October 30, 2020

Livros gratuitos - Platão, Fédon XVIII (continuação)

 



Fedão – Segundo creio, depois de lhe concederem esse ponto e de admitirem a existência real das Ideias e que é da sua participação que as diferentes coisas recebem determinação particular, perguntou Sócrates o seguinte: Se é assim que falas, continuou, quando dizes que Símias é maior do que Sócrates porém menor do que Fedão, não equivale isso a dizer que em Símias se encontram ambas: grandeza e pequenez?

Sem dúvida.

No entanto, admites que a expressão: Símias ultrapassa Sócrates, não deve ser tomada no sentido literal; não é por sua própria natureza, por ser Símias, que ele o ultrapassa, mas por sua grandeza ocasional, como não ultrapassa Sócrates por este ser Sócrates, mas pela pequenez deste, no que entende com a grandeza do outro.

Certo.

Como também ele não será ultrapassado por Fedão, por este ser Fedão, mas em virtude da grandeza de Fedão em comparação com a pequenez de Símias.

Isso mesmo.

Desse modo, aplica-se a Símias, a um só tempo, o apelido de grande e de pequeno, por estar ele a meio caminho dos dois, excedendo com sua grandeza a pequenez de um deles e reconhecendo no outro a grandeza que vence sua pequenez. Depois, acrescentou sorrindo: Minha linguagem parece de escrivão; mas o que eu disse está certo.

Concordou.

Falei desse jeito por desejar que compartilhes de minha maneira de pensar. O que me parece, é que tanto a grandeza em si mesma não deseja ser grande e pequena ao mesmo tempo, como a própria grandeza presente em nós não aceita jamais aceita a pequenez nem consente em ser ultrapassada. De duas uma terá de ser: ou ela foge e sai do caminho quando dela aproxima seu contrário, a pequenez, ou, com sua chegada, deixa de existir. [Símias, ou é grande quando comparado com outro, ou é pequeno se comparado com outro mas nunca as duas coisas ao mesmo tempo] O que de nenhum modo deseja, havendo admitido e recebido a pequenez, sem deixar de ser o que era, continuou sendo pequeno, ao passo que a grandeza, com ser grande, jamais consente em ser pequena. O mesmo vale para a pequenez em nós, que nunca se decide a tornar-se grande ou a ser isso mesmo, o que se também se dá com todos os contrários, enquanto cada um é o que é, recusam-se a tornar-se e ser ao mesmo tempo o seu contrário, retirando-se ou desaparecendo quando essa conjuntura se apresenta.

É exatamente assim que eu penso, observou Cebete.

LI – Nesse instante um dos presentes falou, não saberei dizer com segurança quem tivesse sido: Pelos deuses! Em nossa prática de há pouco não foi dito justamente o oposto do que é afirmado agora, que do maior nasce o menor, e vice-versa, do menor o maior, e que essa é, precisamente, a maneira de nascerem os contrários, de seus respectivos contrários? No entanto, quer parecer-me que afirmaste não ser isso possível.

Sócrates, que se inclinara para melhor ouvi-lo, então falou: A observação é corajosa, porém não apanhaste bem a diferença entre o que foi dito antes e a presente afirmativa. O que então dissemos é que a coisa contrário nasce da que lhe é contrária, porém agora que o contrário jamais admite ser seu próprio contrário, nem em nós nem na natureza. Naquela ocasião, meu caro, falávamos de coisa que têm contrários; agora, porém tratamos dos próprios contrários inerentes às coisas, cuja presença empresta a todas a respectiva designação. Ora, o que afirmamos é que esses contrários, justamente, não admitem transição de um para outro.

[Símias participa da Ideia de Grande e da Ideia de Pequenez em tempos diferentes mas isso não transforma o grande em pequeno (ou vice-versa) ou Símias num ser grande e pequeno ao mesmo tempo, apenas sob pontos de vista diferentes, consoante se referem a uma Ideia ou a outra Ideia]

Ao dizer isso, voltou-se para Cebete e lhe falou: Porventura, Cebete, lhe disse, deixou-te atrapalhado a objeção deste aqui?

Não é o meu caso, respondeu Cebete, conquanto não possa dizer que tudo para mim esteja claro.

Mas o facto, prosseguiu, é que já assentamos que nunca o contrário pode ser o contrário de si mesmo.

Sem a mínima restrição, foi a sua resposta.

