November 23, 2020

Algures entre o Bem e o Mal, o relacional



relativismo ou perspectivismo? Uma nova ideia de comunidade


A negação dos valores absolutos leva necessariamente ao relativismo, mas render-se a essa conclusão significa abandonar-se àquele niilismo "passivo" de que falava Nietzsche. Depois da metafísica, por assim dizer, ainda é possível fundar uma ordem moral? O perspectivismo moral nietzschiano permite-nos reconsiderar a questão a partir da relação que existe entre as diferentes instâncias individuais dentro de uma comunidade.

Qualquer tentativa de dar uma resposta exaustiva à controversa questão da objetividade dos valores parece muito ambiciosa e, se sairmos de uma perspectiva metafísico-teológica, até mesmo infundada. No entanto, não podemos desistir diante de um relativismo que, ingenuamente, afirma a intercambialidade e a equivalência de todos os valores, reduzindo a reflexão moral a uma mera escolha ocasional de qual o sistema de valores que parece mais adequado para atender às nossas necessidades individuais, ou, mais amplamente, os da comunidade. 

 Segundo a tradição, o relativismo enquanto posição filosófica nasceu na Grécia com os sofistas, em particular com Protágoras, que num famoso fragmento afirma:


"O homem é a medida de todas as coisas, das que são, enquanto são, das que não são, visto que não são."

A afirmação de Protágoras diz-nos duas coisas importantes: não há verdades absolutas e, consequentemente, não há moralidade absoluta, precisamente porque a palavra não pode fundar nenhum sistema de valores para além da dúvida. 
A unidade de medida da verdade é o homem, que enquanto tal, não é infalível; segundo essa visão, a retórica assume uma posição capital, precisamente porque é apenas a esfera do discurso que pode fazer com que determinada ideia prevaleça sobre todas as outras. A verdade e os valores que expressa não são absolutos, mas relativos à "força" do discurso que os expressa. 
A posição protagoriana, entretanto, não deve ser entendida como um relativismo absoluto, na verdade ele acrescenta que de vez em quando é a utilidade e não a palavra que é o critério de discriminação entre um valor, ou um sistema de valores, e todos os outros: o que parece mais útil para a sobrevivência da comunidade torna-se verdadeiro, ou seja, torna-se o valor ético de referência.


S. Rosa, "Democrito e Protagora" (1663-4)


Voltando à questão inicial, para não cair no niilismo ou no indiferentismo moral, é útil olhar para o perspectivismo nietzschiano, que embora negue a existência de valores absolutos, se foca na dinâmica relacional e comunitária.

Numa nota famosa, Nietzsche escreve que "não há factos, apenas interpretações": o universo do discurso é a verdadeira realidade e os fenómenos só o são na medida em que são interpretados a partir de uma ou mais "perspectivas". 

O perspectivismo nietzschiano é ao mesmo tempo uma teoria gnoseológica e uma teoria moral: o mundo é interpretado de diferentes pontos de vista e isso tem não apenas implicações cognitivas, mas também morais. Nesse ponto, surge a pergunta: existe uma "perspectiva" que tem mais valor do que as outras? Teoricamente as "perspectivas" possíveis são infinitas, porém o perspectivismo baseia-se num modelo relacional, no qual as perspectivas individuais adquirem valor e significado apenas se colocadas em relação com todas as outras. Mesmo que seja inegável a existência de uma componente individualista em Nietzsche, devemos ter em mente a crítica que ele faz à noção de "Sujeito": o que chamamos indevidamente de "Sujeito" ou "Eu" é na verdade uma construção mental; os indivíduos são um conjunto de impulsos e estímulos, conscientes e inconscientes e o que chamamos de "Sujeito" é o seu centro gravitacional: vários assuntos que convergem no mesmo "centro de força".

Mas o que é útil para os fins deste artigo é investigar as implicações práticas dessa teoria. Em The Will to Power, Nietzsche afirma que “não existem fenómenos morais, mas interpretações morais dos fenómenos”. 
Não são dados valores absolutos, mas cada valor é relativo e seu conteúdo é especificado exclusivamente na relação entre diferentes perspectivas. 

A rejeição do fundamento metafísico da moralidade tem um resultado positivo: abre-se espaço para uma liberdade "positiva" do homem, que consiste em assumir responsabilidades e assumir a responsabilidade pela criação de novos valores. E dado o inextricável entrelaçamento de interpretações em que estamos imersos, não caberá apenas ao indivíduo criar novos valores, embora Nietzsche os atribua apenas a algumas personalidades, mas à comunidade como um todo. 

