March 11, 2026

#transfascismo

 

Um trans homem biológico aconselha os outros trans a entrar à força na casa-de-banho das mulheres, com armas e ameaça-as de morte. 


Isto não podia ser inventado

 

Isto não podia ser inventado

 

O lugar da Justiça e da sua operacionalização no chão comum das sociedades


Isto vem a propósito do Parlamento inglês ter um projecto-lei à aprovação segundo o qual será possível o juiz decidir sozinho que as pessoas acusadas não terão direito a um julgamento com um júri - chamam-lhe justiça sumária. Uma, cada vez mais rara, ocasião, em que um Parlamento discute o impacto da legislação nos princípios fundadores da sociedade em vez de ficar aprisionado em acusações mútuas. Um discurso notável.


Viver entre dois olhares e ser cego ao seu



Esta reflexão de Du Bois é interessante, mas o que ele diz dos afro-americanos viverem entre dois olhares aplica-se a todas as mulheres do mundo e não apenas por causa do olhar dos homens brancos, mas por causa do olhar de todos os homens, incluido os afro-americanos - ou indivíduos não brancos de outras sociedades. Aliás, a crítica que Macamo faz à intervenção dos EUA no Irão e à cumplicidade dos portugueses com essa posição, não leva em conta, precisamente, a escravatura das mulheres na sociedade iraniana, os pedidos insistentes em todos os canais abertos ao mundo de ajuda internacional para se libertarem da escravatura atroz dos islamitas, seus algozes. A condição "dolorosa" de que fala Du Bois é experimentada por muitos outros grupos e desde logo as mulheres, mas não só (os que têm deficiências, os obrsos, os que têm certas doenças, etc.), pois todos os que são vítimas de preconceito as sentem e não apenas os afro-americanos, de maneira que esta insistência na excepção da dor dos afro-americanos parece-me encaixar-se num processo de vitimização que, quanto a mim, não ajuda à solução de problemas, antes a perpétuá-los.

No início do século XX, o sociólogo afro-americano W.E.B. Du Bois formulou um dos conceitos mais elegantes da teoria social moderna. No seu livro The Souls of Black Folk, Du Bois falou da “dupla consciência” para descrever a experiência de quem vive permanentemente entre duas formas de ver o mundo. O negro americano, dizia ele, aprende a olhar para si próprio simultaneamente com os seus próprios olhos e com os olhos da sociedade que o julga e o mede. Vive dividido entre duas perspectivas que nem sempre coincidem. A sua vida torna-se, por assim dizer, um exercício permanente de visão estereoscópica.

Du Bois descrevia uma condição dolorosa, mas também extraordinariamente fértil. Quem vive entre dois olhares aprende a reconhecer incoerências que outros não vêem. Aprende a desconfiar de certezas demasiado confortáveis. Aprende, sobretudo, que os princípios universais proclamados pelas sociedades dominantes nem sempre são aplicados com a mesma generosidade a todos.    - Elísio Macamo in publico.pt

 

🎯 Acerca das artes, ditas, elitistas



Concordo com este artigo. Vivemos um tempo em que as pessoas já só ouvem a música que o Spotify deixa e a música encolheu-se para 'caber' no formato do Spotify. As pessoas que conheço que gostam de música clássica começaram a ouvi-la desde miúdos, em casa. Certos filmes e até na publicidade, tornam extremamente populares, peças de música clássica e/ou ópera, o que mostra que existe, como sempre existiu, a sensibilidade a outros estilos de música para além do que passa nos canais digitais.
A falta de procura pela música clássica e pela ópera deve-se ao abandono dessas artes pelos canais audiovisuais. Quando era miúda e os canais de rádio e TV não eram de uma mediocridade intolerável, as artes, agora consideradas eruditas, eram comuns na TV: o teatro, os concertos, a ópera, o ballet. Desde miúdos, mesmo que em casa não houvesse o hábito de ir a esses espectáculos, havia a construção de uma sensibilidade estética pela familiaridade com essas artes. Em minha casa ouvia-se música clássica mas não ópera. A primeira vez que vi uma ópera devia ter uns 5 ou 6 anos e foi na TV. A RTP passou uma Traviata. Causou-me um grande impacto e lembro-se de estar a vê-la e a fazer perguntas à minha mãe. Aprecio muito o Coliseu dos Recreios por levar à cena esses espectáculos a preços acessíveis à grande maioria das pessoas e, desse modo, torná-los familiares e populares. 
Porém, o caso de salas como o Coliseu dos Recreios ( veja-se como o nome indica o seu fito de popularidade) são ilhas no meio dos oceanos de mediocridade que parecem ser agora o ideal das sociedades. Timothée Chalamet, um actor novo mas já com reputação, encarna perfeitamente este novo desiderato de mediocridade cultural.


A ópera transcende o tempo, Timothée Chalamet reflete um equívoco da sociedade

Timothée Chalamet considera que a ópera necessita de cuidados intensivos, refletindo a ideia que a música erudita ocidental é aborrecida e complexa. Não será isto resultado de falta de familiaridade?
Gustavo Silva

(Estudante de Ciências Musicais na NOVA FCSH. Aprendiz de piano, flauta transversal e direção de orquestra. Fã de música, arte e filosofia.)

