May 07, 2026

Admirável mundo novo

 

Alunos cometem fraude, vão para os testes com as respostas já cabuladas, não cumprem a suspensão e exigem que as notas obtidas com fraude não sejam anuladas porque querem entrar com elas para a faculdade. Era só 20's atrás de 20's. Como é possível? Os papás apoiam a fraude dos seus príncipes e princesas e foram para a justiça para que os filhos sejam premiados pela fraude. Este é o estado da nossa educação. Em vez do Estado pôr um processo aos alunos e pais por fraude, são os fraudulentos que põem um processo à escola.




À atenção de Sines

 


O Met Gala, este ano, foi revelador do absolutismo para o qual as sociedades resvalam

 

Uma dúzia de bilionários detêm as empresas que põem o mundo em funcionamento e com elas agem como reis absolutos: controlam os políticos e as políticas, controlam quem trabalha e como, através das plataformas manipulam a História, o pensamento, decidem quem será oprimido e por quem, espalham o vício e a doença mental com fins de lucro, decidem quem vive e quem morre.



Bezos roubou as atenções na Met Gala. Os trabalhadores trouxeram o espelho.

A Met Gala de 2026 deveria celebrar a «arte do figurino». Em vez disso, revelou o novo equilíbrio entre cultura, o dinheiro dos bilionários, os conflitos laborais e a imagem pública.

Para quem não ficou a par do que aconteceu: a Met Gala de 2026 não foi apenas mais uma noite de moda com celebridades.

Este ano, Jeff Bezos e Lauren Sánchez Bezos foram nomeados patrocinadores principais e presidentes honorários da exposição e gala «Costume Art» do Met — uma decisão que transformou imediatamente o maior evento de angariação de fundos da moda num ponto de discórdia em torno do dinheiro da tecnologia, da gestão da imagem dos bilionários e do historial laboral da Amazon. O evento terá angariado um valor recorde de 42 milhões de dólares para o Costume Institute, com o patrocínio ligado a Bezos a ajudar a impulsionar a noite

Mas fora dos cordões de veludo, trabalhadores e activistas contavam uma história muito diferente.

Os manifestantes criticaram o papel de Bezos com o simbolismo da «garrafa de urina», remetendo para anos de críticas às condições de trabalho na Amazon e para alegações de que a pressão brutal pela produtividade deixava os trabalhadores sem acesso adequado a casas de banho. O jornal The Independent noticiou que os activistas colocaram cerca de 300 garrafas de urina falsa relacionadas com o protesto.

Posteriormente, o co-fundador do Sindicato dos Trabalhadores da Amazon, Chris Smalls, foi detido no exterior da gala após ter alegadamente atravessado uma barricada durante as manifestações. Isto é relevante porque não se tratou de um protesto aleatório. Smalls ajudou a liderar a histórica luta sindical do JFK8 em Staten Island, e a disputa laboral federal sobre o dever da Amazon de negociar com os trabalhadores continua a fazer parte do registo público mais alargado.

Dentro: bilionários, alta-costura, câmaras, filantropia e a cultura da elite.
Fora: trabalhadores, organizadores, protestos, polícia e a história do mundo do trabalho que a América continua a tentar deixar de fora do enquadramento.


Uma empresa acumula uma enorme riqueza através da escala de operação, dos dados, da disciplina laboral, da automação, do domínio do mercado e do controlo das infra-estruturas.

O seu fundador torna-se uma das pessoas mais ricas do mundo.

A empresa enfrenta críticas relativamente ao tratamento dos trabalhadores, à resistência sindical, à vigilância, à estratégia fiscal e ao poder de mercado.

O fundador passa a dedicar-se à filantropia, aos meios de comunicação social, ao espaço, à cultura e às instituições sociais de elite.

Pede-se ao público que o veja menos como um centro de poder corporativo e mais como um patrono visionário.

Esse é o ciclo. Aconteceu com o petróleo. Aconteceu com os caminhos-de-ferro. Aconteceu com o aço. Aconteceu com a banca. Aconteceu com a tecnologia. Agora está a acontecer em tempo real com a riqueza da era Amazon.

Os uniformes mudam. O padrão não.

HoldingTheTorch

Que horror

 

May 06, 2026

O que é que Tramp conseguiu com o 'desapoio' à Ucrânia?

 


Mostrar à Ucrânia que não precisa dele para vencer Putler, mostrar à Europa que não precisa dos EUA para se defender - só precisa de vontade, determinação e união. Parabéns a Tramp e aos EUA por este conseguimento de perderem parceiros leais e influência no mundo. 


É preciso que a verdade de Putin não estar a ganhar a guerra entre pelos olhos dos russos adentro

 


É preciso que a verdade de Putin não estar a ganhar a guerra entre pelos olhos dos russos adentro


Só quando virem, com os seus próprios olhos, drones em cima da parada de Putler é que acreditam que têm andado a ser enganados. Espero que nesse dia os ucranianos dêem de presente aos russos um espectáculo de fogo de artifício nas centrais petrolíferas. Quando não houver combustível não há bombas.