O super-homem nietzschiano, apesar de ser um indivíduo situado além do bem e do mal, está necessariamente emaranhado nesse entrelaçamento de interpretação: cada perspectiva influencia e é influenciada pelas outras. Não se trata de concordar ou não com essa teoria nietzschiana, mas é interessante que o próprio Nietzsche reconheça essa dimensão relacional como essencial.

Em última análise, o relativismo moral não é um destino inelutável, mas uma escolha. A consciência de que nenhum valor moral pode ser absoluto e definitivo não significa negar a possibilidade de uma ordem de valores. A nossa responsabilidade individual e nossos esforços devem ser direcionados para um diálogo aberto e contínuo entre diferentes perspectivas, a fim de reconsiderar as comunidades humanas não mais como monólitos, mas como um lugar de encontro entre diferentes instâncias e visões. É apenas a síntese deste coral de vozes que pode estabelecer, sempre provisoriamente, o nosso horizonte moral.

(tradução minha)

(esta perspectiva lembra muito a dialética das hipóteses... bem, é o 'eterno retorno do mesmo' de que falava Nietzsche)

Em Portugal não se aplica a frase, 'quem não deve não teme'

 


Este título, 'Crime Hediondo', refere-se ao assassinato a sangue frio, aparentemente, sem nenhuma provocação, do ucraniano Ihor Homenyuk enquanto estava à guarda de agentes do SEF no aeroporto de Lisboa e posterior encobrimento do crime por parte de toda a hierarquia. O crime é hediondo porque parece ter sido gratuito, apenas por arrogância e crueldade de pessoas estúpidas e é assustador naquilo que deixa entrever sobre o sistema policial e a respectiva hierarquia do país. 

Aquela frase, 'quem não deve não teme', não se aplica ao nosso país. No nosso país, quem tem dinheiro e deve, não teme, quem não tem dinheiro/poder, tem que temer, mesmo que não deva: temer a polícia e temer os dirigentes. Dá-me ideia que, se o crime não tivesse sido praticado com tanto sadismo, arrogância e crueldade, nunca teríamos sabido dele. Aliás a bravata com que foi cometido: os assassinos nem sequer se importaram de haver muitos testemunhas, diz-nos que estavam a contar com o silêncio cúmplice de todos. A questão é: porquê? Quanto vezes já contaram com o silêncio cúmplice para terem perdido a cautela e assumirem que era garantido? E, quantos assassinatos já passaram debaixo do radar?

Isto assusta: que sejamos um país onde todos saibam, onde todos saibam que todos sabem e todos se calem. Que é que isso diz da nossa democracia e de nós? 
Ontem li um artigo de um indivíduo em que dizia ser preciso voltar a acreditar em portugueses heróis e ter orgulho no que somos. O 'orgulho no que somos', como diz este senhor, constrói-se sobre factos e não sobre ilusões e neste momento os factos não ajudam a acreditar. 

O contrário da esperança é a 'des-esperança'





Como é que alguém pode ter esperança nos líderes das nações para navegarem nas águas turbulentas em que estamos se continuam a escolher e suportar dirigentes assassinos e terroristas. A Arábia Saudita, toda a gente o sabe, é o primeiro e mais eficaz produtor e exportador de terrorismo no mundo. Têm as mãos manchadas de sangue, às vezes directamente como foi o caso do jornalista mandado assassinar pelo príncipe, financiam tudo quanto é jihadista, são um país que trata as mulheres como escravas, mas ninguém lhes recusa um lugar à mesa. E porque? Dinheiro. Dinheiro, dinheiro e dinheiro.Têm muito dinheiro para comprar pessoas, chefes de Estado e organizações.

Passa-se em Moçambique uma espécie de nascimento de cluster jihadista, parte II: mortes, decapitações colectivas, raptos, violações. Portugal em silêncio. Isto envergonha-me enquanto portuguesa. Na Europa de Leste o islamismo da sharia cresce a um ritmo alucinante e o mundo a fingir que não vê e que não sabe e que não ouve, continua a dar a mão aos maiores financiadores de terrorismo islamita. 

Dá vontade de dar um grito: PRECISAMOS DE OUTROS LÍDERES!


Saudi Arabia’s King Salman: G20 sends global message of hope and reassurance


Crown Prince Mohammed bin Salman: Saudi Arabia devoted G20 presidency to stronger, more sustainable world

Saudi Arabia contributed $500m to the $21bn pledged by G20 countries after COVID-19 outbreakAside from the coronavirus pandemic, the G20 endorsed a platform to reduce carbon emissions and ensure cleaner, affordable and more sustainable energy, he added.

