October 14, 2020

Experiências

 





Soothing

 


Dói-me os olhos. 

"Landscape. Steppe." Arkhip Kuindzhi. c.1895


Um rei que governa a partir de um país estrangeiro na outra ponta do mundo

 


O rei da Tailândia, que herdou o trono em 2016, quando já vivia na Baviera alemã, alterou a Constituição para poder governar o país a partir da Alemanha e não tenciona pôr os pés no seu país. Gosta de tatuagens, de vestir-se de biquini e de poodles. O pequeno fô-fô tem patente de general e recebe salário. O rei gosta de fazer ciclismo nu e vai muitas vezes para os Alpes com as 40 mulheres da sua guarda pessoal para subir montanhas.

É esta gente que governa o mundo...o Putin gosta de se fotografar em trono nu a lutar com ursos, Trump gosta de se fotografar com mulheres de que abusa; o turco gosta de fotografar-se como sultão, etc., etc., etc... epá, alguém se admira que o mundo esteja como está?


Uma pessoa adapta-se como a rã na água quente?

 


Não sou daquelas pessoas que ficam horas ao telemóvel, pelo contrário. Digo o que tenho a dizer e desligo. Com excepção do filho que acontece ficarmos horas a discutir ideias ou a falar de filmes ou algo do género. No entanto, agora que estou aqui fechada e deixei de ver as pessoas, e elas a mim, dou comigo a falar horas ao telefone. Foi o que aconteceu agora com uma colega. A meio da conversa é que nos demos conta de como a vida mudou. Praticamente todas as semanas saía: ou ia ver um concerto, ou ia ao cinema, às vezes ao teatro, ou ia ver uma exposição e jantar fora, ia almoçar com o meu filho ali perto do trabalho dele, ia almoçar com amigas, ia a conferências, a palestras, ia fazer percursos culturais a pé, às vezes ia a um bar beber um copo e ouvir música. De repente. Pás! Zero. Nada de nada. Nicles. Népias. É casa, farmácia, hospital, mercearia, casa. Escritório, cozinha, quarto, escritório... mas não me adapto como a história da rã. E se não houvesse internet? Como era a vida antes da internet? Deixa ver se lembro... lia muito, mas agora também. Passeava muito. Viajava. Se uma pessoa se vê livre desta dieta de vida ainda pensa que é mentira.


A corrupção é residual? Era bom era...

 


Esta frase é de Rui Tavares num artigo, hoje, no Público.

Ele vive em que país? 

O que eu gostava de saber é: onde foi ele fundamentar esta opinião da corrupção em Portugal ser residual? No fraco número de condenados por corrupção? Espero que não porque isso seria desonesto: toda a gente sabe que em Portugal a justiça é para ricos, safa os ricos e entala os pobres. 

Gostava de saber onde foi ele buscar dados para dizer que a corrupção em Portugal, é residual. 


Livros gratuitos - Platão, Fédon VI (continuação)

 


[três virtudes que conduzem à sabedoria]

E a virtude denominada coragem, Símias, prosseguiu, não assenta maravilhosamente bem nos indivíduos com essa disposição?

Sem dúvida, respondeu.

E a temperança, o que todo o mundo chama temperança: não deixar-se dominar pelos apetites, porém desprezá-los e revelar moderação, não será qualidade apenas das pessoas que em grau eminentíssimo desdenham do corpo e vivem para a Filosofia?

Necessariamente, foi a resposta.

Se considerares, prosseguiu, nos outros homens a coragem e a temperança, hás de achá-las mais do que absurdas.

Como assim, Sócrates?

Ignoras porventura -disse-, que na opinião de toda a gente a morte se inclui entre os denominados males?

Sei disso, respondeu.

E não é pelo medo de um mal ainda maior que enfrentam a morte esses indivíduos corajosos, quando a enfrentam. [antecipando um argumento de atribuir coragem aos suicidas - falsa coragem assente no receio da morte]

Certo.

Logo, é por medo e temor que os homens são corajosos, com exceção dos filósofos, muito embora se nos afigure paradoxal ser alguém corajoso por temor e pusilanimidade.

