Alunos da OCDE voltam a piorar e em Portugal regrediu-se 20 anos a Matemática e a Leitura
Após quebra sem paralelo na pandemia, novo PISA, o grande estudo da OCDE, mostra deterioração generalizada de competências, sobretudo a Leitura.
Andreia Sanches
Público
Em Portugal, também: de 2015 para cá houve mesmo um retrocesso, lê-se no relatório, e "reverteu-se completamente" o progresso que o país tinha alcançado. Estamos "perto do nível observado em 2006". Ou pior.
Portugal não desce apenas face à edição de 2022, ano em que se registou na generalidade dos países
uma queda sem precedentes — culpou-se sobretudo a
pandemia, mas a OCDE já então alertava para o facto de, em vários anos, a curva descendente ter começado desenhar-se bem antes, incluindo por cá.
Na verdade, no que diz respeito às competências de Leitura e Matemática, os resultados dos alunos portugueses de 15 anos são, em 2025, piores do que em 2006 (aliás, no caso da Leitura até são piores do que em 2000, ano do primeiro estudo).
Em Matemática, por exemplo, os alunos do Alentejo e da Península de Setúbal revelam competências que ficam 30 pontos ou mais abaixo da média nacional.
Na Leitura, os jovens de 15 anos que fizeram os testes do PISA obtiveram menos 25 pontos, no caso da Península de Setúbal, e menos 35 pontos, no caso do Alentejo, do que os colegas do resto do país. Nas Ciências o cenário não melhora (menos 28 e menos 34 pontos, respectivamente).
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E esta queda que nas notícias parece abrupta, não é: há um declínio constante e progressivo observado por todos os professores na leitura, na matemática, no raciocínio, na atenção, na capacidade de esforço, na racionalidade dos sistemas, na perseverança, no interesse pelo conhecimento e respeito pela autoridade, pessoal e epistémica, acompanhado de um crescimento de informalização de todos os espaços, vitimização, absentismo crónico (alunos 100 e 300 faltas que passam na mesma porque são vítimas da sociedade opressora), infantilização do ensino, exigência de validação de subjectivismos e emocionalismo.
As razões explicativas? Há razões próximas, no caso português e razões de fundo que ultrapassam o país e são comuns aos outros países que em geral estão também em recessão nos resultados.
Razões próximas:
- As aprendizagens essenciais desvirtuaram os currículos e empobreceram-nos, tanto nos conteúdos como nos processos cognitivos. Basta comparar um manual escolar com vinte anos a um actual para se ver a infantilização e empobrecimento dos conteúdos, dos exercícios, dos processos mentais implícitos, etc. A lógica das aprendizagens essenciais é: vamos dar aos alunos o mínimo dos mínimos que eles são coitadinhos e não se espera nada deles.
- O vício dos telemóveis com tudo o que isso implica: constante distracção com a consequência de não formar competências de concentração e incapacidade de seguir um raciocínio complexo. Substituição do desenvolvimento de processos cognitivos (analisar, encadear ideias em processo de fundamentação, caracterizar, inferir indutiva e dedutivamente, retirar conclusões de premissas, relacionar, selecionar da memória, contextualizar, conceptualizar, discorrer, argumentar, etc.) e sociais pela IA e pelas redes sociais, respectivamente. Incapacidade de permanecer na dificuldade e lidar com a frustração; incapacidade de aprender conteúdos não-lúdicos, sem prazer imediato; tolerância do aborrecimento. Linguagem e pensamento reduzidos ao absoluto presente, logo, incapacidade de compreender textos com formação frásica com tempo verbais complexos, logo, incapacidade de distinguir nuances no tempo, no espaço e na realidade em geral que corresponde àquela linguagem. Total crença na sua própria ignorância como conhecimento equivalente a qualquer outro.
Parentalidade comprometida. Pais sem autoridade, sem critérios de qualidade para consigo mesmos enquanto educadores e na sua relação com os filhos, seja na linguagem, seja no pensamento, seja nos comportamentos. Pais sem respeito pela educação académica, submissos aos telemóveis. Demissionários da função de educadores parentais. Quanto mais pobres e mais falhos na sua formação académica, mais ausentes no acompanhamento dos filhos, mais inadequados na relação com os professores e no exemplo que dão. Não por acaso, Setúbal e o Alentejo são as regiões mais pobres do país.
Políticas de destruição total da autoridade dos professores: epistémica, pedagógica e disciplinadora. Estas estão ligadas com as razões de fundo - ficam para outro post.
Políticas de inclusão mal pensadas e mal desenhadas que não incluem e têm servido para desresponsabilizar os alunos da obrigação de assiduidade, de estudo, de comportamentos de respeito; têm servido para destruir a assimetria entre professores e alunos com excesso de informalidade. 'Inclusão' levada a sério custa dinheiro a sério. Neste momento o que há nas escolas são equipas de pessoas que à margem da letra e do espírito da lei, em vez de apoiarem professores na tarefa destes de construção das aprendizagens dos alunos, como está definido na lei, instauram-se como central burocrática de controlo de professores, com interferência -às vezes negativa- no seu trabalho e autonomia pedagógica.