A Irlanda saiu da UE?

 

Gosto das ideias deste homem

 


Russos a sentir o preço do imperialismo

 


🎯 😁

 

Da @WSJopinion: O que acontecerá quando os europeus descobrirem o quão pobres são? O continente fica muito atrás da produção económica dos EUA. A política acabará por acompanhar essa realidade, mais cedo ou mais tarde. - Joseph Sternberg, @WSJ

Europeus a descobrir que são mais pobres que os americanos:


Recorde-se que os portugueses governaram Ormuz entre 1515 e 1622

 

Recorde-se que os portugueses governaram Ormuz entre 1515 e 1622.
Esta representação dos portugueses em Ormuz, datada de cerca de 1540, mostra-os a comer na água devido ao calor.
A inscrição diz: «Os portugueses de Ormuz que comem na água porque a terra está muito quente»
- Fúria Aristocrática


Estou a ler As Lendas da Índia de Gaspar Correia. A nossa História está cheia de homens e mulheres extraordinários, acontecimentos e episódios extraordinários. Porém, conhece-se melhor a História inglesa, americana e francesa do que a nossa própria. 

Toda a gente sabe quem são os fundadores dos EUA, todos conhecem o nome de generais, de homens e mulheres notáveis americanos, todos conhecem alguns chefes das primeiras nações, o nome de heróis, conhecem episódios da luta contra os ingleses, da luta dos negros pelos direitos civis, episódios dessa luta e personagens notáveis. Todos conhecem reis e personagens da História inglesa e francesa. Batalhas famosas, episódios menores das grandes guerras, etc. Conhecemos isso tudo porque eles fazem filmes sobre tudo.

No entanto, da nossa História que está cheia de factos, episódios e personagens notáveis, desde a sua fundação, quase nada se sabe ao nível do grande público. Sempre fomos um povo em diáspora e temos muitas pequenas histórias da História de toda essa gente. Não se fala de nada nem de ninguém e a disciplina de História na escola está a desaparecer em nome de uma suposta identidade universal, de cariz comunista (não há heróis, somos todos iguais, ninguém é melhor que outro) e falso a qualquer um que saiba olhar para além do fervor religioso à ideologia, que dificulta o nosso sentimento de pertença e a afirmação dos nossos valores.

Que na batalha de Diu vencemos uma coligação de sultões indianos, otomanos e egípcios, tendo nós 18 navios e eles mais de 100 (Fernão de Magalhães ia num dos navios). Que Afonso de Albuquerque conquistou Ormuz e o seu estreito, tendo 500 homens contra 20.000. Que durante as invasões napoleónicas fomos até Madrid e ficámos com o governo da cidade e o deixámos porque preferimos ir derrotar Napoleão. 

Temos histórias de reis, rainhas e gente do povo absolutamente extraordinários e pouco se conhece. Não conhecemos a História distante nem a próxima. Da guerra colonial não se fala, apesar de tantos e tantos estarem vivos e terem histórias para contar - as boas e as más. Da ditadura também não se pode falar que a esquerda não deixa. Como no tempo da ditadura houve o exagero de glorificar conquistas, a seguir a esquerda pôs um rótulo de fascista em toda a nossa História e mandou escondê-la e depreciá-la publicamente como se tudo o que fizemos tivesse sido maligno e envergonhável - entretanto mandou glorificar a História dos fascismos comunistas. Ainda hoje fizeram a figura ridícula de não ir ouvir o Vice-Presidente ucraniano por lealdade a Putin. 

Acho triste.

Um povo que não conhece a sua História, não a lembra e não se reconhece nela, não mantém o fio da memória que lhe confere pertença e identidade. Desonrar a História, desonra-nos. É como desonrar a nossa família porque não gostamos desta pessoa ou porque temos ressentimento, real ou imaginário de outra.

(A frase que atribuem (talvez falsamente) a Sócrates, não sou grego nem ateniense, sou um cidadão do mundo, não significa literalmente, não ter mãe, nem pai, nem país, nem cultura, nem identidade e sermos todos iguais. Significa que a um nível fundamental somos todos humanos)



Putler: hoje é dia de matança de civis


Depois de amanhã quer um cessar-fogo para dar uma festa. 




Portugal e a Ucrânia são os extremos da Europa Continental




Portugal e a Ucrânia são os baluartes da Europa continental”, diz presidente do Parlamento ucraniano

Presidente do Parlamento ucraniano discursou na Assembleia da República e pediu continuidade do apoio de Portugal.

Presidente do Parlamento ucraniano, Ruslan Stefanchuk, foi recebido por Aguiar-Branco e pelos representantes de todos os partidos à excepção do PCP ANTÓNIO PEDRO SANTOS / LUSA
"Portugal e a Ucrânia são os baluartes da Europa continental. Portugal é o flanco mais ocidental, essencial para a segurança marítima e a ligação ao mundo global. A Ucrânia é a sentinela oriental da Europa, onde começa um abismo mental, existencial e civilizacional, e onde passa hoje a linha do confronto entre a vida e a morte, entre o direito de escolha e a ditadura totalitária", afirmou o presidente do Parlamento ucraniano.

