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July 08, 2026

Exames - tudo parece amador e imprudente




Muitas empresas metidas no processo, sendo a principal uma micro-startup. Vão sendo chamadas empresas para corrigir erros de outras que foram chamadas anteriormente, que não foram capazes de lidar com o volume gargantuesco da missão. Como é possível garantir sigilo e rigor no meio desta confusão? Há muita coisa a corrigir neste processo. Muita mesmo. E convinha que isso fosse feito por alguém competente e interessado na qualidade da escola pública.


Plataforma de classificação dos exames foi escolhida em 2017: programadores “eram excepcionais e muito rápidos”

O nome Blat foi revelado pelo ministro. Foi quem fez uma das plataformas que têm dado problemas. Ex-presidente do Iave explica porque a escolheu em 2017. Lista de clientes retirada do site da empresa.

"Se nos dissessem que iríamos nascer num quarto da casa dos pais dos nossos fundadores, a trabalhar remotamente, e hoje em dia teríamos o nosso próprio estúdio, com uma equipa que duplicaria a cada ano e mais de 50 clientes, não teríamos acreditado. Mas reza a história que foi exactamente isso que aconteceu." Assim começava até esta terça-feira à tarde a apresentação da Blat Studio, no seu site. Trata-se de uma empresa que tem como propósito "reinventar as bases do marketing digital", que explicava que tem entre os seus clientes partidos políticos (PS e PSD), empresas como a Navigator ou o Santander, universidades, Parlamento Europeu e também o Instituto de Avaliação Educativa (Iave) — organismo que deu lugar no ano passado ao Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Edqua), que coordena os exames nacionais. Ao final da tarde, esta informação tinha sido retirada do site.

A Blat foi uma de várias empresas que desenvolveram soluções ou forneceram serviços para a digitalização da classificação das provas do ensino básico e secundário — de que tanto se tem falado nas últimas semanas. Tal como o PÚBLICO noticiou no sábado, só desde 2023 foram publicados no Portal Base (que agrega informação sobre contratos públicos) 16 contratos relacionados com a avaliação digital, no valor de mais de sete milhões de euros, a que se soma mais um, publicado nesta segunda-feira, de 1,3 milhões.

Com a estreia, este ano, da classificação digital das provas do secundário, que também contam para o acesso ao ensino superior, e as falhas sucessivas que marcaram o início da classificação (que devia ter começado a 23 de Junho), o tema ganhou relevância. Mas o ministério de Fernando Alexandre foi sempre recusando responder às perguntas sobre que entidades estavam envolvidas no novo sistema e quais as falhas em concreto que levaram àquilo que tem sido descrito como "o caos nos exames".

E assim foi, até esta segunda-feira. Numa visita ao centro de digitalização, para a qual foram convidados jornalistas, o ministro Fernando Alexandre e o secretário de Estado Adjunto e da Educação Alexandre Homem Cristo explicaram, finalmente, que nos últimos dias se registaram problemas em duas plataformas distintas: uma do próprio Eduqa; e outra, desenvolvida por uma empresa que colabora com o ministério "desde 2018".

A primeira plataforma é aquela que "recebe" as provas já digitalizadas, sendo estas "partidas" item a item (resposta a resposta). Esses itens são depois "carregados" para uma outra plataforma, na qual são distribuídos pelos professores classificadores e classificados.

Na plataforma que o ministério diz ser do Eduqa, houve "questões", como "provas mal digitalizadas". Na segunda, externa, houve “questões de programação”, acrescentaram ministro e secretário de Estado, quando questionados sobre os erros que continuavam a ser reportados, 13 dias passados desde o início do período de classificação das provas. Depois de alguma insistência, o ministro disse que a empresa que desenvolveu a segunda plataforma se chamava Blat. O secretário de Estado acrescentou: "Blat Studios. Acho que é assim o nome, pelo menos do ponto de vista formal dos seus registos."

Uma micro-empresa.

A primeira adjudicação é de 2017: segundo o Portal Base, o ajuste directo, no valor de 30.375 euros, foi assinado com a então Blatstudio — MAF Serviços, Lda. Objecto do contrato: "Construção do módulo de classificação de provas práticas e upgrade à classificação de respostas e administração do SCOI (Sistema de Classificação Online do Iave)". O primeiro teste-piloto da plataforma aconteceu em 2018, com uma amostra de provas de aferição feitas digitalmente por alunos do 8.º ano, recorda ao PÚBLICO Helder Sousa, ex-presidente do Iave, que saiu em 2019 do instituto. "Correu bem, o sistema foi muito apreciado pelos professores, foi sendo actualizado e chegou a ter uma versão 4."

"O SCOI era uma plataforma exclusivamente para classificação" de provas feitas pelos alunos digitalmente, continua Helder Sousa, que o PÚBLICO contactou com o objectivo de perceber, desde logo, se se trata da mesma plataforma em uso este ano.

O ex-presidente do Iave diz que, em rigor, não sabe, uma vez que há muito deixou o Iave. Além de que essa plataforma foi pensada para a classificação de provas digitais, e as do secundário são respondidas em papel e só posteriormente digitalizadas. "Mas a plataforma de classificação disponibiliza imagens das respostas, por isso deve aceitar imagens provindas quer de uma plataforma digital de testes, realizados nesse formato, ou de uma fonte que gere imagens digitalizadas a partir do papel."

Certo é que o ex-dirigente defende a escolha que o Iave fez na altura: "[A Blat] era uma micro-empresa, uma startup, com pessoas com muita qualidade, com programadores excepcionais, muito bons, muito rápidos e com grande capacidade de resposta." Além disso, prestavam serviços a um preço abaixo do praticado a nível internacional.

O SCOI previa uma série de funcionalidades, como saber em tempo real a percentagem de itens classificados, ou permitir que os supervisores dos classificadores pudessem comunicar com cada professor do seu grupo, como se lê no contrato então assinado pelo IAVE.

O sistema foi testado noutros projectos e teve sempre bom feedback de todos os envolvidos, diz Helder Sousa. "Os professores classificadores reduziram bastante o seu tempo de trabalho, não precisavam andar a preencher folhas Excel, os itens podiam ser reclassificados por outros professores e se houvesse uma grande disparidade de resultados podia entrar um terceiro professor. Uma vez classificados os itens desapareciam da área do professor, mas no dia seguinte podiam aparecer mais para classificar, os professores sabiam que tinham de ir monitorizando a sua área. É um pouco como um médico nas urgências — se está de serviço, pode ser chamado", explica. (não, não é. Um médico na urgência, quando chega a hora de sair, sai e não lhe enviam doentes para casa. Também não tem prazo fixo para entregar o serviço, digamos assim, tanto pode levar um dia a tratar um doente como dez e o doente até pode falecer. Depende do doente e da sua doença. Um classificador, supondo que trabalha das 9 da manhã até às 6 da tarde, quando sai do trabalho, não sabe que lhe enviaram mais mais 80 testes para classificar, dentro do prazo fixo de entrega, que não é alargado por causa desse acréscimo de trabalho. Logo, o ME dá como certo que o professor se mantém 24 horas por dia ao serviço, 7 dias por semana, não vá caírem mais umas dezenas de testes na véspera de ter de os entregar, avaliados e classificados)

"Há enormes vantagens no sistema de avaliação digital", defende. "Obviamente que é lamentável o que está a acontecer este ano, mas também acredito que são erros de crescimento e que vão servir para aprender e melhorar no futuro", diz Helder Sousa.
Salão de cabeleireiro e design gráfico

A Blatstudio — MAF Serviços, de 2017, que aparece como tendo um código de actividade económica que inclui áreas tão diversas como “salões de cabeleireiro, instituto de beleza e estética, serviços de design gráfico, edição de SIM,branding, desenvolvimento de produto” é a Blat Creative Powerhouse, Lda, com quem o Iave assinou, a 13 de Abril de 2023, um novo contrato para "actualização do sistema de classificação online do Iave — SCOI"? Nem a Blat Studio, nem o ministério deram respostas. Os números de identificação fiscal de uma e de outra empresa não são iguais.

A Blat Creative Powerhouse, Lda detém hoje a Blat Studio. Com sede em Lisboa, nasceu há seis anos, tem actividade económica nas áreas do "design, comunicação (gestão de redes sociais), desenvolvimento de actividades tecnológicas, produção áudio, produção vídeo, consultoria (em comunicação e desenvolvimento)". Emprega 14 pessoas. O valor do contrato com o Iave em 2023, por ajuste directo, e já com Luís Santos como presidente, é de 19.080 euros.

​Explicava o caderno de encargos de 2023: "Considerando a massificação da classificação das provas de aferição a realizar em 2023 e o piloto das provas finais é fundamental fazer uma actualização geral do SCOI a ser implementada em Abril de 2023."

