May 06, 2026

Porque é que os “especialistas” em pedagogia estão errados

 


Este artigo refere-se às universidades americanas mas aplica-se como uma luva ao que se passou e passa nas escolas: a destruição do trabalho pedagógico dos grupos disciplinares (pela Rodrigues para matar a profissão de professor e poder proletarizá-la) e a sua substituição por gurus pedagógicos em universidades que fomentam a externalização da pedagogia com generalidades superficiais de quem não tem nenhuma experiência de ensino escolar, envolta numa linguagem «Tlébica» vomitada em workshops que desviam o professor do desenvolvimento da sua especialidade pedagógica.


Porque é que os “especialistas” em pedagogia estão errados

Ao transferirem a especialização pedagógica para não académicos, as faculdades degradam a sala de aula.

Por Paul Schofield


Imagine uma faculdade discreta de dimensão média, com edifícios de tijolo vermelho, situada nos arredores de uma pequena cidade americana. É composta por um corpo docente dedicado e empenhado, comprometido em proporcionar aos estudantes uma educação que os prepare para florescer tanto como cidadãos como enquanto seres humanos. 

Os seus professores pertencem a departamentos organizados por disciplina, dentro dos quais as decisões curriculares são tomadas colectivamente e os desafios pedagógicos são enfrentados em conjunto. 

São imperfeitos, naturalmente, e frequentemente discordam entre si. Ainda assim, em conjunto, possuem o tipo de sabedoria prática que resulta de anos passados nas suas áreas de especialidade, a ensinar estudantes.

A certa altura, um benfeitor anuncia a intenção de apoiar o corpo docente oferecendo um novo instituto. Dirigido e composto por profissionais que leem revistas de educação e frequentam workshops sobre boas práticas pedagógicas, este Centro de Ensino e Aprendizagem não detém autoridade oficial, limitando-se a oferecer orientação a quem define currículos, concebe disciplinas e elabora trabalhos.

Inicialmente, o centro é visto como um recurso suplementar, a consultar de forma facultativa. Mas, devido ao seu estatuto de facto como polo de especialização pedagógica, passa a parecer indelicado — e depois imprudente — e finalmente irresponsável recusar o seu aconselhamento quando se tomam decisões sobre ensino e currículos. 

Em pouco tempo, professores sobrecarregados começam a evitar a tarefa, exigente em tempo, de discutir pedagogia dentro dos seus departamentos, optando antes por recorrer ao centro — que, afinal, oferece objectivos de aprendizagem pré-fabricados, trabalhos para casa e actividades de aula que podem ser adaptados às necessidades específicas de cada um.

À medida que mais docentes reconhecem a “especialização” do centro, recorrer a ele passa a ser visto como uma virtude. Os professores demonstram o seu compromisso com o ensino — perante os colegas e também perante comissões de progressão na carreira — completando as suas formações, seguindo os seus conselhos e adoptando o seu jargão. 

Em breve, aquilo que antes eram sugestões úteis do centro passa a ser tratado como padrões oficiais de avaliação e apreciação da faculdade. Assim, os departamentos — outrora os locais onde a especialização pedagógica era cultivada e mantida — acabam por depender do centro como uma espécie de farol externo, com os docentes a agir como se sem ele estivessem à deriva.

Muito desta história será reconhecível para docentes das cerca de 1.200 faculdades e universidades que possuem um centro de ensino e aprendizagem nos Estados Unidos. Trabalho que antes era considerado da responsabilidade das unidades académicas passou para gabinetes especializados ocupados por pessoal não académico com pouco (ou nenhum) conhecimento das áreas cujas práticas educativas procuram moldar, e que passam mais tempo em workshops informais do que em salas de aula. 

Este desenvolvimento deveria preocupar não apenas os docentes, mas também os estudantes que ensinam e, na verdade, toda a sociedade que confia a estas instituições a formação de uma população instruída.

Com muitas instituições à procura de reduzir o excesso administrativo, os centros de ensino e aprendizagem deveriam ser considerados bons candidatos a cortes.

Durante anos, foi dito aos professores que, para alinhar o ensino com a investigação mais recente, precisavam de inverter a sala de aula e adaptar-se aos “estilos de aprendizagem” individuais dos estudantes, apenas para ver a base empírica dessas recomendações exposta como exagerada ou até inexistente. E, apesar de o estudo original que promovia a importância do “andaimamento pedagógico” não ter sido replicado com sucesso, os defensores da pedagogia baseada em evidência continuam a tratá-lo como fundamental.

Mas mesmo que deixemos de lado preocupações sobre a qualidade da investigação que sustenta a sua autoridade, há razões para questionar se a própria ideia de um especialista generalista em ensino faz sentido. 

Os departamentos académicos não são apenas lugares onde se desenvolvem competências totalmente gerais enquanto os estudantes exploram um tema que lhes interessa. Nem são locais onde padrões de excelência totalmente gerais são aplicados a um tema definido independentemente desses padrões. Um departamento académico é um espaço que cultiva competências e impõe padrões que lhe são específicos.