He said that they adopted the Riyadh Initiative on the Future of the World Trade Organization (WTO), which would provide support toward trade reforms, as well as “efforts to empower women and youth through quality education and financial inclusion.”

I too would like to know

 


I want to know why we, like upside-down sunflowers, turn to the dark side rather than the light.

Rachael Berdach,
The Emperor, the Sages and Death (1938)


Leituras pela manhã - What is love?

 


Ultimately, if the neural mechanisms of love were simple, you should be able to induce it with an injection, to extinguish it with a scalpel while leaving everything else intact. The cold, hard logic of evolutionary biology makes this impossible. Were love not complicated, we would never have evolved in the first place.

That said, love – like all our thoughts, emotions and behaviours – rests on physical processes in the brain, a very complex interplay of them. But to say that love is “just” brain chemistry is like saying Shakespeare is “just” words, Wagner “just” notes and Michelangelo “just” calcium carbonate – it just misses the point. Like art, love is more than the sum of its parts.

So those of us lucky to experience its chaos should let ourselves be carried by the waves. And if we end up wrecked on the surf-hidden rocks, we can draw comfort from knowing reason would have got us no further.

 Professor of Neurology, UCL

November 22, 2020

Bastou um dia de sol

 


E as rosas abriram todas.




Faz hoje 3 anos que morreu Dmitri Hvorostovsky

 


Como é que a natureza produz estas pessoas e depois as atira para o caldeirão do nada como se fosse tudo igual? Não faz sentido.


Aqui a cantar, Noites de Moscovo, com um charme na voz encantador.



E aqui a cantar aquela ária lindíssima da Rainha de Espadas. Voz tão bela. Tanta paixão...


(Sou só eu que tenho uma cena qualquer na cabeça que reage à música de maneira visceral? Se ouço músicas tristes fico triste, se ou músicas energéticas fico energética, se pouco músicas alegres fico alegre, se ouço músicas apaixonadas como estas fico emocional e por aí fora?)

"E foram felizes comendo perdizes" II

 

Quem adora perdiz de escabeche ponha a mão no ar 🙋‍♀️

Quando era mais nova e vivia no Alentejo, em nossa casa comia-se muita caça durante a época. De tal maneira que já não suportávamos comer caça e a minha mãe inventava maneiras de nos enfiar caça pela boca abaixo: das lebres, por exemplo, fazia almôndegas ou às vezes empadão. O coelho era de mil e uma maneiras. Enfim, de toda a caça que se comia só dois pratos nunca enjoei e comia-os com verdadeiro prazer: um deles era perdiz de escabeche. Em toda a minha vida só uma vez comi uma perdiz de escabeche ligeiramente parecida com a que se comia lá em casa e foi em Toledo, Espanha. Uma vez que fui lá ficar dois ou três dias, descobri um restaurante com uma perdiz de escabeche apetitosíssima e já não comi outra coisa - todos os dias aterrava no restaurante para comer uma vichyssoise e uma perdiz de escabeche. É que a perdiz de escabeche de minha casa comia-se um ou dois dias depois de feita, fria ou morna para fria. Comia-se a carne e o perfume porque a perdiz embebida naquele molho avinagrado deitava um perfume extraordinário que fazia logo vir água à boca.

Em Lisboa há um restaurante que tem uma boa perdiz de escabeche. 


Luis Egidio Meléndez - Still Life with Partridges, Onions, Garlic and Vessels - 




Perdiz de Escabeche
Autoria de António Nobre - Chef Executivo de Cozinha

Hotel Cartuxa de Évora - Alentejo


Ingredientes:
Para 4 pessoas

4 perdizes de "preferência bravas"
2 dl de azeite
1 folha de louro
1 dl de vinagre
3 cebolas médias
4 dentes de alho
1 molho de salsa
Sal, pimenta branca e noz moscada q.b.

Confecção:

Limpam-se as perdizes e cozem-se num tacho tapado, com água, azeite, vinagre, cebola ás rodelas, alhos esmagados, salsa, sal, pimenta, louro e a noz moscada.
Quando as perdizes estiverem cozidas tiram-se e desfiam-se.
Entretanto passe o molho pelo passe-vite e leve novamente ao lume, para rectificar os temperos.
Junte as perdizes desfiadas e sirva no dia seguinte.

Notas: Acompanhe com finas fatias de pão da Vidigueira torrado..