"Revisão e actualização da utilização de certificados de segurança; ligação da autenticação à plataforma de classificação e supervisão do IAVE; ligação ao autenticação.gov", eram alguns dos requisitos técnicos a actualizar ou a acrescentar.
8 milhões de euros em três anos

A digitalização da avaliação externa foi uma das reformas previstas no âmbito do Programa de Recuperação e Resiliência (2021). Em 2023, quando João Costa era ministro da Educação, foram pela primeira vez realizadas provas de aferição no 2.º, 5.º e 8.º anos em formato digital.

Em 2024, as provas finais do 9.º ano — ​que, ao contrário das de aferição, valem 30% da nota final da disciplina — deveriam ter sido feitas também em formato digital. Mas o novo Governo decidiu adiar, por entender que não estavam reunidas as condições para que fossem feitas nesse formato. Em 2025, avançaram as provas digitais no 9.º e as provas Moda (que vieram substituir as de aferição) também digitais. Em 2026 avançou a classificação digital de 350 mil provas de mais de 160 mil alunos do 11.º e 12.º anos.

De 2023 até agora, o Iave assinou 17 contratos directamente ligados à avaliação externa, para serviços de consultadoria técnico-pedagógica; plataformas; serviços cloud; equipamentos digitalizadores, no montante de 8,4 milhões de euros (a que se soma ainda o IVA). O maior foi assinado com a empresa Axianseu II Digital Consulting SA, que pertence ao grupo francês Vinci, para que seja desenvolvida uma Plataforma de Gestão do Processo de Aplicação das Provas de Avaliação Externa do Ensino Básico e Secundário, chamada GAEBS, que deverá "substituir todas as plataformas de gestão das provas de avaliação externa actualmente existentes". Tem um valor de perto de 1,5 milhões de euros.

O mais recente foi publicado nesta segunda-feira, no valor de quase 1,3 milhões de euros. Após um concurso internacional foi adjudicado à FSAS Technologies S.L. — Portugal (empresa da multinacional japonesa Fujitsu) serviços que incluem uma "solução de segurança" que deve garantir "o sigilo total relativo às provas e restantes processos e documentos conexos" relacionados com a desmaterialização da avaliação externa.

Helder Sousa mantém-se um defensor da digitalização. Mas nota que uma coisa é classificar digitalmente provas que foram respondidas também digitalmente pelos alunos (era essa a ideia do SCOI); e outra é classificar digitalmente provas que foram feitas em papel. "Digitalizar milhares de provas em papel é kafkiano e aumenta a margem de erro. Mas acredito que se vai resolver. Foi boa a decisão do ministro anunciar ontem [segunda-feira] que os alunos poderão no final consultar as suas provas, é importante a transparência. E não vejo nenhuma razão para que haja alarme social. Se for preciso ajustar dois ou três dias o concurso nacional de acesso ao ensino superior para garantir que tudo está bem, não vejo drama nenhum."

Nem o ministério, nem o Eduqa, nem a Blat responderam às perguntas enviadas por escrito pelo PÚBLICO.

July 07, 2026

Sou só eu que vejo aqui um certo caos?

 

Não sei, mas na escolas, os pacotes de exames estão guardados no cofre, selados. São entregues aos classificadores, selados. Antes do classificador os devolver ao agrupamento de exames são conferidos, um a um, entre ambos que assinam um termo de responsabilidade pelos exames, entregues e recebidos. Aqui vejo caixotes com pacotes de exames abertos, uns no chão outros em cadeiras, ao molho, pessoas a mexer em pacotes abertos. Dá ideia de desorganização e amadorismo. Ao menos têm seguranças a guardar o dito armazém?







Exames: demasiados erros para serem 'meros erros'

 


A quantidade de erros e falhas no processo é demasiado grande para que não tirem ilações quanto à empresa a quem se pagou para pôr este processo em funcionamento, dado que quase nada funciona como devia. Isto sem ter em conta questões pedagógicas como um classificador já ter classificado 80 e tal questões e sem aviso caírem-lhe em cima mais 60 e tal. Como é possível planificar o trabalho para fazê-lo bem e com rigor? Então a pessoa está presa ao computador 24 horas por dia, não vá caírem mais 60 respostas para classificar e depois mais e mais até ao dia da entrega? Os 'informáticos' que fazem estas 'brincadeiras' claramente não têm a mínima noção do que implica classificar respostas de exames.

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António Carlos Cortez, que tem denunciado a situação, reportou, há uns dias, os seguintes casos de colegas seus:

"Passei de 36 para 162 respostas para classificar do exame de Português. Deparei-me com uma situação insólita: numa resposta ao Grupo III, falta a primeira folha e vem só a folha de continuação”

"Literatura Portuguesa... classifiquei ontem 86 respostas. Qd atualizei, apareceram mais 2. Total 88. No entanto, as respostas já lá não estão. Quando os critérios de classificação definitivos forem divulgados, se houver alterações, onde estão as respostas?"

"O maior problema que deteto é a ausência de folhas de continuação, deixando raciocínios e frases a meio. Os professores classificadores já receiam de que em provas que não é tão facilmente detetável também possa acontecer, pois a própria estrutura da prova remete para uma continuação que não existe. Temos que estar sempre a reportar estes casos e pode haver situações em que isso aconteça e o professor não o consiga detetar, com grave prejuízo para os alunos. Esta situação já foi reportada mais que uma vez, sem obter esclarecimentos! Acresce que não cabe ao professor classificador averiguar se as folhas de continuação estão em falta ou não, fazemos o nosso trabalho o melhor que podemos, para o bem dos nossos alunos, sendo esta situação, no mínimo, deplorável."

"Respostas de Matemática A sem a folha de continuação anexada. E agora, como classifico?"

'Desde 2.ª feira tenho acesso a provas de Economia A. Ontem recebi nova tranche de provas na plataforma (quase duplicou) sem respeitar o planeamento do meu trabalho. HOJE (03/07) ainda não consegui entrar na plataforma – tem dado erro a manhã toda quando tento autenticar."

"Não vou validar/submeter provas que não foram classificadas por mim.”

“(Português) Tenho cento e tal itens para corrigir, mas o mais fantástico é que das 36 questões que tinha classificadas só me aparecem 16. As outras nem sei se desapareceram! Precisava de revê-las e nada!!!! Também recebi provas já classificadas."

"Ao 3.º dia de classificação, entro na plataforma e está tudo vazio. Nada na supervisão e, quando clico nos itens de classificação, entro noutra página do IAVE, que simplesmente fica parada no ENTRAR. Não tenho qualquer item ou informação para trabalhar."

"Exame de História A. O meu testemunho do que aconteceu às 10.30. Estava a classificar e, de repente, desapareceu tudo. Já não tenho itens. Espero que isto queira dizer que estão a pôr as folhas de continuação em falta."

Tenho 58 provas classificadas, das quais 9 entretanto desapareceram. Tenho 8 provas sem folhas de continuação (as respostas estão incompletas). Situação reportada, mas sem resposta."

(Testemunho de classificador dos Açores) "Uma semana depois do prazo previsto, as respostas aos itens continuam a não estar acessíveis para classificar. Agora, o prazo foi prolongado em três dias. Mas, a verdade é que o processo de classificação ainda não começou, em algumas disciplinas. É uma trapalhada de tal ordem que, se não fosse tão grave, seria uma anedota!"

"Sou professora classificadora da Prova de Física e Química A. Estou desde 01/07/2026 a tentar constantemente, aceder à plataforma, mas sem conseguir.'

"Atribuíram-me 20 itens / composições do exame de Inglês para classificar, mas 8 estão claramente incompletos, pois as frases terminam a meio e não há folhas de continuação."

"Continuo sem conseguir aceder à plataforma. Nas minhas relações próximas, ninguém conseguiu entrar. Todos estamos a tentar desde 25/06, dia previsto para se iniciar a classificação das provas de Biologia e Geologia."

"1- Em 20 provas atribuídas, 6 carecem de folha de continuação.

2- Sistemática impossibilidade de acesso a sala de supervisão, fóruns / mensagens, não obstante ter seguido os passos indicados várias vezes e usado diferentes motores de busca.'

"A grande maioria das provas não têm folha de continuação, no item 2 grupo 2, embora se perceba que as respostas dos alunos continuam. No item 3 do grupo 4, uma prova não tem folha de continuação."

"Sou classificador o exame de Filosofia. Ao entrar na plataforma, a página fica bloqueada e completamente branca."

"Tenho mais 63 questões referentes a 2 itens diferentes do exame de Economia A. Já tinha classificado 83. Até quando vou continuar a receber questões para classificar?"

