May 27, 2020

O Brasil é governado por um bando de jagunços



Até faz impressão. As intenções maliciosas, o abuso de poder, o nível ordinário da linguagem. Isto é uma espécie de pesadelo que o Brasil está a viver. Uma reunião de gritos e ameaças com uma linguagem de bandidos e proxenetas que não andaram à escola. É repugante. Pensar que as pessoas e as suas vidas estão nas mãos destes couchons. Que pesadelo. As reuniões do Trump devem ser parecidas.

Alguém está de quarentena em casa a dar baixa na garrafeira...



«Se a Europa quer ter alguma hipótese, tem que demonstrar imediatamente solidariedade e que é capaz de agir. Empréstimos adicionais aos Estados-membros seriam pedras em vez de pão, porque muitos deles estão já fortemente endividados»


Wolfgang Schäuble   [!!?]
(via Ladrões de Bicicletas)

Livros - For Crying Out Loud



In Critchley’s reading of the dialogues, “excessive grief and lamentation […] never gets anyone anywhere. What should be cultivated instead […] is the capacity for deliberation (bouleusis) which is subject to the activity of logos and the calculating rational part of the soul.”
...
Critchley is at his most incisive when his criticism of ancient thinkers speaks, at least indirectly, to the contemporary discipline of philosophy. “At the core of philosophy,” Critchley writes in his assessment of Plato, “lies affect regulation, the rational ordering of emotion. Do we not glimpse here the cold, obsessional core of the philosophical personality?” I think so. What could philosophy be if it shook its cold, obsessional core? It might lose the semblance of security against the turbulent world, but it should be strong enough to face and express the disruption of being alive.

John Kaag -
Tragedy, the Greeks and Us

A lei contra os judeus



Este artigo explica muito bem os contornos da situação. Seria uma pena que uma lei que nos digna se transformasse numa lei que nos desonra e, acima de tudo, isso é que é importante, se tornasse numa lei que impede a justiça.

A lei contra os judeus


José Ribeiro e Castro
Por isso, será violador da igualdade que o PS (ou outro qualquer) venha introduzir, no n.º 7 e apenas para os judeus sefarditas, uma exigência que não seja simultaneamente imposta a todos os outros do n.º 6. Essa quebra da igualdade apenas para os sefarditas, além de inconstitucional, seria qualificada de anti-semita. Quem discrimina contra judeus ou por causa deles, age objectivamente em anti-judaísmo, por mais divagações que se faça.

Na fundamentação da proposta restritiva, os deputados do PS escrevem: “(…) verifica-se que desde 2017 existiu um aumento exponencial dos pedidos de naturalização por parte de judeus sefarditas (…), tendência que se vai agravar, pelo facto do processo de naturalização em Espanha ter terminado em outubro de 2019. (…) Acresce o crescimento igualmente exponencial de pedidos de naturalização dos filhos (…) e dos cônjuges (…).” Ou seja, para estes deputados do PS, o subtexto é: “Podem vir, mas não venham muitos. Sobretudo não tragam filhos e cônjuges.”

Faltaria acrescentar, de modo consciente ou inconsciente, o pensamento de que o rei D. Manuel fez muito bem em expulsar os seus ancestrais e que bem podiam deixar-se ficar lá por fora. O legislador de 2013, porém, não foi isso que quis. E ainda bem, porque mostrou uma visão de bem, uma visão de futuro: os judeus sefarditas portugueses de volta, de corpo inteiro, à comunidade nacional. A lei de 2013 quere-os na comunidade nacional. Recebe-os porque entende que fazem parte dela. Não os estranha, nem torce o nariz ao número.

O que a lei diz é: “São bem-vindos. Que bom podermos abraçar-nos outra vez.” O que a lei não diz, nem pode dizer, é: “Não nos pertencem, não vos queremos.” Outra questão é a dos eventuais abusos – já lá iremos. Mas, à partida, importa ter presente que o número em si não é um abuso. O número é a medida do sucesso da lei de reconciliação e de retorno.

