September 11, 2026

😁 Kushner & Witkoff are like the guys at the strip club who think the girls are into them

 

 

O que é que Portugal ganha em fundir 1.º e 2.º ciclos?

 

O que é que Portugal ganha em fundir 1.º e 2.º ciclos? Esta é a resposta do ministro:


Estive a ver o vídeo. O ministro diz que tem muitos conselheiros que são a favor (os mesmo que o aconselharam nos exames?) e que é muito corajoso por tomar esta medida (portanto o benefício da medida está na sua coragem?) e que vai ser bom porque não há uma transição abrupta entre o 1º e o 2º ciclos. Não explica a fusão propriamente dita, não explica os benefícios a não este da transição não abrupta, não explica como vão funcionar o 5º e o 6º ano, se continuam a ter um único professor a ensinar da matemática ao português e da física ao desenho...
O que é que Portugal ganha em fundir 1.º e 2.º ciclos? Não disse. Pelo menos neste excerto.

9/11 - Just stay quiet? Don't do it

 


9/11

 

25 anos depois, o ataque terrorista que matou mais de 3 mil pessoas de uma só vez, mais os que morreram da inalação dos fumos, foi enterrado pelos americanos nas sua novas amizades com os grupos islamitas responsáveis por estes actos. Há pouco tempo foi renomeado como um ataque de uns terroristas isolados que por acaso acabou por bater nas torres gémeas. Trump e a Europa são grandes amigos dos sauditas que os treinaram, da Irmandade Muçulmana, e dos seus herdeiros. A Europa louva os islamitas e importa-os aos milhões. Seria o mesmo que a Ucrânia, daqui a 25 ou 30 anos, importar russos aos milhões, louvar a sua cultura imperialista e terrorista e relativizar os seus mortos de guerra como um acidente isolado, já esquecido. Ainda há pouco tempo, quando perguntaram ao ex-Joulani do EI, agora presidente da Síria como foi a sua reacção no dia dos ataques de 11 de Setembro, ele sorriu e disse que ficou feliz tal como todo o mundo islâmico. As pessoas dizem o que são e o qual é o seu modo de pensar. Porque não se ouve?


Leituras de insónias - as universidades tornaram-se lugares de censura e cancelamento




Ensinei um conto. A minha faculdade despediu-me por isso. A censura académica existe mesmo.

Vinita Prabhakar 

A carta, datada de 12 de fevereiro, com o timbre do South Florida State College e entregue em mão pelo diretor dos Recursos Humanos, continha quatro frases.

Seria colocada em licença administrativa remunerada até ao final do meu contrato. O contrato não seria renovado. Seria imediatamente dispensada de todas as funções letivas. Uma frase final disponibilizava os contactos caso tivesse alguma dúvida.

Eu tinha muitas.

Naquela tarde, estávamos no gabinete do reitor: eu, o meu reitor, o director do departamento e o diretor dos Recursos Humanos. O meu director de departamento e o meu reitor — que, nos dias anteriores, tinham dado a cara por mim — pareciam estar em estado de choque. 

Perguntei repetidamente ao director dos Recursos Humanos qual era a queixa. Não havia nenhuma. Disseram-me que um funcionário tinha apresentado uma «queixa verbal». Quando insisti e exigi saber o que tinha feito de errado, o diretor dos Recursos Humanos respondeu: «Ensinou um conto que não estava no manual.» O meu director de departamento observou imediatamente que os professores tinham autorização para utilizar recursos externos. A resposta foi: «O presidente tem a palavra final.»

O director dos Recursos Humanos disse-me que precisava das chaves do meu gabinete. As minhas contas de e-mail seriam bloqueadas.

Quando me acompanhou para ir buscar os meus pertences, parecia inesperadamente emocionado. Eu tinha ensinado a filha dele. Tinha-a visto radiante ao atravessar o palco na cerimónia de graduação.

De alguma maneira, consegui conduzir até casa.

Os meus pais chegariam no dia seguinte e eu não tinha a certeza de conseguir fingir que estava tudo bem diante deles. No início daquele ano, o vice-presidente da faculdade tinha-me convidado para exercer o cargo de presidente do Conselho do Corpo Docente no ano lectivo seguinte. Eles estavam tão orgulhosos.

Passei a maior parte da minha carreira a ensinar em pequenas instituições privadas de artes liberais no norte do estado de Nova Iorque. Em 2023, decidi mudar-me para o sul da Flórida, para ficar mais perto dos meus pais, que estão agora na casa dos oitenta. Deixei um lugar seguro no Ithaca College — o meu contrato tinha acabado de ser renovado por mais cinco anos — para vir trabalhar numa faculdade pública cujos valores declarados partilhava: «a livre troca de ideias num ambiente que abraça a honestidade, a justiça, a responsabilidade pessoal e a liderança ética».

Mudei-me para aqui de boa-fé, de coração e espírito abertos, e com esperança de que as coisas melhorassem. O meu processo de recrutamento foi memoravelmente caloroso, sem a dissimulação e a pretensão que por vezes caracterizam o mundo académico. Fred Hawkins ainda não tinha chegado como presidente. Por isso, na minha última entrevista, quando o vice-presidente me disse: «Somos uma comunidade; somos uma família e cuidamos uns dos outros», eu acreditei.

Talvez seja por isso que a ferida seja tão profunda.

O meu presente e o meu futuro tinham-me sido arrancados de repente. Em quatro frases. Por um presidente de faculdade sem qualquer experiência profissional na área da educação, que nunca tinha posto os pés na minha sala de aula. Por causa de um conto.

O conto que desencadeou tudo foi Bettering Myself, da escritora premiada Ottessa Moshfegh, um conto que eu ensinava há mais de uma década, incluindo nos seis semestres no SFSC que antecederam a minha remoção, em Fevereiro de 2026. A protagonista é a disfuncional ao extremo Ms. Mooney. A narrativa — com as suas referências pouco saudáveis a sexo, drogas e álcool — é uma espécie de retrato à Picasso que pergunta ao leitor se existe algum valor narrativo na descida sem filtros de uma personagem para um estado de degradação ainda maior do que aquele sugerido pelas cenas iniciais.

As discussões em torno do conto são sempre animadas. Começamos com uma lista das reações instintivas e ainda não processadas dos estudantes («Louca», «Real», «Vulgar», «Demasiada informação», «Que nojo», «Porquê? Porquê?») e depois avançamos para verdades mais profundas: será que o conto cumpre, em última análise, a promessa do seu título? Como se compara a voz narrativa desviante na primeira pessoa com narradores masculinos moralmente comprometidos de exemplos mais canónicos? Poderá a literatura colocar questões difíceis sem oferecer respostas confortáveis?

Tenho um enorme respeito pelos meus alunos enquanto grupo e, em particular, pela sua capacidade demonstrada de estar à altura do desafio e aprender com histórias que podem desafiá-los para além dos limites da sua própria experiência. Os meus alunos do South Florida State College fizeram-no consistentemente com curiosidade, abertura e riso e eram — sem comparação — a melhor parte do meu trabalho. Ter conversas difíceis na sala de aula é uma forma de não deixar que elas nos destruam fora dessas paredes.

Eu não estava a pedir aos meus alunos que gostassem do conto. Apenas que o enfrentassem. A literatura que nunca nos inquieta pode ser confortável, mas é incompleta — higienicamente livre de debate, fricção e descoberta.

Mas descobri que nem todos concordam.

No dia 6 de fevereiro, o meu director de departamento informou-me por mensagem de que um funcionário ou administrador tinha enviado o conto ao presidente Hawkins e que «isso não tinha corrido muito bem». Acrescentou: «Ninguém está metido em sarilhos, mas temos de tratar disto.» Não sei quem enviou o conto. Numa conversa com o meu director de departamento, fiquei apenas a saber que a pessoa o considerava simultaneamente ofensivo e inadequado.

Os limites impostos ao currículo no estado da Flórida vinham-se estreitando progressivamente. Diziam-nos que tínhamos de ter cuidado com a linguagem relativa à raça, ao género ou à diversidade nos nossos programas, mas também existia a sensação de que podíamos manter alguma autonomia relativamente aos conteúdos, desde que cumpríssemos os objectivos da disciplina e os resultados de aprendizagem dos estudantes, respeitando o currículo.

O que me aconteceu parece estar algures entre Good Night, and Good Luck e Footloose. Sim, aconteceu no âmbito da campanha política mais ampla da Flórida sobre aquilo que pode ser ensinado nas salas de aula universitárias. Mas houve também algo de puritano na própria reacção e na forma como estas duas forças convergiram: um clima político em que os administradores estão cada vez mais atentos à controvérsia ideológica e um pânico quase ofegante relativamente àquilo que os estudantes devem ou não ter autorização para encontrar.

No dia 9 de fevereiro, a pedido do meu director de departamento e do vice-presidente, apresentei uma justificação para a utilização de Bettering Myself na minha disciplina e recebi respostas positivas tanto do meu director como do reitor. No dia 10 de fevereiro, disseram-me que o presidente tinha envolvido funcionários do Estado e parecia determinado a despedir-me. O meu director, o reitor e o vice-presidente disseram-me que tinham respondido defendendo o meu historial de ensino, as avaliações de desempenho, o serviço prestado à faculdade e o meu compromisso com os estudantes, sublinhando que eu não era «uma agente política».

Na manhã de 11 de fevereiro, tive a minha reunião com o presidente Hawkins, um homem com quem nunca tinha interagido formalmente. Sabia que o meu director de departamento, o reitor e o vice-presidente estariam presentes. No início, eu continuava sem perceber claramente o que tinha feito de «errado», mas a esperança de que seria uma reunião colegial dissipou-se rapidamente com a presença adicional do director dos Recursos Humanos.

O presidente Hawkins evitou o contacto visual e ofereceu-me aquilo que vim a descobrir que se chama um aperto de mão de escuteira. A conversa informal sobre o cão dele, a mulher e o Dia dos Namorados contrastou fortemente com a sua abertura: «Ainda não decidi o que vou fazer relativamente à sua posição.»

Quando me deram a palavra, descrevi os meus vinte anos de ensino, a minha concentração nas ideias em vez da ideologia e o meu compromisso em ajudar os estudantes a desenvolver o seu próprio pensamento. Expliquei a minha decisão de deixar um lugar seguro no norte do estado de Nova Iorque para ficar mais perto dos meus pais e ensinar numa faculdade pública.