O projeto Opera Europa comprovou que, em 2022, a indústria operática europeia contou com 200 mil profissionais, 20 mil performances e 13 milhões de espectadores. Além disso, a resposta forte nas redes sociais (à cabeça Metropolitan Opera) mostra a imprecisão do comentário. De qualquer forma, a música erudita ocidental é, por vezes, associada à elite e a um público restrito, importando questionar porque é que a ideia de que é aborrecida está intrínseca na sociedade – será que alguma vez ouviram sinfonias de Mahler ou Bruckner?

Antes de mais, mesmo tendo em conta os elevados custos financeiros de produção e consequentemente de assistência, considero que as barreiras à denominada alta cultura são maioritariamente sociais e simbólicas (na esteira de Bourdieu). Tal como N. Heinlich afirma, as barreiras derivam principalmente de falta de familiaridade. Aliás, as plataformas de streaming permitem-nos assistir onde e quando quisermos - curiosamente, a juntar a isto, a Ópera de Seattle aproveitou esta polémica para promover um desconto de 14% nos seus espetáculos.

No século XXI, marcado pela comercialização da música, peças que não foram pensadas para consumo rápido tendem a ter mais dificuldade em afirmar-se. Como estas práticas artísticas podem ser extremamente longas, o ouvinte habituado a músicas de cinco minutos dificilmente lhes dedicará atenção prolongada (só como fundo sonoro). Além disso, em oposição a outras artes, acredita-se que, para assistir ópera, são necessários conhecimentos teóricos (língua diferente; música virtuosa e enredos longos). Não obstante, isto é um preconceito cultural herdado: a música é ouvida e sentida. O capital cultural pode aprimorar a experiência, mas não é pré-requisito.

publico(excerto)

Leituras pela manhãzinha - "A dor fez-me perceber que eu era menos uma criatura com uma identidade interior estável do que um ecossistema penetrável.”

 


This Is the Door: The Body, Pain, and Faith, de Darcey Steinke. HarperOne, 2026.

Há um verso de Heinrich Heine que me irritou quando o li pela primeira vez e que continua a irritar-me quando o releio:

“A dor psíquica é mais facilmente suportada do que a dor física; e se tivesse de escolher entre uma má consciência e um dente estragado, escolheria a primeira” — o que, se eu não soubesse melhor, faz Heine soar como se nunca tivesse sido verdadeiramente atingido por dor psíquica. 

A dor psíquica, a verdadeira, causa dor física: o peso na cabeça, a tensão no peito, o nó nos intestinos, o aperto na garganta e todas aquelas nódoas negras de embater em objetos porque a depressão distorce a visão. Além disso, existe ópio e extracção para esse dente estragado; ainda não encontrei ópio nem método de extração para a alma doente.

Winston Smith, de George Orwell, porém, concorda com Heine:
Da dor só se pode desejar uma coisa: que pare. Nada no mundo é tão mau como a dor física. Diante da dor não há heróis.

Mas Karl Marx, numa carta de 1881, inverte a preferência de Heine:
O único antídoto para o sofrimento mental é a dor física.

Ter de escolher hipoteticamente entre tortura mental e tortura física é mais ou menos como ter de escolher hipoteticamente entre morrer afogado ou morrer queimado. 

Próxima pergunta. Qualquer que seja a preferência, a evolução por selecção natural darwiniana fez um trabalho terrivelmente atroz ao fabricar-nos. As nossas costas partidas, os joelhos arruinados, os tornozelos frágeis e dentes inclusos são uma refutação estrondosa da ideia de que fomos criados com ternura à imagem de Deus — a menos que se esteja disposto a aceitar um deus com costas partidas, joelhos arruinados, tornozelos frágeis e dentes inclusos.

No seu belo novo livro This Is the Door: The Body, Pain, and Faith, a romancista e memorialista Darcey Steinke, autora do clássico Suicide Blonde (1992), escreve:
Sou uma criatura improvisada, montada à pressa, que transporta comigo, como todos nós, todas as criaturas que alguma vez fui.

Ela tem razão: que destroços somos, por dentro e por fora. Que falhas físicas — para não falar do nosso equipamento psico-emocional defeituoso. Steinke afirma que a própria dor é uma espécie de falha, embora definitivamente não uma falha dos nossos nociceptores, essas diligentes terminações nervosas responsáveis por enviar as picadas e ferroadas diretamente para o cérebro. Não: os nociceptores são bem-sucedidos para além de qualquer medida.

Embora Steinke tenha sido fustigada por enxaquecas fluorescentes, cólicas menstruais lancinantes, a dor sufocante de um desgosto amoroso e a angústia enevoada da melancolia, foi a dor nas costas que parou o relógio:

A dor põe-nos de joelhos fisicamente, mas também espiritualmente. Muitas vezes perguntei-me se ajoelhar num sentido religioso não será uma pantomima da forma como a dor pode obrigar um corpo a descer até à terra.

Steinke dedicou o livro ao seu cirurgião de coluna. As suas descrições poderosas da própria dor nas costas e das dores variadas de outras pessoas fazem lembrar as palavras de Rei Lear a Cordélia:

Estou preso
A uma roda de fogo, onde as minhas próprias lágrimas
Escaldam como chumbo derretido.


Edgar, ao ver Gloucester cego no mesmo acto, diz para si:

O pior ainda não chegou
Enquanto pudermos dizer: ‘Este é o pior.


