April 28, 2020
Poesia de Torga ao entardecer
Insónia Alentejana
Pátria pequena, deixa-me dormir,
Um momento que seja,
No teu leito maior, térrea planura
Onde cabe o meu corpo e o meu tormento.
Nesta larga brancura
De restolhos, de cal e solidão,
E ao lado do sereno sofrimento
Dum sobreiro a sangrar,
Pode, talvez, um pobre coração
Bater e ao mesmo tempo descansar...
Who is the angel in your dreams?
Elias, o profeta, foge para o deserto e adormece depois de desejar a morte. Acorda com um anjo a oferecer-lhe comida e bebida.
Elijah in the Wilderness, 1878, by Lord Frederic Leighton (British, 1830-1896)
Pormenor
Leituras pela manhã - Are we all Kantians now?
The Covid-19 effect on moral philosophy
Unthinkable: The pandemic is exposing long-tolerated inequalities
The coronavirus pandemic has been a shock not just to the health system. It has given a jump-start to moral consciences. Things we tolerated as a society – such as low pay for essential workers and income barriers to hospital treatment – suddenly seem abominable.
Structural unfairness has become harder to ignore. Ethical exceptionalism – the idea that some people can operate by a different moral code – gets short shrift at a time of intimate interdependence.
This virus is making it harder for us to shield our eyes from the conditions some workers are being asked to tolerate
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And not before time, says Katy Dineen, an assistant lecturer in philosophy at UCC, who regards the Enlightenment thinker Immanuel Kant as a suitable guide in our current predicament. A key aspect of his ethical framework is to avoid privileging oneself in moral deliberations. He forces us to ask what values we would rationally choose if we could stand back from our own circumstances and judge impartially.
Katy Dineen: “Kant has this great phrase, ‘the foul stain of our species’, to describe the human capacity for deception. We often lie, to others, and ourselves, painting our self-serving actions as motivated by duty and virtue. At the moment, corona is showing us that the inequalities we have tolerated in society cannot be hidden behind virtue.
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And not before time, says Katy Dineen, an assistant lecturer in philosophy at UCC, who regards the Enlightenment thinker Immanuel Kant as a suitable guide in our current predicament. A key aspect of his ethical framework is to avoid privileging oneself in moral deliberations. He forces us to ask what values we would rationally choose if we could stand back from our own circumstances and judge impartially.
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Covid-19 effects prime ministers and paupers and doesn’t care one whit for our special interests. The precariousness of some makes us all vulnerable.
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Emily Maitlis’s critique of the language around ‘we are all in this together’ is well made. But I think we might also add words like ‘hero’ when used for these necessary workers. Potentially, this is another instance of the language of virtue hiding a truth of injustice. Rather than lauding their heroism, I would prefer to see a stimulus package taking into account that these ‘self-employed’ workers may suffer the brunt of the coming economic crisis.
“Long-term decisions also have to be made. It would be reasonable to base these decisions around the elimination of this sort of precariousness. One idea here would be to follow New Zealand and focus on wellbeing rather than output to evaluate policies.”
Businesses and especially banks will be relied upon to drive on the economic recovery. How do we know if we can trust the banks again?
“We don’t trust banks – surveys repeatedly tell us this. Yet we need them. Affordable credit and a means of safeguarding assets allow individuals to grow businesses and put roofs over heads – now more than ever.
“Here I follow Onora O’Neill – another Kantian, by the way. We will never know for sure whether banks are trustworthy, we will have to make a judgment call. These days nearly all banks will have some policy telling consumers about their values. Here too we have to be wary of the ‘foul stain’, or the capacity for deceit in these matters. What we need is specific, relevant information.
“I am not talking about reams of terms and conditions that nobody ever reads. I am talking about information on whether the values stated in their policies actually play out authentically within the bank. And I think you will get good answers to this question if you ask their employees – anonymously.
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Tradução:
A pandemia do coronavírus tem sido um choque não só para o sistema de saúde. Impulsionou as consciências morais. Coisas que toleramos como sociedade - tais como salários baixos para trabalhadores essenciais e barreiras de rendimento ao tratamento hospitalar - parecem repentinamente abomináveis.