Perfeitamente.

E com os moderados desse tipo, não se passará a mesma coisa, isto é, serem moderados por algum desregramento? E conquanto asseveremos não ser isso possível, é o que se dá, realmente, com a temperança balofa dessa gente. De medo, apenas, de se privarem de certos prazeres por eles cobiçados, quando se abstêm de alguns é porque outros o dominam. [privam-se de uns como uma espécie de comércio para alcançarem outros, logo é uma falsa virtude] E embora chamem intemperança o ser vencido pelos prazeres, o que se dá com todos é que o domínio sobre alguns prazeres se faz à custa de servirem a outros, [como os políticos que praticam a temperança uns meses antes das eleições...] o que vem a ser muito parecido com o que há pouco declarei, de ser, de algum modo, a intemperança que os deixa temperantes.

Parece que é assim mesmo.

Mas, meu bem aventurado Símias, essa não é a maneira de alcançar a virtude, trocar uns prazeres por outros, tristezas, ou temores por temores de outras espécie, como trocamos em miúdos moeda de maior valor. Só há uma moeda verdadeira, pela qual tudo isso deva ser trocado: a sabedoria. E só por troca com ela, ou com ela mesma, é que em verdade se compra ou se vende tudo isto: coragem, temperança e justiça, numa palavra, a verdadeira virtude, a par da sabedoria, pouco importando que se lhe associem ou dela se afastem prazeres ou temores e tudo o mais da mesma natureza. [não são as circunstâncias mas a razão quem deve comandar as decisões] Separadas da sabedoria e permutadas entre si, todas elas não são mais do que sombra [aparência] de virtude, servis em toda a linha e sem nada possuírem de verdadeiro, nem são. 

A verdade em si consiste, precisamente, na purificação de tudo isso, não passando a temperança, a justiça, a coragem e a própria sabedoria de uma espécie de purificação. É muito provável que os instituidores de nossos mistérios não fossem falhos de merecimento e que desde sempre nos quisessem dar a entender por meio de sua linguagem obscura que a pessoa não iniciada nem purificada, ao chegar ao Hades vai para um lamaçal, ao passo que o iniciado e puro, ao chegar lá passa a morar com os deuses. Porque, como dizem os que tratam dos mistérios: muitos são os portadores de tirso, [uma espécie de cajados de erva-doce usados nos rituais a Baco] porém pouquíssimos os verdadeiros Bacantes [os Bancantes passavam por uma catarse dionísica]. E no meu modo de entender, são estes, apenas, os que se ocuparam com a filosofia, em sua verdadeira acepção, no número dos quais procurei incluir-me, esforçando-me nesse sentido, por todos os modos, a vida inteira e na medida do possível sem nada negligenciar. 

Se trabalhei como seria preciso e tirei disso algum proveito, é o que com segurança ficaremos sabendo no instante de lá chegarmos, se deus quiser, e dentro de pouco tempo, segundo creio. Eis aí, Símias e Cebete, a minha defesa, a razão de apartar-me de vocês sem revoltar-me, por estar convencido de que tanto lá como aqui encontrarei companheiros e mestres excelentes. O vulgo não me dará crédito; porém se a minha defesa vos pareceu mais convincente do que aos meus juízes atenienses, é tudo o que posso desejar.

XIV – Depois de haver Sócrates assim falado Cebete tomou a palavra e disse: Sócrates, ta tua argumentação pareceu-me boa, mas no que toca à alma, julgo que os teus pontos de vista estão longe de suscitar a adesão das pessoas. [que é o objectivo da dialéctica filosófica] Dificilmente os homens poderão acreditar que, uma vez separada do corpo, venha a alma a subsistir em alguma parte em vez de destruir-se e desaparecer no mesmo dia em que o homem fenece. 

No próprio instante em que ela sai do corpo e dele sai, dispersa-se como sopro ou fumaça, evola-se, deixando, em consequência de existir em qualquer parte. Porque, se ela se recolhesse algures a si mesma, livre dos males que há pouco enumeraste, haveria grande e doce esperança de ser verdade, Sócrates, tudo o que disseste. Mas o facto é que se faz mister de não pequeno poder de persuasão e de muitos argumentos para demonstrar que a alma subsista depois da morte do homem e que conserva o uso de faculdades e pensamento.