Por outras palavras, sofrer é melhor do que estar morto. Se assim o dizem.
(...)
“A dor”, escreve ela, “é o combustível da oração”, e continua:
O sofrimento, seja qual for a sua causa, separa-nos do mundo que conhecíamos e empurra-nos para um limbo entre o que foi e o que poderá ser. A oração e a meditação são tentativas de abrir um buraco dentro desse abismo, de criar um espaço dentro da claustrofobia do sofrimento, de cortar o corte.

Não se trata de um limbo qualquer, mas — escreve mais tarde — de um “limbo teológico”. O sofrimento coloca-nos no ponto intermédio entre crença e heresia.
(...)
Steinke divide o livro em dez capítulos luminosos: Coluna, Joelhos, Coração, Cérebro, Pele, Seio, Desgosto Amoroso, Sofrimento, Alma, Cura.

Ao longo deles desfila uma procissão de artistas, escritores, músicos e visionários cujas vidas foram violadas pelo sofrimento: Frida Kahlo, Franz Kafka, Bernadette Soubirous, Friedrich Nietzsche, Alice James, Fanny Burney, Simone Weil, Audre Lorde, Carolee Schneemann e Kurt Cobain, entre muitos académicos e investigadores que tentam compreender porque sofremos e o que isso poderá significar.

O pai de Steinke era pastor luterano, e o pensamento teológico que ela absorveu na infância tornou-se “parte da forma como tentei compreender a dor”. Existe uma antiga e fecunda ligação entre religião e sofrimento — no tempo de John Donne, este tipo de depressão era chamado “melancolia religiosa” — embora um dos argumentos a favor da religião seja precisamente ajudar os aflitos a sofrer menos.

“Embora não considere a minha dor sagrada”, escreve Steinke, “a imobilidade que ela provoca pode sê-lo. A dor fez-me perceber que eu era menos uma criatura com uma identidade interior estável do que um ecossistema penetrável.”

Ela chama à dor “uma força malévola” — a dor como iniquidade, um flagelo vindo diretamente da boca do inferno.
(...)

Steinke cita Martin Buber:

“O que esperamos quando estamos em desespero? Certamente uma presença através da qual nos seja dito que, apesar de tudo, há sentido.”
(...)
Steinke confessa que a sua dor “é também uma espécie de paixão” — uma Paixão no sentido espiritual e sacrificial — “que pode ser um pouco acalmada pelas memórias de felicidade”. Com isso quer dizer que essas memórias recordam que o seu corpo “tem muitas capacidades”.
(...)
No drama heroico The Indian Emperour, John Dryden escreveu:

Pois toda a felicidade que a humanidade pode alcançar
não está no prazer, mas no descanso da dor.


As exigências inflexíveis da existência recusam o pedido do hedonista: nenhum de nós pode confiar no prazer, ou pelo menos na sua duração. Evitar a dor é o máximo a que podemos aspirar.

A nossa dor tem tal variedade cromática que inventámos sinónimos igualmente coloridos, todos cantando o mesmo estado e o desejo de o inverter: angústia, agonia, dor, aflição, miséria, sofrimento, tormento, tortura, espasmo.

Quando a mãe de Steinke morre de um coração rebelde, de artérias coronárias bloqueadas por cálcio, ela percebe que a palavra dor parece inadequada para descrever as sensações do corpo quando passa da vida para o nada.

Como chamamos ao início da aniquilação?

Steinke faz uma distinção perspicaz antes de um diagnóstico igualmente perspicaz:
O sofrimento é complexo: mais amplo do que a dor e a doença, é uma premonição da desordem última da pessoa; é a frustração da realização do próprio ser; é uma experiência de alienação, impotência e desesperança; é uma ameaça à posição social; é a perda de um eu anterior e de um modo de vida anterior; é a incerteza quanto ao centro e à esperança da vida; é o ponto de encontro onde a finitude e o infinito se cruzam.
E quanto à doença, uma categoria suficientemente ampla para abarcar inúmeros sofrimentos?
A doença agarra as pessoas pela alma tanto quanto pelo corpo e perturba ambas.
Com perturba, Steinke quer dizer vira do avesso, desarticula.

Algumas das partes mais comoventes e memoráveis do livro são as dedicadas à morte do pai por cancro e à morte da mãe por doença cardíaca. Uma década antes de morrer, a mãe precisou de uma mastectomia devido a cancro da mama, e aqui Steinke mostra-se no seu melhor, com grande ternura:
Sofri cólicas menstruais, a dor de um aborto, dores de parto, afrontamentos, a ansiedade e o esgotamento do assédio sexual, mas a dor somática feminina que mais me afetou não foi a minha, mas a da minha mãe. Não uma dor no meu corpo, mas no corpo que fez o meu.
O espirituoso britânico do século XIX Sydney Smith observou que “não adianta pregar a ninguém, a menos que por acaso o apanhem doente”, mas o pai de Steinke, pastor, foi um caso inverso: a sua fé escapou juntamente com a sua saúde, e ele parece ter aceite isso.

Com o corpo devastado, no deserto da angústia, as nossas ideias espirituais são abaladas, possivelmente até obliteradas.

No seu espantoso poema “Child Harold”, escrito no asilo de High Beech em 1841, John Clare refere-se a

A pálida morte, o grande médico

que “cura toda a dor” — porque, para os aflitos sem consolo nas garras de uma doença terminal, só um médico serve. Não é preciso ser um génio louco para perceber isso.

