April 06, 2026
February 12, 2026
Um artigo que vale a pena ler
Passos diz que Estado trava crescimento e alerta para “previsão miserável” após 2027
Pedro Passos Coelho, antigo primeiro-ministro e antigo líder do PSD Nuno Ferreira Santos
Antigo primeiro-ministro apresentou ensaio sobre a inteligência artificial, à qual apontou riscos e oportunidades.
O antigo primeiro-ministro Pedro Passos Coelho afirmou hoje que o Estado tem sido "um óbice muito grande ao crescimento da economia", apontou uma "previsão miserável" a partir de 2027 e considerou que "faz-se pouco" na reforma do Estado.
"O Estado hoje ainda é um óbice muito grande ao crescimento da economia. E cada vez, me parece, a sua qualidade tem vindo a cair de forma mais gravosa", afirmou, no lançamento do ensaio Economia, Inovação e Inteligência Artificial, editado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, em Lisboa.
Passos Coelho sublinhou que não se trata de uma "questão partidária", porque já houve vários partidos no Governo, mas deixou mais um alerta: "Fala-se muito da reforma do Estado, mas faz-se pouco por isso", considerou.
O actual professor universitário defendeu que, com a generalização da inteligência artificial, Portugal tem de se distinguir pela "qualidade das instituições e a capacidade de investir adequadamente no capital humano".
"E aí nós temos um atraso grande em relação aos nossos parceiros. Quando olhamos para as previsões da maior parte das instituições internacionais, veja qual é a previsão que há para crescimento per capita a partir de 2027: é miserável, e mesmo sem ser per capita, é miserável. Regressaremos à nossa tendência de longo prazo, que é na casa de 1%, 1,1%", previu.
"Se continuarmos assim, não é a inteligência artificial que nos vai salvar", avisou.
Questionado, em concreto, como é que o Estado pode apoiar as empresas e a economia de forma a aproveitar ao máximo as potencialidades da inteligência artificial, Passos Coelho criticou, por exemplo, a forma como Portugal tem acedido ao financiamento europeu.
"Usamos mal o financiamento europeu destinado à investigação e ao desenvolvimento. Aplicamos mal (...) Há uma espécie de empresas que se especializaram na captação desses fundos e que impedem que outras possam aceder a eles", considerou, dizendo que há, nesta área, "um ecossistema muito enviesado" em que "são sempre os mesmos que recebem os apoios".
O antigo primeiro-ministro considerou que, se as empresas que aproveitam esse financiamento "nem crescem, nem inovam mais do que as outras que não recebem", há "alguma coisa que não está a funcionar bem".
"Quando nós passamos do Portugal 2020 para o Portugal 2030 e nada mudou na maneira como equacionamos a distribuição de recursos, há aqui qualquer coisa que não está a funcionar bem. O Estado não está a usar a inteligência artificial para tirar conclusões, para mudar os processos, para investir de outra maneira e isso hoje é urgente", defendeu.
Passos - que assegurou não ser "um pessimista" - considerou, ainda assim, que a inteligência artificial tem riscos, como tornar mais facilmente substituível o factor humano.
"Podemos ser altamente produtivos para aqueles que estão a trabalhar, mas cada vez menos as pessoas terão do que viver, porque não serão precisas para produzir nada", alertou, avisando que já são precisos menos juristas ou menos pessoas na área da Medicina.
Por isso, defendeu, as políticas públicas têm de actuar para que cada país aposte no que os pode distinguir dos outros e que já não será a tecnologia, "conhecida por todos e que pode ser apropriada por todos".
"Não podemos ficar de braços cruzados", apelou.
Na conversa com os autores do livro, Óscar Afonso e Nuno Torres, participou também a cientista e antiga ministra Elvira Fortunato, a um debate a que assistiram os antigos governantes do PS António Costa Silva e António Mendonça e o antigo governador do Banco de Portugal Carlos Costa.
January 26, 2026
Jean-François Millet - 'Des glaneuses' (1857)
Em português, "As Respigadoras". As respigadoras eram camponesas pobres que iam ao restolho que ficava no chão no fim da ceifa, apanhar, uma a uma, as espigas que tinham ficado no chão. Poucas, como se vê pelas suas mãos, mas melhor que nada.
Millet põem-nas em primeiro plano para mostrar a realidade de uma vida curvada, a apanhar os restos. Atrás delas vê-se a colheita do proprietário. São molhos e molhos de trigo altíssimos numa enorme abundância, guardados por um capataz montado a cavalo. As Respigadoras não olham para trás, não invejam, não se revoltam. Fazem o que têm de fazer pela sobrevivência.
Um estudo de Millet para a obra - Louvre
November 24, 2025
A profunda incompetência dos nossos ministros das finanças e da economia
Miranda Sarmento confirmou que o Governo continuará a poupança na função pública como uma das medidas para reduzir a dívida pública, considerando-a um dos aspetos mais importantes para a estabilidade económica do país.O ministro das Finanças enfatizou a importância de não interromper o processo de redução da dívida, que é vista como um "calcanhar de Aquiles" da economia portuguesa, segundo declarações recentes. Continuidade da poupança:O governo planeia manter o controlo da despesa pública, incluindo na função pública, para reforçar o esforço de consolidação orçamental.
J. Negócios
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Todos os dias temos notícias de centenas e milhares de milhões perdidos. Ontem foi o cadáver do BES, o Novo Banco, onde enfiámos mais de 6 mil milhões de euros mas o Lone Star (um nome saído de um filme de cowboys) é quem vai receber os biliões, apesar de ser quem menos lá investiu. Quanto a isso o ministro das Finanças diz que não pode fazer nada, porque é mesmo assim. Quando se trata de salários diz-se que os gestores públicos têm de ganhar 200 mil euros por ano porque senão não querem o trabalho, mas os funcionários públicos trabalham com aumentos de 10 cêntimos. Bem, acontece que também já não querem o trabalho, mas os governos não querem saber disso.Dado que a opção é sempre cortar nos serviços públicos, espera-nos mais uns anos de grávidas a terem os filhos no meio da rua, não haver polícias para acudir aos crimes e patrulhar as ruas, não haver Betadine e compressas nos hospitais nem professores nas escolas.
