Não só concordo com ele como me apraz verificar que o trabalho e o método que ele propõe (uma hermenêutica do texto) é o que pratico com os alunos há mais de 30 anos. E antes de o fazer faço uma propedêutica. Os alunos não gostam, ao início, porque vêm habituados a imagens, PPs, gamificação do ensino, vídeos que explicam para não terem que pensar, etc. e porque sentem reais dificuldades. Como diz, com piada, uma colega de francês, os alunos agora têm um português de sobrevivência - mas, na verdade, ainda é abaixo disso. Dado que não há pensamento sem linguagem, o pensamento deles é pobre, simplista e ilógico como a sua linguagem. No entanto, quando as turmas são, pelos menos, razoáveis, em termos de potencial, acabam por perceber que tiram proveito desse trabalho de agricultura do texto, do rigor da análise e da sua complexidade. Também estou de acordo em que a diferenciação dos alunos seja feita, não na aula -nem é possível, como todos os que são professores o sabem- mas nos apoios. Em tempos fazíamos isso com muito sucesso, mas depois o sr. Crato transformou os apoios lectivos em horas não lectivas para sobrecarregar os professores de trabalho ("façam mais com menos") e estragou completamente essa valência. O ideal seria ter em certas aulas de exercícios, um ou dois professores extra na sala de aula para fazerem esse apoio in loco, na hora. Agora nem há professores para apoios. A ideia de que cada aluno aprende de maneira diferente não corresponde às evidências. O que acontece é que cada aluno chega à turma numa situação diferente. Uns vêm muito bem preparados, são pessoas a quem desenvolveram a curiosidade e o sentido do esforço; entre esses e os que chegam ao 10º ano ao nível do 5º, há toda uma miríade de situações, porque a maioria nem sequer chega nas mesmas condições nas várias disciplinas.
Enfim, a ideia deste livro é contra-intuitiva mas bate certo com aquilo que observo nas aulas. É preciso voltar a acreditar que os alunos são capazes de muito mais do que a comida de bebé que lhes dão os novos 'pedabobos', como dizia S. Castilho e voltar a valorizar o trabalho, o esforço e a responsabilidade.
Leveled Reading, Leveled Lives: How Students' Reading Achievement Has Been Held Back and What We Can Do About It
Um livro escrito pelo especialista em literacia Timothy Shanahan e publicado pela Harvard Education Press.
Ganhou o Prémio PROSE de 2026 na categoria de Teoria e Prática da Educação.
Premissa Central
• Crítica à Teoria do Nível de Instrução: Shanahan defende que atribuir aos alunos com dificuldades, textos abaixo do nível da sua série («leitura nivelada») tem, discretamente, prejudicado o desempenho em literacia nas escolas dos EUA ao longo de cinco décadas.
• Falhas fundamentais: Shanahan sintetiza estudos históricos e de investigação que demonstram que os critérios tradicionais para atribuir aos alunos, de forma estrita, os seus níveis de leitura «independentes» ou «de instrução» assentam em evidências fracas e sem fundamento.
• Ineficiência: Reduzir a dificuldade dos textos para os alunos que lêem abaixo do nível da sua série deixa-os ainda mais para trás, em vez de os ajudar a recuperar o atraso e a cada ano que passa o seu atraso cresce.
Solução proposta• Ensino ao nível da série: Defende o ensino aos alunos utilizando textos adequados ao nível da série.
• Apoio estruturado: Fornece orientações práticas aos professores sobre como apoiar os alunos na leitura de materiais complexos.
• Componentes-chave: Enfatiza o ensino explícito da descodificação, a compreensão da linguagem e a manutenção da motivação dos alunos.
Exemplos de estratégias para a sala de aula:
• Utilize textos adequados ao nível escolar (ou até mais exigentes) para todos os alunos: em vez de segregar os alunos em livros de nível inferior, faça com que toda a turma se envolva com textos rigorosos, adequados ao nível escolar ou mesmo ligeiramente superiores (até dois anos acima do nível). Mude o foco de procurar livros «fáceis» para proporcionar um apoio pedagógico sólido.
• Aborde antecipadamente as dificuldades do texto (não o livro na íntegra): analise o texto com antecedência para identificar os principais obstáculos linguísticos, conceptuais ou de vocabulário. Ensine antecipadamente apenas as palavras ou conceitos essenciais desconhecidos que não sejam facilmente compreendidos pelo contexto, em vez de resumir ou ler o texto em voz alta para os alunos, para que estes não tenham de o fazer.
• Implemente a releitura com objetivos específicos: oriente os alunos através de várias leituras da mesma passagem complexa, com objectivos distintos e dependentes do texto em cada ocasião (por exemplo, a primeira leitura para captar o sentido geral ou mapear a estrutura; as leituras subsequentes para análise aprofundada, acompanhamento do raciocínio ou análise sintática).
• Proporcione prática prévia de fluência oral: para alunos cujo nível de leitura está vários anos abaixo do nível da turma, ofereça prática específica de fluência oral antes de iniciar o trabalho de compreensão com toda a turma. Isto reduz a dificuldade na leitura das palavras, para que possam lidar com sintaxe e ideias complexas.
• Analisar explicitamente a sintaxe e as frases complexas: em vez de atribuir estratégias genéricas de compreensão de leitura (como fazer previsões aleatórias ou visualizar), ensine os alunos a desvendar frases longas e complexas, orações densas e estruturas de discurso académico encontradas na literatura real e em textos informativos.
• Diferenciar através do apoio, não do currículo: mantenha o texto comum e de alto nível para todos e diferencie o nível de ajuda que presta. Ofereça orientação mais próxima e prática, intervenção em pequenos grupos ou questionamento orientado aos alunos que precisam de um apoio, ao mesmo tempo que se afasta gradualmente à medida que a competência deles aumenta.
• Reenquadre a dificuldade como um desafio alcançável: motive os alunos, apresentando textos difíceis como um quebra-cabeças ou um objectivo que podem conquistar com o apoio do professor, rejeitando a ideia de que o atrito cognitivo moderado ou a frustração devem ser evitados a todo o custo.