Compadrio, imoralidade, tráfico de influências, instrumentalização da política para proveito próprio, amancebarem com ditadores, dinheiros suspeitos, desprezo pelo interesse público...
O que tem Embaló para ser alvo de tanta “cortesia” no mundo quando na Guiné-Bissau se grita ditadura?
Deposto Presidente da Guiné-Bissau teve direito a 20 minutos de António Costa em Bruxelas. O ex-primeiro-ministro foi um dos governantes que mais elogiou Embaló, um político enchido de comendas.
6 de Abril de 2026, 21:33
Deposto Presidente da Guiné-Bissau teve direito a 20 minutos de António Costa em Bruxelas. O ex-primeiro-ministro foi um dos governantes que mais elogiou Embaló, um político enchido de comendas.
O seu país não quer, a União Africana também não, mas Macky Sall, o ex-Presidente do Senegal, continua a manter a sua candidatura à sucessão de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas. E como Sall terá servido de ponte para algumas das ligações de Umaro Sissoco Embaló, o Presidente deposto (ou de facto) da Guiné-Bissau, nomeadamente com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, Embaló terá agora retribuído para conseguir um encontro de Sall com o ex-primeiro-ministro português e actual presidente do Conselho Europeu, António Costa.
Sall e Embaló partilham exílio em Marrocos, o primeiro porque tentou sangrentamente manter-se no poder para lá do seu tempo no Senegal e as ruas acabaram por forçar a sua saída em 2024; o segundo, deposto o ano passado num autogolpe de Estado que deixou os seus mais próximos colaboradores com as rédeas do poder, dizem que se tratou de uma forma audaz de evitar a derrota nas eleições presidenciais e poder voltar com as regras do jogo mais apropriadas para ser de novo chefe de Estado.
Aos dois, Costa recebeu 20 minutos no final da tarde de 26 de Março, numa reunião que não constava da agenda oficial do presidente do Conselho Europeu e que só passou a estar quando o Africa Intelligence a noticiou e o Expresso questionou o gabinete do presidente do Conselho Europeu, em Bruxelas. Nesse dia, a União Africana, de que chegou a exercer a presidência rotativa como chefe de Estado senegalês em 2022, ainda não tinha anunciado que não apoiaria a candidatura de Sall a secretário-geral da ONU.
Este é um exemplo elucidativo da teia de relações internacionais que Umaro Sissoco Embaló vem construindo há muitos anos, desde as velhas relações com Muammar Khadafi, de quem terá transportado malas de dinheiro com que o antigo Presidente líbio, deposto e morto em 2011, financiava políticos e partidos africanos, através do Libya Africa Investment Portfolio, o fundo soberano líbio criado em 2005. O mesmo fundo que financiou a campanha do antigo Presidente francês Nicolas Sarkozy em 2007 e lhe valeu uma condenação a cinco anos de prisão efectiva o ano passado.
Como disse a antiga embaixadora e eurodeputada socialista Ana Gomes em 2021, Embaló foi um “serventuário do terrorista Khadafi” e um facilitador de “traficantes de droga”. Na semana passada, quando o Expresso noticiou a reunião, a socialista atacou de forma veemente o ex-primeiro-ministro: “Ignóbil – Costa, hoje Presidente #EUCO [Conselho Europeu], recebeu [o] narco-assassino Sissoco em Bruxelas. Assim soma e segue a sombra do amiguinho Lacerda Machado, CEO de um estranho banco na Guiné-Bissau…”
Lacerda Machado, grande amigo de Costa, que o chegou a contratar para consultor do Governo para a TAP em 2016, é presidente do conselho de administração do Banco da África Ocidental, através da Geocapital que detém uma posição maioritária naquela instituição financeira guineense.
Costa justificou o encontro como de “cortesia”, sem se alongar mais sobre o conteúdo da conversa com os dois ex-chefes de Estado, nem sequer sobre a candidatura de Sall à sucessão de Guterres.
Neste caso, é muito provável que Embaló tenha servido de ponte entre Sall (que conhece desde 2003, quando viveu em Dacar) e Costa. Como antes, o ex-Presidente senegalês terá feito o com o guineense, ao juntá-lo com o Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan – o primeiro encontro remonta a 2017, quando Embaló era primeiro-ministro; daí para cá, reuniram-se 11 vezes, de acordo com o site oficial da presidência da Turquia.