Li que a Gulbenkian criou um serviço de explicações para quem não pode pagá-las. Li nessa notícia que pagam muito bem aos professores que vão contratar a tempo inteiro. A minha questão é: cada professor que for trabalhar a tempo inteiro para a Gulbenkian dar explicações, é menos um professor na escola pública. Se houvesse professores na escola pública em número suficiente, não era necessário haver empresas de explicações. Em Portugal, os políticos estragam os serviços públicos e depois congratulam-se com os remendos.
Outro dia, uma médica de quem sou doente há muito tempo, perguntou-me o que achava de pôr os filhos na escola pública. Disse-lhe que, se fosse há uma dúzia de anos não teria dúvidas em dizer-lhe para pô-los na escola pública, que estava cheia de bons professores e proporcionava uma experiência social mais alargada e rica, mas agora? Agora não há professores e corre o risco de os filhos estarem sem professor a uma ou várias disciplinas meses a fio ou um ano inteiro, sendo que ainda corre o risco de ter professores que ensinam uma disciplina que nunca estudaram na vida... e que ainda via piorar bastante porque os governos apostam em políticas de sacrificar os serviços públicos.
July 03, 2025
April 10, 2025
Como é que estas pessoas chegam a professores universitários?
Esta entrevista enorme a João César das Neves não tem interesse nenhum mas quem a quiser ler na íntegra siga o link no fim do post. É um queixume interminável a chamar tontos a todos e a culpar médicos e professores como sendo os verdadeiros donos do país que o levam à estagnação -os sindicatos que defendem os direitos dos trabalhadores são o demónio- sendo que os patrões é que são bonzinhos e cuidariam dos interesses verdadeiros dos trabalhadores porque criavam muita riqueza que ia cair em cima dos trabalhadores - nos EUA isso é óbvio.... Como é que estas pessoas chegam a professores universitários?
‘A cultura portuguesa não é muito favorável ao patrão ou ao investidor’
César das Neves diz que os portugueses querem salários, mas não se preocupam com a produtividade que é fundamental para aumentar valores. E acusa: ‘Os que estão a lutar pelos direitos dos trabalhadores estão-lhes a estragar a vida’.
João César das Neves, professor de Economia da Universidade Católica, lamenta que o país esteja paralisado e que não discuta temas importantes para melhorar o crescimento económico. Fala ainda do PRR, considerando o programa como uma oportunidade perdida, assim como de dossiês que se vão arrastando há anos como o novo aeroporto. E faz um desafio: abandonar a fantasia pagã e adotar o realismo cristão.
Como vê a situação da economia portuguesa?
Temos um país que está pacificado e a generalidade das pessoas está de acordo quanto ao essencial.
Estamos mentalizados?
O grande dinamismo e a grande transformação cria tensões e há pessoas que ficam de fora. Não faz sentido falarmos em mediocridade, mas há uma certa modorra: o investimento é baixo, o crédito é essencialmente para a habitação ou para o consumo. Não há grande criatividade tecnológica, nem financeira e toda a atenção está centrada nas corporações que dominam o sistema. Basta ouvir a campanha eleitoral que iremos agora assistir para percebermos que está tudo centrado nos pensionistas, nos médicos, nos professores que não são ladrões, nem são corruptos. Não vale a pena demonizar essas entidades, mas têm mais poder do que deviam e conseguem estrangular o dinamismo.
Porque dão mais votos…
Claramente e controlam praticamente tudo: da extrema-esquerda à extrema-direita. Temas como produtividade, competitividade, investimento, empresariado não têm lugar, não têm interesse, não ganham votos. E a cultura portuguesa também não é muito favorável ao patrão ou ao investidor, queremos salários, mas sem produtividade porque a produtividade é o capital e o capital é uma coisa horrível. Como se essas duas coisas não estivessem ligadas.
Os diagnósticos estão feitos, mas nada é feito. É falta de ambição?
Não é um problema de diagnósticos. Já estamos fartos disso. É uma coisa que tem acontecido ao longo da história de Portugal, em que o país está pacificado, está instalado, não levando ao dinamismo. Os outros países passam-nos ao lado, estão todos a crescer mais depressa e, embora estejamos neste cantinho mais ou menos pacífico, as ameaças estão a subir em todo o lado e é preciso pagar com crescimento económico mais acelerado, com mais competitividade, com mais produtividade. Culturalmente achamos que o negócio é insulto. Temos agora cartazes na campanha eleitoral a dizer: ‘A saúde não é negócio’. É melhor ser o Estado a prestar esse serviço? E vai tirar dinheiro a quem?
O Estado não é rico…
Exatamente. Certamente vai tirar dinheiro aos negócios, o que não faz sentido. Mais uma vez, não digo que a economia é um desastre, conseguiu um avanço extraordinário, mas é um bocadinho desanimante ver a tolice disto tudo porque os que estão a lutar pelos direitos dos trabalhadores estão a estragar a vida aos trabalhadores. Os trabalhadores dos outros países estão muito melhores do que os nossos e não têm os direitos que alegadamente temos. Os principais inimigos dos trabalhadores são aqueles que andam a dar cabo da Segurança Social porque não a tornam sustentável, porque andam a subir o salário mínimo e a estrangular as empresas que depois não conseguem pagar esses valores. São erros de palmatória, qualquer pessoa e não precisa ser formada em economia com o mínimo de pés e cabeça percebe que não é possível ter salários sem ter investimento.
Mas até lá, as tais reformas necessárias vão sendo adiadas…
Isso é indiscutível, mas não foi possível fazer porque o partido que estava no poder queria, mas o que estava na oposição não e bloqueava e quando mudava o partido no Governo, a história repetia-se. Esta tolice criou o tripartidarismo que não sei quanto tempo vai durar.
October 19, 2024
Toda a nossa economia está programada para alimentar esta loucura
Que para uns se traduz numa vida de inferno. Não admira que depois expludam. E que o planeta não aguente.
August 21, 2024
Pode haver mudança na economia sem mudança de mentalidades?