Tens razão, Cebete, respondeu Sócrates. Mas que podemos fazer? Não queres examinar mais de espaço essa questão, para ver se as coisas, realmente, se passam desse modo?

 

(continua)


William-Adolphe Bouguereau - Bacante (1894)



Expliquem-me como se tivesse três anos, sff

 


O Covid pára no portão das escolas? Há lá algum escudo invisível de protecção? Na rua ele entra onde estão mais de 5 pessoas mas nas escolas, com turmas de 30 e intervalos com 300 não entra? 


O que muda com o estado de calamidade

Os ajuntamentos na rua não poderão ter mais de cinco pessoas.


Isto é uma enorme pouca-vergonha

 


Sócrates e os seus capangas, amigos e associados têm um ódio de morte a todos que lhes fazem frente e não se interessam por unto para as mãos, mas isto é demais. Uma pessoa já tem obstáculos na vida por ser pobre e como se isso não chegasse, se tem valor e consegue sair dessa condição, nunca mais os vampiros deixam que toda a gente esqueça que era pobre e tem que pagar a pobreza vezes e vezes sem conta para se redimir do pecado de não ter nascido rico. Isto mostra o carácter ruim das pessoas. 

Entretanto vemos este governo distribuir os capangas de Sócrates por todos os postos. 




Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo?

 




Frase do dia e da semana ou até do mês

 


... o Governo despreza a educação e os professores e António Costa é cada vez mais gestor de influências e manobras, que gestor de problemas. (Santana Castilho)

A solidão humana



O boxer de bronze em repouso , também conhecido como Terme Boxer ou Boxer do Quirinal , é uma escultura grega helenística de um boxeador nu sentado em repouso, ainda usando seu caestus , uma espécie de envoltório de couro para as mãos. c. 330 a 50 AC (wiki)

Esta escultura é magnífica. Ouvi uma pequena entrevista acerca dela muito boa.

A escultura representa a solidão humana. Aqui está um boxer após um combate em que foi derrotado. Sabemo-lo por causa das cicatrizes sangrantes, o sangue que a começar a coagular nas narinas. As mãos ainda envolvidas nas tiras de couro que as protegem, estão caídas uma sobre a outra, em abandono. O corpo ainda tenso, na perna estendida, mas prestes a encolher-se. Está sentado com os ombros descaídos em posição de derrota e volta a cabeça com uma expressão de total angústia e incompreensão, os olhos fundos a fechar a expressão, como quem está a ouvir os vivas de aclamação da multidão. Mas não para si. Está só com a sua angústia, o seu medo e a sua derrota. Tão só como estava em cima do ringue, tendo que contar apenas consigo e mais ninguém. É um combatente experiente: dizem-nos as cicatrizes espalhadas pelo corpo, o nariz partido, as orelhas com aquele formato de couve-flor próprias de quem já jogou muitas vezes desportos violentos - como têm os defesas no râguebi. 
Não fala connosco na sua solidão e angústia, mostrando-nos um espelho da nossa, antes e depois do ringue da vida, com as suas vitórias e finalmente, a última derrota?
A arte grega tem em comum com muita arte flamenga ter um cariz muito filosófico: a maneira como são capazes de pôr o universal no particular. É magnífica e comovente como uma existência humana.








 

Beba poesia sem moderação



 




Passo os dias desorientada.

Pronuncio palavras sem peso.
Vivo numa escuridão cega.

Careço de rumo na vida.

Sobre mim paira monstruoso,
como um novo pássaro enorme e negro,
o resto da noite.

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Porque me dás a mão
com timidez e às escondidas?
Tão longínquo é o país de onde vens?
Não conheces o nosso vinho?

Vives em tamanha solidão
que não conheces a nossa tão bela ferocidade
quando estamos um no outro
com o coração e com o sangue?

Não conheces as alegrias diurnas
quando se vai com o amado?
Nem conheces a despedida vespertina
de quem vai de luto sofrendo?

