Sem dúvida.
No entanto, admites que a expressão: Símias ultrapassa Sócrates, não deve ser tomada no sentido literal; não é por sua própria natureza, por ser Símias, que ele o ultrapassa, mas por sua grandeza ocasional, como não ultrapassa Sócrates por este ser Sócrates, mas pela pequenez deste, no que entende com a grandeza do outro.
Certo.
Como também ele não será ultrapassado por Fedão, por este ser Fedão, mas em virtude da grandeza de Fedão em comparação com a pequenez de Símias.
Isso mesmo.
Desse modo, aplica-se a Símias, a um só tempo, o apelido de grande e de pequeno, por estar ele a meio caminho dos dois, excedendo com sua grandeza a pequenez de um deles e reconhecendo no outro a grandeza que vence sua pequenez. Depois, acrescentou sorrindo: Minha linguagem parece de escrivão; mas o que eu disse está certo.
Concordou.
Falei desse jeito por desejar que compartilhes de minha maneira de pensar. O que me parece, é que tanto a grandeza em si mesma não deseja ser grande e pequena ao mesmo tempo, como a própria grandeza presente em nós não aceita jamais aceita a pequenez nem consente em ser ultrapassada. De duas uma terá de ser: ou ela foge e sai do caminho quando dela aproxima seu contrário, a pequenez, ou, com sua chegada, deixa de existir. [Símias, ou é grande quando comparado com outro, ou é pequeno se comparado com outro mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo] O que de nenhum modo deseja, havendo admitido e recebido a pequenez, sem deixar de ser o que era, continuou sendo pequeno, ao passo que a grandeza, com ser grande, jamais consente em ser pequena. O mesmo vale para a pequenez em nós, que nunca se decide a tornar-se grande ou a ser isso mesmo, o que se também se dá com todos os contrários, enquanto cada um é o que é, recusam-se a tornar-se e ser ao mesmo tempo o seu contrário, retirando-se ou desaparecendo quando essa conjuntura se apresenta.
É exatamente assim que eu penso, observou Cebete.
LI – Nesse instante um dos presentes falou, não saberei dizer com segurança quem tivesse sido: Pelos deuses! Em nossa prática de há pouco não foi dito justamente o oposto do que é afirmado agora, que do maior nasce o menor, e vice-versa, do menor o maior, e que essa é, precisamente, a maneira de nascerem os contrários, de seus respectivos contrários? No entanto, quer parecer-me que afirmaste não ser isso possível.
Sócrates, que se inclinara para melhor ouvi-lo, então falou: A observação é corajosa, porém não apanhaste bem a diferença entre o que foi dito antes e a presente afirmativa. O que então dissemos é que a coisa contrário nasce da que lhe é contrária, porém agora que o contrário jamais admite ser seu próprio contrário, nem em nós nem na natureza. Naquela ocasião, meu caro, falávamos de coisa que têm contrários; agora, porém tratamos dos próprios contrários inerentes às coisas, cuja presença empresta a todas a respectiva designação. Ora, o que afirmamos é que esses contrários, justamente, não admitem transição de um para outro.
[Símias participa da Ideia de Grande e da Ideia de Pequenez em tempos diferentes mas isso não transforma o grande em pequeno (ou vice-versa) ou Símias num ser grande e pequeno ao mesmo tempo, apenas sob pontos de vista diferentes, consoante se referem a uma Ideia ou a outra Ideia]