Suécia... e aqui em Portugal estamos a caminho do caos de Inglaterra e pela mesma razão.

Na semana passada ouvi um governante belga, na Euronews, defender que estavam a ponderar pôr o exército a patrulhar as ruas porque já não controlam os imigrantes: só este ano houve mais de 100 tiroteios, fora os ataques com sabre e facas. Portanto, também entrámos na fase de ter grupo para-militares a necessitar da intervenção do exército nas ruas, onde dantes andávamos à vontade. São forças a tentar derrubar a os governos da democracia.

Para além do islamismo radical, temos o imperialismo russo, outra fonte de terrorismo apoiado pela esquerda radical e extremista. Ainda hoje li que os 60 bloquistas que abandonaram o partido o fizerem, em grande parte, por os dirigentes não apoiarem Putin contra Zelensky.

A esquerda radical, por toda a Europa, EUA, Austrália e Canadá aliou-se a movimentos que representam perigos existenciais para as democracias.

Tal como aconteceu na Alemanha, também nós que não nos revemos na esquerda radical ambiciosa de poder, apoiante de forças totalitárias, terroristas, nem na direita radical, apoiante de ditadores de fanatismo religioso e ganância de dinheiro, nos sentimos encurralados. 

Os poucos governos de centro que restam não estão a fazer o seu trabalho de fortalecer as democracias e suas instituições de maneira a afastar estes perigos que, uma vez instalados, como se vê nos países islâmicos, na Rússia e na China, são extremamente difíceis de desinstalar. Veja-se o sacrifico da Ucrânia. Ou o do povo iraniano. Ou o que aconteceu aos alemães depois de terem escolhido a direita e terem levado com o Hitler em cima. Porém, a questão é: nessa altura dos anos 30, que alternativa tinham? O terror vermelho com a obliteração de si mesmos?

Quando as pessoas no Ocidente forem chamadas a escolher entre a esquerda radical aliada às forças terroristas russas e islâmicas que dizem publicamente querer fazer desaparecer a cultura europeia e a direita radical, que diz ser a salvação desse perigo, quem vão as pessoas escolher? Quem escolheria você? Parece-me óbvio. Nos EUA já responderam a essa questão.
Os eleitores desesperados, considerando os partidos moderados do establishment como os arquitectos deliberados da sua ruína, acorreram aos milhões aos extremos políticos.

 

January 10, 2026

Ser lúcido a ver os outros e cego a ver-se a si próprio



Neste artigo o jornalista faz um diagnóstico muito certeiro desta esquerda cúmplice com os autoritarismos anti-Ocidente. Critica o seu dogmatismo, cegueira e incapacidade de auto-crítica. Porém, exibe exactamente os mesmos males. Defende como repugnante a hostilidade contra Trump, fazendo tábua-rasa dos seus crimes - violação de menores, cumplicidade activa com redes de tráfico e prostituição de menores, tentativa de derrube do Estado democrático, perseguição a jornalistas e políticos, roubos de Estado, bullying internacional, promessas de invadir países, etc. Mais, defende a entrada de Trump com militares, com raptos e mortes na Venezuela com o argumento de que é sempre bom derrubar um ditador, dizendo que os seus críticos se agarram a um mero "formalismo legal", como se, criticar um ditador por raptar outro ditador para lhe roubar petróleo e outras riquezas fosse um pormenor técnico insignificante no grande esquema das coisas.

Este é o grande problema dos dias que correm: a direita defende ditadores, terroristas colonialistas e proto-fascistas como Trump e outros do género e a esquerda defende ditadores, terroristas colonialistas e fascistas como os Ayatolas, o Hamas e outros do género, enquanto se acusam uns aos outros de apoiantes de ditadores. Curiosamente, ou não, ambos os lados têm grandes defensores de Putin, o paradigma do fascismo colonialista imperialista... 

Onde é que nós, aqueles que não se revêem em fascistas, sejam políticos ou religiosos, ficamos? 

