April 07, 2026

Blast from the past (07.04.09)

 

Descubra o emplastro

por beatriz j a, em 07.04.09

 

 Quatro atletas e um emplastro. Onde está o emplastro?

 

                                        

    foto jornal SOL

Varoufakis sendo ele mesmo

 


O líder do DiEM25 criticou veementemente as políticas da Europa em relação à Rússia no contexto da guerra em curso na Ucrânia, classificando-as como um «crime contra a lógica» que, em última análise, prejudica o continente europeu.


🇺🇦 Coisas óbvias

 

Isto é como Trump querer a ajuda da UE ao mesmo tempo que manda o Vancing Queen à Hungria apoiar Orban a minar a UE.

Acerca da educação escolar

 

Algumas turmas requerem que o professor trabalhe incansável e constantemente, com determinação, na imposição de regras de convivência comum e na gestão de expectativas, apenas para chegar a um  nível de comportamento mínimo aceitável de respeito (uns pelos outros e pelo professor) dentro da sala de aula (sem o qual nenhuma experiência de aprendizagem é possível), nível esse de que outras turmas partem naturalmente sem grande esforço.

Às vezes, nessas turmas completamente impreparadas para a aprendizagem académica, onde uma parte grande do tempo é passado a educar e regular as competências sociais dos alunos, têm lá um aluno excepcional, do ponto de vista académico e também pessoal. São alunos cujo potencial nunca será plenamente desenvolvido, nem de perto nem de longe, naquele contexto. Têm excelentes notas, sim, mas fazendo o mínimo pois estão numa turma onde se trabalha para conseguir chegar ao mínimo. Se estivessem em outra turma onde o mínimo dos mínimos é o máximo dos máximos da sua, teriam outro nível de aprendizagem e de oportunidades futuras. A injustiça dessa situação chega a causar maior stress que a gestão da turma com essas características descritas. 

Já quando entram no secundário, alunos que vêm com classificações de 5 a todas as disciplinas mostram, muitas vezes, falhas ao nível do pensamento analítico, organização conceptual, gestão de expectativas, etc. Quando falamos com os seus professores anteriores, dizem-nos, 'essa aluna/o estava numa turma tão má, com um comportamento tão mau, cheio de problemas disciplinares que nem sei como conseguiu manter-se focada apesar de tudo.' Como geralmente os alunos potencialmente excelentes não estão em turmas assim tão más, esse prejuízo nota-se menos, mas existe. Se depois entram numa turma de comportamento e preparação académicas normal, rapidamente ajustam as suas expectativas e progridem, mas se entram numa das outras turmas, estragam ali o potencial do seu futuro. Isto custa muito ver acontecer.

É por isto que hoje-em-dia muitos pais, podendo, tiram os filhos da escola pública. Não estão dispostos a que os filhos sejam cobaias em experiências sociais onde se junta tudo ao molho e à balda nas mesmas turmas com o pretexto ideológico da pseudo-inclusão.

O sistema educativo público existe, não apenas para introduzir as crianças e jovens na sociedade portuguesa (cultural, laboral, etc.) mas também para que possam evoluir nas suas potencialidades globais e interesses, enquanto pessoas. Queremos que a educação pública seja um canal de equidade social, onde os menos favorecidos social e economicamente possam ter acesso a uma aprendizagem que se traduza depois em oportunidades. Só que isso não é possível no modo como a escola está organizada, que é aritmeticamente: dividir o número de alunos por x turmas de x alunos cada, indiferenciadamente, incutir-lhes a ideia de que devem ir todos para a universidade, estudem ou não estudem, venham ou não às aulas, etc.

Uma maioria de alunos não gosta do estudo e não o pratica (aliás com o apoio dos pais que se queixam de ter de acompanhar os filhos no estudo). Tudo que tem que ver com estudar, com compreender conceitos abstractos, fundamentos teóricos, é um sacrifício enorme tirado a ferros. Sempre foi assim, só que agora piorou com as redes sociais e o mundo digital de um contínuo entretenimento como ideal de vida, que os forma como seres intelectualmente passivos, o que é oposto do que devem ser academicamente.

Portanto, estou de acordo em:

1º- Refazer os cursos profissionais. Muitos alunos que definham em cursos de prosseguimento de estudos e que irão engrossar o número dos nem-nem, prosperam em cursos profissionais. Temos falta de trabalhadores em muitas áreas, temos alunos que seriam bons num curso desses, mas dada a organização do sistema, estão em turmas de prosseguimento de estudos a fazer quase nada e, pior, a sabotar as oportunidades dos alunos que querem estudar;

2º - Os alunos deviam ser divididos, a partir de uma certa idade e consoante o seu percurso escolar até então, em alunos 'de desempenho Proficiente' e alunos 'de desempenho Avançado'¹. Esta classificação poria alunos em turmas de nível diferente, com expectativas diferentes quanto ao tipo de curso a seguir - resguardando sempre a possibilidade de um aluno num percurso poder passar do nível proficiente para o nível avançado se alterasse o seu nível de desempenho.