May 26, 2020

Nothing else matters - gosto deste arranjo



AyseDeniz a tocar Metallica.

Uma tarantela



... tocada na guitarra Sabionari, uma das 5 guitarras Stradivarius que ainda existem e a única que ainda está em condições de ser tocada. Rolf Lislevand a tocar a Tarantela de Santiago de Múrcia.
A tarantela é uma música tradicional do sul de Itália - diz-se que da província de Taranto e originalmente seria dançada pelas pessoas que eram picadas pela tarântula, uma aranha-lobo comum no mediterrâneo (não confundir com a outra famosa) e que ficavam num estado de 'tarantismo', uma espécie de transe dionísico. Daí ser uma dança em crescendo de aceleração. Isto fui ver na wiki porque a palavra é tão evocativa da aranha e não estava a ver a ligação.

À espera das notícias que não vêm



... mais um dia em que estamos aqui com ar normal à conta da pura força da vontade kantiana... como é que dantes se lidava com a ansiedade? Quando os tempos de espera não se mediam em dias mas em semanas, meses, anos? Fui ver nos dicionários.

O de Cândido de Figueiredo que é de 1919 (acho), uma 'refundação', como ele lhe chama, da 1ª edicão de 1808, reduz-se a três palavras insípidas. Quer dizer que naquela época ninguém ligava nenhuma à ansiedade e era mais do género, 'desansia-te' e não incomodes. O de Roquete que ainda é mais antigo, de 1848 ou por aí, também não liga nenhuma ao termo. A ansiedade devia ser conhecida por termos literários daqueles que vêem descritos nas obras do Garret e na poesia de Camões - fogo e tremuras e isso.

O dicionário da Academia de 2001 já traz os termos separados em categorias e tudo mas é tão desinteressante que não ajuda. Para isso ia ver os dicionários de Psicologia.

O dicionário etimológico (como a enciclopédia) está quase no tecto e não me apeteceu empoleirar no escadote de modo que fui ver no equivalente inglês: mandou-me ver, 'angina' e explicou que ansiedade e angústia têm origem em angere, um termo latino que significa sufocar, apertar e que se sente (a angina) também no peito. Está certo e eles percebiam bem o sintoma.


daqui





 depois vim ao dicionário de Brunswick que é do virar do século, 1899, em plena Belle Époque, ou seja, a época das neuroses e da repressão sexual que ainda reinava, da era vitoriana que findava- tem o termo ansiedade metido na angústia -dei com esta explicação alongada e cheia de adjectivos e descrições que metem gritos, gemidos e até o transe capitalista. Esta é, de longe, a minha descrição favorita. Tanto que até me fez passar a angina do peito e a do estômago já melhorou.





A seguir fui espreitar a enciclopédia Pears



vim dar com uma explicação médica, seguida da entrada, 'suicídio'...

Isto também não ajuda...

A enciclopédia brasileira de 1900 e troca o passo está encostada ao tecto e não me apetece ir lá acima



Ficamos por aqui: donde se conclui que uma maneira caseira de lidar com a ansiedade é descentrar-se e ocupar-se com qualquer coisa.

Quando fizer uma obra quero estes trabalhadores



É mais ou menos assim que me lembro de construir o bolo de bolacha. 🤣 🤣


Este ministro surpreende sempre pela negativa e porque é que não vi o Prós e Contras



Este ministro, que não contribuiu um átomo para resolver um único problema na educação, quando abre a boca, geralmente é para ameaçar e perseguir professores. Agora chama-nos desonestos e ameaça com processos. Isto quando leio que durante estes tempos de pandemia chegavam à escola documentos do ME sem data nem assinatura... um indivíduo como ele chamar oportunistas aos professores... é para rir daquela maneira que o Bordalo praticava.

