July 22, 2026

Russos percebendo os custos de terem sustentado Putin

 

Russos percebendo os custos do imperialismo

 

No futuro? Qual futuro?

 

A cara dos deputados diz tudo. Esta propaganda não ajuda os russos a preparar-se para a derrota. São precisas mais sanções de curto e longo alcance.

Fumo negro? Putin não foi aprovado

 

🇫🇷 Exemplos a seguir

 


A Rússia não precisa da tua crença — basta a tua raiva

 

Prevenir ou remediar?



A ilusão da eficácia



Luís Fernandes

As democracias tornaram-se extraordinariamente competentes a medir aquilo que fazem. Continuam, porém, surpreendentemente frágeis a medir aquilo que realmente conseguem transformar.

A operação «Global Chain», coordenada pela Europol e que contou com a participação das autoridades portuguesas, ilustra bem esta contradição. As detenções efetuadas, as vítimas identificadas e a dimensão da cooperação internacional demonstram instituições preparadas, profissionais e capazes de responder a uma das formas mais lucrativas e desumanas de criminalidade organizada. Mas demonstram apenas isso.

Uma operação policial mede a capacidade de resposta do Estado. Uma política pública deve medir a capacidade do Estado para reduzir o problema que tornou essa resposta necessária.São planos diferentes. Confundi-los conduz a uma perigosa ilusão de eficácia.

Durante décadas habituámo-nos a avaliar a segurança através do que é facilmente quantificável. Contamos detenções, apreensões, buscas, condenações e operações realizadas. São indicadores indispensáveis para avaliar o desempenho das instituições e prestar contas aos cidadãos.O problema começa quando transformamos esses resultados operacionais na principal medida de sucesso das políticas públicas.

Porque uma investigação criminal bem-sucedida e uma política pública bem-sucedida não respondem à mesma pergunta.A primeira procura identificar vítimas, recolher prova, desmantelar redes criminosas e responsabilizar os seus membros.

A segunda deveria conseguir algo mais ambicioso: reduzir o número de vítimas, diminuir a capacidade de recrutamento das organizações criminosas, aumentar o risco e o custo económico da exploração e tornar progressivamente menos rentável este mercado ilícito. É precisamente aqui que o tráfico de seres humanos nos obriga a abandonar respostas simplistas.

A persistência deste fenómeno não resulta apenas da capacidade de adaptação das organizações criminosas. Resulta também da existência de vulnerabilidades económicas, sociais e institucionais que continuam disponíveis para serem exploradas. Sempre que essas vulnerabilidades permanecem inalteradas, novas redes podem ocupar o espaço deixado pelas anteriores.

Por essa razão, seria um erro interpretar esta operação apenas como uma história de sucesso policial. É, antes de mais, um lembrete de que a investigação criminal, por mais competente que seja, não substitui políticas públicas consistentes nas áreas da proteção das vítimas, da fiscalização laboral, da migração, da recuperação de ativos, da prevenção e da cooperação internacional.

Portugal participou nesta operação e tem boas razões para reconhecer o trabalho desenvolvido pelas suas autoridades. Mas o verdadeiro teste começa precisamente quando termina a conferência de imprensa.

Dentro de cinco ou dez anos, estaremos a celebrar operações cada vez maiores porque nos tornámos mais eficazes a responder? Ou estaremos a celebrar operações menos frequentes porque conseguimos reduzir as condições que alimentam este mercado criminoso?

A resposta a essas perguntas dir-nos-á muito mais sobre a qualidade das nossas políticas públicas do que qualquer balanço operacional. As operações demonstram a capacidade de resposta do Estado. As políticas públicas demonstram a sua capacidade de transformar a realidade.

Confundir uma com a outra é talvez a forma mais subtil de acreditar que responder bem significa, necessariamente, resolver o problema.

O preço dos combustíveis




O preço dos combustíveis: o cartel que não existe

Mais de 50 anos depois do fim do Estado Novo, seria desejável que os poderes executivo e legislativo compreendessem que a cultura corporativa de então não desapareceu com o regime que a instituiu.