Ele ignorou praticamente tudo isto. Em vez disso, exigiu saber por que razão tinha escolhido o conto e por que motivo este fazia parte da lista de leituras apenas das minhas aulas presenciais e não das aulas online. Expliquei que os materiais difíceis merecem uma discussão presencial e remeti também para a justificação que tinha apresentado. Ele respondeu: «Nunca mais quero ver este conto, não gostaria que a minha filha o lesse», acrescentando que «isto é político» e que «a Flórida também tem restrições».

A reunião terminou pouco depois e eu e o meu director saímos, ambos à beira das lágrimas. No dia seguinte, 12 de fevereiro, recebi a minha carta de despedimento, com as suas luzes de néon a piscar: licença administrativa remunerada até ao final do contrato. O contrato não seria renovado. Dispensa imediata de todas as funções lectivas.

Eu sei tudo sobre restrições. Sou cidadã norte-americana há 18 anos. Mas, onde cresci, no Médio Oriente, assisti a uma forma diferente de intrusão da política na sala de aula. Era o Dubai no início dos anos 80. Antes das estâncias de esqui, dos hotéis nas ilhas e dos excessos.

Uma vez por ano lectivo, um representante do Ministério da Educação entrava na sala de aula, distribuía marcadores pretos e pedia-nos que abríssemos os nossos atlas. Mostravam-nos onde localizar Israel no mapa. Tínhamos de usar os marcadores para riscar a palavra. Depois, recebíamos a mesma instrução relativamente ao dicionário. No nosso livro de História, as páginas que cobriam partes da Segunda Guerra Mundial tinham sido coladas umas às outras. A cronologia saltava de Mein Kampf para as reparações pós-guerra. Alguns de nós tentámos «descozer a vapor» as páginas, abrindo-as sobre uma panela com água a ferver, e acabámos por fazer uma massa empapada e escaldante. Alguém precisou de pomada.

Quando perguntámos à nossa professora pelo conteúdo que faltava, ela disse baixinho: «Se falar sobre isso perco o emprego.» Décadas mais tarde, eu perderia o meu por ter feito uma escolha diferente.

Essas experiências tinham praticamente desaparecido nas brasas da memória. Mas, depois de Fevereiro deste ano, reacenderam-se.

Eu sei como é quando a política entra na sala de aula. Vivi e trabalhei nos dois extremos deste confronto. Mas a ironia é que nunca fui eu a origem do problema. Não tenho praticamente presença nas redes sociais e nunca publiquei nada na minha vida. Afinal, foi o presidente Hawkins quem afirmou: «Isto é político.» A sala de aula diz respeito aos meus alunos, não a mim.

E é por isso que, com a ajuda da Foundation for Individual Rights and Expression, apresentei uma ação judicial ao abrigo da Primeira Emenda, no dia 29 de julho, num tribunal federal. Espero que a minha história atravesse as divisões ideológicas. Enquanto faculdade pública estadual, o SFSC e os seus dirigentes devem respeitar a Constituição, e isso inclui não censurar literatura simplesmente porque o presidente não gosta dos seus temas ou conteúdos. E, se as ações de Hawkins não forem contestadas, não há como saber quantos outros professores poderão ser sumariamente despedidos simplesmente por pedirem aos seus alunos que enfrentem ideias difíceis.
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Vinita Prabhakar ensinou no Hobart & William Smith Colleges, no Ithaca College e, mais recentemente, no South Florida State College. Obteve um MFA em Escrita Criativa pela Universidade de Syracuse, onde concluiu The Half Light Dwellers, uma coletânea de contos. Vive em Avon Park, na Flórida.

O South Florida State College não respondeu ao pedido de comentário.

Leituras de insónias - os problemas e perigos que nunca lhe contaram sobre a prática de MINDFULNESS

 

Não conhecia estes perigos psiquiátricos da prática da meditação, sobretudo se prolongada e realizada por pessoas com problemas como ansiedade, depressão, etc. Porém, sempre me pareceu que a meditação budista, no modo como é 'vendida', é um panglossismo, o que é contrário à minha maneira de ser. Tenho insónias e durante muito tempo consultei médicos para tentar melhorar. E dizia-lhes que tenho estratégias de relaxamento mental que funcionam, mas todos eles, sem excepção me recomendavam a meditação diária com técnicas de alcançar o não-eu, para me diluir no todo e etc., como modo de cair no adormecimento. Eu dizia-lhes que diluir-me no todo era depois de morrer, não antes. Diziam-me aquelas frases, Nada é bom ou mau, mas o pensamento faz com que assim seja e quando lhes dizia que não sou uma relativista moral, nem uma idealista pura, não percebiam. Diziam-me, seja estóica. Eu dizia, não acredito no estoicismo enquanto prática de vida, apesar de valorizar alguns aspectos dessa filosofia. Não percebiam. Dizia-lhes, sou uma estudante da filosofia. É uma coisa que sou, não uma coisa que apenas faço. Não estou interessada em negar a racionalidade, antes quero servir-me dela e sou muito engajada na realidade e no mundo. Não sou adepta da desconstrução (a não ser num sentido cartesiano) nem quero perder identidade. Não percebiam e eu comecei a perceber que receitavam aquelas práticas como meras técnicas sem perceber ao certo o que são e o seu fundamento. Como aquelas pessoas que dizem aquelas frases FB, sê o teu melhor amigo, um sorriso é melhor que uma crítica, etc., mas depois são pessoas que fazem grandes bandidagens - sempre com um sorriso. Enfim, sempre desconfiei um pouco desta panaceia, mas nunca tinha lido um artigo sobre evidências objectivas dos seus perigos serem muito mais comuns do que se pensa ou do que eu sabia.

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O LADO NEGRO DO MINDFULNESS

Uma psicóloga e professora de meditação de renome decidiu investigar os benefícios da prática. O que descobriu deixou-a alarmada.

Por Olga Khazan

Em 2004, Willoughby Britton, então doutoranda em psicologia clínica na Universidade do Arizona, começou a recrutar participantes para um estudo que, tinha a certeza, demonstraria que a meditação melhora o sono.

Britton, que era professora de meditação, estava tão dedicada à prática que se considerava uma espécie de «agente dupla»: alguém que utiliza a ciência para promover a meditação. Embora tivesse crescido numa família episcopal não praticante, entretanto tinha-se envolvido profundamente nos ensinamentos budistas. Lia livros sobre meditação nos tempos livres e, a dada altura, chegou a considerar tornar-se monja budista. Estava convencida de que a meditação melhorava a maioria das coisas, incluindo o sono; afinal, já tinha melhorado muitos aspectos da sua própria vida.

Para o estudo, Britton dividiu 26 participantes em dois grupos: um faria um curso de meditação com a duração de oito semanas e o outro serviria de grupo de controlo. Levou todos para um laboratório, onde passaram uma noite a dormir enquanto sensores registavam as ondas cerebrais, a atividade muscular e os movimentos dos olhos.

Mas, quando analisou os resultados, ficou consternada ao descobrir que eram exatamente o oposto daquilo que tinha previsto. Os participantes do grupo de meditação dormiam de forma mais agitada, acordando com maior frequência do que aqueles que não meditavam. Passavam mais tempo na «Fase 1», a fase mais ligeira do sono, da qual é fácil despertar.

«Gráfico após gráfico após gráfico, independentemente da forma como se analisasse os dados — número de despertares, número de micro-despertares, número de minutos na Fase 1 — a quantidade de meditação praticada pelos participantes estava directamente relacionada com uma pior qualidade do sono.»

Teria cometido algum erro? Teria concebido mal o estudo? Seria aquele resultado uma anomalia, uma descoberta aleatória sem grande significado? Ou talvez as pessoas que meditam simplesmente precisassem de dormir menos.

Naquela altura, promover a meditação era mais importante para ela do que a ética científica, e receava que publicar os resultados significasse «prejudicar o dharma» — isto é, criticar os ensinamentos de Buda. Por isso, não os publicou.

Pouco tempo depois, durante um retiro de meditação, estava a conversar sobre o seu estudo com um professor de meditação quando este lhe disse:
«Não sei porque é que vocês, psicólogos, tentam transformar a meditação numa técnica de relaxamento. Toda a gente sabe que, se meditarmos o suficiente, deixamos de dormir.»
A algum nível, Britton devia saber disso. Nessa altura, já tinha passado anos tanto a meditar como a estudar o cérebro. Como a maioria das formas de meditação procura aumentar a concentração, a prática pode funcionar como um estimulante. E, tal como os estimulantes químicos, como a cafeína e o Adderall, podem interferir com o sono, também a meditação excessiva o pode fazer.

O que mais, perguntou-se ela, saberiam os professores de meditação que não estavam a contar às pessoas?

Gradualmente, a começar por aquele estudo sobre o sono, a ideia de que o budismo é uma solução para todos os males, de que a meditação é sempre benéfica e de que nunca pode causar danos, começaram a desmoronar-se.

Com o passar do tempo, viria a descobrir que a meditação, uma indústria avaliada em milhares de milhões de dólares e promovida como tratamento para a ansiedade, a dor crónica, o abuso de álcool, a dependência e muitas outras perturbações, pode, por vezes e em algumas pessoas, provocar efeitos secundários graves e duradouros: depressão, ansiedade e até psicose aguda.

A perda do sistema de crenças que tinha constituído a base da sua vida levá-la-ia a desenvolver uma investigação pioneira sobre os efeitos adversos da meditação e, posteriormente, a fundar uma prática clínica destinada a ajudar as pessoas — muitas mais do que se poderia imaginar, como viria a descobrir — que acreditam que a meditação lhes causou danos.

Britton Cresceu numa quinta em Massachusetts, com pais que acreditavam que uma pessoa devia encontrar um problema que ainda não estivesse a ser resolvido e fazer dele a sua área de especialização. 

Britton mudou-se para Rhode Island para iniciar a sua residência clínica na Warren Alpert Medical School da Universidade de Brown. Não conhecia ninguém e, trabalhando 12 horas por dia, sentia-se intimidada pelo ambiente académico ferozmente competitivo da Ivy League. Para ocupar o tempo que tinha livre, começou a meditar três horas por dia.