"Ao contrário de outros, que viraram a cara, os portugueses disseram que não há guerra alheia quando se trata de liberdade. A guerra continua. Não é um blockbuster do cinema; é uma maratona sangrenta", apontou Ruslan Stefanchuk, apelando à continuação do apoio de Portugal, apesar das consequências económicas globais. "Sei que todos estão cansados da guerra, da incerteza e dos problemas económicos, mas pensem no soldado que vive nas trincheiras, na terra gelada, que também está cansado, não vê a família há meses, porque sabe que, se desistir, o seu país deixará de existir e a Europa deixará de existir." E vincou: "não temos o direito de nos cansarmos enquanto o mal não for derrotado", citando logo a seguir Fernando Pessoa — "tudo vale a pena se a alma não é pequena".

Stefanchuk realçou que há outra "arma que o Kremlin teme profundamente: o futuro europeu da Ucrânia, que empurra a Rússia para um passado sem esperança", para pedir o apoio para a entrada da Ucrânia na União Europeia (UE). "Pedimos a vossa voz no nosso caminho para a UE, porque a Ucrânia é Europa. E não é apenas geograficamente, mas também mentalmente."

Lembrou o 25 de Abril de 1974 dizendo que Portugal "derrubou as correntes do autoritarismo e escolheu a democracia e a Europa. Mais de 50 anos depois, a Ucrânia segue o vosso caminho." Stefanchuk disse que Portugal poderá abrir as portas à Ucrânia para "o vasto mundo lusófono", lembrou que, muitos anos antes da guerra, Portugal "já era casa para muitos ucranianos". "Esta é uma das nossas diásporas mais activas na Europa", apontou, lembrando os representantes da comunidade que assistiram à sessão nas galerias e que motivou um longo aplauso de pé dos deputados.

Por seu lado, José Pedro Aguiar-Branco, que visitou a região de Butcha há 13 meses acompanhado pelo seu homólogo, salientou que “tudo o que fizermos, ou não fizermos, enquanto europeus, nesta fase, em relação à Ucrânia, terá consequências directas no futuro do próprio projecto europeu”. “A luta do povo ucraniano permanece hoje no cerne do projecto europeu. O que está em causa são os fundamentos desta construção. E, por isso, o que se passa na Ucrânia diz respeito a todos nós, os que defendem os valores da liberdade e da democracia e querem uma ordem internacional baseada em regras, não na chantagem e no uso da força.”

Aguiar-Branco insistiu em que “a força do projecto europeu reside, precisamente, nos ideais que encarna: democracia e liberdade" e é uma "construção de paz e não contra alguém, baseada na ideia de respeito pela integridade territorial, pelo Estado de direito, pela liberdade dos povos se exprimirem e de fazerem as suas escolhas”.

O presidente da AR defendeu que a Ucrânia “não quis esta guerra; não é a agressora, é a agredida”, e que o país “luta pelo seu futuro em liberdade”. “A Ucrânia quer paz, mas sabe que não há paz sem liberdade”, vincou Aguiar-Branco, assinalando que depois de quatro anos de guerra, o povo ucraniano “continua a lutar pela liberdade, a resistir ao sofrimento causado pela violência das armas, à desumanidade do rapto das suas crianças e aos horrores provocados pela política de desinformação com o objectivo de distorcer os factos”.

Público

Porque é que os “especialistas” em pedagogia estão errados

 


Este artigo refere-se às universidades americanas mas aplica-se como uma luva ao que se passou e passa nas escolas: a destruição do trabalho pedagógico dos grupos disciplinares (pela Rodrigues para matar a profissão de professor e poder proletarizá-la) e a sua substituição por gurus pedagógicos em universidades que fomentam a externalização da pedagogia com generalidades superficiais de quem não tem nenhuma experiência de ensino escolar, envolta numa linguagem «Tlébica» vomitada em workshops que desviam o professor do desenvolvimento da sua especialidade pedagógica.


Porque é que os “especialistas” em pedagogia estão errados

Ao transferirem a especialização pedagógica para não académicos, as faculdades degradam a sala de aula.

Por Paul Schofield


Imagine uma faculdade discreta de dimensão média, com edifícios de tijolo vermelho, situada nos arredores de uma pequena cidade americana. É composta por um corpo docente dedicado e empenhado, comprometido em proporcionar aos estudantes uma educação que os prepare para florescer tanto como cidadãos como enquanto seres humanos. 

Os seus professores pertencem a departamentos organizados por disciplina, dentro dos quais as decisões curriculares são tomadas colectivamente e os desafios pedagógicos são enfrentados em conjunto. 

São imperfeitos, naturalmente, e frequentemente discordam entre si. Ainda assim, em conjunto, possuem o tipo de sabedoria prática que resulta de anos passados nas suas áreas de especialidade, a ensinar estudantes.