José Caramelo Gomes

No início deste mês, a ministra do Ambiente e Energia pediu à Entidade Nacional para o Setor Energético (​ENSE) que explicasse por que razão os preços nas bombas não descem ao ritmo a que sobem. A ERSE respondeu que não há "qualquer irregularidade aparente no comportamento do mercado". Ambas têm razão – e é isso que devia indignar-nos: não há irregularidade porque a regra valida a prática. O preço dos combustíveis: o cartel que não existe
Sublinhe-se o essencial: nada do que se segue imputa a qualquer empresa um ilícito. O problema é o inverso – tudo isto é legal.
Vejamos, peça a peça.

Primeira peça: o preço virtual. Portugal tem uma única refinaria, em Sines. Como os estudos setoriais da Autoridade da Concorrência descrevem, o preço grossista forma-se pela "paridade de importação": a cotação internacional dos refinados mais os custos que um importador hipotético suportaria – custos que a produção doméstica não incorre nessa medida. Em teoria económica, a paridade de importação é o teto que a concorrência potencial impõe. Entre nós, funciona como referência permanente: pratica-se, por regra, o máximo que a ameaça de entrada tolera.

Segunda peça: a ameaça de entrada é frágil. Poderia um concorrente importar e vender mais barato? Segundo o regulador da energia, quatro operadores – os mesmos que lideram o retalho – controlam perto de 90% da armazenagem do país; o parque de Aveiras e o oleoduto que o abastece pertencem a uma empresa participada maioritariamente pela Galp. A Autoridade da Concorrência assinalou que faltam cerca de oito quilómetros de oleoduto entre o porto de Sines e a rede logística nacional, condicionando o acesso independente a importações; e a ERSE constatou que as taxas de remuneração destas infraestruturas são muito superiores às da eletricidade e do gás. O acesso de terceiros existe no papel; a contestação efetiva do mercado, não.

Terceira peça: o relógio comum. Semana após semana, por regra à segunda-feira, os preços movem-se em bloco, com base na média das cotações da semana anterior. Não é acordo – nem precisa de ser: quando todos usam a mesma referência e o mesmo calendário, e todos veem os preços de todos através do sistema público de comunicação obrigatória, o alinhamento é o comportamento individualmente racional de cada operador. Um sistema desenhado para proteger o consumidor acaba, sem culpa de ninguém, por facilitar a monitorização recíproca entre concorrentes.

Quinta peça: o sócio silencioso. Cerca de metade do que pagamos na bomba são impostos – mais de metade, na gasolina –, incluindo IVA cobrado sobre o próprio ISP, imposto sobre imposto. O poder de intervir nas margens, criado em 2023, nunca foi usado. O maior beneficiário do preço alto não é nenhuma petrolífera: é o Orçamento do Estado.

Sexta peça: a porta giratória. Segundo uma investigação do Diário de Notíciasde janeiro de 2011, a Galp já contara então com 13 ex-ministros e ex-secretários de Estado nos seus órgãos sociais, de governos de ambos os quadrantes. Nada disto é ilegal, nem se imputa a qualquer visado conduta imprópria. Mas um sistema em que quem tutela hoje pode ser administrado amanhã cria um problema objetivo de incentivos – bem descrito na literatura sobre captura regulatória – que pode ajudar a explicar por que aquele poder de intervir dorme na gaveta.

E porque persiste isto, independentemente de quem detenha os ativos? Porque as regras o permitem – de um modo que o Estado já corrigiu alhures. Na eletricidade e no gás, a lei impõe a separação de propriedade entre quem transporta e armazena a energia e quem a produz ou vende, para que o dono da infraestrutura não tenha incentivo a bloquear concorrentes. Nos combustíveis líquidos, essa separação nunca foi imposta. Não é preciso má-fé: qualquer empresa nessa posição – seja qual for o seu nome – tem o mesmo incentivo estrutural a não completar a ligação que tornaria o mercado contestável. O problema não está em quem hoje a ocupa; está em as regras nunca terem exigido um operador independente.