"No último lote recebido no dia 2 de Julho, tenho itens em que falta claramente a folha de continuação. Após horas de sucessivas alterações no número de itens, itens de outros classificadores a aparecerem na minha conta, o sistema parecia ter estabilizado. Na verdade, mantém-se este problema já reportado por muitos colegas e que, agora, também afeta os meus itens. Feedback sobre como proceder, nenhum."

"Hoje, recebi os itens de História A para classificar. No entanto, em 13 respostas faltam as folhas de continuação.”


July 06, 2026

Exames: uma pergunta

 

Alunos vão ter acesso aos exames nacionais classificados sem terem de pedir a sua consulta

Ministério vai permitir aos alunos o acesso gratuito e automático a uma cópia digital dos exames que fizeram, de modo a reforçar a transparência sobre este processo que tem tido vários problemas.
Cristiana Faria Moreira - Público 
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Se a intenção é tornar todo o processo digital, porque é que os alunos não fazem o exame num computador, acedendo a uma plataforma digital, como aconteceu com os exames do 9º ano? Evitava-se a confusão de digitalizar provas. Fazem o exame numa plataforma, cada um com a sua senha, etc. Isso é difícil de fazer? Não há computadores para todos?
A mim agrada-me a ideia de não ter de levar-se os pacotes com os exames para casa. Por acaso nunca aconteceu nenhum percalço mas neste trinta e tal anos a classificar exames, de cada vez que saia da escola com um pacote de exames, passava-me pela cabeça 20 situações desde acontecer-me qualquer coisa a caminho de casa e perderem-se os exames a acontecer qualquer coisa em casa e inutilizar exames. Enquanto não os entregava não estava descansada.
Nesta confusão deste ano, o pior, quanto a mim, foi a situação de um professor entrar com as suas credenciais e ir parar à conta de outro. Isso é um nível de incompetência informática gravíssima. Imagine-se isto a acontecer com contas bancárias...

July 05, 2026

Sherlock Holmes e os exames nacionais de 2026: novos episódios

 

Professores acedem à plataforma com as suas credenciais e quando dão por isso estão na conta de outro professor e não conseguem aceder à sua.

Professores corrigem 36 respostas, gravam-nas e depois só aparecerem 26 respostas e ninguém é capaz de perceber o que aconteceu e onde estão as outras dez que desapareceram.

Uma situação que acontece com esta nova modalidade de exames é os alunos perderem completamente o controlo sobre os próprios testes. Vejamos, quando os testes eram corrigidos na totalidade por um professor, esse professor era responsável por essa avaliação. Agora que cada teste é avaliado e classificado por 5 ou 6 ou 10 professores, não há ninguém para responsabilizar. Para os professores isto é bom porque baixa drasticamente o número de reapreciações - não este ano, pois dadas estas grossens barrakans vai haver um tsunami de pedidos de reapreciação. Penso.

Agora duas questões: 

1- porque é que o ME se recusa a dizer quem é a empresa responsável por todo este processo de digitalização que nem sequer sabe como não pôr umas pessoas a entrar na conta de outras pessoas como se fosse a sua? Espero que haja uma auditoria a todos este processo para se saber de onde veio tamanha incompetência e evitar a sua continuação nos próximos exames;

2 - porque é que o ME desmantelou completamente um sistema que funcionava bem e substituiu por outro que funciona tão mal? Não foram feitos testes usando o que aconteceu no ano passado no exame experimental de Filosofia? Aliás, o que aconteceu nesse exame? Porque é que não é público?  


July 03, 2026

Sr. ministro: já considerou a hipótese de incompetência grosseira das instâncias que organizam os exames?


Primeiro foi o caso do exame de Português ter uma pergunta copiada de um livro de resumos - uma vergonha... depois o modo como decorre a classificação de exames. A Fenprof disponibiliza uma minuta para salvaguarda do professor classificador. Pela minuta e pelas recomendações de guardar todas as comunicações, enviar tudo com o email da salvaguarda de responsabilidade, etc. percebe-se a dimensão dos erros (ou incompetência) da equipa que ficou responsável pelo processo: desde imagens ilegíveis a falta de folhas nas respostas, passando por estar o tempo da classificação a correr e ainda não haver critérios de resposta fixos, há de tudo um pouco. 

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https://www.fenprof.pt/

Através do uso da minuta, fica expressamente salvaguardado que qualquer erro, omissão ou eventual prejuízo que venha a ocorrer no resultado da classificação não pode, nas circunstâncias que marcaram o processo, ser imputado ao professor classificador, por resultar de fatores totalmente alheios à sua atuação e sobre os quais não teve controlo.

É fundamental que este documento seja enviado aos destinatários identificados — JNE, EduQA e MECI — no momento da entrega ou do envio das classificações, acompanhado da documentação comprovativa das dificuldades enfrentadas: ordens de serviço, mensagens de correio eletrónico, capturas de ecrã de acessos falhados, registos de indisponibilidade das plataformas e quaisquer outros elementos de prova considerados relevantes.

Esta iniciativa constitui um legítimo ato de protesto e, simultaneamente, uma exigência de respeito pelos professores que, mesmo perante condições de trabalho impróprias, continuam a desempenhar as suas funções com elevado sentido de responsabilidade e dedicação.

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Ex.

mo Senhor

Presidente do Conselho Diretivo do EduQA

C. c.: Ministro da Educação

Júri Nacional de Exames

Nome completo, docente contratado / do quadro de zona pedagógica / do quadro de agrupamento de escolas / do quadro da escola do grupo de recrutamento _____, em exercício de funções docentes no Agrupamento de Escolas de / na Escola. ____________, residente em ______________________, tendo tomado conhecimento, através de comunicação eletrónica datada de __/__/2026, da convocatória para a correção da 1.ª fase do Exame Nacional de ____________, código ___, vem, pelo presente, comunicar as condições em que as respostas lhe foram disponibilizadas e a forma como decorreu a tarefa de classificação, nos termos e com os fundamentos que se passam a identificar:

1. O/A declarante deu cumprimento à ordem que lhe foi transmitida pela Direção do Agrupamento de Escolas / Escola supramencionada, não lhe podendo ser imputada qualquer responsabilidade por prejuízo causado ao interesse público, uma vez que, no universo das ____ respostas que lhe foram atribuídas para correção através da Plataforma de Classificação e Supervisão (PCS) do JNE/EduQA, se verificaram as seguintes irregularidades, alheias à sua vontade e ao seu controlo:

a) Ao/à declarante foram disponibilizadas ___ páginas com baixa resolução de imagem, o que impediu a devida legibilidade das respostas;

b) Em ___ páginas atribuídas, ___ respostas estavam incompletas, não se fazendo acompanhar das respetivas folhas de continuação;

c) Aquando da receção das respostas para correção, decorria o prazo de esclarecimentos/concertação dos critérios de classificação, pelo que foi necessário aguardar pelo dia __ de julho, data da publicitação da versão definitiva dos critérios de avaliação;

d) À data da receção das respostas para correção, na área destinada na plataforma PCS para a classificação digital, os critérios gerais de avaliação não estavam disponíveis, impedindo o conveniente acesso aos níveis de desempenho e respetivas pontuações definidas para cada um dos parâmetros a classificar;

e) Não se mostram reunidas, quanto ao professor declarante as condições e requisitos previstos no artigo 3.º do Despacho n.º 18060/2010, de 2 de dezembro, para o exercício da função de classificador do exame em causa;

f) O tempo de correção legalmente previsto não foi respeitado, encontrando-se comprometidos quer o tempo efetivamente disponível, quer a celeridade exigível ao processo de classificação; 
g) (…)

2. Assim, a impossibilidade de classificação, a dificuldade de organização dos exames, ou mesmo a inviabilidade de correção total ou parcial dos exames, ocorreram por factos alheios ao/à declarante e pelos motivos acima identificados, não tendo este contribuído, por ação ou omissão, para tal resultado.

3. Em face do exposto, não se mostravam asseguradas, no caso concreto, as condições materiais e funcionais necessárias ao adequado exercício da função de classificador, comprometendo-se, por isso, a regularidade, a celeridade e a eficiente exequibilidade da tarefa de classificação.

4. Com efeito, nos termos do artigo 177.º, n.ºs 1 e 2, da LTFP, qualquer trabalhador que cumpra ordens ou instruções de serviço fica excluído de responsabilidade pelas consequências da respetiva execução quando, considerando-as ilegais, irregulares ou materialmente inexequíveis, delas tenha reclamado ou exigido a correspondente confirmação por escrito, como ora sucedeu.

5. No mesmo sentido dispõe o artigo 271.º da CRP, segundo o qual a responsabilidade pelas ordens executadas recai sobre quem as emite, sempre que o executante haja reclamado ou exigido a sua transmissão por escrito.