Uma noite, depois de meditar durante uma hora na varanda, voltou para dentro de casa e teve a sensação de que a sua casa era a casa de outra pessoa. Uma fotografia em que aparecia com duas amigas parecia-lhe ser uma fotografia de três pessoas que, por acaso, conhecia.

Britton decidiu dar um passeio e, enquanto caminhava pelas ruas de Providence, sentiu-se como um pássaro pousado no próprio ombro, a observar-se a si mesma. Entrou numa creperie, onde reparou em duas pessoas a discutir. Quando ambas se viraram e olharam fixamente para si, pensou:
«Meu Deus, esqueci-me de que sou uma pessoa.»
Aquilo que Britton estava a experienciar chama-se dissociação, um estado que, ocasionalmente, pode ser útil do ponto de vista evolutivo — pode ajudar uma pessoa a realizar uma tarefa quando se encontra perante situações de terror avassalador.

Mas, segundo Britton e outros investigadores, a dissociação também pode ocorrer em pessoas que meditam de forma extremamente intensa.

Britton explicou-me que a meditação prolongada pode levar o córtex pré-frontal a desligar, essencialmente, os centros emocionais do cérebro, fazendo com que os sentimentos pareçam ficar amortecidos. E, sem as emoções habituais que projectamos sobre os objetos, coisas familiares — as nossas mãos, as nossas casas — podem começar a parecer estranhas ou desconhecidas.

Heleen Slagter, neurocientista cognitiva da Vrije Universiteit Amsterdam, que estuda a meditação, afirma que uma das formas através das quais o cérebro produz a nossa sensação de identidade pessoal consiste em prever a maneira como iremos interagir com o mundo no futuro.

Se passarmos tempo suficiente concentrados exclusivamente no momento presente, como se procura fazer durante a meditação, diz Slagter, a nossa percepção do futuro pode começar a desaparecer — e, com ela, o nosso sentido de identidade.

Isso pode produzir dissociação.

Britton começou a ter episódios de dissociação algumas vezes por semana. Tinha dificuldade em conduzir porque não conseguia sentir onde começava e acabava o seu próprio corpo. Podia estar a ver um anúncio sentimental e, de repente, aperceber-se de que tinha a cara molhada, sem se ter dado conta de que tinha chorado.

Sentia-se permeável, como se os estados de espírito das outras pessoas fossem os seus próprios estados de espírito — algo que se tornou particularmente perturbador quando começou a tratar pacientes suicidas.

A dissociação prolongou-se durante seis ou sete anos, acontecendo por vezes durante a meditação, mas noutras ocasiões surgindo aparentemente ao acaso.

Quando contou aos professores de meditação o que estava a acontecer, diz que eles lhe disseram que tinha entrado num novo estádio de iluminação. Disseram-lhe que tinha «visto a verdade do não-eu» (no-self) e que isso era uma coisa boa. Disseram-lhe para continuar a meditar, o que fez com que a dissociação se agravasse.

De alguma forma, Britton conseguiu concluir o seu pós-doutoramento, mas não estava inteiramente funcional. Não teve nenhum relacionamento amoroso durante uma década.

Mesmo antes de começar a ter episódios de dissociação, outra camada da visão do mundo de Britton começou a desmoronar depois de se mudar para Rhode Island e começar a trabalhar, no âmbito da sua residência, num hospital psiquiátrico com internamento.

Um dia, deu entrada uma pessoa proveniente de um centro de retiros de meditação, apresentando um quadro de psicose manifesta. Três meses mais tarde, deu entrada outra pessoa com psicose, também praticante de meditação, proveniente do mesmo centro de retiros.

Isto é estranho, pensou Britton. Será que se conhecem?

Não se conheciam.

É bem sabido que substâncias psicadélicas como o LSD podem desencadear episódios psicóticos, mas a meditação pode produzir estados alterados de consciência quase tão poderosos como os induzidos pelos psicadélicos. O cérebro necessita e espera receber uma determinada quantidade de estímulos; se passarmos tempo suficiente sem fazer nada, os neurónios podem começar a disparar espontaneamente, produzindo, por exemplo, flashes de luz ou memórias inventadas.

Sabe-se que os povos inuítes do Círculo Polar Ártico podem sofrer um tipo de histeria conhecido como piblokto, que poderá ser provocado pela privação sensorial durante os longos invernos. Ninguém parece saber exactamente por que razão os psicadélicos e a meditação podem, ocasionalmente, desencadear psicose, mas isso poderá estar relacionado com o facto de ambos poderem ter o efeito de «reconfigurar o cérebro» — o que pode ser positivo, mas também pode significar que o cérebro simplesmente deixa de funcionar da mesma maneira que funcionava anteriormente. Pode, por exemplo, tornar-se mais facilmente influenciável ou atribuir uma importância enorme a acontecimentos insignificantes.

Nesta fase da sua investigação, os estudos de Britton continuavam a centrar-se sobretudo nos benefícios da meditação, como a forma como pode ajudar pessoas deprimidas e adolescentes com problemas de abuso de substâncias. Mas agora, quando apresentava os seus estudos em conferências, por vezes mencionava brevemente alguns dos potenciais efeitos adversos da meditação.

Depois, as pessoas aproximavam-se dela nos corredores ou na casa de banho e contavam-lhe que tinham tido experiências negativas com a meditação — desde um agravamento da depressão até episódios psicóticos.

Começou a perguntar-se se os efeitos não intencionais da meditação poderiam ir além de alguns episódios e da sua própria experiência com a dissociação.

Há séculos, a meditação era praticada sobretudo por monges e outros buscadores espirituais no Leste Asiático e na Índia; não era algo que as pessoas comuns praticassem, explicou-me Pierce Salguero, historiador do budismo e da medicina na Penn State Abington e editor do livro Meditation Sickness.

O objectivo da meditação nunca foi simplesmente relaxar ou «limpar a mente», mas antes reorganizar profundamente a relação de uma pessoa com os próprios pensamentos.

Isso pode fazer sentido para um monge budista que procura a grande libertação, mas não necessariamente para um habitante qualquer do Brooklyn que simplesmente quer ser mais produtivo no trabalho.

Os ensinamentos budistas sobre o «não-eu» podem entrar em conflito com os objetivos dos ocidentais, que, de um modo geral, procuram tornar-se a sua melhor versão, e não desligar-se de si próprios.

Britton começou a perceber que a investigação sobre o mindfulness continha uma enorme lacuna: os seus potenciais riscos. Na sua opinião, os investigadores da meditação tendiam a não encontrar efeitos adversos entre os participantes dos seus estudos porque simplesmente não lhes perguntavam sobre eles.

Além disso, muitos estudos sobre meditação são financiados por organizações favoráveis à prática, e alguns participantes podem sentir-se pressionados a afirmar que a sua saúde mental melhorou depois de começarem a meditar. Não existe um verdadeiro placebo para a meditação, o que torna mais complexa a investigação dos seus efeitos.

Quando Britton procurou estudos anteriores sobre os riscos da meditação, encontrou sobretudo relatos de casos isolados e pequenos estudos — um dos quais descobriu que dois dos 27 meditadores de longa duração tinham sofrido «efeitos adversos profundos», incluindo confusão, depressão e tremores intensos.

Britton continuava a acreditar em muitos dos potenciais benefícios da meditação, mas começou a repensar o seu papel de promotora da prática.
«Simplesmente pareceu-me que o mundo não precisa de mais uma investigadora de meditação que ande a promovê-la. Somos como a Starbucks — há uma em cada esquina.»
Avaliar a extensão e a gravidade dos possíveis efeitos negativos da meditação, decidiu, seria a sua maneira de resolver um problema — a sua área de especialização.

Em 2007, começou a entrevistar pessoas que meditavam para aquilo que viria a tornar-se o primeiro estudo abrangente sobre os efeitos adversos da meditação. 

Em 2010, Britton conheceu um investigador de estudos religiosos chamado Jared Lindahl numa conferência.

Nessa altura, Britton meditava tanto que via estrelas mesmo com os olhos abertos — geralmente uma estrela azul ou uma estrela branca. Os budistas chamam a este fenómeno nimitta.

Lindahl tinha escrito a sua tese de doutoramento sobre experiências visuais deste género. Conhecê-lo, disse Britton, «foi encontrar alguém que compreendia uma parte da minha experiência que mais ninguém tinha compreendido».

Os dois escreveram juntos um artigo sobre experiências luminosas induzidas pela meditação, começaram a meditar juntos e, por fim, apaixonaram-se.

No mesmo ano em que conheceu Lindahl, Britton finalmente publicou o estudo sobre o sono que tinha realizado no Arizona — aquele que demonstrava que meditar em excesso pode impedir as pessoas de dormir.

Lindahl juntou-se-lhe no projecto sobre os desafios da meditação. Para esse projecto, entrevistaram 60 pessoas que meditavam e 32 professores de meditação acerca dos vários tipos de efeitos adversos que tinham experienciado ou testemunhado — uma amostra relativamente pequena, mas ainda assim bastante grande para estudos qualitativos deste género.

Finalmente, em 2017, quase dez anos depois de terem iniciado o projeto, publicaram o seu primeiro estudo, intitulado «The Varieties of Contemplative Experience» (As variedades da experiência contemplativa).

Os efeitos adversos mais comuns, relatados por 82% dos praticantes de meditação — e é importante salientar que a amostra incluía apenas pessoas que tinham experienciado algum tipo de efeito adverso — foram «medo, ansiedade, pânico ou paranoia».

Em segundo lugar surgiam as «alterações na motivação ou nos objectivos», experienciadas por 78%. (Mais tarde, Britton conversou com uma pessoa que meditava e que passou dois anos sentada no sofá, incapaz de fazer praticamente fosse o que fosse, embora a maioria dos efeitos relacionados com a motivação relatados no estudo tenha sido muito menos dramática.)

Um número menor de participantes relatou ter experienciado delírios, alucinações, dor física, raiva e pensamentos suicidas.

Os efeitos duraram, em média, entre um e três anos, e a maioria dos participantes indicou ter sofrido uma perturbação «moderada a grave» em pelo menos uma área da sua vida.

Embora o estudo sugira que o que mais provavelmente provoca problemas seja a meditação intensiva — passar horas ou dias seguidos sentado em silêncio numa sala de retiro —, 28% dos praticantes tiveram problemas resultantes da sua prática quotidiana, fora de retiros, e 25% dos participantes meditavam menos de uma hora por dia.