Quer um dos lados vença ou o outro, ficamos sempre subjugados por fascismo. Se a Europa não se une contra estes fascismos -o de Trump, o de Putin, o dos islamitas- baseada nas ideias do ilumiminismo (autonomia, liberdade, discussão racional, crítica, Estado de Direito) e não na fé, propaganda e ideologias radicais, e se não consegue tornar-se um bastião de resistência a estes fascismos, estaremos no início de uma nova Idade Média, emparedados entre o fascismo de Trump, a ocidente, o de Putin, a leste e o de islamitas a sul.

A entrada de Trump na Venezuela, se por um lado põe problemas a Putin, por causa do petróleo, por outro, reforça a sua ideologia fascista das esferas de influência e da legitimidade da força como única diplomacia.

Infelizmente o jornalismo já não faz um bom trabalho a lutar pela democracia. Está comprometido.

Ser de esquerda faz pessoas boas defenderem coisas más

A falência da bússola moral provocada pelo dogma político leva algumas pessoas a traírem os valores iluministas que dão à Humanidade a sua decência natural.

Ricardo Simões Ferreira
Editor-Executivo Adjunto do Diário de Notícias

Foi o físico e Nobel Steven Weinberg quem disse, em 1999, uma verdade que o jornalista Christopher Hitchens viria a transformar num pilar da sua crítica: "Com ou sem religião, as pessoas boas farão o bem e as pessoas más farão o mal. Mas, para que as pessoas boas façam coisas más, é necessária a religião." E em plena terceira década do século XXI, esta realidade, mesmo com o declínio das Igrejas no Ocidente, não desapareceu – mudou de pele.

O dogma, a infalibilidade e o fascínio pelo poder inquisitório encontraram um novo hospedeiro, numa certa esquerda radical que, perante os escombros morais do seu projeto social, derrotado no século passado, prefere a cegueira voluntária à admissão do erro.

É impossível olhar para a sociedade atual e não questionar: como chegámos a este abismo ético onde indivíduos que se autointitulam "humanistas" se tornam cúmplices abjetos da continuada repressão em Cuba, do regime dos ayatollahsno Irão ou da miséria na Nicarágua? Pela transformação da política numa "religião secular", como bem diagnosticou Raymond Aron em O Ópio dos Intelectuais (publicado logo em 1955). O marxismo não é uma teoria económica, é um sistema de fé totalitário que oferece tudo, da promessa de um paraíso terrestre (a utopia) a um bode expiatório para o mal (o capitalismo), passando por um clero académico encarregue de polir a narrativa.

Assim, quando a ideologia se torna fé, a realidade (essa, a que vivemos) passa a ser uma heresia a ser suprimida. Se o socialismo real produz invariavelmente fome e cadáveres, o crente não questiona a doutrina – culpa os "traidores" ou o "bloqueio". É uma dissonância cognitiva que raia a psicose: para não admitirem que a sua bússola moral está partida, estas "pessoas boas" preferem ignorar o sofrimento de milhões. O sofrimento humano resume-se então a um detalhe estatístico, porque o que importa é a preservação do dogma.

Este é ainda o subproduto de décadas de uma "Longa Marcha" realizada nas instituições Ocidentais. Escolas e meios de comunicação foram há muito capturados por uma hegemonia que substituiu o pensamento crítico por uma dita "clareza moral" – um eufemismo para a doutrinação. Isso hoje é bem patente no ódio patológico a figuras como Donald Trump, que funciona como uma lobotomia intelectual. Se Trump ordena a captura de um criminoso como Nicolás Maduro, a esquerda no seu todo, num espasmo de hipocrisia, corre a defender o tirano em nome de um "direito internacional" que nunca evocam para as vítimas da ditadura. O antiamericanismo tornou-se o seu único mandamento, mesmo que isso os obrigue a beijar (outra vez) a mão de déspotas sanguinários.

É de um narcisismo moral repugnante. Estas pessoas não amam os oprimidos que dizem defender. Apenas odeiam o sistema que lhes permite viver em liberdade. Defender Cuba enquanto bebem um café num bairro giro de Lisboa não é solidariedade, é um luxo que se torna obsceno porque essa mesma pessoa vive num regime que nunca a obrigará a comer pão racionado. A sua solidariedade é seletiva, pois desumaniza os venezuelanos, ou os cubanos, ou os que estiverem na mira no momento, tratando-os como meras peças descartáveis de um tabuleiro geopolítico.