A injustiça estrutural tornou-se mais difícil de ignorar. O excepcionalismo ético - a ideia de que algumas pessoas podem operar através de um código moral diferente - é pouco tolerado numa altura de interdependência íntima.
Este vírus está a tornar mais difícil para nós proteger os nossos olhos das condições que alguns trabalhadores estão a ser solicitados a tolerar.
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E não antes do tempo, diz Katy Dineen, professora assistente de filosofia na UCC, que considera o pensador do Iluminismo Immanuel Kant como um guia adequado na nossa situação actual. Um aspecto chave do seu quadro ético é evitar privilegiar-se a si mesmo nas deliberações morais. Ele obriga-nos a perguntar que valores escolheríamos racionalmente se pudéssemos afastar-nos das nossas próprias circunstâncias e julgar imparcialmente.
Katy Dineen: "Kant tem esta grande frase, 'a mancha suja da nossa espécie', para descrever a capacidade humana de enganar. Muitas vezes mentimos, aos outros, e a nós próprios, pintando as nossas acções egoístas como motivadas pelo dever e pela virtude. Neste momento, o Coronavírus mostra-nos que as desigualdades que temos tolerado na sociedade não podem ser ocultadas por detrás da virtude.
"Covid-19 está a mostrar-nos como estes trabalhadores contingentes são necessários, e como foram maltratados. São frequentemente as pessoas que limpam hospitais, entregam embalagens, e mantêm as prateleiras dos supermercados abastecidas. Muitos destes trabalhadores não têm outra escolha a não ser estar por aí; o isolamento pode ser um marco de privilégio.
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A Covid-19 tem efeitos em primeiros-ministros e em pauperes e não se importa com os nossos interesses especiais. A precariedade de alguns torna-nos a todos vulneráveis.
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A crítica de Emily Maitlis à linguagem em torno do "estamos todos juntos nisto" está bem feita. Mas penso que também podemos acrescentar palavras como 'herói' quando usadas para estes trabalhadores necessários. Potencialmente, este é outro exemplo da linguagem da virtude que esconde uma verdade de injustiça. Em vez de elogiar o seu heroísmo, preferia ver um pacote de estímulos tendo em conta que estes trabalhadores "independentes" podem sofrer o peso da crise económica que se avizinha.
"Decisões a longo prazo também têm de ser tomadas. Seria razoável basear estas decisões em torno da eliminação deste tipo de precariedade. Uma ideia aqui seria seguir a Nova Zelândia e concentrar-se mais no bem-estar do que na produção para avaliar as políticas".
As empresas e, especialmente, os bancos, serão os impulsionadores da recuperação económica. Como sabemos se podemos voltar a confiar nos bancos?
"Não confiamos nos bancos - as sondagens dizem-nos isso repetidamente. No entanto, precisamos deles. O crédito acessível e um meio de salvaguardar os activos permitem aos indivíduos fazer crescer as empresas e colocar telhados sobre as cabeças - agora mais do que nunca.
"Aqui sigo Onora O'Neill - outro Kantiana, a propósito. Nunca saberemos ao certo se os bancos são de confiança, teremos de fazer um juízo. Hoje em dia, quase todos os bancos têm políticas a dizer aos consumidores sobre os seus valores. Também aqui temos de ter cuidado com a "mancha suja", ou com a capacidade de enganar nestes assuntos. O que precisamos é de informação específica e relevante.
"Não estou a falar de resmas de termos e condições que nunca ninguém lê. Estou a falar de informação sobre se os valores, declarados nas suas políticas, se aplicam de facto autenticamente dentro do banco. E penso que se obterá boas respostas a esta pergunta se se perguntar aos seus empregados - de forma anónima.