Ser um praticante experiente ou até um especialista em meditação não constituía necessariamente uma protecção.

Contou-me que perguntou a um dos professores: “Escreveu uma série de livros sobre o dharma. Como é que nunca mencionou isto?”», 

«Ele respondeu: “Bem, não é uma boa estratégia de marketing.”»

É significativo que muitos dos participantes de Britton que sofreram danos com a meditação tivessem graus académicos avançados. Britton acredita que isso acontece porque as pessoas de elevado desempenho tendem a tentar “tirar a melhor nota” na meditação, por exemplo, ignorando qualquer sensação interior de que alguma coisa possa estar errada.

Isto pareceu-me semelhante à resistência necessária para obter um doutoramento: suportar anos de sofrimento e tédio na esperança de obter uma grande recompensa no final.

Enquanto estudo, The Varieties of Contemplative Experience tinha algumas limitações inerentes. Como os investigadores recrutaram pessoas que tinham tido experiências negativas, o estudo não podia tirar qualquer conclusão sobre a frequência desses efeitos na população geral.

O estudo também não conseguia provar definitivamente uma relação de causalidade — por exemplo, é possível que os sintomas dos praticantes tenham surgido depois de começarem a meditar, mas por razões não relacionadas com a meditação.

Alguns budistas diriam também que experienciar emoções negativas ou outros efeitos desagradáveis faz parte da prática e é, de certo modo, suposto acontecer.

Mas, de um modo geral, o estudo foi bem recebido e amplamente citado no meio académico. Os próprios autores reconheceram as suas limitações e, se alguma coisa mudou ao longo do tempo, foi no sentido de aumentar o respeito pelo estudo.

Isso deve-se, em parte, ao facto de estudos posteriores — alguns dos quais contaram com a participação de Britton e outros não, e alguns dos quais foram realizados, pelo menos em parte, por alguns dos mais conhecidos defensores académicos da meditação — terem fornecido evidências sólidas de que uma determinada percentagem das pessoas que meditam sofre efeitos negativos, que podem variar entre ligeiros e graves.

A frequência dos efeitos adversos encontrada varia de estudo para estudo, mas a maioria dos estudos e dos especialistas com quem falei estima que cerca de 10% de todas as pessoas que meditam os experienciam, sendo a prevalência consideravelmente mais elevada em determinadas situações.

Richard Sears, psicólogo clínico e mestre zen que pratica meditação há cerca de 40 anos, afirmou considerar importante a investigação de Britton.
«Está a acontecer alguma coisa» com estas pessoas que têm experiências negativas e devemos estar conscientes disso. Isto está a abrir um diálogo.»
Britton e Lindahl continuaram a publicar muitos outros estudos sobre os aspectos mais sombrios da meditação, incluindo ideação semelhante a delírios e a sensação de sentir descargas de eletricidade a percorrer o corpo.

Num dos estudos, um participante tornou-se paranoico durante um retiro de meditação, abandonou-o e, a caminho de casa, convenceu-se de que os sinais de trânsito estavam a transmitir-lhe mensagens secretas dirigidas especificamente a si.

Outro ficou convencido de que precisava de salvar o mundo de uma «conspiração tântrica negra», supostamente arquitectada pelos responsáveis do centro de retiros. Atirou água à cara do seu professor de meditação e deu uma bofetada ao director do centro.

Um terceiro começou a ter «visões messiânicas» relacionadas com a «necessidade de me sacrificar de alguma forma para benefício da salvação da humanidade» e convenceu-se de que os professores de meditação comunicavam com ele através de um código secreto.

Um quarto relatou que a meditação tinha despertado dentro dele uma «energia» com «vontade própria», que, numa ocasião, quase o obrigou a saltar de uma varanda porque essa energia «queria elevar-se e voar».

Nenhuma destas pessoas tinha anteriormente experienciado psicose ou recebido tratamento para uma doença mental.

Diferentes tipos de meditação parecem produzir diferentes efeitos adversos nas pessoas que os experienciam. Num dos estudos de Britton, uma prática de noting — dar um nome aos pensamentos ou às sensações corporais à medida que surgem — tinha maior probabilidade de desencadear ansiedade, enquanto concentrar-se num ponto de ancoragem, como a própria respiração, tinha maior probabilidade de desencadear um episódio depressivo.

No conjunto, Britton descobriu que cerca de uma em cada dez pessoas que já meditaram, mesmo que apenas uma vez, teve um efeito adverso que durou mais de um mês — uma taxa que, se a meditação fosse um medicamento, seria classificada como «muito comum» segundo a classificação padrão utilizada para as reações adversas aos medicamentos.

Quanto mais frequentemente uma pessoa medita, maior tende a ser a ocorrência de efeitos negativos, afirma Britton.

O conjunto de evidências reunido por Britton e Lindahl, demonstrando que a meditação pode, em determinadas circunstâncias, causar danos, é agora reforçado pelo trabalho de outros investigadores.

Um estudo da Clemson University descobriu que o mindfulness pode, paradoxalmente, aumentar o sofrimento psicológico. (Cultivar uma perspetiva esperançosa revelou-se mais eficaz do que o mindfulness para reforçar a resiliência e o bem-estar dos trabalhadores.)

Um estudo de 2020 concluiu que entre 3% e 7% dos professores e estudantes universitários no Reino Unido que frequentaram uma aula de mindfulness relataram «experiências desagradáveis» — incluindo ansiedade, memórias perturbadoras, pensamentos obsessivos e dor física.

Outro estudo concluiu que um quarto das pessoas que meditam experienciou «efeitos indesejados», como ataques de pânico, náuseas, dores de cabeça, tonturas, insónias e dissociação, embora a maioria destes efeitos tenha sido transitória.

Um grupo de investigação alemão que estudou mais de 1300 praticantes regulares de meditação em todo o mundo descobriu que 13% tinham experienciado efeitos adversos, incluindo um pequeno número de pessoas que sofreram «efeitos muito graves com consequências duradouras» ou «efeitos extremamente graves» que colocaram a vida em risco ou exigiram hospitalização.

Um outro grande inquérito concluiu que um quarto das pessoas que meditam — e uma percentagem ainda maior entre os praticantes sem motivações religiosas — tinha tido uma «experiência particularmente desagradável relacionada com a meditação».

Até certo ponto, isto seria de esperar. Seria estranho que um único tratamento, apresentado como solução para dezenas de problemas mentais e físicos, conseguisse aliviar todas essas perturbações sem produzir quaisquer efeitos secundários.

Na medicina, se não está a fazer mal nenhum, provavelmente também não está a ajudar, disse-me Nicholas Van Dam, psicólogo da Universidade de Melbourne que foi coautor de artigos com Britton.

Juntamente com uma equipa de investigadores na Austrália, Van Dam descobriu que cerca de 9% das pessoas no seu inquérito que meditavam relataram uma perturbação do funcionamento normal decorrente de um problema relacionado com a meditação, incluindo alterações do sono e uma sensação de distanciamento em relação às outras pessoas.

A equipa de Van Dam sugeriu que as pessoas deveriam ser avisadas de que a meditação é contraindicada para determinados grupos, tal como certos medicamentos não devem ser administrados a algumas pessoas.

Miguel Farias, psicólogo experimental das Universidades de Coventry e Oxford, especializado na ciência da meditação, disse-me que a literatura inicial sobre terapia cognitivo-comportamental, nas décadas de 1970 e 1980, recomendava que não se meditasse durante um episódio depressivo.

«A atividade física é um maravilhoso antídoto contra a depressão», afirmou Farias. Mas «a meditação faz com que a pessoa fique fisicamente mais passiva».

Numa revisão sistemática, Farias e os seus co-autores concluíram que os acontecimentos adversos entre as pessoas que meditam não são “invulgares”: surgiram em 65% dos estudos analisados. Os sintomas mais frequentes foram ansiedade e depressão.

Alguns dos efeitos secundários que estes investigadores estão a encontrar podem dever-se ao facto de, nos séculos que passaram desde que as tradições de meditação orientais foram introduzidas no Ocidente, no século XIX, este ritual, originalmente sobretudo religioso, se ter expandido muito para além da sua finalidade inicial. O seu âmbito mais abrangente poderá ter consequências que o contexto budista original da prática talvez tivesse evitado.

Mas, como Salguero e outros salientaram, os primeiros textos budistas advertiam que a «doença da meditação» afligia até os praticantes contemplativos devotos de épocas anteriores. Num texto chinês do século VIII, Buda alerta para 50 «estados demoníacos» nos quais os meditadores poderiam ficar presos, incluindo alucinações, tristeza, ansiedade, pensamentos suicidas e possessão por fantasmas.

Enquanto trabalhava no meu livro mais recente, sobre a mudança de personalidade, queria desesperadamente mudar uma característica específica de mim própria: reduzir o meu nível estratosférico de neuroticismo, o traço de personalidade associado à ansiedade e à depressão.

Quando pesquisei no Google como reduzir a depressão e a ansiedade, a primeira opção sem recurso a medicamentos que apareceu foi a meditação.

Por isso, inscrevi-me numa aula online de redução do stress baseada em mindfulness — o tipo de meditação que Britton também ensinou no passado e que, atualmente, conta com centenas de aulas e instrutores à escolha em todo o país.

Alguns dos ensinamentos budistas da aula, embora simplificados para principiantes, foram muito úteis para mim e, no final das oito semanas, um teste revelou que a minha pontuação de neuroticismo tinha, de facto, diminuído ligeiramente.

Isso surpreendeu-me porque sou péssima a meditar. Passava sessões inteiras de 45 minutos a rever mentalmente a minha lista de tarefas, as minhas preocupações e outras questões mundanas.

O que mais me irritava, porém, era a forma como os professores de meditação falavam, tendendo para uma espécie de linguagem new age, frequentemente na voz passiva.

«Há uma subtil tendência para nos esforçarmos naquilo que partilhaste», respondeu um dos professores quando lhe perguntei como tornar a «caminhada consciente» mais restauradora.
«Talvez queiras que seja relaxante e não desafiante. Mas essa não é a razão pela qual praticamos. Praticamos pelo simples acto de praticar e para nos encontrarmos com aquilo que quer que esteja a surgir.»
É a isto que Britton chama um «cliché que encerra o pensamento» (thought-terminating cliché): uma frase que parece profunda, utilizada por pessoas em posições de autoridade para pôr fim ao debate — ou, como Britton o formulou, uma maneira de os professores transmitirem educadamente: «Cala-te e faz o que eu digo.»