6. Assim, não se encontravam salvaguardadas, no presente caso, as condições indispensáveis ao cabal cumprimento da tarefa de classificação dos exames, nem pode ser imputada ao/à declarante qualquer responsabilidade, disciplinar ou outra, por erro, omissão ou prejuízo que venham a ocorrer no resultado da classificação, por se tratar de factos estranhos à sua atuação.

7. De facto, as circunstâncias, totalmente alheias à atuação do/da declarante, comprometeram, total ou parcialmente, a possibilidade de proceder à classificação dosexames em condições de rigor, o que ocorreu pelos motivos acima identificados, não tendo o professor contribuído para tal.

Nestes termos, vem o/a declarante dar conhecimento a V. Ex.ª de tudo quanto antecede, para os efeitos tidos por convenientes, designadamente para salvaguarda da sua situação de classificador e da correta apreciação da situação acima expendida.

Local, data

O/A declarante

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July 01, 2026

O ME tem de fazer marcha-atrás e corrigir os erros destes exames

 

Compreendemos que haja erros -até certo ponto, porque alguns eram evitáveis, outros previsíveis- o que não se compreende é a persistência no erro.

Hoje começa a classificação do exame de Filosofia, que só deve estar disponível na plataforma lá para o fim da tarde e, como sabemos pelo que aconteceu com os outros, vai cair às pinguinhas - se funcionar! Como o exame é para estar classificado e entregue a dia 10 de Julho, significa que os classificadores têm 8 dias, a contar com o Sábado e o Domingo, para fazer o trabalho. Mesmo que não haja dificuldade em aceder à plataforma (tem havido) e mesmo que não haja complicações com os exames (tem havido: faltam folhas, vêm marcas que impedem a leitura, etc.) é muito pouco tempo para ler o manual de instruções, ler o manual de instalação, navegar na plataforma para perceber como funciona, dado que é a 1ª vez e o ME não se deu ao trabalho de enviar um link a meio do ano para podermos explorar a plataforma e chegar a esta altura familiarizados - não, é tudo à trouxe-mouxe.

Acresce que o classificador agora, neste formato, nem sequer sabe quantas respostas vai classificar (vão aparecendo repostas), de maneira que não pode organizar a sua vida. Mas assumem que as pessoas podem estar 10 horas por dia em frente ao computador? A maioria dos professores classificadores são pessoas com mais de 50 ou 55 anos, pessoas com doenças crónicas incapacitantes que implicam exames médicos constantes e outras rotinas de saúde, muitas marcadas para esta altura do ano para evitar faltar às aulas. Por exemplo, no que me toca, amanhã tenho uma sessão de fisioterapia e para a semana mais duas - apesar de durarem 1.30m, entre o chegar e depois o voltar para casa, ocupam toda a manhã - o que perfaz três manhãs. Esta sexta tenho um exame médico em Lisboa e para a semana outro: são mais duas manhãs em que só regresso lá para as 2 da tarde. Ao todo são quase 3 dias a subtrair aos 8 dias. Sobram 5 dias. Ninguém pensa nestas coisas? Não sabem que os professores são uma classe profissional envelhecida e com problemas de saúde crónicos?

Depois, repare-se: quem está a classificar os exames realizados a dia 14 de Junho tem quase um mês para o trabalho e quem vai classificar os exames de ontem ou de hoje tem, na melhor das hipóteses, se tudo funcionar excelentemente e a pessoa puder passar o tempo todo em frente ao computador sem nenhum impedimento, uns 7 dias para fazer todo o trabalho.

Quantas páginas classificamos? Não sei... se derem a cada um dois items para classificar, cada um com um página (vamos ser económicos) de 70 exames, são 140 páginas - mesmo que sejam 100. A classificação não se resume a ler e atirar uma nota, é necessário partir a nota de cada resposta em várias classificações correspondentes a três, quatro ou cinco parâmetros de avaliação desde o conteúdo até à escrita passando pela argumentação. A letra de muitos alunos é muito difícil de ler porque já ninguém educa os alunos para escreverem uma letra legível e eles alegam que escrever como lhes apetece é o seu direito 'a ser', como dizem os novos pedagogos da treta.

A ideia de dar a cada professor um ou dois items para classificar, segundo o ME tem o objectivo de "promover maior consistência e fiabilidade, permitindo maior especialização dos classificadores e menos variabilidade." Isto é cómico, pensar que um trabalho repetitivo ad nauseam (ler 70 páginas (ou 40) sobre o mesmo assunto a dizer a mesma coisa, com os mesmo erros) onde não é possível apreciar o pensamento do aluno como um todo e onde o próprio aluno não pode evidenciar a qualidade do seu pensamento (metade do teste são escolhas múltiplas) traz mais objectividade à avaliação. Não traz.

A avaliação tem sempre subjectividade, é impossível acabar com ela. Mesmo que um teste fosse todo constituído por questões de escolha múltipla e depois lido por uma máquina, o próprio formato das questões criaria logo a diferença, pois os bons alunos, que têm domínio das matérias, seriam -como são já, em parte- impedidos de mostrar o seu domínio dos conteúdos e das técnicas. Um mau aluno poderia passar esse exame, como já acontece por causa das escolhas múltiplas e um bom aluno com um pensamento complexo, poderia não o passar. As escolhas múltiplas, elas mesmas, são muitas vezes ambíguas e subjectivas. Aliás, um aluno que compre os livros de preparação para exame onde muitos professores vão buscar questões, por preguiça, têm logo vantagem sobre os outros, mas isso parece não ter preocupado o ME.

Portanto, quanto a mim, a questão que deve pôr-se é: estamos dispostos a perder o valor pedagógico das avaliações e a diferenciar a qualidade dos alunos, para as classificações serem totalmente invariáveis ou é preferível assumir alguma subjectividade (que aliás existe sempre) para não desvirtuar o fito pedagógico do processo de avaliação' 

Seja como for, o ME tem de fazer marcha-atrás e corrigir os erros que têm sido cometidos. Não se compreende a persistência no erro.


June 29, 2026

Ficámos a saber porque é que o ME nunca sabe quanto professores estão a trabalhar e quantos faltam



Não têm as bases de dados actualizadas: chamaram para classificar exames professores já reformados, alguns que já faleceram. Como é que uma instituição que nem sequer consegue ter a base de dados actualizada espera conseguir organizar, à última da hora, uma classificação digitalizada dos exames? No ano passado experimentaram o processo apenas com os exames de Filosofia, que são poucos, cerca de 15 mil, dado o exame não ser obrigatório e, depois disso não parecer ter corrido mal (como era um teste não foi divulgado como correu), pensaram que podiam estender o processo a todos. Só que a totalidade dos alunos é de 160 mil alunos, cada um a fazer 1 (12º) ou 2 exames (11º), em cada exame a escrever 8 a 10 páginas (a organização das respostas agora é diferente: cada questão tem a sua página de resposta própria e só nela se pode responder; se o aluno quer escrever mais naquela resposta tem folhas próprias de continuação de resposta que podem ser no próprio caderno de respostas ou em folhas extra soltas, uma para cada continuação - também há queixas destas páginas soltas se terem extraviado [vê-se porque os alunos deixam frases a meio, o que implica que continuaram em outra folha]): são milhões de páginas para organizar e digitalizar e depois enviar aos professores correctores em plataforma digital. Era costume os alunos fazerem os exames de manhã e ao fim da tarde entregarem os exames aos professores classificadores. Agora, passaram mais de 10 dias do exame de Português, por exemplo, e ainda não têm os testes. Alguns têm uma resposta aqui e outra acolá.  Não há ali ninguém com 2 dedos de testa?



Directores das escolas respondem ao Eduqa e recusam responsabilidades por falhas na classificação de exames

Público

Dirigentes não gostaram de ser responsabilizados por alguns dos problemas que estão a afectar a operação de classificação digital dos exames nacionais.

Não é "aceitável que se procure transferir para as escolas responsabilidades que manifestamente não lhes pertencem". É a resposta da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas (ANDAEP) ao Júri Nacional de Exames (JNE) e ao Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (Eduqa).

As falhas no processo de digitalização dos exames têm marcado a ordem do dia. Há professores que não conseguem aceder às provas na plataforma desenvolvida para que estas sejam classificadas; outros que dizem que as folhas de resposta que aparecem têm problemas; e também abundam as notícias de erros nas convocatórias de classificadores, que têm chegado a aposentados ou a docentes que há muito não estão a trabalhar nas escolas às quais aparecem associados.

"A associação não pode deixar de manifestar a sua preocupação relativamente às referências constantes do comunicado [do JNE e do Eduqa] que parecem atribuir às escolas e aos directores responsabilidades nos problemas ocorridos. Importa recordar que as escolas cumpriram, dentro dos prazos estabelecidos, todos os procedimentos que lhes foram solicitados pelo JNE. Aliás, o próprio comunicado reconhece que o processo de preparação das provas para classificação digital enfrenta dificuldades técnicas e que se encontra em fase de resolução", afirmam os directores.