Esta prática permite não sacrificar os alunos com maior potencial de aprendizagem avançada no altar da inclusão fictícia, permite orientar alunos que nunca passarão do nível proficiente para cursos mais adequados às suas competências, permite que estes alunos sintam a escola como útil às suas aspirações de vida prática e, em geral, permite à própria educação pública cumprir o seu desígnio.

Muito são contra esta ideia alegando que no tempo de Salazar quem ia para essas escolas eram os alunos pobres e que agora iria acontecer o mesmo mas, na realidade, há imensos alunos com muito potencial entre os economicamente desfavorecidos cuja inclusão em turmas de alunos desinteressados no conhecimento e no estudo, são o maior obstáculo ao seu desenvolvimento e ao acesso a oportunidades que podiam ter. Alguns são alunos que nem sabem ainda o potencial que têm para o estudo, de tal maneira andaram sempre em turmas onde só se pode trabalhar para os mínimos. São sacrificados no ideal da igualdade, que não existe. 

As pessoas não são iguais. Existem num largo espectro de interesses e capacidades teóricos e/ou práticos. Qualquer professor que trabalhe com alunos numa escola, onde apanha de tudo, sabe isto perfeitamente e a ideia de que, se os professores forem bons todos os alunos passam a querem estudar e aprender é um mito de efeitos castradores para muitos alunos: os que se interessam pelos conhecimentos e não conseguem progredir em turmas de desinteressados e os desinteressados no estudo que não conseguem tirar utilidade da escola num curso prático para o qual estão vocacionados.

Porém, como a seguir ao 25 de Abril a esquerda rotulou os cursos profissionais como fascistas e descriminadores -o que se percebe, à época- esses cursos nunca mais se livraram do rótulo de cursos discriminatórios. É uma pena. Este ano tinha um aluno numa turma de prosseguimento de estudos a fazer nada, desinteressado de tudo. Ainda no 1º período mudou para um curso profissional. Está contentíssimo e com boas notas. O professor de matemática, que dá aulas a ambas as turmas, diz que ele nem parece o mesmo. Já tem um estágio acordado para o ano que vem e está entusiasmado.

Os alunos são pessoas reais, não são entidades abstractas, categorias de ideologias em disputa. Se queremos resolver os problemas temos que olhar os factos e partir daí. 

É claro que os cursos universitários também teriam de reorganizar-se. Neste momento, a maioria dos cursos universitários, por conta da mediocridade da escola pública e da degradação da própria universidade, já não serve o seu propósito de avançar o conhecimento para benefício de todos (veja-se o ataque à ciência fundamental²) e dedica-se apenas a treinar alunos a ter acesso a profissões onde possam fazer muito dinheiro. 

Não digo que estes cursos de ensinar a ganhar dinheiro devem acabar, mas digo que deve haver, nas universidades, uma divisão, a certa altura do percurso do alunos, entre os que querem esse tipo de curso e os que querem avançar o conhecimento porque uns e outros requerem estudantes diferentes, com interesses e perfis diferentes.

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¹- Na proposta das novas AE de Filosofia, distinguem-se, na avaliação, dois níveis de desempenho:  desempenho Proficiente, observa-se uma utilização adequada, consistente e segura dos conhecimentos e das competências em diferentes situações de trabalho escolar, o que possibilita a explicação de fenómenos ou processos, a interpretação de informação e a resolução de tarefas com base no que foi aprendido. Desempenho Avançado, os alunos demonstram uma mobilização mais autónoma, rigorosa e integrada desses conhecimentos e dessas competências. Analisam, interpretam e relacionam informação de forma crítica, utilizam conceitos com rigor e articulam diferentes saberes para explicar fenómenos ou processos de forma fundamentada, revelando maior capacidade de análise, de integração da informação e de aplicação das aprendizagens em diferentes contextos. Estou de acordo com esta divisão.

² - A visão constante dos políticos é a de que temos de investir apenas em tecnologia, apesar de termos uma ou outra universidade excelente na investigação de ciência fundamental (da qual depende a tecnologia), como podemos ler aqui nesta notícia do Público: Trabalho desenvolvido no Técnico premiado pela Sociedade Europeia de Física. “no panorama europeu, este historial coloca o IPFN, o IST e a Universidade de Lisboa em segundo lugar em número de distinguidos com este prémio, apenas atrás da Universidade de Oxford”, com a atribuição deste prémio a Pablo Bilbao a constituir “não só um reconhecimento individual de excelência, mas também um testemunho da força e continuidade da escola de física de plasmas em Portugal”.

🎯 Pensávamos que estávamos a dar às crianças acesso ao mundo

 

.Mas o que estávamos era a dar ao mundo acesso total às crianças.

Um artigo que diz mais da pessoa do que do tema em questão



Rita G. Pereira escreve aqui um artigo do género, 'já deixámos que fizessem algumas revisões ao texto da Constituição aquando da entrada na UE e em mais umas situações pontuais como abolir a irreversibilidade das nacionalizações, querermos todos uma sociedade sem classes e isso. Agora acabou-se e não deixamos que lhe mexam mais porque já nenhuma alteração é significante'. Como se este texto dela no DN, onde esconde passagens autoritárias -e de uma opção ideológica de extrema-esquerda- da Constituição fossem assuntos de menor importância num texto que nos constrange legalmente. É este dogmatismo autoritário da extrema-esquerda que pessoalmente gostava de extrair da Constituição. Rita G. Pereira fala como se a extrema-esquerda e a esquerda em geral fossem donas do país e da sua Constituição. Sim, ela sabe que existem as outras pessoas do país que não se revêm num texto que as obriga a querer uma sociedade socialista, mas em sua opinião essas pessoas não valem nada (são o 'reviralho' da direita) e devem ser ignoradas, purgadas da sociedade dos direitos políticos. Filha de seu pai.