Pôr as coisas em perspectiva
As the executive director of Human Rights Watch, Kenneth Roth, recently observed: “The health crisis will inevitably subside, but autocratic governments’ dangerous expansion of power may be one of the pandemic’s most enduring legacies.” Roth provides a frightening list of authoritarian measures being deployed in dozens of countries, including restrictions on media organizations and dissidents, a state of emergency in Hungary that allows Viktor Orbán to “imprison for up to five years any journalist who disseminates news that is deemed ‘false,’” and increased digital surveillance in Russia and China. “As occurred after September 11, 2001,” Roth writes, “it may be difficult to put the surveillance genie back in the bottle after the crisis fades.” He also worries about other “long-lasting restrictions on civil liberties” brought about by COVID-19.
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Capitalists… have indulged in the fantasy of the end of the state, especially in the neoliberal version of an economy free of political constraints. This peculiar fiction grew pronounced in the millenarian hallucination of an “end of history,” which preached that the epochal change of 1989 had ushered in a Kantian era of perpetual peace. Global capitalism was supposed to erase borders, replacing national solidarities with abstract universalism. Genuine conflicts were predicted to dissolve into rules-based competition, while existential threats would dissipate in a thoroughly benign cosmos. After all, with the fall of Communism, all enemies had disappeared, which made states obsolete.
What a diference 2 days made
No dia 25 de Abril foram agressivamente para a AR, não cumprindo as leis do isolamento social, porque era necessário comemorar presencialmente Abril: os direitos, a liberdade, enfim, um Estado de direito - passados dois dias já Costacenteno manda alegremente a Constituição às urtigas e insinua um estado de força.
No dia 25 de Abril era ridículo andar 'mascarado', como disse o outro grande amigo - passados dois dias é um dever usar as máscaras, diga a Constituição o que disser.
Quando não se sabe resolver os problemas, em grande parte por se ter nomeado primos e amigos em vez de pessoas competentes e depois não se admite o erro e manda-se para cima dos outros as consequências do que se decidiu, unilateralmente.
O primeiro-ministro, António Costa, desvalorizou hoje o regime legal a adotar após o fim do estado de emergência, optando por sublinhar a necessidade de afastamento entre as pessoas por causa da pandemia, "diga a Constituição o que diga".
April 27, 2020
Diário da quarentena 43º dia - hoje estou cansada de estar fechada
O meu cabelo está a ficar selvagem e qualquer dia chega aos pés... quando sair daqui vou parecer uma Maria Madalena ... ou um bisonte...
Se não fossem as aulas e precisar de internet estável pedia a uns amigos e ia passar um mês ao sítio da minha infância. Andar pelos campos, meter os pés na ribeira, apanhar sol...
Diário da quarentena 43º dia
keda Zuigetsu, Cymbidium No. 351, from A Record of an Orchid Collection, 1958; ©University of Michigan Museum of Art. #ArtLookGallery.
April 26, 2020
Transitoriedade
Este autor pinta sobre fotografias e consegue um efeito de transitoriedade da realidade através de camadas de pasta de tinta substanciais, às vezes pesadas, o que tem o efeito de contraste com a transitoriedade da fotografia que se desvanece por detrás. A realidade não é uma tela onde ficam impregnados os seus momentos: são camadas, sobre camadas, sobre camadas e nada permanece, a não ser essa mistura indistinta onde tudo se dissolve. É um heraclitiano.
18.1.89 painted by Gerhard Richter
"Be like Sweden" - Mais alguém que vê o mesmo que eu vejo
É preciso perceber o que isso quer dizer.
Want to Discuss Sweden and COVID19? Start By Looking Backward.
A vast social experiment…”
“Committing suicide…”
“Self-inflicted nightmare…”
“Tragedy…”
A estratégia de roleta russa da saúde dos cidadãos não é assim tão roleta russa como parece.
Aqueles títulos de jornal suecos não dizem respeito ao assunto do COVID-19 e já têm uns anos. Foram escrito a respeito do acolhimento de refugiados sírios em fuga da guerra. Há seis anos, quando a Suécia começou esse processo de aceitar refugiados, a direita sueca xenófoba começou a lamentar a perda de uma hegemonia étnica e cultural nacionais. A suposta rendição de uma mítica Disneylândia nórdica às forças da imigração foi ligada à política social democrática sueca, a uma esquerda que quereria negar a herança cultural, abraçar o feminismo radical e o fundamentalismo islâmico. Em suma, a Suécia estaria a capitular perante o multiculturalismo.