Não vi o programa Prós e Contras. Tenho uma doença que é afectada pelo stress e hoje-em-dia evito situações e pessoas que me deixam stressada, sempre que possível. Ora, fico em stress quando vejo discussões preparadas e sempre com as mesmas pessoas que conhecem o trabalho de ser professor apenas por ouvir dizer (a esse respeito recomendo uma obra de Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, onde se fala nos problemas que se levantam a propósito desse conhecimento em 2ª mão) e, pelo que leio nos blogues, foi mesmo assim. Nem um único professor que esteja a dar aulas participou, como já calculava, porque é o costume.

De modo que estas conversas sobre educação fazem-me um bocadinho lembrar aqueles 'estudos' que os homens faziam na década de 70 e 80, entre eles e sem nunca se lembrarem de perguntar a uma mulher, sobre se as mulheres tinham orgasmos ou eram incapazes e se sentiam prazer e por aí fora. Epá, não estou para me stressar com parvoíces de gente que de cada vez que fala mostra não saber do que está a falar.


Inspectores da Educação dizem que faltam meios para travar inflação de notas

Tiago Brandão Rodrigues defende que “seria muito danoso para o sistema se oportunisticamente alguém pudesse tirar partido das circunstâncias [excepcionais que vivemos em tempos de pandemia].” Por isso, as notas do 1.º e do 2.º períodos serão analisadas para serem comparadas com os resultados finais e haverá auditorias aos critérios de avaliação.

Notícias insuportáveis



As pessoas trabalham com riscos acrescidos, não ganham mais por isso (quem ganha muito são os administradores do Novo Banco, da Parvolarem -li há bocado que esses ainda recebem 800 milhões por ano e que os administradores recebem grandes salários-, os assessores do 70 ministros e secretários...), ficam infectados e como castigo de ficarem infectados perdem o salário e têm de devolver dinheiro. Isto é uma obscenidade.

Há enfermeiros que têm de devolver dinheiro ao Estado

Profissionais estão a ser descontados pelo período em que estiveram em isolamento, sem saber quando receberão da Segurança Social.

O excesso de optimismo traz em si os seus próprios anti-corpos?



No seu ensaio, “Kleist Dies and Dies and Dies”, Földényi nota que nenhuma morte foi tão celebrada como a do duplo suicídio de Kleist e de sua amante e musa, Henriette Vogel, perto de Berlim em 21 de Novembro de 1811. Juntou-se ao suicídio ficcional do Jovem Werther como o cúmulo do gesto romântico. Mas o que verdadeiramente interessou Földényi foi que Kleist começou a sua carreira como uma espécie de iluminista optimista, com um trabalho escrito na viragem do século (1799) chamado, Ensaio Sobre a Maneira Certa de Encontrar a Felicidade Mesmo no Meio de Grandes Tribulações. No entanto, dois anos depois, Kleist passou por aquilo que chamou a sua 'crise kantiana' na qual a sua fé na verdade foi obliterada. Escreveu à sua irmã, "O pensamento de que nós, aqui na Terra, podemos não saber nada acerca da Verdade...este pensamento despedaçou-me no mais sagrado recanto da minha alma." Aqui e noutras partes do livro, Földényi  parece sugerir que uma insistência na felicidade (seja política ou quasi-teológica) encoraja e produz melancolia e desespero - o oposto sombrio que era suposto banir.

James Wood citando Földényi (“Dostoyevsky Reads Hegel in Siberia and Bursts Into Tears” (Yale)) em, The Scholar Starting Brawls with the Enlightenment - Has the cult of rationality blinded us to the power of transcendence? - The New Yorker (tradução minha)

Leituras pela manhã



If we think a phenomenon is beyond man, we immediately say it’s God’s work; our vanity will accept nothing less, but couldn’t we be a bit less vain and a bit more philosophical in what we say? If nature presents us with a problem that is difficult to unravel, let’s leave it as it is and not try to undo it with the help of a being who then offers us a new problem, more insoluble than the first.

Diderot, citado por James Wood em, 
The Scholar Starting Brawls with the Enlightenment - Has the cult of rationality blinded us to the power of transcendence?

