Esta reflexão de Du Bois é interessante, mas o que ele diz dos afro-americanos viverem entre dois olhares aplica-se a todas as mulheres do mundo e não apenas por causa do olhar dos homens brancos, mas por causa do olhar de todos os homens, incluido os afro-americanos - ou indivíduos não brancos de outras sociedades. Aliás, a crítica que Macamo faz à intervenção dos EUA no Irão e à cumplicidade dos portugueses com essa posição, não leva em conta, precisamente, a escravatura das mulheres na sociedade iraniana, os pedidos insistentes em todos os canais abertos ao mundo de ajuda internacional para se libertarem da escravatura atroz dos islamitas, seus algozes. A condição "dolorosa" de que fala Du Bois é experimentada por muitos outros grupos e desde logo as mulheres, mas não só (os que têm deficiências, os obrsos, os que têm certas doenças, etc.), pois todos os que são vítimas de preconceito as sentem e não apenas os afro-americanos, de maneira que esta insistência na excepção da dor dos afro-americanos parece-me encaixar-se num processo de vitimização que, quanto a mim, não ajuda à solução de problemas, antes a perpétuá-los.
No início do século XX, o sociólogo afro-americano W.E.B. Du Bois formulou um dos conceitos mais elegantes da teoria social moderna. No seu livro The Souls of Black Folk, Du Bois falou da “dupla consciência” para descrever a experiência de quem vive permanentemente entre duas formas de ver o mundo. O negro americano, dizia ele, aprende a olhar para si próprio simultaneamente com os seus próprios olhos e com os olhos da sociedade que o julga e o mede. Vive dividido entre duas perspectivas que nem sempre coincidem. A sua vida torna-se, por assim dizer, um exercício permanente de visão estereoscópica.
Du Bois descrevia uma condição dolorosa, mas também extraordinariamente fértil. Quem vive entre dois olhares aprende a reconhecer incoerências que outros não vêem. Aprende a desconfiar de certezas demasiado confortáveis. Aprende, sobretudo, que os princípios universais proclamados pelas sociedades dominantes nem sempre são aplicados com a mesma generosidade a todos. - Elísio Macamo in publico.pt
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