Porque é que os grandes laboratórios de IA estão a contratar cada vez mais filósofosExiste a convicção de que o treino da inteligência artificial poderá beneficiar de algumas das lições milenares da filosofia.
A ascensão da era da inteligência artificial está a alterar as expectativas em relação às carreiras profissionais. Se anteriormente havia receios de que as áreas das artes e das humanidades fossem as mais afetadas, a tendência parece ter mudado.
Segundo,
The Economist, as empresas de inteligência artificial estão a recrutar filósofos de forma activa, por vezes ainda antes de estes concluírem os seus cursos. Este aumento da procura por filósofos resulta de um reconhecimento mais amplo de que a filosofia oferece ferramentas úteis para o desenvolvimento da IA. Existe a convicção de que o treino da inteligência artificial poderá beneficiar de algumas das lições transmitidas pela tradição filosófica ao longo dos séculos.
Por exemplo, o método socrático, desenvolvido na Grécia Antiga e descrito por Platão, incentiva o questionamento estruturado como forma de testar ideias e revelar contradições. De acordo com,
The Economist, o investigador Jörg Noller defende que esta abordagem pode ajudar a tornar os sistemas de IA menos complacentes e mais orientados para a procura da verdade, em vez de procurarem apenas agradar aos utilizadores.
Outra ideia semelhante é a da «ignorância socrática». Na
Apologia de Platão, Sócrates afirma que a verdadeira sabedoria consiste em reconhecer o quão pouco se sabe. Especialistas consideram que incorporar esta humildade nos sistemas de IA poderá reduzir a sua excessiva confiança.
Iason Gabriel, filósofo sénior da Google
DeepMind, um laboratório de IA sediado em Londres, atribuiu a esta linha de trabalho parte da diminuição generalizada das chamadas «alucinações» nos sistemas de inteligência artificial.
A filosofia pode também influenciar a forma como os sistemas de IA se comportam. Thomas Powers, da Universidade de Delaware, defende que, se um assistente jurídico baseado em IA for treinado com os escritos de John Locke, poderá atribuir uma importância particularmente elevada aos direitos de propriedade enquanto elemento da liberdade política.
A reportagem acrescenta que alguns programadores permitem mesmo que os utilizadores ajustem esses valores. Por exemplo, a série de modelos «Granite», da IBM, empresa norte-americana do sector da informática, inclui definições que permitem às organizações adaptar as respostas dos modelos para refletirem diferentes filosofias empresariais.
Ao mesmo tempo, a filosofia pode igualmente contribuir para reforçar a segurança das ferramentas de IA. Para evitar comportamentos nocivos, como a manipulação, o engano ou a chantagem, alguns sistemas recorrem ao chamado «constitucionalismo da IA», baseado em princípios morais e jurídicos. A Anthropic desenvolveu constituições para os seus modelos Claude recorrendo a ideias de Immanuel Kant, aos termos de serviço da Apple e à Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Existe também um debate sobre quais os princípios morais que devem orientar os sistemas de IA. Segundo,
The Economist, uma das principais abordagens é a deontologia, associada a Immanuel Kant. Esta corrente defende que a IA deve obedecer a regras rigorosas, como não mentir, não coagir pessoas e não utilizar os seres humanos apenas como instrumentos, mesmo que a violação dessas regras pudesse conduzir a um resultado considerado «melhor». Alguns laboratórios de IA, como a Anthropic, incorporam este tipo de princípios nos seus sistemas.
«Estas regras podem tornar o comportamento da IA mais consistente… o que constitui uma vantagem para a implementação de robôs em casas e espaços públicos», afirmou o Dr. Powers à
The Economist.
A segunda grande abordagem ética aplicada à IA é o «consequencialismo», que privilegia a escolha da acção que produza os melhores resultados globais. Segundo a reportagem, esta perspectiva é utilizada em sistemas como o ChatGPT e o Gemini.
Embora seja provável que, nos próximos anos, os modelos de IA venham a ser cada vez mais ajustados de acordo com estas correntes filosóficas, alguns críticos alertam para o risco da «desqualificação moral» (
moral deskilling), em que as pessoas perdem gradualmente a capacidade de tomar decisões éticas por delegarem essa responsabilidade na inteligência artificial.
«A moralidade é historicamente instável, culturalmente variável, estrategicamente manipulável e, muitas vezes, apenas compreensível em retrospectiva», argumentou Roman Yampolskiy, teórico da inteligência artificial na Universidade de Louisville, salientando que estas características tornam extremamente difícil formalizar a tomada de decisões éticas em sistemas de IA.
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