Se a maioria dos professores partilha as mesmas convicções políticas, isso é mau para a democracia
Por que razão as universidades precisam de diversidade ideológica.
Consideremos um par de sociedades.
Na primeira sociedade — chamemos-lhe Utopia — há sempre eleições livres e justas. São livres e justas no sentido de que todos os adultos têm direito a votar e todos os votos são contabilizados de forma correta. Não há intimidação de eleitores nem coisas do género. Há, contudo, uma particularidade. Toda a informação politicamente relevante (sobre a economia, as relações externas, etc.) tem de ser aprovada pelo Conselho de Informação antes de chegar ao público. O Conselho de Informação, por sua vez, é nomeado pelo Grande Líder, que, como se verifica, ganha sempre as eleições.
Será esta sociedade democraticamente legítima? Presumivelmente, não. Mas, se não for, isso demonstra que o ideal de democracia vai para além de simplesmente garantir que cada pessoa possa fazer a sua escolha na cabine de voto.
Consideremos, de forma semelhante, uma segunda sociedade. Tal como em Utopia, todos os adultos têm direito ao voto. Mas, nesta sociedade, os padres católicos controlam algo a que chamam a Guilda. A Guilda destina-se exclusivamente aos católicos — todos os seus membros têm de aceitar uma determinada interpretação restrita da doutrina, juntamente com uma série de afirmações associadas sobre justiça, autoridade clerical, questões sociais e outras matérias semelhantes. Poderá haver aqui e ali alguns heréticos que consigam entrar, mas apenas se assumirem publicamente o compromisso com a doutrina.
Ora, todos os futuros líderes da sociedade (sejam líderes empresariais, políticos ou jornalistas) têm de passar pelo menos quatro anos na Guilda, onde recebem formação dos padres. Além disso, os eleitores não têm qualquer controlo sobre a Guilda — os padres são escolhidos por outros padres.
Será isto uma verdadeira democracia? Mais uma vez, presumivelmente, não. O poder de moldar os futuros líderes e, consequentemente, as futuras políticas e opiniões está nas mãos da Guilda. Os eleitores são pouco mais do que um espetáculo secundário. Podem ter algum poder a curto prazo, mas, ao longo do tempo, será a Guilda a determinar a direção da sociedade.
A ideia de que o sufrágio universal não é suficiente para uma democracia genuína não é uma observação nova. Muitos intelectuais (incluindo John Rawls, T. M. Scanlon e Noam Chomsky) defenderam que a desigualdade de riqueza enfraquece a democracia, mesmo quando vigora o princípio de uma pessoa, um voto.
Diferentes autores explicam esta ideia de maneiras diferentes, mas o pensamento fundamental é que as grandes empresas e os mais ricos podem exercer uma influência desproporcionada sobre a política, ao definirem os termos do discurso público. Podem fazê-lo através de donativos a políticos ou através da propriedade de grandes empresas de comunicação social e jornais. Deste modo, o consentimento do público relativamente ao sistema pode ser «fabricado», para usar a expressão de Walter Lippmann.
A questão fundamental é que as empresas com fins lucrativos e os mais ricos não são responsáveis perante o público — o público não tem o poder de decidir onde e como eles gastam o seu dinheiro.
A ideia principal é simples: se eu puder decidir que informação tu consomes, então posso controlar a forma como pensas e aquilo em que pensas. Com efeito, é precisamente por isso que os regimes autoritários controlam rigorosamente os meios de comunicação social e a liberdade de expressão dentro dos seus territórios. O consentimento que daí resulta não será, portanto, um consentimento genuíno.
O que poucas pessoas percebem é que o argumento acima também se aplica ao sistema universitário moderno. A academia, tal como existe actualmente, apresenta três características que, tomadas em conjunto, põem em causa os ideais da democracia.
1. As universidades moldam as futuras elites
Qualquer pessoa que queira tornar-se jornalista, dirigente empresarial, advogado ou político tem, de facto, de passar pelo sistema universitário. À medida que os estudantes atravessam esse sistema, o corpo docente exerce uma forte influência sobre a forma como pensam acerca de questões sociais e políticas. Os professores têm uma grande margem de liberdade relativamente ao que ensinam e à forma como o ensinam.
É claro que as redes sociais, os jornais e os podcasts também influenciam a cultura. Mas os jornalistas, escritores e outros influenciadores intelectuais são, eles próprios, produtos do sistema universitário.
Além disso, ouvir um podcast no tempo livre é opcional. Fazer as leituras e os trabalhos exigidos numa disciplina não o é — pelo menos se o estudante quiser ser aprovado. Ideias ou afirmações repetidas ao longo de um semestre parecerão mais plausíveis à maioria dos estudantes que frequentam a disciplina.