May 25, 2020

Sem tradução


"... se eu escrevesse de escrever não escreveria para ser entendida. Há para isso os correios, telégrafos e até falar” (Mª Velho da Costa in Cravo)

Silenci @ffdomenech

Poesia ao entardecer - Rosario Castellanos



Destino

Matamos lo que amamos. Lo demás
no ha estado vivo nunca.
Ninguno está tan cerca. A ningún otro hiere
un olvido, una ausencia, a veces menos.
Matamos lo que amamos. ¡Que cese esta asfixia
de respirar con un pulmón ajeno!
El aire no es bastante
para los dos. Y no basta la tierra
para los cuerpos juntos
y la ración de la esperanza es poca
y el dolor no se puede compartir.

El hombre es anima de soledades,
ciervo con una flecha en el ijar
que huye y se desangra.

Ah, pero el odio, su fijeza insomne
de pupilas de vidrio; su actitud
que es a la vez reposo y amenaza.

El ciervo va a beber y en el agua aparece
el reflejo del tigre.

El ciervo bebe el agua y la imagen. Se vuelve
-antes que lo devoren- (cómplice, fascinado)
igual a su enemigo.

Damos la vida sólo a lo que odiamos.

Rosario Castellanos

Miúdos, antes dos telemóveis



 Kaca Ljubinkovic 

Pensamentos de dois melréis



Li, já não lembro onde, um texto de Alain de Botton, onde dizia que, se as pessoas usassem com os adultos os instintos e o esforço que têm para com os bebés, o mundo seria muito melhor. Ele falava de como nós estamos dispostos e fazemos um grande esforço para compreender os comportamentos dos bebés e das crianças pequenas: se choram, se vomitam, se fazem uma birra, etc., não partimos do princípio que o fazem por serem malvadas ou nos quererem fazer mal, antes pelo contrário, assumimos que algo lhes aconteceu que provocou aqueles comportamentos e fazemos um esforço grande em perceber a sua causa. Sabemos que uma comida ou um excesso de ruído podem ter grandes efeitos negativos no comportamento dos bebés e das crianças e aplicamos todo o conhecimento, experiência e intuição a tentar percebê-los e ajudá-los. Se nos aplicássemos da mesma maneira com os adultos, teríamos um mundo com melhores relações entre as pessoas.

A Psicologia é a disciplina que faz exactamente isso: aplica todo o seu conhecimento, intuição e experiência a tentar perceber o comportamento dos outros - bebés, crianças, adultos e não apenas os humanos, mas de outros animais também- e ajudá-los.

Já a Filosofia faz exactamente a mesma coisa mas não aos comportamentos, antes à totalidade do real: os seres humanos e os seus pensamentos e os processos mentais humanos e as camadas de contextos em que eles se dão, temporais e supra-temporais.

Porque é que não aplicamos aquela intuição e esforço à maioria dos adultos? Fazemo-lo quando gostamos das pessoas ou elas nos interessam, o que significa que sabemos fazê-lo.

Talvez porque sabemos que a maioria das pessoas, a partir da idade em que se acaba a adolescência e entra na idade adulta, não muda e, sejam quais forem as causas dos seus maus comportamentos, não são passageiras nem voláteis como as dores de barriga dos bebés e os viciosos, mesmo que não saibam as causas dos seus vícios, são conscientes deles.

São muito poucas as pessoas que mudam na idade adulta. É preciso um grande esforço, auto-domínio, grande humildade, inteligência (naquele sentido abrangente) e capacidade de introspecção. Por isso é tão difícil o trabalho do psicólogo e o do analista. A ideia de que a idade acaba por mudar as pessoas e dar-lhes sabedoria é um engano e geralmente só lhes vinca os defeitos e torna-as mais hipócritas, ou mais cínicas ou sonsas.

Não é por ficar mais velha que a macieira do quintal passa a dar pêras. Embora seja possível -pôr uma macieira a dar pêras ou uma laranjeira a dar limões- implica um enorme esforço e trabalho inteligente, consciente e persistente, de modo que é uma raridade.