É no mínimo audaz que aqueles que tanto criticavam as políticas suecas naqueles termos, pelo mundo fora, venham agora citar a Suécia como um exemplo na luta contra o COVID-19, por ter rejeitado o confinamento e ter confiado na racionalidade dos cidadãos. Be Like Sweden, é uma frase que podemos ler nos cartazes dos que nos EUA protestam contra o confinamento obrigatório.
No seis anos que mediaram a abertura de fronteiras aos refugiados e a luta ao COVID-19, não foram só os políticos que pressionaram certas estratégias, mas também a imprensa, supostamente liberal e progressiva. Os refugiados eram vistos e anunciados como riscos sociais e económicos que iriam matar a 'nação mais generosa da Terra'.
O anuncio de não confinamento com o argumento de que os cidadãos suecos fazem o que é correcto sem necessitar de constrangimento deixa de fora todos os não-suecos. O que acontece àqueles que chegaram do Chile, Irão, Iraque, Somália, Afeganistão e Síria? Aqueles que não têm esses hábitos de civismo obediente, que por acaso residem em Estocolmo, que por acaso é a cidade que tem sido enormemente fustigada pelo COVID-19?
Na Suécia e fora da Suécia discute-se o exemplo sueco a partir da vida e hábitos dos suecos e esquece-se, subtilmente, que não são os suecos que estão a adoecer e morrer em grandes números, mas os outros de que ninguém fala: nem os políticos suecos, nem a imprensa sueca, nem os ex-críticos-agora-apoiantes-entusiásticos-da-estratégia-sueca.
E é assim que se resolve o problema da imigração indesejável. Be like Sweden? I don't think so.
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A Dinamarca e a Suécia, juntamente com a Finlândia e, é preciso dizer, os EUA e a Inglaterra, andaram entretidos, nos anos 20 do século XX, uma década e meia antes de Hitler subir ao poder, a esterilizar, em massa, sem o seu consentimento, mulheres de raças não caucasianas, com deficiências. As ideias de Hitler não surgiram do nada... era o espírito da época... a ideia da eugenia começou nos finais do século XIX com um primo de Darwin, Galton e, com o entusiasmo à volta do darwinismo transformado em telos social com as suas metáforas da competição, da sobrevivência do mais forte que legitimavam, entre outros fenómenos sociais, o capitalismo selvagem. Galton defendia o 'melhoramento da sociedade' através da eliminação dos 'indesejáveis' que eram quem carregava e transmitia os 'factores mendelianos' de decadência das sociedades. Estas ideias segundo a qual os indesejáveis eram responsáveis pela degeneração das sociedades, eram moda e foram adoptadas por médicos, biólogos e entusiastas como o ideal das sociedades 'civilizadas'... a criminalidade e a pobreza eram atribuídas exclusivamente a factores hereditários dos 'indesejáveis'. Logo, a esterilização desses portadores dos germes da decadência social era uma maneira de melhorar as sociedades humanas aproveitando os conhecimentos da ciência. Era o tempo do cientismo, também.
Acontece que as sociedades sueca e dinamarquesa, ao contrário da americana, desde esses tempos das esterilizações em massa de 'indesejáveis', viveram fechadas nos seus mundos arianos quase sem contacto com povos de outras raças dentro das suas portas. Quer dizer, tinham meia dúzia de imigrantes de outras raças a quem até achavam graça e de quem cuidavam muito bem (uma espécie de curiosidades) porque eram muito poucos e não ameaçavam o seu modo de vida e cultura. É fácil, sendo rico, ser generoso com as minorias quando estas são reduzidas a números insignificantes e não ameaçadores. Este países nunca tiveram que lidar com massas de migrantes multiculturais como os EUA de modo que, agora que foram 'invadidos' por centenas de milhares de pessoas, não sabem lidar com esse fenómeno e, em pânico, voltaram aos seus modos antigos, adormecidos, por falta de razão para uso, mas não extintos.