"Trata-se de um problema cuja origem se situa no domínio tecnológico e organizacional da entidade responsável pela operacionalização deste novo modelo, não sendo aceitável que se procure transferir para as escolas responsabilidades que manifestamente não lhes pertencem", continuam.

June 22, 2026

Suspender exames por causa do calor? Está tudo doido??




Em toda a minha vida de estudante e depois como professora houve calor. Portugal é um país de sol e calor. Às vezes o calor começa logo em Maio e no início de Junho estamos nas aulas com 43ºC a despejar garrafas de água umas atrás das outras. Dantes era muito pior porque as escolas não tinham o mínimo de condições - vidros partidos, telhados de metal, janelas sem persianas, etc. Agora as escolas têm melhores condições e esta semana nem sequer está muito calor, as temperaturas andam nos 30 e tal. A que propósito se mudava o calendário de exames e prolongava o calendário escolar? Para criar confusão?


Diretores escolares defendem suspensão de aulas devido à onda de calor

DN

Sindicato Nacional dos Professores Licenciados pelos Politécnicos e Universidades (SPLIU) também quer fim das atividades letivas e reagendamento dos exames nacionais devido ao calor extremo.

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E por falar em exames, porque razão os exames levam horas infindas? Duas horas mais meia-hora de tolerância... para quê? Não me lembro de termos exames de tantas horas e não ficávamos mais burros. Durante muitos anos os exames era 1 hora e meia. Depois passaram para duas horas. Agora são duas horas + meia. 
Nos exames como o de Português do 12º ano que ocupa uma carrada de salas e quase todos os professores, chegamos às 8.30h para levantar o material e ir para a sala prepará-la. Os alunos entram às 9.00h e daí até tocar para sair, às 12.00h, não paramos um segundo, com tanta bodega burocrática para verificar, mais as dúvidas dos alunos e pequeno percalços que sempre acontecem. 
Depois vamos para a fila para entregar os exames e tudo ser verificado pelo Secretariado de Exames. É mais uma hora na fila. Resumindo, desde que começa o circo até que tudo esteja entregue e verificado são 4 horas e meia, sem uma pausa. Um massacre. E para quê esse tempo todo?
Alguns exames percebe-se que tenham mais tempo como os de desenho porque os alunos têm que desenhar, pintar com materiais específicos, fazer construções, tem exercícios de geometria, etc. Os miúdos correm de um lado para outro para lavar pincéis, secar, etc. Também se percebe que alunos com certas características/necessidades especiais precisem de mais tempo. Agora num exame normal, para quê este tempo todo?
Qual é o benefício pedagógico dos exames terem todo este tempo? Em meu entender, tudo o que se faz nas escolas, desde os currículos aos exames, aos horários tem de ter um benefício pedagógico para os alunos e depois para a própria organização funcionar com esse fito. Ora, não vejo nenhum benefício pedagógico ser servido com este tempo todo de exames.
Há mais benefício em fazer exame a todas as disciplinas do que escolher duas ou três e fazer desses exames escolhidos um pseudo-everest para inglês ver.

E depois há estas pérolas:

Amanhã, dia 23, há alunos a realizar o Exame Nacional de MACS para aprovação na disciplina e o de Inglês como prova de ingresso para entrar na Faculdade. 
O exame de MACS começa às 9.30 h, com a duração de 2 horas e meia + 30 min. de tolerância, pelo que, a maioria dos alunos irá terminar o exame às 12.30h - os alunos de Educação Especial têm ainda + de 30 min. sobre esse tempo e acabam o exame às 13.00h.

Estes alunos mesmos alunos, se forem fazer o exame de inglês que começa às 14.00h terão de estar à porta da sala do exame às 13.30h, 30 min. antes de começar.

Portanto, fazem 2 horas e meia (ou mais) de exame de manhã e passada uma hora estão a fazer mais 2 horas e meia de outro exame. Muito bem pensado...

June 11, 2026

Coisas que todos os anos ficam mais absurdas na educação

 

Estamos no final do ano cheios de trabalho com avaliações para fazer, relatórios, reuniões de notas, muitas vezes, como este ano, aulas suplementares por causa de feriados e greves e o ME entende de valor enviar uma calhamaço de 220 páginas chamado, Norma 2, para lermos daqui até começarem os exames que são já daqui a uma semana. Este ano reforçou esse absurdo com mais um calhamaço -Norma 3- com 80 páginas. Todos os anos isto fica mais absurdo! Há professores que têm 7 turmas, ainda estão a acabar de corrigir e classificar testes.

Desde que os exames deixaram de ser avaliações pedagógicas e passaram a ser burocracias jurídicas, cada vez isto fica mais absurdo. Não tem valor pedagógico, não torna a classificação mais objectiva, apenas mais uniformizada nos patamares mínimos.


April 24, 2026

Os segredos nas democracias são portas para os abusos de poder e fraudes

 

Num ano avisa que os exames vão ser sempre iguais de ano para ano - que melhor maneira de facilitar a fraude? Noutro ano avisa que a digitalização e tratamento dos dados das provas vão ser escondidas e não ter controlo democrático, mas que não faz mal porque "assegura" que tudo será limpo e puro. Opá, andamos nós preocupados com os processos de controlo público da democracia para evitar abusos de poder e afinal bastava os responsáveis dizerem, "fiquem descansados que asseguramos que tudo será democrático." Aqui há um par de anos, na França, mandou o operador do sistema programar a subida de um valor na nota de todos os alunos a exame para subir a média nacional. Mandaram adulterar as classificações que os professores correctores atribuíram aos alunos. Acho que lá também asseguravam que era tudo muito bem feito. Foi um escândalo. Quando tudo for digital, incluindo a cabeça dos alunos, tudo será manipulável ao gosto dos políticos e lobbies da sua preferência.


No âmbito da digitalização das folhas de resposta dos alunos, para efeitos de classificação electrónica, o Ministério da Educação, Ciência e Inovação assegura o cumprimento de todas as condições de segurança, confidencialidade e integridade aplicáveis", informou. "Por essa razão, não será divulgada informação adicional sobre os respectivos procedimentos administrativos e operacionais, uma vez que a sua publicitação poderá comprometer a segurança das provas, interferir com o processo de digitalização e, consequentemente, prejudicar a avaliação externa e os alunos", acrescentou.
- Público
https:professores preocupados com digitalizacao de provas nacionais sem transparencia





July 25, 2025

A minha pergunta é:


Provas finais do 9.º ano: mais de 13 mil exames reapreciados automaticamente

O regulamento destes exames determina que o processo de reapreciação automática das provas finais do ensino básico é aplicável quando a classificação final da disciplina após a realização da prova final do ensino básico é inferior à classificação interna final. (Público)

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Neste casos o program sobe automaticamente a nota para o melhoramento das estatísticas? Agora que não há ninguém a ver...


June 20, 2025

Erros técnicos nas provas do 9.º ano

 


Sim, hoje estive a vigiar o exame de Matemática do 9º ano no turno 2 e esses erros aconteceram todos, mas não a todos os alunos. E ainda houve outros que não estão aqui, mais a internet estar lenta e a página não carregar, etc. Foram pequenas coisas que se resolveram rapidamente e  não interferiram na capacidade de os alunos fazerem a prova e até acabarem antes do tempo.


Verificou-se que existem vários relatos de problemas ocorridos no ítem 2 (correspondência por arrastamento)
(...) a "não visualização das abas de atalho" - que são os menus ou separadores de navegação...
(...) vários erros, desde a App em que os alunos realizam a prova a "fechar-se sozinha", reabrindo, depois, com "a prova a aparecer como terminada", aos ecrãs ficarem brancos, além do erro no item de ligação.
Os enunciados das provas do 9.º não serão divulgados para permitirem a comparabilidade dos resultados nos próximos anos. (Não acredito que seja por isto pois pode muito bem comparar-se provas com o mesmo grau de dificuldade. Acho que é mesmo preguiça...)

JN 

 

June 19, 2025

Os exames deixaram de ser pedagógicos e transformaram-se em teias jurídicas

 

É um aparatus tão complexo que recebemos instruções de 200 páginas só para saber o que fazer nos exames e tem coisas do género, 'os alunos podem beber água', como se alguém pudesse negar água a um aluno num país que tem Primaveras e Verões com 40º à sombra dentro de salas que parecem fornos.

Agora uma parte dos exames é lida por leitor óptico ou outra máquina qualquer. Acho bem, se é para transformarem os testes em Totoloto não precisam de professores para classificar.