A outra maneira como algumas poucas pessoas mudam é com acontecimentos dramáticos. Situações-limite daquelas de que falava Karl Jaspers: uma grande tragédia, um grande amor, o contacto com uma qualquer realidade chocante (no sentido de causar um abanão ou desvendar os olhos) que levam a um despertar da consciência e de uma outra dimensão da pessoa que estava bloqueada.

Mas sim, se estivéssemos dispostos a fazer um esforço com todos os outros como fazemos com os bebés e as crianças pequenas, o mundo seria diferente. Muito diferente.

Garantir a segurança não pode significar assediar



É bom que tenham algum tino e não andem a chatear as pessoas e isso de fechar praias por não serem vigiadas, é uma ideia sem tino nenhum que espero ninguém leve avante.

Drone controla banhistas na praia

Com o início da época balnear a 6 de junho, a Autoridade Marítima prepara meios e dispositivo para garantir a segurança nas praias algarvias.

Um drone sobrevoou este domingo algumas das maiores praias algarvias, entre as quais as de Quarteira (Loulé) e a da Manta Rota (Vila Real de Santo António), para monitorizar e evitar eventuais aglomerados nos areais. 

"Estes atuarão sobretudo nas praias não vigiadas", esclareceu ainda o comandante Rocha Pacheco, considerando que "não deverá haver praias fechadas na região algarvia, ainda que não estejam vigiadas."

As coisas à distância são sempre belas



Não se vêem, nem as barragens, nem os eucaliptos, nem a devastação dos fogos. Só o azul dos meandros do rio e as pregas da serra.

Rio Zêzere, em Trinhão. Pampilhosa da Serra. Beira Serra. Portugal.
Foto de Luis Ferreira

Ensino à distância - 1º balanço



Ao fim de 2 meses de ensino à distância já dá para fazer um primeiro balanço da experiência.

Não estou de acordo com muitos artigos que leio sobre toda esta experiência. Nem estou de acordo, nem com os pressupostos, nem como as conclusões.

1. Penso que todos concordamos que a experiência podia ter corrido melhor se as famílias tivessem outras condições, nomeadamente acesso a internet e a equipamentos como computadores individuais. Ainda, privacidade. Mas mesmo com essas condições, o grau de educação académica do país ainda é, em geral, muito baixo para que os pais possam ajudar os filhos, quando é necessário.
Dado que é previsível que outras situações, parecidas a esta, possam voltar a obrigar a fechar as escolas, tem que trabalhar-se para uma situação de menores desigualdades sociais, uma internet a preços decentes -em França paga-se 1 euro por mês pelo acesso à internet de banda larga-, facilidade para alunos e professores comprarem computadores, introduzir nas escolas formação em ensino à distância, etc.

2. Não estou de acordo com as declarações de muitos responsáveis -outro dia li-as no texto de um director da OCDE, o que nos chamou nomes- que alegam que cada aluno tem uma maneira diferente de aprender e gostava muito que produzissem uma evidência que fosse dessas declarações de princípio. É que já levo mais de 30 anos de trabalho com alunos e não é isso o que observo. Há 4 ou 5 maneiras um bocadinho diferentes de trabalhar e nem todas igualmente rentáveis nas diferentes disciplinas. Não por acaso uns alunos têm mais inclinação e talento para umas disciplinas que outras.

O que acontece é que os alunos chegam às aulas em diferentes níveis de desenvolvimento-maturação e com níveis diferentes de proficiência na aprendizagem - desde os que vêm muito bem preparados, ao nível dos conhecimentos, das técnicas e dos métodos de estudo até aos que estão quase a zero em tudo, há um uma escala intermédia graduada e isso também complica tudo.

Portanto, uns aprendem num instante porque têm maturidade suficiente e têm interiorizados todos os recursos mentais e técnicos necessários e outros necessitam de muitos recursos suplementares para colmatar essas faltas. E se juntarmos a isso a diferença de riqueza pedagógica/vivêncial do contexto familiar, as coisas ainda se complicam mais.