Considere-se o exemplo da boa escrita. No início da minha carreira como professor de filosofia, participei num workshop interdisciplinar para docentes universitários, durante o qual nos pediram que identificássemos qualidades de uma excelente composição. Um colega sugeriu “clareza”. Todos assentiram. Ele desenvolveu a ideia, sublinhando que a clareza implica tornar explícita a estrutura dos argumentos apresentados. Nesse momento, alguém de outra área interrompeu para dizer que não era assim que entendia a clareza. Para essa pessoa, a clareza tinha mais a ver com gramática e construção de frases. Tornar explícita a estrutura de um argumento não era algo que procurasse ensinar. Houve alguns acenos, antes de outra pessoa ir mais longe — “clareza” nem sequer era algo que, na sua disciplina, se procurasse promover. A auto-expressão e a exploração pessoal eram os objetivos principais. Sem saber bem como avançar perante o que me parecia um verdadeiro desacordo, a pessoa que conduzia o workshop mudou de assunto.

O problema evidente aqui é que não existe algo como “boa escrita” genérica. Existe boa escrita filosófica, boa escrita científica, boa escrita jornalística, boa escrita criativa, e assim por diante. Tentar dizer algo sobre boa escrita em abstracto não nos leva muito longe.

De modo semelhante, há muito pouco a dizer sobre “bom ensino” entendido de forma genérica. Eu sei o que é bom ensino de filosofia, e a ideia de bom ensino de arquitetura faz sentido para mim. Mas qualquer semelhança entre ambos será tão banal que dificilmente justificaria ouvir um especialista sobre o assunto. 

O ensino de qualidade em áreas específicas é o fundamental, o que sugere que, num sentido importante, são aqueles que trabalham e ensinam nessas áreas os verdadeiros especialistas em ensino.

Para oferecer uma analogia, ninguém pensa que existe algo como “praticar desporto” de forma genérica. Existem futebol, ginástica, golfe, luta, lançamento do peso, cada um com padrões de excelência próprios. É por isso que não criamos centros genéricos de treino desportivo com pessoal que não treina nenhuma modalidade, encarregados de desenvolver workshops simultaneamente para treinadores de luta, remo e polo aquático. Um centro desses acabaria inevitavelmente por preencher o tempo com actividades tão amplas e inespecíficas que seriam triviais.

De facto, vemos algo semelhante em alguns centros de ensino e aprendizagem. Depois de esgotarem, presumivelmente, todas as ideias substantivas relevantes tanto para um professor de cálculo como para um professor de dança, as instituições oferecem cada vez mais programas de valor pedagógico duvidoso — por exemplo, dias de “cuidado comunitário” em que os participantes são encorajados a levar mantas e livros de colorir, ou exercícios de desenvolvimento profissional centrados em brincar com peças LEGO.

A fetichização da especialização entre a classe profissional e gestora em geral, e no ensino superior em particular, explica quase certamente o entusiasmo por estes centros. Cada vez mais, profissionais de elite procuram especialistas credenciados para resolver todos os desafios das suas vidas — desde planos de exercício a organização de casamentos ou treino de cães. Se algo é suficientemente importante para ser feito, é suficientemente importante para pagar a um especialista para o fazer. Não surpreende, portanto, que um docente, ao ter de conceber uma disciplina ou aula de que realmente gosta, procure, como sinal de empenho, um especialista em ensino para assumir pelo menos parte da tarefa.

Mas nem todas as actividades devem — ou sequer podem — ser externalizadas. 

Considere-se as decisões que os pais tomam ao educar os filhos. Ao ponderarem se os devem colocar numa escola privada, permitir que comecem a namorar aos 13 anos, ou exigir que frequentem a igreja, os pais não raciocinam apenas de forma instrumental. Também procuram determinar quais são os seus valores, que objectivos merecem ser perseguidos e o que significa educar aquela criança em particular. Identificam tensões entre valores, estabelecem prioridades e fazem compromissos. Isto faz parte do que é ser pai ou mãe. Se um casal recorresse simplesmente a um consultor parental e seguisse sempre as suas recomendações, não estaria a demonstrar dedicação — não estaria, na verdade, a exercer a parentalidade.

Algo semelhante se pode dizer do ensino. Quando comecei o meu primeiro emprego, estava determinado a levar a sério a responsabilidade de ensinar. Algumas das pessoas que mais admirava eram professores que discutiam comigo interminavelmente se a teoria da causalidade de David Hume era brilhante ou absurda, ou que tentavam convencer-me de que as minhas interpretações de A Tempestade eram interessantes mas também ingénuas. Essas interacções eram íntimas, genuínas e inspiradoras. Escolhi esta carreira porque queria ser como esses professores.

Partindo do princípio de que ser responsável — e também garantir progressão na carreira — implicava consultar especialistas em ensino, fiz exatamente isso. Li livros e artigos revistos por pares sobre pedagogia; participei em workshops e formações; e tratei o que me diziam como autoridade. Passei a acreditar que as aulas expositivas eram ineficazes e tentei abandoná-las. Debates e jogos eram a forma como os estudantes realmente aprendiam, e procurei incluí-los. Salas de aula invertidas eram boas, assim como abordagens de aprendizagem autónoma.

Mas, a certa altura, comecei a sentir-me alienado da actividade que tinha planeado exercer durante toda a minha vida adulta. “Sabia” que ensinar bem implicava envolver os estudantes em actividades de aprendizagem activa, mas já não tinha clareza sobre o que significava, afinal, ter sucesso. Conseguia medir objectivos intermédios (identificar estruturas argumentativas, reconhecer falácias, formular objecções), mas estava a perder o sentido do propósito final de tudo isso.