Afinal, o que pretendem mudar na Constituição?

Rita Garcia Pereira DN

A Constituição da República Portuguesa, doravante também designada CRP, é a nossa Lei Fundamental e foi aprovada há 50 anos (depois de uma 'maratona' de 10 meses, 132 plenários e um cerco ao Parlamento)1-2.

Acabaria por ser aprovada, apenas com o voto contra do CDS, quebrando a unanimidade dos votos favoráveis do PS, PPD, PCP, MDP/CDE, UDP e do ADIM.

A sessão de trabalhos de 2 de abril de 1976 revelou-se extensa, começando pelas 09h45 e só terminando às 22h50, segundo os diários da Assembleia Constituinte, depois de a Lei Fundamental ter sido promulgada pelo Presidente da República, Francisco da Costa Gomes, em plenário3. Nessa altura, ouviram-se "aplausos vibrantes", "prolongados, de pé" e foi entoado o Hino Nacional.

Entrou simbolicamente em vigor a 25 de abril de 1976 e instaurou princípios basilares do atual regime democrático, como a separação de poderes, o voto universal, assim como direitos fundamentais, designados como direitos, liberdades e garantias — como o direito à vida, à integridade pessoal, à liberdade de expressão, à igualdade e não-discriminação, à habitação, à saúde, de que o SNS é o símbolo máximo, à educação ou a proibição de despedimentos sem justa causa, entre muitos outros.

Ao contrário do que tem sido o discurso mais recente, a CRP não se tem mostrado inflexível ao longo destas cinco décadas. Pelo contrário, foi alvo de sete revisões, desde a sua aprovação, com alterações mais estruturais e outras mais circunscritas, relacionadas com a adesão a tratados internacionais.

Se em 1976 é facto que estabelecia a transição para o socialismo, assente na nacionalização dos principais meios de produção e manteve a participação do Movimento das Forças Armadas (MFA) no exercício do poder político — através do Conselho da Revolução, que tinha, entre as suas funções, a fiscalização da constitucionalidade das leis —, a verdade impõe que se refira que os deputados alteraram pela primeira vez a Lei Fundamental em 1982, destacando-se a extinção do Conselho da Revolução e a criação do Tribunal Constitucional e do Conselho de Estado.

A ideia basilar desta primeira revisão foi, deste modo, diminuir a carga ideológica do texto, flexibilizar o sistema económico e redefinir as estruturas do exercício do poder político, terminando com a dimensão militar do regime.

Em 1989, houve nova revisão constitucional, que aboliu o princípio da irreversibilidade das nacionalizações diretamente efetuadas após o 25 de Abril de 1974, passando as reprivatizações a poder ser feitas com aprovação por maioria absoluta dos deputados. Previu-se igualmente a possibilidade de referendos e foram eliminadas referências ao conceito de "reforma agrária", passando a referir-se a "eliminação do latifúndio e reordenamento do minifúndio".

Já as revisões constitucionais de 1992 e 1997 visaram, no seu essencial, adaptar o texto constitucional aos princípios dos Tratados da União Europeia, Maastricht e Amesterdão, consagrando ainda outras alterações, como as relativas à capacidade eleitoral de cidadãos estrangeiros, a criação de círculos uninominais em legislativas, o direito de iniciativa legislativa aos cidadãos e o reforço dos poderes legislativos exclusivos da Assembleia da República, entre outros.

Em 2001, a Constituição foi novamente objecto de alteração para permitir a ratificação da Convenção que criou o Tribunal Penal Internacional, alterando as regras de extradição e, meros três anos depois, em 2004, procedeu-se a nova revisão para aprofundar a autonomia político-administrativa das regiões autónomas dos Açores e da Madeira, aumentando os poderes das respetivas Assembleias Legislativas e eliminando o cargo de "Ministro da República", criando o de "Representante da República".

Quanto a esta última, importa ainda assinalar a introdução de maior rigor no princípio da limitação dos mandatos, designadamente dos titulares de cargos políticos executivos, e o direito à não-discriminação por orientação sexual, além de clarificar normas referentes à vigência, na ordem jurídica interna, dos tratados e normas da União Europeia.

Feito este percurso e perante o (ainda assim...) parco elenco de direitos fundamentais a que procedi, podendo juntar, a esses, outros — como o da interdependência dos órgãos de soberania, direito à propriedade e à iniciativa privada, liberdade da comunicação social ou de deslocação e de reunião —, permanece por explicar o que pretendem mudar na Lei Fundamental.

É que, com ressalva de algumas expressões mais simbólicas do que com conteúdo prático, face às revisões a que me referi, as alterações que agora se possam vir a propor a um texto que resistiu muitíssimo bem à pressão dos anos só pode ir no sentido de inibir os já referenciados direitos.