Burocracia: escolas transformadas em fornecedores de dados, onde o aspecto mais importante da profissão, o ensino, é uma impossibilidade real para a maioria dos professores: construir materiais, construir estratégias pedagógicas, construir avaliações com significado é um impossibilidade dado que dois terços do tempo dos professores é preencher papéis (plataformas) sem nenhuma relevância pedagógica que roubam o tempo e a energia todos. Há professores com 8 turmas, 9 turmas, 5 turmas e 2 DTs, com projectos, com cargos e no meio disto tudo, burocracias infindas sem nenhuma serventia pedagógica. É só controlo.
Note-se que há uma série de portugueses na Direção de Educação e Competências da OCDE que definem e recomendam políticas educativas, que seguimos como carneiros, entre os quais João Costa, que a chefia - o mais incompetente ministro da educação desde a Rodrigues.
No entanto, os outros ministros todos, desde a Rodrigues, só têm aprofundado e desenvolvido os erros dela. Todos. Crato pôs fora do sistema 30 mil professores credenciados. Costa/Brandão foram os autores da Aprendizagens Essenciais, esse manual de instruções para o miserabilismo e a mediocridade. E veja-se o caso do ministro actual que tem a cotação em alta entre os membros do governo e os partidos que o sustentam com o argumento de fazer muitas reformas. E que reformas são essas?
- Um corte gigantesco dos serviços do ministério da educação com contratação de entidades externas, hipoteticamente a custar menos dinheiro - o que já começou a dar mau resultado com os exames, mas a questão principal é a do pressuposto ser o mesmo: usar a educação para poupar dinheiro.
- Uma actualização tecnológica na classificação de exames, centralizando os agrupamentos de exame num único gigantesco com provas enviadas por computador. Correu pessimamente. A única parte deste processo que é uma reforma educativa, é a parte de atomizar a classificação de exames por questão, retirando à classificação de exames o seu carácter pedagógico, em nome de uma uniformidade total de classificação, que de qualquer modo não existe, nem é desejável, porque o seu pressuposto é a uniformização do pensamento dos seres humanos, alunos e professores, com referência a uma pessoa qualquer que construiu certos critérios de classificação - uma engenharia social à maneira da nova-esquerda. Portanto, uma reforma pedagogicamente negativa.
De resto, apesar de faltarem estruturalmente professores, o ministro está obcecado com ameaças de não pagar a professores se o sumário não for escrito nos prazos que ele quer. Quer ter a contabilidade toda certinha para controlar os professores. É um economista. Desde quando controlar professores é uma reforma? Não é que eu seja contra o rigor do sumário, mas andar a ameaçar professores de os prejudicar no salário por causa da porcaria de um sumário fora do prazo? É a melhor estratégia de tornar a profissão interessante?
Hoje-em-dia, segundo contam os colegas novos que chegam à escola, na formação de professores só se fala de pronomes, de ideologia de género, de afectos, de empatia e de inclusão. Nada relativamente a didáctica das disciplinas: estratégias de cativar alunos para a leitura e o estudo; estratégias de direcção de turma para chamar os pais ao acompanhamento responsável dos filhos, estratégias para conseguir a colaboração dos alunos nos trabalhos escolares e desenvolvimento do currículo.
Portanto, estes dados só surpreendem quem não está nas escolas e são resultados que vêm sendo anunciados sistematicamente por professores em todo o lado em que podem falar, há duas dezenas de anos.
Não vejo nenhuma alteração de direcção neste caminho para o desastre, antes pelo contrário, de maneira que isto ainda vai piorar muito, até porque os professores formados antes das políticas da Rodrigues e seguintes, quando era extremamente difícil entrar na profissão e só entravam os melhores formados, estão agora pelos cinquenta e tal anos; daqui a dez ou quinze anos, a esmagadora maioria dos professores das escolas serão gente com formação muito deficiente e já fruto da educação miserabilista de João Costa e seguintes.
E os professores que estão agora nas escolas, para suprir a falta de professores, estão com 3, 4, 10 horas extraordinárias em cima do seu horário. Cada turma a mais representa um acréscimo grande de burocracia, reuniões, noites a classificar testes e a preparar aulas, mais problemas com alunos indisciplinados, 'oprimidos', como todos agora se vêem devido às pedagogias da nova-esquerda.
Há uma quantidade enorme de professores em burnout, com depressões, que ficam doentes, porque todo o sistema, desde o ME está contra os professores e não os apoia. Há menos professores ainda do que se fala, pois muitos começam o ano lectivo, mas a certa altura não aguentam e depois não vêm substitutos, sobretudo se o horário tem uma DT.
Portanto, estes resultados só surpreendem quem não está nas escolas.