Ora, muitas áreas de estudo, como a química ou a engenharia eletrotécnica, não lidam diretamente com questões sociais ou políticas. Mas mesmo os estudantes destas áreas têm de cumprir requisitos de formação geral, que são assegurados por departamentos como os de antropologia, sociologia ou várias disciplinas de studies, nas quais as questões sociais e políticas são, de facto, abordadas.
2. A academia é politicamente homogénea
Isto é particularmente evidente nas áreas que lidam com questões sociais e políticas. Na antropologia e na sociologia, por exemplo, a proporção de eleitores registados como democratas em relação aos republicanos ultrapassa 40 para 1 nas universidades de elite de liberal arts.
E não se trata apenas de filiação partidária: os inquéritos que perguntam diretamente pela ideologia política revelam padrões semelhantes. Os académicos moderados e os que se situam à direita do centro estão enormemente sub-representados na academia, quando comparados com a população em geral.
Crucialmente, existe uma vasta quantidade de evidências de que este desequilíbrio se deve, em parte significativa, à discriminação, sobretudo na fase de contratação. Um estudo sobre docentes de Direito, realizado entre 2001 e 2010, revelou que os professores libertários e conservadores acabavam em faculdades de Direito classificadas 12 ou 13 posições abaixo das que acolhiam os seus pares de esquerda/liberais com qualificações equivalentes. Quando questionados, muitos docentes admitem explicitamente que eles próprios (ou os seus colegas) discriminariam candidatos situados à direita do centro durante o processo de contratação.
Além disso, o desequilíbrio ideológico também afeta o ensino, como demonstram estudos sobre os programas das disciplinas. Tudo isto sugere que a academia se assemelha à Guilda dos Padres Católicos descrita anteriormente.
3. Os académicos não são democraticamente responsáveis
Os docentes universitários são contratados e avaliados por outros docentes. Devido ao princípio da liberdade académica, o público e os seus representantes eleitos têm muito pouco a dizer sobre a forma como as universidades funcionam. No entanto, espera-se que o público financie as universidades, directa ou indirectamente, de inúmeras formas — através dos orçamentos estaduais destinados às universidades públicas, de bolsas federais de investigação e de subsídios e bolsas para estudantes.
A influência da academia sobre o discurso público é profunda. Historiadores, sociólogos e filósofos moldam os seus estudantes ao influenciarem as ideias a que estes são expostos, a forma como enquadram as questões sociais e, desde logo, os problemas que consideram importantes.
Quando pensamos no discurso público, pensamos sobretudo em políticos, jornalistas, comentadores e influenciadores. Mas os termos em que estes debates decorrem — as chamadas «janelas de Overton» em que se movimentam — são condicionados pela educação.»
Talvez seja precisamente porque o poder da academia, que não é democraticamente responsabilizado, permanece oculto que os cidadãos das sociedades modernas o toleram na medida em que o fazem.
Poderá argumentar-se que o argumento apresentado acima é injusto. Os estudantes têm liberdade de escolha — podem frequentar Stanford ou Yale, Michigan ou UCLA, e assim por diante. Quando se trata de ideologia, porém, essa escolha é ilusória. Seria uma coisa se, por exemplo, o departamento de sociologia fosse conservador em Stanford, socialista em Yale, liberal de esquerda em Michigan, libertário na UCLA, e assim sucessivamente.
Mas, embora estas sejam instituições nominalmente distintas, todas elas tendem para o mesmo lado. Funcionam como se fossem uma única instituição. E sair desse sistema tem custos elevados: se alguém quiser integrar as fileiras das elites, tem de frequentar a universidade.
Se quisermos restaurar uma verdadeira democracia liberal, temos de encontrar uma forma de construir uma sólida diversidade de perspetivas dentro da academia. Isto garantirá que os partidários de uma determinada ideologia não disponham de um poder concentrado e sem controlo. É também crucial para a procura da verdade.
Como John Stuart Mill sublinhou há um século e meio, em Sobre a Liberdade, o conhecimento — sobretudo em matérias morais, sociais e políticas — depende do que poderíamos chamar «fricção epistémica». As ideias têm de ser testadas perante aqueles que discordam delas.
Garantir a legitimidade democrática exigirá uma reavaliação cuidadosa da finalidade e da estrutura do sistema universitário. A questão central é o poder sem controlo exercido por um corpo docente ideologicamente homogéneo. Medidas concretas destinadas a garantir que uma pluralidade de pontos de vista seja bem-vinda na academia contribuirão muito para limitar esse poder e restaurar a confiança do público no sistema.
Além disso, se eu tiver razão, a própria democracia liberal está em jogo.
Hrishikesh Joshi
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