(em nossa casa o molho comia-se inteiro e não passado em puré)

"E foram felizes comendo perdizes" 😁

 


Na Idade Média, a Igreja estabelecia rigidamente que alimentos eram mais pecaminosos e quais eram típicos dos ricos e dos pobres.

Banquete de reis numa gravura inglesa do século XIV - de Agostini via Getty Images

Na sociedade medieval hierárquica, havia alimentos como as perdizes que eram vistos com suspeita por eclesiásticos e moralistas. 
Muito apreciada nas classes altas, em Valência, na primeira metade do século XIV, a caça à perdiz custava cerca de um sexto do salário de um mestre artesão. Ou seja, sendo relativamente acessíveis não deixavam de ser um luxo, pois pelos 200 gramas que uma perdiz pesava (aproximadamente) pagava-se o mesmo que por um quilo de carne ou 700 gramas de carneiro. 
Mas as perdizes, explica o historiador Juan Vicente Marsilla, continham um lado perverso no imaginário medieval, “porque já nos bestiários eram consideradas animais lascivos, sempre prontos para a relação sexual mesmo entre os do mesmo sexo; daí que na pintura, sobretudo nos mestres flamengos e seus imitadores começaram a ser representadas como o diabo ou o pecado ”.

Como resultado, “São Bernandino de Siena aconselhou as viúvas a terem cuidado com o seu consumo e disse-lhes que não podiam mais 'fazer o que faziam quando tinham marido e comiam aves'”. Além disso, a frase "foram felizes e comeram perdizes", com a qual tantas histórias terminam, poderia ter, diz este historiador da Universidade de Valência, um duplo sentido "entre o luxo imponente e a luxúria do casal protagonista". 
Sirva este exemplo para mostrar a importância que a religião teve na forma de alimentação durante a Idade Média. Partindo das idéias de Galeno, a filosofia natural da Idade Média estabeleceu o que foi chamado de "a grande cadeia do ser"[que começava no Ser divino absoluto e ia descendo gradativamente até ao ser mais inferior]

Luxúria e comida, una de las preocupações religiosas na Edad Media Universal -Images Group via Getty

De acordo com essa teoria, Deus criou o mundo natural e as classes sociais de maneira semelhante. Por isso, os alimentos mais adequados para cada classe social foram ordenados de cima para baixo. Quanto mais perto do céu mais valiosos.
Dentro desta escala, a terra era considerada o mais grosseiro dos quatro elementos (fogo, ar, água e terra), estando na base, então as plantas eram consideradas adequadas para pessoas sem possibilidades. Mas nem todas as plantas eram iguais. Os piores eram os bolbos subterrâneos, como cebola e alho. Melhor consideração teveram as plantas das quais as folhas se comiam, como a alface ou espinafre. Por fim, as frutas mais distantes do solo foram as mais valorizadas. O segundo segmento desta cadeia, associado à água, era o peixe, que também se organizava de acordo com a sua proximidade ao fundo do mar. Por isso, crustáceos e moluscos eram pouco valorizados, enquanto peixes que tendiam a nadar na superfície, como as baleias, eram apreciados.

Depois veio o ar, com os pássaros também organizados de acordo com a altura de seu vôo e, portanto, com os patos e gansos abaixo, as galinhas e capões um pouco acima e os pássaros no topo. No topo, explica Marsilla, estavam as águias e os falcões "a ponto de não serem comida comum porque são considerados animais de companhia". Quanto aos animais de quatro patas, entre a terra e o ar, eles não se encaixavam totalmente neste esquema, mas, em qualquer caso, estavam acima dos vegetais e peixes, e apenas abaixo dos pássaros. Acima de todos esses alimentos, como parte do elemento fogo, perto do sol, estavam animais mitológicos como a fénix.

Na sociedade medieval, todos conheciam o valor de cada alimento e seu preço, sem dúvida, ajudava a lembrá-lo. No entanto, também havia alimentos problemáticos que infringiam as recomendações médicas e eclesiásticas, mas eram altamente estimados e tentadores. O exemplo do livro foi a lampreia e outras espécies semelhantes, como o congro e a enguia. Numa atitude desafiadora para com os médicos e moralistas, que os olhavam com desconfiança pela sua suposta natureza fria e por viverem no fundo do mar a muitos metros de profundidade, não havia livro de receitas europeu que não contivesse um prato deste peixe marinho de corpo liso e pegajoso que deliciava comensais desde a Roma antiga.


