March 10, 2026

Dez teses sobre tolerância



Dez teses sobre tolerância

Com o aumento da intolerância, agora é o momento de perguntar: o que é tolerância?

David Blankenhorn

Os americanos, tanto à esquerda como à direita, parecem cada vez mais convencidos de que o ponto de vista do outro lado é tão completamente errado e pernicioso que se tornou simplesmente insuportável. Assim, terminamos relações, retiramos plataformas a certas opiniões e tentamos “cancelar” aqueles que as defendem. Em suma, exibimos uma intolerância crescente.

Talvez seja então altura de perguntar: o que é a tolerância? Qual é o seu valor? Em que fundamentos pode ser criticada? Eis dez teses:


1. A tolerância é suportar condicionalmente coisas de que não gostamos.

Os botânicos perguntam quanta perda de humidade uma planta pode tolerar e ainda sobreviver. No século XVIII, a Hungria via com desagrado os judeus, mas tolerava-os se pagassem um imposto de “tolerância”. Nestes exemplos, ameaças percebidas são consideradas suportáveis para certos fins e dentro de certos limites.

Assim, a tolerância é contingente, praticada não por si mesma, mas porque é um meio para obter outras coisas que desejamos. A questão central torna-se, portanto: tolerância para quê?

2. A tolerância é mais uma concessão do que um direito.

Em The Rise of Toleration, o historiador Henry Kamen define tolerância como “a concessão de liberdade àqueles que divergem em matéria de religião”. A tolerância ocidental tem origem nas guerras religiosas europeias dos séculos XVI e XVII. Exaustos, os europeus aceitaram a tolerância religiosa como o preço necessário para a paz e para o crescimento do comércio.

Esta definição também sugere que a tolerância é concedida por uma parte a outra, e não possuída como direito. Os direitos são coisas fortes. Como afirma a Declaração de Independência dos Estados Unidos, os direitos pertencem aos indivíduos por origem no seu “Criador” e são “inalienáveis”. Não dependem da autorização do Estado nem dos vizinhos para serem exercidos.

A tolerância, em contraste, é mais condicional e profundamente social. Assim, “liberdade religiosa” refere-se normalmente a um direito, enquanto “tolerância religiosa” se refere a uma concessão.

3. A tolerância entra em conflito com outros valores.

A tolerância existe apenas em relação a outros valores, alguns dos quais — solidariedade, democracia ou honestidade — podem entrar em conflito com ela. Teóricos como Isaiah Berlin e William Galston chamam a este fenómeno “bens em conflito” — como a misericórdia em conflito com a justiça, ou a liberdade com a cooperação.

Tais conflitos nunca podem ser totalmente resolvidos. O melhor que podemos fazer é tentar equilibrá-los sabiamente.

4. A tolerância pode pôr-se em perigo a si própria.

No que Karl Popper chamou “paradoxo da tolerância”, uma tolerância ilimitada pode levar à vitória da intolerância, ao tolerar aqueles que são eles próprios intolerantes. Em The Open Society and Its Enemies, Popper alerta:

Se não estivermos preparados para defender uma sociedade tolerante contra o ataque dos intolerantes, então os tolerantes serão destruídos, e a tolerância com eles… Em nome da tolerância, devemos reivindicar o direito de não tolerar os intolerantes.

5. A democracia não exige tolerância.

Passei grande parte da vida a assumir que auto-governo e tolerância prosperavam juntos, como duas flores no mesmo jardim. Mas estava enganado.

Há mais de duas décadas, Fareed Zakaria propôs o termo “democracia iliberal” para regimes em que líderes são eleitos democraticamente, mas as liberdades civis associadas à tolerância são restringidas.

Um exemplo é a Hungria. Quando Viktor Orbán foi reeleito em 2010 disse:

Uma democracia não tem necessariamente de ser liberal.”

Hoje, a Hungria descreve-se como uma “democracia iliberal”, que procura abandonar métodos e princípios liberais na organização da sociedade.

Orbán e outros que pensam como ele favorecem direitos do grupo sobre direitos individuais. O que “nós” — o “verdadeiro povo” — queremos importa mais do que as reivindicações de minorias impopulares. Assim, a esfera da autoridade expande-se enquanto a esfera da tolerância se contrai.