Lembro-me de um exame, aí há uns 25 anos, em que fui vigilante com um colega que se reformou há muito, muito tempo. O exame era de METEP (métodos e técnicas de expressão plástica) que durava 3 horas e meia e que tinha tarefas de desenho, perspectiva, pintura, construção geométrica e em 3D. Estávamos a vigiar um só aluno e, estando sozinho, o miúdo espalhou pelas mesas as várias folhas de resposta em formato A3, mais os godés, as tintas, canetas, compasso, lápis e toda a parafernália que tinha trazido e de que precisava. De vez em quanto ia ao lavatório limpar pincéis, godés, etc. Enfim, isto era em Julho, à tarde - estava um calor de morte e eu o outro professor estávamos sentados num parapeito que havia ao longo da parede toda envidraçada, de janelas abertas a abanar-nos e e beber água. O miúdo não tinha trazido água e a certa altura, deviam ser umas 4 e meia da tarde, estava cheio de sede e de fome, porque ainda não tinha parado um segundo. Pedimos à funcionária do bloco para arranjar água e uma sandes ao miúdo e ele lanchou rapidamente a meio do exame e depois continuou o trabalho. Sem stress. Se fosse agora, íamos presos... porque mais depressa o sistema deixa um aluno desmaiar de fome do que incumprir um dos 18 mil procedimentos da Norma 2.


November 29, 2024

Pôr as coisas em perspectiva - o exame mais difícil do mundo



Esta semana li um artigo sobre o PNA, o exame dos médicos de acesso à especialidade que amedronta os estudantes. Para pôr as coisas em perspectiva, considere-se o Gaokao:

O Gaokao é um exame que pode ser traduzido como "exame superior". O Gaokao é uma batalha de resistência e excelência.

É considerado o maior e mais difícil exame do mundo, com cerca de 12 milhões de candidatos disputando todos os anos vagas em universidades chinesas. É o único exame de acesso ao ensino superior e mobiliza todos os alunos que acabaram o ensino secundário e querem continuar a estudar numa universidade.

A relação candidato-vaga é implacável. As melhores instituições, como a Universidade de Pequim e a Universidade Tsinghua, têm taxas de aceitação que beiram 0,1%, tornando cada ponto no Gaokao decisivo para o futuro dos estudantes. A pressão é tão intensa que muitos jovens dedicam anos de preparação exclusiva para a prova, muitas vezes sacrificando lazer e saúde mental. 

O Gaokao tem uma duração aproximada de nove horas e dura dois ou três dias, consoante as regiões administrativas provinciais onde se realiza. Todos os estudantes têm de fazer exames de chinês e matemática e uma língua estrangeira, à escolha entre inglês, francês, japonês, russo, alemão ou espanhol, sendo que a maioria dos alunos escolhe o inglês. 

Para além destas disciplinas obrigatórias, os alunos também devem escolher entre o curso de Humanidades ou o curso de Ciências. Os alunos que escolhem Humanidades fazem testes adicionais em História, Ciência Política e Geografia, enquanto aqueles que escolhem a faixa de Ciências são testados em Física, Química e Biologia.

Portanto, cada aluno faz seis exames, em dois ou três dias. As questões são conhecidas por sua complexidade, exigindo não apenas memorização, mas também raciocínio crítico, criatividade e domínio profundo dos conteúdos. São dois ou três dias de provas exaustivas, em que cada erro pode custar uma vaga em universidades de prestígio. 

Durante o tempo do comunista Mao, não havia universidades porque eram burguesas. Depois, reinstituiu as universidades mas as candidaturas eram decididas por um comité revolucionário. Em 1977 reinstitui-se o Gaokao e nesse ano toda a gente pôde candidatar-se: houve candidatos de 17 anos e de 30 anos, estes últimos, vítimas que não puderam estudar no seu tempo de adolescentes devido à revolução burra e criminosa de Mao.

Para muitos, o Gaokao é a única chance de mudar de vida e alcançar o sucesso, mas também é alvo de críticas por gerar níveis extremos de stresse e expor desigualdades no acesso à educação de qualidade. Ou seja, o Gaokao não é apenas um exame e sim uma competição nacional que molda o futuro de milhões de jovens e suas famílias.

Na imagem vemos Estudantes fazendo uma prova de inglês num salão de exames na Universidade de Dongguan no sul da China. (do FB)



July 11, 2023

Outra coisa com piada

 



Não sei se os critérios de classificação de Matemática são como os de Filosofia onde se descarta tudo o que de errado o aluno fez e vai-se repescar apenas as coisinhas melhores, mas se for (e deve ser porque tudo agora marcha ao som do chicote de sua excelência alienada) estes resultados são uma desgraça muito maior do que se pensa. Muito maior. E, se alguém se desse ao trabalho de ver para que curso vão estes alunos que tiram negativa a matemática nestas condições feéricas, ia ver que vão quase todos para cursos onde a Matemática é a cadeira específica de maior importância. De maneira que já vejo vir aí uma reforma curricular com as aprendizagens essenciais das essenciais.

Ontem li duas notícias. A Irlanda está como nós nos preços das casas e na emigração de jovens qualificados. A Alemanha precisa de 1 milhão e meio de imigrantes por ano e quer produzir na UE os produtos que importava da China. Onde vão buscar os imigrantes, qual o papel que nós, tugas, vamos ter na UE e porque é que Costa e Costa querem que os portugueses que menos têm, passem pela escola pública só com o essencial do essencial do essencial?

Provas nacionais do 9.º ano. Quase 60% teve negativa a Matemática


Cerca de 78,2% dos alunos conseguiram ter positiva na prova de Português, mas a Matemática a maioria (58%) teve negativa.

July 08, 2023

Exames nacionais

 


Ontem seis horas nisto, hoje cinco. É quase impossível ter má nota nestes exames, quer dizer, é preciso ser mesmo calão e cábula porque o exame está feito para os alunos não terem que estudar muito. Só a escolha múltipla vale mais de metade do teste e mesmo nesse grupo, há perguntas que, tendo mau resultado, são descartadas. Só contam os melhores resultados. No resto do exame é a mesma coisa: os alunos respondem a seis questões, mas o programa só conta quatro: as que têm melhores resultados (naturalmente aqui os palhaços dos classificadores têm que ver tudo...). Portanto, a lógica é a seguinte: para que os alunos não tenham que estudar tudo, fazem perguntas sobre tudo mas só contam as melhores de maneira que eles possam falhar uma série delas. Neste contexto, exames que têm respostas desastrosas têm notas razoáveis ou até boas. Basta que tenham feito a maioria da escolha múltipla bem (são fáceis) e mais duas das outras, por exemplo. O resto pode estar miserável ou podem até nem fazê-las. Até os descritores para classificar cada pergunta são construídos de maneira que a resposta pode estar fraca mas como diz uma palavra ou uma frase, já leva pontos de cotação. Por exemplo, o aluno não argumenta a sua posição mas tem "uma intenção argumentativa"... enfim...


February 04, 2023

Escrever sobre educação para contribuir para o ruído




Este senhor escreve um longo artigo contra a existência de exames, mas em vez de adiantar argumentos, adianta, sobretudo, acusações, demagogias e preconceitos contra os que são a favor de haver exames. Logo a começar pelo título, 'o altar-palco dos exames' que tem sub-entendido que todos os que são a favor de exames são fanáticos que idolatram os exames como deuses e que tudo não passa de uma representação. Portanto, logo pelo título ficamos a saber que o autor é, acima de tudo, contra os que defendem exames e que escreve para chocar.

1. Neste primeiro parágrafo o autor fala numa batalha dos bons (os que têm a coragem de assumir e inovar) contra os maus: os que querem exames. Portanto, isto é uma guerra dos bons (que não querem exames) contra os maus (os que defendem exames). Não há um único argumento a favor do fim dos exames. 

2. Neste parágrafo ridiculariza os que defendem exames. Não há um único argumento a favor do fim dos exames.

3. Neste parágrafo, o autor lamenta que muitos queiram ir para certos cursos e não entrem por causa de décimas em exames. Ora, como é evidente, não é pelas décimas que não entram, mas por não haver vagas para todos. Não havendo exames teriam de arranjar outro modo de fazer uma seriação porque o problema é: os lugares são em número limitado e não cabem todos. 

4. Neste parágrafo, o autor fala da não entrada num curso como uma catástrofe para a vida, equivalente à notícia de ter um cancro em fase adiantada, por exemplo, mas não é. Se calhar o erro está em as famílias e os professores alimentarem a ideia de que para cada aluno só há uma única possibilidade na vida e que falhando essa possibilidade toda a vida falha. E não é verdade que cada professor saiba o nome de todos os que não entraram exactamente onde queriam. Se calhar só aqueles que têm essa visão redutora e pobre da vida.