Vem comigo e deseja-me,
não penses nos teus medos.
Conseguirás ser sincero?
Vem, toma e dá!

Logo percorreremos os campos dourados
‒ papoila e trevo silvestre –
mais tarde, o mundo inteiro
nos fará sofrer

quando sentirmos que a recordação
sopra com força o vento
quando, estremecendo, a nossa alma
suspirar pela ternura sonhada.

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Mortos: que quereis?
Não tereis pátria e morada no Hades?
Não tereis por fim a paz dos abismos?
Água e terra, fogo e ar vos são devotos
como se um poderoso deus os tivesse possuído (…)

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Direito e liberdade:
Irmãos, não vacileis,
diante de nós resplandece a aurora!
Direito e liberdade:
Irmãos, ousemos,
amanhã venceremos o demónio!

Hannah Arendt

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A poesia, cujo material é a linguagem, é talvez a mais humana e a menos mundana das artes, aquela cujo produto final permanece mais próximo do pensamento que o inspirou. A durabilidade de um poema resulta da condensação, de modo que é como se a linguagem falada com extrema densidade fosse poética por si mesma.

Hannah Arendt

Porquê prevaricar?

 


Sei lá, estarmos vivos? Há muito tempo fechada em casa? Hoje de manhã caíram no email os resultados das análises para aquela consulta estranha. O meu açúcar, que andava mau -meses e meses fechada em casa a comer parvoíces-, apareceu muito bom: tenho-me esforçado por portar bem. Como tinha que ir à mercearia do sr. A. comprar bróculos, trouxe logo de lá meia dúzia de corações. Para que é que se fazem regimes saudáveis? Para poder prevaricar 😄

oh my...



BESgate - uma pescadinha de rabo na boca

 


... e nós a pagá-la. Outra vez, antes da próxima vez e da outra que se lha há-de seguir... quanto aos devedores... não sabemos... se calhar fazem parte de governos, sei lá... 


Novo Banco precisa de €476 milhões. É a banca que empresta mas o défice português vai sofrer 




Esta fotografia do DN em grande destaque não é inocente

 


... foi escolhida a dedo.



dmornin

 


THE HOUR BEFORE 

My favorite time in the bookstore: the hour before opening the doors for the day. The store is lit only by soft morning light; here in West Marin, it’s often gauzy as the fog slowly burns off. The shadows angle neatly under the display tables, and a feeling of sanctuary envelops the space. A quietness that’s soon disturbed by conversation and crowds. Not ruined by those things, just interrupted; this interruption is the natural order of things. That quietness is always there, beneath the bustle of commerce, the voices of children, the conversations that arise when people and books meet.

A interpretação das histórias do ponto de vista do leão

 


...its a no-brainer...  Blake representou Adão de costas, musculado, maravilhado com uma chuva de maçãs sugestivas enquanto Eva tem uma enorme cobra fálica que ela deixa que a envolva a entrar-lhe pela boca... hello...?? 





“The Temptation and Fall of Eve” (Book IX, line 791), one of William Blake’s twelve Paradise Lost illustrations which make up the “Butts Set”, 1808.⠀

Enquanto todas as histórias forem contadas pelo leão

 

... todas as gazelas são reduzidas a caça.


Quando a arte provoca tanta polémica e reacção, já cumpriu a sua função

 


by Livia Gershon - smithsonianmag.org




Uma estátua invertendo o mito de Perseu que decapitou Medusa foi posta em frente do tribunal de Manhattan onde Harvey Weinstein está a ser julgado por crimes de violação. Intitulada, Medusa com a Cabeça de Perseu, a escultura de bronze com mais de dois metros, mostra a górgona das serpentes na cabeça com uma espada numa mão e a cabeça de Perseu na outra.

O trabalho do artista Luciano Garbati (2008) responde à, muito conhecida, escultura de Benvenuto Celline, Perseu com a Cabeça da Medusa, do século XVI, baseada no relato do mito grego, de Ovídio, em As Metamorfoses.