O mais perturbador de tudo era não reconhecer em mim muitas das qualidades dos professores que queria imitar — qualidades difíceis de definir e talvez um pouco idealistas, como a abertura para deixar um texto transformar-nos profundamente ou a disposição para mergulhar sem reservas em material denso e exigente.

No seu livro The Score, o filósofo C. Thi Nguyen identifica um fenómeno que chama “captura de valor”. Isto acontece quando tentativas institucionais de medir algo importante levam a que valores ricos e subtis sejam reduzidos e distorcidos — ao ponto de se transformarem em algo estranho ou até hostil. Embora os centros de ensino e aprendizagem se apresentem como recursos para melhor concretizar os valores que levam os docentes à profissão, há razões para recear que acabem por os perverter ou destruir.

No início da minha carreira, enfrentei o desafio de ensinar quatro aulas de 80 minutos sobre o filósofo iluminista Gottfried Wilhelm Leibniz. Identifiquei passagens-chave que não sabia como ensinar porque não sabia o que prenderia a atenção dos estudantes nem se eu próprio as compreendia bem. Fui falar com um colega mais experiente. Pegámos no livro e analisámos juntos as passagens, procurando formas de as apresentar. Depois fui para a aula, discuti ideias que ainda estava a tentar compreender, ouvi os estudantes e saí a refletir sobre o que faria de diferente. Isto era ensinar filosofia na sua melhor forma.

Mas a existência de um centro de ensino e aprendizagem cria uma espécie de força gravitacional que nos afasta do gabinete de um colega. Afinal, dizem-nos, os verdadeiros especialistas estão ali — independentemente de terem experiência a ensinar Leibniz ou até experiência significativa de ensino.

Mais ainda, o tempo passado no centro pode ser medido. As visitas contam-se. Os workshops frequentados registam-se. Esses números entram em relatórios anuais e processos de progressão na carreira, permitindo comparações entre docentes de diferentes áreas.

O problema não é apenas que os conselhos do centro sejam menos úteis do que os do meu colega. É que aquilo que faço com o meu colega ao discutir Leibniz e o que faço com os meus estudantes ao ensinar o texto fazem parte do próprio acto de ensinar filosofia. É nesse processo de descoberta e interacção que reside o valor da actividade. Quanto mais me afasto disso, menos estou verdadeiramente a ensinar. Trata-se de “captura de valor” no seu extremo.

Isto deveria preocupar qualquer pessoa que ainda acredita que o ensino superior pode cultivar mentes jovens e promover o florescimento humano. Quando académicos passam horas em centros de ensino, acumulando formações e vendo apresentações em PowerPoint, não estão a fazer aquilo que valorizam. Estão a ser moldados por pessoas fora da sua área para ensinar de forma uniforme e superficial, como se ensinar filosofia fosse igual a ensinar cálculo, excepto pelo facto de uma lidar com argumentos e a outra com números.

Estão a desviar a atenção de autores como James Joyce e da pergunta “o que significa este texto e por que razão importa?”, para objectivos de aprendizagem mensuráveis mas banais. Estão a ser afastados daquilo que vieram fazer.

Com muitas instituições a tentar reduzir o excesso administrativo, os centros de ensino e aprendizagem deveriam ser considerados candidatos óbvios a cortes. Deixemos o ensino para quem passa os dias na sala de aula. Mas, mesmo que esses centros permaneçam, não estamos sem alternativas. Os docentes podem recuperar os papéis que externalizaram. Podemos resistir ao jargão pedagógico; ignorar conselhos baseados em estudos frágeis; passar menos tempo em workshops e mais tempo a ensinar.

Suspeito que, se o fizermos, recuperaremos a sabedoria prática que advém de tratar os nossos departamentos como comunidades de educadores especialistas — algo que talvez nem soubéssemos ter perdido, e cuja recuperação beneficiaria a sociedade que depende de nós para educar os jovens.


Conflito de interesses


Pedro Almeida Vieira ·

DONATIVOS POLÍTICOS SECRETOS: GRAÇA CANTO MONIZ NÃO VÊ QUALQUER INCOMPATIBILIDADE NEM CONFLITO DE INTERESSES
Relatora do polémico parecer da CADA é professora ‘financiada’ pela Google e lidera empresa de protecção de dados
https://paginaum.pt/.../relatora-do-polemico-parecer-da...

A relatora do parecer da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA) que sustentou a ocultação dos doadores de partidos tem ligações políticas recentes, passagem pelo CDS-PP e candidatura pela Iniciativa Liberal, integra uma unidade financiada pela Google na Universidade Nova de Lisboa e dirige a empresa do marido na área da cibersegurança e protecção de dados. Graça Canto Moniz rejeita incompatibilidades, mas o caso levanta dúvidas sobre independência e transparência. O parecer foi usado pela Entidade das Contas e Financiamento Políticos (ECFP) para recusar acesso a dados aos jornalistas, o que levou à apresentação de uma intimação do PÁGINA UM no Tribunal Administrativo na passada quarta-feira.
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O dia da justiça é sempre um dia bom

 