A captura de Maduro pelos EUA pode ser, do ponto de vista do formalismo legal, muito discutível. E o futuro daquela nação permanece, tragicamente, incerto. Mas há uma clareza moral que nenhum jurista de conveniência pode ofuscar: um tirano sanguinário, responsável por tortura e miséria sistémica, foi finalmente posto atrás das grades. E isso, dê por onde der, é sempre uma excelente notícia para qualquer ser humano que ainda possua um átomo de decência.

Se queremos chegar a ser uma Humanidade minimamente iluminada, temos de recuperar o espírito iconoclasta de Hitchens – ele próprio um homem inicialmente de esquerda. É preciso denunciar a cobardia desta gente que, em nome de uma utopia morta, prefere validar a mensagem de autocratas do que dar o braço a torcer à realidade. Enquanto os deixarmos influenciar a opinião pública e as nossas crianças, continuaremos a produzir "pessoas boas" que marcham entusiasticamente ao lado do mal.


September 23, 2025

A direita e a esquerda trocaram de fatos

 


Os conservadores extremistas estão muito mais alinhados com os terroristas do Hamas que com os israelitas: oposição através da violência e do incitamento ao ódio, ódios à voz das mulheres e às democracias. Aqui neste vídeo, os apoiantes do Hamas vieram para a rua, em Milão, de cara tapada e com pedras na mão, assim que souberam que o governo de Meloni não ia reconhecer o seu Estado de terroristas. O modo de estar dos islamitas do Hamas, seja em paz ou em guerra, é a violência. Isto bate certo com os conservadores americanos cujas estrelas são pessoas que incitam ao ódio, à violência armada (veja-se como Trump mudou o nome do «Ministério da Defesa» para «Ministério da Guerra» - e quer o Nobel da Paz...), à propagação de milícias, tendo como base comum aos palestinianos do Hamas, uma vivência fanática da religião.
Em contrapartida a esquerda moderada, que costumava estar alinhada com o diálogo, a discussão de ideias, o respeito pelos direitos humanos, etc., agora está alinhada com os terroristas, normaliza o fanatismo religioso (o fanatismo violento dos islamitas do Hamas não é diferente do fanatismo violento do KKK), a violência dos terroristas do Hamas, seja a de rua, seja a da violação de mulheres como um modo cultural legítimo que deve ser aceite, mais os assassinatos e a tortura como meios legítimos de ganhar poder - deixou-se engolir pelos extremistas.
Uns e outros estão em total contradição com os seus princípios e valores. Trocaram de posições e é estranho vê-los em negação, vestidos com os fatos do adversário como se fossem os seus.


October 22, 2020

É por isto que só temos incompetentes em tudo quanto é cargo

 


O princípio deste artigo, que é de ontem, penso, diz que Cavaco Silva fez uma coisa bem feita e boa (obrigar a acordo entre os partidos da geringonça) mas como o autor é contra Cavaco Silva concluiu que ele fez o bem sem querer, quer dizer, a intenção era má mas foi incompetente na execução e resultou em competência - veja-se lá a complicação; depois diz que Marcelo fez de modo diferente e mal (não obrigar a acordo entre os partidos da geringonça) e no fim do artigo exorta-o a fazer o que Cavaco fez (embora não diga por estas palavras) e conclui que Marcelo fez mal, foi incompetente mas como foi com boa intenção, há competência, de modo que Marcelo foi um incompetente, competente, com resultado incompetente - ao contrário de Cavaco que foi um competente, incompetente, com resultado competente.

A política em Portugal é isto: se és da direita, tudo o que a esquerda faz é mal intencionado e se és da esquerda, todos que são da direita são mal intencionados. Não interessa que façam bem e sejam competentes, interessa é que sejam da esquerda (neste caso, porque podia ser o inverso se o articulista fosse da direita). 

Ou as pessoas como são calculistas e dão sempre passos a calcular o efeito e não a pensar no bem, assumem que os outros são todos iguais.