A certa altura, um benfeitor anuncia a intenção de apoiar o corpo docente oferecendo um novo instituto. Dirigido e composto por profissionais que leem revistas de educação e frequentam workshops sobre boas práticas pedagógicas, este Centro de Ensino e Aprendizagem não detém autoridade oficial, limitando-se a oferecer orientação a quem define currículos, concebe disciplinas e elabora trabalhos.

Inicialmente, o centro é visto como um recurso suplementar, a consultar de forma facultativa. Mas, devido ao seu estatuto de facto como polo de especialização pedagógica, passa a parecer indelicado — e depois imprudente — e finalmente irresponsável recusar o seu aconselhamento quando se tomam decisões sobre ensino e currículos. 

Em pouco tempo, professores sobrecarregados começam a evitar a tarefa, exigente em tempo, de discutir pedagogia dentro dos seus departamentos, optando antes por recorrer ao centro — que, afinal, oferece objectivos de aprendizagem pré-fabricados, trabalhos para casa e actividades de aula que podem ser adaptados às necessidades específicas de cada um.

À medida que mais docentes reconhecem a “especialização” do centro, recorrer a ele passa a ser visto como uma virtude. Os professores demonstram o seu compromisso com o ensino — perante os colegas e também perante comissões de progressão na carreira — completando as suas formações, seguindo os seus conselhos e adoptando o seu jargão. 

Em breve, aquilo que antes eram sugestões úteis do centro passa a ser tratado como padrões oficiais de avaliação e apreciação da faculdade. Assim, os departamentos — outrora os locais onde a especialização pedagógica era cultivada e mantida — acabam por depender do centro como uma espécie de farol externo, com os docentes a agir como se sem ele estivessem à deriva.

Muito desta história será reconhecível para docentes das cerca de 1.200 faculdades e universidades que possuem um centro de ensino e aprendizagem nos Estados Unidos. Trabalho que antes era considerado da responsabilidade das unidades académicas passou para gabinetes especializados ocupados por pessoal não académico com pouco (ou nenhum) conhecimento das áreas cujas práticas educativas procuram moldar, e que passam mais tempo em workshops informais do que em salas de aula. 

Este desenvolvimento deveria preocupar não apenas os docentes, mas também os estudantes que ensinam e, na verdade, toda a sociedade que confia a estas instituições a formação de uma população instruída.

Com muitas instituições à procura de reduzir o excesso administrativo, os centros de ensino e aprendizagem deveriam ser considerados bons candidatos a cortes.

Durante anos, foi dito aos professores que, para alinhar o ensino com a investigação mais recente, precisavam de inverter a sala de aula e adaptar-se aos “estilos de aprendizagem” individuais dos estudantes, apenas para ver a base empírica dessas recomendações exposta como exagerada ou até inexistente. E, apesar de o estudo original que promovia a importância do “andaimamento pedagógico” não ter sido replicado com sucesso, os defensores da pedagogia baseada em evidência continuam a tratá-lo como fundamental.

Mas mesmo que deixemos de lado preocupações sobre a qualidade da investigação que sustenta a sua autoridade, há razões para questionar se a própria ideia de um especialista generalista em ensino faz sentido. 

Os departamentos académicos não são apenas lugares onde se desenvolvem competências totalmente gerais enquanto os estudantes exploram um tema que lhes interessa. Nem são locais onde padrões de excelência totalmente gerais são aplicados a um tema definido independentemente desses padrões. Um departamento académico é um espaço que cultiva competências e impõe padrões que lhe são específicos.

Considere-se o exemplo da boa escrita. No início da minha carreira como professor de filosofia, participei num workshop interdisciplinar para docentes universitários, durante o qual nos pediram que identificássemos qualidades de uma excelente composição. Um colega sugeriu “clareza”. Todos assentiram. Ele desenvolveu a ideia, sublinhando que a clareza implica tornar explícita a estrutura dos argumentos apresentados. Nesse momento, alguém de outra área interrompeu para dizer que não era assim que entendia a clareza. Para essa pessoa, a clareza tinha mais a ver com gramática e construção de frases. Tornar explícita a estrutura de um argumento não era algo que procurasse ensinar. Houve alguns acenos, antes de outra pessoa ir mais longe — “clareza” nem sequer era algo que, na sua disciplina, se procurasse promover. A auto-expressão e a exploração pessoal eram os objetivos principais. Sem saber bem como avançar perante o que me parecia um verdadeiro desacordo, a pessoa que conduzia o workshop mudou de assunto.

O problema evidente aqui é que não existe algo como “boa escrita” genérica. Existe boa escrita filosófica, boa escrita científica, boa escrita jornalística, boa escrita criativa, e assim por diante. Tentar dizer algo sobre boa escrita em abstracto não nos leva muito longe.