Eis o retrato: um preço ancorado num custo virtual; uma entrada bloqueada por oito quilómetros de oleoduto por construir; um alinhamento semanal facilitado pela transparência estatal; um regulador que mede a prática contra a própria prática; um Estado fiscalmente interessado; uma porta giratória documentada. Tudo legal. Tudo "sem irregularidade aparente".

As soluções foram testadas no setor elétrico: separação estrutural da logística; conclusão da ligação do porto de Sines à rede; regras assimétricas de variação de preços, como na Áustria; supervisão assente em custos auditados. Nada disto exige tabelar preços nem culpar empresas por seguirem as regras. Exige mudar as regras – e vontade política.

O cartel não existe. Os seus resultados dispensam-no.

Mais de 50 anos depois do fim do Estado Novo, seria desejável que os poderes executivo e legislativo compreendessem, finalmente, que a cultura corporativa de então – mercados desenhados à volta de posições adquiridas, e não da disputa por elas – não desapareceu com o regime que a instituiu; sobreviveu-lhe, dispersa por setores regulados como este. Substituí-la por uma cultura efetiva de concorrência é, muito provavelmente, uma das chaves do cronicamente reduzido desempenho da economia nacional. Um país que protege posições em vez de as testar pela concorrência paga esse preço todos os dias – não apenas na bomba de gasolina.
Público

Os jornais gostam muito de fazer eco de parvoíces



Então há uma crise grande no governo e o PM ia para a praia beber minis? Os jornais gostam muito de fazer eco de parvoíces.


Oposição vê Montenegro sem férias de verão como um sinal de fraqueza

Primeiro-ministro vai prescindir de dias de descanso para garantir coordenação do Governo. Líderes partidários não seguem o seu exemplo e consideram que está a dar razão às críticas que lhe fizeram. DN

 

Uma enorme falha da UE protelar a entrada da Ucrânia

 


A Europa dos 27, não está em perigo de invasão ou guerra. [isto não é bem verdade] Todos estes países estão protegidos por acordos de defesa e protegidos pela NATO, mas outros países da Europa, nomeadamente a Ucrânia, que está em guerra e dependente da boa vontade das Comunidades Internacionais, nomeadamente dos EUA e na ajuda no ponto de vista estratégico. E continua a ser uma enorme falha da UE estar a protelar a entrada de pleno direito da Ucrânia neste organismo.

A Ucrânia estando em guerra e com ajuda da Comunidade Internacional vai tornar-se no maior e mais sofisticado exército da Europa; sem essa entrada, um dia pode não ser nosso aliado.

Ester Amorim, SOL

 

1º, cortar a eito; 2º, logo se vê



Este artigo diz coisas certeiras e óbvias. Outras coisas óbvias: talvez se não tivessem posto o ensino escolar e o ensino universitário mais a ciência, a tecnologia e a inovação tudo na mesma pessoa as coisas tivessem corrido melhor. Talvez seja areia demais para uma só camioneta. Pelo que sabemos houve prejuízo na ciência fundamental. Finalmente, talvez um economista não seja o melhor perfil para um ministério de educação. Tem escrito no seu perfil público, Os seus interesses de investigação incluem a macroeconomia, os mercados financeiros e o desenvolvimento da economia portuguesa. A sua dissertação de doutoramento é a dissertação sobre política monetária e mercados financeiros. Se calhar devia estar no ministério da economia. Segundo o princípio da identidade, A é A = Um economista é um economista: 1º, cortar a eito; 2º logo se vê.


Não há relatório?! Como não há relatório?!
Isabel Mendes Lopes
DN
Ontem ficámos a saber que o ministério não tem um relatório sobre como correu o teste-piloto do exame de Filosofia do ano passado… Como assim? O objetivo de um projeto-piloto é EXATAMENTE ter um relatório sobre o que correu bem, o que correu mal, aspetos a melhorar, riscos a ter em conta, aprendizagens, etc, etc. É para isso que os projetos-pilotos servem: para testar e avançar com mais confiança para o processo definitivo.