Nobres franceses num banquete do século XV - Getty

No entanto, a quantidade de alimentos era altamente variável, dependendo da classe social. Ao mesmo tempo, explica Antoni Riera Melis em, Estrutura social e sistemas alimentares na Catalunha medieval tardia, a religião cristã impôs aos crentes uma disciplina alimentar rigorosa durante uma série de dias escolhidos, durante os quais os fiéis eram recomendados a limitar a dieta ou abster-se de comer carne. 

“Eram dias penitenciais todas as sextas-feiras e quase todos os sábados do ano, a Quaresma, as quatro temporas (ou seja, o início das quatro estações), o Advento e as vigílias das festas solenes”, nota este historiador maiorquino. Por isso, “comer na sexta-feira” tornou-se tão comum que surgiu uma cozinha específica para esse dia.

Em retrospectiva, muitas das regulamentações dietéticas desse período visavam alertar acerca do pecado da gula (que tornava tão difícil cumprir os jejuns), de modo que nos sermões qualquer alimento supérfluo era condenado, uma vez que as necessidades fossem satisfeitas. 
No entanto, embora os eclesiásticos proclamem frugalidade e continência, nem sempre dão o exemplo de auto-controlo. Vastas secções do clero medieval tardio não eram exactamente caracterizadas pela sobriedade, embora não seja menos verdade que a dieta normal de muitos párocos rurais não era diferente da de seus paroquianos. A saber: algumas fatias de pão preto de cevada, alho, cebola e, eventualmente, um pequeno pedaço de bacon ou ensopado de legumes.

Confecção de carne de porco - miniatura do séc. XIV Universal -Images Group via Getty


Em uma sociedade hierárquica, o consumo de alimentos tornou-se, juntamente com as roupas e os penteados, um dos principais sinais de posição social. Porém, se algo caracterizou a Idade Média foram os jejuns e abstinências promovidos pela Igreja. Os antropólogos Jesús Contreras e Mabel Gracia lembram em Food and Culture (Ariel) que as origens da sagrada anorexia estão na Idade Média, quando um número crescente de religiosas se entregava a práticas ascéticas de todos os tipos, incluindo o jejum. Curiosamente, explicam, em tempos de adversidade e fome, o número de jejuns ditados pela Igreja aumentava para acalmar a fome pela fé ... Talvez por isso, houve anos em que se contaram até 150 dias de abstinência.

No entanto, os pontífices tinham o poder de conceder várias graças e privilégios sobre o jejum, geralmente em termos de serviços prestados à Igreja. 
No início, os buleros encarregavam-se de persuadir os crentes a adoptar as bulas. Costumavam invadir as aldeias entre o final do ano e o início do seguinte, obrigando os vizinhos a dar-lhes alojamento. Mas os excessos na pregação da bula tornaram-se tão notáveis ​​que, com o passar do tempo, os religiosos foram encarregados exclusivamente desta obra. 
Os fiéis tinham a obrigação de seguir essas bulas, das quais só se livrariam pagando uma quantia que dependia do nível económico de cada pessoa. Fisicamente, as bulas (do latim bulla, ou "bolha", pois, antes da aplicação do selo de chumbo, eram uma bola que depois se esmagava com a cunhagem) eram documentos expedidos pela chancelaria pontifícia e que podiam envolver dispensas, indulgências ou mesmo o perdão dos pecados.

San Alberto, acusado de saltar um jejum, converte água en vinho diante do papa e vários cardeais- Universal Images Group via Getty


Essas regulações dietéticas foram complementadas com diversas dicas que facilitaram a digestão, como mastigar devagar e, depois de comer, conforme aconselhado pelo médico medieval Arnau de Vilanova, relaxar ouvindo música ou histórias edificantes de santos. 
 Durante a Idade Média surgiram, o refogar (embora sem tomate, que viria depois da América), o molho romesco, os primeiros garfos de duas pontas, a junta de bois, os novos calendários baseados na semana, o moinho de água, o arado a a grade para trabalhar a terra horizontalmente e a rotação de culturas de três anos, que resultou na obtenção de duas safras por ano e uma maior produção de cereais. Porém, se algo avançou nesse período no nível nutricional, é a ideia de que qualidade é melhor que quantidade.


(tradução minha)

Good morning 😁

 




So listen...