De modo semelhante, há muito pouco a dizer sobre “bom ensino” entendido de forma genérica. Eu sei o que é bom ensino de filosofia, e a ideia de bom ensino de arquitetura faz sentido para mim. Mas qualquer semelhança entre ambos será tão banal que dificilmente justificaria ouvir um especialista sobre o assunto. 

O ensino de qualidade em áreas específicas é o fundamental, o que sugere que, num sentido importante, são aqueles que trabalham e ensinam nessas áreas os verdadeiros especialistas em ensino.

Para oferecer uma analogia, ninguém pensa que existe algo como “praticar desporto” de forma genérica. Existem futebol, ginástica, golfe, luta, lançamento do peso, cada um com padrões de excelência próprios. É por isso que não criamos centros genéricos de treino desportivo com pessoal que não treina nenhuma modalidade, encarregados de desenvolver workshops simultaneamente para treinadores de luta, remo e polo aquático. Um centro desses acabaria inevitavelmente por preencher o tempo com actividades tão amplas e inespecíficas que seriam triviais.

De facto, vemos algo semelhante em alguns centros de ensino e aprendizagem. Depois de esgotarem, presumivelmente, todas as ideias substantivas relevantes tanto para um professor de cálculo como para um professor de dança, as instituições oferecem cada vez mais programas de valor pedagógico duvidoso — por exemplo, dias de “cuidado comunitário” em que os participantes são encorajados a levar mantas e livros de colorir, ou exercícios de desenvolvimento profissional centrados em brincar com peças LEGO.

A fetichização da especialização entre a classe profissional e gestora em geral, e no ensino superior em particular, explica quase certamente o entusiasmo por estes centros. Cada vez mais, profissionais de elite procuram especialistas credenciados para resolver todos os desafios das suas vidas — desde planos de exercício a organização de casamentos ou treino de cães. Se algo é suficientemente importante para ser feito, é suficientemente importante para pagar a um especialista para o fazer. Não surpreende, portanto, que um docente, ao ter de conceber uma disciplina ou aula de que realmente gosta, procure, como sinal de empenho, um especialista em ensino para assumir pelo menos parte da tarefa.

Mas nem todas as actividades devem — ou sequer podem — ser externalizadas. 

Considere-se as decisões que os pais tomam ao educar os filhos. Ao ponderarem se os devem colocar numa escola privada, permitir que comecem a namorar aos 13 anos, ou exigir que frequentem a igreja, os pais não raciocinam apenas de forma instrumental. Também procuram determinar quais são os seus valores, que objectivos merecem ser perseguidos e o que significa educar aquela criança em particular. Identificam tensões entre valores, estabelecem prioridades e fazem compromissos. Isto faz parte do que é ser pai ou mãe. Se um casal recorresse simplesmente a um consultor parental e seguisse sempre as suas recomendações, não estaria a demonstrar dedicação — não estaria, na verdade, a exercer a parentalidade.

Algo semelhante se pode dizer do ensino. Quando comecei o meu primeiro emprego, estava determinado a levar a sério a responsabilidade de ensinar. Algumas das pessoas que mais admirava eram professores que discutiam comigo interminavelmente se a teoria da causalidade de David Hume era brilhante ou absurda, ou que tentavam convencer-me de que as minhas interpretações de A Tempestade eram interessantes mas também ingénuas. Essas interacções eram íntimas, genuínas e inspiradoras. Escolhi esta carreira porque queria ser como esses professores.

Partindo do princípio de que ser responsável — e também garantir progressão na carreira — implicava consultar especialistas em ensino, fiz exatamente isso. Li livros e artigos revistos por pares sobre pedagogia; participei em workshops e formações; e tratei o que me diziam como autoridade. Passei a acreditar que as aulas expositivas eram ineficazes e tentei abandoná-las. Debates e jogos eram a forma como os estudantes realmente aprendiam, e procurei incluí-los. Salas de aula invertidas eram boas, assim como abordagens de aprendizagem autónoma.

Mas, a certa altura, comecei a sentir-me alienado da actividade que tinha planeado exercer durante toda a minha vida adulta. “Sabia” que ensinar bem implicava envolver os estudantes em actividades de aprendizagem activa, mas já não tinha clareza sobre o que significava, afinal, ter sucesso. Conseguia medir objectivos intermédios (identificar estruturas argumentativas, reconhecer falácias, formular objecções), mas estava a perder o sentido do propósito final de tudo isso.

O mais perturbador de tudo era não reconhecer em mim muitas das qualidades dos professores que queria imitar — qualidades difíceis de definir e talvez um pouco idealistas, como a abertura para deixar um texto transformar-nos profundamente ou a disposição para mergulhar sem reservas em material denso e exigente.

No seu livro The Score, o filósofo C. Thi Nguyen identifica um fenómeno que chama “captura de valor”. Isto acontece quando tentativas institucionais de medir algo importante levam a que valores ricos e subtis sejam reduzidos e distorcidos — ao ponto de se transformarem em algo estranho ou até hostil. Embora os centros de ensino e aprendizagem se apresentem como recursos para melhor concretizar os valores que levam os docentes à profissão, há razões para recear que acabem por os perverter ou destruir.