Como é que alguém decide avançar para todo um novo processo de classificação dos Exames Nacionais sem analisar ao pormenor o projeto-piloto de há um ano? Estamos a falar de quase 170.000 alunos e o sistema não pode falhar a nenhum deles. Quem planeia uma transição para a correção digital dos exames tem de ser absolutamente rigoroso – e até obsessivo – a garantir que o sistema é fiável e confiável. Mas não foi isso que aconteceu.

Pelos vistos, no que já tem sido hábito deste Governo em várias áreas, decidiu-se avançar sem uma análise de risco cuidada, sem um plano de contingência para o caso das coisas correrem mal, sem ter noção de todas as consequências de cada passo e sem a prudência de continuar a fazer o processo de digitalização de forma faseada e controlada.
(...)
(excerto)

July 21, 2026

Detesto ter razão em certas coisas

 

Escrevi isto a 19 de Julho:

Passe a 2ª fase para Setembro. Dá tempo aos alunos de descansar e poder estudar para a 2ª fase. Dá tempo às escolas para fazer o seu trabalho de matrículas, turmas e horários, talvez dê tempo para perceber e resolver algumas das questões que mais emperraram o processo nesta fase e não se põe a jeito de ser considerado a Inês de Medeiros do ME. Vale a pena correr o risco de transformar o alarme em derrocada sem volta atrás?

Acabei mesmo agora de ouvir dizer que vai haver uma época em Setembro para todos os alunos que foram à 2ª fase, ou seja, a 2ª fase vai passar para Setembro... Então porque é que não fizeram logo isso? Para quê estes dias de exames agora com a consequência de atraso no trabalho nas escolas? Para quê?

Porque não há bom senso?


Boas notícias

 

A crise na Ucrânia passou.


Russos percebendo os custos do imperialismo

 

Os que escolhem uma vida de apaziguar tiranos a certa altura põem as mãos à cabeça e choram.

A Rússia anda a ajudar os iranianos a matar americanos



WarMonitor🇺🇦🇬🇧

Ukraine is starting to get huge support on the American right wing after continued reports of Russian help to Iran in targeting of American servicemen in the Middle East.

A ONU de Guterres tem um cheiro nauseabundo de putrefacção


Quais são as opções do Kremlin?

 


1- Esperar que a Ucrânia se divida em lutas pelo poder. A força da Ucrânia tem sido a tenacidade e a consistência da sua determinação unida que muito devem ao seu presidente.
2- Esperar que os aliados não fechem o céu da Ucrânia e continuem sem lhe providenciar armas de defesa necessárias contra os bombardeamentos.
3- Esperar que haja sempre um país -como agora a Grécia- capaz de trair a Ucrânia e a Europa, para ganhar dinheiro.
4- Esperar que Trump não quebre a relação de fascínio que tem com Putin.
5- Esperar que Xi não os abandone.

Resultado: as opções de Putin já não são de agência mas de espera passiva que algumas coisas se conjuguem a seu favor ou, pelo menos, não em seu desfavor.
Derivação: as opções de agência estão do lado dos aliados.
Pergunta: se os aliados têm a opção de agir, porque não agem? Não querem acabar com a guerra? Têm medo do pós-guerra? Alguma coisa pode ser pior que esta situação?


Assuntos sérios: à atenção das editoras

 

Quando os livros são volumosos, encaderná-los com capa dura não ajuda à leitura. Não é possível pegar neles com uma só mão, lê-los deitada, não têm flexibilidade nenhuma. Há pouco tempo, como andei a ler a Odisseia na versão portuguesa da Quetzal, em capa dura e na versão inglesa da Norton, em capa mole, maleável, essa diferença ainda se tornou mais penosa. Por cada canto que lia em português ia ler um em inglês só para conseguir ter o livro na mão e ler sem estar sempre consciente do peso do livro.