Ora, se juntarmos àquele factor, a moda deste tempo em que vivemos, onde estamos outra vez a deixar ressurgir as ideias do capitalismo selvagem segundo as quais a pobreza se deve à falta de talento e características genéticas das pessoas, que os bons e de mérito são os que estão à frente nos cargos de poder, que a sociedade e a economia deve estar sem regulação porque a natureza se encarregará de fazer os mais fortes e melhores sobreporem-se e outras alarvidades do género, temos o ambiente ideal para a cultura de patogénicos. O cientismo também está de volta. Portanto, o que se passa na Dinamarca e na Suécia, só surpreende quem não sabe da história destes países e das consequências do darwinismo social.
Sweden’s anti-refugee vigilantism has revealed its dark side
Os mesmos de sempre a defender o mesmo de sempre. Livrem-nos desta gente medíocre!
Pedro Adão e Silva já veio dizer que no pós-pandemia, a maneira de ultrapassar a crise económica é fazer cortes no SNS ou nos salários dos professores... ainda não saímos da crise, ainda se batem palmas aos trabalhadores da saúde e se tecem loas aos professores por estarem a fazer, com o seu tempo de descanso legal e o seu dinheiro e materiais pessoais o que os 70 ministros e secretários não sabem fazer e já estas luminárias vêm dizer que a única solução é maltratar o SNS e ir directamente ao salários dos professores... e que tal cortar o salário destes indivíduos que têm um cassete nos seus intelectos e nenhuma solução a não ser castigar sempre os mesmos.
Quer dizer, defendem, na UE, que se invista em dez de se cortar, mas cá dentro defendem que deve-se cortar e levar a austeridade aos mesmos de sempre.
Não admira que estejamos sempre na mó de baixo se são estes medíocres intelectuais que andam a formar as novas vagas de futuros dirigentes.
Andamos de crise em crise sempre com estas ideias, mas nem mesmo com as evidências em frente do nariz percebem e marram sempre a direito.
Entre parêntesis
Ontem o Presidente da República disse na AR que seria um absurdo e uma demagogia não evocar o 25 de Abril e que não é uma festa de políticos - em 1º lugar, notamos aquela estratégia de desviar a atenção do que se discute para outra questão para ver se as pessoas se esquecem do que está em causa e se dividem a discutir o novo assunto: o que estava em causa não era, nem nunca foi, não evocar o 25 de Abril, mas os políticos darem o exemplo do que impuseram aos outros que estão proibidos de reunir por conta do estado de emergência. Podiam ter evocado o 25 de Abril de mil e uma maneiras diferentes sem se terem juntado às dezenas, sem protecção, dando exemplo, e logo no dia que marca o início da democracia, de que se consideram acima da lei que eles mesmo impõem.
Desviar o assunto para uma suposta frente de pessoas que querem atacar a liberdade é que é demagogia e daquelas divisionistas: assistimos aos políticos dividirem o país com esses ataques a todos que com eles não concordam.
O Presidente, em pré-campanha eleitoral, é mestre em demagogia: beijinhos, abraços e discursos de dizer que está tudo bem e que os políticos estão a fazer o melhor e todos temos que confiar neles e que ele é que sabe, etc.
Ter mais polimento que outros Presidentes da República e políticos não lhe outorga nenhum poder de oráculo, mas ele considera-se -pelo modo como exerce o cargo- um dos sacerdotes da democracia.
Em segundo lugar, infelizmente, o 25 de Abril tem sido uma festa, acima de tudo para os políticos, suas famílias e amigos - e virem dizer que antes se estava pior, não consola: todos sabemos que antes se estava muito pior, mas não foi para ter uma classe de privilegiados a considerarem-se donos da democracia que se fez o 25 de Abril. Não foi para isto.