 


"The wisest and noblest teacher is nature itself."
~ Leonardo da Vinci



November 21, 2020

Visions of earth

 




Just facts

 



A natureza é indiferente aos infortúnios humanos, apesar de ser afectada por eles

 

Depois de dezenas de anos extintas, nos dias de hoje são uma presença quase frequente nas nossas caminhadas pelo interior do Parque Nacional

Aqui fica mais uma fotografia do Luís Borges

( para saber mais basta clicar nas palavras a laranja )



PNPGerês - Cabra-Montês – Capra Pyrenaica

Epá...

 


... este ano que não estou a trabalhar é que o primeiro-ministro dá feriados e pontes à maneira? 


Nocturna

 


Não sei explicar mas acontecem-me com algum regularidade coisas tão estranhas, mas tão estranhas e coincidências inexplicáveis que às vezes até eu mesma tenho dificuldade em acreditar nelas. Há aqui qualquer coisa...






Já isto é a autêntica nojice do espaço

 


Dia após dia e ninguém lhes prega com uma multa valente ou tempo de prisão para acabar de vez com isto. O Tejo está com dificuldade de sobrevivência e nós ficamos parados a vê-lo morrer... porque? Pois, não sei, mas alguém deve ser amigo de alguém aí numa câmara qualquer...


Abrantes | Focos de poluição ressurgem no rio Tejo, imagens lembram catástrofe ambiental de 2018

O rio Tejo tem um novo foco de poluição verificado e fotografado na zona de Abrantes esta quarta-feira, 18 de novembro. As fotos já correm as redes sociais assemelhando-se a cenários anteriormente vistos, incluindo um manto de espuma branca junto à queda de água do açude insuflável. As imagens captadas junto ao rio fazem lembrar um episódio registado em janeiro de 2018, quando um manto de espuma branca com cerca de meio metro cobriu o rio Tejo na zona de Abrantes, junto à queda de água do açude insuflável, num cenário descrito como “dantesco” pelo proTEJO e como “assustador” pelo município.

A poética do espaço

 


A poesia existe a um nível primevo: o primeiro espanto quando o olhar penetra para lá do véu que cobre o ser de determinações sensíveis e vê, realmente, o ser, sendo. As determinações como indícios, fios que seguimos para ir até ao fundo e ver a fonte que flui. A poesia acontece naquela estação etérea perto do coração onde as palavras ainda existem mas já escapam. A poesia é um acontecimento. Acontece-nos sermos tocados por ela, perto dos abismos e dos píncaros. A poesia acontece como o compromisso entre as linhas, as sombras, a luz e o espaço. E a energia que enche o espaço.




O que é real II





Leituras pela manhã - o que é real?

 


Consciência: como se pode ter experiência de coisas que não são reais?

 - Assistant Professor of Philosophy, Durham University

Ver o vermelho, é como uma experiência religiosa. Ver o vermelho resulta de fotões de uma certa frequência que atingem a retina do meu olho, o que causa uma cascata de impulsos elétricos e bioquímicos no meu cérebro, da mesma forma que um PC funciona. Mas nada do que acontece no meu olho ou cérebro é realmente a cor vermelha que experimento, nem os fotões, nem os impulsos. Isso está aparentemente fora deste mundo. Alguns dizem que o meu cérebro está a enganar-me, mas eu não aceito isso porque realmente experimento o vermelho. Mas então, como pode algo fora deste mundo estar no nosso mundo? Andrew Kaye, 52, Londres.

O que está acontecendo agora na sua cabeça? Provavelmente, está a ter uma experiência visual dessas palavras à sua frente. Talvez possa ouvir o som do tráfego ao longe ou um bebé a chorar no apartamento do lado. Talvez esteja a sentir-se um pouco cansado e distraído, lutando para se concentrar nas palavras da página. Ou talvez esteja a sentir-se exultante com a perspectiva de uma leitura esclarecedora. Reserve um momento para entender como é ser você agora mesmo. Isso é o que está acontecendo dentro da sua cabeça. Ou não é? 

Há outra história bem diferente. De acordo com a neurociência, o conteúdo da sua cabeça é composto por 86 mil milhões de neurónios, cada um ligado a 10.000 outros, produzindo trilhões de conexões. Um neurónio comunica-se com o seu vizinho convertendo um sinal elétrico num sinal químico (um neurotransmissor), que então passa pelo espaço entre os neurónios (uma sinapse) para se ligar a um receptor no neurónio vizinho, antes de ser convertido de volta num sinal elétrico. A partir desses blocos básicos de construção, enormes redes de comunicação eletroquímica são construídas.