5. Neste parágrafo, o autor fala como se o Estado fosse um papá que deve acompanhar como tutor a vida das ovelhas do seu rebanho (é tal qual o ministro a falar), mas isso não cabe ao Estado: dizer a cada um o que deve fazer da sua vida. E depois fala-se no privado como se fosse uma associação de inúteis onde só se vai parar se não se tiver nota para o ensino público, o que também me parece exagerado e errado.

6. Neste parágrafo, o autor entra em contradição com o anterior e diz que do privado saem profissionais com carreiras brilhantes que tiveram nota inferior nos exames nacionais. Em primeiro lugar, volta a falar de objectivos de vida em termos de carreiras brilhantes, o que a mim me parece extremamente redutor enquanto perspectiva de vida (porque razão uma vida falha se não se tiver uma carreira brilhante?) e não é argumento nenhum a favor de não haver exames; em segundo lugar, esquece que, regra geral, muitos dos que saem das universidades privadas têm uma rede de conhecimentos a que recorrem para fazer a tal carreira e isso nada tem a ver com notas de exames.

7. Neste parágrafo, há muitos adjectivos dramáticos como, 'delírio' e 'aterrador', muitas petições de princípio, mas nenhum argumento.

8. Neste parágrafo há demagogia e contradição: os empresários preferem contratar gente com vigor e diligentes que gente com um diploma. Bem, se um diploma não serve para nada, porquê insistir em que os alunos tenham de entrar todos na universidade? E depois: as empresas fazem testes aos candidatos (a não ser que entrem com uma cunha vinda de cima) de maneira que quem tem não sabe lidar com testes e exames fica logo ali.

9. Neste parágrafo o autor fala como se não houvesse, 2ª fase, 3ª fase, etc. e um aluno só tivesse uma hipótese, uma vez na vida de fazer um exame. Isto é falso...

10. Neste parágrafo o autor fala do peso dos exames (50%) ser exagerado, o que também concordo, mas não argumenta de modo válido, apenas se mostra chocado. Não chega.

11. Neste parágrafo o autor, infelizmente, não argumenta as razões dessa desconfiança e os modos de resolver o assunto. Mais uma vez, só se indigna e diz que não pode ser. Se não há argumentação, não há discussão, só há, ou obediência, ou recusa.

12. Neste ponto concordo com o autor. O pagamento da logística dos exames de acesso à universidade devia ser obrigação do ensino superior e não das escolas secundárias.

13. Neste parágrafo, o autor faz uma falsa dicotomia: ou o exame é um mecanismo de aprendizagem ou é de classificação, mas na realidade é as duas coisas. Por um lado dá ao aluno uma medida do seu nível de aprendizagem numa escala finita de avaliação (daí que se façam testes e trabalhos ao longo do ano) mas também o incluem numa seriação, dado que, mais uma vez, não há lugares para todos nas universidades.

14. Neste parágrafo, em vez de tentar dar resposta ou analisar as próprias questões que faz, o autor, mais uma vez, apenas faz afirmações de princípio e não oferece nenhum argumento.

15. Neste parágrafo, mais uma petição de princípio infundada: o ensino secundário desbaratou a sua dignidade. Nenhuma análise, nenhum argumento.

16. Aqui, outra vez, constata que há descrença nas notas do secundário mas não pensa porquê, nem como resolver. Ora, as coisas não chegaram onde estão sem um caminho que foi percorrido e é esse caminho que tem de ser percebido. Não basta indignação.

17. Aqui o autor propõe que as universidades se aproximem das escolas secundárias e que se imponha nas universidades os métodos de aprendizagem das escolas porque os professores das universidades não são bons. (impor é a palavra preferida do ministro da educação) Independentemente dos professores das universidades poderem melhorar pedagogicamente, reparo que o autor, depois de acusar as universidades de desconfiarem gratuitamente dos professores das escolas, ele mesmo desconfia gratuitamente dos professores universitários.

18. Por incrível que pareça, depois de falar contra o secundário estar feito como caminho para os cursos superiores, aqui vem defender que os professores das universidades devem estar nas escolas para os alunos ficarem logo a saber o que esse espera deles quando lá entrarem. Como se a educação tivesse como fim único pôr alunos em universidades e as universidades fossem uma espécie de finishing schools à antiga e não tivessem, cada um dos ciclos, os seus propósitos específicos.

19. Neste parágrafo, o autor faz ruído: também eu me queixo do decréscimo do nível cultural dos alunos que me chegam às mãos no 10º ano, mas só por ignorância ou grande ingenuidade, alguém pode pensar que isso é um sintoma das escolas e que seria resolvido se os professores universitários estivessem nas escolas, que é o mesmo que defender que os seus colegas professores não têm nível e que a convivência com professores universitários lhes daria, por osmose, um grande nível. Não sei se era isto que queria dizer, mas foi isto que disse. Portanto, queixa-se das universidades não confiarem nos professores do secundário mas depois defende que eram precisos professores universitários nas escolas para elevar o nível das escolas que não são de confiança. Não faz sentido. (E a senda deste ministro em aceitar que pessoas de qualquer formação venham a ser professores não ajuda à credibilização do ensino, parece-me.)

20. Isto não é verdade, a não ser talvez nos congressos de educação do ME que concluem sempre demagogicamente o que ele quer impor. A inovação de práticas nada tem que ver com exames. Se calhar os exames é que estão mal concebidos, o que é diferente. Toda a vida tentei inovar e passo muito tempo a pesquisar (e vejo imensos colegas fazerem o mesmo) e nunca me fez diferença que houvesse exames, apesar de os exames terem entrado numa caminho que não concordo, mas isso fica para o post a seguir.

21. Os currículos têm que ser coerentes com os métodos e com os instrumentos de avaliação (ou o oposto) e é isso que tem de ser melhorado. Não se acabam com os empregos com o argumento de não termos tempo de ler ou ir ao cinema. Melhora-se a organização do trabalho e dos tempos de lazer de maneira que haja tempo para as duas coisas. Na educação é igual. Já houve esse tempo, mas os exames enveredaram por caminhos anti-pedagógicos.

22. Aqui, o autor entra em contradição com o que disse anteriormente, mas como diz muita coisa com muito ruído pelo meio, já se perdeu no caminho.

23. Quando chegamos aqui à conclusão percebemos: este professor é um apoiante do ministro da educação e até as palavras lhe fogem para as práticas do ministro, o meu aplauso sonoro à presente e corajosa intimação do ME... intimação, que significa ordenar, mandar, exigir, impor a sua autoridade.

24. Este último parágrafo é de demagogia pura. Comparar os exames com a segunda guerra mundial e com a ditadura nazi e os alunos os com os que morreram na Normandia... que falta de seriedade e de sentido de decência, não?

(fui ver quem é este professor, Rui Correia. É o vencedor do prémio de melhor professor de 2019. Sou só eu que fiquei a desconfiar deste prémio apoiado pelo ME??))



O altar-palco dos exames nacionais

Rui Correia


1. (...) combate feroz que hoje se trava – finalmente - entre os ministérios que tutelam o ensino superior e o ensino básico e secundário. A batalha é ancestral mas assume agora uma feição histórica. O Ministério da Educação – que tutela o ensino básico e secundário – parece estar a recrutar a vontade política de enveredar por uma via que ninguém acreditava ter a coragem de assumir: o fim dos exames do secundário no acesso à universidade. Do outro lado do ringue, o Ministério que tutela o ensino superior pretende ampliar o peso a atribuir à nota dos exames nacionais para o acesso aos bancos das universidades, dos actuais 30% para 50%.

2. Escusado será dizer que logo pularam de todas as tocas aqueles que não têm nem querem ter alunos do secundário todos os dias pela manhã e que acham que têm coisas a dizer. É um direito e uma maldição ao mesmo tempo. Um mundo sem exames, dizem, não existe. Mesmo que não meçam o que deviam medir, os exames servem, ao menos, para mostrar alguma “realidade” do sistema que, sem eles, fica “cego” ao que se passa dentro das escolas.

3. Que ninguém o duvide: por causa dos exames, são milhares os jovens que todos os anos, merecendo perfeitamente ascender no ciclo de estudos e na carreira que ambicionam, morrem na praia apenas porque não estiveram bem em dois dias da sua vida, por melhor que tenham estado durante os últimos três, seis, oito ou doze anos do seu percurso escolar.

4. Cada professor sabe os nomes de dezenas e dezenas de alunos seus que, faltando-lhes uma décima ou umas centésimas na sua nota final, não conseguiram entrar nos cursos que desejavam.

5. Quando isto sucede, assiste-se ao cortejo dos condenados. O Estado nada tem para lhes dizer. (...) quem tem dinheiro e não tem nota suficiente, entra no ensino privado. Quem tem dinheiro, não tem nota e não quer ir para o privado, vai para o estrangeiro (...)

