April 16, 2020

Notre coeur - Maupassant




Poesia ao anoitecer - 'And people stayed home'




And people stayed home

A poem by Kitty O’Meara

And people stayed home
and read books and listened
and rested and exercised
and made art and played
and learned new ways of being
and stopped
and listened deeper
someone meditated
someone prayed
someone danced
someone met their shadow
and people began to think differently
and people healed
and in the absence of people who lived in ignorant ways,
dangerous, meaningless and heartless,
even the earth began to heal
and when the danger ended
and people found each other
grieved for the dead people
and they made new choices
and dreamed of new visions
and created new ways of life
and healed the earth completely
just as they were healed themselves.


Kitty O’Meara - Kathleen O'Meara (1839–1888),

Poesia ao anoitecer - 'Parlons d’amour'






Surpris de vivre encore,
j’ai trop d’idées derrière la tête,
tant de rêves, tant des mots
que je voudrais t’offrir.
J’ai fait des nœuds dans l’espérance
pour ne rien oublier.

Parlons d’amour juste une fois
pour savoir qui nous sommes, 
manger le fruit dans son silence,
boire la vie dans sa parole.
...
Parlons d’amour juste une fois
pour ne pas que les mots
coagulent sans toi
sur le poussière du tapis
que piétine l’absence
de ses souliers trop grands.

1968
Jean-Marc La Frenière

Problema - a apreciação estética tem que ter uma razão?



Fui dar com esta imagem e cativou-me logo à primeira e não estou bem a ver porquê. Gosto das cores esbatidas - um mundo que se esboroa em face do moderno, simbolizado no zepelim? Os homens estão todos de costas voltadas para nós - que quer isso dizer? Saúdam o zepelim. Saúdam o progresso, é isso? E não se vê um candeeiro, um cartaz de uma loja, nenhum artifício. As ruas despidas, reparamos na arquitectura. Qualquer sítio para cima de França (não vou pesquisar sobre o autor ou a obra, não quero). O chão está molhado - é o progresso que lava o passado? Ou estou só a complicar e é uma cena de quatro homens surpreendidos numa rua qualquer anónima de uma cidade qualquer, pela passagem do zepelim?
Gosto daquele verde ténue do edifício à direita e do ar um bocadinho austero do outro. Entre os homens, a mancha de água no chão desenha uma cruz. Terá sido propositado porque um pintor pensa em pormenor tudo o que põe naquele quadrado ou rectângulo. Ah, é isso, agora percebi. Se o pintor pensa em tudo com cuidado, cada elemento tem a sua razão de ser e enquanto não compreendemos o sentido de todas as partes da peça há uma luz que se nos escapa e não deixa a apreciação ser emocionalmente plena. Por outro lado, não perceber-lhe o sentido imediatamente faz-nos voltar muitas vezes o olhar para ela e descobrir-lhe novas dimensões que aumentam o prazer da apreciação.
De modo que sim, o sentido promove a apreciação e não pois a ausência imediata de sentido também promove a apreciação. A arte não é a Lógica e não tem que ser coerente, aliás, abriga muitas contradições, como a vida.



Carel Willink The Zeppelin 1933

Coronavirus Li Wenliang - Singapura passou de óptimo a péssimo por imprudência na reversão das medidas




'Mad world'



E, no entanto, mais coisas nos unem que separam e a música é uma delas :)





Mad World

Gary Jules, Michael Andrews


All around me are familiar faces

Worn out places, worn out faces

Bright and early for their daily races

Going nowhere, going nowhere

Their tears are filling up their glasses

No expression, no expression

Hide my head, I want to drown my sorrow

No tomorrow, no tomorrow


And I find it kinda funny, I find it kinda sad

The dreams in which I'm dying are the best I've ever had

I find it hard to tell you, I find it hard to take

When people run in circles it's a very very

Mad world, mad world


Children waiting for the day, they feel good

Happy birthday, happy birthday

Made to feel the way that every child should

Sit and listen, sit and listen

Went to school and I was very nervous

No one knew me, no one knew me

Hello teacher, tell me what's my lesson

Look right through me, look right through me


And I find it kinda funny, I find it kinda sad

The dreams in which I'm dying are the best I've ever had

I find it hard to tell you, I find it hard to take

When people run in circles it's a very very

Mad world, mad world

Enlarge your world

Mad world


Nem todos estão à altura da situação II



"A maioria dos financiamentos estatais, que os contribuintes irão pagar com sangue suor e lágrimas, acabarão nas Bahamas, no Panamá, nas Ilhas Caimão ... São os empresários que temos.
E abominam o Estado, o que seria se gostassem dele."