LII – Então, considera também o seguinte, continuou, para ver se estás de acordo comigo. Não há alguma coisa a que damos o nome de quente, e outra que denominamos frio?

Sem dúvida.

E serão, porventura, o mesmo que a neve e o fogo?

Não, por Zeus; nunca afirmei semelhante coisa.

Logo, o quente não é a mesma coisa que o fogo, nem o frio o mesmo que a neve. Exato.

Mas, estou certo de que também admires que nunca poderá a neve, como neve, conforme dissemos há pouco, depois de receber o calor, continuar a ser o que era: neve com calor. Com a aproximação do calor, ou ela se retira ou vem a fenecer.

Perfeitamente.

Tal qual como o fogo: com a chegada do frio, retira-se ou perece; de jeito nenhum, depois de receber o frio, se atreveria a ser o que antes era: fogo, a um tempo, e frio.

Falaste com muito acerto, observou.

Pode acontecer, continuou, nalguns exemplos desse tipo, que não somente a Ideia em si mesma tenha o direito de conservar eternamente o mesmo nome, como também algo diferente que, sem ser daquela Ideia, apresenta-se, enquanto existe, com sua forma. É possível que com o seguinte exemplo eu deixe mais claro meu pensamento. O número ímpar terá de conservar sempre esse nome com o que designamos. Ou não?

Perfeitamente.

Mas, é só com ele que isso acontece – é o que pergunto – ou com mais alguma coisa que, sem ser, de facto, o Ímpar em si mesmo, ao lado do seu próprio nome terá forçosamente de ser sempre denominado dessa maneira, por ser de tal natureza, que nunca pode dispensar o ímpar? Com isso, quero referir-me ao que se passa com o conceito da Tríade e muitos outros da mesma espécie. Considera apenas o número três. Não te parece que ele precisará sempre ser designado, a um só tempo, pelo seu próprio nome e pelo do ímpar, apesar de não ser o nome ímpar a mesma coisa que três? Seja como for, de tal modo é constituída a natureza do três, do cinco e de toda uma metade dos números, que apesar de cada um deles não ser a mesma coisa que o ímpar, sempre terão de ser ímpares. O mesmo se passa com o dois, o quatro e toda a outra metade dos números, que, sem serem o par, sempre terão de ser partes. Admites isso ou não?

Como não admitir? Foi a sua resposta.

Presta agora atenção, disse, ao que me disponho a demonstrar. Trata-se do seguinte: é fora de dúvida que não são apenas os contrários que se excluem reciprocamente, mas todas as coisas que, sem serem contrárias entre si, não admitem a Ideia contrária da que lhes é própria, à aproximação da qual ou cedem o lugar ou vêm a perecer. Pois já não dissemos que o número três primeiro deixará de existir ou sofrerá seja o que for, antes de vir a ficar par, por ser, de facto, o que é, precisamente três?

É muito certo, falou Cebete.

No entanto, continuou, os números dois e três não são contrários entre si.

Nunca.

Logo, não são apenas as ideias contrárias que não admitem a aproximação recíproca; há outras, também, que não aceitam essa aproximação dos contrários.

É muito certo o que afirmas, respondeu.

[as coisas materiais mudam constantemente e à medida que mudam vão participando de Ideias diferentes mas esse processo não afecta as próprias Ideias que se mantêm constantes e imutáveis e nunca o par vem a ser ímpar: a coisa material é que muda.]

LIII – E não acharias bom, continuou, determinarmos, na medida do possível, quais essas idéias?

Perfeitamente.

Não serão, Cebete, prosseguiu, as que forçam as coisas de que elas se apoderam a conservar tanto a sua própria forma como a que sempre lhes é contrária?

Que queres dizer com isso?

O que declaramos neste momento. Como muito bem sabes, todas as coisas de que se apossa a idéia do número três, tanto terão, por força, de ser três como ímpares.

É muito certo.

Ora bem; o que dizemos é que a idéia contrária à forma eu a constitui nunca pode entrar nela.

Nunca, de facto.

O que a constitui é a idéia do ímpar, não é isso mesmo? Certo.

Como o seu contrário é a idéia do par.

Sem dúvida.

Sendo assim, no três jamais entrará a idéia de par. Nunca.

Pelo simples facto de o três não participar do par.

Isso mesmo.

Visto ser ímpar.

Exatamente.


(continua)


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