Mas muitos budistas e professores de meditação concordariam com o meu instrutor: sentir e observar o desconforto faz parte do objectivo da prática.

Em consonância com esta ideia, um número considerável das pessoas que Britton entrevistou contou-lhe que, quando falaram dos seus sintomas com professores de meditação, estes os desvalorizaram, dizendo coisas como fica pior antes de melhorar e aquilo a que resistes persiste.

Os professores sugeriam que todas as experiências negativas eram, por natureza, oportunidades de crescimento ou que, talvez, a pessoa estivesse simplesmente a meditar de forma incorrecta.

A mentalidade parecia ser: «Experimenta o nosso produto e, se não gostares, então fizeste-o mal», disse Britton.

Esta atitude é coerente com aquilo que ouvi de alguns praticantes experientes de meditação que passaram por sofrimento agudo enquanto meditavam.

Um homem contou-me que, depois de um longo retiro, começou a ter espasmos que lhe contraíam metade da cara. O seu professor de meditação limitou-se a dizer-lhe que precisava de relaxar mais.

Dois outros praticantes experientes com quem falei, Terran Palmer-Angell e Carmen Maria Alvarez, também me disseram que alguns dos seus colegas num longo retiro em que participaram, organizado pelo Center for Contemplative Research, tinham sofrido episódios psicóticos ou desenvolvido tiques, incluindo um homem que rodava compulsivamente a cabeça.

Segundo eles, o professor e um dos cofundadores do centro, B. Alan Wallace, disseram-lhes que se tratava apenas de «um movimento involuntário» e que não havia motivo para preocupação.

Palmer-Angell e Alvarez salientaram que as suas experiências diziam respeito especificamente àquele retiro e não à meditação em geral.

Eva Natanya, a outra cofundadora do centro, disse-me que, desde a sua fundação, em 2020, «ninguém foi diagnosticado com um episódio psicótico por um psiquiatra» durante um retiro.

No entanto, afirmou que alguns «indivíduos desenvolvem tiques físicos» devido a uma «explosão de energia» durante a meditação.

Disse que, por vezes, estes tiques são designados por «movimentos involuntários» e que, inicialmente, os praticantes podem ser aconselhados a «deixar acontecer e voltar a meditar, porque essa energia acabará por se resolver por si própria».

Acrescentou que ela própria trabalhou com a pessoa que apresentava as rotações compulsivas da cabeça, «fazendo perguntas e ouvindo».

Segundo Natanya, o centro disponibiliza várias formas de apoio, incluindo reuniões com ela própria e Wallace, aconselhamento psicológico, consultas médicas e fisioterapia.

Britton recorda-se de ter transmitido ela própria uma versão desta lógica quando era professora de MBSR.
Eu tentava dizer às pessoas: Nada é bom ou mau, mas o pensamento é que faz com que assim seja, recorrendo a Hamlet e à filosofia estóica.
Durante algum tempo, esta ideia pareceu-lhe radical e capaz de transformar a vida de forma construtiva:
O segredo para uma boa vida é simplesmente aceitar aquilo que quer que aconteça!
Mas depois a sua própria prática de meditação começou a fazê-la pensar:
Está bem, mas espera; eu já não sinto que existo.
Isso não lhe parecia uma coisa boa, por muito que se tentasse encará-la.

Depois de Britton e Lindahl publicarem o estudo The Varieties of Contemplative Experience, o telefone do seu laboratório começou a tocar.

Pessoas que, depois de meditar, experienciavam psicose, dissociação, tiques e outros problemas telefonavam a pedir ajuda.

Os praticantes de meditação sentiam-se confusos e envergonhados, como se tivessem causado danos a si próprios. Diziam que os psicoterapeutas tradicionais não compreendiam aquilo por que estavam a passar — e que ninguém mais parecia compreender.

Como é possível uma pessoa fazer mal a si própria através da meditação?

O aumento do número de pessoas que procuravam a sua ajuda levou Britton a criar aquilo a que chamou Cheetah House — uma alusão a citta, a palavra sânscrita para «consciência» — e a transformá-la numa organização sem fins lucrativos dedicada a ajudar pessoas que tiveram experiências difíceis com a meditação. Inicialmente sediada na sua própria casa, em Providence, a organização atende agora 200 pessoas por mês, inteiramente através do Zoom.

O programa da Cheetah House consiste sobretudo em conversas com especialistas, sessões com um membro da «equipa de apoio» e grupos de apoio com outros praticantes de meditação que tiveram experiências perturbadoras. O programa funciona segundo uma tabela de preços variável; a maioria das pessoas paga 50 dólares por sessão com um membro da equipa de apoio e 100 dólares ou mais por uma sessão com a própria Britton.

Muitos dos clientes da Cheetah House têm problemas (relativamente) controláveis, como ansiedade e insónias, mas Britton contou-me que, uma ou duas vezes por mês, recebe uma chamada de alguém cujo familiar teve um episódio psicótico desencadeado pela meditação. Muito mais raramente, houve pessoas que se suicidaram depois de retiros de meditação intensivos. 

Quando as pessoas dizem que estou a criar alarmismo,  a minha resposta é: “Ainda nem chegámos aos suicídios.”

Recentemente, decidiu criar um grupo de apoio para os pais de praticantes de meditação que tenham desenvolvido sintomas psiquiátricos graves, depois de 13 famílias — quatro das quais já tinham perdido os filhos — terem manifestado interesse.

Entre metade e três quartos dos clientes da Cheetah House começaram a apresentar sintomas depois de um retiro de meditação, disse-me Britton. As pessoas participam frequentemente em retiros para tentar aprofundar a sua prática ou para «relaxar» — mas, em geral, estes retiros não são nada relaxantes. Muitos implicam acordar ao amanhecer, comer muito pouco e permanecer perfeitamente imóvel, concentrando-se na respiração durante horas a fio. Vários dias deste regime, disse Britton, podem tornar os neurónios mais sensíveis, fazendo com que estímulos insignificantes, como o tique-taque de um relógio ou o som da respiração de outra pessoa, comecem a parecer esmagadores — tal como emoções como a raiva e o sofrimento. Kieran Fox, psiquiatra da Universidade da Califórnia, em São Francisco, e praticante experiente de meditação, disse-me que os retiros são algumas das coisas mais difíceis que alguma vez fiz em toda a minha vida. E isso inclui a faculdade de Medicina.

Entre os clientes da Cheetah House que entrevistei, os retiros eram um desencadeador frequente de efeitos adversos. Um dos praticantes, Dan Millstein, contou-me que, depois de um retiro de dez dias, passou anos a sentir-se emocionalmente bloqueado e desligado, como se estivesse «a viver atrás de uma parede de vidro ou de um véu». Outro homem, Billy, que pediu para não divulgar o seu apelido, meditava regularmente há uma década quando um retiro silencioso de sete dias fez disparar a sua ansiedade física e mental: tremia incessantemente e começou a sentir-se melhor quando deixou de meditar.

Há cerca de 15 anos, uma mulher que pediu para permanecer anónima estava no seu segundo retiro silencioso de dez dias quando começou a sentir uma contração no rosto, que evoluiu para uma necessidade de rodar a cabeça. Sentia como se lhe passasse eletricidade pelo corpo. Começou a tremer incontrolavelmente e, por vezes, contorcia-se no chão. Acabou por ser hospitalizada devido a uma psicose. Mais tarde, foi-lhe diagnosticada perturbação de stress pós-traumático complexa e, embora tenha aprendido a controlar os sintomas, contou-me que ainda hoje sofre de movimentos musculares involuntários. Outra mulher, Rebecca Fischer, contou-me que, mais de 12 anos depois de um retiro em que participou, continua a sofrer de dores crónicas nas pernas e nas costas.

Um número considerável de clientes da Cheetah House sofre efeitos adversos fora dos retiros. Nos dias que se seguiram a uma sessão de meditação em casa, utilizando uma aplicação, uma cliente chamada Susan Small contou-me que estava a conduzir quando «todo o meu sentido de mim própria desapareceu», tendo posteriormente experienciado «ondas de terror» durante meses. Um homem chamado Eoin contou-me que, depois de passar oito dias a fazer todas as manhãs, sozinho, meditações áudio de 30 minutos, começou a sentir-se como um «farrapo de nervos», à beira de uma psicose, e como se não soubesse realmente quem era — um fenómeno denominado despersonalização.

Estas pessoas e outros clientes disseram que apreciavam poder ouvir outros praticantes de meditação com experiências semelhantes e que a Cheetah House os ajudou a sentirem-se menos como um «brinquedo defeituoso», nas palavras de Millstein. Tinham tido dificuldade em encontrar apoio noutros lugares, em parte porque uma das recomendações mais comuns para o sofrimento emocional é experimentar a meditação. Muitos dos seus clientes, disse Britton, parecem sentir alívio quando ela lhes diz que não há problema nenhum em parar, se for isso que querem fazer.

Na passagem de ano, numa ocasião recente, Britton organizou aquilo a que, em tom de brincadeira, chamou uma festa de «brincadeira paralela» — uma espécie de encontro para introvertidos em que todos fazem um trabalho manual, para não terem de conversar muito. Ela preparou margaritas e os amigos e colegas levaram revistas para recortar e fazer colagens. Algumas horas depois, alguém levantou um artigo da revista Psychotherapy Networker e perguntou: «Eh, isto é sobre ti?»

A história era, de facto, sobre a Cheetah House, e Britton esperou até que todos fossem embora para a ler. Uma citação em particular deixou-a paralisada:
«Deveria haver um aviso de conteúdo no site da Cheetah House», afirma o célebre professor de budismo e psicólogo clínico Jack Kornfield. «Grande parte daquilo é informação enganadora e alarmismo exagerado.»
Era o Jack Kornfield, o guru da atenção plena que escreveu A Path With Heart, o livro que tinha dado início à viagem de Britton pelo budismo. Era para ela uma figura paternal e um mentor. Jack Kornfield achava que ela estava a criar alarmismo. Agora, tudo o que ela conseguia pensar era: Thanks dad. Passou uma semana na cama depois disso. (Kornfield recusou-se a fazer comentários.)