Este tipo é parvo




Sebastião Bugalho: “Exames nacionais? Não vou dizer que houve sabotagem, mas…
jornaleconomico
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A incapacidade de lidar com a realidade é de tal ordem que já se inventam teorias da conspiração. Tudo pode ter acontecido menos a realidade?

O mito de Er, a linguagem matemática e a vida boa

 

O mito de ER faz parte do último livro, o X da República, uma obra que Platão escreveu a meio da vida e que trata da organização da sociedade, da justiça, da interligação entre a ética individual e social/política, da educação e da vida boa. 

A República tem três grandes mitos: a Alegoria da Caverna sobre a educação e o caminho para a verdade e para a sabedoria; o mito do anel de Giges, que é acerca da acção moral: um pastor encontra um anel mágico que o torna invisível. Vai usá-lo para fazer crimes que não faria se fosse visto? E o mito de Er.

O mito de Er vem mesmo no fim do livro X e é sobre como conseguir viver uma vida boa e depois ser recompensado por ela, na morte. Nesta altura os gregos acreditam na imortalidade da alma. Quando se morre, a alma imortal separa-se do corpo onde se encontrava encerrada. O corpo corrompe-se porque é matéria mas a alma sobrevive e vai para o além para ser julgada e, em geral, volta para entrar em outro corpo, que pode ser de pessoa ou de animal.

O mito de Er é antecedido por uma crítica a certo tipo de poesia e de arte como sendo prejudiciais à educação e à sociedade - não, Platão não é contra a poesia e a arte, mas reconhece-lhes um poder de sedução emocional, de influência no extremar de sentimentos, em exacerbar as emoções e abafar a razão. Ora, se queremos educar para a verdade e se queremos ter uma sociedade de seres humanos justos temos de ser guiados pela razão e não pelas emoções.

Como ele diz, ou melhor, põe Sócrates a dizer a Gláucon, quando um pintor ou um poeta ou o nosso olho canta/pinta/vê uma mesa, vê-a de certa perspectiva particular que a faz parecer maior ou mais pequena ou de uma forma que não corresponde à sua realidade mas que nos afecta através da emoção, da sensação. O que não faz mal em si mesmo se tivermos consciência de que os sentimentos não são bons guias para o conhecimento da realidade e desde que não tomemos essa aparência particular como realidade. Para saber a realidade, neste caso da mesa, temos de usar a razão, a matemática: a medida, o peso, a geometria, etc. 

Lá está a linguagem da matemática a não se traduzir na linguagem natural mas a ordenar o ruído em estrutura estável. Platão é um grande defensor da matemática como meio de desenvolver a razão e treinar os raciocínios.

Enfim, no mito de Er fica clara a importância de saber ajuizar independentemente das emoções e sentimentos, para saber escolher uma vida boa.

Então o que diz o mito?

Er o Arménio é um soldado que morre no campo de batalha e quando vêm buscar os cadáveres ao campo, todos estão já em putrefacção menos Er. Levam-no para casa e ao fim de doze dias põem-no na pira e ele acorda e conta o que viu naqueles dias enquanto esteve morto no além divino.

Todos os que chegam ao além são julgados pela vida que levaram e os justos são enviados para o céu e os injustos para o submundo, o Hades. Uns e outros ficam no seu sítio mil anos e depois regressam para reencarnar. A cada um são dados os bens ou os males que fizeram em vida, multiplicados por dez, consoante foram para o céu ou para o Hades, como recompensa ou castigo, respectivamente. 

Os especialmente maus como os tiranos ou os que cometeram assassínios horríveis e imperdoáveis são atirados para o Tártaro, um abismo escuro que fica muito abaixo e separado do Hades e ficam lá para sempre nesse mundo habitado por monstros, iníquos e deuses e homens caídos em desgraça e castigados. 

O além divino e o Hades são um limbo e o que interessa no mito é o que se passa a seguir quando escolhem uma vida para reencarnar. Ao fim de mil anos, os justos e os injustos são postos diante de um grande número de estilos de vidas para escolherem em qual querem reencarnar. Vão escolhendo à vez, por ordem, mas há sempre um número de vidas grande para escolher, mesmo que se seja o último da fila.