CART 7257

FINALMENTE!! JUSTIÇA PARA OS MILITARES AFRICANOS! O que mudou na Lei da Nacionalidade em Portugal?
No dia 3 de maio de 2026, foi aprovada uma alteração legislativa que corrige uma injustiça histórica. O Estado Português decidiu facilitar, de forma definitiva, o acesso à cidadania portuguesa para os antigos combatentes africanos que serviram nas Forças Armadas Portuguesas durante o período colonial.
Por que esta alteração é necessária?
Após o processo de descolonização, muitos desses militares foram deixados numa situação de vulnerabilidade, perdendo o vínculo oficial com Portugal e sendo, na prática, esquecidos pelo país que serviram. Esta medida é, acima de tudo, um ato de reparação histórica:
Devolução de Dignidade: O Estado reconhece que a nacionalidade que lhes foi retirada após a independência dos seus países deve ser devolvida.
Reconhecimento de Serviços: É o reconhecimento oficial de que estes homens foram parte integrante das forças de defesa de Portugal e merecem o mesmo tratamento que qualquer outro veterano.
O que garante o Estatuto do Antigo Combatente?
Além de garantir a nacionalidade, estes veteranos passam a ter acesso pleno aos direitos previstos na Lei n.º 46/2020, que assegura condições de dignidade e honra, tais como:
Honras Fúnebres: Direito a um velório com a bandeira nacional, reconhecendo o seu serviço à pátria.
Repatriamento: Apoio para a trasladação dos corpos daqueles que faleceram em teatros de guerra.
Apoio Social: Acesso a benefícios socioeconómicos pensados para garantir uma melhor qualidade de vida na velhice, corrigindo o abandono que sofreram por décadas após a desmobilização.
Em resumo: Esta é uma vitória de justiça social que encerra um longo ciclo de esquecimento, devolvendo a cidadania e a honra a quem serviu Portugal, integrando-os finalmente no quadro de proteção e reconhecimento dos seus veteranos.




May 05, 2026

É a guerra

 

Só quando a guerra entra pela casa adentro do invasor é que o povo começa a perceber os custos do imperialismo. Agora que vamos entrar no bom tempo da Primavera e do Verão é preciso insistir nas sanções, sejam em forma de impedimentos, dinheiro ou explosões de recursos de guerra. Espero que caiam drones em cima de Putin e do seu exército no dia da parada militar para acabar com esta guerra de vez. Putin vai mandar um sósia à parada... não acredito que tenha coragem de sair do bunker.


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Putin iniciou esta guerra para derrubar Kiev e criar um Estado fantoche desmilitarizado.

Mais de quatro anos depois, a Ucrânia tem uma identidade nacional mais forte e forças armadas mais letais do que em qualquer outro momento da sua história.

A invasão russa é um fracasso histórico e catastrófico.

Joni Askola


Mais um ignorante encartado que perora sem tino sobre a educação escolar


Segundo um estudo publicado neste jornal, um quarto dos alunos portugueses acabadinhos de concluir o 1.º ano não consegue ler 21 palavras num minuto.

Não interessa muito se frequentaram uma escola pública ou se andaram num colégio, mas importa determinantemente o contexto familiar em que as crianças são educadas; as habilitações dos pais são o que fazem mexer a agulha do estudo, pelo que a escola falha no papel de nivelador social.

As causas para o declínio são difíceis de apontar, pois é paradoxal que os investimentos nos sistemas de educação e o desenvolvimento geral das populações não se traduzam numa melhoria consistente da compreensão de textos.

Há várias hipóteses, a mais popular das quais que diz que o smartphone —​entretanto, banido das escolas — veio alterar as regras do jogo. As crianças têm acesso a esta tecnologia cada vez mais cedo, o tempo de atenção diminuiu, o algoritmo favorece o scroll e a leitura fica reduzida a um carrossel emocional. Esta é, por exemplo, a teoria de Jonathan Haidt, que correlacionou a explosão dos telemóveis inteligentes e a descida na literacia.

Também se discute, por outro lado, que a mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões. Se isto falha, tudo pode falhar.

Pedro Candeias, Público
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Este articulista é um jornalista desportivo, mas para não deixar sozinha a senhora que esta semana veio para o jornal denegrir a professora do filho mais os colegas e seus pais por causa de uma nota do seu filhinho (em meu entender isto de mostrar o poder de ter acesso a um jornal nacional para fritar os professores do filho configura um caso de bullying) resolveu também exercer a arte de falar do que não sabe.

Em primeiro lugar, as habilitações dos pais são o factor determinante no estudo, logo a escola está a falhar como nivelador social? Ele pensa que as habilitações por si só são uma espécie de pó mágico. As habilitações dos pais significam um nível de vida mais folgado, uma maior consciência da importância da educação escolar, um nível de educação para a aprendizagem, prévia à entrada na escola (saber ouvir, saber seguir uma instrução, estar ciente da necessidade do estudo) um nível de vocabulário, de complexidade frásica e argumentativa, significa que levem os filhos a viajar, que podem pô-los numa explicação quando necessário, etc. Pais a lidar com um só filho. 