Segundo a lenda, Poseidon, o deus do mar, violou Medusa, uma donzela do templo de Atenas. Culpando Medusa pela contaminação do templo, Atena transformou-a numa górgona monstruosa capaz de transformar aqueles que a olhavam, em pedra. Mais tarde, o semideus Perseu decapitou a Medusa como parte de uma busca heróica.

A história de uma mulher declarada culpada e condenada pela sua própria violação é, infelizmente, de todos os tempos...

Na escultura de Celline, Perseu, ergue-se nu sobre o corpo da Medusa, segurando a sua cabeça como prémio de vitória. Como o próprio Garbati afirmou em 2018, tendo visto a estátua em criança, levou-o a imaginar o reverso da sua dinâmica. Há muitas representações da Medusa mas são sempre desse lado perverso -disse- e isso levou-me a pensar, 'como seria a vitória dela em vez da dele e como devia a escultura aparecer?'

A estátua dele ganhou fama online depois da exposição dos crimes sexuais de Weinstein e da emergência do movimento #MeToo. Em 2018, uma imagem da estátua circulava na internet com o título, 'agradeçam que só queremos igualdade e não vingança.'
Perseus with the Head of Medusa
Garbati's work responds to Renaissance artist Benvenuto Cellini's Perseus with the Head of Medusa( Marie-Lan Nguyen via Wikimedia Commons under CC-BY 2.5)

O fotógrafo de Nova York, Bek Anderson, lutou para levar a estátua para Manhattan e criou um colectivo artístico chamado Medusa With The Head (MWTH) com o objectivo de reenquadrar as narrativas clássicas. No ponto de vista de Bek Andersen'como pode haver triunfo quando se está a derrotar a vítima do crime?'

Nem todas as feministas gostaram. Para algumas, como Tessa Solomon, de ARTnews, faria mais sentido se Medusa fosse representada a decapitar Poseidon, o seu violador. Outras questionaram o valor de uma estátua de um artista masculino, ainda por cima representando uma mulher nua segundo a beleza convencional num local de tanta proeminência. O movimento #Metoo foi começado por uma mulher negra e não uma branca europeia, escreveram algumas.

Anderson diz no New York Post’s Jackie Salo: "A minha esperança é que as pessoas, ao passarem pelo tribunal, se liguem à estátua com uma sentimento de justiça para si próprias e se sintam fortalecidas para continuar a luta pela igualdade de todos os perseguidos."

A questão do post anterior levou-me a Pessoa:

 


Qualquer caminho leva a toda a parte.
Qualquer ponto é o centro do infinito.
E por isso, qualquer que seja a arte
De ir ou ficar, do nosso corpo ou espírito,
Tudo é estático e morto. Só a ilusão
Tem passado e futuro, e nela erramos.
Não ha estrada senão na sensação
É só através de nós que caminhamos.
Tenhamos pra nós mesmos a verdade
De aceitar a ilusão como real
Sem dar crédito à sua realidade.
E, eternos viajantes, sem ideal
Salvo nunca parar, dentro de nós,
Consigamos a viagem sempre nada
Outros eternamente, e sempre sós;
Nossa própria viagem é viajante e estrada.
Que importa que a verdade da nossa alma
Seja ainda mentira, e nada seja
A sensação, e essa certeza calma
De nada haver, em nós ou fora, seja
Inutilmente a nossa consciência?
Faça-se a absurda viagem sem razão.
Porque a única verdade é a consciência
E a consciência é ainda uma ilusão.
E se há nisto um segredo e uma verdade
Os deuses ou destinos que a demonstrem
Do outro lado da realidade,
Ou nunca a mostrem, se nada há que mostrem.
O caminho é de âmbito maior
Que a aparência visível do que está fora,
Excede de todos nós o exterior
Não para como as coisas, nem tem hora.
Ciência? Consciência? Pó que a estrada deixa
E é a própria estrada, sem a estrada ser.
É absurda a oração, absurda a queixa.
Resignar(-se) é tão falso como ter.
Coexistir? Com quem, se estamos sós?
Quem sabe? Sabe [...] que são?
Quantos cabemos dentro em nós?
Ir é ser. Não parar é ter razão.

Fernando Pessoa