No início da minha carreira, enfrentei o desafio de ensinar quatro aulas de 80 minutos sobre o filósofo iluminista Gottfried Wilhelm Leibniz. Identifiquei passagens-chave que não sabia como ensinar porque não sabia o que prenderia a atenção dos estudantes nem se eu próprio as compreendia bem. Fui falar com um colega mais experiente. Pegámos no livro e analisámos juntos as passagens, procurando formas de as apresentar. Depois fui para a aula, discuti ideias que ainda estava a tentar compreender, ouvi os estudantes e saí a refletir sobre o que faria de diferente. Isto era ensinar filosofia na sua melhor forma.

Mas a existência de um centro de ensino e aprendizagem cria uma espécie de força gravitacional que nos afasta do gabinete de um colega. Afinal, dizem-nos, os verdadeiros especialistas estão ali — independentemente de terem experiência a ensinar Leibniz ou até experiência significativa de ensino.

Mais ainda, o tempo passado no centro pode ser medido. As visitas contam-se. Os workshops frequentados registam-se. Esses números entram em relatórios anuais e processos de progressão na carreira, permitindo comparações entre docentes de diferentes áreas.

O problema não é apenas que os conselhos do centro sejam menos úteis do que os do meu colega. É que aquilo que faço com o meu colega ao discutir Leibniz e o que faço com os meus estudantes ao ensinar o texto fazem parte do próprio acto de ensinar filosofia. É nesse processo de descoberta e interacção que reside o valor da actividade. Quanto mais me afasto disso, menos estou verdadeiramente a ensinar. Trata-se de “captura de valor” no seu extremo.

Isto deveria preocupar qualquer pessoa que ainda acredita que o ensino superior pode cultivar mentes jovens e promover o florescimento humano. Quando académicos passam horas em centros de ensino, acumulando formações e vendo apresentações em PowerPoint, não estão a fazer aquilo que valorizam. Estão a ser moldados por pessoas fora da sua área para ensinar de forma uniforme e superficial, como se ensinar filosofia fosse igual a ensinar cálculo, excepto pelo facto de uma lidar com argumentos e a outra com números.

Estão a desviar a atenção de autores como James Joyce e da pergunta “o que significa este texto e por que razão importa?”, para objectivos de aprendizagem mensuráveis mas banais. Estão a ser afastados daquilo que vieram fazer.

Com muitas instituições a tentar reduzir o excesso administrativo, os centros de ensino e aprendizagem deveriam ser considerados candidatos óbvios a cortes. Deixemos o ensino para quem passa os dias na sala de aula. Mas, mesmo que esses centros permaneçam, não estamos sem alternativas. Os docentes podem recuperar os papéis que externalizaram. Podemos resistir ao jargão pedagógico; ignorar conselhos baseados em estudos frágeis; passar menos tempo em workshops e mais tempo a ensinar.

Suspeito que, se o fizermos, recuperaremos a sabedoria prática que advém de tratar os nossos departamentos como comunidades de educadores especialistas — algo que talvez nem soubéssemos ter perdido, e cuja recuperação beneficiaria a sociedade que depende de nós para educar os jovens.


Conflito de interesses


Pedro Almeida Vieira ·

DONATIVOS POLÍTICOS SECRETOS: GRAÇA CANTO MONIZ NÃO VÊ QUALQUER INCOMPATIBILIDADE NEM CONFLITO DE INTERESSES
Relatora do polémico parecer da CADA é professora ‘financiada’ pela Google e lidera empresa de protecção de dados
https://paginaum.pt/.../relatora-do-polemico-parecer-da...

A relatora do parecer da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) que sustentou a ocultação dos doadores de partidos tem ligações políticas recentes, passagem pelo CDS-PP e candidatura pela Iniciativa Liberal, integra uma unidade financiada pela Google na Universidade Nova de Lisboa e dirige a empresa do marido na área da cibersegurança e protecção de dados. Graça Canto Moniz rejeita incompatibilidades, mas o caso levanta dúvidas sobre independência e transparência. O parecer foi usado pela Entidade das Contas e Financiamento Políticos (ECFP) para recusar acesso a dados aos jornalistas, o que levou à apresentação de uma intimação do PÁGINA UM no Tribunal Administrativo na passada quarta-feira.
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O dia da justiça é sempre um dia bom

 