Destas vidas à escolha, só se sabe as circunstâncias, não o conteúdo: sabe se é humano ou animal, rico, alto, baixo, ilustre ou desconhecido, belo ou normal, soldado, actor, se vai perder os filhos, se vai ser um tirano, etc. Portanto, as vidas têm algumas consequências que lhes são inerentes.

Uma das Parcas, as filhas da Necessidade, diz-lhes que nenhuma vida tem senhor (cada um é o senhor de si), cada um é que escolhe a que quer e que a virtude não é dada (não está pré-determinada) nem é responsabilidade dos deuses. Cada um será virtuoso ou iníquo consoante o que fizerem com a vida que escolheram. "O deus é isento de culpa", diz. Portanto, o tipo de carácter que a pessoa terá e o que fará com ele é da sua responsabilidade. É ele que preenche a sua própria vida. 

"Mesmo para quem escolher em último lugar, se escolher com inteligência, poderá ter uma vida digna e apetecível", diz a Parca. Porém a vida, uma vez escolhida, é fiada no fuso da deusa da Necessidade e não tem caminho de volta. 

Por conseguinte, sabendo que, se escolherem uma vida com condições mais propícias à impiedade e ao vício poderão após a morte dessa vida ir parar mil anos ao Hades a sofrer dez vezes o que fizeram ou até ao Tártaro do qual não se regressa, saber escolher a vida cujas circunstâncias são propícias a uma vida boa, honesta e justa e poder, vida após vida, e ter mil anos de recompensa no além divino, é o ponto principal do mito. 

Como ter essa sabedoria? Se todos na República soubessem escolher uma vida boa e justa, a República reflectiria essa escolha, como um todo. Daí também a importância da educação, da República educar para a verdade e para a sabedoria e não para a aparência e desregulação das emoções e sentimentos que levam à injustiça e ao vício.

O que nos é dito no mito é que a maioria das pessoas faz más escolhas e escolhe reactivamente, como reacção à sua vida anterior. Muitos dos heróis de Homero estão ali e Er conta como escolheram reactivamente. Orfeu escolhe ser um cisne porque, devido ao seu ódio às mulheres, não queria nascer de uma; Ajax, farto das lutas com homens, escolheu ser um leão; Agamemnon, cheio de ódio à raça humana por causa dos seus padecimentos, escolhe ser uma águia. 

Logo o primeiro a escolher, cheio de cobiça, escolhe a vida de um tirano, porque só vê o poder e a riqueza, sem reparar que nas consequências dessa vida, havia a circunstância de acabar a comer os seus próprios filhos e sofrer muitos males. Quando vê, já depois da escolha feita, põe as mãos à cabeça e chora a desgraça da sua má sorte. Ora, este vinha de uma vida anterior de tirano e tinha ido parar ao céu em vez de ser atirado ao Tártaro. Como é isto possível? Bem, ele tinha tido a sorte de tudo lhe ter corrido bem na vida e, dessa maneira, ter praticado a virtude, não pela convicção da sabedoria, mas pelo hábito e pela limitação de não ter conhecido a injustiça. Não teve circunstâncias em que teve de escolher fazer o mal para conseguir o que sempre tinha tido e desconhecia essas circunstâncias. Lembra a história do anel de Giges. Aquelas pessoas que tendo nascido muito ricas e com muito poder, são generosas e virtuosas, se fossem privadas dessas circunstâncias, o que mostraria o seu carácter? E aquelas que não fazem o mal porque não têm poder? Se o tivessem tornavam-se tiranas?

Portanto, Platão avisa-nos que não devemos confundir impotência ou sorte, com virtude. Por exemplo, sei de muitos estudantes, bons alunos, que vêm de uma cidade relativamente pequena, onde são cuidados e guardados por uma família coesa, que ao entrar na universidade, e isto é mais válido se forem para longe e deixarem de viver com as famílias, se perdem logo no primeiro semestre: festas, bebida, drogas, noitadas. As suas virtudes eram mais devidas ao hábito e à falta de oportunidade que a alguma sabedoria da virtude.