Hoje li um artigo no caderno de economia do jornal suíço, letemps.ch. O artigo é uma longa melúria sobre o desaparecimento da marca Made in Switzerland, a propósito da deslocalização da produção da Hero, uma marca centenária de produtos agro-alimentares, nomeadamente compotas (que todos já comemos ao pequeno-almoço em hotéis) para Múrcia, em Espanha. Isto, depois de outras marcas centenárias, totalmente Made in Switzerland terem fugido da Suíça: a Toblerone para a Eslováquia, a Sugus (que saudades...) para França e China, a Suchard para Estrasburgo, a Milka para a Alemanha.
O patrão da Hero, Rob Versloot, explica que o franco suíço está muito alto de maneira que a mão-de-obra é muito mais cara que em outros países. E o artigo fica-se por aqui e não levanta questões a esta explicação.
A minha questão é: e então? Porque razão a mão-de-obra estar mais cara na Suíça que em outros países é motivo para deslocalizar as fábricas, despedir pessoas e perder tecido industrial? A resposta todos a sabemos: por que estes patrões não abdicam das suas margens de lucro de 300% ou 500% ou 2000%. Não estão para partilhar as perdas da sociedade. Exigem que os seus lucros se mantenham num crescimento constante, mesmo que à custa do empobrecimento dos trabalhadores e do prejuízo do país. Exigem poder fugir ao fisco, exigem benefícios com o argumento de que criam postos de trabalho, mas na verdade o que criam são condições para manterem as suas margens de lucro sempre a crescer.
Tal como os bilionários que há pouco pediam ao governo norte-americano que os taxassem em 2%, porque pagam 0,5% de impostos e isso põe em causa a democracia. Um deles queixava-se até de a empregada doméstica pagar de impostos mais que ele. Que descaramento. Esses bilionários têm uma opção evidente: pagar os devidos impostos que são na ordem dos 50%, em vez de fugir ao fisco com manigâncias e depois dizer que são tão bonzinhos que querem ser taxados em 2%.
Ou seja, não abdicam das suas margens de lucro obscenas na ordem dos biliões (americanos) mesmo que isso torne toda a sociedade mais injusta e menos democrática.
Enquanto esta mentalidade não mudar ou enquanto os políticos não tiverem a coragem de regular as deslocalizações massivas de dinheiro e produções e cobrar os devidos impostos, não vejo que possa haver mudanças na economia que beneficiem os países e não cinco ou seis pessoas dentro deles e, por maioria de razão, não vejo possibilidade de evolução na democratização dos países. Pelo contrário: mais pobreza, mais revolta, mais insegurança, mais populismos e extremismos.
April 17, 2024
Eu não percebo nada de economia, mas parece-me que os economistas também não
À medida que a economia dos Estados Unidos vai avançando mês após mês, ano após ano, criando centenas de milhares de novos postos de trabalho e envergonhando ainda mais uma longa série de especialistas que se têm revelado repetidamente errados nas previsões de recessão, alguns em Wall Street começam a alimentar uma teoria económica marginal. E se, perguntam eles, todas aquelas subidas das taxas de juro nos últimos dois anos estiverem, de facto, a impulsionar a economia? P
or outras palavras, talvez a economia não esteja a crescer apesar das taxas mais altas, mas sim por causa delas. É uma ideia tão radical que, nos principais círculos académicos e financeiros, beira a heresia. Mas os novos convertidos (juntamente com um punhado de pessoas que confessam estar, pelo menos, curiosas sobre a ideia) dizem que as provas económicas estão a tornar-se impossíveis de ignorar. Segundo alguns indicadores-chave - PIB, desemprego, lucros das empresas - a expansão é agora tão forte ou ainda mais forte do que era quando a Reserva Federal começou a subir as taxas. Assim, com isso em mente, eis como a teoria funciona.
March 05, 2024
O que se passa com a economia europeia?
O que se passa com a economia europeia?
O velho mundo tem novos problemas. Durante o ano de 2023, a economia europeia registou um crescimento próximo de zero. As duas maiores economias nacionais do continente - a Alemanha e o Reino Unido - podem estar em recessão. Empresas europeias de referência, como a Volkswagen, a Nokia e a UBS, anunciaram coletivamente dezenas de milhares de despedimentos. Agricultores furiosos estão atualmente a bloquear estradas dentro e fora de Paris, e dezenas de milhares de trabalhadores dos transportes alemães abandonaram recentemente o trabalho.
Era suposto tudo isto acontecer também aos Estados Unidos - mas não aconteceu. Há dezoito meses, quase todos os economistas, analistas e especialistas previam que a combinação de uma pandemia global, de uma inflação galopante e de uma crise energética mergulharia a Europa e a América na recessão. Em vez disso, enquanto a Europa se debate, a economia dos EUA está a ir espetacularmente bem em quase todos os aspectos (mesmo que nem todos os americanos pensem assim). O desemprego está em mínimos históricos, as empresas estão a ser criadas a um ritmo recorde e os salários estão a subir rapidamente. E os Estados Unidos conseguiram-no roubando a ideia do livro do grande governo e do Estado-providência da Europa - e executando-o melhor do que a própria Europa.
Quando a pandemia chegou, em março de 2020, os governos de todo o mundo abriram as torneiras do dinheiro. O Reino Unido e a Alemanha gastaram mais de 500 milhões de dólares. A França gastou 235 milhões de dólares e a Itália 216 milhões de dólares. Mas os Estados Unidos estavam numa liga à parte, gastando uns espantosos 5 biliões de dólares em ajuda à pandemia. Isso é mais, mesmo em dólares de hoje, do que a América gastou no New Deal e na Segunda Guerra Mundial juntos - e, crucialmente, é mais do dobro do que a maioria dos países europeus gastou em ajuda à pandemia em relação à dimensão das respectivas economias.