O mundo parece preferir-nos em sofrimento. Steinke cita um aforismo de Franz Kafka:

Na luta entre ti e o mundo, aposta no mundo.

O injustamente esquecido poeta britânico do século XIX e místico católico Francis Thompson tem esta estrofe final sombria e certeira no seu poema musical Daisy:
Nada começa e nada termina
que não seja pago com um gemido;
pois nascemos na dor de outros
e perecemos na nossa.
Boa sorte a contradizer isso.

Hannah Arendt, com a sua habitual lucidez implacável, escreve em The Human Condition (1958) — livro que surpreende que Steinke não cite — o seguinte:
“A condição humana é tal que a dor e o esforço não são apenas sintomas que podem ser removidos sem alterar a própria vida; são antes os modos pelos quais a própria vida, juntamente com a necessidade a que está ligada, se faz sentir. Para os mortais, a ‘vida fácil dos deuses’ seria uma vida sem vida.”
Ao que apetece responder: fale por si, senhora Arendt.

Percebe-se o que Arendt está a fazer aqui — exatamente o que pensadores e sofredores têm feito desde que Sólon afirmou, por volta de 440 a.C., “Não consideres nenhum homem feliz antes de morrer”: tentar atribuir sentido ao sofrimento inevitável que precede a morte inevitável. 

Porque, se se encontrar sentido no sofrimento, pode encontrar-se sentido na própria vida.

A contribuição do cristianismo para esta ideia — o sofrimento gera redenção — é também a principal razão pela qual é a marca mais bem-sucedida da história. Toda a gente sofre e anseia por libertação. 

Vale a pena citar Steinke longamente aqui:
Caminho numa corda bamba entre revoltar-me contra a minha dor e tentar procurar quaisquer restos de significado que possam ter ficado nos seus destroços […]
A dor, como uma versão extrema da vida secular moderna, obriga-me a existir sem fundamento nem certeza.
A dor educa?
A dor é sempre uma experiência física de negação?
O que podemos aprender com a ferida, com a depuração, com a quietude, com a descriação que a dor intensa traz?
A dor aniquila-me mas também, de algum modo, recria-me? […]
A dor do meu nascimento trouxe-me à vida. Agora a dor transforma-me novamente, mudando os meus valores, a minha empatia, a minha ideia do mundo à minha volta, até a profundidade e intensidade da minha capacidade de amar.
O lema dos culturistas — No Pain, No Gain — refere-se à dor física quase extáctica de rasgar fibras musculares com pesos, para que o tecido se repare com maior volume.

Steinke abraça a versão psicoemocional dessa ideia — uma versão que é tão frequentemente falsa quanto duvidosamente verdadeira.

Nas páginas finais, ela legitima o cliché de que o sofrimento favorece a arte. Mas até William Blake, que conhecia bem os dentes da melancolia — no seu estúdio tinha uma gravura de Melencolia I (1514), de Albrecht Dürer — sabia melhor:
Às vezes tento tornar-me miserável para trabalhar mais, mas descubro que é uma experiência tola.
Uma das pessoas entrevistadas por Steinke, uma enfermeira digna com um joelho devastado, está suficientemente cansada e amarga para dizer com toda a clareza:

“Da minha perspetiva, não há absolutamente nada a aprender com a dor.”

Steinke perde o equilíbrio aqui:

As pessoas não são destruídas pelo sofrimento, mas pelo sofrimento desprovido de sentido. O sentido é maior do que um diagnóstico ou uma cura.
(...)
É profundamente humano desejar que o nosso sofrimento esteja grávido de significado, que indique um sentido para além das aparentes estrangulações e devastações inúteis.

Quando Emily Dickinson escreve:

Depois de uma grande dor, surge um sentimento formal

quer dizer que a dor intensa nos transforma em algo quase mecânico; esvazia-nos por dentro, transforma-nos num autómato que pisca os olhos. Não há nada a aprender, nada a ganhar com esse tipo de tormento.

Deixo-vos com as sábias estrofes finais de 90 North, um dos poemas insuperáveis de Randall Jarrell, cujos dois últimos versos caem como o golpe de um martelo:
Aqui, no verdadeiro polo da minha existência,
onde tudo o que fiz é sem sentido,
onde vivo ou morro apenas por acaso —
onde, vivendo ou morrendo, continuo sozinho;
aqui, onde o Norte, a noite, o icebergue da morte
me expulsam da escuridão ignorante,
vejo finalmente que todo o conhecimento
que arranquei da escuridão — que a escuridão me lançou —
é tão inútil como a ignorância: nada vem do nada,
a escuridão vem da escuridão. A dor vem da escuridão
e nós chamamos-lhe sabedoria. É dor.
https://thebaffler.com/latest/the-darkness-from-the-darkness-giraldi

March 10, 2026

A Ucrânia está muito à frente nas arte militares

 

💥 🪖 🇺🇦

 

Os húngaros admitem que roubaram dinheiro que não é seu

 

UE, o que vão fazer?

Nem com os presente de Trump a Rússia é capaz

 

A ideia de que Putin era um tipo competente foi largamente exagerada. Na verdade era -e é- um ex-KGB perito em recrutar, chantagem e subornar, mas governar e liderar exércitos exigem outro tipo de competências que ele não tem.