As escolas têm os alunos em turmas de 30. Numa mesma turma há alunos que ainda não sabem ler, alunos que têm mais ou menos, alunos que não sabem estar numa sala de aula, que não sabem esperar a sua vez, enfim, sem educação parental para a sociabilidade, alunos completamente auto-indulgentes e alunos que vêm preparados para a aprendizagem escolar. A relação do professor é com o grupo-turma e não com cada aluno individualmente e, ao contrário do que diz este jornalista desportivo que trabalha num jornal mas não está informado, não tem havido investimentos nos sistemas de educação e no desenvolvimento geral das populações. Pelo contrário, estamos mais pobres e as escolas estão à míngua, não têm equipamentos, os currículos são muito pobres e não há professores - penso que tenha ouvido falar disso... Não é possível "nivelar", nestas condições, alunos completamente díspares quanto ao lugar em que se encontram, social, intelectual e emocionalmente, quando entram numa turma. Era preciso ter professores e técnicos a trabalhar com os alunos mais atrasados. Não há professores... Era preciso que os pais fossem responsabilizados pela educação parental. Era preciso tirar o peso de burocracias inúteis de cima dos professores. Os professores não são o Cristo milagreiro.

"Há várias hipóteses [para o declínio da educação], a mais popular das quais diz que o smartphone..." Não é mais popular, é a que tem mais evidências a suportá-la. Quando se vem para os jornais dizer mal dos professores e das escolas, o mínimo é ter um bocadinho de rigor na linguagem. E não, os telemóveis não foram banidos das escolas.

Finalmente, quanto a uma,
mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões
Não há nenhum paradigma que privilegie a eficácia, nem a eficácia é uma alternativa ao pensamento crítico. Existem em conjunto. Já ontem a senhora que vem para os jornais fazer escândalo por causa da nota do filho falava no paradigma da educação que pedia repetição em vez de pedir opiniões analíticas fundamentadas (um conselho que podia ela mesma ter seguido). Não existe nenhum paradigma tal, nem a repetição é concorrente do pensamento analítico. 

Um aluno que está a resolver exercícios de matemática, logo ao nível da escola primária, ao fazer repetidamente o processo de partir o problema nas suas partes e depois operar as partes até resolver o todo, está a interiorizar precocemente o próprio processo de análise de um problema.

"O pensamento crítico é a capacidade de analisar, avaliar e questionar informações de forma objectiva e racional. Envolve cepticismo saudável, lógica e fundamentação para evitar manipulação, sendo crucial para a tomada de decisões" - esta é uma definição da IA, é fácil de encontrar.

Como este senhor devia perceber, nenhum aluno na escola primária ou no 5º ano ou no 7º ou até depois têm essa capacidade analítica (a maioria dos meus alunos no 10º ano não a tem) para a qual se requer, em primeiro lugar, processos de abstração que as crianças ainda não têm. 

Para questionar informações é preciso ter conhecimentos. Se não temos conhecimentos o máximo que podemos fazer são perguntas - se sabemos fazer perguntas significantes, o que também requer alguns conhecimentos. Por exemplo, não falar de soluções na educação escolar sem ter conhecimentos sobre o tema de maneira a não opinar sem fundamento e sem tino. 

Dito isto, as disciplinas, em todos os anos escolares, têm muitos procedimentos e alguns são repetitivos (o que a memória não retém não fica aprendido), que indirectamente vão treinando os alunos nos processos analíticos, interiorizando o método de abstrair-se das inclinações subjectivas e tratar os problemas com regras, critérios objectivos, com preocupação de rigor, ao mesmo tempo que vão construindo um edifício de conhecimentos (da matéria em questão), sem os quais nenhum pensamento crítico é possível. Os processos repetitivos aparecem sempre como aplicação do que foi compreendido anteriormente, portanto, são aplicação de conhecimentos. Mas até essa compreensão, nos primeiros anos de escolaridade é indirecta porque as crianças estão em níveis do desenvolvimento intelectual que não permite a compreensão de certos conceitos. O treino do pensamento nos procedimentos lógicos e analíticos usando regras objetivas e universais é lento e durante muitos anos é indirecto. 

Mesmo um adulto, se quer ser crítico em relação a um assunto, tem que ter conhecimentos. Quando quero perceber assuntos da física fundamental pergunto a um amigo que é especialista nesse campo e, apesar de ser professora e de já ter sido aluna universitária, não assumo que sei o que é a educação universitária e as especificidades do ensino universitário. E quando quero saber pergunto-lhe a ele que é especialista. 

Fico sempre espantada quando os responsáveis políticos vêm dizer que a disciplina de cidadania serve para ensinar pensamento crítico porque é uma declaração da ignorância acerca do que significa treinar o pensamento crítico. Não é uma técnica que se ensine. 

Tudo na educação leva muito tempo, na ordem de anos, a desenvolver e de início só indirectamente se desenvolve, porque o cérebro das crianças e adolescentes tem de passar certas etapas para conseguir realizar certas operações mentais. E o cérebro não opera no vazio, opera sobre dados, conceitos, informações, conhecimentos. 

Na educação tudo é lento e complexo e os títulos dos jornais do género, 'não sei quem tem a receita para uma educação de sucesso' ou 'na escola tal descobriu-se o factor do sucesso' só mostram ignorância crassa e falta de entendimento básico do assunto. Infelizmente, não se coíbem de opinar, mas vemos que as sua opiniões vêm de um lugar vazio.

Hello!! Uns são filhos e outros enteados?


Soube hoje que quem dá formação profissional recebe mais 200€ no salário, como prémio, se não reprovar ninguém. 

HELLO! WHAT ABOU US?