Er vai contando as escolhas, umas surpreendentes, outras ridículas, outras dignas de piedade. Er conta que a maioria das pessoas, sobretudo aquelas que foram para o além divino por mil anos, escolhe sem pensar, com excesso de optimismo, apenas pelo brilho das vidas, atraídos por riqueza, fama e outros factores de facilidade aparentes, sem pensar nas consequências dessas vidas serem propícias ao vício, à injustiça e ao sofrimento. Não têm memória de sofrimento ou de consequências inesperadas negativas porque estiveram por mil anos num Estado bem ordenado onde tudo era bom. Faz lembrar aquelas pessoas que tendo nascido e vivido em Estados democráticos pacíficos onde sempre tiveram acesso a todos os direitos entenderem que todos os outros são igualmente democratas, virtuosos e pacíficos, só por serem também seres humanos.

Já as que estiveram no Hades e muito penaram durante mil anos pela escolha da vida anterior, têm mais cuidado a escolher porque sabem como tudo pode correr mal e o sofrimento que daí advém, mas também escolhem mais a evitar males do que que a perceber as circunstâncias favoráveis a uma boa vida.

O último a escolher é Odisseu (Ulisses). Ainda tem algumas vidas para escolher, mas já não muitas - a questão é que, mesmo com poucas escolhas, ele tira o melhor partido delas. Ulisses, lembrando-se da sua vida anterior, de tantos trabalhos, "procurou demoradamente uma vida tranquila, sem ambição e encontrou-a a um canto, desprezada pelos outros". Diz que, mesmo que tivesse sido o primeiro a escolher, aquela era a vida que escolheria.

Ulisses escolhe, não a vida perfeita, essa não existe porque todas vêm com consequências, mas a melhor possível para a vida numa República imperfeita: uma vida moderada, sem extremos que são circunstâncias que costumam conduzir a uma vida de sofrimento e impiedade.

Ulisses escolheu com sabedoria? Platão não nos diz isso e Ulisses não é conhecido por ser sábio, mas esperto e engenhoso. Platão diz-nos que ele escolheu, lembrando-se dos tormentos que passou na vida anterior. Portanto, também ele escolhe reactivamente. Qual é a diferença entre ele e os outros? Bem, Ulisses viveu muitas vidas na sua vida anterior. Teve tantas aventuras, viu tantas vidas, de deuses e homens poderosos e mendigos e animais que sabe os perigos e os vícios de cada uma delas e daí que seja mais cuidadoso na escolha.

Platão diz-nos que depois de todos terem escolhido as suas vidas, foram até ao rio Lete beber da sua água. Lete é o rio do esquecimento. Alguns imprudentemente, beberam tanta água que esquecem tudo o que tinham aprendido. Desperdiçaram a experiência de vida, não aprenderam nada. Não sujeitaram a sua experiência a uma auditoria, digamos assim, para lhe perceber os erros e evitá-los. Quer dizer que do rio do esquecimento deve beber-se com moderação. Nem beber tão pouco que se fique preso ao passado sempre a agir reactivamente, nem beber tanto que se desperdice os ensinamentos da experiência do passado.

Então, talvez Platão nos queira dizer que a prática da virtude depende das escolhas de vida que fizermos, da moderação, que é mais conducente à justiça e à virtude que o excesso, que as nossas escolhas individuais têm impacto na República, que devemos guiarmos-nos pela razão e não por emocionalismos extremos e que retirar conhecimentos e ensinamentos da experiência de vida, juntamente com uma educação para a verdade e para a prática da sabedoria nos beneficia, vida após vida, com milhares de anos de recompensa no além divino, junto dos justos. Esta parte das recompensas no além passa-me ao lado, mas tudo o resto faz muito sentido quando se considera a questão de construir uma vida boa - com alguns senões que Platão não considera, mas isso não é para agora.