(a notícia é do Público de hoje)" Jorge Costa

Nem todos estão à altura da situação



Alguns rastejam como cobras.
Já agora espero que possam dispensar uma garrafinha de champanhe da vossa festarola aqui para a minha pessoa que ajudei a pagá-la com os preços que cobram.

Acionistas da EDP aprovam pagamento de 695 milhões de euros em dividendos

A decisão foi tomada numa Assembleia Geral que, devido à restrições provocadas pela Covid-19, está a ser conduzida por meios telemáticos. Numa altura em que muitas cotadas estão cancelar, cortar ou adiar os dividendos, a elétrica mantém a promessa inscrita no plano estratégico e vai pagar 0,19 euros brutos por ação relativo ao exercício de 2019.

Did you ever get the feeling that you wanted to go, but still had the feeling that you needed to stay?






Britânicos 'esquecem' Brexit e querem ajuda da UE no combate à pandemia

A larga maioria da população do Reino Unido acredita que Boris Johnson deveria 'esquecer' o Brexit e trabalhar em conjunto com a União Europeia no combate à pandemiade Covid-19, segundo um estudo levado a cabo entre a Focaldata e o jornal britânico The Independent.

77% das pessoas que participaram nesta sondagem defenderam que, neste momento, a decisão mais sensata passaria por manter vários acordos europeus que permitam assegurar que o país tenha acesso a equipamentos de proteção, vacinas e testes.

Se reduzirmos o panorama, 57% dos cidadãos que admitem ter votado favoravelmente ao 'divórcio' com a União Europeia apoiam, agora, uma 'reconciliação', mesmo que seja a curto-prazo, durante o combate ao surto do novo coronavírus.
Uma opinião partilhada por 62% dos eleitores do Partido Conservador, 88% do Partido Trabalhista e 95% do Partido Liberal Democrata.

O Plano Marshall não era dinheiro. Era uma ideia e o dinheiro serviu a ideia



Não é isso, penso, que tem estado no discurso da PCE, quando usa o termo e fala em orçamentos robustos e investimentos massivos, mas... usando mecanismos com juros que deixam uns países na miséria indefinidamente. O Plano Marshall não foi isso, foi o oposto disso.
É mais o que diz o francês, um Fundo de Retoma de 'grants', como ele diz.

O Plano Marshall era uma ideia, no tempo em que os EUA tinham uma visão cooperativa, lúcida e até generosa da realidade, há muito perdida, acerca da importância de ter parceiros fortes e não diminuídos. É certo que isso também servia os seus interesses, nomeadamente passarem a ter uma influência decisiva na geopolítica do continente, mas não os esgotava.

Houve a ideia de ajudar a Europa a reerguer-se e não deixar que a sua história, a sua matriz cultural e a sua força política no mundo se perdessem. E perceberam que era necessário uma inundação de dinheiro para que a economia se erguesse dos escombros da guerra.

Se fosse apenas uma gestão de interesses financeiros, tinham deixado os países da Europa economicamente dependentes deles e não tinham, por exemplo, perdido dinheiro a ajudar a Finlândia, excluída do plano por conta do que tentou fazer em Leninegrado e a quem deram dinheiro por baixo da mesa, durante anos.

De modo que a PCE, quando fala do Plano Marshall e o reduz a um tamanho de orçamento, esquecendo o modo, parece não compreender o alcance do que foi aquele Plano e como esta UE, que caminha como um funâmbulo, se se estampar, não há rede que lhe ampare a queda.

Europa precisa de um novo Plano Marshall, diz Comissão Europeia

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que o novo orçamento da União Europeia precisa ser robusto

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O ministro francês das Finanças, Bruno Le Maire, avisa que a Zona Euro está em risco, principalmente se não se tomarem medidas para garantir que todos os países terão oportunidades semelhantes de financiar a retoma. Só assim, argumenta, o bloco europeu não perderá a carruagem e poderá continuar a concorrer com potências económicas como os Estados Unidos ou a China. 


Estou a ver o debate na AR



O Ferro Rodrigues é um mau Presidente da AR. Quando não gosta dos deputados é ordinário e muito faccioso. Um Presidente da AR, segunda figura do Estado, tem que ter uma imparcialidade e uma dignidade que sirva de exemplo e orientação à própria condução dos debates. Ele é péssimo.

Now this



Now is the dramatic moment of fate, Watson, when you hear a step upon the stair which is walking into your life, and you know not whether for good or ill. 