Isto não podia ser inventado

 

Nas expressões, 'capitalismo canibal' e 'socialismo canibal', o termo operativo é, 'canibal'

 


A maior fábrica da China, na verdade uma cidade industrial murada, tiveram que instalar redes anti-suicídio nos edifícios. 





por Veridion

Vêm aí os americanos

 




u/Krankenitrate


Kleptocracy Tracker

 

Tenho pena que em Portugal não haja alguém ou um grupo de cidadãos que se dedique a documentar todos os desvios de fundos, fraudes e abusos económicos e financeiros de poder que nos trouxeram aqui a este ponto: multidão de pobres e a classe média a fundir-se nos pobres. Fariam melhor serviço e mais oposição que muitos inúteis que estão no Parlamento a fazer número. Como diz Applebaum, foi esse trabalho de mostrar como Orban estava a destruir a classe média para se enriquecer a si, à sua família e aos amigos que no fim lhe tirou os votos e os deu a Magyar. 

É verdade que não vivemos numa Cleptocracia, que é um sistema onde o poder político se organiza para roubar dinheiro dos contribuintes, como vemos acontecer na Rússia e em outros países, sendo que os EUA para lá caminham a grande velocidade. Porém, já tivemos governos a roçar esse caminho e o último foi o do senhor Costa onde os cargos políticos e de gestão pública estavam reservados para as famílias e amigos dos governantes e todos os dias havia notícias de casos de corrupção, tráfico de influências e abuso de poder. Apesar de Aguiar-Branco se queixar dos políticos serem escrutinados demais e da injustiça de serem percepcionados como lapas agarradas ao poder, precisamos de alguém que rastreie todos os casos de corrupção e os custos em dinheiro a eles associados.


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Kleptocracy Tracker

19 de abril
O bilionário sírio Mohamad Al-Khayyat utilizou uma proposta para um campo de golfe de Trump na Síria e contribuições para campanhas no Congresso para fazer lobby com sucesso junto do presidente e de vários membros do Congresso, com o objetivo de revogar as sanções impostas à Síria durante a presidência de Assad.

20 de abril

Beneficiários empresariais de contratos governamentais, incluindo uma subsidiária do contratante do ICE GEO Group, contribuíram com milhões de dólares para o super PAC de Trump, MAGA Inc., ajudando a angariar um valor recorde de 350 milhões de dólares antes das eleições intercalares de Novembro.

21 de abril
Trump afirmou que iria “lembrar-se” das empresas que não solicitassem reembolsos de tarifas ao governo, depois de o Supreme Court of the United States ter considerado ilegal a sua utilização da International Emergency Economic Powers Act, insinuando que continuaria a usar o poder executivo para punir empresas que o desagradassem.

22 de abril
Operadores financeiros fizeram uma série de apostas no valor de 430 milhões de dólares numa descida dos preços do petróleo bruto apenas 15 minutos antes de Trump anunciar que iria prolongar um cessar-fogo com o Irão — a quarta operação deste tipo, bem cronometrada, desde o início da guerra.

A administração Trump estabeleceu um enquadramento legal para manter anónimas centenas de milhões de dólares doados para financiar a construção de um salão de baile na Casa Branca, limitando as revisões federais de conflitos de interesse.

24 de abril
Apesar das declarações públicas de Trump a condenar mercados de previsão, o Trump Media & Technology Group lançou a sua própria plataforma desse tipo no ano passado, e Donald Trump Jr. tem ligações extensas tanto à Polymarket como à Kalshi.
O CEO da Skydance Media, David Ellison, organizou um jantar para Trump e altos membros do seu gabinete — incluindo o procurador-geral interino Todd Blanche — enquanto aguarda a aprovação do Departamento de Justiça para a aquisição da Warner Bros. Discovery pela sua empresa, no valor de 111 mil milhões de dólares.

O filho do Secretário da Saúde e Serviços Humanos, Robert F. Kennedy Jr., William, procura angariar 100 milhões de dólares para um fundo ligado ao movimento Make America Healthy Again do pai, tentando capitalizar a posição deste no governo.

Trump concedeu um perdão à vereadora republicana de Las Vegas Michele Fiore pela sua condenação por fraude, por ter usado fundos destinados a uma estátua em homenagem a um agente da polícia morto para pagar uma cirurgia estética, renda e o casamento da filha.

25 de abril
A Clark Construction, empresa responsável pela construção do salão de baile da Casa Branca, recebeu em Janeiro passado um contrato sem concurso da administração Trump para reparar duas fontes ornamentais no Lafayette Park. O National Park Service aumentou posteriormente o valor do contrato várias vezes, atingindo finalmente 17,4 milhões de dólares.

Trump organizou um segundo jantar — desta vez em Mar-a-Lago — para os 297 maiores investidores na sua memecoin $TRUMP, seguido de uma recepção para os 29 principais investidores.

28 de abril
Menos de um mês depois de a administração Trump anunciar acusações criminais e sanções contra uma rede criminosa transnacional acusada de roubar milhares de milhões de dólares a cidadãos americanos, a World Liberty Financial anunciou uma parceria com uma empresa de moeda digital cujos líderes tinham sido sancionados nessa mesma operação.

29 de abril
Após uma década a evitar locais associados a Trump, o PGA Tour será realizado no Trump National Doral, de 30 de abril a 3 de Maio, onde uma estátua dourada do presidente — patrocinada pelo grupo de criptomoeda Patriot Token — presidirá ao Cadillac Championship.