Muitos economistas alertaram que este tipo de despesa faria disparar a inflação e, durante algum tempo, parecia ser o caso. Mas depois aconteceu algo inesperado: A inflação arrefeceu drasticamente nos EUA a partir do verão de 2022, enquanto continuou a subir na Europa. O estímulo pandémico acabou por não ser a principal causa da inflação. Em vez disso, as grandes despesas dos EUA colocaram os americanos numa posição muito mais forte do que os seus homólogos europeus. Face à inflação, ao aumento dos preços da energia e à subida das taxas de juro, os consumidores europeus viram-se obrigados a fazer cortes. Mas os americanos, apoiados por cerca de 2,5 biliões de dólares de poupanças excedentárias, continuaram a gastar. Mark Zandi, economista-chefe da Moody's Analytics, argumenta que esta "barreira de proteção do consumidor" permitiu que as empresas continuassem a contratar, a aumentar os salários e a fazer o tipo de investimentos necessários para manter a economia em expansão.
A diferença reside não só na quantidade das despesas públicas, mas também na forma como são gastas. Neste domínio, era melhor ter sorte do que ser bom. No início da pandemia, a Europa apoiou os trabalhadores pagando aos empregadores para os manterem na folha de pagamentos, enquanto os EUA, com o seu sistema de desemprego bizantino e fragmentado, acharam mais fácil pagar aos trabalhadores para ficarem em casa através de um seguro de desemprego alargado. (O Programa de Proteção dos Cheques de Pagamento, no valor de 800 mil milhões de dólares, era suposto imitar a abordagem europeia, mas muito pouco desse dinheiro acabou por proteger os cheques de pagamento). A estratégia da Europa era geralmente vista como a superior: Quando a economia reabrisse, as pessoas regressariam simplesmente ao trabalho sem o caos de milhões de pessoas a tentar encontrar novos empregos ao mesmo tempo.
De facto, o caos parece agora ter sido uma bênção. Em tempos normais, os trabalhadores têm tendência para permanecer nos seus empregos actuais, mesmo que existam oportunidades melhores. Mas quando a economia dos EUA reabriu, dezenas de milhões de trabalhadores despedidos não tiveram outra opção senão procurar algo novo - e, graças à expansão do seguro de desemprego e aos cheques de estímulo, tiveram a almofada financeira para serem mais selectivos. Como resultado, muitas pessoas encontraram melhores posições do que teriam encontrado se a pandemia nunca tivesse acontecido; milhões de outras criaram as suas próprias empresas.
Essa remodelação do mercado de trabalho, argumenta Adam Posen, presidente do Peterson Institute for International Economics, é a explicação mais plausível para o motivo pelo qual os trabalhadores americanos experimentaram um aumento repentino na produtividade no segundo semestre de 2023 - algo que não ocorreu na Europa. "A resposta à pandemia convenceu as pessoas de que o governo, em última análise, as protegia", disse-me Posen. "E isso permitiu que as pessoas corressem mais riscos do que o normal." As redes de segurança ao estilo europeu e alguma disfunção burocrática americana clássica podem ter-se revelado uma fórmula vencedora.
(...)
As trajectórias económicas extremamente diferentes dos Estados Unidos e da Europa não podem ser explicadas apenas pelas opções políticas. A invasão da Ucrânia pela Rússia fez subir os preços da energia muito mais na Europa do que nos EUA. Ainda assim, o fosso transatlântico só se abriu completamente em 2023, depois de o pior da crise energética já ter passado. A divergência é melhor explicada pela forma como a Europa e os EUA responderam, respetivamente, à série de crises económicas desde 2020. "Biden abraçou uma agenda económica muito mais próxima das tradições social-democratas da Europa", disse-me Malcolm Gooderham, fundador da Elgin Advisory, sediada no Reino Unido. "E, por causa disso, a América deixou a Europa para trás".
A ironia final é que a América tem sido capaz de seguir essa agenda agressiva apenas porque é a América. Desde 2019, os EUA acrescentaram mais de 10 biliões de dólares à dívida nacional; em 2023, o governo gastou mais 1,7 biliões de dólares do que arrecadou. Esse tipo de despesa deficitária é basicamente impensável para os líderes europeus.
A maioria dos economistas espera que a economia europeia melhore, ainda que gradualmente, ao longo de 2024. Mas num mundo de alterações climáticas, de conflitos entre grandes potências e de rápidos avanços tecnológicos, o futuro do continente dependerá da forma como escolher enfrentar os choques económicos que ainda estão para vir. Os líderes americanos responderam à pandemia tornando-se mais parecidos com a Europa; agora é a vez de a Europa se tornar mais parecida com a América.
Rogé Karma
December 05, 2023
Consider this
Imagine saying this with a straight face.
— 🌴 Josh Lekach 🌴 (@JoshLekach) December 3, 2023
The consequences of ignoring reality have been disastrous for the Western world. pic.twitter.com/r4FSnrUt92
September 05, 2023
Precisamos de alguém que proponha um modelo económico diferente
Este que temos em que há 100 super-trilionários que dão cabo da economia e da vida aos outros todos não serve.
Viver permanentemente num navio de cruzeiro parece ser um sonho de super-ricos. Passar os dias a descansar no convés junto à piscina ou a visitar um local exótico. As noites no clube noturno. Não ter de se preocupar com o trânsito, cozinhar ou lavar a roupa. É a vida de Ryan Gutridge, que passa cerca de 300 noites por ano a viver no Freedom of the Seas da Royal Caribbean. Só deixa o navio durante algumas semanas por ano, nas férias.
Como é que consegue pagar a vida numas férias permanentes?
"Tenho uma folha de cálculo que regista automaticamente todas as minhas despesas, o que ajuda. Também estabeleço um orçamento todos os anos", diz ele. "Este ano, o meu orçamento para a tarifa base é de cerca de 30.000 dólares e, no ano passado, quando comecei a analisar os números e a avaliar a tarifa base que paguei para estar num navio durante 300 noites, descobri que era quase igual ao que pagava pela renda e pelo serviço de lixo de um apartamento em Fort Lauderdale, na Florida."
Atualmente, o preço médio de um apartamento de um quarto em Fort Lauderdale é de 2.088 dólares, o que custaria a Gutridge cerca de 25.000 dólares por ano.
Gutridge acredita que a chave para viver no navio de forma económica são os programas de fidelização. Na verdade, está a gastar menos em 2023 do que em 2022, apesar de ter passado mais tempo a fazer cruzeiros.