Compreende-se bem que tenha um discurso marcadamente anti-democrático e xenófobo, nalguns casos marcado por uma misoginia mal disfarçada, os valores de Abril mereçam ser abolidos para se instituir o que afirmam ser a dita 4ª República, duvidando que tal pretendido regime consagrasse muitos dos direitos que temos por inquestionáveis, incluindo a liberdade de expressão.

Mas, para os que se limitam a veicular um discurso previamente preparado por terceiros, sem sequer lograrem elencar um único destes aspectos que mereça alteração, a pergunta que se coloca é a de, afinal, exactamente o que pretendem mudar? Acham mesmo que temos direitos a mais?


Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

1A aprovação da Constituição foi fruto de 132 sessões plenárias, que ocuparam quase 500 horas, e 327 sessões das 12 Comissões Especiais constituídas na altura.

2Um dos momentos mais tensos deste período foi o cerco à Assembleia, entre os dias 12 e 13 de novembro de 1975, em que milhares de manifestantes, em larga medida trabalhadores da construção civil, impediram os deputados de sair do Parlamento durante 36 horas, assim como o chefe do Governo, Pinheiro de Azevedo, que estava na residência oficial do primeiro-ministro, contígua ao Palácio de São Bento.

3Nessa noite de 2 de Abril de 1976, Henrique de Barros encerrou os trabalhos da Constituinte retomando o seu apelo inicial, "alterando apenas, como se impõe, o tempo do verbo, e sem tomar partido na querela em torno das condições da revisão constitucional": "Que tenhamos sabido ser dignos de nós próprios, dotando a nossa pátria com uma Constituição que, na sua essência, saiba resistir à prova do tempo."


Tudo o que está mal no sistema político reunido neste exemplo




Compadrio, imoralidade, tráfico de influências, instrumentalização da política para proveito próprio, amancebarem com ditadores, dinheiros suspeitos, desprezo pelo interesse público...


O que tem Embaló para ser alvo de tanta “cortesia” no mundo quando na Guiné-Bissau se grita ditadura?

Deposto Presidente da Guiné-Bissau teve direito a 20 minutos de António Costa em Bruxelas. O ex-primeiro-ministro foi um dos governantes que mais elogiou Embaló, um político enchido de comendas.
6 de Abril de 2026, 21:33

Deposto Presidente da Guiné-Bissau teve direito a 20 minutos de António Costa em Bruxelas. O ex-primeiro-ministro foi um dos governantes que mais elogiou Embaló, um político enchido de comendas.

O seu país não quer, a União Africana também não, mas Macky Sall, o ex-Presidente do Senegal, continua a manter a sua candidatura à sucessão de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas. E como Sall terá servido de ponte para algumas das ligações de Umaro Sissoco Embaló, o Presidente deposto (ou de facto) da Guiné-Bissau, nomeadamente com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, Embaló terá agora retribuído para conseguir um encontro de Sall com o ex-primeiro-ministro português e actual presidente do Conselho Europeu, António Costa.

Sall e Embaló partilham exílio em Marrocos, o primeiro porque tentou sangrentamente manter-se no poder para lá do seu tempo no Senegal e as ruas acabaram por forçar a sua saída em 2024; o segundo, deposto o ano passado num autogolpe de Estado que deixou os seus mais próximos colaboradores com as rédeas do poder, dizem que se tratou de uma forma audaz de evitar a derrota nas eleições presidenciais e poder voltar com as regras do jogo mais apropriadas para ser de novo chefe de Estado.

Aos dois, Costa recebeu 20 minutos no final da tarde de 26 de Março, numa reunião que não constava da agenda oficial do presidente do Conselho Europeu e que só passou a estar quando o Africa Intelligence a noticiou e o Expresso questionou o gabinete do presidente do Conselho Europeu, em Bruxelas. Nesse dia, a União Africana, de que chegou a exercer a presidência rotativa como chefe de Estado senegalês em 2022, ainda não tinha anunciado que não apoiaria a candidatura de Sall a secretário-geral da ONU.

Este é um exemplo elucidativo da teia de relações internacionais que Umaro Sissoco Embaló vem construindo há muitos anos, desde as velhas relações com Muammar Khadafi, de quem terá transportado malas de dinheiro com que o antigo Presidente líbio, deposto e morto em 2011, financiava políticos e partidos africanos, através do Libya Africa Investment Portfolio, o fundo soberano líbio criado em 2005. O mesmo fundo que financiou a campanha do antigo Presidente francês Nicolas Sarkozy em 2007 e lhe valeu uma condenação a cinco anos de prisão efectiva o ano passado.

Como disse a antiga embaixadora e eurodeputada socialista Ana Gomes em 2021, Embaló foi um “serventuário do terrorista Khadafi” e um facilitador de “traficantes de droga”. Na semana passada, quando o Expresso noticiou a reunião, a socialista atacou de forma veemente o ex-primeiro-ministro: “Ignóbil – Costa, hoje Presidente #EUCO [Conselho Europeu], recebeu [o] narco-assassino Sissoco em Bruxelas. Assim soma e segue a sombra do amiguinho Lacerda Machado, CEO de um estranho banco na Guiné-Bissau…”

Lacerda Machado, grande amigo de Costa, que o chegou a contratar para consultor do Governo para a TAP em 2016, é presidente do conselho de administração do Banco da África Ocidental, através da Geocapital que detém uma posição maioritária naquela instituição financeira guineense.

