Um discurso sobre a liberdade, a manutenção da liberdade, os cuidados a ter para não retroceder nas liberdades, individuais e comuns.
Um discurso sobre a liberdade, a manutenção da liberdade, os cuidados a ter para não retroceder nas liberdades, individuais e comuns.
“Pelo meio dia e trinta cerquei o quartel da G.N.R. do Carmo. Foi bastante importante o apoio dado pela população no realizar destas operações pois que além de me indicarem todos os locais que dominavam o quartel e as portas de saída deste, abriram portas, varandas e acessos a telhados para que a nossa posição fosse mais dominante e eficaz. Também nesta altura começaram a surgir populares com alimentos e comida que distribuíram pelos soldados”O 25 de Abril não é obra de uma só pessoa como nenhuma revolução o é mas, há pessoas que nos momentos decisivos em que os destinos se decidem, para o melhor ou para o pior, têm a coragem de manter-se fiéis aos seus princípios e ideais, por vezes com a coragem de pôr a vida em risco e, são esses que fazem a diferença. Salgueiro foi essa pessoa.


Salgueiro Maia no Largo do Carmo no dia 25 de Abril de 74

A famosa fotografia dos carros de combate, mostra os carros de combate da Escola Pratica de Cavalaria, comandados por Salgueiro Maia, e os do Regimento de Cavalaria nº7, de Lisboa, comandados por um general, que ordenou fogo contra os de Salgueiro Maia, mas os subordinados não lhe obedeceram, evitando um confronto sangrento. (de um comentário ao post)
Claro que me chamou a atenção a caixa com a imagem da Catarina Eufémia e o título de que o PCP roubou o corpo dela à família, mas o jornal vem cheio de entrevistas e reportagens interessantes a propósito do 25 de Abril, o que é bom para variar. A revista com a reportagem sobre a Catarina Eufémia está muito boa. Não fala apenas no acontecimento do seu assassinato, mas abarca o contexto da greve que ela e as outras mulheres fizeram, da vida naquela zona do Alentejo e em geral nas condições de trabalho dos trabalhadores do campo antes do 25 de Abril. O PCP, já depois da revolução, capitalizou a morte dela à revelia dos direitos da família dela e fabricou uma memória a partir dela, coisa que o marido dela nunca lhes perdoou e que ainda hoje a filha, sobretudo, se ressente.
Ainda por cima vinha a propósito do tema dos valores. Os miúdos sabem que antes não havia liberdade e que podia acontecer ir-se preso por contestar o poder, mas quase nenhum sabe ao certo o que isso significava nas possibilidades de vida. Estivemos um pouco a falar das limitações tremendas na vida das raparigas e das mulheres tratadas como menores mentais -no trabalho, na escolha de um projecto de vida autónomo, nas decisões sobre o seu destino, o seu corpo, etc.- mas também dos rapazes e dos homens - a grande dificuldade de sair do enquadramento da sua classe social e até da profissão dos pais, a obrigação de ir trabalhar logo aos 10 ou 12 anos e de sustentar a família, a obrigação de ir combater numa guerra que não lhes dizia nada, etc. Falámos na necessidade de estar constantemente alerta para as tentativas de diminuir ou até reverter direitos, mesmo que já adquiridos. Dei muitos exemplos de situações quotidianas que hoje nos parecem aberrantes.
Na AR a Leitão cumprimenta toda a gente que não é do seu partido com cara de enjoo. E vamos ver as parvoíces e deselegâncias que o Presidente escolheu dizer hoje...
O CDS está a fazer um discurso forte e de confronto.
O Rui Tavares a fazer uma homilía populista... pensa que somos todos crianças manipuláveis...
O PCP faz um discurso assertivo e consensual. Parece-me.
A Mariana faz um discurso forte e de confronto.
A IL faz um discurso muito forte e de confronto directo e indisfarçável ao Presidente e não só: também aos Khameneis do rectângulo. Inesperado. São contra um 'Ministério da Verdade'. Eu também.
O Ventura no seu habitual discurso populista, construído com a exploração dos buracos do regime, cavados pela mediocridade dos políticos que temos tido.
Pedro Nuno Santos faz um discurso assertivo e consensual.
Tirei esta fotografia de um corrimão da minha escola enfeitado para a evocação da data da revolução dos cravos, como é conhecida.
Passados 50 anos do fim da ditadura, estamos numa crise tão profunda na educação, para não falar na justiça, na saúde, na habitação, no emprego, na igualdade salarial de género que não tenho grande entusiasmo para comemorações. Acabámos de eleger um governo que valoriza os homens e se esquece que metade do país são mulheres, sempre sub-representadas (o Presidente, antes de falar em pagar pela colonização de outros países devia lembrar-se que temos séculos de colonização das mulheres com enormes males, nunca reparados) que escolhe representantes sem nenhum currículo, sem pensar no interesse do país. Saímos de um governo que destruiu os serviços públicos para nomear primos e amigos, pessoas que roubam o fisco e escondem dinheiro em notas nos gabinetes. Temos uma justiça que deixa prescrever todos os crimes de notórios corruptos. Temos ex-governantes a defender o apartheid de género, uma re-colonização das mulheres. Francamente não tenho grande entusiasmo para comemorações.