6. A situação orienta a tolerância.

No estudo The Politics of Unreason, Seymour Martin Lipset e Earl Raab alertam para a tentação de explicar a intolerância como produto de pessoas “maléficas”. Na realidade, os movimentos extremistas são muitas vezes compostos por pessoas comuns submetidas a certos tipos de pressão.

Eles identificam a “privação de estatuto” — a perda de posições sociais anteriormente ocupadas — como um fator central no surgimento de movimentos extremistas.

A situação precede a atitude. Coloque pessoas em certos contextos e a intolerância pode emergir. O problema muitas vezes não são pessoas defeituosas, mas pessoas decentes sob pressão.

O ódio intenso é frequentemente uma reação. A indignação é frequentemente uma expressão de dor.

7. Certos hábitos mentais são hostis à tolerância.

O pensamento binário presume que cada questão tem apenas duas respostas opostas: verdadeiro ou falso, certo ou errado. Algumas escolhas podem ser binárias, mas a maioria não o é.

Como dizia A. J. Muste:

Deve-se assumir sempre que existe algum elemento de verdade na posição do outro.
Outro hábito é o monismo, a crença de que existe um princípio único que explica tudo. Em contraste, o pluralismo de valores defende que os bens da vida são múltiplos e frequentemente entram em conflito.

O pluralismo tende a ser mais favorável à tolerância porque abre espaço para dúvida e incerteza.

8. Envolver-se publicamente com argumentos perigosos não deve depender do conteúdo desses argumentos.

Alguns perguntam: “Debateriam algo realmente horrível?”

A resposta curta é: nada está fora de limites.

Certos temas simplesmente não merecem discussão porque são irrelevantes ou marginalíssimos. Mas se um número crescente de cidadãos começasse a defender algo horrível como agenda política, deveríamos debater esse tema publicamente, permitindo que os seus defensores expliquem e defendam as suas posições.

A alternativa seria ignorá-los, silenciá-los ou criminalizar as suas opiniões. 

9. A tolerância é a condição da liberdade.

Em sociedades livres, as pessoas testam constantemente os limites da tolerância. Todas as sociedades têm fronteiras morais; a questão nunca é “fronteiras ou nenhuma fronteira”, mas qual o equilíbrio mais sensato.

Um ataque intelectual importante à tolerância surge no ensaio Repressive Tolerance (1965) de Herbert Marcuse. Marcuse defende que uma sociedade anti-capitalista deve negar liberdade de expressão a grupos politicamente “retrógrados”. Propõe aquilo que chama “tolerância libertadora”: intolerância para com a direita e tolerância para com a esquerda.

A conclusão sociológica é clara: quanto mais autoritária a política, menos espaço existe para a tolerância, seja à esquerda ou à direita.

10. A tolerância é parceira da verdade.

Porque é que tantas pessoas acreditam que os outros já não aceitam factos? A resposta não é a fraqueza intelectual das pessoas, mas o enfraquecimento das instituições que arbitram a verdade, o que alimenta a desconfiança social.

Vivemos um ciclo degenerativo: polarização → meios de comunicação partidários → distorção factual → mais rancor → mais polarização.

Se quiséssemos acelerar este ciclo, bastaria recusar dialogar com quem consideramos errado, desclassificá-los, silenciá-los ou ridicularizá-los.

Se quisermos interrompê-lo, precisamos de mais diálogo, não menos.

Para obter mais verdade, devemos tolerar mais erro, não menos. Porque a melhor forma de pessoas livres descobrirem o que é verdadeiro é permitir que afirmações falsas e ideias odiosas sejam contestadas publicamente e corrigidas.

O pensador Jonathan Rauch, no livro The Constitution of Knowledge, chama a isto “o princípio social mais contr-aintuitivo da história humana”.

No início deste ensaio perguntei: “Tolerância para quê?”

A resposta essencial é: para a verdade.


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fonte: https://www.persuasion

David Blankenhorn é presidente da organização Braver Angels, que trabalha para reduzir a polarização e aumentar a boa vontade na política e na sociedade dos Estados Unidos.  @blankenhorn3

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