Dois minutos de boa música por dia nem sabe o bem que lhe fazia - Elgar, Salut d’Amour
Day 41 : Elgar - Salut d’Amour ❤️@JeromeDucros 🎹#SoutienAuxSoignants #healthcare pic.twitter.com/oIrPMBTOPo— Gautier CAPUÇON (@GautierCapucon) April 26, 2020
É preciso mudar os políticos e a maneira de fazer política
O presidente da Câmara da Trofa, Sérgio Humberto, colocou um "gosto" numa publicação no Facebook feita por um funcionário municipal na qual este sugere que se transforme a Assembleia da República numa câmara de gás."
diário da quarentena 42º dia - pensar a vida depois da pandemia em 3 pontos
O que se pode pensar a partir desta pandemia:
1. Precisamos de outro sistema de relação económica ou de um travão ao capitalismo corporativo selvagem que está em vigor - o problema maior deste capitalismo é que tem como prioridade o ganho monumental imediato e esse modo de funcionar é incompatível com soluções globais de longo prazo. Dado que este modo de sistematização de relações económicas não se vai esfumar no ar de repente, é preciso começar já a pensar em travões à sua progressão canibalista e pensar em outras maneiras de organização económica que seja compatível com soluções globais de longo prazo.
- Precisamos de um novo ramo do saber: um que nos mostre a nossa constante inter-conexão global - um saber que nos mostre como as acções de cada um afectam todos os outros.
2. Esta pandemia fez, em 4 ou 5 meses, aquilo que nem em 50 anos seríamos capazes de fazer em termos de recuperação climática, ambiental: todos os mapas de satélite mostram uma diminuição drástica da poluição, uma limpeza da atmosfera e dos mares; por todo o lado conservacionistas relatam um aumento das populações marítimas. Sítios como a China, os EUA ou a Índia onde o azul dos céus já não se via em muitas zonas há décadas, voltou a ver-se.
É necessário fazer a ligação entre o nosso modo de vida de esgotamento de recursos, de deflorestação e a situação em que estamos agora.
Este confinamento dá-nos uma pálida ideia do que seria um confinamento que resultasse de uma catástrofe ecológica à escala global - que resultasse de uma catástrofe nuclear, por exemplo; de uma acidez, humanamente insuportável, dos rios e oceanos; de pandemias regulares resultantes da convivência com animais selvagens a invadir o nosso habitat porque privados do seu, como temos visto nestes dias: veados, corças, lobos, coiotes, javalis, pumas, leopardos e outros a vaguear pelas cidades.
Como se vê por esta crise, as mudanças no modo de vida, para terem um efeito real no ambiente e nas condições de habitabilidade do planeta, têm que ser drásticas como o foram estas de ter metade da população do planeta fechados em casa. Não podem ser acordos que não passam do papel e não produzem mudanças.
3. Precisamos de uma Carta de Direitos Económicos à maneira daquela que Roosevelt, o presidente americano, implementou em 1944, que incluía, entre o direito à educação, saúde, emprego e a um salário que desse para uma vida decente, defesas contra a competição injusta e os monopólios canibais.
É preciso que se (re)desenhe uma carta filosófica, de princípios políticos-económicos que ponha travão nos indivíduos das finanças e da economia, nos gigantes que engolem economias ou, pelo menos, que desenhe defesas eficazes contra essas pessoas/organizações de modo a projectar uma vida possível, digna, para todos.
É preciso reinventar a vida no planeta e talvez esta seja a última oportunidade. O planeta está a mostrar-nos como podemos melhorar a vida e travar a morte ou, fazendo nada, estas são as melhoras da morte, como se costuma dizer.
April 25, 2020
Diário da quarentena 41º dia - 25 de abril em confinamento
Nem pão, nem habitação, nem saúde nem educação. Só a paz. Os outros desidérios estão em ruptura de stock desde sempre e o 25 de Abril não os repôs, não teve pessoas à altura. Alguns -como a habitação- cada vez chegam a menos e outros, como a saúde e a educação, chegam mas em pobres condições.