"O 25 de Abril existe porque os capitães de Abril não viam sentido na guerra e quiseram levar a cabo a descolonização." LOL
Fui à mercearia, à papelaria (comprar o jornal), ao talho (comprar um peito de frango - a C. disse-me que o produtor já a informou que a carne de porco e de frango sobem de preço na semana que vem para compensar o IVA. Obrigada senhor Costa) e à florista. Sou a favor de apoiar o pequeno comércio em vez de encher os grandes grupos do retalho que fazem lucros de 600 milhões a explorar toda a gente, desde o produtor ao consumidor e depois vão pagar os impostos fora do país. Disse-lhe que queria comprar um cravinho, ela disse-me que ainda tinha cravos grandes e abertos mas eu estava decidida a comprar cravos à medida deste 25 de Abril até onde estes políticos nos trouxeram: minguadinho e a desaparecer.
O 25 de Abril neste momento faz-se nas escolas. É aí que se tem lutado pela democracia, pelo direito a uma educação pública digna e não uma educação para pobrezinhos. É aí que se tem lutado por professores que sejam agentes autónomos de avanço nos conhecimentos e não de avanço nas carreiras de ministros.
democracia? Murcha
desenvolvimento? em acelerado retrocesso
descolonização? estamos nós colonizados
O 25 de Abril transformou-se num mero slogan.
O que sobra dos três D's:
- Democracia? Doente.
nepotismo, partido quase único, deputados servis, desincentivo da participação política dos cidadãos.
- Desenvolvimento? Dívidas.
Desigualdade crescentes, baixa produtividade, baixos salários, pobreza em crescimento, falta de habitação.
- Descolonização? Dos outros.
dependência externa, servilismo económico
A revolução não acontece no dia da revolução. No dia do golpe, melhor dizendo. A revolução acontece -ou não- depois de se acalmarem os ânimos e as paixões de desordem e desconstrução que se seguem aos golpes revolucionários. A revolução propriamente dita acontece anos depois. Porém, depende do que as pessoas desses anos de desconstrução (as que conseguem o poder) fazem com o golpe revolucionário. Depende da sua visão, da sua generosidade, do seu espírito de construção pacífica e democrática. Da capacidade de escaparem à tentação da vingança ou do pensamento, 'chegou a nossa vez de nos servirmos'. Ainda, de conseguirem não atrair todos os medíocres chicos-espertos aos cargos de decisão. Desse ponto de vista, o 25 de Abril não foi totalmente bem sucedido. Foi bem sucedida a transição de um poder militarizado para um poder civil -houve pessoas que agiram para impedir que nos transformássemos numa Cuba-, foi mais ou menos bem sucedida na resistência à tentação de vingança: houve saneamentos à toa, ocupações e julgamentos à toa e alguns mortos, mas não foi a tendência maioritária e durou pouco tempo. Não foi bem sucedida na resistência à tentação do pensamento de, 'chegou a nossa vez de nos servirmos' e desde muito cedo os novos políticos e os novos altos-quadros militares criaram para si excepções de benesses e privilégios para se servirem. Começaram logo aí o trabalho de criar uma nova casta de privilegiados -absorvendo muito medíocres chicos-espertos- que hoje é notória e evidente.
Não me parece que fosse possível evitar a revolução. Àqueles que defendem que a revolução era desnecessária porque o Marcelismo aos poucos ia abrindo a sociedade e melhorando a economia -o que é verdade até certo ponto- contraponho que essa abertura de Marcelo Caetano veio tarde e foi pouco. Se não tivéssemos uma guerra em África a comer os filhos da Nação há mais de uma dezena de anos, sem fim à vista, talvez a revolução não tivesse acontecido e o país tivesse deixado que ele o modernizasse aos poucos. Mas tínhamos... e Marcelo Caetano não mostrou, imediatamente após ser nomeado, ter vontade e pulso para defrontar os poderes instituídos da ditadura que queriam muito a manutenção do status quo. Nem mostrou mudança política no sentido de abrir a sociedade a uma democracia que abraçasse as forças divergentes da oposição, nem acabou com a censura e o autoritarismo do Estado e, mais que tudo, não acabou com a guerra e aprofundou discórdias dentro das Forças Armadas que já estavam divididas, em grande parte por causa da guerra e de injustiças internas. Ele não foi inteligente o suficiente para perceber que já estávamos sobre um barril de pólvora e que era preciso ser determinado, rápido e decisivo na mudança. Devia ter mandado regressar ao país os exilados, chamado as forças da oposição, estabelecido diálogo, etc. e, mais que tudo, iniciar um processo de descolonização. Também ele é responsável pelo modo desastroso como foi feita a descolonização, pois esta foi feita em pleno período de desconstrução do país, quando o que reinava era o caos próprio que se segue aos golpes revolucionários. Podia e devia ter sido feita por Caetano dentro de um quadro de ordem institucional. Ele não soube ler a situação e agir em conformidade e portanto, quem no país esperava dele uma Primavera política e o princípio do fim da guerra, ficou rapidamente desiludido e a perceber que, em termos políticos, era mais do mesmo mas com mais suavidade e falinhas mansas.
Enfim, não sabemos ao certo como as coisas se passariam nesse cenário, mas sabemos que podiam ter sido diferentes, se ele tivesse sido uma pessoa diferente Se tivesse sido uma espécie de Mandela ou de Gorbatchov. Menos preso ao passado.