Segundo um estudo publicado neste jornal, um quarto dos alunos portugueses acabadinhos de concluir o 1.º ano não consegue ler 21 palavras num minuto.Não interessa muito se frequentaram uma escola pública ou se andaram num colégio, mas importa determinantemente o contexto familiar em que as crianças são educadas; as habilitações dos pais são o que fazem mexer a agulha do estudo, pelo que a escola falha no papel de nivelador social.
As causas para o declínio são difíceis de apontar, pois é paradoxal que os investimentos nos sistemas de educação e o desenvolvimento geral das populações não se traduzam numa melhoria consistente da compreensão de textos.
Há várias hipóteses, a mais popular das quais que diz que o smartphone —entretanto, banido das escolas — veio alterar as regras do jogo. As crianças têm acesso a esta tecnologia cada vez mais cedo, o tempo de atenção diminuiu, o algoritmo favorece o scroll e a leitura fica reduzida a um carrossel emocional. Esta é, por exemplo, a teoria de Jonathan Haidt, que correlacionou a explosão dos telemóveis inteligentes e a descida na literacia.
Também se discute, por outro lado, que a mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões. Se isto falha, tudo pode falhar.Pedro Candeias, Público
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Este articulista é um jornalista desportivo, mas para não deixar sozinha a senhora que esta semana veio para o jornal denegrir a professora do filho mais os colegas e seus pais por causa de uma nota do seu filhinho (em meu entender isto de mostrar o poder de ter acesso a um jornal nacional para fritar os professores do filho configura um caso de bullying) resolveu também exercer a arte de falar do que não sabe.
Em primeiro lugar, as habilitações dos pais são o factor determinante no estudo, logo a escola está a falhar como nivelador social? Ele pensa que as habilitações por si só são uma espécie de pó mágico. As habilitações dos pais significam um nível de vida mais folgado, uma maior consciência da importância da educação escolar, um nível de educação para a aprendizagem, prévia à entrada na escola (saber ouvir, saber seguir uma instrução, estar ciente da necessidade do estudo) um nível de vocabulário, de complexidade frásica e argumentativa, significa que levem os filhos a viajar, que podem pô-los numa explicação quando necessário, etc. Pais a lidar com um só filho.
As escolas têm os alunos em turmas de 30. Numa mesma turma há alunos que ainda não sabem ler, alunos que têm mais ou menos, alunos que não sabem estar numa sala de aula, que não sabem esperar a sua vez, enfim, sem educação parental para a sociabilidade, alunos completamente auto-indulgentes e alunos que vêm preparados para a aprendizagem escolar. A relação do professor é com o grupo-turma e não com cada aluno individualmente e, ao contrário do que diz este jornalista desportivo que trabalha num jornal mas não está informado, não tem havido investimentos nos sistemas de educação e no desenvolvimento geral das populações. Pelo contrário, estamos mais pobres e as escolas estão à míngua, não têm equipamentos, os currículos são muito pobres e não há professores - penso que tenha ouvido falar disso... Não é possível "nivelar", nestas condições, alunos completamente díspares quanto ao lugar em que se encontram, social, intelectual e emocionalmente, quando entram numa turma. Era preciso ter professores e técnicos a trabalhar com os alunos mais atrasados. Não há professores... Era preciso que os pais fossem responsabilizados pela educação parental. Era preciso tirar o peso de burocracias inúteis de cima dos professores. Os professores não são o Cristo milagreiro.
Finalmente, quanto a uma,
mudança de paradigma, de um ensino que privilegie a eficácia em detrimento do raciocínio e da crítica, possa prejudicar a capacidade que todos terão, no futuro, de ler um livro do início ao fim e retirar as suas próprias conclusões
Um aluno que está a resolver exercícios de matemática, logo ao nível da escola primária, ao fazer repetidamente o processo de partir o problema nas suas partes e depois operar as partes até resolver o todo, está a interiorizar precocemente o próprio processo de análise de um problema.
"O pensamento crítico é a capacidade de analisar, avaliar e questionar informações de forma objectiva e racional. Envolve cepticismo saudável, lógica e fundamentação para evitar manipulação, sendo crucial para a tomada de decisões" - esta é uma definição da IA, é fácil de encontrar.
"O pensamento crítico é a capacidade de analisar, avaliar e questionar informações de forma objectiva e racional. Envolve cepticismo saudável, lógica e fundamentação para evitar manipulação, sendo crucial para a tomada de decisões" - esta é uma definição da IA, é fácil de encontrar.
Como este senhor devia perceber, nenhum aluno na escola primária ou no 5º ano ou no 7º ou até depois têm essa capacidade analítica (a maioria dos meus alunos no 10º ano não a tem) para a qual se requer, em primeiro lugar, processos de abstração que as crianças ainda não têm.
Para questionar informações é preciso ter conhecimentos. Se não temos conhecimentos o máximo que podemos fazer são perguntas - se sabemos fazer perguntas significantes, o que também requer alguns conhecimentos. Por exemplo, não falar de soluções na educação escolar sem ter conhecimentos sobre o tema de maneira a não opinar sem fundamento e sem tino.
Dito isto, as disciplinas, em todos os anos escolares, têm muitos procedimentos e alguns são repetitivos (o que a memória não retém não fica aprendido), que indirectamente vão treinando os alunos nos processos analíticos, interiorizando o método de abstrair-se das inclinações subjectivas e tratar os problemas com regras, critérios objectivos, com preocupação de rigor, ao mesmo tempo que vão construindo um edifício de conhecimentos (da matéria em questão), sem os quais nenhum pensamento crítico é possível. Os processos repetitivos aparecem sempre como aplicação do que foi compreendido anteriormente, portanto, são aplicação de conhecimentos. Mas até essa compreensão, nos primeiros anos de escolaridade é indirecta porque as crianças estão em níveis do desenvolvimento intelectual que não permite a compreensão de certos conceitos. O treino do pensamento nos procedimentos lógicos e analíticos usando regras objetivas e universais é lento e durante muitos anos é indirecto.
Mesmo um adulto, se quer ser crítico em relação a um assunto, tem que ter conhecimentos. Quando quero perceber assuntos da física fundamental pergunto a um amigo que é especialista nesse campo e, apesar de ser professora e de já ter sido aluna universitária, não assumo que sei o que é a educação universitária e as especificidades do ensino universitário. E quando quero saber pergunto-lhe a ele que é especialista.
Fico sempre espantada quando os responsáveis políticos vêm dizer que a disciplina de cidadania serve para ensinar pensamento crítico porque é uma declaração da ignorância acerca do que significa treinar o pensamento crítico. Não é uma técnica que se ensine.
Tudo na educação leva muito tempo, na ordem de anos, a desenvolver e de início só indirectamente se desenvolve, porque o cérebro das crianças e adolescentes tem de passar certas etapas para conseguir realizar certas operações mentais. E o cérebro não opera no vazio, opera sobre dados, conceitos, informações, conhecimentos.
Na educação tudo é lento e complexo e os títulos dos jornais do género, 'não sei quem tem a receita para uma educação de sucesso' ou 'na escola tal descobriu-se o factor do sucesso' só mostram ignorância crassa e falta de entendimento básico do assunto. Infelizmente, não se coíbem de opinar, mas vemos que as sua opiniões vêm de um lugar vazio.
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