CART 7257

FINALMENTE!! JUSTIÇA PARA OS MILITARES AFRICANOS! O que mudou na Lei da Nacionalidade em Portugal?
No dia 3 de maio de 2026, foi aprovada uma alteração legislativa que corrige uma injustiça histórica. O Estado Português decidiu facilitar, de forma definitiva, o acesso à cidadania portuguesa para os antigos combatentes africanos que serviram nas Forças Armadas Portuguesas durante o período colonial.
Por que esta alteração é necessária?
Após o processo de descolonização, muitos desses militares foram deixados numa situação de vulnerabilidade, perdendo o vínculo oficial com Portugal e sendo, na prática, esquecidos pelo país que serviram. Esta medida é, acima de tudo, um ato de reparação histórica:
Devolução de Dignidade: O Estado reconhece que a nacionalidade que lhes foi retirada após a independência dos seus países deve ser devolvida.
Reconhecimento de Serviços: É o reconhecimento oficial de que estes homens foram parte integrante das forças de defesa de Portugal e merecem o mesmo tratamento que qualquer outro veterano.
O que garante o Estatuto do Antigo Combatente?
Além de garantir a nacionalidade, estes veteranos passam a ter acesso pleno aos direitos previstos na Lei n.º 46/2020, que assegura condições de dignidade e honra, tais como:
Honras Fúnebres: Direito a um velório com a bandeira nacional, reconhecendo o seu serviço à pátria.
Repatriamento: Apoio para a trasladação dos corpos daqueles que faleceram em teatros de guerra.
Apoio Social: Acesso a benefícios socioeconómicos pensados para garantir uma melhor qualidade de vida na velhice, corrigindo o abandono que sofreram por décadas após a desmobilização.
Em resumo: Esta é uma vitória de justiça social que encerra um longo ciclo de esquecimento, devolvendo a cidadania e a honra a quem serviu Portugal, integrando-os finalmente no quadro de proteção e reconhecimento dos seus veteranos.




May 05, 2026

É a guerra

 

Só quando a guerra entra pela casa adentro do invasor é que o povo começa a perceber os custos do imperialismo. Agora que vamos entrar no bom tempo da Primavera e do Verão é preciso insistir nas sanções, sejam em forma de impedimentos, dinheiro ou explosões de recursos de guerra. Espero que caiam drones em cima de Putin e do seu exército no dia da parada militar para acabar com esta guerra de vez. Putin vai mandar um sósia à parada... não acredito que tenha coragem de sair do bunker.


🎯

 

Putin iniciou esta guerra para derrubar Kiev e criar um Estado fantoche desmilitarizado.

Mais de quatro anos depois, a Ucrânia tem uma identidade nacional mais forte e forças armadas mais letais do que em qualquer outro momento da sua história.

A invasão russa é um fracasso histórico e catastrófico.

Joni Askola


Mais um ignorante encartado que perora sem tino sobre a educação escolar


Segundo um estudo publicado neste jornal, um quarto dos alunos portugueses acabadinhos de concluir o 1.º ano não consegue ler 21 palavras num minuto.

Não interessa muito se frequentaram uma escola pública ou se andaram num colégio, mas importa determinantemente o contexto familiar em que as crianças são educadas; as habilitações dos pais são o que fazem mexer a agulha do estudo, pelo que a escola falha no papel de nivelador social.

As causas para o declínio são difíceis de apontar, pois é paradoxal que os investimentos nos sistemas de educação e o desenvolvimento geral das populações não se traduzam numa melhoria consistente da compreensão de textos.

Há várias hipóteses, a mais popular das quais que diz que o smartphone —​entretanto, banido das escolas — veio alterar as regras do jogo. As crianças têm acesso a esta tecnologia cada vez mais cedo, o tempo de atenção diminuiu, o algoritmo favorece o scroll e a leitura fica reduzida a um carrossel emocional. Esta é, por exemplo, a teoria de Jonathan Haidt, que correlacionou a explosão dos telemóveis inteligentes e a descida na literacia.

Também se discute, por outro lado, que a mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões. Se isto falha, tudo pode falhar.

Pedro Candeias, Público
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Este articulista é um jornalista desportivo, mas para não deixar sozinha a senhora que esta semana veio para o jornal denegrir a professora do filho mais os colegas e seus pais por causa de uma nota do seu filhinho (em meu entender isto de mostrar o poder de ter acesso a um jornal nacional para fritar os professores do filho configura um caso de bullying) resolveu também exercer a arte de falar do que não sabe.

Em primeiro lugar, as habilitações dos pais são o factor determinante no estudo, logo a escola está a falhar como nivelador social? Ele pensa que as habilitações por si só são uma espécie de pó mágico. As habilitações dos pais significam um nível de vida mais folgado, uma maior consciência da importância da educação escolar, um nível de educação para a aprendizagem, prévia à entrada na escola (saber ouvir, saber seguir uma instrução, estar ciente da necessidade do estudo) um nível de vocabulário, de complexidade frásica e argumentativa, significa que levem os filhos a viajar, que podem pô-los numa explicação quando necessário, etc. Pais a lidar com um só filho. 