Essas duas histórias do que está a acontecer dentro da sua cabeça parecem muito diferentes. Como podem ser as duas verdadeiras ao mesmo tempo? Como reconciliamos o que sabemos sobre nós mesmos, de dentro, com o que a ciência nos diz sobre nosso corpo e cérebro, de fora? Isso é o problema que os filósofos tradicionalmente chamam de, problema mente-corpo. E existem soluções para isso que não exigem que se aceite que existem mundos separados. 

Fantasma na máquina? 
Provavelmente, a solução mais popular para o problema mente-corpo, historicamente falando, é o dualismo: a crença de que a mente humana não é física, mas está fora do funcionamento físico do corpo e do cérebro. De acordo com esta visão, os seus sentimentos e experiências não estão, estritamente falando, na sua cabeça - em vez disso, eles existem dentro de uma alma imaterial, distinta do cérebro, embora a ele intimamente ligada. A relação entre a pessoa e seu corpo, de acordo com o dualismo, é um pouco como a relação entre um piloto de drone e o seu drone. A pessoa controla o seu corpo e recebe informações dos seus sensores, mas você e seu corpo não são a mesma coisa.

O dualismo permite a possibilidade de vida após a morte: sabemos que o corpo e o cérebro se decompõem, mas talvez a alma viva quando o corpo morre, assim como um piloto de drone vive se o seu drone for abatido. Talvez seja também a maneira mais natural de os seres humanos pensarem sobre a relação corpo-mente. 
O psicólogo Paul Bloom argumentou que o dualismo está embutido em nós e que desde muito cedo os bebés distinguem “coisas mentais” de “coisas físicas”. Refletindo isso, a maioria das culturas e religiões ao longo da história parecem ter adoptado algum tipo de dualismo. 
O problema é que o dualismo não se encaixa bem com as descobertas da ciência moderna. Embora os dualistas pensem que a mente e o cérebro são distintos, acreditam que existe uma relação causal íntima entre os dois. Se a alma toma a decisão de levantar um braço, isso de alguma forma consegue influenciar o cérebro e, assim, desencadear uma cadeia causal que resultará no braço levantado.

René Descartes, o dualista mais famoso da história, levantou a hipótese de a alma comunicar com o cérebro por meio da glândula pineal, uma pequena glândula em forma de ervilha localizada perto do centro do cérebro. Mas a neurociência moderna lançou dúvidas sobre a ideia de que existe um local único e especial no cérebro onde a mente interage com o cérebro. 
 Talvez um dualista pudesse sustentar que a alma opera em vários lugares do cérebro. Ainda assim, você pensaria que seríamos capazes de observar esses sinais que chegam ao cérebro vindos da alma imaterial, assim como podemos observar num drone onde chegam os sinais de rádio enviados pelo piloto. 

Infelizmente, não é isso que encontramos. Em vez disso, a investigação científica parece mostrar que tudo o que acontece num cérebro tem uma causa física dentro do próprio cérebro. Imagine que encontramos o que pensávamos ser um drone, mas após um exame subsequente, descobrimos que tudo o que o drone fez foi causado por processos internos. Concluiríamos que isso não estava sendo controlado por algum “titereiro” externo, mas sim pelos processos físicos dentro dele. Por outras palavras, teríamos descoberto não um drone, mas um robô. Muitos filósofos e cientistas tendem a tirar as mesmas conclusões sobre o cérebro humano.

Eu sou meu cérebro? 
 Entre cientistas e filósofos contemporâneos, a solução mais popular para o problema mente-corpo é provavelmente o materialismo. Os materialistas aspiram a explicar sentimentos e experiências em termos da química do cérebro. É amplamente aceite que ninguém tem a menor ideia de como fazer isso, mas muitos estão confiantes de que um dia o faremos. 
Essa confiança provavelmente surge da sensação de que o materialismo é a opção cientificamente kosher. O sucesso da ciência nos últimos 500 anos é, afinal, alucinante. Isso dá às pessoas a confiança de que só precisamos nos conectar com os nossos métodos padrão de investigação do cérebro para que um dia se resolva o enigma. 
 O problema com esse ponto de vista comum, como argumento em meu livro Erro de Galileu: Fundamentos para uma Nova Ciência da Consciência, é que nossa abordagem científica padrão foi projetada, justamente para excluir a consciência. Galileu foi a primeira pessoa a exigir que a ciência fosse matemática. Mas Galileu entendeu muito bem que a experiência humana não pode ser capturada nesses termos. Isso porque a experiência humana envolve qualidades - a vermelhidão de uma experiência vermelha, a euforia do amor - e esses tipos de qualidades não podem ser capturados na linguagem puramente quantitativa da matemática.