À medida que prosseguia a sua investigação, Britton começou gradualmente a sentir-se excluída dos círculos budistas que, até então, constituíam toda a sua rede pessoal e profissional. Disse que uma organização budista lhe enviou uma carta ameaçadora depois de ela ter entrevistado membros da sua comunidade. Numa ocasião, depois de ter feito uma apresentação sobre os efeitos adversos numa conferência, Britton contou que um importante investigador da meditação a encurralou no exterior e gritou: «Eu não acredito em ti!» (O investigador nega ter dito isso.)

Os convites para conferências começaram a escassear — e, quando os recebia, disse, acabava por descobrir que era convidada para debater se os problemas relacionados com a meditação sequer existiam — «um insulto a todas as pessoas que entrevistei», afirmou.

«Se queres construir uma ponte, não podes simplesmente dizer: Uma ponte vai ser tão fantástica. Tens de pensar onde é que ela poderá eventualmente falhar», disse-me Britton. «E é extremamente impopular ser essa pessoa.» O seu antigo pós-doutorando, Roman Palitsky, contou-me que Britton sofreu por apontar os problemas da ponte. «Antes dela, ninguém estudava os problemas da meditação, pelo menos não a sério», disse. «E penso que grande parte do mundo da meditação acabou por se virar contra ela.»

Parte destas críticas pode ser atribuída a diferentes interpretações da ciência e à questão de saber qual é a melhor forma de tratar problemas persistentes, como a ansiedade e a depressão, quando todos os tratamentos têm potenciais efeitos negativos. «É melhor para uma pessoa ansiosa meditar ou tomar Lexapro?» não é uma pergunta para a qual seja fácil encontrar resposta. Fox, o psiquiatra da UCSF, disse-me que alguns dos efeitos neurocientíficos que Britton atribui à meditação, como o aumento da atividade na ínsula, também podem ser interpretados como um sinal de uma melhor «consciência autonómica» — basicamente, uma maior perceção do funcionamento interno do próprio corpo — e não como um sinal de trauma ou pânico.

Mas algumas das críticas parecem resultar de uma atitude de defesa quase automática por parte dos promotores da meditação que — talvez compreensivelmente, tendo em conta os inúmeros benefícios que se demonstrou estarem associados à prática — não querem manchar a reputação de algo que consideram positivo.

Tenho reparado que as pessoas tendem a defender a meditação com um fervor que não via desde os grupos de jovens evangélicos que frequentava na adolescência. Não gostas de meditar? Ótimo, não é suposto gostares. Dizes que não funciona contigo? Bem, é porque não estás a fazê-lo correctamente. A resposta para todos os problemas relacionados com a meditação parece ser mais meditação.

Esta susceptibilidade pode estender-se aos próprios investigadores da meditação, a maioria dos quais também pratica meditação; as reuniões académicas a que Britton assistia começavam por vezes com uma sessão de meditação. Nicholas Van Dam, psicólogo da Universidade de Melbourne, disse-me que as comunidades de meditação tendem a transmitir a ideia de que «se disseres alguma coisa negativa, estás a anular o que há de bom». Farias contou que, depois de incluir um capítulo sobre os riscos da meditação no seu livro The Buddha Pill, alguns dos seus amigos «ficaram muito, muito irritados» e que dois deles lhe disseram que «não podíamos ser vistos publicamente como seus associados».

Alguns investigadores favoráveis à meditação são mais equilibrados — reconhecem o valor das descobertas de Britton, ainda que contestem alguns aspectos das mesmas. Eric Loucks, diretor do Mindfulness Center da Brown, salientou que uma pessoa pode ter uma experiência difícil durante a meditação e, ainda assim, considerar que a sua prática de meditação, no seu conjunto, é benéfica. Observou também que vários estudos concluíram que as intervenções baseadas na atenção plena produzem menos efeitos secundários do que os tratamentos farmacológicos, incluindo o Lexapro. Ainda assim, descreveu Britton como «inovadora» e «corajosa» e afirmou que o seu trabalho influenciou não só as suas próprias opiniões e investigação — incluindo actualizações do currículo padrão de MBSR, que o Mindfulness Center actualmente mantém — mas também a investigação sobre atenção plena em geral. «Procurar apenas as coisas boas», disse, não é o seu objetivo. «Queremos realmente saber a verdade.»

Mas vários professores de meditação que entrevistei pareciam, de facto, assumir uma atitude protectora em relação à prática. Carol Greco, psicóloga da Universidade de Pittsburgh e professora de MBSR, foi co-autora de um artigo que procurava «dissipar a ideia» de que a ansiedade, a dor e a psicose «são efeitos adversos provocados pela meditação mindfulness». Pareceu-lhe desagradável saber que eu estava a trabalhar nesta reportagem e escreveu-me num e-mail: «Preferia falar consigo sobre a forma como a meditação pode ser útil.» 

Quando os estudos de Britton começaram a ser publicados, disse, eles «trouxeram uma maior consciência do potencial de trauma no passado de uma pessoa e de como podemos criar um ambiente seguro». Mas «o coração doeu-lhe» porque «parecia que estava a fazer com que a atenção plena e a meditação parecessem algo realmente perigoso e realmente mau». Contou-me que, nos seus vinte anos como professora de meditação, nunca tinha visto um efeito adverso grave como psicose ou dissociação.

Alguns dos académicos que entrevistei e que defendiam a meditação reconheceram, pelo menos implicitamente, algumas das conclusões de Britton. Richard Davidson, professor de Psiquiatria e Psicologia na Universidade de Wisconsin-Madison e conhecido investigador da atenção plena, disse-me que, no que diz respeito às técnicas de relaxamento, a meditação é relativamente inócua. Acredita que, para a maioria das pessoas, existe um risco maior de sofrer danos por não meditar do que por meditar, porque os benefícios físicos e emocionais da prática são sólidos, e foi co-autor de estudos que apoiam essa afirmação. Mas acrescentou que as pessoas com perturbações psiquiátricas graves só deveriam meditar sob a orientação de um profissional de saúde mental que também fosse praticante de meditação — um conselho que provavelmente seria uma novidade para os muitos milhares de pessoas que meditam em casa através de aplicações.

O investigador e professor de budismo Gil Fronsdal disse-me que, embora não considere que a meditação provoque efeitos adversos, os retiros podem agravar problemas psicológicos preexistentes. (Britton afirmou que os efeitos adversos podem surgir mesmo em pessoas sem antecedentes de problemas de saúde mental.) Fronsdal recordou o caso de uma praticante de meditação que, ao longo de um retiro de um mês, foi gradualmente perdendo o contacto com a realidade: perseguiu a mulher de Fronsdal, ficou sem-abrigo e passou horas numa biblioteca especializada em direito médico a investigar como é que Fronsdal tinha conseguido trocar a coluna vertebral da mulher dele pela sua. Ter pessoas com esquizofrenia em retiros de meditação tem sido «uma das situações mais difíceis que enfrentei como professor», contou-me. Disse que as pessoas com psicose não deveriam participar em retiros de meditação, nem tão-pouco as pessoas que sejam «hiperansiosas» — uma característica que me descrevia quando participei num retiro de MBSR de um dia inteiro para o meu livro.

A reação negativa, substancial e por vezes hostil ao seu trabalho deixou Britton num estado de hipervigilância. Talvez excessiva: na minha opinião, por vezes ela detecta críticas onde elas não existem. Quando lhe pedi que descrevesse como era trabalhar no grupo de investigação de Brown, maioritariamente favorável à meditação, enquanto publicava estudo após estudo que demonstrava que a meditação podia ser arriscada, não quis dizer muito mais do que o facto de a situação poder ser «tensa». (Loucks, o diretor do Mindfulness Center, negou que existisse qualquer tensão.) «Quando se trata de alguém escolher a sua religião ou a sua amizade», disse-me ela a certa altura, «essa pessoa escolherá sempre a sua religião.»

A partir do início da década de 2020, Britton e Lindahl tiveram dificuldade em encontrar financiamento para continuar a estudar os aspectos negativos da meditação; contaram que uma organização chegou a rejeitar a sua proposta de candidatura a um financiamento para estudar «experiências transformadoras», por esta ser considerada demasiado crítica da religião. Britton afirma que, quando submetiam artigos a revistas académicas, os comentários dos revisores sobre os artigos centrados nos riscos da meditação eram «seis vezes mais longos» do que os relativos aos artigos sobre os seus benefícios.

A equanimidade é uma pedra angular do pensamento budista; a própria Britton tinha repetido muitas vezes, perante salas cheias de estudantes de meditação: Nada é bom ou mau, mas o pensamento faz com que assim seja. Mas começava a pensar que, na realidade, algumas coisas são boas e outras são más. É certo que podemos simplesmente aceitar tudo, mas, por vezes, não devemos fazê-lo. Tinha dado um contributo importante para o campo; parecia-me que estava farta de Brown, da academia, de viver em Rhode Island, de tudo aquilo.

Quando Britton conheceu Lindahl, ele convenceu-a a começar a tirar um dia de folga por semana, algo que ela não fazia há duas décadas. Depois passaram a ser dois dias. Em seguida, deixou de dar aulas durante o verão. Pouco depois, começaram a procurar um terreno no Vermont para onde pudessem mudar-se. Actualmente vivem numa cabana isolada na floresta, sem ligação às redes públicas, onde um desenho botânico recebe os visitantes numa parede junto à entrada. O que é a alma humana senão uma garra apontada de volta para a floresta?, diz a sua legenda

Britton é consultora num projecto de investigação com o seu antigo pós-doutorando, Palitsky, que está agora na Universidade Emory e a dirigir um estudo longitudinal, de muito maior dimensão, sobre os problemas relacionados com a meditação. Neste verão, tanto ela como Lindahl abandonaram oficialmente Brown. Estão a gostar de explorar, como ela disse, «outras secções da livraria». Actualmente, gerir a Cheetah House ocupa a maior parte do seu tempo.

Britton deixou de meditar em 2017, por volta da altura em que publicou o estudo Varieties, e «começou a ter uma visão menos romântica e mais matizada do budismo». Agora encontra a sua própria forma de tranquilidade no mundo natural, cuidando das suas plantas e cortando lenha.

É importante sublinhar que nem a investigação de Britton nem o seu trabalho com os clientes da Cheetah House a levaram a virar-se contra a meditação enquanto tal; simplesmente tornaram-na mais consciente da importância de praticá-la em segurança. 