6. (...) todos os anos excelentes médicos que entraram no privado com notas inferiores às exigidas no público. E fazem carreiras brilhantes. Alguns deles são pioneiros no seu ramo. Não é, decididamente, através dos exames que seleccionamos os melhores candidatos.

7. Mas voltemos atrás. Qual é o problema da existência de exames no secundário? Afinal, a vida é mesmo assim. Quem, em situação de stress emocional não se aguenta e tira más notas num exame, não merece entrar à frente daquele que, em circunstâncias semelhantes, reagiu impecavelmente. É até justo que não entre, certo? Errado. Mas errado mesmo. Era tão bom que assim fosse. Mas não é.

Há pelo menos, dois erros clamorosos nesta tese: primeiro, os seres humanos não são ratos de laboratório, nem vivem em tubos de ensaio transparentes. Em educação não há, nunca houve, “circunstâncias semelhantes” e muito menos idênticas, em situação nenhuma. É um delírio. Um devaneio caro. Era interessante que houvesse, mas seria demasiado aterrador.

8. Aliás, aqueles que são muito a favor dos exames são exactamente os mesmos que aplaudem quando ouvem dizer que muitos empresários preferem de longe contratar um tipo com – como dizer isto? - vigor e diligência, a dar o litro pela empresa, do que um candidato indolente com um diploma.

9. O outro erro básico é que todos sabemos de jovens que simplesmente tiveram azar num dia marcado que, por acaso, era o dia do exame nacional.

10. É que este “sistema” não tem qualquer problema em olimpicamente ignorar tudo quanto o jovem foi ao longo dos últimos anos, no que diz respeito ao seu desempenho escolar. E na sua classificação de acesso ao ensino superior quer-se colocar num prato da balança – repare-se bem – aquilo que ele foi capaz de fazer em duas horas - e no outro prato da balança tudo quanto o jovem foi capaz de fazer nos últimos três anos. E pretende-se que valham exactamente o mesmo.

11. O sistema defende, assim, que um exame nacional consegue medir em duas horas – com tolerância de 30 minutos - aquilo que professores habilitados não conseguem medir em três anos de secundário.

E é esta desacreditação que aqui se condena. A confiança que se atribui a uma matriz de exame é igual à que se atribui às dezenas de professores que estudaram, orientaram, conheceram, acompanharam e classificaram esse aluno. Durante três anos. Esta desconfiança institucionalizada no ensino secundário é intolerável e tem de terminar. E todos ganham com isso. Todos.

12. Além do mais é incompreensível que seja o ensino secundário a pagar logisticamente todo o orçamento do acesso à universidade. Outros quinhentos.

13. O exame tem essa função mediadora entre o que temos e o que queremos obter. Entender o exame como a jusante de uma aprendizagem é saber quase nada sobre aprendizagem. O exame é muito melhor como mecanismo de aprendizagem do que como dispositivo de classificação.

14. A pergunta que permanece por responder é sempre a mesma: por que razão se desconfia tanto dos professores? Por que motivo as classificações obtidas durante o secundário não servem para recrutar os estudantes de uma qualquer faculdade? O que julgam que vão encontrar com os exames nacionais? Os melhores? Desenganem-se. Muitos dos meus melhores alunos não entraram nos cursos que queriam, por quase nada.

15. Os exames não podem converter-se no altar-palco da discriminação sem que alguém ou algum ministério se imponha. Os exames não podem continuar a ser a foz do ensino secundário. O secundário tem de recuperar uma dignidade e uma autonomia que desbaratou.

16. O ensino secundário tem em Portugal uma tradição de competência e qualidade que ninguém contesta. Os professores sabem o que fazem. Sabem como avaliar os seus alunos. Imagine-se um sistema em que, sendo mesmo inevitável impor numerus clausus, temos de fazer uma selecção entre os alunos que terminam o secundário. Por que motivo a classificação dos últimos três anos não é aceite como o mais competente e longitudinal retrato de um candidato? Só existe uma forma de entender isto: não se acredita nos professores do secundário.

17. Imagine-se o que podíamos todos ganhar com uma maior articulação entre ciclos de ensino: por um lado, os professores do superior podiam envolver-se com novos formatos de aprendizagem e avaliação que teimam em não se impor no ensino superior e são correntes no secundário. Ganhávamos melhores professores do superior.

18. Por outro, a presença regular de professores do superior no secundário tornaria ainda melhores os professores do secundário, que desse modo se actualizariam cientificamente numa base de comunicação fluente e regular entre ciclos. Ganhava-se melhores alunos no superior porque já vinham com um amplo entendimento do que deles se espera no superior.

19. (Basta escutar o que dizem os professores do superior acerca da “qualidade” dos alunos que vêem entrar nas suas salas de aula. Não têm conto as vezes que amigos meus, docentes do politécnico ou do superior, me desabafam como é frustrante assistir ao decréscimo de nível cultural das gerações que lhes chegam às mãos). Todos ganhamos com este diálogo.

20. Quem anda por este país em congressos sobre educação sabe que quase todos os especialistas concluem que a necessária modernização das práticas docentes e métodos de aprendizagem encontra sempre um travão implacável: os exames nacionais.

21. Professores do secundário que queiram inovar ou que queiram fazer as coisas de um modo que vá ao encontro do que os nossos tempos lhes impõem, não o fazem por uma razão simples: os conteúdos que saem no exame têm de ser dados num curto espaço de tempo. Muitas vezes sem ligar àquilo que os alunos sabem fazer, porque não há tempo para experimentações ou contemporaneidades.

22. O secundário converteu-se numa antecâmara do superior. Está transformado numa linha de montagem de classificações onde o saber e o conhecimento produtivo, crítico e original, não têm qualquer cabimento. Porque não serão medidos.

23. Daqui o meu aplauso sonoro à presente e corajosa intimação do Ministério da Educação. É hora de acabar com o que não faz sentido nenhum. Nem estatístico – porque mede mal o que se pretende que meça bem – nem pedagógico – porque ignora demasiado do que cada candidato na realidade é e, consistentemente, tem sido ao longo da sua vida escolar.

24. Quem, ainda assim, considera que os exames nacionais são um mal menor, com um institucional e mensurólatra interesse estatístico, não visitou essa Normandia onde todos os anos desembarcam e morrem, sob fogo inimigo, tantos filhos dos portugueses. A equidade não é a sua praia.

July 08, 2020

Acerca do exame de Filosofia



Foi fácil mas desinteressante e com uma pergunta que considero muito mal feita. Perguntar a um aluno, se 'em sua opinião', o fundamento da filosofia de Descartes é um fundamento sólido, não tem sentido. Desde quando um aluno neste nível de ensino tem opiniões filosóficas próprias? Nem os professores têm. Repetem opiniões alheias. É evidente que os alunos vão repetir a argumentação, ou do próprio se quiserem responder que sim, ou de Hume se quiserem responder que não. Depois os professores correctores vão considerar errado porque, dizem, não é a opinião pessoal do aluno e foi isso que foi pedido. Já vi isto acontecer várias vezes.
O problema da fundamentação do conhecimento é tão complexo que são precisos indivíduos da envergadura de Descartes, de Hume, de Kant ou outros do género para lhe pegar, mas um aluno do 11º ano tem uma posição filosófica própria sobre a questão? Uma pessoa leva tantos anos a construir uma posição sobre as questões. Uma opinião com coerência e fundamento e espera-se que miúdos com 17 anos tenham posições próprias sobre estes assuntos?
E qual é a vantagem de perguntar a opinião em vez de pedir reflexão ou problematização que é muito mais importante saber fazer do que dar opiniões?
Lá está... eu devo ser muito burra... se me pedissem a mim uma opinião sobre o fundamento filosófico de Descartes, confesso que o discutia com argumentos alheios, de outros filósofos e que não desenvolvi uma filosofia própria original acerca desse problema tão complexo. Nem sequer tenho uma posição única de ser a favor desta ou daquela teoria porque todas elas têm dificuldades e aporias - ou pelo menos, becos sem saída. No entanto, os fazedores de exames estão à espera que os alunos de 17 anos tenham opinião própria sobre o assunto. Vejo grande demérito nestas perguntas. Um aluno que responda a isto, dizendo, 'em minha opinião Descartes está certo ou errado, mostra nem sequer ter noção da complexidade do problema. Não digo que no meio de tantos alunos não se possa apanhar, de 100 em 100 anos, um Leibniz, mas é muitíssimo improvável. Estas perguntas, quanto a mim, dizem alguma coisa sobre as pessoas que as fazem, o que pensam que da filosofia e do seu ensino.
A última questão é a única que se presta mais à reflexão, mas o mais certo é os alunos despejarem os argumentos que aprenderam sobre a questão da religião.