Costa justificou o encontro como de “cortesia”, sem se alongar mais sobre o conteúdo da conversa com os dois ex-chefes de Estado, nem sequer sobre a candidatura de Sall à sucessão de Guterres.

Neste caso, é muito provável que Embaló tenha servido de ponte entre Sall (que conhece desde 2003, quando viveu em Dacar) e Costa. Como antes, o ex-Presidente senegalês terá feito o com o guineense, ao juntá-lo com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan – o primeiro encontro remonta a 2017, quando Embaló era primeiro-ministro; daí para cá, reuniram-se 11 vezes, de acordo com o site oficial da presidência da Turquia.

A Turquia transformou-se num dos principais parceiros do Senegal, com uma centena de empresas turcas a operar no mercado senegalês, com projectos e investimentos que chegavam em 2025 quase aos três mil milhões de dólares. Na Guiné-Bissau, o grupo turco Summa, está a realizar as obras de modernização do Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, tendo ficado desde 13 de Março com a gestão da infra-estrutura nos próximos 40 anos.

Além disso, em 2024, o Governo turco ofereceu três navios para transporte fluvial e segurança costeira às autoridades guineenses. Já se falou que os turcos iriam também modernizar o porto de Bissau, mas tal ainda não aconteceu, como aliás a ligação directa de avião entre a capital guineense e Istambul, prometida o ano passado pela Turkish Airlines e que deveria ter começado a 21 de Março.
Boas relações com líderes mundiais

Mas nem só de Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-Presidente que condecorou Embaló com o Grande Colar da Ordem do Infante, de Macky Sall e de Erdogan se fazem as amizades internacionais do deposto Presidente guineense. A verdade é que para um pequeno país de dois milhões de habitantes na costa ocidental africana, cujo grande recurso de exportação até agora é a castanha de caju e o grande recurso de exploração é o peixe da sua zona económica exclusiva, Embaló conseguiu construir laços com alguns dos principais chefes de Estado.

Com Emmanuel Macron (uma amizade que se consubstanciou em vários encontros e uma visita oficial do Presidente francês a Bissau), com Vladimir Putin (em 2025, foi o único chefe de Estado africano nas celebrações do Dia da Vitória, na Rússia, tendo assinado um acordo militar com a Rússia), com Donald Trump (ajudou a organizar uma visita conjunta de cinco chefes de Estado africanos à Casa Branca em Julho do ano passado), com Xi Jinping (a China continua a ser o principal parceiro guineense, com investimentos em muitos sectores, da castanha de caju à pesca, mas também na exploração de madeira, de areias, de terras raras e com interesse na futura exploração de petróleo e de bauxite).

Ao mesmo tempo, Embaló foi o primeiro líder africano a visitar Kiev depois da invasão russa, em Outubro de 2022, tendo chegado a oferecer os seus préstimos como mediador do conflito. Também fez o mesmo em relação à guerra em Gaza. Além disso, procurou estabelecer vínculos mais chegados com as monarquias do Golfo, valendo-se de ser um chefe de Estado muçulmano, de um país maioritariamente muçulmano, para tentar atrair investimento para a Guiné – os trabalhos preliminares para a construção do hospital de referência em Bissau, financiado pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), iniciaram-se o ano passado.

Os EAU também agraciaram Embaló com uma comenda (Colar da Ordem de Zayed, a sua mais alta condecoração). Outros se juntaram na lista substancial de agraciamentos: Macron nomeou-o Grande Oficial da Ordem da Legião de Honra, Mahmmud Abbas atribui-lhe o Grande Colar da Ordem do Estado da Palestina; no Senegal foi condecorado com a Grande Cruz da Ordem Nacional do Leão; em Cabo Verde, deram-lhe a Ordem de Amílcar Cabral de 1.ª Classe; no Djibuti, a Ordem da Grande Estrela de 1.ª Classe; também recebeu o Grande Colar da Ordem de Timor-Leste e o Grande Cordão da Ordem Suprema da Renascença na Jordânia; enquanto na República Democrática do Congo, passou a ser Grande Cavaleiro da Ordem dos Heróis Nacionais Kabila-Lumumba.

O que muitos guineenses não conseguem entender é como um político capaz de estabelecer tais relações diplomáticas internacionais é incapaz de usar da mesma diplomacia na relação com os guineenses, no respeito pelas instituições democráticas, no respeito pelo trabalho da oposição, mostrando-se ao longo de todo o seu mandato (que prolongou para lá do prazo constitucional) incapaz de agir dentro dos limites constitucionais e da separação de poderes. Que um mandato que derrapou para o autoritarismo, e acabou com um autogolpe para evitar que a vontade dos guineenses expressa nas urnas se cumprisse, conseguiu ter tanto sucesso além-fronteiras, parece estar relacionado com a própria deriva autoritária do mundo em geral.