Hoje vão os políticos para a AR, com muita pomposidade, celebrar com palavras uma data que não honram, depois de terem fomentado a divisão dos portugueses dizendo por aí que os portugueses são contra a liberdade se não concordam com eles, como se eles fossem os sacerdotes da liberdade e declarassem a verdade do que cada um sente e pensa. E porquê? Porque não foram capazes de fazer o que exigiram a todos os outros portugueses: manter isolamento e reinventar novas formas de fazer o seu trabalho. Não foram capazes nem tiveram essa decência.
E vou mais longe: se muito portugueses não se animam com o 25 de Abril é por causa do que fizeram as pessoas que o fizeram.
Tirando o Salgueiro Maia, outros desconhecidos e alguns que estiveram presos, exilados ou que morreram, os outros são responsáveis por minar constantemente o ideal que foi o 25 de Abril: saíram directamente da ditadura de Salazar para tentar impor a ditadura da URSS e começaram a perseguir portugueses e a roubá-los com o intuito de implementar aqui uma posto avançado da URSS, uma Cuba ibérica, com tudo o que isso implica de falta de liberdade, desprezo por direitos humanos, etc. O PCP de Cunhal e muitos outros partidos que tentaram que se passasse directamente de uma ditadura à seguinte. Pior, assim como os outros são saudosistas da ditadura de Salazar, este são saudosistas desses tempos de traição ao 25 de Abril de 74.
Outros, que lutaram contra essa tentativa de venda do país aos soviéticos, assim que se encontraram na cadeira do poder atraiçoaram todos os seus ideais de pão, habitação, saúde e educação para todos e e passaram ao egoísmo ético, pessoal e político, com o estabelecimento de modos do antigamente - privilégios para os amigos, amontoar de riqueza para os políticos e seus partidos, ocupação das cadeiras do poder por longas décadas, rapaces dos cofres do Estado: Mário Soares é o grande exemplo desse caminho de traficância política e corrupção que nos trouxe onde estamos.
Nesses tempos, a palavra de ordem dessas muitas pessoas que se alcandoraram nos cargos, e diziam-no em voz alta, era, 'chegou a nossa vez de enfartar. Lutámos, temos direitos a ter privilégios'. E foi assim que surgiram os auto-privilégios que os Alegres da AR acumulam.
Otelo Saraiva de Carvalho, um dos protagonistas do 25 de Abril, foi outro. Ninguém lhe retira o mérito do dia 25 de Abril, mas sabemos que a seguir, raivoso de não ter conseguido impor a sua ditadura, juntou-se a um bando de terroristas para o fazer à bomba, mostrando não ser um homem da liberdade.
E é por isso que muitos portugueses não gostam do 25 de Abril: porque as pessoas que o fizeram e deviam ter criado uma sociedade justa, assim que se apanharam no poder tornaram-se homens do poder: autoritários, indiferentes à falta de condições do povo, aproveitadores, abusadores do poder, comprometidos com açambarcadores da riqueza do Estado, etc.
Não são pessoas da liberdade, nem da justiça para todos. Como dizia o João Soares no tempo da prisão de Sócrates, 'um político deve ser intocável, a não ser por crimes de sangue e, mesmo assim, só se for apanhado em flagrante delito.'
Portanto, muitos portugueses não querem celebrar o 25 de Abril com estas pessoas que dividem os portugueses para tirar os dividendos, que se 'estão a cagar para o segredo de justiça', que impedem os representantes do povo de falar na casa do Parlamento, que se aproveitam do poder há dezenas de anos para instituir esquemas de enriquecimento, que vêem os cargos do Estado, não como serviços mas como poleiros para filhos, primos, amigos, irmão e amantes sugarem o dinheiro público, que estão nos cargos para favorecer os 'partisans', que têm enorme desprezo e desconhecimento pelo e, do povo, pelos trabalhadores e por todos que não lhe façam as vontades ou que os contrariem.
Querem responsáveis por muitos portugueses não se reverem no 25 de Abril?. São vocês que estão no poder há, praticamente, 40 anos. Olhem para si próprios e para o que têm feito.
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