"Aid to Ukraine must not be interrupted"

 

Este argumento tem mérito mas também tem muitas falhas

 

Este indivíduo argumenta que a polarização da sociedade se deve à falta de recursos culturais para lidar com as diferenças. Recursos culturais, diz, são a solidariedade e a unidade que têm de ser orgânicos sob pena de a sociedade se tornar disfuncional e de surgir alguém que os impõe à força. Sem um chão comum deixamos de saber absorver as diferenças entre nós. Em sua opinião, a esquerda apoderou-se de todas as instituições sócio-culturais elitistas e tenta impor-se com autoritarismo social e a direita reagiu com autoritarismo político. Uma nova cultura, diz, tem emergido nestes últimos 40 anos, subjacente a estas visões cosmológicas opostas e essa cultura é o nihilismo e no coração do niilismo está a aniquilação.


Este argumento tem mérito mas tem falhas que o invalidam. 

Estou de acordo que sem uma partilha comum de valores, não é possível as pessoas navegarem nas sociedades sem chocar com as diferenças entre si e estou de acordo em dizer que temos as sociedades ocidentais (ele fala dos EUA) a defender cosmologias opostas. Também estou de acordo com a sua afirmação de que a esquerda tenta impor com autoritarismo sociocultural o seu sistema ideológico e a direita está a reagir com autoritarismo politico. Porém, dizer que a causa deste estado de coisas é o nihilismo não me parece sustentável.

Em primeiro lugar, o nihilismo nem é novo nem recente e estas forças cosmológicas de que fala não são nada nihilistas, pelo contrário. Caracterizam-se ambas pela afirmação de valores, só que em oposição feroz e intransigente uma com a outra. 

Portanto, estará ele a falar de uma terceira força que reage a estas duas...?

Em segundo lugar o que vemos nas sociedades é que, quando reconhecem uma ameaça superior comum a ambas as cosmologias, minimizam completamente as diferenças e unem-se em propósitos comuns. Vemos isso na Ucrânia, nos países bálticos, no Canadá e na UE, todos países sob ataque, uns directamente e com bombas, outros indirectamente com agentes de instabilidade de fito destruidor da coesão social. 

Portanto, não é que falte um chão comum, a questão é as sociedades serem constituídas por pessoas cujas lealdades são extra-sociedade. São lealdade a modelos ideológicos ou políticos totalitários, seja o islamismo, o comunismo, o cristianismo evangélico, o anti-semitismo, a ideologia trans, etc. Todas as forças ideológicas totalitárias (sejam religiosas ou laicas) são, por definição intolerantes, autoritárias, abusivas e destrutivas. Sempre foi assim. E o pior é que os seus membros usam-se de estarem cobertos por essas ideologias totalitárias que têm discursos de virtude, para cometerem os piores abusos, crimes e crueldades, sempre convencidos (os mais ingénuos) de que estão a fazer o serviço do bem.

Enquanto o cristianismo católico foi totalitário, foi intolerante e destrutivo. Isso durou até até há pouco tempo. Hoje-em-dia já só é intolerante e destrutivo em relação às mulheres. Foi o que lhe restou do império.

Vemos que o comunismo, em todos os países que se implantou foi totalitário, intolerante, abusivo e destrutivo, não admitindo nenhuma 'cosmologia' diferente. 

O cristianismo evangélico que se impôs dos EUA é totalitário, abusivo e destrutivo. Muitos dos seus membros de elite estão nos ficheiros de Epstein, estão acusados de pedofilia, de violência. No entanto, a sua linguagem é a da pureza e de refundição dos valores. 

Os islamitas são iguais mas piores porque defendem abertamente os piores crimes como virtudes da sua ideologia a serem defendidas pelas armas.

A ideologia trans, levada a cabo por homens biológicos misóginos e machistas empedernidos, tem imposto a perda de direitos às raparigas, às mulheres, aos homossexuais e às lésbicas, com crimes de violação e abusos sexual, sempre em nome da [pseudo] virtude da inclusão.

Nenhum destes grupos é nihilista. A esquerda em geral impõe aos outros, com neocolonialismo e neorracismo as suas bandeiras, fundadas, em grande parte na ignorância dos factos e na ausência de um pensamento crítico e consistente. Exibem uma vaidade que raia o ridículo quando afirmam que estão a defender os valores universais. Fazem-no aliando-se aos ditadores mais brutais e facínoras - mas não vêem nisso nenhuma contradição. Exemplos? 

Guterres, que tem sustentado activamente os regimes e pessoas que mais destroem e espezinham os direitos das mulheres escreveu um artigo no Público no Dia da Mulher a falar na importância dos direitos das mulheres sempre invocando valores que, na prática, tem ajudado a destruir. Uma arrogância oca.

Outro exemplo? João Costa, o ex-ministro da educação, construiu uma política educativa toda baseada no pressuposto de que os alunos pobres são burrrinhos e que devemos ter pena deles e passá-los a todos e privilegiar os afecto com eles - porque não se espera nada deles...? A vaidade deste paternalismo neocolonialista e neorracista... Os alunos de meios pouco favorecidos não são coitadinhos, têm é grandes desvantagens económicas que se reflectem nas possibilidades de aprendizagem mas, por isso mesmo, por virem de meios desfavorecidos, precisam de sair das escolas mais bem armados do que os outros, porque não vão ter cunhas nem facilidades. Só que isso custa dinheiro e dá muito trabalho e é melhor políticas de tratar todos como coitadinhos.