Uma análise da Popular Information revelou que Trump promoveu os seus negócios pelo menos 110 vezes desde o início do seu segundo mandato, através de publicações na Truth Social, declarações públicas e locais de eventos.

A Amazon está a considerar lançar um reboot de The Apprentice, desta vez com Donald Trump Jr. como apresentador.

30 de abril
Uma análise do grupo de defesa sem fins lucrativos Anti-Corruption Data Collective concluiu que metade de todas as apostas de alto risco — definidas como apostas de 2.500 dólares ou mais com probabilidades de 35% ou menos — sobre ações militares ou de defesa em mercados de previsão como Polymarket e Kalshi são bem-sucedidas, sugerindo que muitos utilizadores negoceiam com base em informação classificada como privilegiada.

Uma empresa de fachada apoiada por Eric Trump e Donald Trump Jr. fundiu-se com um grupo de minerais críticos que recebeu até 1,6 mil milhões de dólares do governo dos EUA no ano passado para explorar tungsténio no Cazaquistão.

Uma empresa de drones também apoiada pelos irmãos — Powerus — conseguiu o seu primeiro contrato com o governo dos EUA para um número não divulgado de drones interceptores destinados à Força Aérea dos EUA.

Open Letters, from Anne Applebaum 

Citação deste dia

 

«Nenhuma tirania é mais cruel do que aquela praticada à sombra das leis e sob o pretexto da justiça — quando, por assim dizer, se procede ao afogamento dos infelizes precisamente na tábua com que se tinham salvo.»

— Montesquieu (1689–1755)

The Wisdom Letter

Pode uma sociedade considerar-se justa se as suas salvaguardas agravam a vulnerabilidade que prometem aliviar?

May 04, 2026

Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades II

 


Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades

 


Coisas óbvias

 

Putler, escondido no bunker com medo da internet, pediu a Trump que lhe desse um cessar-fogo de um dia para dar uma festa. Ainda não percebeu que os EUA já não têm esse poder de influência. Trump delapidou-o a troco de promessas de dinheiro fácil.


Não haverá cessar-fogo no dia 9 de maio. «Ninguém pediu oficialmente à Ucrânia um cessar-fogo no dia 9 de maio», afirmou Zelenskyy.

«Um cessar-fogo de um dia, e antes disso, matar o nosso povo – isso é, por assim dizer, desonesto. Hoje Merefa, ontem Dnipro – mortos, feridos, adultos, crianças. Depois, dizer: Vamos parar por um dia para fazer um desfile – isso não é sério. Não temos feriados. Depois de 9 de maio, eles vão matar novamente.»

🎼 What a difference a lider makes, in 24 little hours 🎼

 

Enquanto uns se isolam e tornam o mundo mais paroquial, outros expandem-se e tornam o mundo mais actual.


Educação: remover o órgão e exigir a função

 

«E, ao mesmo tempo — tal é a tragicomédia da nossa situação —, continuamos a clamar por essas mesmas qualidades que estamos a tornar impossíveis. É quase impossível abrir uma revista sem deparar-se com a afirmação de que o que a nossa civilização precisa é de mais “determinação”, ou "dinamismo", ou "abnegação", ou “criatividade”. Com uma espécie de simplicidade medonha, removemos o órgão e exigimos a função. Criamos homens sem peito e esperamos deles virtude e iniciativa. Rimos da honra e ficamos chocados ao encontrar traidores no nosso meio. Castramos e exigimos que os castrados sejam fecundos.» 
— C. S. Lewis (1898–1963), “The Abolition of Man

The Wisdom Letter

Como é que uma cultura lamenta a ausência de virtudes que, silenciosamente, ensinou as pessoas a abandonar?


A educação é mais do que escolher um curso e uma carreira para fazer dinheiro



Hoje em dia, pensamos na educação como uma série de disciplinas dispersas que se estudam por motivos de carreira e mobilidade social:

A matemática é para engenheiros
A medicina é para médicos
A ciência é para biólogos
As humanidades são para pessoas sem recursos

A ideia da educação actual consiste em escolher uma disciplina, manter-se no seu caminho, formar-se, iniciar a carreira e depois fazer dinheiro. 

A educação é muito mais do que isso — durante a maior parte da História, a educação destinava-se a libertar a pessoa. A educação clássica ensinava para que a alma pudesse ser libertada; livre da confusão e do vício, orientada para a sabedoria e capaz de viver uma vida digna e com significado. (Sean Berube)

Como é que uma sociedade lamenta a ausência da cultura que, silenciosamente, ensinou as pessoas a abandonar?

Revisão do ECD: o ME pretende cortar fundos e eliminar direitos?




A insustentável dureza da revisão do ECD

O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade e, desde logo, os docentes se mobilizarem.

Mário Nogueira

O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade e, desde logo, os docentes se mobilizarem.

Adiando o que é prioritário para valorizar a carreira e tornar atrativa a profissão docente, os ministérios da Educação e das Finanças vão arrastando o processo de revisão do Estatuto da Carreira Docente (ECD). Para tal contribuirá o facto de os governantes terem percebido que a concretização das suas intenções é mais difícil do que pensavam, mas, também, que a contestação dos professores sobe de tom. Num momento em que são vários e justos os motivos de contestação dos portugueses (pacote laboral, preço dos combustíveis e inflação em geral, insuficiente apoio às vítimas das tempestades ou apoio ao belicismo de gente perigosa), o Governo não quer abrir um novo foco de forte protesto. Como tal, este é o momento oportuno de lutar para travar o objetivo dos governantes e conseguir que, da revisão do ECD, resulte a indispensável e inadiável valorização da carreira e da profissão de professor(a) e educador(a).