Noutros tempos, as muitas acusações de ligações ao tráfico de droga de Embaló e o facto de a sua mulher e um seu colaborador próximo terem tentado entrar clandestinamente em Portugal com uma mala com cinco milhões de dólares poderiam ter levado António Costa a pensar duas vezes em aceitar uma reunião de “cortesia” com o Presidente deposto da Guiné-Bissau.

Público

April 06, 2026

Não é de hoje o estado angustiante da civilização

 

A única diferença é estas coisas serem agora feitas às claras, sem nenhum pudor. "Os monstros dantes andavam pelas sombras e agora andam em plena luz do dia". Fui dar com isto no outro blog que estou a copiar antes que o apaguem.

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como é que se pode acreditar na humanidade...
por beatriz j a, em 01.10.10

População da Guatemala foi infectada propositadamente pelos EUA para testar antibiótico.

Na década de 40 o governo dos Estados Unidos levou a cabo uma série de experiências médicas na Guatemala que consistiram na infecção propositada de centenas de guatemaltecos com sífilis e gonorreia sem o seu consentimento.

Como parte do estudo, muitos dos infectados foram incentivados a transmitir a doença a outros. Um terço dos contaminados nunca chegou a receber o tratamento adequado.

Esta sexta-feira é esperada uma conferência de imprensa, onde Hillary Clinton e a secretária dos Serviços de Saúde norte-americanos, Kathleen Sebelius, onde pedirão desculpa às vítimas pelos actos praticados pelo Serviço de Saúde Pública dos EUA. Segundo fontes do governo norte-americano, essas desculpas serão dirigidas à Guatemala e à população hispânica a viver nos EUA.

Segundo o relatório de Reverby, estes testes foram financiados pelos Serviços de Saúde norte-americanos, o Departamento de Saúde Pan-Americano e pelo governo da Guatemala. No total foram infectadas 696 pessoas – a maioria prisioneiros e pacientes femininas do Hospital Nacional de Saúde Mental da Guatemala.

Nocturna

 







A Habilidade Específica do Político segundo Bertrand Russel

 


A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a si mesmo e aos seus aliados. Na política como na moeda há uma lei de Gresham; o homem que visa objectivos mais nobres será expulso, excepto naqueles raros momentos (principalmente revoluções) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paixão interesseira. Além disso, como os políticos estão divididos em grupos rivais, visam a dividir a nação, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra contra outra nação. Vivem à custa do «ruído e da fúria, que nada significam». Não podem prestar atenção a nada que seja difícil de explicar, nem a nada que não acarrete divisão (seja entre nações ou na frente nacional), nem a nada que reduza o poderio dos políticos como classe.

Bertrand Russell, in Ensaios Cépticos: A Necessidade do Ceptcismo Político

A economia explicada às crianças

 

🎯

 

F. A. Hayek Quotes

“Communists and Nazis clashed more frequently with each other than with other parties. They competed for the support of the same type of mind and reserved for each other the hatred of the heretic.” — Friedrich Hayek
(«Os comunistas e os nazis enfrentavam-se entre si com mais frequência do que com outros partidos. Competiam pelo apoio do mesmo tipo de mente e reservavam um ao outro o ódio que se tem pelos hereges.» — Friedrich Hayek)

 

A Ucrânia ilibada de envolvimento na sabotagem dos gasodutos da Sérvia.

 

Foi um acto de sabotagem de um imigrante com treino militar. É a guerra.


Porque se tolera isto?

 

Vejo muitas contas de pessoas da esquerda, inglesas, mas não só, a defender que a violação de raparigas e mulheres europeias por parte dos imigrantes islamitas é um preço suportável a pagar pela integração de mão-de-obra desses países islamofascistas. Dizem que a primeira geração de imigrantes vem com uma educação de violar raparigas e mulheres e em geral tratar as mulheres brancas como lixo, mas a segunda geração já está integrada. Para além do argumento ser criminoso e obsceno -defender que as raparigas e mulheres podem ser deitadas para o caixote do lixo- ainda é falso. Em Inglaterra já vão na terceira geração de imigrantes islamitas e o islamofascismo cresce de dia para dia com a cumplicidade desta nova esquerda amante de fascistas desde que sejam contra a direita ou contra judeus. Porque se tolera isto? Porque os que decidem as políticas não andam na rua a ser assediados e violados. É um problema que lhes passa ao lado.


A esquerda há muito que rompeu o compromisso com a verdade

 

Prudência de Macron - vendeu o ouro que a França tinha nos EUA e comprou ouro na Europa

 


Infográfico - Queda nos resultados da Finlândia no PISA desde 2000 (Leitura, Matemática, Ciências)

 


u/Necessary-Opening694


Infográfico deste dia - evolução dos salários, preço da habitação e comida na Europa



 

u/Geozofija

Durante 4 séculos havia homens que acreditavam serem feitos de vidro - Carlos VI foi um deles


 

Miniature of the bedridden Charles VI, from a 15th century manuscript of Jean Froissart's Chroniques (BnF FR 2646)


What’s wrong? Well everywhere he’s . . . made of glass, you see;
The chairs will be the death of him, he trembles at the bed,
Fearful the one will break his bum, the other smash his head . . .
—Constantijn Huygens, “Costly Folly”, 1642

Inverno de 1393: Paris tem estado fria há semanas. O Sena não está completamente gelado, mas move-se espesso, transportando blocos de gelo que embatem nos pilares das pontes e depois se afastam a girar. No Hôtel Saint-Pol, residência do rei, os corredores estão húmidos apesar das lareiras acesas. E, num quarto perto da parede oriental, um alfaiate real trabalha.