July 05, 2020

Como as coisas mudam radicalmente em duas ou três dezenas de anos - e não para melhor



Reagan foi um homem da direita forte e convicta, mas passadas umas poucas dezenas de anos -tirando a parvoíce daquela ideia mitológica que tem acerca dos EUA serem fadados para a grandeza- o discurso dele aparece como um discurso da esquerda, de defesa dos imigrantes e do pluralismo de culturas. Muito interessante.


May 24, 2020

Não há dúvida de que Ventura vai de vento em popa



Frequentemente é o assunto do dia e não pelas razões certas, mas porque os que deviam estar ocupados a pensar acerca da razão de cada vez mais gente apostar nele e de como contrariar esse facto, se reduzirem à prática de chamar-lhe nomes, censurá-lo e rogar-lhe pragas. É assim que Ventura vai a caminho de roubar muito votos à chamada direita (O CDS) e até ao PDS, partidos que perdem seguidores todos os dias por estarem sem cabeça e sem rumo. Vem isto a propósito da quantidade de disparates que leio nas notícias, contra e a favor de Ventura, nem uns nem outros com argumentos dignos desse nome: ou escrevem a chamar-lhe fascista abjecto e coisas do mesmo teor -em que é que isso ajuda a refutar/desmascarar as posições dele e a mudar as ideias de quem vê nele um corajoso que se atreve a dizer o que todos calam subservientemente-, ou escrevem discursos pseudo-filosóficos, como este que acabo de ler de um tal Gabrial Mithá Ribeiro, uma colagem de palavras mal empregues e com parágrafos inteiros ocos de significado.

Não há dúvida de que Ventura vai de vento em popa e, se nada mudar nesta estratégia que faz dele uma vítima, havemos de ver o partido dele aumentar os deputados na próxima legislatura, não por os portugueses serem direitistas, mas por a direita portuguesa pensante estar perdida, sem rumo e sem cabeça. E como a direita não produz um discurso de alternativa contra as ideias de Ventura, quanto mais os da esquerda o ofendem e achincalham mais votos ele rouba à direita tradicional, de modo que esta direita, a pensante, devia ter uma estratégia para combater a vitimização de Ventura, que é o que lhe dá votos. E assim, em vez de o proibir e censurar, como fez a Cofina que recebeu milhões do governo de Fero Rodrigues que odeia o Ventura, deviam era demolir os seus falsos-argumentos. Pelos vistos não sabem como é que isso se faz, só sabem é chamar nomes. é um favor que lhe fazem a ele e à esquerda.

May 20, 2020

As feridas que não fecham




as-feridas-abertas-do-comunismo-estao-a-empurrar-hungaros-para-extrema-direita-

São inúmeros os países europeus que viveram, durante décadas, sob o jugo de sistemas ditatoriais. Milhares de cidadãos, considerados inimigos dos regimes pelos mais variados motivos, deram entrada em prisões, campos de trabalho ou de concentração. Aos milhões foram executados. A Hungria não foi, neste plano, uma excepção. Alinhado à esquerda estalinista, o regime comunista húngaro, que vigorou entre 1949 e 1989, vitimou centenas de milhares de pessoas. Hoje, longe do comunismo que a feriu tão gravemente, a Hungria é um país encostado à direita conservadora, nacionalista e populista.
(...)
Cada país convive de forma diferente com as feridas da ditadura. Daniel não crê que a Hungria queira, activamente, silenciar o passado. Nem acredita que tal fosse possível. “Mas também não o processámos, nem compensámos as vítimas, nem revelámos a verdade inteiramente”, observa. Está convicto de que os húngaros preferem não enfrentar os factos, que preferem "esquecer, viajar, trabalhar muito". Também não existe vontade política de explorar o passado, uma vez que muitos daqueles que governam hoje o país tiveram familiares directos em cargos de poder no período da ditadura. Mas pode um país ferido superar os seus traumas sem os processar? Pode uma fuga do comunismo justificar uma abertura de portas à extrema-direita?
(...)
Na Hungria não há grupos radicais tão numerosos como noutros países da Europa. O comunismo e outros pensamentos de esquerda estão gastos, obsoletos. Existem grupos de homens idosos que ainda se identificam com eles, talvez alguns mihares de pessoas na Hungria, hoje, na totalidade. O que é bom, creio. Vejo todos os tipos de radicalismo como perigosos num estado pós-socialista."