A direita, estando fora das instituições de elite, reage assaltando o poder político e impondo a sua ideologia e os seus valores que são a pureza e a ordem inicial - que estão longe de cumprir.

Em suma, o que me parece estar a acontecer é o emergir de extremismos que eu relaciono com a decadência da educação da História e das Humanidades que favoreciam uma visão global, não acantonada; a substituição do conhecimento pela opinião e por declarações de expressão de emoções subjectivas; a decadência das autoridades epistémicas, o que leva à ignorância dos factos e à transferência das crenças para influenciadores externos, sem escrúpulos; a corrupção dos mecanismos e das instituições de vigilância democrática e, acima de tudo, a ausência de uma educação do pensamento crítico que implica: estar informado, ter acesso aos factos, ter conhecimentos sólidos e fundamentados sobre os assuntos e pensar - saber considerar os problemas, saber caracterizá-los, saber construir linhas de inferência de regressão fundamental e tirar depois as consequências. Ter referências credíveis segundo sistemas racionais, universais e não emocionais e irracionais.


Quem coloniza quem?

 

 

Quem mais perde com a crise do petróleo?

 


Alguns países do Médio Oriente que têm sido grandes exportadores, através de financiamento e treino, de terrorismo, instabilidade social e guerras como o Irão, o Qatar e a Arábia Saudita e outros, estão agora a ver o que significa a guerra entrar-lhes em casa. É sempre diferente ver a guerra na TV ou vê-la cair no mercado onde costuma ir às compras. Estes são países que todos os dias violam a Carta dos Direitos Humanos e o Direito Internacional. Todos os dias. Não por causa de um líder ditador que vai parar ao poder, mas por desenho do próprio sistema. Tal como acontece com a Rússia.


Dez teses sobre tolerância



Dez teses sobre tolerância

Com o aumento da intolerância, agora é o momento de perguntar: o que é tolerância?

David Blankenhorn

Os americanos, tanto à esquerda como à direita, parecem cada vez mais convencidos de que o ponto de vista do outro lado é tão completamente errado e pernicioso que se tornou simplesmente insuportável. Assim, terminamos relações, retiramos plataformas a certas opiniões e tentamos “cancelar” aqueles que as defendem. Em suma, exibimos uma intolerância crescente.

Talvez seja então altura de perguntar: o que é a tolerância? Qual é o seu valor? Em que fundamentos pode ser criticada? Eis dez teses:


1. A tolerância é suportar condicionalmente coisas de que não gostamos.

Os botânicos perguntam quanta perda de humidade uma planta pode tolerar e ainda sobreviver. No século XVIII, a Hungria via com desagrado os judeus, mas tolerava-os se pagassem um imposto de “tolerância”. Nestes exemplos, ameaças percebidas são consideradas suportáveis para certos fins e dentro de certos limites.

Assim, a tolerância é contingente, praticada não por si mesma, mas porque é um meio para obter outras coisas que desejamos. A questão central torna-se, portanto: tolerância para quê?

2. A tolerância é mais uma concessão do que um direito.

Em The Rise of Toleration, o historiador Henry Kamen define tolerância como “a concessão de liberdade àqueles que divergem em matéria de religião”. A tolerância ocidental tem origem nas guerras religiosas europeias dos séculos XVI e XVII. Exaustos, os europeus aceitaram a tolerância religiosa como o preço necessário para a paz e para o crescimento do comércio.

Esta definição também sugere que a tolerância é concedida por uma parte a outra, e não possuída como direito. Os direitos são coisas fortes. Como afirma a Declaração de Independência dos Estados Unidos, os direitos pertencem aos indivíduos por origem no seu “Criador” e são “inalienáveis”. Não dependem da autorização do Estado nem dos vizinhos para serem exercidos.

A tolerância, em contraste, é mais condicional e profundamente social. Assim, “liberdade religiosa” refere-se normalmente a um direito, enquanto “tolerância religiosa” se refere a uma concessão.

3. A tolerância entra em conflito com outros valores.

A tolerância existe apenas em relação a outros valores, alguns dos quais — solidariedade, democracia ou honestidade — podem entrar em conflito com ela. Teóricos como Isaiah Berlin e William Galston chamam a este fenómeno “bens em conflito” — como a misericórdia em conflito com a justiça, ou a liberdade com a cooperação.

Tais conflitos nunca podem ser totalmente resolvidos. O melhor que podemos fazer é tentar equilibrá-los sabiamente.

4. A tolerância pode pôr-se em perigo a si própria.

No que Karl Popper chamou “paradoxo da tolerância”, uma tolerância ilimitada pode levar à vitória da intolerância, ao tolerar aqueles que são eles próprios intolerantes. Em The Open Society and Its Enemies, Popper alerta:

Se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância com eles… Em nome da tolerância, devemos reivindicar o direito de não tolerar os intolerantes.

5. A democracia não exige tolerância.

Passei grande parte da vida a assumir que auto-governo e tolerância prosperavam juntos, como duas flores no mesmo jardim. Mas estava enganado.

Há mais de duas décadas, Fareed Zakaria propôs o termo “democracia iliberal” para regimes em que líderes são eleitos democraticamente, mas as liberdades civis associadas à tolerância são restringidas.

