March 10, 2026

Este argumento tem mérito mas também tem muitas falhas

 

Este indivíduo argumenta que a polarização da sociedade se deve à falta de recursos culturais para lidar com as diferenças. Recursos culturais, diz, são a solidariedade e a unidade que têm de ser orgânicos sob pena de a sociedade se tornar disfuncional e de surgir alguém que os impõe à força. Sem um chão comum deixamos de saber absorver as diferenças entre nós. Em sua opinião, a esquerda apoderou-se de todas as instituições sócio-culturais elitistas e tenta impor-se com autoritarismo social e a direita reagiu com autoritarismo político. Uma nova cultura, diz, tem emergido nestes últimos 40 anos, subjacente a estas visões cosmológicas opostas e essa cultura é o nihilismo e no coração do niilismo está a aniquilação.


Este argumento tem mérito mas tem falhas que o invalidam. 

Estou de acordo que sem uma partilha comum de valores, não é possível as pessoas navegarem nas sociedades sem chocar com as diferenças entre si e estou de acordo em dizer que temos as sociedades ocidentais (ele fala dos EUA) a defender cosmologias opostas. Também estou de acordo com a sua afirmação de que a esquerda tenta impor com autoritarismo sociocultural o seu sistema ideológico e a direita está a reagir com autoritarismo politico. Porém, dizer que a causa deste estado de coisas é o nihilismo não me parece sustentável.

Em primeiro lugar, o nihilismo nem é novo nem recente e estas forças cosmológicas de que fala não são nada nihilistas, pelo contrário. Caracterizam-se ambas pela afirmação de valores, só que em oposição feroz e intransigente uma com a outra. 

Portanto, estará ele a falar de uma terceira força que reage a estas duas...?

Em segundo lugar o que vemos nas sociedades é que, quando reconhecem uma ameaça superior comum a ambas as cosmologias, minimizam completamente as diferenças e unem-se em propósitos comuns. Vemos isso na Ucrânia, nos países bálticos, no Canadá e na UE, todos países sob ataque, uns directamente e com bombas, outros indirectamente com agentes de instabilidade de fito destruidor da coesão social. 

Portanto, não é que falte um chão comum, a questão é as sociedades serem constituídas por pessoas cujas lealdades são extra-sociedade. São lealdade a modelos ideológicos ou políticos totalitários, seja o islamismo, o comunismo, o cristianismo evangélico, o anti-semitismo, a ideologia trans, etc. Todas as forças ideológicas totalitárias (sejam religiosas ou laicas) são, por definição intolerantes, autoritárias, abusivas e destrutivas. Sempre foi assim. E o pior é que os seus membros usam-se de estarem cobertos por essas ideologias totalitárias que têm discursos de virtude, para cometerem os piores abusos, crimes e crueldades, sempre convencidos (os mais ingénuos) de que estão a fazer o serviço do bem.

Enquanto o cristianismo católico foi totalitário, foi intolerante e destrutivo. Isso durou até até há pouco tempo. Hoje-em-dia já só é intolerante e destrutivo em relação às mulheres. Foi o que lhe restou do império.

Vemos que o comunismo, em todos os países que se implantou foi totalitário, intolerante, abusivo e destrutivo, não admitindo nenhuma 'cosmologia' diferente. 

O cristianismo evangélico que se impôs dos EUA é totalitário, abusivo e destrutivo. Muitos dos seus membros de elite estão nos ficheiros de Epstein, estão acusados de pedofilia, de violência. No entanto, a sua linguagem é a da pureza e de refundição dos valores. 

Os islamitas são iguais mas piores porque defendem abertamente os piores crimes como virtudes da sua ideologia a serem defendidas pelas armas.

A ideologia trans, levada a cabo por homens biológicos misóginos e machistas empedernidos, tem imposto a perda de direitos às raparigas, às mulheres, aos homossexuais e às lésbicas, com crimes de violação e abusos sexual, sempre em nome da [pseudo] virtude da inclusão.

Nenhum destes grupos é nihilista. A esquerda em geral impõe aos outros, com neocolonialismo e neorracismo as suas bandeiras, fundadas, em grande parte na ignorância dos factos e na ausência de um pensamento crítico e consistente. Exibem uma vaidade que raia o ridículo quando afirmam que estão a defender os valores universais. Fazem-no aliando-se aos ditadores mais brutais e facínoras - mas não vêem nisso nenhuma contradição. Exemplos? 

Guterres, que tem sustentado activamente os regimes e pessoas que mais destroem e espezinham os direitos das mulheres escreveu um artigo no Público no Dia da Mulher a falar na importância dos direitos das mulheres sempre invocando valores que, na prática, tem ajudado a destruir. Uma arrogância oca.

Outro exemplo? João Costa, o ex-ministro da educação, construiu uma política educativa toda baseada no pressuposto de que os alunos pobres são burrrinhos e que devemos ter pena deles e passá-los a todos e privilegiar os afecto com eles - porque não se espera nada deles...? A vaidade deste paternalismo neocolonialista e neorracista... Os alunos de meios pouco favorecidos não são coitadinhos, têm é grandes desvantagens económicas que se reflectem nas possibilidades de aprendizagem mas, por isso mesmo, por virem de meios desfavorecidos, precisam de sair das escolas mais bem armados do que os outros, porque não vão ter cunhas nem facilidades. Só que isso custa dinheiro e dá muito trabalho e é melhor políticas de tratar todos como coitadinhos.

A direita, estando fora das instituições de elite, reage assaltando o poder político e impondo a sua ideologia e os seus valores que são a pureza e a ordem inicial - que estão longe de cumprir.

Em suma, o que me parece estar a acontecer é o emergir de extremismos que eu relaciono com a decadência da educação da História e das Humanidades que favoreciam uma visão global, não acantonada; a substituição do conhecimento pela opinião e por declarações de expressão de emoções subjectivas; a decadência das autoridades epistémicas, o que leva à ignorância dos factos e à transferência das crenças para influenciadores externos, sem escrúpulos; a corrupção dos mecanismos e das instituições de vigilância democrática e, acima de tudo, a ausência de uma educação do pensamento crítico que implica: estar informado, ter acesso aos factos, ter conhecimentos sólidos e fundamentados sobre os assuntos e pensar - saber considerar os problemas, saber caracterizá-los, saber construir linhas de inferência de regressão fundamental e tirar depois as consequências. Ter referências credíveis segundo sistemas racionais, universais e não emocionais e irracionais.


2 comments:

  1. Eu li esse artigo de Guterres no público sobre dar mais poder às mulheres e sentá-las na mesa das negociações. Uma pessoa que aceitou retirar as mulheres da sala por ordem dos talibãs, uma pessoa que tem nomeado iranianos para os direitos humanos e os felicita pelo regime que têm. E vem para o jornal com um discurso falso e hipócrita. É o típico parvalhão machista a quem deram excesso de poder. #Nena

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