Este terceiro episódio do documentário de Katarzyna Pisarska, Dancing With the Russian Bear, é à volta da subida de Putin ao poder, do ambiente de esperança na Rússia por parte do Ocidente depois da Perestroika, da oposição russa e dos que fugiram da Rússia para salvar o dinheiro - seu e de Putin.
Este é o primeiro problema da Rússia: a oposição está à espera que a mudança caia do céu, de uma maneira ou de outra. A espera pelo fim de Estaline só veio com a sua morte, dezenas de anos de barbarismo cruel até cair... e ele diz que em todas as épocas da história da Rússia, que é sombria e sempre foi, houve vozes de oposição.
Claro que houve, os russos são uma centena e meia de milhões... era o que faltava que não houvesse vozes corajosas de oposição. A questão é que são meia-dúzia. Literalmente meia-dúzia de pessoas de uma coragem exemplar e de uma moral superior, mas são só essas.
Até sabemos os seus nomes. Alguns pagaram o preço supremo, como Boris Nemtsov, Anna Politkovskaya, Stanislav Markelov, Anastasia Baburova, Natalia Estemirova, Alex Navalny, estando perfeitamente conscientes de que esse seria o seu fim mais provável. Outros não acabaram mortos, mas podiam ter acabado da mesma maneira pois expuseram-se e foram presos sabendo o risco que corriam, como Mikhail Khodorkovsky e Garry Kasparov, que entram neste episódio e o próprio Vladimir Kara-Murza.
Porém, quando olhamos para o Irão, por exemplo, os opositores são tantas dezenas de milhar que é impossível saber os seus nomes. Dezenas de milhar de raparigas e mulheres que sabem que a prisão significa a violação colectiva, a tortura e depois a morte. Dezenas de milhar de rapazes e homens que sabem que a prisão significa muitas vezes o enforcamento público, muitas vezes em frente das famílias. Num único fim-de-semana o Ayatola matou 40.000 pessoas, famílias inteiras com crianças ao colo, mortas à queima-roupa. No dia a seguir os iranianos estavam na rua a protestar contra ele.
Lembro-me do exílio de Masih Alinejad. Lembro-me dela criar um grupo no FB chamado, My Stealthy Freedom آزادی یواشکی زنان در ایران' antes das redes sociais explodirem, para denunciar o que se passava no Irão, para incentivar as iranianas a tirar o hijab e publicar fotografias com o cabelo à mostra e para pedir o apoio de instituições do Ocidente. Isto foi por volta da invasão da Crimeia, em 2014. Sigo-a no FB desde essa altura e assisti a centenas de raparigas e mulheres fotografarem-se sem o hijab, sabendo o risco que corriam. Imensa bravura.
É impossível fazer uma lista dos presos e mortos por ordem do governo terrorista islâmico do Irão como existem listas dos assassinatos de Putin, porque são dezenas milhar. Ninguém no Irão está à espera que «aconteça qualquer coisa.»
Esse é o primeiro problema da Rússia. Putin é popular entre os russos e os que não gostam dele não se organizam e ficam à espera que alguém -outros que não eles- faça qualquer coisa. É claro que é difícil a esses outros fazerem qualquer coisa porque sabem que vão estar sozinhos a enfrentar o urso.
Vladimir Kara-Murza acredita que depois de Putin cair a democracia chegará à Rússia. Não acredito nisso. Tiveram essa oportunidade depois de Gorbatchev. Lembro-me de ver o presidente dos EUA e congressistas americanos na Praça Vermelha a comemorar o fim da Segunda Grande Guerra. A questão é que tiveram essa oportunidade e não quiseram aproveitá-la. Ficaram à espera que aparecesse alguém que fizesse alguma coisa. E quem apareceu foi Putin.
Parece-me, já o penso há muito tempo e não há evidências do contrário, que a Rússia tem de perder a guerra e perder a ilusão de ser um império. Ser desmantelada. Ser confrontada com os seus crimes de guerra e genocídios como a Alemanha o foi - Krushchov teve a oportunidade de purgar os crimes de Estaline e não o fez o que foi um grande erro.
Enquanto não houver uma consciência da culpa russa por tanta miséria, destruição, terrorismo, escravatura e crimes de guerra no mundo, nenhuma democracia será possível na Rússia e toda a oposição será varrida para debaixo do tapete.
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