Meditar durante mais de cerca de 30 minutos por dia tende a estar associado a mais efeitos secundários negativos, disse, e determinados tipos de meditação podem não ser adequados para determinadas pessoas. (Por exemplo, algumas pessoas ansiosas não deveriam fazer o tipo de meditação conhecido como «exploração corporal» (body scan), porque já estão demasiado concentradas no próprio corpo.) 

As pessoas que estejam a considerar participar em retiros de meditação prolongados deveriam experimentar primeiro meditar durante algumas horas em casa, para terem a certeza de que conseguem tolerar períodos longos. E aqueles que sentem dificuldades com a sua prática de meditação deveriam considerar mudar o tipo de meditação que praticam, modificar a sua prática ou simplesmente deixar de meditar. 
Tratem a meditação como qualquer outra relação. Se te sentes mal com essa pessoa, talvez esteja na altura de acabar.
Passar tanto tempo com Britton fez-me querer revisitar as minhas próprias aventuras no budismo e aquilo que tinha encontrado de valioso nele. Na sua maioria, encontrei notas antigas sobre o quanto detestava meditar: 
Esta é a parte do livro em que não estou a divertir-me nada»; Preferia literalmente dar à luz a ficar sem fazer nada durante 45 minutos»; Sou apenas uma imigrante ansiosa que teme que possas meditar-te até acabares sentado num banco de jardim.
Mas também encontrei alguns ensinamentos que apreciei e que vou simplificar excessivamente aqui, porque não sou budista. Entre eles: 
Buda ensinava que as pessoas deveriam seguir um «caminho do meio» entre a indulgência decadente e a austeridade rígida — não viver de forma irreflectida, mas também não ser tão ascético ao ponto de tornar a própria vida miserável. «Evitando estes dois extremos», diz um sutta, «o Realizado compreendeu o caminho do meio da prática».
Talvez ele tivesse razão.

https://www.theatlantic.com

September 10, 2026

Porque é que a Ucrânia não está na NATO se na prática já lá está?

 

Treinam tropas da NATO, produzem equipamento militar do interesse da NATO, têm uma experiência de guerra que interessa à NATO e estão a fazer o trabalho da NATO na defesa da Europa dos ataques russos. Não se percebe a não ser pelo medo tradicional dos europeus.


Defesa da Ucrânia

Actualmente, a Ucrânia demora entre 3 e 6 meses a passar de uma nova necessidade tecnológica da linha da frente para a sua produção em série.
Nos países da NATO, o ciclo de inovação dura normalmente entre 10 e 15 anos.
Só em 2025, mais de 1 300 novos modelos de armas e equipamentos ucranianos foram autorizados para utilização operacional.
O vice-ministro da Defesa, Sergiy Boyev, apresentou a abordagem da Ucrânia ao Conselho Inter-parlamentar Ucrânia-NATO.

As mulheres estão sob ataque como nunca vi em toda a minha vida

 

O islão explica-se a si mesmo

 

A nova-esquerda pensa que os islamitas são seus soldados mas é exactamente o oposto, ela é que é o instrumento da expansão do islão e da sharia. O islão está-se nas tintas para categorias de esquerda e de esquerda. Estão para lá disso. A sua ideologia é o fim de tudo o que é vida, de tudo o que é afirmação, liberdade, expansão, autonomia, alegria. 


As mulheres estão sob ataque como nunca vi em toda a minha vida

 

Desconstruiram as mulheres que agora são tudo e mais alguma coisa e têm menos direitos que os pets, cães e gatos. Os homens continuam a ser homens. As mulheres estão sob ataque como nunca vi em toda a minha vida. Misoginia extrema.




Verdades difícies de ouvir

 

Quando se pensa em permitir homens invadir espaços de mulheres é preciso ter em conta a realidade dos factos e dos números.




As mulheres estão sob ataque como nunca vi em toda a minha vida

 


Na Austrália as mulheres perderam o direito a dizer a um trans, homem que diz ser mulher, que ele é um homem e que elas mesmas são mulheres. Portanto, agora são os trans, homens biológicos, que decidem o que é uma mulher. Onde estão as pessoas sãs de mente da sociedade? Na Austrália os homens agora entram em várias casa-de-banho de mulheres e tiram selfies como troféus, para gozar. Hoje fui à casa-de-banho em um dos hospitais em que estive. A casa-de-banho é comum a homens e mulheres. Tem 2 cubículos, daqueles em que a porta fica a 50 cm do chão e a 1 metro e meio do tecto. Se não estivesse tão aflita tinha-me ido embora. Estava extremamente desconfortável com a ideia de entrar um homem para o outro cubículo numa casa-de-banho daquelas. Se o homem for alto vê por cima da porta se lhe apetecer e de qualquer modo vê as pernas da pessoa por baixo da porta. Não percebo. Uma pessoa num hospital já está stressada, qual é a necessidade de porem as mulheres em risco e criar stress acrescido em espaços de vulnerabilidade?


As mulheres estão sob ataque como nunca vi em toda a minha vida

 

A justiça está descaradamente do lado dos criminosos contra as mulheres. Não é só em Espanha, é em todo o mundo ocidental. Os crimes contra as raparigas e mulheres já nem sequer são sancionados. Qualquer dia são elogiados e as mulheres é que vão presas como nos países islamitas onde ser violada é bem feita e ainda vais presa ou morta por teres deixado um homem tocar-te.


"Como ensinar alunos, quando temos decisores tão lentos nas aprendizagens?"




‘PISA 2025’: o descalabro anunciado

Paulo Guinote

O desempenho dos alunos portugueses, apesar da cosmética das avaliações internas para produção de estatísticas de sucesso, está em acelerada (e prolongada) erosão. Os resultados dos testes PISA 2025 demonstram isso, com os valores obtidos em Leitura e Matemática a regredirem muitos anos e os de Ciências a estabilizar em perda.

O balanço da última década é catastrófico e não vale a pena usar argumentos como os efeitos da pandemia ou de parte das perdas estarem em linha com o que aconteceu na maioria dos países da OCDE. Isso apenas revela que se replicaram políticas erradas, porque “lá fora é assim que se faz”. Aliás, o mesmo argumento que os actuais governantes estão a usar para medidas como a fusão dos primeiros seis anos de escolaridade num único ciclo.

As políticas do período “costista” na Educação traduziram-se num rotundo fracasso, sendo inútil relativizar os factos com as alegadas boas intenções de uma produção legislativa coerente, apenas na ambição de produzir sucesso a qualquer preço. O desempenho dos alunos piorou de forma consistente, com a base (low performers) a não melhorar e o topo (high performers) a reduzir-se de forma significativa: em Leitura e Matemática os valores ficaram em metade ou menos do que eram em 2018.

Quando se analisam os dados desde o início da participação portuguesa nestes testes, percebe-se que são espúrias as tentativas para branquear este ou aquele ciclo político. As quebras são claras desde os PISA 2018 (coorte de alunos que iniciaram a escolaridade em 2009/10) e já nos testes de 2012 tinha existido um declínio dos resultados. Os bons resultados de 2015 (coorte de 2006/07) começam, numa perspectiva de média-longa duração, a surgir cada vez mais como conjunturais.

Tem-se verificado uma tentativa para considerar que até 2015 existiu um conjunto de políticas viradas para um rigor na definição de metas de aprendizagem e na avaliação dos alunos, mas os dados matizam bastante esse tipo de narrativa. Os ganhos mais consistentes terminam em 2009 (coorte de 2000/01), com alunos que fizeram quase toda a sua escolaridade antes das profundas reformas que entraram em vigor a partir de 2007 e 2008. Afirmar o contrário é um esforço mais político e ideológico do que analítico, e depende de alguma tortura estatística e cronológica dos dados disponíveis.

Nada disso obsta a que existam duas conclusões muito claras: em primeiro lugar, que os alunos que iniciaram a sua escolaridade em 20013/14 e 2016/17 apresentam um desempenho que regride para valores de 2006, demonstrando a desadequação de políticas apresentadas como inclusivas e defensoras da equidade e da justiça social; em segundo, que, se as perdas acompanham tendências comuns à OCDE, isso significa que se adoptaram soluções desajustadas à realidade educativa nacional, apesar dos avisos a esse respeito.

Infelizmente, verifica-se que ninguém assume qualquer responsabilidade pelo sucedido e que, o que é mais grave, estão a ser tomadas medidas com base em argumentos semelhantes – de estarem em linha com as propostas de organismos como a OCDE – aos que nos levaram a esta triste situação. Como ensinar alunos, quando temos decisores tão lentos nas aprendizagens?.

DN

Porque não entregam à Ucrânia os mais de 200 mil milhões de euros em activos russos?

 

Estão à espera que a Le Pen ganhe as eleições...?


Porque é que não melhoram os transportes públicos? Dá trabalho?

 

Hoje fiquei quase parada no tabuleiro da ponte Vasco da Gama cerca de 1 hora. Saí de Setúbal às 7.30h para estar em Lx no hospital às 9h. Uma hora e meia de antecedência! Tinha uma TAC marcada para as 9.15h. Cheguei lá às 9.30h. Duas horas para chegar ao sítio! Houve um acidente na ponte  Vasco da Gama (já nunca vou pela ponte sobre o Tejo em horas de trânsito). Um enorme stress, porque vou sempre com uma enorme antecedência para não chegar atrasada. Depois isto atrasou-me as consultas que tinha. Enfim, a questão é que praticamente todos os carros naquela fila da ponte iam apenas com o condutor. Um desperdício de combustível, de dinheiro... se houvesse outra ponte com comboio e o comboio fosse frequente e se os transportes em Lx fossem bons, as pessoas largavam os carros algures num parque antes das pontes e iam de comboio. Depois disseram-me que na ponte sobre o Tejo também houve um acidente. Cheguei agora de Lx. No sentido Sul-Norte desta ponte ainda havia imenso trânsito lento. Um problema que andam há 40 anos para resolver. Porque é que não melhoram os transportes públicos? Dá trabalho? Como é que se gasta dinheiro a pintar paralelipípedos com florzinhas em vez de melhorar os transportes? Que inferno!


Consideremos um par de sociedades



Se a maioria dos professores partilha as mesmas convicções políticas, isso é mau para a democracia

Por que razão as universidades precisam de diversidade ideológica.

Consideremos um par de sociedades.