Nesse mês, o rei pediu que se cosesse varetas de ferro no forro das suas roupas. Não armadura — a armadura tem os seus próprios artesãos, a sua própria lógica. Eram peças comuns: o casaco, o gibão. As varetas deveriam percorrer o torso, sustentar a estrutura, manter tudo rígido. O rei, nessa altura, não saía dos seus aposentos há semanas. Carlos VI de França, “o Amado”, tinha então vinte e quatro anos. Durante alguns anos, gerira com sucesso o legado do pai: a corte, as facções, os ingleses, o problema constante do dinheiro.

Depois começou a acreditar que o seu corpo era de vidro. Não como figura de estilo para fragilidade ou para o peso do poder. Pensava que o seu corpo podia literalmente estilhaçar-se, refractar a luz. Como registou o papa Pio II: “Por vezes pensava ser feito de vidro e não permitia que lhe tocassem. Mandou colocar varetas de ferro nas roupas e protegia-se de todas as maneiras para não cair e partir-se.”

Semanas antes da encomenda ao alfaiate, numa sala não muito longe dali, o edifício tinha estado em chamas. O incêndio deflagrou durante um baile de máscaras de inverno: Carlos e cinco nobres estavam vestidos de homens selvagens, com trajes de linho embebidos em pez, negros e pegajosos, e cobertos de linho para parecerem pêlo. Uma faísca, vinda de algum lado. O pez incendiou-se; arderam. Quatro nobres morreram queimados onde estavam. Carlos sobreviveu apenas porque a sua tia, a duquesa de Berry, lançou as saias sobre ele e abafou as chamas. Ficou na sala devastada, com o cheiro a cabelo queimado por todo o lado, a pele intacta, a tremer. A noite ficou conhecida como o Bal des Ardents: o Baile dos Ardentes.

Miniature of the Bal des Ardents, from a manuscript of Jean Froissart's Chroniques (BL Harley 4380), ca. 1770–72 — Source.


Cinco meses antes do incêndio, Carlos tinha saído de Paris à frente de um exército. Um amigo e conselheiro fora atacado — quase morto — e o responsável refugiara-se na Bretanha. Carlos procurava vingança. Ao atravessarem a floresta numa manhã quente de agosto, um leproso descalço e em farrapos saiu das árvores e agarrou as rédeas do rei. “Volta para trás”, gritou. “Estás a ser traído.” Quando a comitiva saiu finalmente da floresta, era meio-dia. Um pajem, entorpecido pelo calor, deixou cair uma lança. Esta bateu num elmo e o som ecoou pela coluna. Carlos estremeceu. Sacou da espada e gritou: os traidores, aqueles de que o homem descalço o avisara, pareciam estar ali, à sua volta. Os cavaleiros dispersaram. Alguns demasiado lentos. Ele matou quatro antes que os outros o arrancassem do cavalo. Quando o puxaram para baixo, estava rígido, olhos abertos, inacessível, ainda a segurar a espada. Quando chegaram a Le Mans, tinha amolecido. Não se lembrava de nada.

Violência, depois fogo, depois vidro — como se o corpo tivesse de ensaiar a sua vulnerabilidade antes de se fixar na metáfora final.

E depois a condição apareceu noutros.

Os pacientes “apareciam sob várias formas”, escreve a historiadora literária Gill Speak, cujo estudo de 1990 continua a ser o relato mais consistente da chamada «ilusão de vidro». “Podia ser um urinol, uma lâmpada de óleo ou outro recipiente de vidro, ou então podia ele próprio estar preso dentro de uma garrafa de vidro.”

Os homens vinham dos Países Baixos, de França, de Espanha — documentados na literatura médica ao longo de quatro séculos, cada um com um auto-diagnóstico preciso e terrível. O médico holandês Levinus Lemnius tratou um paciente perfeitamente racional em tudo menos numa coisa: a convicção absoluta de que as suas nádegas eram feitas do mesmo material que os vidros das janelas. Os médicos André Du Laurens e Alfonso Ponce de Santa Cruz descreveram independentemente um nobre que acreditava ter a forma específica de um jarro de vidro. Não apenas feito de vidro, mas também contido por ele: dormia enterrado em palha, aterrorizado com a ideia de tombar durante a noite e ver-se derramado pelo chão. (Du Laurens registou também um paciente que acreditava que os seus pés eram de vidro e se recusava a andar.)

Em The Optick Glasse of Humors (1607), o clérigo Thomas Walkington recorda um veneziano agorafóbico que temia que as suas “partes traseiras estaladiças” fossem recolhidas por um vidraceiro para fazer vidraças de uma janela. E o polímata renascentista Tommaso Garzoni descreveu um homem que tentou atirar-se para o forno de um vidraceiro e sair de lá como uma inghistara, uma jarra de pescoço longo sem asa. A maioria dos casos dizia respeito a sobreviver como vidro; este era sobre tornar-se vidro.