Um exemplo é a Hungria. Quando Viktor Orbán foi reeleito em 2010 disse:

Uma democracia não tem necessariamente de ser liberal.”

Hoje, a Hungria descreve-se como uma “democracia iliberal”, que procura abandonar métodos e princípios liberais na organização da sociedade.

Orbán e outros que pensam como ele favorecem direitos do grupo sobre direitos individuais. O que “nós” — o “verdadeiro povo” — queremos importa mais do que as reivindicações de minorias impopulares. Assim, a esfera da autoridade expande-se enquanto a esfera da tolerância se contrai.

6. A situação orienta a tolerância.

No estudo The Politics of Unreason, Seymour Martin Lipset e Earl Raab alertam para a tentação de explicar a intolerância como produto de pessoas “maléficas”. Na realidade, os movimentos extremistas são muitas vezes compostos por pessoas comuns submetidas a certos tipos de pressão.

Eles identificam a “privação de estatuto” — a perda de posições sociais anteriormente ocupadas — como um fator central no surgimento de movimentos extremistas.

A situação precede a atitude. Coloque pessoas em certos contextos e a intolerância pode emergir. O problema muitas vezes não são pessoas defeituosas, mas pessoas decentes sob pressão.

O ódio intenso é frequentemente uma reação. A indignação é frequentemente uma expressão de dor.

7. Certos hábitos mentais são hostis à tolerância.

O pensamento binário presume que cada questão tem apenas duas respostas opostas: verdadeiro ou falso, certo ou errado. Algumas escolhas podem ser binárias, mas a maioria não o é.

Como dizia A. J. Muste:

Deve-se assumir sempre que existe algum elemento de verdade na posição do outro.
Outro hábito é o monismo, a crença de que existe um princípio único que explica tudo. Em contraste, o pluralismo de valores defende que os bens da vida são múltiplos e frequentemente entram em conflito.

O pluralismo tende a ser mais favorável à tolerância porque abre espaço para dúvida e incerteza.

8. Envolver-se publicamente com argumentos perigosos não deve depender do conteúdo desses argumentos.

Alguns perguntam: “Debateriam algo realmente horrível?”

A resposta curta é: nada está fora de limites.

Certos temas simplesmente não merecem discussão porque são irrelevantes ou marginalíssimos. Mas se um número crescente de cidadãos começasse a defender algo horrível como agenda política, deveríamos debater esse tema publicamente, permitindo que os seus defensores expliquem e defendam as suas posições.

A alternativa seria ignorá-los, silenciá-los ou criminalizar as suas opiniões. 

9. A tolerância é a condição da liberdade.

Em sociedades livres, as pessoas testam constantemente os limites da tolerância. Todas as sociedades têm fronteiras morais; a questão nunca é “fronteiras ou nenhuma fronteira”, mas qual o equilíbrio mais sensato.

Um ataque intelectual importante à tolerância surge no ensaio Repressive Tolerance (1965) de Herbert Marcuse. Marcuse defende que uma sociedade anti-capitalista deve negar liberdade de expressão a grupos politicamente “retrógrados”. Propõe aquilo que chama “tolerância libertadora”: intolerância para com a direita e tolerância para com a esquerda.

A conclusão sociológica é clara: quanto mais autoritária a política, menos espaço existe para a tolerância, seja à esquerda ou à direita.

10. A tolerância é parceira da verdade.

Porque é que tantas pessoas acreditam que os outros já não aceitam factos? A resposta não é a fraqueza intelectual das pessoas, mas o enfraquecimento das instituições que arbitram a verdade, o que alimenta a desconfiança social.

Vivemos um ciclo degenerativo: polarização → meios de comunicação partidários → distorção factual → mais rancor → mais polarização.

Se quiséssemos acelerar este ciclo, bastaria recusar dialogar com quem consideramos errado, desclassificá-los, silenciá-los ou ridicularizá-los.

Se quisermos interrompê-lo, precisamos de mais diálogo, não menos.

Para obter mais verdade, devemos tolerar mais erro, não menos. Porque a melhor forma de pessoas livres descobrirem o que é verdadeiro é permitir que afirmações falsas e ideias odiosas sejam contestadas publicamente e corrigidas.

O pensador Jonathan Rauch, no livro The Constitution of Knowledge, chama a isto “o princípio social mais contr-aintuitivo da história humana”.

No início deste ensaio perguntei: “Tolerância para quê?”

A resposta essencial é: para a verdade.


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fonte: https://www.persuasion

David Blankenhorn é presidente da organização Braver Angels, que trabalha para reduzir a polarização e aumentar a boa vontade na política e na sociedade dos Estados Unidos.  @blankenhorn3

March 09, 2026

Nocturna - Lily Was Here

 





Marcelo Rebelo de Sousa foi um presidente único

 

Não há outro igual. Entrou a pé no Parlamento como tinha entrado no Palácio de Belém. Se cometeu erros? Cometeu, sobretudo na sua cumplicidade com as malfeitorias de Costa e no virar as costas aos professores e à educação. Porém, no geral, foi um Presidente preocupado com as pessoas, preocupado em aproximar as pessoas do poder, preocupado em representar as pessoas, preocupado com a legalidade dos processos. Fez alguns discursos doutorais notáveis. Dado que é uma pessoa com muito polimento, foi um Presidente sem baixezas institucionais. Não mandou bocas ao novo Presidente, antes pelo contrário. Deu uma imagem de normalidade e alegria democrática ao passar o poder a outro. Isso não é pouca coisa. Depois saiu do Parlamento a pé e foi à sua vida. Não há outro igual.