~Sir Arthur Conan Doyle







alen lanni

Coronavirus Li Wenliang - isto está bem explicado




Ensino à distância



Tive agora uma aula. Não estavam todos. Eram para estar uns 15 a 20 minutos com os miúdos em modo síncrono porque era uma sessão/teste para ver se estava tudo a funcionar como deve ser. Se nos ouvíamos uns aos outros, se toda a gente percebia as regras de funcionamento das sessões, falar um bocadinho da matéria que vamos dar e na avaliação. Acabei por ficar 40 minutos e desse 40 minutos, uns10 foram para todos dizerem que já não aguentam estar em casa (uma das miúdas disse-me que agora tem grande apreciação pelo caixote do lixo e espera ansiosamente que esteja cheio ahah), que têm saudades da escola e que querem muito fazer umas sessões em videoconferência e não apenas em áudio, para nos vermos uns aos outros porque têm muitas saudades de nos vermos (também tenho e disse-lhes), de modo que vou preparar umas sessões no hangouts.
Esta não é a turma mais faladora em que todos querem intervir. Essa é daqui a bocadinho. Vamos ver como corre, se dura os 90 minutos do horário :)

De facto, esta é uma realidade diferente. Para a semana vou ter uma consulta em versão teleconsulta, pelo hangouts. Outra realidade.

Cuidar dos que têm menos e mais sofrem com esta crise: os trabalhadores precários



Sobre os trabalhadores da limpeza e segurança das nossas universidades e dos nossos politécnicos 



Para: Reitores das Universidades Portuguesas, Directores dos Institutos Politécnicos e Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior

Aos Reitores das Universidades Portuguesas,
Aos Directores dos Institutos Politécnicos Portugueses,
Ao Ministro da tutela,

A actual situação de pandemia levou inevitavelmente ao encerramento das instalações das universidades e dos institutos politécnicos em Portugal. Neste contexto, vimos exprimir a nossa preocupação relativamente à situação de precariedade laboral em que se encontram os trabalhadores de limpeza e segurança que quotidianamente asseguravam a boa utilização das referidas instalações. Estes trabalhadores são uma necessidade permanente das nossas instituições.

Cientes de que a ligação de uma parte significativa destes trabalhadores a estas mesmas instituições é mediada por contratos e ou vínculos de natureza precária, muitas vezes intermediados por terceiros, apelamos nesta hora a que: se desenvolvam os esforços possíveis para que tais trabalhadores não sejam agora privados da retribuição salarial que lhes vinha sendo paga; as universidades e os institutos politécnicos possam rapidamente integrar estes trabalhadores no seu próprio quadro de funcionários, assegurando-lhes a dignidade contratual e os direitos laborais que são devidos aos docentes, aos investigadores e aos funcionários de carreira.

Com os melhores cumprimentos, subscrevem docentes, estudantes, investigadores e funcionários das universidades e dos institutos politécnicos portugueses,

Silêncio e tempestade





You are not surprised at the force of the storm—
you have seen it growing.
The trees flee. Their flight
sets the boulevards streaming. And you know:
the one whom they flee is the one
you move toward. All your senses
sing them, as you stand at the window.

The weeks stood still in summer.
The trees’ blood rose. Now you feel
it wants to sink back
into the source of everything. You thought
you could trust that power
when you plucked the fruit:
now it becomes a riddle again
and you again a stranger.

Summer was like your house: you know
where each thing stood.
Now you must go out into your heart
as onto a vast plain. Now
the immense loneliness begins.

The days go numb, the wind
sucks the world from your senses like withered leaves.

Through the empty branches the sky remains.
It is what you have.
Be earth now, and evensong.
Be the ground lying under that sky.
Be modest now, like a thing
ripened until it is real,
so that who began it all
can feel you when it reaches for you.

********
Reiner Maria Rilker
Book of Hours
Translated by JOANNA MACY and ANITA BARROWS

Leituras pela manhã - a atracção pelo silêncio e o desejo do outro



The Babylonian Story of the Flood [trans. W. G. Lambert and A. R. Millard] contains the lines:
“When the land extended and the peoples multiplied […]
The god got disturbed with their uproar.
Enlil heard their noise
And addressed the great gods,
‘The noise of mankind has become too intense for me,
With their uproar I am deprived of sleep...’”

Na Antiguidade o silêncio aparece como o primeiro sinal de uma situação em que o homem se encontra no limite, entre o impossível e o desconhecido. Aparece, por exemplo, quando alguém experencia um sofrimento tão terrível que os sentidos, a certa altura, deixam de conseguir registá-lo. Falamos de uma dor mental, mais que física.

Ovídio mostrou-o em, Metamorfoses. A personagem, Hecuba, mulher de Priam, Rei de Tróia, tinha como fado experienciar o pior de tudo, em tudo. Tendo sido uma rainha cheia de orgulho e mãe de muitos filhos, viu a destruição de Tróia, a morte de seu marido e filhos e a desonra das filhas e noras, violadas e levadas como cativas pelos gregos vitoriosos. Viu a morte de seu neto, Astyanax, atirado da muralha da cidade conquistada. Viu a filha, Polyxena, sacrificada no túmulo de Aquiles. Viveu na esperança de que, pelo menos um dos seus filhos tivesse sobrevivido à exterminação, pois antes da guerra tinha enviado o jovem Polydorus para o seu amigo, o Rei da Trácia.