Ao longo do processo tem havido quem branqueie o curso da revisão, considerando serem apenas alterações de semântica, pelo que corpo especial e carreira de regime especial são a mesma coisa, assim como concurso e procedimentos concursais, ou que o facto de a carreira docente ser de corpo especial não evitou a divisão em categorias.

Há que ser sério: o que afirmam ser igual é muito diferente e, quanto à divisão, não teve a ver com a natureza da carreira, mas com a organização, passando de unicategorial para pluricategorial, o que foi derrotado, com luta, pelos professores.

Há 18 anos, na sequência da Lei 12-A/2008, cerca de mil carreiras da Administração Pública (AP) foram extintas e automaticamente integradas na de regime geral, então criada. Já os corpos especiais (diplomatas, militares, segurança, docentes, investigadores, médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e terapêutica e bombeiros) seriam convertidos em carreiras de regime especial, através de processos de revisão que iriam estabelecer, para cada um, as normas de transição. Só enfermagem (2009) e técnicos de diagnóstico e terapêutica (2017) viram a carreira convertida, com consequências que têm justificado fortes lutas, devido, entre outros motivos, à avaliação pelo SIADAP e à perniciosidade da TRU.

Para o Governo chegou a vez dos docentes, daí, logo à cabeça, ter escrito que a carreira será de regime especial, grau de complexidade funcional 3 (que decorre do requisito habilitacional), e que o perfil do docente terá em conta o Referencial de Competências para a AP (ReCAP), publicado pela Portaria 214/2024/1, que serve para caraterizar os postos de trabalho dos mapas de pessoal, os procedimentos concursais, a formação e desenvolvimento profissional e a avaliação do desempenho.

Do já longo processo, mas ainda curta revisão, já se percebeu a intenção de: as vagas de quadro serem substituídas por postos de trabalho (obviamente, em “mapas de pessoal”), com exceção dos quadros de zona pedagógica que, tendo 17.000 docentes, seria impossível afetar cada um a uma “unidade orgânica”; as cinco modalidades do concurso serem substituídas por dois procedimentos concursais que, misturando-as, complicam o que existe; todos os docentes passarem a estar sob regime de contratação em funções públicas, uns a termo e outros por tempo indeterminado, extinguindo-se a natureza definitiva do vínculo; o absurdo período probatório a mudar de nome para período experimental com indução, que não é uma coisa nem outra; as habilitações profissionais e próprias a serem substituídas por formação científica e pedagógica e formação científica, possibilitando que docentes sem formação pedagógica possam lecionar onde hoje estão impedidos, como é o caso do 1.º ciclo. A “vinculação” passa a fazer-se por “recrutamento”, que é a conversão do contrato a termo em tempo indeterminado, mas ainda sem se compreender o mecanismo. Ademais, o ministério pretende eliminar direitos como os de negociação coletiva, participação ou reconhecimento de doenças provocadas ou agravadas pelo exercício da profissão.

Quanto à estrutura da carreira, salários e progressão (TRU?), avaliação do desempenho (SIADAP? e ReCAP!), horários de trabalho e reduções letivas, por exemplo, são aspetos empurrados para mais tarde.

O anunciado objetivo da revisão era valorizar uma profissão de que muitos saem, por aposentação ou abandono, e poucos escolhem, havendo mesmo 30% dos estudantes dos cursos a desistir deles. Contudo, se o processo não está a corresponder ao que seria espectável, afirmações do ministro em que lamenta ser o patrão que mais emprega, comparando a Educação a uma cadeia de supermercados, e que a despesa com docentes atinge os 2% do PIB, indiciam que o governante se queixa de haver professores a mais e despesa excessiva, o que contraria a necessidade e o objetivo inicialmente previsto.

Reduzir profissionais e despesa, afinal, parece ser o verdadeiro objetivo e, nesse sentido, foram tomadas ou preparam-se medidas: transferência de toda a administração educativa para institutos públicos, que são entidades de administração indireta do Estado (AGSE, I.P.; EduQa, I.P.; CCDR, I.P.); integração dos ex-delegados regionais da DGEstE nas CCDR, I.P.; fusão de ciclos; transferência de mais financiamento para fundos europeus; aprofundamento da municipalização; aprendizagens essenciais; entre outras.

O que está em curso não serve a Educação, a Escola Pública, as aprendizagens dos alunos e os profissionais do setor. Daí a necessidade de a sociedade, a comunidade educativa e, desde logo, os docentes se mobilizarem, contestando as atuais políticas educativas e exigindo uma Educação pública de qualidade, para todos, inclusiva, devidamente financiada e valorizada em todos os domínios. Pondo isso em causa, o ministro impõe a reforma do Estado na Educação, reforma que visa desconstruir e não melhorar.


May 03, 2026

Lest we should forget that Trump is a Russian asset...

 

Lest we should forget that Trump is a Russian asset, here’s Senator Sheldon Whitehouse to remind us. TokTok - http://vm.tiktok.com/ZNRpR45fb/

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