No entanto, nada disto tem que ver com maneiras diferentes de aprender. Essa ideia de que cada um aprende de maneira completamente diferente é um mito, um engano que faz estragos porque os alunos beneficiam muito em ter uma parte grande do ensino com objectivos comuns que os obriga a adaptar-se e a usarem a sua plasticidade mental para ultrapassarem certa rigidez de aprendizagem e de conhecimentos e também ultrapassarem-se a si próprios.

Da mesma maneira que dizem que os professores têm que dar aulas para a individualidade de cada um concluem que todos os professores têm que fazer fazer aulas digitais e da mesma maneira. Isso é completamente enganoso. Há várias maneiras de trabalho que têm a ver com a especificidade das disciplinas e a maneira do professor as rentabilizar. A pedagogia e a didáctica são ciências humanas -uso aqui o termo ciência naquele sentido muito lato dos antigos-, não exactas.

Nem um mesmo professor usa as tecnologias da mesma maneira em anos e disciplinas diferentes.
Por exemplo, foi-me fácil passar as aulas do 12º ano de Psicologia para esta modalidade à distância. De qualquer maneira já fazíamos um trabalho muito dependente dos meios digitais e de investigação documental -texto, imagem e vídeo- na internet.
Os alunos já têm 17 e 18 anos, alguns 19 e fazem leituras e pesquisas que indico e quando chegamos à hora da aulas vêm preparados com perguntas, ideias de trabalho, outras leituras que fizeram, etc.
Já não estão completamente dependentes de mim como estavam no 10º ano, nem pouco mais ou menos e há aprendizagem, mesmo feita à distância. Só estragou a apresentação oral de trabalhos.

Os 10s anos de Filosofa são diferentes, muito dependentes do professor e a minha maneira de trabalhar com as turmas é à base de discussão dos conceitos. No início do ano nem usamos nada digital (a não ser o email para comunicar quando é preciso fora das aulas) e as aulas são com textos de filósofos e questões para discutir e só depois depois de muita discussão e de eles já terem feito o trabalho mental quase todo é que organizo as ideias sobre os assuntos e fechamos pontas soltas. Isso não dá para fazer à distância, a não ser em pequeníssima parte e porque estamos no 3º período. Se tivesse sido no 1º nem essa pequena parte dava para fazer. Teria sido muito difícil não transformar a Filosofia numa espécie de catálogo de conceitos e argumentos. No entanto, os professores que dão as aulas de Filosofia com essa orientação, que está na moda, terão tido muito menos problemas no ensino à distância do que eu.

Normalmente, tenho que ensinar os alunos do 10º ano como fazer uma pesquisa online para não ficar reduzido a wikis ou a sites de pouca ou nenhuma confiança, como usar o processador de texto, como usar o email... ao contrário do que se diz, os alunos sabem pouco de computadores porque os usam, sobretudo, para estar no instagram, no Twitter ou no youtube a ver e criar canais; ou ainda para jogar jogos. Não para trabalhar e não sabem usar um computador para trabalhar. Não sabem onde ver um filme, ir buscar legendas... Agora, é verdade que aprendem todas essas coisas num instante.

Naturalmente isto que disse para as disciplinas que ensino não serve para todos as disciplinas/anos de escolaridade, mas que a tecnologia é um instrumento e não um fim em si mesmo, isso já serve.

Parece-me que pode introduzir-se mudanças na educação no sentido de passar a haver parte do ensino à distância, em algumas disciplinas, não em todas (como fazer prática laboratorial à distância, por exemplo?), mas isso só será rentável a partir do 7º ano e em dose muito pequena, por exemplo, um quinto do tempo de aula até ao 11º e depois um quarto do tempo de aula.

Falo de aulas, mas é evidente que a escola não é um local apenas de aulas, é também uma parte fundamental da socialização das crianças, adolescentes e jovens adultos que não se substitui, sem grandes perdas de desenvolvimento, pelo ensino à distância.

É preciso ver que esta situação de ensino à distância que estamos a ter não é uma solução, é uma remediação e qualquer estratégia  que seja pensada para o ano que vem deve ter em isso em conta.

Novo Banco 850 milhões, escolas 0



Este governo é só conversa...