Pois o seu filho também foi morto traiçoeiramente e o seu corpo atirado ao mar. O momento em que Hecuba toma conhecimento deste facto é descrito por Ovídeo: [trad. A. S. Kline]: "Ela viu o corpo de Polydoro na praia, coberto das feridas abertas infligidas pelas lanças trágicas. As mulheres troianas choravam mas ela estava imóvel de dor. A dor retirava-lhe ao mesmo tempo, o poder da palavra e as lágrimas que jorravam interiormente e ela mantinha-se imóvel como uma rocha, com o olhar, ora fixo no chão, ora virado para o céu. Ora olhava o rosto de seu filho morto, ora as suas feridas..."

O poeta contrasta os gritos desesperados das mulheres troianas com o silêncio com que a mãe olha o corpo morto do seu último filho. Para pessoas criadas no ruído constante este silêncio é o sinal de um sofrimento para além de todos os limites. Não admira que o silêncio tenha sido transferido para lá dos limites humanos, para o mundo dos deuses.

“the sea is silent, and silent are the winds; / But never silent is the anguish here within my breast...” (Simaeta por Teócrito)

Na Antiguidade o silêncio tem 3 dimensões metafísicas: existe no mundo dos mortos, o Hades, no mundo dos sonhos, Hipnos para os gregos (Somnus para os latinos) e no mundo do Norte com os seu frios ventos. Para o mundo mediterrâneo o Norte aparece como uma terra de trevas e frio. As florestas profundas e escuras, cheias de seres medonhos, bárbaros, fora dos limites da civilização. Durante meses, as terras mergulhadas no silêncio imóvel do gelo e da neve.

O Homem da Antiguidade que vivia na realidade do barulho e da comoção, por um lado desejava o silêncio, que associava aos deuses e às dimensões metafísicas, por outro lado temia-o, porque relacionava-o com a noite, o sono, a morte e o sombrio Norte. O silêncio era causa de ansiedade e de uma multitude de sentimentos contraditórios.


Paweł Janiszewski, translated by Kate Webster (excertos, traduzidos por mim) in Oh Silence, Oh Deathly Silent Uproar!* 

* In the original: “Oh Schweigen, oh todtenstiller Lärm!” – Friedrich Nietzsche, Dithyrambs of Dionysus.

A saúde e o ambiente implicam-se mutuamente



Forest loss could make diseases like COVID-19 more likely, according to study


Com o desaparecimento dos habitats, é natural que os animais se aproximem do mundo humano e que os contactos proporcionem ocasiões de transmissão de agentes patogénicos para os quais não temos defesas. 
Cuidar do ambiente e do problema da pobreza são urgências se queremos evitar pandemias recorrentes e, quem sabe, cada vez mais difíceis se tratar, tendo em conta a capacidade de adaptação desses agentes.

De que lado estavas?




Porque continuamos a deixar fugir tantos bons trabalhadores?



Em idade jovem, de construir família e contribuir para a economia do País? Porque damos prioridade a banqueiros e outros que tais em detrimento de quem põe o país a andar. Não são só os enfermeiros que emigram, outras profissões também fogem da falta de reconhecimento que há aqui. Em 2019, a Inglaterra recebeu 2000 pedidos de imigração de enfermeiros portugueses. Só a Inglaterra, fora os outros países para onde emigram.

O que é que os enfermeiros portugueses têm que faz os britânicos gostarem tanto deles?


Cansada de trabalhar a recibos verdes num hospital privado, a enfermeira lisboeta decidiu, em 2014, rumar a Telford, uma cidade com mais de 140 mil habitantes no norte de Birmingham. "Quando disse que ia emigrar ofereceram-me um contrato efetivo, mas a decisão já estava tomada", recorda Marlene Gonçalves.
...
O enfermeiro de 35 anos fala de um reconhecimento social da profissão muito maior em Inglaterra do que em Portugal:
...
"Neste momento nem se fala do Brexit, mas não penso que a saída da União Europeia seja um problema para os enfermeiros", resume Sílvia Nunes.

Os três enfermeiros ouvidos pela TSF, têm ainda mais uma coisa em comum. Com filhos já nascidos do outro lado da mancha não pensam regressar a Portugal.

"Temos saudades da família e do país, mas não está no nosso horizonte nem sei se algum dia estará", assegura Marlene Gonçalves. Já Sílvia Nunes mostra-se mais cautelosa. "Não penso regressar a Portugal, não está fora de hipótese, mas por enquanto não está em cima da mesa."