Quando não está no navio, marca consultas no médico e no dentista e aproveita para ver amigos. Depois, volta para o alto mar, onde tem uma rotina. De segunda a sexta-feira, trabalha, tem uma alimentação saudável e vai ao ginásio. Aos fins-de-semana, descontrai e bebe uns copos.
Se o navio chega a um local de que gosta, tira um dia de férias do trabalho e vai passear. "Tenho uma forte relação com a tripulação deste navio", diz ele. "Tornou-se uma grande família e não quero reconstruir essas relações noutro navio - brinco dizendo que tenho 1300 companheiros de quarto."
July 19, 2023
Vão dizer ao primeiro-ministro: penalizar os salários não tem benefícios económicos, é só injusto
Dois economistas criticam, em estudo publicado pelo Observatório sobre Crises e Alternativas, políticas seguidas pelos bancos centrais e governos para responder à inflação.
Sérgio Aníbal
Uma das principais ideias defendidas pelos autores é a de que é infundado o receio – assumido por bancos centrais e governos – de que se possa criar, com aumentos salariais que respondam à inflação, uma espiral de salários e preços. No estudo, que critica as perspectivas da economia neoclássica predominantes na definição das políticas à escala mundial, é feita uma simulação sobre o que aconteceria num cenário em que, em resposta a um choque temporário nos custos com a energia e as matérias-primas, a subida de salários fosse idêntica à inflação, permitindo assim a preservação do seu valor em termos reais. A conclusão é a de que, mesmo com as empresas a manterem os seus lucros, a inflação acabaria por diminuir progressivamente.
Por um lado, os autores defendem que “os valores actuais [da inflação] ainda se encontram bastante longe daqueles a partir dos quais a evolução dos preços se tornaria um obstáculo ao crescimento”, concluindo por isso: “o problema com que nos deparamos não é a inflação em si, mas sim a crise do custo de vida que resulta da compressão dos salários reais”.
Por outro lado, afirmam, “a subida das taxas de juro por parte dos bancos centrais é uma estratégia pouco eficaz do ponto de vista macroeconómico, visto que a inflação é um fenómeno resultante da subida dos preços em alguns sectores sistemicamente significativos – como o da energia e o dos bens alimentares –, sobre os quais a política monetária dificilmente produzirá efeitos”.
E, por fim, sinalizam que estratégia seguida pelos bancos centrais é também “injusta do ponto de vista social”, já que acaba por ter efeitos negativos sobre a actividade económica e o emprego.
May 28, 2023
O decrescimento como modelo económico - um balanço
O decrescimento como modelo económico - balanço
Embora o conceito de decrescimento tenha sido criticado num relatório apresentado ao Governo na segunda-feira, está previsto um congresso sobre o assunto para quinta-feira, em Paris.
Os defensores do decrescimento pretendem a introdução de um novo modelo económico, mais simples, mais justo, mais respeitador da natureza e, sobretudo, livre do imperativo do crescimento.
Na segunda-feira, o economista Jean Pisani-Ferry apresentou à primeira-ministra Elisabeth Borne um relatório sobre o impacto económico da acção climática. Jean Pisani-Ferry considera que a "neutralidade climática", ou seja, o equilíbrio entre as emissões de gases com efeito de estufa e a sua absorção, é "alcançável", mas que "para lá chegar é necessária uma grande transformação". Na sua opinião, "o imperativo de preservar o clima" não significa "renunciar ao crescimento".
A associação Alter Kapitae, que defende o "decrescimento próspero", tem uma opinião diferente. Esta quinta-feira, organiza na Sciences-Po Paris a "Ágora de la décroissance prospère" (Ágora do decrescimento próspero), uma conferência dedicada ao decrescimento. O evento reunirá activistas ambientais, investigadores especializados na matéria, como o economista Timothée Parrique e o sociólogo Dominique Meda, e empresários.
A partir dos anos 70, vários investigadores começaram a interessar-se pelos limites físicos do crescimento e pelas suas consequências para o ambiente. É o caso do economista americano Nicholas Georgescu-Roegen, que defende, num livro publicado em 1971, a necessidade de repensar a ciência económica. Argumentava que os economistas se tinham esquecido, nos seus modelos, de levar em conta os limites da biosfera (todos os ecossistemas da Terra).
1,75
planeta
Em 2022, a humanidade consumiu tantos recursos como se vivesse em 1,75 planetas, segundo a Global Footprint Network. Este grupo de reflexão baseia-se num indicador, a pegada ambiental, que compara a procura de recursos por parte da economia com a capacidade da Terra para se regenerar biologicamente. Como a maioria dos indicadores, a pegada ecológica tem sido criticada pela sua metodologia.
Os defensores do decrescimento pretendem reorganizar a produção de bens e serviços de modo a que esta deixe de criar novas necessidades e passe a satisfazer as necessidades essenciais de todos os seres humanos. O seu objectivo não é reduzir o PIB, mas, ao procurar limitar a produção, estão de facto a impedir o seu aumento. Ora, o nosso sistema está organizado em torno do crescimento, que conduz a um aumento do rendimento e, por conseguinte, dos impostos e dos recursos públicos.
Críticas ao modelo
O decrescimento implica mudanças drásticas de comportamento: para reduzir o consumo de energia, precisa do desaparecimento progressivo dos aviões, da redução do número de aparelhos eléctricos (smartphones, aspiradores, etc.), do desenvolvimento de uma dieta predominantemente vegetariana, etc. Estará o público preparado para estas mudanças? Será que um modelo deste género pode obter o apoio do maior número possível de pessoas? De acordo com o relatório de Jean Pisani-Ferry, o modelo "décroissant" seria "socialmente desastroso", pois equivaleria a "pedir àqueles que lutam para sobreviver que apertem ainda mais o cinto em nome de objectivos mais elevados".
→Ler a sua entrevista
CONTRA O CRESCIMENTO Num artigo publicado em 2021 no sítio de debate Telos, o economista Éric Chaney critica o modelo preconizado pelo decrescimento. Baseia-se em vários estudos para explicar por que razão é possível um crescimento respeitador do ambiente.