Na primeira sociedade — chamemos-lhe Utopia — há sempre eleições livres e justas. São livres e justas no sentido de que todos os adultos têm direito a votar e todos os votos são contabilizados de forma correta. Não há intimidação de eleitores nem coisas do género. Há, contudo, uma particularidade. Toda a informação politicamente relevante (sobre a economia, as relações externas, etc.) tem de ser aprovada pelo Conselho de Informação antes de chegar ao público. O Conselho de Informação, por sua vez, é nomeado pelo Grande Líder, que, como se verifica, ganha sempre as eleições.

Será esta sociedade democraticamente legítima? Presumivelmente, não. Mas, se não for, isso demonstra que o ideal de democracia vai para além de simplesmente garantir que cada pessoa possa fazer a sua escolha na cabine de voto.

Consideremos, de forma semelhante, uma segunda sociedade. Tal como em Utopia, todos os adultos têm direito ao voto. Mas, nesta sociedade, os padres católicos controlam algo a que chamam a Guilda. A Guilda destina-se exclusivamente aos católicos — todos os seus membros têm de aceitar uma determinada interpretação restrita da doutrina, juntamente com uma série de afirmações associadas sobre justiça, autoridade clerical, questões sociais e outras matérias semelhantes. Poderá haver aqui e ali alguns heréticos que consigam entrar, mas apenas se assumirem publicamente o compromisso com a doutrina.

Ora, todos os futuros líderes da sociedade (sejam líderes empresariais, políticos ou jornalistas) têm de passar pelo menos quatro anos na Guilda, onde recebem formação dos padres. Além disso, os eleitores não têm qualquer controlo sobre a Guilda — os padres são escolhidos por outros padres.

Será isto uma verdadeira democracia? Mais uma vez, presumivelmente, não. O poder de moldar os futuros líderes e, consequentemente, as futuras políticas e opiniões está nas mãos da Guilda. Os eleitores são pouco mais do que um espetáculo secundário. Podem ter algum poder a curto prazo, mas, ao longo do tempo, será a Guilda a determinar a direção da sociedade.

A ideia de que o sufrágio universal não é suficiente para uma democracia genuína não é uma observação nova. Muitos intelectuais (incluindo John Rawls, T. M. Scanlon e Noam Chomsky) defenderam que a desigualdade de riqueza enfraquece a democracia, mesmo quando vigora o princípio de uma pessoa, um voto.

Diferentes autores explicam esta ideia de maneiras diferentes, mas o pensamento fundamental é que as grandes empresas e os mais ricos podem exercer uma influência desproporcionada sobre a política, ao definirem os termos do discurso público. Podem fazê-lo através de donativos a políticos ou através da propriedade de grandes empresas de comunicação social e jornais. Deste modo, o consentimento do público relativamente ao sistema pode ser «fabricado», para usar a expressão de Walter Lippmann.

A questão fundamental é que as empresas com fins lucrativos e os mais ricos não são responsáveis perante o público — o público não tem o poder de decidir onde e como eles gastam o seu dinheiro.

A ideia principal é simples: se eu puder decidir que informação tu consomes, então posso controlar a forma como pensas e aquilo em que pensas. Com efeito, é precisamente por isso que os regimes autoritários controlam rigorosamente os meios de comunicação social e a liberdade de expressão dentro dos seus territórios. O consentimento que daí resulta não será, portanto, um consentimento genuíno.

O que poucas pessoas percebem é que o argumento acima também se aplica ao sistema universitário moderno. A academia, tal como existe actualmente, apresenta três características que, tomadas em conjunto, põem em causa os ideais da democracia.

1. As universidades moldam as futuras elites

Qualquer pessoa que queira tornar-se jornalista, dirigente empresarial, advogado ou político tem, de facto, de passar pelo sistema universitário. À medida que os estudantes atravessam esse sistema, o corpo docente exerce uma forte influência sobre a forma como pensam acerca de questões sociais e políticas. Os professores têm uma grande margem de liberdade relativamente ao que ensinam e à forma como o ensinam.

É claro que as redes sociais, os jornais e os podcasts também influenciam a cultura. Mas os jornalistas, escritores e outros influenciadores intelectuais são, eles próprios, produtos do sistema universitário.

Além disso, ouvir um podcast no tempo livre é opcional. Fazer as leituras e os trabalhos exigidos numa disciplina não o é — pelo menos se o estudante quiser ser aprovado. Ideias ou afirmações repetidas ao longo de um semestre parecerão mais plausíveis à maioria dos estudantes que frequentam a disciplina.

Ora, muitas áreas de estudo, como a química ou a engenharia eletrotécnica, não lidam diretamente com questões sociais ou políticas. Mas mesmo os estudantes destas áreas têm de cumprir requisitos de formação geral, que são assegurados por departamentos como os de antropologia, sociologia ou várias disciplinas de studies, nas quais as questões sociais e políticas são, de facto, abordadas.
2. A academia é politicamente homogénea

Isto é particularmente evidente nas áreas que lidam com questões sociais e políticas. Na antropologia e na sociologia, por exemplo, a proporção de eleitores registados como democratas em relação aos republicanos ultrapassa 40 para 1 nas universidades de elite de liberal arts.

E não se trata apenas de filiação partidária: os inquéritos que perguntam diretamente pela ideologia política revelam padrões semelhantes. Os académicos moderados e os que se situam à direita do centro estão enormemente sub-representados na academia, quando comparados com a população em geral.

Crucialmente, existe uma vasta quantidade de evidências de que este desequilíbrio se deve, em parte significativa, à discriminação, sobretudo na fase de contratação. Um estudo sobre docentes de Direito, realizado entre 2001 e 2010, revelou que os professores libertários e conservadores acabavam em faculdades de Direito classificadas 12 ou 13 posições abaixo das que acolhiam os seus pares de esquerda/liberais com qualificações equivalentes. Quando questionados, muitos docentes admitem explicitamente que eles próprios (ou os seus colegas) discriminariam candidatos situados à direita do centro durante o processo de contratação.

Além disso, o desequilíbrio ideológico também afeta o ensino, como demonstram estudos sobre os programas das disciplinas. Tudo isto sugere que a academia se assemelha à Guilda dos Padres Católicos descrita anteriormente.
3. Os académicos não são democraticamente responsáveis

Os docentes universitários são contratados e avaliados por outros docentes. Devido ao princípio da liberdade académica, o público e os seus representantes eleitos têm muito pouco a dizer sobre a forma como as universidades funcionam. No entanto, espera-se que o público financie as universidades, directa ou indirectamente, de inúmeras formas — através dos orçamentos estaduais destinados às universidades públicas, de bolsas federais de investigação e de subsídios e bolsas para estudantes.

A influência da academia sobre o discurso público é profunda. Historiadores, sociólogos e filósofos moldam os seus estudantes ao influenciarem as ideias a que estes são expostos, a forma como enquadram as questões sociais e, desde logo, os problemas que consideram importantes.

Quando pensamos no discurso público, pensamos sobretudo em políticos, jornalistas, comentadores e influenciadores. Mas os termos em que estes debates decorrem — as chamadas «janelas de Overton» em que se movimentam — são condicionados pela educação.»

Talvez seja precisamente porque o poder da academia, que não é democraticamente responsabilizado, permanece oculto que os cidadãos das sociedades modernas o toleram na medida em que o fazem.

Poderá argumentar-se que o argumento apresentado acima é injusto. Os estudantes têm liberdade de escolha — podem frequentar Stanford ou Yale, Michigan ou UCLA, e assim por diante. Quando se trata de ideologia, porém, essa escolha é ilusória. Seria uma coisa se, por exemplo, o departamento de sociologia fosse conservador em Stanford, socialista em Yale, liberal de esquerda em Michigan, libertário na UCLA, e assim sucessivamente.

Mas, embora estas sejam instituições nominalmente distintas, todas elas tendem para o mesmo lado. Funcionam como se fossem uma única instituição. E sair desse sistema tem custos elevados: se alguém quiser integrar as fileiras das elites, tem de frequentar a universidade.

Se quisermos restaurar uma verdadeira democracia liberal, temos de encontrar uma forma de construir uma sólida diversidade de perspetivas dentro da academia. Isto garantirá que os partidários de uma determinada ideologia não disponham de um poder concentrado e sem controlo. É também crucial para a procura da verdade.

Como John Stuart Mill sublinhou há um século e meio, em Sobre a Liberdade, o conhecimento — sobretudo em matérias morais, sociais e políticas — depende do que poderíamos chamar «fricção epistémica». As ideias têm de ser testadas perante aqueles que discordam delas.

Garantir a legitimidade democrática exigirá uma reavaliação cuidadosa da finalidade e da estrutura do sistema universitário. A questão central é o poder sem controlo exercido por um corpo docente ideologicamente homogéneo. Medidas concretas destinadas a garantir que uma pluralidade de pontos de vista seja bem-vinda na academia contribuirão muito para limitar esse poder e restaurar a confiança do público no sistema.

Além disso, se eu tiver razão, a própria democracia liberal está em jogo.

Hrishikesh Joshi

September 09, 2026

Há um problema de violência masculina para resolver

 

E é urgente. E importar homens de Estados falhados e de extrema violência contra mulheres só agrava o problema. Já chega os que aqui temos, porque queremos importar outros?

Mais um homem que drogou a mulher para a vender a violadores a troco de dinheiro. Só que neste caso a mulher morreu. Mas segundo certos homens o problema é o feminismo e a defesa dos direitos das mulheres. 

É tempo de os homens de revoltarem mais com a violação de mulheres que com a revolta das mulheres por causa dos violadores.

Qualquer dia qual é a mulher que tem confiança para ir viver com um homem, sabendo que, no mínimo, pode ser filmada nua e partilhadas as imagens ou vendidas na internet naqueles fóruns que têm milhões de homens a partilhar a imagem das namoradas, mulheres, filhas que lhes tiraram às escondidas enquanto elas dormiam, despidas como troféus de caça. Ou violadas e mortas, como neste caso.

Quantas mulheres estão a passar por isto agora mesmo, sem saberem? Hoje-em-dia sou a favor da castração de violadores e prisão para a vida. E se os põem fora é com a fotografia deles publicada. É tempo de a justiça deixar de se preocupar apenas com os direitos dos criminosos e começar a preocupar-se com as vítimas e os seus direitos.


Perguntas a que o post anterior responde

 

É preciso dizer as coisas 400 vezes