Nicolas de Larmessin, Habit de vitrier (Glassmaker’s uniform), ca. 1680–1700 — Source.

Os casos acumularam-se na literatura médica — anotados por um médico, citados por outro, surgindo em tratados de Leiden a Paris, de Amesterdão a Lyon. O homem de vidro captou também a imaginação de escritores por toda a Europa; em particular, um romancista espanhol e um filósofo holandês — cada um recorrendo à mesma figura, cada um encontrando nela algo diferente.

Em 1613, no auge da sua fama, Miguel de Cervantes publicou uma coleção de doze novelas curtas, as Novelas Exemplares. A décima primeira era “El licenciado Vidriera”. Contava a história de Tomás Rodaja, estudante de Direito em Salamanca, brilhante e pobre. Uma mulher apaixona-se por ele; ele não corresponde. Ela dá-lhe um filtro amoroso numa marmelada e Tomás come-o. Quando sai da febre, declara: é um homem de vidro, não de carne e osso.

Nas mãos de Cervantes, o delírio torna-se uma espécie de liberdade. Obcecado em proteger o corpo, Tomás deixa de medir palavras. A sua fala torna-se transparente, sem filtros. Critica homens com barbas tingidas; repreende um livreiro por explorar clientes. Um homem pergunta como deixar de invejar os outros. “Vai dormir”, responde Tomás. “Enquanto dormes, és igual àquele que invejas.”

Algumas décadas depois, René Descartes propôs-se duvidar de tudo o que pudesse ser posto em causa. Mas fez questão de distinguir as suas dúvidas — metódicas, filosóficas — das de uma mente perturbada. Para isso, evocou exemplos já correntes: um homem que pensa ser rei sendo pobre; outro que pensa que a sua cabeça é de barro; outro que acredita que o corpo é de vidro. Esses, escreveu, são loucos.

Séculos mais tarde, Michel Foucault argumentaria que Descartes não excluiu o homem de vidro — usou-o para definir o que conta como pensamento válido. E Jacques Derrida responderia que, ao aproximar sonho e loucura, Descartes tinha tornado a própria razão suspeita.

Porquê o vidro? Os estudiosos sugerem duas explicações. A primeira é material: no século XVI, a visão humana estava a ser transformada. Lentes, telescópios, microscópios — todos dependentes do vidro, especialmente o vidro refinado de Murano, quase invisível. A segunda é social: um contágio cultural entre homens letrados que liam os mesmos textos, conheciam os mesmos casos, partilhavam a mesma linguagem para o sofrimento.

Talvez sejam a mesma coisa: o vidro tornou-se simultaneamente omnipresente e estranho — perfeito como metáfora para uma mente sob pressão.

Antes de desaparecer, o fenómeno produziu um último caso notável: pela primeira vez, uma mulher. A princesa Alexandra Amalie da Baviera, nascida em 1826, desenvolveu a convicção de que tinha engolido um piano de cauda feito de vidro. Não que fosse de vidro — mas que o continha. No contexto da corte bávara, o piano era central para o valor social de uma mulher: talento, casamento, reconhecimento. Alexandra viveu o resto da vida a atravessar portas de lado, com extremo cuidado para não “partir” o piano dentro de si.

Replica of Joseph Karl Stieler’s portrait of Princess Alexandra Amalie of Bavaria for the Gallery of Beauties in Nymphenburg Palace, 1845 after 1838 original — Source.


Continuou, no entanto, a escrever: ensaios sobre as pirâmides de Gizé, sobre a dinastia merovíngia.

O delírio do vidro desapareceu da literatura médica em meados do século XIX. Nunca foi comum — mas, durante um período, o vidro tornou-se suficientemente carregado de significado para expressar o que não podia ser dito de outra forma.

O antropólogo médico Mark Nichter, desenvolvendo ideias de Arthur Kleinman, propôs que o sofrimento encontra “idiomas culturais”: formas de expressão que o mundo reconhece. O delírio do vidro era um desses idiomas. Um corpo de vidro não pode ir à guerra, não pode casar, não pode cumprir as exigências da vida cortesã.

Quando o vidro deixou de ser estranho, o idioma perdeu força. Mas o medo não desapareceu — apenas mudou de forma. Veio o telégrafo, os raios invisíveis, a guerra industrial. No pós-guerra, pacientes descritos por Viktor Tausk acreditavam que máquinas invisíveis controlavam os seus pensamentos.

No inverno de 1393, o alfaiate termina o trabalho. O fio atravessa o tecido pesado; as varetas são sólidas, reais nas suas mãos. As costuras resistem. Em breve, o rei vestirá a roupa — e sobreviverá mais um dia dentro de um corpo que nunca foi de vidro, protegido por ferro contra uma fragilidade que existia apenas na sua mente.

Tinha matado homens sem se lembrar. Tinha visto quatro cortesãos arderem vivos numa festa que organizara. Era rei de França desde os onze anos.

Se isso me tivesse acontecido, creio que também acreditaria ser feito de vidro.


Até que enfim que alguém diz publicamente o óbvio