"As muitas faces do urso"



Este terceiro episódio do documentário de Katarzyna Pisarska, Dancing With the Russian Bear, é à volta da subida de Putin ao poder, do ambiente de esperança na Rússia por parte do Ocidente depois da Perestroika, da oposição russa e dos que fugiram da Rússia para salvar o dinheiro - seu e de Putin.


O episódio começa logo com Vladimir Kara-Murza, um opositor de Putin que esteve preso em isolamento na Sibéria a dizer que Putin há-de cair porque na Rússia, as mudanças são repentinas. Ninguém sabe quando ou como mas de repente acontece algo e o ditador cai.

Este é o primeiro problema da Rússia: a oposição está à espera que a mudança caia do céu, de uma maneira ou de outra. A espera pelo fim de Estaline só veio com a sua morte, dezenas de anos de barbarismo cruel até cair... e ele diz que em todas as épocas da história da Rússia, que é sombria e sempre foi, houve vozes de oposição. 

Claro que houve, os russos são uma centena e meia de milhões... era o que faltava que não houvesse vozes corajosas de oposição. A questão é que são meia-dúzia. Literalmente meia-dúzia de pessoas de uma coragem exemplar e de uma moral superior, mas são só essas. 

Até sabemos os seus nomes. Alguns pagaram o preço supremo, como Boris Nemtsov, Anna Politkovskaya, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova, Natalia Estemirova, Alex Navalny, estando perfeitamente conscientes de que esse seria o seu fim mais provável. Outros não acabaram mortos, mas podiam ter acabado da mesma maneira pois expuseram-se e foram presos sabendo o risco que corriam, como Mikhail Khodorkovsky e Garry Kasparov, que entram neste episódio e o próprio Vladimir Kara-Murza.

Porém, quando olhamos para o Irão, por exemplo, os opositores são tantas dezenas de milhar que é impossível saber os seus nomes. Dezenas de milhar de raparigas e mulheres que sabem que a prisão significa a violação colectiva, a tortura e depois a morte. Dezenas de milhar de rapazes e homens que sabem que a prisão significa muitas vezes o enforcamento público, muitas vezes em frente das famílias. Num único fim-de-semana o Ayatola matou 40.000 pessoas, famílias inteiras com crianças ao colo, mortas à queima-roupa. No dia a seguir os iranianos estavam na rua a protestar contra ele. 

Lembro-me do exílio de Masih Alinejad. Lembro-me dela criar um grupo no FB chamado, My Stealthy Freedom آزادی یواشکی زنان در ایران' antes das redes sociais explodirem, para denunciar o que se passava no Irão, para incentivar as iranianas a tirar o hijab e publicar fotografias com o cabelo à mostra e para pedir o apoio de instituições do Ocidente. Isto foi por volta da invasão da Crimeia, em 2014. Sigo-a no FB desde essa altura e assisti a centenas de raparigas e mulheres fotografarem-se sem o hijab, sabendo o risco que corriam. Imensa bravura.

É impossível fazer uma lista dos presos e mortos por ordem do governo terrorista islâmico do Irão como existem listas dos assassinatos de Putin, porque são dezenas milhar. Ninguém no Irão está à espera que «aconteça qualquer coisa.»

Esse é o primeiro problema da Rússia. Putin é popular entre os russos e os que não gostam dele não se organizam e ficam à espera que alguém -outros que não eles- faça qualquer coisa. É claro que é difícil a esses outros fazerem qualquer coisa porque sabem que vão estar sozinhos a enfrentar o urso.

Vladimir Kara-Murza acredita que depois de Putin cair a democracia chegará à Rússia. Não acredito nisso. Tiveram essa oportunidade depois de Gorbatchev. Lembro-me de ver o presidente dos EUA e congressistas americanos na Praça Vermelha a comemorar o fim da Segunda Grande Guerra. A questão é que tiveram essa oportunidade e não quiseram aproveitá-la. Ficaram à espera que aparecesse alguém que fizesse alguma coisa. E quem apareceu foi Putin.

Parece-me, já o penso há muito tempo e não há evidências do contrário, que a Rússia tem de perder a guerra e perder a ilusão de ser um império. Ser desmantelada. Ser confrontada com os seus crimes de guerra e genocídios como a Alemanha o foi - Krushchov teve a oportunidade de purgar os crimes de Estaline e não o fez o que foi um grande erro. 
Enquanto não houver uma consciência da culpa russa por tanta miséria, destruição, terrorismo, escravatura e crimes de guerra no mundo, nenhuma democracia será possível na Rússia e toda a oposição será varrida para debaixo do tapete.

Bom dia

 

Bom dia Mr. Gregg, em que posso ajudá-lo?

Bom dia. Eu queria transicionar.

Quer transicionar para mulher, é isso?

Sim, é isso.

Que idade tem o senhor?

74 anos.

¡Mas porque razão quer transicionar agora aos 74 anos?

Vi numa estatística que a expectativa de vida dos homens são 78 anos e a das mulheres 82.

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(visto algures numa rede social há uns dias)