→Ler a sua análise
May 24, 2023
Gostava que alguém me explicasse como se tivesse três anos
Não há como negar que o desempenho da economia portuguesa, no primeiro trimestre do ano, foi surpreendente. E muito positivo. Apoiado, sobretudo, nas exportações de serviços, mas também nos bens transacionáveis, o PIB cresceu 2,5% face ao período homólogo, levando o FMI a apresentar uma previsão bastante mais otimista para o resto do ano (2,6%), do que aquela que havia lançado há cerca de um mês.
December 18, 2022
"Como todos sabemos, o dinheiro nasce em Bruxelas."
E morre nos gabinetes do governo.
Recomeçando: nas remotas fábricas e oficinas onde gente espremida se desfaz em oito horas operárias para lutar contra o mundo como se não fossemos todos chineses, há uma mensagem a enviar ao poder central. A eles se juntam milhares de homens de mala na mão, prontos a voar sobre o globo inteiro para vender um sofisticado casaco ali, os sapatos de design arrebatador acolá, o molde para um bólide moderno, vinho espremido em labutas incessantes ou cortiça aeroespacial. Aglutinados em associações setoriais, pedem/imploram: paguem o que devem. As candidaturas. A inovação. A internacionalização. Fundos de 2015 e 2016 ainda por entregar. E por aí adiante.
Costa não acerta na Economia. É o calcanhar de Aquiles do PS. Começou com três anos de Caldeira Cabral - era um erro de casting, disse-se. Depois entrou Siza Vieira, que conhecia a Economia com a profundidade dos oriundos das grandes sociedades de advogados. Quando já conhecia os transacionáveis, foi-se embora. Entra agora o visionário Costa Silva, que jamais terá paciência para a inoperacionalidade do Ministério. Do anterior Governo saiu o planeador Nélson de Sousa, que dominava a máquina e os Fundos de trás para a frente. Ficou refém das cativações das Finanças. "Delete". Restou Ana Abrunhosa, que tem o título de Ministra da Coesão Territorial, mas que não tem a Agência de Coesão, cuja coutada é de Mariana Vieira da Silva, cuja experiência na coesão da economia real é... (escolha a palavra). Até Marcelo se confundiu, ao dar recados sobre a Bazuca a Abrunhosa, esquecendo Mariana, a que manda. Mariana-Costa. Costa, do Castelo.
Agora é que vai ser. Para ajudar Mariana, chegou o ex-presidente do Instituto Politécnico de Setúbal, Pedro Dominguinhos, líder da novíssima-essencialíssima Comissão Nacional de Acompanhamento do PRR-Bazuca. Mariana já tinha conseguido criar também a estruturalíssima Agência de Coesão, liderada por Cláudia Joaquim, ex-secretária de Estado da Segurança Social do pai Vieira da Silva e, portanto, de confiança. Entretanto, algum conhece, de experiência feita, a economia transacionável? Alguém com experiência na área pode dar uma mão? O ministro Costa Silva? Pena ter demitido os secretários de Estado que já conheciam a Economia.
August 08, 2022
Os lucros obscenos dos predadores não podem ter a cumplicidade dos políticos
Durante meses, o aumento da inflação tem vindo a assolar tanto as nações pobres como as ricas. Os custos crescentes, que atingiram máximos de 40 anos, são em grande parte graças aos efeitos globais em cascata da pandemia combinados com as súbitas perturbações da cadeia de abastecimento e do mercado energético que se seguiram à invasão russa da Ucrânia. Os seus efeitos têm sido profundos e de grande alcance.
Alguns países já estão a braços com dolorosas contracções económicas; para outros, incluindo os Estados Unidos, a perspectiva de recessão parece estar ao virar da esquina. A Europa, ludibriada pela sua dependência do gás russo, está a preparar-se para o que está a ser facturado como um "Inverno de desespero". Agências de ajuda e funcionários da ONU alertam para a perseguição da fome no planeta, à medida que os aumentos de preços empurram os produtos para fora do alcance de dezenas de milhões de pessoas. O turbilhão macroeconómico global já entrou em colapso, com uma economia em desenvolvimento e endividada (Sri Lanka), enquanto outras nações (Zâmbia, Laos e Paquistão, para citar algumas) se encontram à beira do colapso.
Mas para as grandes empresas multinacionais de combustíveis fósseis, tem sido o melhor dos tempos.
Relatórios recentes sobre os lucros do segundo trimestre apresentaram números impressionantes: A BP, 8,5 mil milhões de dólares. A ExxonMobil foi mais longe - os seus 17,9 mil milhões de dólares de rendimento líquido foram o seu maior lucro trimestral de sempre. A empresa americana Chevron, a Shell com sede em Londres e a francesa TotalEnergies também registaram resultados de sucesso de bilheteira. Juntas, estas cinco grandes empresas fizeram 55 mil milhões de dólares neste último trimestre, com centenas de milhões de pessoas em todo o mundo a suportaram o aumento dos preços.
Mesmo antes da invasão russa da Ucrânia, as agências da ONU estimaram que cerca de 828 milhões de pessoas - um décimo da população mundial - ficaram subnutridas em 2021. Agora, cerca de 50 milhões de pessoas em 45 países estão à beira da fome, de acordo com o Programa Alimentar Mundial da ONU, prevendo-se que as condições se agravem até ao final do Verão do hemisfério norte.
"Os orçamentos domésticos em todo o lado estão a sentir a agressão dos preços elevados dos alimentos, dos transportes e da energia, alimentados pela ruptura climática e pela guerra", disse Guterres na semana passada. "Isto ameaça uma crise de fome para as famílias mais pobres e cortes severos para as pessoas com rendimentos médios".
July 08, 2022
O que é preciso é mudar esta TINA
Acabar com os penetras.
The public are under the false illusion that removing a Prime Minister changes the direction of a nation. It doesn't.