A Turquia transformou-se num dos principais parceiros do Senegal, com uma centena de empresas turcas a operar no mercado senegalês, com projectos e investimentos que chegavam em 2025 quase aos três mil milhões de dólares. Na Guiné-Bissau, o grupo turco Summa, está a realizar as obras de modernização do Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira, tendo ficado desde 13 de Março com a gestão da infra-estrutura nos próximos 40 anos.
Além disso, em 2024, o Governo turco ofereceu três navios para transporte fluvial e segurança costeira às autoridades guineenses. Já se falou que os turcos iriam também modernizar o porto de Bissau, mas tal ainda não aconteceu, como aliás a ligação directa de avião entre a capital guineense e Istambul, prometida o ano passado pela Turkish Airlines e que deveria ter começado a 21 de Março.
Boas relações com líderes mundiais
Mas nem só de Costa e de Marcelo Rebelo de Sousa, o ex-Presidente que condecorou Embaló com o Grande Colar da Ordem do Infante, de Macky Sall e de Erdogan se fazem as amizades internacionais do deposto Presidente guineense. A verdade é que para um pequeno país de dois milhões de habitantes na costa ocidental africana, cujo grande recurso de exportação até agora é a castanha de caju e o grande recurso de exploração é o peixe da sua zona económica exclusiva, Embaló conseguiu construir laços com alguns dos principais chefes de Estado.
Com Emmanuel Macron (uma amizade que se consubstanciou em vários encontros e uma visita oficial do Presidente francês a Bissau), com Vladimir Putin (em 2025, foi o único chefe de Estado africano nas celebrações do Dia da Vitória, na Rússia, tendo assinado um acordo militar com a Rússia), com Donald Trump (ajudou a organizar uma visita conjunta de cinco chefes de Estado africanos à Casa Branca em Julho do ano passado), com Xi Jinping (a China continua a ser o principal parceiro guineense, com investimentos em muitos sectores, da castanha de caju à pesca, mas também na exploração de madeira, de areias, de terras raras e com interesse na futura exploração de petróleo e de bauxite).
Ao mesmo tempo, Embaló foi o primeiro líder africano a visitar Kiev depois da invasão russa, em Outubro de 2022, tendo chegado a oferecer os seus préstimos como mediador do conflito. Também fez o mesmo em relação à guerra em Gaza. Além disso, procurou estabelecer vínculos mais chegados com as monarquias do Golfo, valendo-se de ser um chefe de Estado muçulmano, de um país maioritariamente muçulmano, para tentar atrair investimento para a Guiné – os trabalhos preliminares para a construção do hospital de referência em Bissau, financiado pelos Emirados Árabes Unidos (EAU), iniciaram-se o ano passado.
Os EAU também agraciaram Embaló com uma comenda (Colar da Ordem de Zayed, a sua mais alta condecoração). Outros se juntaram na lista substancial de agraciamentos: Macron nomeou-o Grande Oficial da Ordem da Legião de Honra, Mahmmud Abbas atribui-lhe o Grande Colar da Ordem do Estado da Palestina; no Senegal foi condecorado com a Grande Cruz da Ordem Nacional do Leão; em Cabo Verde, deram-lhe a Ordem de Amílcar Cabral de 1.ª Classe; no Djibuti, a Ordem da Grande Estrela de 1.ª Classe; também recebeu o Grande Colar da Ordem de Timor-Leste e o Grande Cordão da Ordem Suprema da Renascença na Jordânia; enquanto na República Democrática do Congo, passou a ser Grande Cavaleiro da Ordem dos Heróis Nacionais Kabila-Lumumba.
O que muitos guineenses não conseguem entender é como um político capaz de estabelecer tais relações diplomáticas internacionais é incapaz de usar da mesma diplomacia na relação com os guineenses, no respeito pelas instituições democráticas, no respeito pelo trabalho da oposição, mostrando-se ao longo de todo o seu mandato (que prolongou para lá do prazo constitucional) incapaz de agir dentro dos limites constitucionais e da separação de poderes. Que um mandato que derrapou para o autoritarismo, e acabou com um autogolpe para evitar que a vontade dos guineenses expressa nas urnas se cumprisse, conseguiu ter tanto sucesso além-fronteiras, parece estar relacionado com a própria deriva autoritária do mundo em geral.
Noutros tempos, as muitas acusações de ligações ao tráfico de droga de Embaló e o facto de a sua mulher e um seu colaborador próximo terem tentado entrar clandestinamente em Portugal com uma mala com cinco milhões de dólares poderiam ter levado António Costa a pensar duas vezes em aceitar uma reunião de “cortesia” com o Presidente deposto da Guiné-Bissau.
Público
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