As escolas têm os alunos em turmas de 30. Numa mesma turma há alunos que ainda não sabem ler, alunos que têm mais ou menos, alunos que não sabem estar numa sala de aula, que não sabem esperar a sua vez, enfim, sem educação parental para a sociabilidade, alunos completamente auto-indulgentes e alunos que vêm preparados para a aprendizagem escolar. A relação do professor é com o grupo-turma e não com cada aluno individualmente e, ao contrário do que diz este jornalista desportivo que trabalha num jornal mas não está informado, não tem havido investimentos nos sistemas de educação e no desenvolvimento geral das populações. Pelo contrário, estamos mais pobres e as escolas estão à míngua, não têm equipamentos, os currículos são muito pobres e não há professores - penso que tenha ouvido falar disso... Não é possível "nivelar", nestas condições, alunos completamente díspares quanto ao lugar em que se encontram, social, intelectual e emocionalmente, quando entram numa turma. Era preciso ter professores e técnicos a trabalhar com os alunos mais atrasados. Não há professores... Era preciso que os pais fossem responsabilizados pela educação parental. Era preciso tirar o peso de burocracias inúteis de cima dos professores. Os professores não são o Cristo milagreiro.

"Há várias hipóteses [para o declínio da educação], a mais popular das quais diz que o smartphone..." Não é mais popular, é a que tem mais evidências a suportá-la. Quando se vem para os jornais dizer mal dos professores e das escolas, o mínimo é ter um bocadinho de rigor na linguagem. E não, os telemóveis não foram banidos das escolas.

Finalmente, quanto a uma,
mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões
Não há nenhum paradigma que privilegie a eficácia, nem a eficácia é uma alternativa ao pensamento crítico. Existem em conjunto. Já ontem a senhora que vem para os jornais fazer escândalo por causa da nota do filho falava no paradigma da educação que pedia repetição em vez de pedir opiniões analíticas fundamentadas (um conselho que podia ela mesma ter seguido). Não existe nenhum paradigma tal, nem a repetição é concorrente do pensamento analítico. 

Um aluno que está a resolver exercícios de matemática, logo ao nível da escola primária, ao fazer repetidamente o processo de partir o problema nas suas partes e depois operar as partes até resolver o todo, está a interiorizar precocemente o próprio processo de análise de um problema.

"O pensamento crítico é a capacidade de analisar, avaliar e questionar informações de forma objectiva e racional. Envolve cepticismo saudável, lógica e fundamentação para evitar manipulação, sendo crucial para a tomada de decisões" - esta é uma definição da IA, é fácil de encontrar.

Como este senhor devia perceber, nenhum aluno na escola primária ou no 5º ano ou no 7º ou até depois têm essa capacidade analítica (a maioria dos meus alunos no 10º ano não a tem) para a qual se requer, em primeiro lugar, processos de abstração que as crianças ainda não têm. 

Para questionar informações é preciso ter conhecimentos. Se não temos conhecimentos o máximo que podemos fazer são perguntas - se sabemos fazer perguntas significantes, o que também requer alguns conhecimentos. Por exemplo, não falar de soluções na educação escolar sem ter conhecimentos sobre o tema de maneira a não opinar sem fundamento e sem tino. 

Dito isto, as disciplinas, em todos os anos escolares, têm muitos procedimentos e alguns são repetitivos (o que a memória não retém não fica aprendido), que indirectamente vão treinando os alunos nos processos analíticos, interiorizando o método de abstrair-se das inclinações subjectivas e tratar os problemas com regras, critérios objectivos, com preocupação de rigor, ao mesmo tempo que vão construindo um edifício de conhecimentos (da matéria em questão), sem os quais nenhum pensamento crítico é possível. Os processos repetitivos aparecem sempre como aplicação do que foi compreendido anteriormente, portanto, são aplicação de conhecimentos. Mas até essa compreensão, nos primeiros anos de escolaridade é indirecta porque as crianças estão em níveis do desenvolvimento intelectual que não permite a compreensão de certos conceitos. O treino do pensamento nos procedimentos lógicos e analíticos usando regras objetivas e universais é lento e durante muitos anos é indirecto. 

Mesmo um adulto, se quer ser crítico em relação a um assunto, tem que ter conhecimentos. Quando quero perceber assuntos da física fundamental pergunto a um amigo que é especialista nesse campo e, apesar de ser professora e de já ter sido aluna universitária, não assumo que sei o que é a educação universitária e as especificidades do ensino universitário. E quando quero saber pergunto-lhe a ele que é especialista. 

Fico sempre espantada quando os responsáveis políticos vêm dizer que a disciplina de cidadania serve para ensinar pensamento crítico porque é uma declaração da ignorância acerca do que significa treinar o pensamento crítico. Não é uma técnica que se ensine. 

Tudo na educação leva muito tempo, na ordem de anos, a desenvolver e de início só indirectamente se desenvolve, porque o cérebro das crianças e adolescentes tem de passar certas etapas para conseguir realizar certas operações mentais. E o cérebro não opera no vazio, opera sobre dados, conceitos, informações, conhecimentos. 

Na educação tudo é lento e complexo e os títulos dos jornais do género, 'não sei quem tem a receita para uma educação de sucesso' ou 'na escola tal descobriu-se o factor do sucesso' só mostram ignorância crassa e falta de entendimento básico do assunto. Infelizmente, não se coíbem de opinar, mas vemos que as sua opiniões vêm de um lugar vazio.