— Know Your Human Rights (@HumanRights4UK) July 7, 2022
It is the #WorldEconomicForum that is influencing nations and it is them that needs removing from our Gov't:
“So we penetrate the cabinets” Klaus Schwab, 2017 pic.twitter.com/PlFPOw0Gyv
April 04, 2022
Uma entrevista com o economista Jim O'Neill
O economista Jim O'Neill acerca da Rússia
"O Ocidente Decidirá sobre a Falência de Putin"
Jim O'Neill cunhou uma vez o termo BRIC para se referir às economias em rápido crescimento do Brasil, Rússia, Índia e China. Nesta entrevista discute porque é que a Rússia de Vladimir Putin não correspondeu às expectativas.
Entrevista Conduzida por Peter LittgerQuando adolescente, Jim O'Neill, 65 anos, queria jogar futebol profissional pelo Manchester United. Mas o seu pai, um carteiro, encorajou-o a estudar economia. Obteve o seu doutoramento na Universidade de Surrey, com a sua tese centrada na política comercial dos exportadores de petróleo. Desde então, tem-se concentrado nos modelos económicos e nos seus efeitos no mundo real das moedas e bens. Entre 1995 e 2013, O'Neill foi sócio da Goldman Sachs, servindo como economista-chefe do banco de investimento durante parte desse período. O seu foco principal era o desenvolvimento da economia global, particularmente o futuro de mercados emergentes como a China e a Rússia.
De 2014 a 2016, O'Neill trabalhou para o governo britânico, desenvolvendo estratégias para combater a crescente resistência às drogas e para impulsionar o desenvolvimento económico no Norte de Inglaterra. O'Neill é membro da Câmara dos Lordes (como Barão O'Neill de Gatley) e trabalha com grupos de reflexão como Chatham House e Bruegel em Bruxelas. Desde 2014, é professor honorário de economia na Universidade de Manchester.
DER SPIEGEL: Em Novembro de 2001, surgiu com a sigla BRIC para descrever quatro economias que se destacaram pelo seu crescimento excepcional: Brasil, Rússia, Índia e China. Como se sente hoje sobre os BRICs?
O'Neill: Foi um sonho agradável.
DER SPIEGEL: A sua própria previsão não foi convincente?
O'Neill: É cómico que as pessoas pensassem realmente que eu faria previsões para os próximos 50 anos - e que acertaria. Isso é ridículo! Na verdade, era a arte do possível. Eu queria mostrar que quatro países que tinham sido economicamente subordinados no decurso do século XX poderiam tornar-se influentes no século XXI e até ultrapassar as grandes economias. O seu enorme crescimento era real e impressionante. A partir de um certo ponto, utilizaram o seu potencial de desenvolvimento de forma muito diferente.
DER SPIEGEL: Isso soa mais a quatro sonhos individuais, e não a um.
O'Neill: Se quiser. Hoje em dia, os quatro países não estão no mesmo campeonato. Há anos atrás, salientei que só falava de IC, ou seja, Índia e China. O Brasil e a Rússia não têm sido capazes de avançar e realizar o seu potencial. Acabaram por ser desilusões maciças.
DER SPIEGEL: Na China, o produto interno bruto não aumentou sete vezes desde 2000, como sonhou, mas dezoito vezes. Ao mesmo tempo, o seu sonho para o PIB da Rússia - de cerca de 1,7 triliões de dólares em 2020 - estava quase no fim.
O'Neill: A economia chinesa desenvolveu-se muito mais do que eu esperava na altura. A Rússia, por outro lado, deixou o caminho do crescimento cedo. Não se esqueça: Durante os primeiros 10 anos, a economia russa cresceu de facto, desde então tem recuado.
DER SPIEGEL: Lamenta ter elogiado o potencial da Rússia há 20 anos - o que poderá levar a que muito dinheiro estrangeiro flua para o país?
O'Neill: Não tenho nada a lamentar. Não inventei o BRIC para recomendar investimentos. Muitos podem tê-lo compreendido dessa forma após as minhas observações terem sido amplamente aceites.
DER SPIEGEL: Teria sido apropriado avisar contra a Rússia num determinado momento?
O'Neill: Foi a própria liderança russa que fez o trabalho em 2006, quando arrasaram a empresa petrolífera e energética Yukos de Mikhail Khodorkovsky perante os olhos do mundo. Os investidores compreendem tais coisas como um tiro de aviso. Em retrospectiva, esse foi o momento em que o sonho russo BRIC começou a rebentar.
DER SPIEGEL: As pessoas em Moscovo, porém, pareciam continuar a acreditar nele durante algum tempo depois disso.
O'Neill: É verdade, eles tomaram o BRIC como uma previsão. Lembro-me de um convite para falar na Cimeira de São Petersburgo em 2008, uma espécie de Fórum Económico Mundial russo. As expectativas dos anfitriões não eram claras para mim no início: era suposto eu falar sobre o impressionante crescimento da economia russa e não deixar dúvidas de que a Rússia seria uma das cinco maiores economias em 2020. Mas não estava preparado para fazer isso; a realidade simplesmente não o reflectia. Disparei um tiro de aviso directamente para o coração do estabelecimento russo. Depois da minha conversa, o ambiente estava no fundo do poço; agarrámo-nos às nossas chávenas de café em embaraço. Nesse dia, percebi que a Rússia estava a enfrentar enormes problemas. Enquanto o povo de Putin confundia o meu sonho com a realidade, eles não estavam preparados para fazer nada a esse respeito. Eles queriam que eu servisse como uma espécie de testemunha chave para uma história que, em última análise, era insubstancial.
DER SPIEGEL: O que é que disse exactamente em São Petersburgo?
DER SPIEGEL: Ninguém estava interessado nas suas críticas na Rússia?
O'Neill: Era completamente indesejável. A maioria dos meus contactos, tecnocratas do Banco Central ou do Ministério das Finanças, pareciam sentir que estavam num caminho seguro com Putin. Fiquei muitas vezes surpreendido com a amplitude da sua crença em relação à sua excelência como estratega. Nunca me convenci disso. A verdade é que a crise financeira internacional daqueles anos beneficiou Putin porque fez subir o preço do petróleo. Assim, ele podia continuar a prometer crescimento e prosperidade ao povo russo. Era evidente que a sua enorme popularidade estava destinada a diminuir assim que o preço do petróleo baixasse, o que aconteceu a partir de 2014.
DER SPIEGEL: E o que fez então o grande estratega?