Galileu contornou esse problema adotando uma forma de dualismo, segundo a qual as qualidades da consciência existiriam apenas na “animação” incorpórea do corpo, ao invés da matéria básica que é o foco apropriado da ciência física. Somente depois de Galileu ter localizado a consciência fora do reino da ciência, a ciência matemática se tornou possível. Por outras palavras, a nossa abordagem científica atual tem como premissa a separação operada por Galileu, entre o mundo físico quantitativo, da realidade qualitativa da consciência. Se agora queremos trazer a consciência para a nossa história científica, precisamos de reunir novamente esses dois domínios.


Será a Consciencia fundamental?
Os materialistas tentam reduzir a consciência à matéria. Já explorámos alguns problemas com essa abordagem: que tal fazer o contrário e perguntar, 'pode a matéria ser reduzida à consciência?' 
Isso leva-nos à terceira opção: o idealismo. 
Os idealistas acreditam que a consciência é tudo o que existe no nível fundamental da realidade. Historicamente, muitas formas de idealismo sustentavam que o mundo físico é algum tipo de ilusão ou uma construção gerada pelas nossas próprias mentes. 
O idealismo também tem seus problemas. Os materialistas colocam a matéria na base de tudo e então têm o desafio de compreender de onde vem a consciência. Os idealistas colocam a consciência na base de tudo, mas depois têm o desafio de explicar de onde vem a matéria. 
Mas uma maneira nova - ou melhor, uma redescoberta - de construir matéria a partir da consciência tem atraído, recentemente, muita atenção entre cientistas e filósofos. A abordagem parte da observação de que a ciência física se limita a contar-nos sobre o comportamento da matéria e o que ela faz. A física, por exemplo, é basicamente apenas uma ferramenta matemática para nos dizer como partículas e campos interagem. Diz-nos o que a matéria faz, não o que ela é.

Se a física não nos diz o que são campos e partículas, então isso abre a possibilidade de que eles possam ser formas de consciência. Essa abordagem, conhecida como panpsiquismo, permite-nos sustentar que tanto a matéria física quanto a consciência são fundamentais. Isso ocorre porque, de acordo com o panpsiquismo, partículas e campos são simplesmente formas de consciência. No nível da física básica, encontramos formas muito simples de consciência. Talvez os quarks, partículas fundamentais que ajudam a formar o núcleo atómico, tenham algum grau de consciência. 
Essas formas muito simples de consciência poderiam então combinar-se para formar formas muito complexas de consciência, incluindo a consciência desfrutada por humanos e outros animais. Portanto, de acordo com o panpsiquismo, a experiência de vermelho e o processo cerebral correspondente não ocorrem em mundos separados. 
Enquanto Galileu separou a realidade qualitativa de uma experiência vermelha, do processo cerebral quantitativo, o panpsiquismo oferece-nos uma maneira de reuni-los numa visão de mundo única e unificada. Existe apenas um mundo e é feito de consciência. A matéria é o que a consciência faz.

O panpsiquismo é uma forma de repensar radicalmente a nossa imagem do universo, mas parece conseguir o que outras soluções não conseguem. Oferece-nos uma maneira de combinar o que sabemos sobre nós mesmos de dentro e, o que a ciência nos diz sobre os nossos corpos e cérebros de fora, uma forma de entender a matéria e a consciência como dois lados da mesma moeda. 

O panpsiquismo pode ser testado? Em certo sentido, pode, porque todas as outras opções não levam em conta dados importantes. O dualismo falha em explicar os dados da neurociência. E o materialismo falha em explicar a realidade da própria consciência. 
Como Sherlock Holmes disse: “Uma vez que tenhamos descartado o impossível, o que resta, não importa o quão improvável seja, deve ser a verdade”. Dados os problemas profundos que atormentam o dualismo e o materialismo, o panpsiquismo parece-me ser a melhor solução para o problema mente-corpo. Mesmo que possamos resolver o problema mente-corpo, isso nunca poderá dissipar a maravilha da consciência humana. Nessas questões, o filósofo não está à altura do poeta:


The Brain is wider than the Sky

For, put them side by side,

The one the other will contain

With ease, and you beside.


The Brain is deeper than the sea

For, hold them, Blue to Blue,

The one the other will absorb,

As sponges, Buckets do.


The Brain is just the weight of God

For, Heft them, Pound for Pound

And they will differ, if they do,

As Syllable from Sound.


~Emily Dickinson, c. 1862

(tradução minha)