O'Neill: Teve de mudar de rumo quando percebeu que não conseguia alcançar o crescimento que se tinha verificado antes da crise. Nem podia realmente reformar-se, porque muito do seu benefício financeiro pessoal e o de algumas das pessoas que lhe eram próximas dependia do status quo. Assim, começou a propagar o objectivo, por assim dizer, de: "Tornar a Rússia Grande Novamente!" Em vez de crescimento, os russos estavam agora a receber nacionalismo. Pelo que podemos ver, Putin trouxe a falência económica juntamente com o nacionalismo.
DER SPIEGEL: Poderá Putin evitar a falência forçando o Ocidente a pagar as importações de gás e petróleo em rublos?
O'Neill: Uma vez que os tratados terão de ser alterados, o Ocidente teria de se permitir ser forçado. Penso que é mais provável que a Rússia venha a exportar menos depois desta exigência desajeitada. Mas também se pode ver nele um movimento típico de Putin, cuja mão tem sido sem dúvida forçada pelas sanções ocidentais. Obviamente, ele quer colocar as partes sancionadoras, que lhe compram energia, sob pressão, porque se concordassem com a exigência, teriam de comprar grandes quantidades de rublos ao próprio Banco Central que foi excluído dos negócios internacionais e cujas imensas reservas de dólares foram congeladas. Todo este desastre revela o quanto Putin depende das finanças internacionais, desde que o dólar seja a maior moeda de reserva. No final, é o Ocidente que decidirá sobre a falência de Putin - e outros déspotas pensarão duas vezes no futuro sobre onde estacionam o seu dinheiro.
DER SPIEGEL: Poderá o dólar continuar no seu papel actual à luz da enorme carga da dívida soberana dos Estados Unidos e do crescimento contínuo da China?
O'Neill: Ninguém sabe, mas neste momento há muito a dizer a seu respeito, mesmo que haja limites para tudo, certamente incluindo a montanha de dívida da América. Mas para acabar com a carreira de reserva do dólar - estas profecias têm décadas, a propósito - uma nova moeda como a da China tem de estar pronta. Isso requer passos reformista e uma abertura não evidente no actual estado unipartidário de Xi Jinping. Mesmo que a doutrina alemã "mudar através do comércio" ("Wandel durch Handel") não tenha funcionado. Não é coincidência que apenas as democracias - os EUA, a Europa e o Japão - forneçam moedas de reserva.
DER SPIEGEL: Putin escondeu muito ouro ao mesmo tempo. Que uso - para além de servir de baú de guerra - têm as reservas de ouro ainda hoje?
O'Neill: O ouro é uma obsessão histórica desinteressante e antiquada da década de 1940. Não vejo qualquer utilidade para ele, excepto a que mencionou. Apenas os governos que não têm auto-confiança armazenam ouro. É inútil.
DER SPIEGEL: Diz-se que a Alemanha tem as segundas maiores reservas de ouro do mundo. O que faria com ela?
O'Neill: Faça algo mais imaginativo com ele! Venda-o e invista o dinheiro na educação ou na luta contra a doença.
DER SPIEGEL: Ou deveria Berlim, à luz da transformação anunciada pelo chanceler alemão Olaf Scholz na sequência da invasão russa da Ucrânia, comprar armas?
O'Neill: Isso ainda seria melhor do que ter ouro.
DER SPIEGEL: Em que condições pensa que se encontra hoje a economia mundial?
DER SPIEGEL: O que mais o preocupa de um ponto de vista económico?
O'Neill: Que a expectativa geral de inflação continue a crescer. É a condição mais perigosa para a inflação real. Então, os bancos centrais teriam de reagir e aumentar as taxas de juro para 6 por cento ou mais para forçar uma recessão. Isso iria lançar-nos de novo numa situação como nos anos 70, que se chamava "estagflação": O dinheiro perdeu valor, os salários e os preços subiram, enquanto que a economia não cresceu.
DER SPIEGEL: Como se pode evitar um tal desenvolvimento?
O'Neill: A situação actual não é, de forma alguma, conducente a uma melhor produtividade. Mas é exactamente isso que devemos visar - pelo menos no final da crise: aumentar o valor do trabalho para o maior número de pessoas e empresas possível. Uma coisa é certa: Mesmo antes da guerra de Putin, as condições gerais tinham-se deteriorado consideravelmente e foi programado um declínio do crescimento económico na segunda metade de 2022. No entanto, tenho esperança que o resto do mundo possa evitar um verdadeiro choque. Para a Rússia, é um pesadelo.
DER SPIEGEL: Há alguma coisa que o deixe optimista neste momento?
O'Neill: Primeiro, como disse Winston Churchill: "Nunca desperdice uma boa crise". Acredito firmemente que de cada crise surgem grandes oportunidades, sobretudo financeiras. Segundo, o estado em que nos encontramos agora demonstra a importância da cooperação e colaboração - e que não há vantagem em ficar sozinho, especialmente como o agressor. E em terceiro lugar, estamos a aprender novamente que coisas más podem acontecer, e que a história nem sempre está do nosso lado. Ao mesmo tempo, temos de continuar a adaptar-nos às novas condições. Para os alemães, por exemplo, deve ser um choque perceber o nível de dependência de energia estrangeira. O mesmo se aplica à dependência da Alemanha em relação às exportações. Penso que é uma loucura que a maior economia do coração da Europa só possa estar a dar-se bem se o resto do mundo estiver a dar-se bem. Seria bom que a Alemanha não só acordasse com um novo quadro militar em resultado desta crise, mas também fizesse tudo o que pudesse com grandes pessoas e ideias para transformar as suas dependências numa nova vantagem.
March 10, 2022
Os gurus da economia são um perigo
Perante o fim da União Soviética e do Bloco Comunista, o autor, o colunista do The New York Times Thomas Friedman, explicava que à medida que o capitalismo (visto como a outra face da democracia) se expandia, as guerras praticamente tornavam-se impossíveis. Se havia McDonald's num país, argumentava, é porque este já tinha uma razoável classe média e as classes médias não gostam de guerras, logo os políticos por elas eleitos não fazem guerras.





